A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 1 de 17

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A Filha da Profecia

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JULIET MARILLIER

 

A FILHA DA PROFECIA

 

LIVRO III DA TRILOGIA SEVENWATERS

CAPÍTULO UM

 

Chegavam todos os Verões. Eu contava os dias pela terra, pelo céu, pelo Sol e pelas pedras. Trepava até ao círculo, sentava-me muito quieta, encostada à rocha tépida a que eu chamava Sentinela e observava os coelhos à luz do crepúsculo, mordiscando a erva que conseguiam encontrar na encosta estéril. O Sol descia a oeste, uma bola de fogo laranja mergulhando, para lá dos montes, nas profundezas escondidas do oceano. A sua luz, ao morrer, agarrava as formas dos dólmanes e esticava as suas estranhas sombras pelo solo pedregoso à minha frente. Ia até ali todos os Verões desde que vira os viajantes pela primeira vez e aprendera a ler os sinais. A cada dia que passava, o Sol, ao pôr-se, alongava um pouco mais as formas pontiagudas, ao longo do cume do monte, para norte. Quando a maior das sombras me chegava aos pés, ali onde me sentava, no centro do círculo, era chegada a ocasião. No dia seguinte poderia ir até à pista, porque eles estavam a chegar.

 

Havia um padrão. Havia padrões para tudo, se soubéssemos como procurá-los. O meu pai ensinou-me. A habilidade está em ficar de fora, não deixar que eles nos apanhem. Seria um erro pensar que pertencemos a alguém. Pessoas como nós nunca poderiam pertencer a ninguém. Também aprendi isso com ele.

 

Ficava ali ao lado da pista, escondida num arbusto de zimbro, quieta como uma pedra. Ouvia-se, primeiro, o som dos cascos e das rodas das carroças. Em seguida via um ou dois dos rapazes montados em pôneis, cavalgando a frente, atentos a qualquer perigo. Quando chegavam ao topo do monte e passavam pelo sítio onde eu estava escondida, baixavam a guarda e seguiam brincando e rindo, porque já estavam perto do acampamento e de um Verão de boa pesca e relativa facilidade, um tempo em que reparavam e construíam coisas. A estação que passavam ali, na baía, era a coisa mais parecida com uma vida fixa que eles conheciam. Depois, seguia-se uma carroça ou duas, com os velhos e as mulheres sentados no topo e as crianças mais pequenas empoleiradas na carga, ou correndo ao lado. Danny Walker conduzia uma parelha de cavalos e a sua mulher, Peg, a outra. O resto da tribo caminhava, os lenços e cachecóis, de cores vivas, contrastando com a paisagem sombria e cinzenta, que era ali estéril, mesmo sob o calor do Verão que se aproximava. Eu observava e esperava, escondida, sem me atrever a mexer um dedo, sequer. Por fim, vinham os pôneis, conduzidos pelos rapazes mais novos. Era o melhor momento do Verão: a primeira vez que avistava Darragh, montado, pequeno e orgulhoso, no seu cavalo cinzento. Vinha pálido após o Inverno no Norte e de sobrolho franzido, vigiando os animais, sempre alerta, não fosse um deles tentar fugir. Aqueles pôneis rústicos tinham essa tendência, até serem devidamente domesticados. Aquela manada seria treinada durante a estação quente e vendida quando a tribo regressasse ao Norte.

 

Eu não permitia que o movimento de um dedo, ou a piscadela de um olho, me denunciasse. Mas Darragh sabia. Os seus olhos castanhos olhavam para os lados, pestanejando e ele sorria, um sorriso que mais ninguém, se não eu, escondida ao lado da pista, notava. Os viajantes passavam, desapareciam a caminho da enseada e do seu acampamento de Verão e eu ia para casa, correndo pelo monte afora, descendo e atravessando a língua de terra até ao Favo de Mel, que era onde eu e o meu pai vivíamos.

 

O meu pai não gostava muito que eu saísse dali. Mas não me proibia. Era melhor, dizia ele, eu estabelecer as minhas próprias regras. O ofício era muito duro. Em breve descobriria que não deixava tempo para amigos, para brincar, nadar ou pescar e saltar de rocha em rocha, como as outras crianças. Havia muita coisa para aprender. E quando o meu pai estava demasiado ocupado para me ensinar, eu tinha de praticar o que já sabia. As únicas regras que existiam não precisavam de palavras Além disso, não podia ir para longe com o meu pé defeituoso.

 

Eu sabia que para os da nossa espécie a única coisa que contava era o nosso ofício.

Mas Darragh entrou na minha vida sem ser convidado e depois disso transformou-se na minha companhia de Verão e no meu melhor amigo; no meu único amigo, para dizer a verdade. Eu tinha medo das outras crianças e nem sequer imaginava poder juntar-me a elas nos seus jogos violentos. Por seu lado, elas evitavam-me. Talvez tivessem medo, ou talvez fosse outra coisa qualquer. Eu sabia que era mais esperta do que elas. Sabia que podia fazer-lhes o que me apetecesse, se quisesse. No entanto, quando olhava para o meu reflexo na água e pensava nos rapazes e raparigas que via correr pela areia gritando uns para os outros, pescando nas rochas e remendando redes ao lado dos pais e mães, desejava com todo o meu coração ser uma daquelas raparigas errantes, com um lenço vermelho e um xale de longas franjas, empoleirada no alto de uma carroça a caminho, no Outono, das terras distantes do Norte.

 

Nós tínhamos um lugar, um lugar secreto, a meio caminho da encosta, por trás de umas grandes pedras, virado a sudoeste. Abaixo de nós, o promontório escarpado e rochoso do Favo de Mel mergulhava no mar. Lá dentro havia uma rede complicada de grutas, câmaras e passagens secretas, a casa ideal para um homem como o meu pai. Por trás de nós a encosta subia, subia até ao topo do monte, até ao círculo de pedras, descendo depois até à pista das carroças. Para lá estava Kerry e, mais longe ainda, lugares cujos nomes eu desconhecia. Mas Darragh sabia-os e falava-me deles enquanto colhia lenha para fazer uma fogueira e procurava silex e mecha nos bolsos, enquanto eu tirava do saco um pequeno pote e umas ervas secas para fazer chá. Falava-me de lagos e de florestas, de desfiladeiros selvagens e de vales suaves e brumosos. Descrevia como os Noruegueses, cujos assaltos às nossas costas eram tão temidos, se tinham estabelecido ali, casado com mulheres irlandesas e dado à luz crianças que não eram nem uma coisa nem outra. Com um brilho de excitação nos olhos castanhos, falava da grande feira de cavalos no norte. Gesticulava de tal maneira, concentrado, com voz entusiasmada, que se esquecia que tinha de acender a fogueira. Assim, acendi-a eu, apontando para os paus com o meu dedo indicador. A macieira começou a arder instantaneamente e o nosso pequeno pote de água começou a aquecer. Darragh calou-se.

