A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira
Apresentação
A versão original do livro foi resultado de uma reflexão marcada
pela conjuntura política de fins da década de 80 e início da de 90. A
rapidez das mudanças globais após a primeira metade da década
de 90, porém, requer uma contextualização que permita retomar as
questões e desafios que a reformulação da política de saúde trouxe
ao cenário da democracia brasileira. Os dez anos que nos
encaminharam ao ‘pulo’ do próximo século falam de um mundo em
acelerada e vertiginosa transformação em todos os campos da
realidade e do que fazer humano; esse clima e essa sensação do
fugaz marcam a apresentação da reedição de A Democracia
Inconclusa.
No novo milênio, a democracia está fortemente ameaçada. Nos
países de industrialização avançada, o Welfare State vem
atravessando uma longa crise que já leva quase 20 anos,
alimentada, na década de 90, pelo processo de globalização da
economia: predominância do mercado face ao Estado, profundas
mudanças no mundo do trabalho e fortes tendências à concentração
econômica movida pelo capital financeiro, que se tornou o eixo do
processo de acumulação capitalista (Gerschman & Vianna, 1997).
As políticas sociais dos Estados democráticos, após a Segunda
Guerra, passaram a ser centrais na atividade política e econômica
desses países. A busca de um maior bem-estar e igualdade
constituiu-se em mecanismo central de uma política econômica que
sofreu, nos anos 90, um forte retrocesso. As democracias
avançadas passaram a sacrificar a política econômica que marcou o
Estado keynesiano, restringindo e monetarizando benefícios que
sob o Welfare State eram usufruídos claramente como uma
condição do exercício do direito de cidadania. Cabe ressaltar que
uma parte importante da bibliografia que nos últimos anos vem
discutindo o caráter da crise (Vianna, 1998; King, 1988; Pierson,
1994) destaca que, embora as bases sobre as quais se estabeleceu
o Welfare – uma forte classe operária organizada e demandante –
tenham sido afetadas com o desemprego e a flexibilização dos contratos de trabalho, esse enfraquecimento não foi suficiente para
permitir o desmonte dos Welfare States europeus.
Assim, acredita-se que seja mais adequado se referir à crise
como processo de profundas mudanças nos Estados de bem-estar
europeus através da readequação dos gastos do Estado e de um
maior controle sobre benefícios. Esse processo afetou, com mais
intensidade, os importantes contingentes de imigrantes dos países
pobres que chegaram sem nenhum tipo de proteção social, sem
condições de serem absorvidos por um mercado de trabalho em
franco retrocesso nos países ricos, e, portanto, não incorporados ao
sistema de seguridade social. Mudou, assim, a geografia humana
desses países, tornando as desigualdades sociais um problema que
se acreditava erradicado sob o predomínio do Estado keynesiano,
que aproxima de maneira tortuosa os países ricos dos pobres.
Com o Estado neoliberal, a democracia se tornou tão errática
quanto as restantes produções da era da globalização: as guerras, a
perda dos valores relacionados à existência humana, a degradação
ética, a devastação da natureza no planeta, a falta de comunicação
humana globalizada. No que se refere à democracia, a volatilidade
diz respeito a alguma condição ou conjunto de condições que, de
uma parte, fogem das mãos dos governantes, na medida em que as
políticas econômicas são as mesmas para todos os países e, de
outra, da própria sociedade, já que a capacidade que esta tem de
influenciar os governos eleitos é quase nula (Maier, 1994). Assim,
cada vez mais a democracia é esvaziada de representatividade,
dado o abismo existente entre cidadãos e governo, sendo a
resposta da sociedade o desinteresse e a perda de confiança na
democracia, nos partidos e, mais do que tudo, nos políticos.
