A democracia inconclusa: um estudo da reforma sanitária brasileira
3. Os movimentos sociais em saúde: questões teórico-metodológicas para sua abordagem
3. Os movimentos sociais em
saúde: questões teórico-
metodológicas para sua
abordagem
O Movimento Social em Saúde é formado pelo Movimento
Popular em Saúde e pelo Movimento Médico. Ainda que se
caracterizem pelas profundas diferenças na composição,
institucionalização, grau de articulação, problematização das
questões e eixos de atuação, existem importantes elos entre ambos.
O final da década de 70 foi um momento sui generis na política
brasileira no que se relaciona ao papel da sociedade civil, com o
surgimento de diversas entidades em diversos setores da vida
social. Um movimento febril de agitação e oposição política
atravessou toda a sociedade, promovendo um amplo debate e
mobilização social em prol do fim do regime autoritário e da
democratização do País.
A ditadura militar, em processo singular, acompanhou as
propostas de abertura política. De uma parte, as Forças Armadas
assumiram a obrigação de tutelar um processo que, se fosse além
do ‘razoável’, poderia colocar em xeque o próprio papel e a
relevância das mesmas no contexto político brasileiro, assim como
os parâmetros de sociedade e Estado, cuja sobrevivência justificara
a intervenção militar na década de 60.
A abertura ‘lenta, gradual e segura’ foi a estratégia escolhida
pelas direções militares, que viam no endurecimento e na repressão
– posição representada por uma parte dos altos comandos das
mesmas – o caminho mais curto para a radicalização da sociedade,
com a conseqüente ameaça aos objetivos estratégicos das Forças
Armadas.
Enquanto isso, em reuniões e apreciações das cúpulas militares,
era medido e ponderado o descontentamento da sociedade
brasileira, que ia crescendo proporcionalmente à dimensão da crise
econômica pós-milagre e às dificuldades de expressão política. À
medida que as contradições começavam a se colocar no interior das
Forças Armadas, a sociedade ganhava espaço e força nas
reivindicações por mudanças políticas. Nesse contexto, o
Movimento Social em Saúde se originou e teve presença marcante
em duas vertentes: o Movimento Popular em Saúde e o Movimento
Médico.
O movimento popular em saúde
Os movimentos populares em saúde se originaram nos bairros
pobres das periferias das grandes cidades e/ou nas favelas
localizadas nos grandes centro urbano-industriais.15 Tratou-se de
uma primeira fase no surgimento desses movimentos, que
começaram a proliferar na década de 70, que aqui será denominada
‘fase reivindicativa’. Os moradores desses bairros se agruparam ao
redor de associações comunitárias buscando alguma forma de
organização primária em torno de reivindicações por melhores
condições de vida, saneamento, postos de saúde, água, esgotos,
moradia, transportes etc.
Essas formas de associação possibilitaram criar laços de
solidariedade e de organização. Isso levou à eleição de
representantes para a condução das associações de moradores,
que exerceram papel principal no encaminhamento das demandas
ao Estado.
O Movimento Popular em Saúde teve uma marcante presença de
médicos, profissionais e agentes de saúde. Esses profissionais
exercitaram um certo paternalismo, ao mesmo tempo que políticos
‘fisiologistas’ estabeleciam bases para a obtenção de vetos em troca
de algumas melhorias, como a instalação de bicas ou de luz em
algumas favelas.
Cabe assinalar que nenhuma relação existia entre esses
profissionais de saúde, que na década de 70 desenvolveram militância política por meio da prática profissional nos bairros
carentes das grandes metrópoles. Sua intenção era colaborar para a
organização política das mesmas, enquanto os políticos fisiologistas
operavam por meio de máquinas político-partidárias – caso do
chaguismo, no Rio de Janeiro –, com finalidade exclusivamente
eleitoral.
Tratou-se de um momento inicial na constituição do Movimento
Popular em Saúde em torno de reivindicações ‘pontuais’, nas quais
atribuía-se ao Estado a responsabilidade pela falta de assistência
médica, postos de saúde e hospitais e conseqüentemente pela não-
resolução de tais problemas. Esse momento está intimamente
ligado à agitação política presente na sociedade e à atividade
desenvolvida na busca de liberdades políticas e de arrocho dos
problemas de carência social resultante do arrocho salarial do
regime autoritário.
Essa efervescência política se estendeu até a década de 80, com
a campanha pelas eleições diretas para Presidente da República.
Identificamos este momento com uma segunda fase na existência
dos movimentos populares, na qual se mantiveram os mesmos
eixos reivindicativos, as associações de moradores dos diferentes
bairros conseguiram se articular para a discussão dos problemas
comuns, fazer uma leitura política dos mesmos e propor uma
atuação destinada a interferir nas soluções que o Estado viesse
prover. A esta fase denominaremos ‘politização do Movimento
Popular em Saúde’. As associações organizaram-se em torno de
federações de associações de moradores nacionais e estaduais,
reunindo-se periodicamente, elegendo suas direções e se
organizando em seções ou departamentos de saúde, terras e
moradia, educação etc.
Os momentos mais notáveis na organização e mobilização do
Movimento Popular em Saúde conduzido pelas federações estão
associados às situações nas quais o quadro sanitário da população
tornou-se crítico, como aconteceu com a epidemia de dengue. Ainda
que tenham existido outros momentos críticos, como a epidemia de
meningite, no início da década de 70, o movimento não alcançara
uma expressão própria que lhe permitisse irromper na cena
nacional.