 

— Continua — disse eu. — O velho comprou o pônei, ou não? — Mas Darragh fixou-me de sobrolho franzido, os olhos escuros semicerrados de desaprovação.

— Não devias fazer isso — disse ele.

 

— O quê?

 

— Acender a fogueira dessa maneira. Usar truques de feitiçaria. Quando não é necessário. O que é que o silex e a mecha têm de mal? Eu não teria feito isso.

 

— Por que é que te preocupas? Assim é mais rápido. — Eu estava a deitar uma mão-cheia de folhas secas dentro do pote. O seu cheiro encheu o ar frio da encosta.

 

— Não devias fazê-lo. Não quando não é necessário. — Ele sentia-se incapaz de dar outra explicação e as suas palavras morreram abruptamente. Fizemos o nosso chá, que bebemos em silêncio, sentados, enquanto as aves marinhas voavam e gritavam por cima das nossas cabeças.

 

Os Verões tinham muitos dias daqueles. Quando não era preciso para trabalhar com os cavalos ou para ajudar no acampamento, Darragh ia ter comigo e, juntos, explorávamos as encostas rochosas, os carreiros no alto da falésia, as baías escondidas e as grutas secretas. Ensinou-me a pescar apenas com uma linha e mão firme. E eu ensinei-o a saber que dia era, pela maneira como as sombras se moviam no topo do monte. Quando chovia, o que acontecia muitas vezes no Verão, sentávamo-nos juntos no abrigo de uma pequena gruta, na língua de terra que ligava o Favo de Mel à praia, um local que era quase subterrâneo, mas só quase, porque a luz do dia entrava por cima e a pequena extensão de areia fina ficava de um cinzento-azulado delicado. Eu sentia-me sempre segura naquele local. O céu, a terra e o mar encontravam-se, tocavam-se e separavam-se de novo e o som das pequenas ondas na praia subterrânea era como um suspiro, ao mesmo tempo uma saudação e um adeus. Darragh nunca me disse se gostava, ou não, da minha gruta secreta.

 

Limitava-se a ir até lá comigo, sentando-se a meu lado e, quando parava de chover, saía sem uma palavra.

 

Na encosta crescia uma erva selvagem, uma planta forte, flexível, com um caule verde-claro, sedoso e brilhante. Nós chamávamos-lhe cauda-de-rato, se bem que, provavelmente, tivesse outro nome. Peg e as suas filhas eram excelentes cesteiras e faziam uso daquela erva para os seus melhores e mais bonitos trabalhos, que podiam ser vendidos a uma senhora para, talvez, colher flores, em vez de transportar vegetais ou uma carga pesada de lenha. Darragh também sabia fazer cestos, com dedos longos rápidos e ágeis. Uma ocasião, estávamos junto das pedras, ao fim da tarde, encostados à Sentinela, a olhar para a baía, para o promontório distante e para o mar, a ocidente. As nuvens juntavam-se e o ar estava fresco. Nesse dia eu não podia ler as sombras, mas sabia que nos estávamos a aproximar do fim do Verão e de uma nova separação. Sentia-me triste, zangada comigo mesma por isso, tentando não pensar em mais um Inverno de trabalho duro e dias frios e solitários. Olhava para o chão pedregoso e pensava no ano em si, em como ele se sucedia, como uma serpente mordendo a própria cauda; em como ele rodava como uma roda, sem fim. Os bons tempos regressariam de novo e, depois deles, os maus. Darragh tinha na mão uma porção de caudas-de-rato e tecia-as com habilidade enquanto assobiava baixinho. Darragh nunca estava triste. Não tinha tempo para isso: para ele, a vida era uma aventura, sempre com novas portas a abrirem-se. Além disso, podia ir-se embora, se quisesse. Não tinha coisas para aprender, ou uma arte para aperfeiçoar, como eu.

 

Olhei para os seixos no chão. Sempre à roda, era essa a minha existência, repetindo-se sempre, um ciclo ao qual não podia escapar. Sempre à roda. Eixo e imutável.

Fixei os seixos enquanto eles estremeciam e rolavam; enquanto se moviam obedientemente no chão, à minha frente.

 

— Fainne? — Darragh olhava, de sobrolho franzido, para mim e para as pedras que se moviam na minha frente.

 

— O que é? — A minha concentração quebrou-se. As pedras deixaram de se mover.

 

Agora, formavam um círculo perfeito.

 

— Estende a mão — disse ele.

 

Fiz como ele me pedia, confusa e ele meteu-me no dedo um pequeno anel feito de caudas-de-rato, tão bem feito que não parecia ter qualquer junção, ou fixação.

 

— Para que é isto? — perguntei-lhe, virando o círculo sedoso e flexível uma vez e outra.

Ele estava a olhar de novo para a baía, observando os pequenos curraghs a regressar da pesca.

 

— Para que não te esqueças de mim — disse ele desprendidamente.

 

— Não sejas parvo — disse eu. — Por que me haveria de esquecer de ti?

 

— Talvez esqueças — disse ele virando-se para mim e fazendo um gesto na direção do círculo perfeito das minúsculas pedras. — Pode ser que tenhas de te virar para outras coisas.

 

Senti-me magoada.

 

— Nunca. Nunca.

 

Darragh suspirou e encolheu os ombros.

— Tu ainda és pequena. Não sabes. O Inverno é muito longo, Fainne. Ainda precisas que tomem conta de ti.

 

— Não preciso nada! — respondi eu, levantando-me rapidamente. Quem pensava ele que era, o meu irmão mais velho? — Eu sei muito bem olhar por mim, obrigada. E agora vou para casa.

 

— Eu acompanho-te.

 

— Não é preciso.

 

— Eu acompanho-te. Melhor ainda, faço uma corrida contigo. Só até àqueles arbustos, lá em baixo. Anda.

 

Eu fiquei ali, imóvel, carrancuda.

 

— Eu dou-te avanço — disse Darragh. — Conto até dez.

Não fiz qualquer movimento.

 

— Até vinte, então. Anda lá. — Ele sorriu, um sorriso enorme, irresistível.

 

Eu corri, se é que se pode chamar corrida ao meu passo desastrado, coxeante. Com uma das mãos a segurar a saia, eu corria relativamente depressa, se bem que o piso, pedregoso, exigisse alguma cautela. Estava a meio caminho dos arbustos quando ouvi os seus passos suaves e rápidos mesmo por trás de mim. Nenhuma corrida entre nós poderia ser igual e ambos o sabíamos. Ele podia ter coberto a distância num quarto do tempo que me levou a mim. Mas, de qualquer modo, chegamos ambos exatamente ao mesmo tempo aos arbustos.