Na América Latina e no Brasil, que atravessaram longos períodos
autoritários, o desempenho das democracias, na década de 90, tem
deixado um forte ranço de ineficiência e corrupção no exercício dos
cargos públicos e também profundas desigualdades sociais
relacionadas aos cortes importantes em políticas sociais. Os
comportamentos políticos já mencionados marcaram também as
‘novas democracias’, contribuindo para um sintomático crescimento
dos votos nulos e em branco e, conseqüentemente, para um notável
esvaziamento eleitoral.
Nesses países hoje chamados pobres, ou se poderia dizer,
submersos em processos de busca ‘permanente’ de um
desenvolvimento industrial que não chega de maneira plena, a
década de 80 representou, em particular para o Brasil, uma época
de esperanças. A transição à democracia foi depositária de novas
perspectivas de crescimento econômico com justiça social que
acompanhariam a cena política democrática aproximando,
finalmente, a América Latina das social-democracias européias.
Foi o que ocorreu em relação à política de saúde, em especial,
por ter sido a Reforma Sanitária fundada no direito universal à
saúde e incorporada à Constituição de 1988. Mesmo com o
retrocesso sofrido pelas políticas sociais, essa particular política
social permaneceu na agenda dos governos. O processo foi
extensamente analisado em A Democracia Inconclusa, através do
estudo da transição à democracia no Brasil, das bases sociais de
apoio à Reforma Sanitária, das mudanças organizacionais que se
operaram nas instituições estatais de saúde e do processo de
descentralização, eixo central na implementação das mudanças
políticas do setor.
Assim, os projetos de políticas sociais montados no final dos anos
80, especialmente no setor da saúde, apoiados na noção de direito
universal, tiveram na década de 90 um cenário de implementação
profundamente adverso. A democracia durante esse período sofreu
importantes abalos, também tratados no livro. No que se refere ao
primeiro governo eleito democraticamente, observou-se que o
andamento na implementação da política de saúde atravessou
dilações, empecilhos e alterações dos princípios constitucionais
relativos ao setor.
No início do novo século, com a continuidade das políticas
neoliberais, constatam-se resultados funestos em termos de
aumento da pobreza, da violência urbana, da criminalidade ligada
ao tráfico de drogas, da extensão da repressão às populações
periféricas das cidades e da população presidiária, paralelamente ao
crescimento da corrupção nas forças policiais e nas altas esferas do
governo. A saúde da população viu-se afetada negativamente, mais
fortemente nos estratos de baixa renda, reaparecendo doenças tais
como o dengue, tratada aqui como uma epidemia que assolou o estado do Rio de Janeiro em 1992 e que ressurgiu em 2002,
portanto dez anos depois, na sua forma mais virulenta, a
hemorrágica.
Ainda que com esses traços catastróficos que impregnaram a
democracia como sistema político e as políticas sociais como
alternativa fundante de uma sociedade mais eqüitativa, interessa
localizar como tem evoluído, especificamente, a política de saúde,
de maneira a desenhar a presença ou não de continuidade entre
ambas conjunturas, a que se estende do final dos anos 80 até
metade dos 90, analisada em profundidade no livro, e a que se
estende do final dos 90 à entrada no novo século.
Gostaríamos de ressaltar duas questões em relação ao período
atual. De uma parte, aspectos que falam de uma continuidade em
relação ao período anterior no que se relaciona à definição da
política de saúde. Trata-se, basicamente, do processo de
descentralização e do forte teor político regulatório do Estado em
sua implementação. A outra questão diz respeito à permanência no
cenário político de atores sociais constituintes e constitutivos da
política de saúde na conjuntura tratada no livro.
Os municípios têm registrado, nos últimos anos da década
passada e nos primeiros do novo século, uma alta adesão à
municipalização da política de saúde. Tal fato pode ser constatado a
partir do alto número de municípios no País que têm se candidatado
a se habilitar aos modelos de gestão plena de atenção básica e de
sistemas de saúde e, recentemente, à Norma Operacional de
Assistência à Saúde. Esta última enquadra os municípios em um
processo de integração via territorialização dos mesmos na
assistência à saúde.