A luta política para erradicar a epidemia de dengue foi uma
conquista que marcou o Movimento Popular em Saúde. Diversas
manifestações populares tiveram ampla difusão nos meios de
comunicação, em razão da gravidade e extensão da epidemia e do
caráter das associações do movimento popular, que conseguiram
fechar as estradas que interligam os estados mais importantes do
País. Os resultados da ação empreendida tiveram amplo alcance,
seja no interior do movimento popular seja no tocante às medidas
implementadas pelo Estado para combater a epidemia.
Podemos depreender que a segunda fase, entrelaçada à primeira,
se caracterizou por um continuum no crescimento da ação coletiva
do movimento e atravessou os primeiros dois anos da Nova
República, até 1986, quando as expectativas políticas
desapareceram e a conjuntura adquiriu um nítido caráter de
estagnação. Nenhum dos grandes males políticos que assolavam o
País – a corrupção, o clientelismo, a política de favores pessoais, a
impunidade, a pobreza calamitosa de mais da metade da população
– foi enfrentado ou combatido pelo então governo. A retomada da
inflação, os quadros políticos (civis) da ditadura militar ocupando
mais espaços-chave no governo, tudo acobertado por um discurso
de cunho transformador, produziram um enorme descrédito não
somente quanto às possibilidades de mudança, mas o que é pior,
quanto à convicção da população de que a ação e a mobilização
políticas eram suficientes para alterar o quadro.
Finalmente, a terceira fase do Movimento Popular em Saúde pode
ser caracterizada como de ‘acesso a formas orgânicas da política’
ou de ‘institucionalização’. Está relacionada à formação da Plenária
Nacional de Saúde, movimento que teve importância central na
formação das Plenárias Estaduais e Nacionais, que, por sua vez,
tiveram papel decisivo na elaboração da Constituição de 1988.
Precisamente no momento em que o Movimento Popular em
Saúde esteve mais próximo das decisões políticas substantivas, a
ausência de maturidade para absorver a institucionalização como
uma exigência do processo político no setor se traduziu em cisão
interna. Isso se deu como resultado das diferenças políticas no
interior do movimento, que trouxe como conseqüência o descenso
na atuação do mesmo.
Neste sentido, identificamos a presença de duas grandes facções.
Uma delas é mais crítica e radical em sua visão de Estado,
referindo-se a ele como um espaço exclusivo das classes
dominantes. Tem um discurso anti-Estado, rejeita qualquer ação
estatal e considera que se houver medidas que favoreçam as
classes mais pobres, terão por objetivo o controle social; assume,
conseqüentemente, uma postura mais ‘autonomista’ e de
distanciamento da máquina estatal. A outra facção, ainda que
caracterize o Estado como domínio da burguesia, não acredita que
este seja tão monolítico a ponto de não haver em seu interior
fraturas pelas quais seja possível pressionar e negociar a obtenção
de conquistas sociais em saúde.
No processo mais amplo em torno da discussão da Constituição
apareceram as diferenças políticas entre as duas facções. A luta
ideológica interna do movimento teve conseqüências singulares em
relação à ação política coletiva. A atuação política ‘para fora’, que
havia caracterizado o movimento na fase anterior, transformou-se
em uma ação encaminhada ‘para dentro’ do movimento.
Sobrevieram infinitas discussões de caráter político-ideológico que
levaram progressivamente a um esvaziamento do Movimento
Popular em Saúde, cuja paralisação política foi notável no fim dos
anos 80 e início dos 90 e será mais detidamente abordada no
capítulo seguinte.
O movimento médico
No que se refere ao Movimento Médico, outro componente do
Movimento Social em Saúde, optamos por estudá-lo por meio da
atuação das entidades médicas – as associações de caráter
sindical, as que regulam o exercício da profissão médica, as de
caráter técnico-científico e as que congregam os profissionais com a
finalidade de discutir questões próprias da profissão médica.
Ainda que se trate de um movimento de profissionais, o
Movimento Médico é mais que uma associação profissional ou uma
modalidade de articulação sindical na defesa de interesses da
classe médica. É composto de diversas entidades, caracterizadas por um alto grau de institucionalização – diferentemente do
Movimento Popular em Saúde –, e presença nos diversos planos
em que se desenvolve a vida profissional do médico. Há certa
homogeneidade de classe na composição do mesmo, à diferença,
também, do movimento popular.
Na década de 70 e início da de 80, o Movimento Médico liderou
seu questionamento às políticas de saúde e à elaboração da
proposta de reformulação do sistema, que culminou na Reforma
Sanitária. A partir da primeira metade da década de 80 deslocou-se
a discussão política da Reforma Sanitária para o Sistema Unificado
Descentralizado de Saúde (Suds), observando-se um abandono dos
princípios, questão principal da década anterior, por orientações
mais pragmáticas na categoria a respeito dos problemas da
implantação da política de saúde.
Para o Movimento Médico, a relação com o Estado não constituiu
preocupação central à prática do mesmo, como no caso do
Movimento Popular. Pelo contrário, os aspectos críticos
considerados em relação ao Suds apontam para a ‘prefeiturização’ e
a ‘partidarização’ dos recursos, mas não a respeito da inviabilidade
do Estado para implementar a Reforma Sanitária, considerando-se o
Suds como a única saída para a caótica situação do sistema público
de saúde.