 

— Muito bem, filha de feiticeiro — disse Darragh, sorrindo. — Caminhemos, agora, para recuperar o fôlego. Amanhã será melhor.

 

Que idade tinha eu, então? Seis, talvez, e ele um ano ou dois mais velho? Tinha no dedo o anel no dia em que a tribo fez as malas e partiu de novo; no dia em que tive de dizer adeus e ficar à espera. Para ele era ótimo. Tinha lugares aonde ir e coisas para fazer e estava ansioso por montar o seu pônei e partir. No entanto, arranjou algum tempo para se despedir de mim, no alto do monte, sobre o acampamento, porque sabia que eu não me aproximaria do lugar onde a tribo carregava as carroças e se preparava para a jornada. Eu ficava paralisada de timidez, incapaz de agüentar os olhares dos rapazes e das raparigas ou responder às perguntas finas e amáveis de Peg. O meu pai estava junto deles, uma figura alta, encapuçada, falando com Danny Walker, entregando-lhe mensagens e encomendas. À sua volta, as pessoas tinham deixado um círculo amplo, vazio.

— Bem... — disse Darragh.

 

— Bem... — disse eu, tentando utilizar o mesmo tom desprendido e falhando totalmente.

 

— Adeus, Caracóis — disse ele, estendendo o braço para puxar gentilmente um caracol dos meus cabelos, que eram tão ruivos como os do meu pai. — Vejo-te no próximo Verão. Tem cuidado contigo, até eu voltar. — Sempre que se ia embora dizia aquilo; sempre o mesmo. Quanto a mim, nunca tinha palavras.

 

Os dias ficaram mais pequenos e a parte sombria do ano começou. Com Darragh longe, não havia razão para me afastar de casa e, assim, entreguei-me ao trabalho, tentando não reparar no frio que fazia dentro do Favo de Mel, maior, talvez, do que o que fazia no topo do monte, provocado pelo vento de Outono. Era um sentimento doloroso, que se alojava nos ossos e permanecia ali, como um farelo. Eu nunca me queixava. O meu pai ensinara-me a lidar com ele e esperava que eu me comportasse à altura. Não era que um feiticeiro não sentisse o calor do fogo ou a mordidela do vento norte. No fim de contas, um feiticeiro era um homem, não uma criatura do Outro Mundo. O que tínhamos a fazer era ensinar o nosso corpo a fazer-lhe frente, de maneira que o desconforto não nos tornasse mais lentos, ou ineficazes. Tinha quase tudo a ver com a respiração. Mais, não posso dizer.

 

O meu pai foi, em tempos, um druida. Ele dizia que atirara tudo isso para trás das costas quando abandonara a irmandade. Mas um homem não se descarta com essa facilidade de tantos anos de treino e disciplina. Eu compreendia que muito do que aprendia era secreto, para ser partilhado apenas com outros da nossa espécie. Não podia mostrar-me a um ignorante, ou àqueles cujas mentes estavam fechadas. Mesmo hoje, ainda há algumas coisas que não posso nem quero dizer.

 

Havia muitas câmaras no Favo de Mel. Acendíamos lâmpadas durante o ano todo e na grande gruta, onde o meu pai trabalhava, ardiam muitas velas, porque ele armazenava ali os seus rolos e livros, objetos grotescos e prodigiosos metidos em frascos e pequenos sacos com pós de cheiro acre. Havia um basilisco seco e uma taça feita de um corno torcido, encaracolado, a base fixa em pedras vermelhas. Havia uma minúscula caveira, como se fosse de um duende, de olhos vazios. Havia um espesso livro de feitiçaria cuja capa de pele estava escurecida pelos anos e pelo manuseamento. O meu pai passava os dias e as noites naquela gruta, solitário, aperfeiçoando a sua arte, aprendendo, aprendendo sempre.

 

Eu sabia ler e escrever em várias línguas. Podia contar muitas, muitas histórias e fazer ainda mais feitiços. Mas aprendi cedo que a grande magia não está nos livros nem nos rolos de pergaminho. Os grandes feitiços não são criados por meio de truques de mão, poções, filtros ou velhas palavras. Soube-o porque, quando o meu pai trabalhava arduamente, tudo o que ele fazia era permanecer muito quieto no centro de um espaço vazio com os olhos escuros fixos no nada. Porque a magia mais profunda está na mente, não se encontra gravada em rolos de pergaminho, árvores ou pedras. Não está gravada em parte nenhuma. O meu pai devia a sua primeira aprendizagem aos velhos sábios: os druidas da floresta. E desenvolvera-a por meio de dedicação e estudo. Mas o nosso talento para a arte da feitiçaria estava-nos no sangue. O meu pai era filho de uma grande feiticeira e através dela adquirira certas habilidades que utilizava com sensatez, já que eram ao mesmo tempo poderosas e perigosas. Devemos ter cuidado, dizia ele, para não nos aventurarmos demasiado e tocar em coisas sombrias, que é melhor deixar adormecidas. Eu não me lembrava muito bem da minha avó. Lembrava-me vagamente de uma criatura elegante, de vestido azul, que me olhou nos olhos e me provocou uma dor de cabeça. Lembrava-me vagamente de ela me fazer algumas perguntas, às quais eu respondi zangada, não gostando da sua intrusão no nosso mundo ordenado. Mas isso foi há muito tempo, quando eu era uma criança. O meu pai raramente falava nela, salvo para dizer que o nosso sangue estava infectado pelas suas origens, uma sucessão de feiticeiros que não tinham compreendido que algumas fronteiras não deviam, nunca, ser atravessadas. No entanto, dizia o meu pai, ela era poderosa, subtil e inteligente e era minha avó; uma parte dela estava em nós e nunca devíamos esquecê-lo. O que fazia com que nunca pudéssemos viver as nossas vidas como as pessoas normais, com amigos, família e trabalho honesto. Tínhamos talentos excepcionais e isso podia levar-nos para um destino sombrio.

 

Eu tinha oito anos. Era Meán Geimbridb e o vento norte prostrava as árvores despidas. Atirava as ondas contra a falésia, forçando a espuma gelada a entrar nos túneis do Favo de Mel. A praia pedregosa estava cheia de vegetação emaranhada e conchas partidas. Os pescadores tinham os curraghs em terra e as pessoas tinham fome.

 

— Concentra-te, Fainne — disse o meu pai, enquanto os meus dedos gelados se mexiam desajeitadamente. — Usa a cabeça, não as mãos.

 

Cerrei os dentes, semicerrei os olhos e tentei de novo. Era um truque, nada mais.

 

Devia ser fácil. Estender os braços e olhar para a bola de vidro brilhante na prateleira da parede mais afastada, refletindo a luz das velas na sua superfície ilusória.

 

Percorrer a distância com a mente; pensar a distância, pensar o salto. Permanecer quieta. Deixar que a bola faça tudo. Ordenar à bola que venha às minhas mãos.