Mas essa adesão é marcada por um processo burocrático no qual
o município se candidata à habilitação sem por vezes efetivamente
estar implementando os requisitos exigidos para declará-lo
habilitado no modelo de gestão em questão. Além disso, a
habilitação, de fato, significa o acesso a um financiamento federal
que não seria obtido sem a declaração municipal do cumprimento
de tais requisitos. Ou seja, a adesão está relacionada à captura
municipal de recursos federais.
Ainda que durante os últimos anos não tenha havido
reformulações significativas do SUS, as Normas Operacionais
Básicas, instrumentos de regulação política do setor, ao mesmo
tempo que favoreceram a descentralização do sistema de saúde
trouxeram algumas alterações relacionadas ao modelo de
assistência à saúde. A mudança mais importante incorporada ao
sistema foi a definição de programas de atenção básica como uma
maneira de cobrir assistencialmente os setores da população mais
desassistidos, ou de baixo acesso, que correspondem a altos níveis
de pobreza e/ou border line da pobreza absoluta. Referimo-nos
especialmente ao Programa de Saúde da Família, que passou a ser
o ‘carro chefe’ do Sistema Único de Saúde, com todas as
dificuldades que se observam na promoção de uma medicina
integrada nos níveis diferenciados de complexidade.
De fato, isso gerou uma extensa polêmica no setor, relacionada à
efetivação de políticas focalizadas e serviços simplificados para a
atenção de grupos populacionais extremamente pobres, e a
conseqüente exclusão das classes médias do sistema. Tais
mudanças levariam à perda do caráter universal do sistema de
saúde, ao desinvestimento em recursos humanos, instalações,
equipamentos e preservação do parque hospitalar do País paralelo
ao crescimento do seguro privado entre as classes médias.
Alternativamente, há quem pense que se trataria de políticas
complementares, que, ao contrário de promover a quebra da
cobertura universal à saúde, possibilitariam a complementaridade da
atenção, sem diminuir a qualidade, basicamente por adaptar a
assistência sanitária ao risco de extensão de doenças para
populações extremamente pobres. Dessa maneira, o conflito
universalização/ focalização permanece sem elucidação até os dias
de hoje e continua a ser um divisor de águas nas instâncias
governamentais do sistema e nas organizações da sociedade que
têm participação na deliberação da política de saúde.
Quanto à participação dos atores sociais, podemos dizer que os
Conselhos de Saúde, em que, como foi observado na primeira
edição do livro, têm importante assento, por definição constitucional,
as organizações/agrupamentos da sociedade, já nasceram carentes
para o exercício da função de representação, tão carentes quanto as camadas sociais que lhes dão voz e voto. Dados de pesquisa
recente 1 evidenciam que os Conselhos de Saúde locais são como
que convidados ‘inconvenientes’ ao exercício do processo decisório.
Sua base de representação é frágil e a formação dos conselheiros é
insuficiente para a tomada de decisões em assuntos de caráter
técnico. Cabe lembrar que os Conselhos, originariamente
compostos por organismos comunitários, hoje são mais um espaço
de representação corporativa, em que organismos de representação
de usuários portadores de doenças – deficientes físicos, portadores
de HIV, renais crônicos etc. – atuam junto a representantes dos
profissionais de saúde, do setor filantrópico e dos órgãos
governamentais.
Isso facilita que nas reuniões dos Conselhos se discutam
prioritariamente as questões colocadas pelos representantes das
Secretarias Municipais de Saúde, que, por sua vez, apresentam
pacotes previamente definidos pelas instâncias intergestoras
tripartite e bipartite 2 – e pelo Ministério de Saúde de forma direta.
Uma vez formulados e discutidos, esses programas passam pelo
Conselho Municipal de Saúde, onde os representantes disputam
benefícios específicos, operando-se assim a primeira adaptação dos
programas de atenção básica ao contexto municipal.