Desse modo, as entidades buscaram engajar-se nas questões
atinentes à política de saúde e entenderam que o Suds era a
estratégia para alcançar o Sistema Único de Saúde (SUS). No
entanto, percebe-se uma grande distância entre as proposições
gerais da categoria e a transformação de sua prática, dentro de uma
orientação na qual interesses de caráter corporativo ficassem em
segundo plano. Tal afirmação se fundamenta na não-aceitação, pela
categoria, dos princípios embutidos na implementação do Suds em
relação ao exercício da profissão médica: emprego único, tempo
integral e cumprimento de horários.
É possível perceber, também, que outra questão merecedora de
destaque no âmbito da Reforma Sanitária foi a da isonomia salarial.
Apesar de apontada como necessária desde a formulação do Plano
das Ações Integradas de Saúde, sem a qual esta ou qualquer outra
inicial mudança na assistência ficaria comprometida, a isonomia passou, em nosso ponto de vista, a ter importância superior ao
próprio projeto da Reforma Sanitária, para a categoria.
Em relação à organização do trabalho médico, a preocupação da
classe tem sido a de estabelecer parâmetros que limitem qualquer
interferência sobre determinado trabalho, certamente no sentido de
garantir a prática liberal mesmo sob condições de assalariamento.
Cabe destacar o papel proeminente que a categoria atribui a si nas
políticas de saúde. Ao mesmo tempo que não é aceita a renúncia
aos privilégios que comporta o exercício liberal da medicina, obriga-
se o Estado a cobrir os riscos do mercado. Paralelamente, tenta-se
manter uma parte importante do poder médico nas mãos dos
próprios médicos, a fim de impedir que o Estado interfira sobre o
trabalho dos mesmos.
A diferenciação entre o exercício da prática médica e o Estado, no
sentido deste não interferir, mas garantir condições para o exercício
da mesma através das políticas de saúde, relaciona-se também à
natureza liberal das instituições médicas, que se originaram no
começo do século como confrarias de profissionais independentes.
A atuação da categoria é institucionalizada e diferenciada. As
questões que se referem à atuação profissional dos médicos são
canalizadas por diversas instituições médicas, as quais possuem,
por sua vez, orientações político-profissionais diversas. A
denominação de Movimento Médico obedece a essa atuação
diferenciada do conjunto das entidades ou instituições médicas.
Neste sentido, o sindicato dos médicos teve um papel
essencialmente trabalhista, defendendo os interesses econômico-
corporativo dos médicos, utilizando, como procedimento principal
para o encaminhamento das reivindicações da classe, as greves no
setor público da saúde. Enquanto isso, os Conselhos Regionais e
Federal de Medicina tiveram um papel sobretudo político,
especialmente no que se refere à reformulação do Código de Ética
Médica e à atuação dentro da Plenária Nacional de Saúde, para a
elaboração do capítulo da saúde na Constituição de 1988.
As greves médicas no setor público da saúde contribuíram para o
processo de desmonte na implantação da Reforma Sanitária.
Independentemente de as reivindicações serem ou não justas, elas
conduziram à maior crise de atendimento dos hospitais e postos de atenção médica. Durante meses as filas, as mortes por falta de
atendimento, a insensibilidade com o sofrimento humano foram a
tônica da atuação da categoria médica. À proporção que
aumentavam enormemente o desprestígio e a ineficiência do setor
público da saúde – somado à falta de repasse dos recursos do Suds
às unidades locais, o que ocasionou falta de instrumental,
medicamentos e manutenção das instalações –, cresciam as
seguradoras privadas de saúde e sua procura pela população.
Paralelamente, a discussão em torno do processo constituinte foi
plenamente assumida pelos Conselhos de Medicina, transformando-
se estes em centros de mobilização política em torno da proposta da
Reforma Sanitária. Posteriormente, já no processo de
implementação da política de saúde, logo após sancionada a
Constituição de 1988, foi elaborado pelo Conselho Regional local o
anteprojeto para a Constituição do Estado do Rio de Janeiro – onde
particularmente analisei a atuação das entidades médicas. Nele se
defendiam:
a criação do Sistema Estadual de Saúde, vinculado ao Sistema
Único de Saúde;
a municipalização dos recursos;
o financiamento, através do orçamento da União da seguridade
social, dos municípios e de outras fontes;
a participação de entidades representativas de usuários e
profissionais de saúde nas decisões sobre o sistema, por meio
dos conselhos estaduais e municipais de saúde.
Voltou à tona o importante papel de mobilização política que
desempenharam os Conselhos, liderando as lutas com conteúdos
mais transformadores no campo da saúde. Não obstante, nossa
impressão é de que, da mesma forma que na discussão sobre a
Ética Médica, não se conseguiu adesão substantiva da categoria em
seu conjunto a esses processos transformadores. Tais questões
serão melhor desenvolvidas no quinto capítulo, sobre a trajetória do
Movimento Médico.
A teoria de ação coletiva: gênese e
trajetória da atuação política dos
movimentos sociais
Neste ponto, a finalidade é introduzir a análise da trajetória do
Movimento Social em Saúde à luz das teorias da ação coletiva,
testar seu alcance explicativo e nos prover de instrumentos que
possibilitem prever acontecimentos futuros.
Vamos partir da concepção de Olson (1965) sobre a ação
coletiva. Enquanto ação orientada por grupos em estado ‘latente’ ou
por grandes grupos, a ação coletiva é resultado de um cálculo
racional de custos e benefícios guiado pelos interesses dos
indivíduos. Supondo-se que os indivíduos são racionais, a estratégia
dominante será aquela que melhor satisfazer as necessidades de
cada indivíduo.