 

Ordenar que a bola venha. Vem. Vem. Vem a mim, frágil e delicada, redonda e bela, vem às minhas mãos. Estava frio, os meus dedos doíam-me, estava tão frio. Podia ouvir as ondas batendo na rocha, lá fora. Ouvi a bola de vidro esmagar-se no chão de pedra. Os meus braços caíram.

 

— Muito bem — disse o meu pai calmamente. — Vai buscar uma vassoura e varre tudo. — Depois, diz-me porque falhaste.

 

Não havia crítica na sua voz. Como sempre, queria que eu julgasse por mim mesma. Desse modo, aprenderia mais depressa.

 

— Oh... eu estava a pensar noutra coisa — disse eu, varrendo os cacos aguçados como facas. — Permiti que o elo se quebrasse. Desculpe, pai. Eu vou conseguir. Da próxima vez, consigo.

 

— Eu sei — disse ele, regressando ao seu trabalho. — Tenta cem vezes com algo inquebrável. Depois, mostra-me.

 

— Sim, pai. — De qualquer modo, eu tinha demasiado frio para dormir. Era melhor passar a noite a fazer algo útil.

 

Eu tinha dez anos. Estava muito quieta, no meio da gruta do meu pai, com os olhos fixos no nada. Por cima da minha cabeça, a frágil bola pairava, presa por forças invisíveis. Respirei. Lenta, lentamente. Em cada expiração um minúsculo ajustamento. Para cima, para baixo, para a esquerda, para a direita. Gira, disse eu à bola, e ela girou, brilhando à luz das velas. Pára. Agora, circula à minha volta. Os meus olhos não seguiram o movimento firme. Não precisava de o ver para saber da sua obediência à minha vontade. Pára. Agora, cai. A pausa infinitesimal; então, o mergulho, a descida brilhante e resplandecente para a destruição. Pára. O mergulho parou a um palmo do chão de pedra. A bola ficou no ar, à espera. Pestanejei e inclinei-me para pegar nela. O meu pai acenou com a cabeça, solenemente.

 

— O teu controle está a melhorar. Estes truques são relativamente fáceis, claro; mas, para os fazer, é preciso disciplina. Estou contente com os teus progressos, Fainne.

 

— Obrigada. — Os seus elogios eram raros. Geralmente, limitava-se a reconhecer que eu alcançara algo e destinava-me a tarefa seguinte.

 

— Agora, não te tornes complacente.

 

— Não, pai.

 

— Chegou a altura de te aventurares num ramo mais difícil da arte. Vais ter que arranjar novas reservas de força dentro de ti. Pode ser esgotante. Descansa alguns dias. Começaremos em Imbolc. Que ocasião poderia ser mais apropriada? — O seu tom era amargo.

— Sim, pai. — Não lhe perguntei o que queria dizer com aquilo. Eu sabia que fora durante o festival de Brighid que ele conhecera a minha mãe; não que ele falasse alguma vez dela, pelo menos deliberadamente. Essa história estava bem escondida no seu íntimo, e ele era um mestre no que tocava a segredos. O pouco que eu sabia apanhara-o aqui e ali, aos bocados, ao longo dos anos. Ouvira alguma coisa da boca de Peg enquanto esperava por Darragh, escondida por trás de umas árvores.

 

— Ela era muito bonita — dissera Peg à amiga Molly. As duas mulheres estavam sentadas numa manhã de sol, os seus dedos ágeis confeccionando os seus intrincados cestos.

 

— Alta, delgada, com aqueles cabelos cor de cobre a caírem-lhe pelas costas. Parecia uma fada. Mas era um pouco... era um pouco desequilibrada, sabes? Ele tomava conta dela como um lobo olhando pelas crias, mas não conseguiu evitar o que aconteceu. Estava escrito nos olhos dela.

 

— Hum — respondera Molly. — A rapariga sai ao pai, então. Que coisinha estranha.

 

— Ela não pode evitar ser o que é — disse Peg.

 

E lembrava-me de outra vez, num Verão que tinha sido especialmente quente, quando Darragh se mostrara impaciente com a minha recusa em me aproximar da água.

— Por que é que não me deixas ensinar-te a nadar? — perguntara-me ele. — É por causa dela? Do que lhe aconteceu?

 

— O quê? — perguntei. — O que é que queres dizer?

 

— Sabes muito bem. A tua mãe. Por causa... bem, por causa do que ela fez. Pelo menos, é o que dizem. Que tens medo da água porque ela se atirou do Favo de Mel e se afogou.

 

— É claro que não — repliquei, engolindo em seco. — Não quero, simplesmente. — Como poderia ele saber que nunca ninguém me tinha dito nada acerca da morte dela?

 

Tentei imaginar a minha mãe através da figura encantadora que Peg descrevera, mas não consegui. Tudo o que recordava era o meu pai e o Favo de Mel. Algo acontecera há muito tempo, algo que fizera muito mal à minha mãe, ferira o meu pai e marcara o nosso destino. O meu pai nunca me contara nada. No entanto, estava implícito em tudo o que me ensinava.

 

— Chegou a hora — disse o meu pai, olhando-me severamente. — Agora vai ser a sério, Fainne. Pode ser que tenha de te tirar a liberdade este Verão.

— Eu... está bem, pai.

 

— Muito bem. Senta-te aqui ao pé de mim. Olha para o espelho. Olha para o meu rosto.

 

A superfície era de bronze, polida até apresentar um reflexo brilhante. As nossas imagens apresentavam-se lado a lado; os mesmos rostos com alterações subtis. Os caracóis vermelhos-escuros; os olhos intensos, escuros como amoras maduras; a pele pálida, sem sardas. O semblante do meu pai era belo, achava eu, se bem que a sua expressão fosse um pouco desagradável. O meu rosto era o de uma criança ainda informe, franco, redondo. Olhei para o meu reflexo e depois para o do meu pai.

 

Prendi a respiração.

 

O rosto do meu pai estava a mudar. O nariz ficou arqueado, os cabelos vermelhos escuros ficaram grisalhos e a pele enrugada e manchada, como uma velha maçã armazenada durante muito tempo. Olhei, espantada. Ele ergueu uma mão e era a mão de um velho, rugosa, cheia de nós, e unhas como as garras de uma criatura selvagem qualquer. Não conseguia tirar os olhos daquela imagem.