Cabe acrescentar que, nessa modalidade, os Conselhos têm um
papel contraditório: juridicamente são órgãos deliberativos, mas, de
fato, dão andamento a políticas adotadas alhures, nos âmbitos
específicos das três instâncias governamentais – federal, estadual e
municipal – processadas nas Comissões Intergestoras. Esse
procedimento atualiza de maneira permanente o conflito latente dos
pesos desiguais entre burocracias políticas, profissionais de saúde e
organismos de representação da sociedade e usuários.
Na atual conjuntura histórica de ajuste permanente e no contexto
latino-americano de restrições à soberania nacional – ocasionadas
por governos que chegam ao poder via partidos social-democratas,
mas que implementam as políticas da ‘nova direita’ que Maier
(1994) denominou de retro-right – a representação política se
esvazia e os direitos sociais universais se tornam um bem social
difuso, ainda que sancionados constitucionalmente como no Brasil.
Na falta de uma experiência histórica sustentada na mobilização e
organização sociopolítica da sociedade, os conselhos locais de
saúde, ainda que possuam uma existência legítima, carecem dos
instrumentos políticos e técnicos capazes de transformar a lei em
princípios executáveis para a viabilização de demandas sociais.
Assim, no embate das forças políticas e/ou grupos de interesse, é
grande o predomínio das burocracias técnico-políticas no processo
decisório.
O processo de descentralização, no fim da década passada e
início deste novo século, revela a abrangência de situações e
processos relacionados a inovações na gestão da saúde municipal.
Os resultados são extremamente contraditórios. Em alguns
municípios, o tipo de inovação gerencial incorporada representa um
claro avanço no processo de descentralização e implementação do
SUS, através de iniciativas da própria gestão municipal, que vão
além das diretrizes federais/estaduais, injetando recursos
orçamentários próprios na implementação da política de saúde. Em
outros, observa-se a implantação de programas e experiências
formuladas exclusivamente no nível federal/estadual – que são
incorporadas pela gestão municipal como uma maneira de receber
recursos externos (principalmente do nível federal) – ou
modalidades de gestão de recursos humanos, como no caso das
cooperativas médicas que, de fato, inovam nas relações de trabalho
mas descomprometem o governo municipal da responsabilidade,
historicamente legitimada pelo Estado, pela existência de relações
trabalhistas sustentadas na estabilidade contratual e em encargos
sociais – aposentadoria, férias, décimo terceiro salário etc. –, a
cargo do empregador.
Para os profissionais de saúde, em sua maioria médicos, o
comprometimento com o SUS e o processo de descentralização é
atrelado a condições de trabalho, oportunidades de formação,
processo de trabalho e remuneração alcançada no setor. Mas pouca
tem sido a preocupação das instâncias de governo local em criar
mecanismos que incorporem os profissionais com base em
pressupostos de responsabilidade social e compromisso político
com o aperfeiçoamento dos serviços enquanto centrais para o bom
desempenho do sistema de saúde municipal.
Os médicos agem sob a pressão do exercício permanente de
atenção médica aos pacientes e isto os libera de quaisquer
responsabilidade de outra natureza. Os gestores do sistema
municipal agem sob a pressão política do governo municipal e,
ainda que na sua maioria sejam profissionais médicos, esquecem
que não há lugar para um sistema de saúde eficaz sem que seus
elementos constitutivos – recursos humanos, equipamentos, infra-
estrutura dos serviços e demandas sociais – estejam
permanentemente no centro das preocupações e do investimento do
governo local, o que, de fato, implica profundas mudanças no
processo decisório no setor da saúde.