Na base da teoria da ação coletiva está a motivação egoísta dos
indivíduos, que implica um comportamento em que a racionalidade
reside em deixar que outros ajam. Tal situação configura o assim
chamado Dilema do Prisioneiro: o mais racional é não atuar e
esperar que outros o façam; os outros também não atuam com base
no mesmo princípio, e as conseqüências são que a racionalidade
individual leva ao desastre coletivo.
Outra motivação possível para Olson é o altruísmo incondicional,
só que se trata de um imperativo categórico e, neste sentido, ele o
rejeita como sendo “expressão de desejos”, sem base no
comportamento dos indivíduos. Ainda que considere a existência de
“incentivos seletivos”, estes não operam indiscriminadamente, como
ocorre no caso dos bens coletivos, sobre o conjunto do grupo, mas
seletivamente através dos indivíduos que o compõem. Um indivíduo
mobilizado positivamente pode contribuir para a ação coletiva,
porém é mais provável que isso aconteça em pequenos grupos do
que nos grandes.
Se observarmos o que aconteceu com os movimentos sociais nas
duas conjunturas escolhidas, veremos que, no caso do Movimento
Popular em Saúde no período que culmina com a Nova República, há um crescimento da ação coletiva, seguida de uma fase de
esvaziamento no momento de criação e consolidação da
institucionalidade democrática.
O que ocorreu na conjuntura da transição? Por que foi um período
extremamente marcado pela ascensão das mobilizações populares?
As motivações egoístas não foram o princípio da ação? Os custos
da ação coletiva eram menores que os benefícios?
Se entendemos por custos as possíveis retaliações que o poder
político autoritário poderia desenvolver como resposta à ação
coletiva do Movimento Popular em Saúde, corre-se um alto risco
logo de início. Entretanto, ninguém garante que o custo – esforço
gasto em mobilização – vai significar a provisão de um bem público.
Assim, os custos são palpáveis, enquanto os benefícios são
prováveis; no entanto, a ação coletiva aconteceu.
O problema nessa teoria é que a noção de ‘coletivo’ não é
discutida, mas simplesmente vista como a produção de uma ‘ação
agregada’ pelo conjunto de indivíduos essencialmente egoístas.
Porém, se isso é o coletivo, como poderia haver ação coletiva, já
que significa o mesmo que ação cooperativa? Ou seja, por que ou
como um coletivo se cria, se todos seguem seus interesses
egoístas?
Voltemos a indagar: por que a paralisação da ação coletiva foi o
sinal que marcou a atuação do Movimento Popular em Saúde no
final da Nova República e durante o período do Governo Collor? Já
na formulação da pergunta se observa a dificuldade explicativa da
teoria. Se houve um momento anterior de aumento da mobilização
da gestão do coletivo, como esta poderia existir se são as
motivações egoístas, por excelência, que caracterizam o
comportamento humano? Se também não se pode explicá-la pela
relação entre custos e benefícios, como explicar então a ação
coletiva? Não explicada a ação antecedente, como explicar a inação
conseqüente?
Essa última questão remete a outra limitação da teoria – a de não
dar conta da ‘dinâmica’ da ação coletiva. Os momentos de mudança
da ação para a inação conseguem ser capturados pela teoria, na
medida em que se estabelecem relações lógicas, exclusivamente, e
portanto absolutas entre variáveis não-absolutas. Entende-se por variáveis não-absolutas, aqui, as particularidades do próprio
movimento na gestão do coletivo, a noção mesma de coletivo e a
complexidade da conjuntura política que medeia e atravessa os
diversos atores que dela participam.
Neste sentido, nossa opinião é de que o ‘coletivo’ opera
simbolicamente no interior do Movimento Popular em Saúde.
Significa que a ação se recompõe (o coletivo), enquanto as
expectativas dos membros do movimento conduzem a uma
identidade em prol de um objetivo, independentemente da certeza
de obter o bem público. Isso não significa que não exista um cálculo
por parte dos membros do movimento a respeito de participar ou
não da ação coletiva, mas a expectativa leva à configuração de um
‘si mesmo’ e do ‘outro’, o que tornará o cálculo favorável à
participação ou não. Quando não me percebo como ‘formando parte
de’, também não percebo que os outros possam ser partes
integrantes de um ‘coletivo’ que passe a atuar de maneira conjunta
em dada situação. Assim, não percebo a cooperação como
comportamento possível. A cooperação, ao mesmo tempo que um
comportamento induzido por mim, é também induzido pelos outros
em mim.
Para outra vertente de reflexão teórica – Laclau, Touraine, Landi
–, esses são processos de constituição de identidades coletivas.
Tais construções não são dadas, portanto, estão sujeitas a
transformações permanentes que têm a ver com o próprio
movimento, sua formação, organização, atuação política,
composição de seus membros etc. Cabe assinalar também que as
conjunturas políticas mais gerais, a existência de crises e o caráter
destas marcam os próprios processos de formação, avanço e
estagnação dos movimentos populares em saúde.
Observando agora a atuação do Movimento Médico, constatamos
que em nenhuma das duas conjunturas existiu uma paralisação da
ação coletiva do movimento, pelo contrário, em ambos os momentos
sua atuação foi intensa. No entanto, o que mudou foram os eixos
sobre os quais a atuação aconteceu. Enquanto de fins da década de
70 até a culminação da Nova República, o Movimento Médico teve
uma atuação fundamentalmente política e também reivindicativo-
trabalhista – na qual o sistema de saúde, seu caráter de reprodutor das desigualdades, a relação perversa entre setor público/privado,
os problemas derivados do assalariamento médico maciço foram as
principais questões levantadas –, mudanças significativas
registraram-se no fim da década de 80.