 

— Agora, olha para mim — disse ele calmamente, e era a sua voz. Obriguei os meus olhos a desviarem-se, se bem que o meu coração se contraísse ao pensar que aquele homem a meu lado pudesse ser aquela casca mirrada e não o meu pai, sempre tão animado, sempre tão saudável. E, ali estava ele, o mesmo de sempre, de olhos escuros fixos em mim, o cabelo ainda encaracolado, castanho-avermelhado, brilhante, em redor das têmporas. Olhei de novo para o espelho. O rosto estava a mudar outra vez. Ondulou por momentos e parou. Desta vez a diferença era mais subtil. O cabelo um pouco mais claro, as feições um pouco mais retas. Os olhos azuis-escuros, não os invulgarmente escuros, púrpuras, que o meu pai e eu partilhávamos. Os ombros um tudo nada mais largos, a estatura um palmo mais elevada, o nariz e o queixo com um toque de grosseria que não tinha antes. No entanto, era o meu pai; mas era um homem diferente.

 

— Desta vez — disse ele quando tirares os olhos do espelho, verás o que eu quero que vejas. Não tenhas medo, Fainne. Continuo a ser a mesma pessoa. A isto chamamos Encantamento, uma coisa que fazemos para nos disfarçarmos com um propósito especial. É uma ferramenta poderosa, se utilizada como deve ser. Não é tanto uma alteração da aparência, antes uma mudança na percepção dos outros. Esta técnica deve ser exercitada com extrema precaução.

 

Quando olhei, o homem a meu lado era o homem do espelho; era o meu pai, mas não era o meu pai. Pestanejei, mas ele continuou a não ser ele. O meu coração batia-me no peito e tinha as mãos pegajosas.

 

— Muito bem — disse o meu pai calmamente. — Respira devagar, como te mostrei. Controla o medo e põe-no de lado. Esta habilidade não é aprendida num dia, numa estação, ou num ano. Terás de trabalhar arduamente para a conseguir.

 

— Nesse caso, por que razão não ma ensinou antes? — consegui dizer, ainda profundamente confusa por vê-lo tão mudado. Teria sido melhor se ele se tivesse transformado num cão, num cavalo, ou até num pequeno dragão; mas aquilo... aquela versão dele próprio.

— Era muito cedo. Agora, estás na idade certa. Vem. — E, subitamente, era ele de novo, tão rápido como um estalar de dedos. — Passo a passo. Usa o espelho. Começaremos pelos olhos. Concentra-te, Fainne. Respira pela barriga. Olha para o espelho. Olha para o ponto entre as sobrancelhas. Isso. Obriga o teu corpo a uma imobilidade total... põe de lado o tempo que passa... Vou ajudar-te com algumas palavras. Com o tempo, terás de aprender a fazê-lo sem o espelho e sem o feitiço.

 

Ao anoitecer estava exausta, a cabeça vazia como uma abóbora seca e o corpo frio e encharcado em suor. Descansamos, sentados um em frente do outro no chão de pedra.

 

— Como é que eu sei — perguntei-lhe — como é que eu sei qual é a imagem e qual não é? Como é que eu sei se o que vejo é mesmo o pai? Podia ser um velho feio, todo enrugado, vestido com o Encantamento de um feiticeiro.

 

O meu pai acenou com a cabeça, as suas pálidas feições sombrias.

 

— Não sabes.

 

— Mas...

— É possível, para alguém perito nesta arte, permanecer disfarçado durante anos, se necessário. É possível esse alguém enganar toda a gente. Ou quase toda a gente. Como já disse, é uma ferramenta poderosa.

 

— Quase toda a gente?

 

Ele ficou silencioso por um momento e depois acenou com a cabeça.

 

— Não enganarias outro praticante da nossa arte com esta magia. Há três pessoas, penso, que saberiam sempre quem tu és: um feiticeiro, um vidente e um inocente. Pareces cansada, Fainne. Talvez devas descansar e recomeçar amanhã.

 

— Sinto-me bem, pai — disse eu, ansiosa por não o desapontar. — Posso continuar, a sério. Sou mais forte do que pensa.

 

O meu pai sorriu; uma visão rara. Aquela mudança pareceu-me mais profunda do que a provocada por qualquer Encantamento; como se estivesse a olhar para outro homem, o homem que ele poderia ter sido, se o destino o tivesse tratado com mais gentileza.

— Por vezes, esqueço-me da tua idade, filha — disse ele gentilmente. — Sou um professor muito duro, não sou?

 

— Não, pai — disse eu. Os olhos ardiam-me, como se fosse chorar. — Eu sou suficientemente forte.

 

— Oh sim — disse ele, a boca novamente severa. — Nunca duvidei. Vamos, então. Recomecemos.

 

Tinha doze anos e por algum tempo, fui mais alta do que Darragh. Nesse Verão o meu pai não me deixou sair muito. Quando me dava algum tempo de descanso, saía do Favo de Mel e subia ao topo do monte, já não muito certa de que me era permitido, mas ainda sem estar preparada para pedir autorização e ela ser-me recusada. Darragh estava à minha espera tocando gaita-de-foles, como sempre, porque Dan ensinara-o e o exercício dessa habilidade era, para ele, mais um prazer do que um dever. Já não explorávamos as grutas, não caminhávamos ao longo da praia em busca de conchas nem fazíamos pequenas fogueiras. Ficávamos sentados, a maior parte do tempo à sombra das pedras, ou num buraco na beira da falésia, conversando, e eu regressava depois a casa com o som doce da gaita-de-foles soando no ar atrás de mim. Digo que conversávamos, mas, geralmente, era Darragh que falava e eu ouvia, feliz por estar ali sentada com ele. Porque, de que havíamos nós de falar? As coisas que eu fazia eram secretas, não as podia contar. E o mundo de Darragh era-me desconhecido, estranho, como uma espécie de sonho, que nunca se realizaria.

 

— Por que é que ele não te leva para Sevenwaters? — perguntou-me ele um dia algo imprudentemente. — Nós já lá estivemos uma ou duas vezes, sabes? Ainda lá vive uma velha tia do meu pai. Tu tens uma família inteira naquelas bandas: tios, tias e uma data de primas. Serias bem-vinda, tenho a certeza.

 

— Por que o faria ele? — Olhei para ele, encontrando alguma crítica, se bem que indireta, na sua expressão.

 

— Porque... — Darragh parecia lutar com falta de palavras. — Porque... bem, porque é assim com as famílias. Crescemos em conjunto, fazemos coisas em conjunto, aprendemos uns com os outros, tomamos conta uns dos outros e... e...

 

— Eu tenho o meu pai. Ele tem-me a mim. Não precisamos de mais ninguém.

 

— Isso não é vida — resmungou Darragh. — Isso não é vida para uma rapariga.

 

— Eu não sou uma rapariga, sou filha de um feiticeiro — retorqui, erguendo as sobrancelhas para ele. — Não preciso ir para Sevenwaters. A minha casa é aqui.

 

— Estás a fazer aquilo outra vez — disse Darragh após um momento.

— O quê?

 

— Aquilo que fazes quando estás zangada. Os teus olhos começam a brilhar e umas faiscazinhas percorrem-te o cabelo, como se fossem chamas. Não me digas que não sabias.