O objeto deste trabalho é o estudo dos movimentos sociais em
saúde ligados ao processo de formulação e de implantação das
políticas de saúde no período que se estende de meados da década
de 70 a 1994. O estudo desse período relaciona-se à possibilidade
de pensar as políticas de saúde no Brasil à época da transição à
democracia e da consolidação democrática, sob uma perspectiva
que não se sustenta exclusivamente no Estado como o locus
privilegiado dos processos de formulação e implementação das
políticas sociais.
Na escolha do objeto de investigação, consideramos central a
questão do Movimento Popular em Saúde e do Movimento Médico –
no processo de formulação e implementação das políticas de saúde
na transição à democracia –, por avaliarmos que estes configuram o
Movimento Social em Saúde. Embora tenha sido considerado ao
longo deste trabalho, excluímos o autodenominado Movimento
Sanitário3 – ainda que também integrasse o Movimento em Saúde
–, por se tratar de um grupo restrito e diferenciado de origem
acadêmica e que constitui, em si mesmo, tema de investigação.
Interessávamo-nos examinar mais profundamente o papel
exercido por tais movimentos no processo de transformação da
política de saúde no Brasil – que culminou com a denominada
Reforma Sanitária Brasileira – e as mudanças observadas na
atuação do Movimento Popular em Saúde e do Movimento Médico,
no difícil percurso da implantação do mesmo, a partir de 1986 e em
pleno processo de consolidação da democracia.
O que torna a implementação da política de saúde uma questão
de difícil solução? Como se combinam atores, arenas e
circunstâncias políticas? Qual o papel do Estado? E qual o papel
dos movimentos sociais em saúde nos dois momentos da política de
saúde? Como os usuários se fazem representar perante a política
de saúde? Quais os partidos, as associações e os movimentos que
interagem na implantação, diferentemente da formulação, da política
de saúde? Tais questões nortearam o desenvolvimento deste
estudo.
Nosso argumento central é que os atores sociais interagiram em
um campo não conflitivo no processo de formulação da política,
enquanto a diversidade de interesses do próprio Movimento Social
em Saúde estava diluída na oposição em bloco ao regime
autoritário.
A partir do momento em que a reformulação da política de saúde
foi sancionada na Constituição Nacional, já no processo de
construção democrática, sua implementação passou
necessariamente pela criação de um campo específico de mediação
entre a esfera governamental e a esfera social. Assim, a
recomposição das relações Estado/Sociedade, que haviam sido
parcialmente bloqueadas durante o período autoritário, foram
retomadas.
Pretendemos mostrar que a implantação da política não foi bem-
sucedida, em virtude da complexidade da reformulação do sistema
de saúde no Brasil. Tal questão ultrapassa o campo específico do
setor saúde. Indicamos três pontos problemáticos na viabilização da
mudança do modelo do sistema de saúde: os limites ou extensão
desse processo, as contradições e os apoios para a implementação
da Reforma Sanitária.
A respeito dos limites, procuramos discutir a relação entre
democracia e reformas. São várias as dimensões desta relação:
o grau de profundidade das reformas, o timing das mesmas;
a capacidade, ou não, de o estágio atual da democracia
absorvê-las;
a ameaça virtual às forças políticas consolidadas antes do
exercício da democracia;
a existência de um cálculo estratégico que permita a
implantação das mudanças, realizado em prol da Reforma.
Acreditamos que a proposta da Reforma Sanitária somente é
viável no contexto da transição à democracia. No entanto, tal
afirmação merece discussão específica já que as diretrizes da
Reforma Sanitária implicam profundas transformações na
concepção dos direitos de cidadania e na atuação política do
governo, de modo a possibilitar o exercício desses direitos. A
democracia per se comporta ou não tais transformações? Parece
que esta não é uma questão simples nem evidente.
As contradições surgiram no âmago da atuação dos próprios
grupos que sustentaram a Reforma Sanitária e que integraram o
Movimento Social em Saúde. Cada um deles apresentava grande
heterogeneidade na composição de seus membros, o que implicava
múltiplos interesses. Porém, essa diversidade não era evidente no
momento da formulação da política, o que é compreensível devido
ao papel de oposição que o Movimento Social em Saúde, como um
todo, sustentou em relação ao regime autoritário e às políticas de
saúde predominantes naquele período.