O Movimento Médico desenvolveu uma ação coletiva
profundamente corporativa, com penetração importante nas
entidades médicas do ideário neoliberal e cuja atuação teve como
característica marcante sucessivas e inúmeras greves que afetaram
profundamente o setor saúde. O que aqui observamos é
praticamente um contra-senso da teoria olsoniana da ação coletiva,
já que esta se produz precisamente a partir de ‘motivações
egoístas’, se assim pudéssemos qualificar os interesses
corporativos.
A esta altura, cabe fazer algumas referências que melhor
caracterizem o Movimento Médico. Em primeiro lugar, é ele
profundamente articulado em torno da profissão médica. Trata-se de
uma categoria de índole diversa da de outras categorias
profissionais ou de trabalhadores. É formada por diversas entidades
médicas altamente institucionalizadas, com longa data de atuação,
já que surgiram no princípio do século e subsistem até hoje, com
uma considerável solidariedade orgânica resultante da existência de
um Código de Ética Médica e da própria modalidade de exercício
liberal da profissão. Isso torna necessário compreender a ação
coletiva do movimento, no sentido antes mencionado da ‘gestão do
coletivo’ na sua especificidade.
O considerável avanço registrado nas correntes teóricas do
individualismo metodológico em relação à teoria olsoniana da ação
coletiva foi a sensibilidade para capturar a dinâmica desse tipo de
ação. Neste sentido, ainda que não haja discussão acerca daquilo
que seja o ‘coletivo’ e das motivações que induzem os homens a
atuarem coletivamente, o fato de considerar a teoria dos jogos como
instrumento metodológico principal para “qualquer análise do
processo histórico, centrado na exploração, conflito, alianças e
revolução” (Elster, 1989) possibilita maior aproximação explicativa a
situações nas quais a ação se produz ante aquelas nas quais esta
não acontece. Ou seja, se diante de uma situação X um conjunto de
atores tem de decidir uma ação de conjunto Y, sendo o comportamento racional de cada um deles e o do conjunto a melhor
garantia para o êxito da ação, é plausível inferir que o
comportamento não será definido a priori, mas a interação com os
outros permitirá escolhê-lo.
A noção de ‘coletivo’ é substituída, na teoria dos jogos, pela de
‘cooperação’. Neste sentido, a teoria dá conta da dinâmica da ação
coletiva do Movimento Popular em Saúde. Restaria saber porque o
Movimento Popular em Saúde agiu cooperativamente na Conjuntura
1 e não do mesmo modo na Conjuntura 2. Isso requer análise do
contexto do Movimento Popular em Saúde em ambas as
conjunturas, combinada à própria caracterização delas.
No que diz respeito ao Movimento Médico, as coisas tendem a se
complicar ao trabalhar com o enfoque do individualismo
metodológico. Mas Elster (1989) faz uma distinção entre a
cooperação como modalidade da teoria dos jogos que se dá na
classe operária e diz que o problema da solidariedade da classe
capitalista requer outros instrumentos de análise. 16 A tarefa dos
dirigentes empresariais será a de convencer os empresários
individuais a agir de maneira tal que, embora do ponto de vista de
cada um deles sua ação não traga nem ganhos nem benefícios,
trará sim benefícios coletivos caso seja adotada por todos. A
liderança, portanto, consiste em utilizar a ‘zona de indiferença’ dos
indivíduos.
No caso, essa distinção estabelecida por Elster não se adequaria
aos comportamentos observados nesse ‘particular’ movimento
social. As questões relativas à profissão médica provêm de uma
identidade forte e de uma ideologia médica que marca os
comportamentos individuais e coletivos dos membros da
corporação. Esta possui características singulares e diversas formas
de expressão social composta por entidades que operam em um
amplo espectro de atribuições e que se exprimem tanto no âmbito
privado (social) quanto na esfera pública (Estado).
Apenas a título de destacar semelhanças e sem entrar numa
discussão específica sobre o assunto, acreditamos que a
corporação médica se assemelha à corporação militar no papel que
esta desempenha. Quando os interesses médicos são afetados ou
existe uma ameaça a vida da corporação, ou seja, o espaço privado da corporação é invadido pelo Estado, o Movimento Médico tem
reagido de maneira forte e imediata. Isso ocorreu na década de 70,
quando as entidades médicas sofreram intervenção, e a
consolidação do sistema de saúde levou a mudanças no processo
de trabalho médico, tendo com isso submetido esses assalariados
ao mercado e às condições de arrocho salarial de qualquer outro
trabalhador.
A corporação passou, então, a fazer parte de outros movimentos
de oposição. Sua atuação foi marcada pela ação cooperativa, tendo
um papel quase de liderança das outras forças sociais – as
primeiras greves que aconteceram no País naquele período foram
as dos médicos. Acreditamos que à cooperação universal’, da
maneira que foi formulada pelo individualismo metodológico, falta
precisão para ser aplicada à ação coletiva do Movimento Médico.