 

— Muito bem, então — disse eu, pensando que teria de exercer mais controlo sobre os meus sentimentos.

 

— Muito bem o quê?

 

— Que isso demonstra, precisamente, o que eu disse. Que eu não sou apenas uma rapariga. Por isso, deixa de planear o meu futuro. Eu sou muito bem capaz de o planear.

 

— Hum-hum. — Ele não me pediu pormenores. Ficamos ali sentados em silêncio por um bocado, vendo as gaivotas a voar por cima dos curraghs que regressavam. O mar estava escuro como ardósia; antes do anoitecer estalaria a tempestade. Ao fim de um certo tempo ele começou a falar-me do pônei branco que trouxera dos montes e como o seu pai quereria que ele o vendesse por um bom preço na feira de cavalos, mas Darragh não tinha a certeza se conseguiria separar-se dele, porque havia um entendimento cada vez maior entre ambos. Quando ele acabou, eu estava extasiada e já me tinha esquecido de que me tinha zangado com ele.

Tinha catorze anos e o Verão estava quase no fim. O meu pai estava satisfeito comigo, podia vê-lo nos seus olhos. O Encantamento era difícil. Era possível conseguir resultados espetaculares. O meu pai era capaz de se transformar num ser completamente diferente: numa raposa vermelha de olhos brilhantes ou numa estranha criatura, fantasmagórica, parecida com um pouco de fumo. Ele disse-me os seus nomes, mas não me permitiu que tentasse o mesmo. Era perigoso se usado irrefletidamente. O risco estava em não conseguir inverter o processo. Havia sempre a hipótese de não regressar. Além disso, disse-me o meu pai, aquelas transformações provocavam um desgaste nos poderes de um feiticeiro. Quanto mais longe da aparência normal se fosse, maior era o esgotamento.

 

Se eu me transformasse, por exemplo, num feroz monstro marinho, ou numa águia com garras afiadas e depois conseguisse regressar à minha forma. Durante um certo tempo, depois disso, nenhum exercício da arte seria possível. Poderia durar um dia, ou uma noite. Durante esse tempo o feiticeiro estaria por sua conta, totalmente vulnerável.

 

Assim, eu estava proibida de tentar as variantes maiores do feitiço, que diziam respeito a formas não-humanas. Mas as outras, as mudanças mais subtis, descobri que tinha talento para elas. A princípio foi difícil, deixando-me exausta e a tremer.

 

Mas apliquei-me e, com o tempo, era capaz de entrar e sair do Encantamento num abrir e fechar de olhos. Aprendi a esconder o cansaço.

 

— Deves compreender — disse o meu pai gravemente — que o que crias é apenas uma ilusão aos olhos das outras pessoas. Se o teu disfarce é subtil, apenas uma alteração da tua própria pessoa, as pessoas não se aperceberão de que as coisas mudaram. Perguntarão apenas por que razão não repararam antes como eras encantadora, ou como a tua expressão é digna de confiança. Não saberão que foram manipuladas. E quando regressares à tua forma normal, elas não se lembrarão de te terem visto de outra maneira. Um disfarce completo é outra coisa. Deve ser utilizado com muito cuidado. Pode criar dificuldades. É melhor manteres o teu disfarce o mais próximo possível da tua forma original. Dessa maneira podes regressar facilmente e recuperar as forças rapidamente. Desculpa-me por um momento. — O meu pai virou-me as costas, reprimindo uma tosse profunda.

 

— Sente-se bem? — perguntei. Não era normal ele ter mais do que um espirro, mesmo nos Invernos mais rigorosos.

 

— Estou bem, Fainne — disse ele. — Não te preocupes. Lembra-te do que te disse acerca do Encantamento. Se usares as formas diferentes, corres um risco muito grande.

 

— Mas eu sou capaz — protestei. — Transformar-me numa ave, ou numa serpente. Tenho a certeza de que sou capaz. Não posso, ao menos, tentar?

 

O meu pai olhou para mim.

 

— Dá-te por feliz — disse ele por não precisares. — Acredita que é perigoso. É um feitiço de recurso.

Já não era possível afastar-me dos meus estudos. Mal tinha visto o Sol em todo o Verão, porque o meu pai conseguira que uma das raparigas locais nos levasse ao Favo de Mel as provisões de pão, peixe e vegetais de que necessitávamos. Havia uma nascente numa das galerias mais profundas e agora era ele que ia lá buscar água. Eu ficava a estudar. Treinava-me para não me importar. A princípio custava-me muito, sabendo que Darragh estaria algures à minha procura, à minha espera.

 

Mais tarde, quando ele deixou de esperar, ainda me doeu mais. Escapava por breves momentos até uma plataforma sobre a água, um local secreto acessível apenas a partir das passagens abobadadas do Favo de Mel. Daquele ponto vantajoso conseguia ver a baía toda, desde o nosso lado, com as falésias a pique e as ondas a baterem, até ao fundo, a ocidente, onde o promontório abrigava as casas espalhadas e o acampamento alegre e desleixado dos nômades. Conseguia ver os rapazes e as raparigas a correrem na praia e ouvir os seus risos, trazidos pelo vento, misturados com os gritos das gaivotas. Darragh estava entre eles, agora mais alto, porque crescera durante o Inverno. O seu cabelo escuro era atirado para trás pelo vento e o seu sorriso estava mais torcido do que nunca. Havia sempre uma rapariga à volta dele, por vezes duas ou três. Reparei, em particular, numa, uma coisinha esguia com a pele tisnada pelo sol e uma grande trança pelas costas abaixo. Onde quer que Darragh estivesse, ela não estava longe, os dentes brancos faiscando num sorriso e a mão na anca, olhando. Sem qualquer razão especial, odiei-a.

 

Os rapazes costumavam mergulhar das rochas mesmo por baixo do Favo de Mel, inconscientes da minha presença na saliência acima. Estavam na idade em que se acham invencíveis, quando cada rapaz é um herói, que pode matar todos os monstros que se atravessam no seu caminho. A saliência que escolheram era estreita e escorregadia; o mar era sombrio, frio e traiçoeiro. O mergulho tinha de ser calculado ao instante, para evitar a força de uma onda que os esmagaria contra as rochas aguçadas na base do Favo de Mel. Eles mergulharam uma e outra vez, três ou quatro ao mesmo tempo, esperando o momento, os pés descalços agarrando a rocha, os corpos morenos ao sol, enquanto as raparigas e as crianças mais pequenas observavam da praia, silenciosas, em antecipação. Então, subitamente e de modo chocante apesar das muitas repetições, o mergulho para as águas ameaçadoras. Nesse Verão vi-os duas ou três vezes. A última vez que lá fui, vi Darragh abandonar a saliência e subir até mais alto, ágil como um caranguejo, agarrando-se às fendas da falésia, trepando até se empoleirar numa minúscula pedra muito acima do primeiro ponto de mergulho. Prendi a respiração, chocada. Ele não ia... certamente não ia...?