De fato, as diferenças entre interesses variados estavam diluídas
na atuação em bloco do movimento por ocasião da transição à
democracia, só vindo à luz no momento da consolidação
democrática e, portanto, da implantação da Reforma Sanitária. As
contradições entre os grupos, aliadas à sua maneira complicada de
interação, acrescentaram mais um obstáculo no já difícil percurso da
implementação da política de saúde.
Por último, a respeito dos apoios, o que se pretende discutir não
se refere a grupos específicos, no setor saúde, que favoreceriam a
Reforma, já que nosso interesse se localiza na questão política mais
geral. Um processo desse tipo só pode ser viabilizado com o
incentivo e o sustentáculo do Estado. Neste sentido, torna-se
necessário discutir questões tais como: que Estado é este? Qual a
relação entre Público e Privado? Qual o tipo de democracia
requerida para a implementação de reformas que signifiquem
redistribuição de bens – a saúde neste caso – para populações que,
em condições de carência, não têm acesso à mesma?
Antes de detalharmos os capítulos que compõem o corpo do
trabalho, gostaríamos de incorporar algumas reflexões teórico-
metodológicas que o subsidiaram. A teoria política tem analisado os
processos de transição e ulterior consolidação da democracia após
períodos de autoritarismo político, sob uma perspectiva centrada, de
maneira quase exclusiva, nos procedimentos e na sistemática
política envolvidos na construção de um sistema de governo
democrático.
Análises mais recentes (Schmitter, 1991b) discutem o
estabelecimento de regimes democráticos como condição
necessária para a consolidação da democracia. Entende-se por
regime democrático a capacidade reprodutiva da democracia, ou
seja, a capacidade que o governo e a sociedade possam ter para
gerar comportamentos democráticos, o que significa ir além do
domínio estritamente político na discussão da democracia.
Este caminho conduziu às possíveis relações entre a constituição
da democracia – na medida em que esta é entendida na ótica do
redimensionamento das relações Estado/Sociedade – e o campo
específico da saúde, compreendido como modalidade de política
social que adquire o valor de um bem a ser usufruído por todo e
qualquer cidadão e que o Estado tem a obrigação de prover.
A partir desse enfoque, a reformulação da política de saúde, ou
mais especificamente a Reforma Sanitária, passou a ter papel de
destaque no próprio processo de construção da democracia. Não
somente porque essa última atualizou, no plano específico da
política pública, as dificuldades encontradas na afirmação da
democracia, mas, principalmente, porque a Reforma Sanitária
constituiu-se cenário privilegiado da evolução do próprio processo
democrático, ressaltando a relação entre democracia e Reforma.
O tema, pela complexidade, obrigou-nos a refletir sobre aqueles
aspectos que consideramos relevantes e aos quais daremos
prioridade na análise tanto das relações Estado/Sociedade no
processo de construção de um regime democrático quanto a
respeito do tipo de abordagem.
Embora exista o risco de se incorrer em uma simplificação desse
enfoque, que tem pretensão de iluminar o lado obscuro do prisma,
procuraremos sintetizar a idéia sobre a qual se sustentou a realização deste trabalho, para expor, posteriormente, os principais
conteúdos e procedimentos que o compõem.
A implementação da política de saúde está imbricada, por um
lado, ao processo de democratização do País e às mudanças na
esfera do Estado e das relações Estado/Sociedade; por outro, à
maneira pela qual os diversos interesses que compõem o
Movimento Social em Saúde lidam entre si e se fazem representar
nas instâncias institucionais da política de saúde. Neste sentido,
nenhum desses enunciados pode ser visualizado per se.