Em outras palavras, minha disposição em atuar, embora dada
pela disposição dos outros e vice-versa, não é suficiente para
explicar a ação coletiva do Movimento Médico, regulada em grande
medida pelo fato de pertencer à corporação. Não atuar pode
significar não ser reconhecido por mim e pelos outros como ‘fazendo
parte de’ e nisso há punições morais, de auto-estima etc. Assim, a
corporação médica, na conformação de sua atuação política, tem
um eixo ou uma medula pela qual o termômetro desta é dado pelo
grau em que são afetados pelo Estado os parâmetros estabelecidos
para a categoria e definidos pela própria corporação.
A conjuntura pós-transição, marcada pelo Governo Collor,
mostrou que os médicos voltaram a se predispor a atuar
coletivamente, colocando em risco a sobrevivência do setor público
da saúde na consecução de melhorias salariais e de autonomia no
processo de trabalho médico, sem interferência do Estado. A
categoria não se submeteu a outras lógicas que não as da
corporação, embora isso significasse o abandono da própria
proposta da Reforma Sanitária, que tinha sido o eixo de atuação
política do Movimento Médico até o fim da Nova República.
Tratava-se de um subtipo de cooperação que chamaríamos de
‘cooperação corporativa’, na qual não haveria só um cálculo que me
levasse a participar se os outros participassem, mas também um
jogo simultâneo em que todos participam porque a participação é mediada pela corporação. Na cooperação corporativa todos usariam
de um tipo particular de solidariedade restrita à corporação. Neste
caso, a cooperação tal como formulada por Elster poderia ser
‘qualificada’, ao acrescentar o tipo de cooperação à qual estamos
nos referindo.
A lógica dual da ação coletiva, teoria concebida e assim
denominada por Santos (1989), se sustenta sobre o modelo
olsoniano da ação coletiva, mas precisamente por isso, ao mesmo
tempo em que resolve uma das questões principais embutidas na
teoria clássica da ação coletiva – o início da produção de um bem
público –, fica presa a esse modelo explicativo e a suas limitações.
A idéia é que a ação coletiva acontece para a provisão de um bem
público e o fato de não atuar não significa somente que me privarei
de consumir um bem público potencial que aconteceria se todos
participassem da ação coletiva , mas que serei obrigado a usufruir
de um mal público.
Parte-se da idéia olsoniana de que participar ou não da ação
implica um cálculo de custos e benefícios, sendo a premissa básica
do comportamento humano a de evitar o sofrimento. Tal premissa
não deixa de ser, também, um imperativo categórico, ainda que
mais inclusivo que o egoísmo. Se participar da ação coletiva tem
custos, isso não significa que não participar não implique custos.
Pelo contrário, a idéia é que os custos da não participação, para
mim, podem ser maiores que os custos da participação, se pelo fato
de não fazê-lo me vejo obrigado necessariamente a consumir um
mal público. Ou seja:
Cnp > Cp
sendo que Cnp = custo de não-produção ou participação
Cp = custo de produção
Essa condição formal ocorre quando a consecução de objetivos
privados depende da produção de bens públicos – trata-se,
possivelmente, de um tipo de interação social que corresponde ao
dilema da vontade geral rousseauniana, onde bp (bem privado) = bp
(bem público). Acontece independentemente da existência de ‘caronas’, ainda que às vezes seja necessário eliminá-los para
diminuir o custo da produção de um bem.
A relação estabelecida pela teoria entre o custo de produzir um
bem privado e a eliminação dos ‘caronas’ não acrescenta nada à
explicação original, formalizando simplesmente a afirmação de que,
sendo mais econômico eliminá-los, reduz-se o custo de produzir um
bem privado, o que é uma verdade óbvia. A teoria não diz nada a
respeito do significado de eliminar ou não os ‘caronas’ dentro das
hipóteses por ela estabelecidos:
C2bp = C1bp (C’bp Cefr), onde C2bp é menor que o original C1bp
Quando C’bp Cefr (custo de eliminar os ‘caronas’) = 0 (se for econômico,
fazê-lo)
C2b < C1bp alcançará seu valor máximo
Observando-se os movimentos sociais em saúde à luz dessas
idéias, estas poderiam explicar porque o Movimento Popular em
Saúde teve um desenvolvimento marcante na Conjuntura 1. Atuar
significaria – no ‘plano simbólico’, ainda que isso não seja dito pela
teoria – a obtenção de um bem coletivo, no caso, medidas
governamentais para acabar com a epidemia de dengue. Não atuar
significaria – no ‘plano real’ – que ninguém estaria eximido de
usufruir de um mal público (a epidemia da dengue). Ou seja, o
momento inicial da ação coletiva consegue ser capturado pela
teoria, mas por ser estática não consegue explicar porque a ação
tem continuidade e, no caso, menos ainda a paralisia da ação
coletiva no momento posterior da Conjuntura 2.
A teoria não explicita qual é o custo de não produzir um bem
público, já que tanto atuar quanto não atuar vão levar ao mesmo
resultado – à obtenção de um mal público. No plano simbólico,
perderam-se as expectativas a respeito da ação coletiva e, no plano
real, sucessivas políticas governamentais de consumo de males
públicos foram impostas. A teoria não inclui a dinâmica da ação nem
a temporalidade da mesma, mas o fato de definir o resultado da
não-atuação dos agentes – como a obtenção de alguma coisa que
não é boa para ninguém e não apenas a perda da obtenção de um
bem – possibilita, no caso do Movimento Popular em Saúde, explicar a atuação deste como necessária para evitar ser alvo da
epidemia de dengue.
No caso do Movimento Médico, a teoria também não nos
permitiria discriminar por que tanto na Conjuntura 1 quanto na 2 há
ação coletiva. Ela não consegue dar conta do caráter diverso da
ação coletiva dos médicos nesses dois momentos.