Mordi o lábio e senti sangue; fechei as mãos com tanta força que as unhas me cortaram as palmas. O louco. Por que havia ele de tentar tal coisa? Como é que ele podia...?

 

Darragh ficou imóvel por um momento enquanto a audiência se calava e ficava gelada, sentindo, sem dúvida, o mesmo terror fascinante que eu sentia. Lá em baixo, muito lá em baixo, as ondas esmagavam-se e sugavam e lá no alto as gaivotas gritavam avisos. Darragh não ergueu os braços para mergulhar. Inclinou-se apenas para a frente e caiu a prumo, de cabeça, direito como uma seta, os braços encostados ao tronco, sempre, sempre, até que o seu corpo entrou na água como uma ave marinha em busca de peixe; e eu vi uma onda passar por cima do local onde ele tinha desaparecido, e outra, e uma terceira, enquanto o meu coração batia de medo, como um tambor, e então, muito mais longe, na direção da praia, emergiu da água uma cabeça escura, toda molhada e ele começou a nadar e ouviu-se um viva dos rapazes na saliência e das raparigas na areia e quando ele saiu da água, a escorrer e a rir, lá estava ela para o felicitar e para lhe oferecer o xale dos seus próprios ombros, para ele se enxugar.

 

Nesse dia não me concentrei muito bem e o meu pai pousou em mim aquele olhar vivo, mas não disse nada. Tinha de decidir se voltaria lá, ou não, para os ver. O que o meu pai me tinha dito era verdade. Um feiticeiro, ou a filha de um feiticeiro não podia fazer as tarefas requeridas, não podia praticar a arte totalmente, se outras coisas se atravessavam no seu espírito.

 

Estávamos a aproximar-nos de Lugnasad e daquele fim de Verão quando o meu pai me contou, por fim, a sua história. Sentamo-nos à lareira após um longo dia de trabalho, bebendo cerveja. Em ocasiões como aquelas ficávamos silenciosos, cada um absorvido nos seus próprios pensamentos. Eu observava o meu pai enquanto ele olhava para as chamas e pensava que ele estava a perder peso, os ossos da face aparecendo por baixo da pele. Até estava mais pálido do que habitualmente. Ensinar-me devia ser um fardo, por vezes. Não admirava que parecesse cansado. Teria de trabalhar mais.

— Tu sabes que descendemos de uma linha de feiticeiros, Fainne — disse ele subitamente, como se estivesse a seguir um pensamento.

 

— Sim, pai.

 

— E compreendes o que isso quer dizer?

 

Eu não compreendia por que razão ele me estava a perguntar aquilo

 

— Que não somos iguais às outras pessoas, e nunca poderemos ser. Somos uma espécie à parte, nem uma coisa, nem outra. Podemos exercer a arte para o propósito que escolhermos. Mas alguns elementos da magia estão para além de nós. Podemos entrar no Outro Mundo, mas não lhe pertencemos. Vivemos neste mundo, mas nunca lhe pertencemos.

 

— Muito bem, Fainne. Em teoria, compreendes, muito bem. Mas não é a mesma coisa ir por esse mundo e descobrir o que isso significa. Tu não sabes a dor que esta semi-existência pode provocar. Diz-me, lembras-te da tua avó? Ela esteve aqui há muito tempo; talvez há mais de dez anos. Talvez te tenhas esquecido dela.

Eu franzi o sobrolho, concentrando-me.

 

— Creio que me lembro. Ela tinha uns olhos iguais aos seus e olhou para mim de tal maneira que a cabeça me doeu. Perguntou-me o que tinha aprendido e quando eu lhe disse, ela riu-se. Desejei que se fosse embora.

 

O meu pai acenou com a cabeça, de modo severo.

 

— A minha mãe já não pode andar por esse mundo. Fica nos lugares mais sombrios; mas não podemos esquecer-nos dela, nem da sua arte. Nós transportamos o seu legado, tu e eu, quer queiramos quer não e é através dela que somos ambos menos e mais do que pessoas normais. Eu não desejava dizer-te mais do que isto, mas chegou a hora. Queres ouvir a minha história?

 

— Quero, pai — sussurrei, chocada.

 

— Muito bem. Ficas a saber, então, que durante dezoito anos da minha vida vivi na floresta sob a proteção e sustento dos sábios. O que aconteceu antes não me lembro, porque fui para a grande floresta de Sevenwaters quando era ainda bebê. Os carvalhos e os freixos eram a minha companhia; dormia nos ramos das sorveiras bravas, os melhores para ouvir as vozes dos espíritos e usava o traje de iniciado. Foi uma infância de disciplina e ordem; frugal na alimentação, suficiente para as necessidades do corpo, mas rica na alimentação da mente e do espírito, privado dos elementos básicos da existência de um homem, rodeado pela beleza das árvores, dos rios, dos lagos e das pedras musgosas. Cresci a gostar de aprender, Fainne. Tentei incutir esse amor em ti, ao longo dos anos da tua infância. Devo a maior parte do meu treino para me tornar num druida a um homem chamado Conor, que foi o líder dos sábios durante o tempo em que lá estive. Ele interessou-se particularmente pela minha educação. Conor era um professor muito difícil. Nunca dava uma resposta direta a uma pergunta. Apontava-me sempre a direção certa, mas deixava que eu encontrasse, por mim, as respostas. Aprendi rapidamente e queria sempre mais. Progredi; cresci e tornei-me num jovem. Conor não me felicitava facilmente. Mas estava contente comigo e, mesmo antes de eu completar o meu treino e poder, por fim, chamar a mim próprio druida, permitiu-me que o acompanhasse à grande casa de Sevenwaters para o assistir no ritual de Imbolc.

 

“Era a primeira vez que eu saía das profundezas da floresta. Era a primeira vez que eu via outras pessoas, para além dos meus irmãos sábios. Conor celebrou o ritual, acendeu o fogo sagrado e eu transportei a tocha por ele. Foi o culminar de longos anos de treino. Depois de comermos, ele permitiu que eu contasse uma história às pessoas reunidas. E estava orgulhoso: podia vê-lo no seu rosto, apesar da sua extraordinária capacidade para esconder os seus pensamentos. Havia uma alegria no meu coração, nessa noite, como se a mão da própria deusa me tivesse tocado o espírito e me tivesse indicado o caminho que eu seguiria alegremente durante o resto da minha vida. A partir de então, pensei, dedicar-me-ia aos caminhos da Luz.