Esperamos que a discussão teórico-conceitual, efetuada na
primeira parte do livro, e a análise da dinâmica do comportamento
de nossos protagonistas vinculado a cenários, nos capítulos
subseqüentes, colaborem para desvendar a peça para o leitor.
O trabalho foi dividido em três partes, compostas, em seu total,
por seis capítulos. Na Parte I desenvolvemos uma análise teórica a
respeito da construção da ordem democrática no Brasil, tendo por
base o processo histórico iniciado com a transição à democracia, e
do estabelecimento de alguns parâmetros conceituais que
consideramos substantivos na abordagem de nosso objeto. Este
bloco consta de três capítulos: no primeiro, objetivamos a noção de
democracia; no segundo, a reforma do sistema de saúde; no
terceiro, os movimentos sociais em saúde.
No capítulo 1 discutimos a transição à democracia e o processo
de construção e/ou consolidação da mesma, estendendo a noção
da democracia para além dos procedimentos tidos como
necessários ao estabelecimento da democracia política. A discussão
incluiu cinco pontos: Esfera Pública/Privada, Indivíduo/Sociedade,
Eqüidade/Justiça, Democracia e Reformas. O tratamento dos temas
aproximou-nos da definição de relações teóricas conexas entre
movimentos sociais em saúde, política de saúde e construção
democrática.
No capítulo 2 analisamos a reformulação da política de saúde
como política social, sua origem e desenvolvimento até a
culminância na proposta da Reforma Sanitária. Esta foi
compreendida como um caminho de reconstrução da democracia
por intermédio de reformas parciais ou, dito de outra maneira, de
consecução da democracia pela via do estabelecimento de ‘regimes parciais’ democráticos. A visão das políticas de saúde, sob a
perspectiva das políticas sociais, obrigou-nos a aprofundar o campo
teórico-conceitual envolvido nessa área e sustentou a discussão a
respeito dos processos de formulação e implementação de políticas
sociais, em razão da necessidade de subsidiar teoricamente a
análise do processo de implantação da Reforma Sanitária.
O capítulo 3 introduz o papel dos movimentos sociais em saúde
nesses dois momentos – a formulação e a implantação da política
de saúde –, enfatizando o particular desempenho desses
movimentos à luz das diversas teorias da ação coletiva. A reflexão
crítica a respeito de tais teorias, a partir dos movimentos sociais em
saúde, possibilitou-nos identificar as adequações, proximidades e
distanciamentos entre os diversos enfoques que elas apresentavam
e o desenrolar da atuação política dos atores por nós privilegiados.
Adquirimos, dessa forma, um arcabouço teórico para pensar as
políticas de saúde nos processos de transição e construção da
democracia desde a perspectiva atual dos atores envolvidos e sua
relação com o Estado.
Na Parte II consideramos o desenvolvimento histórico da atuação
dos movimentos sociais em saúde em relação ao processo de
reformulação do sistema de saúde. E isso com base na análise dos
dados de uma pesquisa que coordenamos sobre o papel do
Movimento Popular em Saúde e o Movimento Médico no processo
de formulação e implementação da política de saúde nas duas
últimas décadas. Dividimos esta parte em dois capítulos: um referido
ao Movimento Popular em Saúde, o outro, ao Movimento Médico.
No capítulo 4 estudamos o Movimento Popular em Saúde, no
período que se estende de 1979 a 1990. A composição deste, em
suas origens, relacionou-se às experiências locais de saúde em
algumas regiões do País em torno de associações de moradores,
sociedades de fomento e outras entidades de bairro. O movimento
estadual, e logo nacional, de federações e confederações de
associações de moradores de bairros e de favelas forma-se desde o
início até meados da década de 80. O Movimento Popular em
Saúde, que assim se autodenominou nos encontros de caráter
nacional, foi parte constitutiva dessas federações e confederações.