Por último, cabe a referência, também, à capacidade explicativa
da teoria de Offe (1984) sobre a existência de duas lógicas da ação
coletiva. Divergindo de Olson, Offe mostra como não há uma lógica
unitária e utilitária da ação coletiva que cubra todas as associações
e como, além disso, as diferenças de poder conduzem a diferenças
no tipo de ação coletiva – trabalha aqui com as classes
trabalhadoras e capitalistas. Essas diferenças tendem também a ser
obscurecidas pelo paradigma de ‘grupo de interesse’. Os interesses
da classe trabalhadora e os da classe capitalista estão sujeitos, sob
o capitalismo, a graus distintos de distorção. Por isso, um processo
‘dialógico’ – um entendimento e um acordo compartilhado – de
definição de interesses é necessário para aqueles que se encontram
em uma posição de poder inferior e que dependem, por isso
mesmo, de um conceito comum e coletivo do seu interesse.
Offe acha que há um conflito de classe dentro das formas
políticas e também um conflito de classe referido às formas
políticas. O primeiro ocorre dentro das formas processuais dadas,
enquanto o segundo é latente, escondido por uma pretensão de
‘neutralidade’. A teoria de Olson só considera a existência desse
primeiro nível do conflito, onde os parâmetros se tornam variáveis e
a ação coletiva se preocupa com o que quer dizer ‘custos’ e
‘benefícios’.
Caberia salientar que esses dois tipos de conflito nas classes
dominadas nunca se dão de maneira separada. Quando o conflito
começa por demandas pontuais, como no caso do Movimento
Popular em Saúde, não se mantém estanque, assumindo
rapidamente formas político-organizativas que conduzem à
redefinição de interesses e à constituição de uma identidade
coletiva.
As organizações empresariais representam uma forma política de
racionalidade individualista, chamada pelo autor de lógica ‘monológica’. As organizações sindicais operárias constituem um
‘caso misto’ contendo elementos das duas lógicas, já que nelas há
uma contradição sempre presente entre burocracia e democracia
interna, agregação de interesses individuais e formação de
identidade coletiva. Trata-se de uma condição sempre presente não
só nas organizações sindicais, mas também inerente a todo o
processo de institucionalização no interior dos movimentos sociais.
A partir daqui o que interessa sublinhar em Offe é o aspecto
dinâmico no tratamento da ação coletiva – a interação entre os
membros da organização e os contextos políticos mais amplos –,
que, ao mesmo tempo em que permite incluir as diferenças no
caráter do conflito na definição de interesses e, conseqüentemente,
o tipo de ação coletiva, permite também formular um modelo
dinâmico baseado em estágios da ação coletiva nas organizações
operárias.
Tal construção conduz a uma teoria – que Offe denomina de
sociológica, e portanto não-valorativa – do oportunismo. Esta é
compreendida pelo autor como a maneira de resolver o conflito que
se apresenta nos estágios posteriores à formação de qualquer
organização social. Enquanto as organizações surgem como
resultado da mobilização social, num momento posterior esta é
substituída pelo crescimento das burocracias e da legitimação das
rotinas burocráticas.
A sobrevivência da organização deixa de ser assegurada pela
disposição em atuar de seus membros e passa a ser garantida por
mecanismos de negociação política, pautados por procedimentos
institucionalizados. Trata-se, para Offe, de uma “escolha
oportunista”, na medida em que esta cresce burocraticamente sem
arriscar sua existência. O ‘oportunismo’, na acepção que o autor lhe
dá, tem o status de uma formulação teórica, neste aspecto, e
nenhuma conotação valorativa.
Os estágios mencionados podem ser classificados da seguinte
forma:
Estágio 1 – corresponde ao momento de formação das
entidades; o padrão da ação é dialógico.
Estágio 2 – a organização fortaleceu-se e acumulou poder real
derivado de seu reconhecido potencial. Recruta, mobiliza e
ativa os membros para atualizar seu poder, mas, ao mesmo
tempo, deve precaver-se para que os membros não se
disponham a agir prematuramente. Não havendo solução
segura e permanente para esse dilema, pode-se retornar ao
estágio inicial, sendo isso possível acontecer apenas em caso
de alto grau de politização da luta de classes; na ausência de
condições favoráveis, poder-se-ia passar ao próximo estágio.
Estágio 3 – a única transformação que não ameaça nem a
sobrevivência da organização nem interfere em suas
perspectivas de êxito é a resolução ‘oportunista’. As garantias
de sobrevivência interna são substituídas pelas externas; a
organização passa a se sustentar sobre posições de
negociação, enquanto antes tinha exclusivamente a disposição
para agir de seus membros. Tais práticas institucionalizam-se
por meio de estatutos legais. Porém, a solução do dilema se
constitui num dilema em si mesmo.
Estágio 4 – a organização não é mais capaz de resistir às
tentativas de retirada do suporte externo, bem como dos
estatutos institucionais e legais que lhe são proporcionados a
partir do exterior. Neste sentido, terá de se ver obrigada a
manter as garantias, sendo o resultado então a burocratização,
com a qual os custos em longo prazo do ‘oportunismo’ se
tornam manifestos.
Estágio 5 – nova fase de mobilização e ativação dos membros
torna-se necessária para defender os termos do dilema, a
sobrevivência e as probabilidades de êxito da organização.