Por fim, houve uma importante desarticulação do Movimento Popular em Saúde em fins dos anos 80 que se caracterizou por
notáveis diferenças regionais aprofundadas e também pela
descentralização do sistema de saúde e pela formação dos
Conselhos de Saúde, ainda que o movimento tenha continuado a
existir nacionalmente.
No capítulo 5 descrevemos a atuação do Movimento Médico no
período compreendido em 1976 e 1990, com uma perspectiva que
incluiu não só as formas associativas sindicais dos médicos como
categoria profissional, mas o conjunto das associações médicas –
tanto as que regulam o exercício da profissão quanto as de caráter
técnico-científico e as que congregam os profissionais médicos na
discussão de questões específicas da profissão médica. As
entidades analisadas foram: o Conselho Regional de Medicina do
Estado do Rio de Janeiro (Cremerj), a Sociedade Médica (Somerj),
a Sociedade de Medicina e Cirurgia do Estado do Rio de Janeiro
(SMCERJ) e o Sindicato dos Médicos (Sinmed). O levantamento do
material e as entrevistas realizadas com lideranças das associações
médicas de entidades localizadas no estado do Rio de Janeiro
cobrem o período que se estende de 1983 a 1990.
Na Parte III é investigada a dinâmica da relação entre os atores e
o processo de implementação da Reforma Sanitária nos anos 90.
Também nesta parte são abordados o próprio processo de
implementação da Reforma Sanitária, a descentralização do sistema
de saúde e os Conselhos de Saúde.
No Capítulo 6 exploramos até onde se avançou no
estabelecimento dos procedimentos legais previstos
constitucionalmente para o setor saúde e qual o estado da arte na
implementação de Reforma Sanitária até fins de 1993. Os
obstáculos criados no desenvolvimento da municipalização; um
exame da IX Conferência, dado o caráter significativo dessa
instância decisória da política de saúde; a extinção do Instituto
Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps), já
que ele era – desde sua criação em 1977 – órgão centralizador das
decisões recebidas à política de saúde. Especial ênfase é dada ao
processo de descentralização nos estados e municípios, eixo central
na implementação da política de saúde. Consideramos marco de
referência teórica na análise do processo de descentralização as concepções que associam essa noção à democratização do Estado.
Neste sentido, interessou-nos abordar o estágio atual do processo
de municipalização, para sublinhar as diferenças entre algumas das
experiências investigadas no decorrer do capítulo e detectar quais
os motivos que proporcionaram maior sucesso a umas que a outras.
O capítulo trata também da formação e atuação dos Conselhos
como instâncias de caráter deliberativo da política de saúde nas
quais os usuários, suas entidades e os movimentos sociais
deveriam deter 50% da representação nos termos do regulamento
da Lei Orgânica de Saúde.
Na conclusão, indicamos como a visão original com a qual
pretendíamos abordar o objeto de estudo deste trabalho sofreu
deslocamentos. Assim, a partir do tema eleito – ‘os movimentos
sociais em saúde em face das políticas de saúde’ – e do marco
teórico que sustentou essa forma de abordagem – ‘o
redimensionamento das relações Estado/Sociedade num âmbito
específico da política social no curso do processo de transição e
consolidação da democracia’ –, passamos a conformar
metodologicamente o foco de análise em três aspectos: a trajetória
e o papel dos movimentos sociais em saúde; o grau de definição da
política de saúde; o processo político mais amplo de constituição de
um regime democrático. Neste sentido, retomamos nas conclusões,
à luz dos resultados, as questões teóricas desenvolvidas no início
do livro.
Salientamos que a Reforma Sanitária brasileira constituiu-se em
um “regime de democratização parcial” (Schmitter, 1991b),
definimos a maneira pela qual se estabeleceu o percurso da mesma
e, considerando-se as dificuldades para a constituição de um regime
democrático no Brasil, explicitamos quais as possibilidades para a
implementação da política de saúde, dado o estágio alcançado
pelos movimentos sociais em saúde.