Observando a trajetória do Movimento Popular em Saúde,
constatamos que sua formação respondeu a uma lógica dialógica,
com resistência muito grande a ingressar no Estágio 2. Ingressar
significaria, por um lado, a institucionalização e o reconhecimento,
por parte do Estado, dos movimentos como interlocutores no campo
da negociação política. Por outro, haveria perda de autonomia das
entidades populares em relação ao Estado. O problema com o
Movimento Popular em Saúde foi que isso suscitou forte polarização de posições ante uma ideologização da discussão que conduziu
também à paralisação na ação e à ameaça de não-sobrevivência ou
esvaziamento das entidades do movimento.
Para Offe, a questão do oportunismo pode ser defendida como a
única solução racional e realista para aquelas tensões, dilemas e
tradições internas manifestas como conseqüência do Estágio 2. Se
uma organização proteger tanto sua existência quanto suas
realizações potenciais, parece não haver caminho senão o sacrifício
parcial de sua autonomia.
Os estágios explicitados no desenvolvimento das organizações
das classes dominadas, se aplicados ao Movimento Popular em
Saúde, se tornam profundamente contraditórios. Ao mesmo tempo
que o ‘oportunismo’ constitua talvez o caminho mais curto para
acabar com eles, em razão das intrínsecas características e da
formação e organização desses movimentos, a opção pela não-
institucionalização produziu uma paralisia na ação coletiva. Mas,
simultaneamente, sua fluidez colaborou para sua própria
reestruturação ante situações que o afetavam diretamente, como a
crise dos hospitais do setor público e a falta de atendimento médico-
hospitalar para essas populações.
No caso do movimento médico, o modelo de ação aplicado para
as organizações da classe operária ajusta-se perfeitamente ao
sindicato médico. Em relação às outras entidades médicas não se
aplica nem a lógica dialógica, nem a monológica, de forma estrita,
ainda que se possa encontrar elementos das duas. Nosso ponto de
vista, já aqui assinalado, é de que os médicos constituem uma
corporação de características singulares e, neste sentido, a
‘ideologia médica’ da corporação merece ênfase particular.
Algumas observações teórico-
metodológicas
A discussão primordial a respeito da transição à democracia e o
seu processo de construção e/ou consolidação teve como propósito
estender a noção de democracia para além da consideração dos procedimentos restritos à implementação da democracia política. A
consolidação da democracia é indissoluvelmente ligada à
conformação de estruturas democráticas nos diversos níveis da
sociedade para os quais o estabelecimento de condições relativas
Estado/sociedade afiguram-se fundamentais.
Discutiu-se a questão da cidadania como uma categoria central à
democracia, distinguindo o conceito clássico da cidadania do
exercício histórico da mesma. Essa distinção e o percurso escolhido
para desenvolvê-la levaram à conclusão de que a eqüidade está
embutida na cidadania não como ‘princípio’, mas como resultado
das lutas sociais que transformaram a ‘idéia de cidadania’,
configurando nela a obtenção de direitos concretos usufruídos pela
população, enquanto a justiça social redunda na regulamentação da
eqüidade como valor ético-moral.
Esses direitos de cidadania, consagrados juridicamente, se
concretizaram mediante forte intervenção do Estado na economia,
restringindo o papel do mercado e introduzindo importantes
reformas no capitalismo, com a implantação de políticas sociais e os
conseqüentes benefícios sociais para as classes trabalhadoras, via
Welfare State. Enfrentar tais questões possibilita, sem que isso
constitua um modelo a ser reproduzido, estabelecer bases para a
discussão da construção de um regime democrático.
A visão das políticas de saúde, sob a perspectiva das políticas
sociais, obrigou a um mergulho no campo teórico-conceitual
envolvido nessa área de conhecimento. As dificuldades que
acompanharam o processo de implementação da política de saúde
exemplificam de maneira bastante aproximada as difíceis relações
Estado/sociedade no momento de consolidação do processo
democrático, sendo a Reforma Sanitária um caminho de
reconstrução da democracia por meio de reformas parciais, ou, dito
de outra forma, de consecução da democracia pela via do
estabelecimento de ‘regimes parciais’ democráticos.
A necessidade de criar o processo de implantação da Reforma
Sanitária levou à discussão teórica a respeito dos processos de
formulação e implementação de políticas sociais. As dificuldades de
regimes de democratização parcial prosperarem e se instalarem estão estreitamente vinculadas ao encaminhamento das inovações
políticas no campo das políticas sociais.
Também fizemos referência ao papel dos movimentos sociais em
saúde nesses dois momentos, a formulação e a implantação da
política de saúde, com ênfase na particular atuação dos movimentos
à luz das diversas teorias da ação coletiva. A reflexão crítica
relacionada às teorias da ação coletiva possibilitou identificar, a
partir das trajetórias dos movimentos sociais em saúde, as
adequações, proximidades e distanciamentos entre os diversos
enfoques teóricos e também o desenvolvimento da atuação política
dos atores nela privilegiados.
Acreditamos ter alcançado um arcabouço teórico que nos
aproximou da idéia de pensar as políticas de saúde da perspectiva
dos atores em relação ao Estado, nos processos de transição e
construção da democracia. A política de saúde foi vista, assim, sob
uma perspectiva societária, ainda que, pela própria natureza desta,
seja na arena do Estado que ela adquire concretude. A própria
complexidade do processo da Reforma Sanitária exigiu o exercício
teórico-metodológico e obrigou a expandir o ângulo de visão em
múltiplas direções.