 

“Sevenwaters é uma grande casa e um grande túath. Um homem chamado Liam era o senhor, irmão de Conor. E havia uma irmã, Sorcha, de quem se diziam coisas maravilhosas. Era uma contadora de histórias notável, e uma famosa curandeira e a sua própria história era a mais estranha de todas. Os seus irmãos foram transformados em cisnes por uma feiticeira maligna e Sorcha conseguiu que eles regressassem à forma humana por meio de uma grande coragem e sacrifício. Olhando para ela, era difícil acreditar que fosse verdade, porque era tão pequenina, tão frágil! Mas eu sabia que era verdade. Conor dissera-me; Conor, que também ele tomou a forma de uma criatura selvagem durante três longos anos. São uma família de considerável poder e influência e possuem capacidades para além do normal. Naquela noite tudo era novo para mim. Uma casa grande; uma festa com mais comida do que alguma vez vira, travessas de coisas boas, cerveja em abundância, luzes, música e dança. Senti uma certa... dificuldade. Era um estranho. Mas fiquei e observei. Vi uma rapariga linda, maravilhosa, a dançar, a rodopiar e a rir, com os cabelos cor de cobre a caírem-lhe pelas costas abaixo e a pele, dourada, a brilhar à luz dos archotes. Mais tarde, no grande salão, foi para ela que contei a minha história. Naquela noite não foi com a deusa nem com os meus nobres ideais que sonhei, mas com Niamh, filha de Sevenwaters, dançando e girando no seu vestido azul e sorrindo sempre que olhava para mim. Não eram essas as intenções de Conor, quando me levou com ele à festa. Mas, uma vez aquilo começado, não havia regresso possível. Eu amava-a; ela amava-me. Encontramo-nos na floresta, em segredo. Certamente que haveria dificuldades se tornássemos conhecidas as nossas intenções. Um druida pode casar, se assim o quiser, mas é raro. Além disso, Conor tinha planos para mim e eu sabia que ele não gostaria da idéia. Niamh não estava prometida a ninguém, mas disse que a sua família talvez levasse algum tempo a aceitar a idéia de ela casar com um jovem cuja família era inteiramente desconhecida. No fim de contas, era sobrinha do próprio Lorde Liam. Mas, para nós, não havia alternativa. Não conseguíamos ver um futuro em que estaríamos separados. Assim, encontrávamo-nos sob os carvalhos, longe dos olhares e quando estávamos juntos as dificuldades desapareciam. Éramos jovens. Parecia que tínhamos todo o tempo do mundo.

 

O meu pai fez uma pausa para tossir e bebeu um gole de cerveja. Senti que tinha dificuldade em contar aquela história e guardei silêncio.

 

— Com o tempo, fomos descobertos. Como, não interessa. O sobrinho de Conor foi à floresta a cavalo, trouxe o tio e eu ouvi o suficiente para saber que Niamh estava metida em sarilhos. Quando cheguei a Sevenwaters fui metido numa pequena sala e lá estava o próprio Conor, o seu irmão, que era o senhor do túath e o pai de Niamh, o bretão. Esperava encontrar alguma oposição. Esperava defender a minha causa, de maneira a que Niamh se tornasse minha mulher; pelo menos, conseguir apresentar as minhas credenciais e permitir que me ouvissem. Mas isso não aconteceu. Não haveria casamento. Eles não estavam interessados no que eu tinha para dizer. Foi um desastre. Mas não foi tudo. A razão porque aquele casamento nunca se realizaria não era a que eu esperava. Não era a minha falta de nascimento, ou falta de recursos. Era uma questão de sangue. Porque eu não era, como acreditava, um tipo de nascimento obscuro, adotado e sustentado pelos sábios. Havia uma grande mentira; uma verdade vital escondida. Eu era o fruto de uma feiticeira, uma inimiga de Sevenwaters. Ao mesmo tempo, era o sétimo filho de Lorde Colum, o anterior senhor do túath.

Fiquei a olhar para ele.

 

— Filho de um chefe de guerra, de sangue nobre, e não lhe tinham dito; não fora justo. O filho de Lorde Colum; mas... isso queria dizer...

 

— Sim — disse o meu pai estudando o meu rosto com uns olhos muito sérios — eu era meio irmão de Conor e de Lorde Liam, o senhor de Sevenwaters, e de Sorcha. Tinha sangue maldito. E estava demasiado próximo de Niamh. Era meio-irmão da mãe. A nossa união era proibida por lei. Assim, de repente, perdi a minha amada e o meu futuro. Como poderia o filho de uma feiticeira aspirar aos caminhos da Luz? Como poderia o fruto de uma feiticeira tornar-se num druida? Era o fim de uma visão, o fim de todas as esperanças. Quanto a Niamh, tinham o seu futuro planeado. Casaria com outro qualquer, provavelmente um chefe de guerra com influência, que a levaria convenientemente para longe, para que não tivessem de pensar em como estivera quase a manchar a honra da família.

 

Havia uma amargura terrível na sua voz. O meu pai pousou a caneca de cerveja no chão e uniu as mãos.

 

— É terrível — murmurei. — Terrível e triste. Foi o que aconteceu? Mandaram-na para longe?

 

— Casou-se e foi para Tirconnell. O marido tratou-a cruelmente. Durante algum tempo não soube nada, porque fui para longe em busca do meu passado. Isso é outra história. Por fim, Niamh escapou. A irmã dela soube da sua situação e ajudou-a. Depois, mandaram-me uma mensagem e eu fui ter com ela. Mas o mal estava feito, Fainne. Ela nunca recuperou.

 

— Pai?

 

— O que é, Fainne? — Parecia terrivelmente cansado; a sua voz estava fraca e rouca.

 

— A minha mãe não foi feliz aqui, em Kerry?

 

Pensei, por uns momentos, que ele não ia responder. Pareceu-me que ele teve que procurar as palavras no fundo da alma.

 

— A felicidade é relativa. Houve momentos de contentamento; o teu nascimento foi um deles. Niamh acreditou que tinha, por fim, feito algo de bom. E eu pensei que ela tinha recuperado; mas não estava preparado para o que aconteceu no fim. Parece que nunca conseguiu recuperar o que perdera. Talvez a sua resposta final fosse a única que lhe restava.

 

— É uma história muito triste — disse eu. — Mas ainda bem que ma contou.

— Foi necessário contar-ta, Fainne — disse o meu pai muito calmamente. — Tenho de ter em consideração o teu futuro. Creio que chegou a hora de seguires em frente.

 

— Que quer dizer com isso, seguir em frente? — O meu coração começou a bater como um tambor em sinal de alarme. — Posso começar a aprender outros ramos da arte? Estou morta por começar, pai. Prometo que trabalharei arduamente.

 

— Não, Fainne, não é isso que quero dizer. Chegou a hora de tu partires por algum tempo, para te dares a conhecer à família de quem te falei, aos que já esqueceram por completo que Niamh existiu e lhes poderia causar embaraço e incômodo. Chegou a hora de ires para Sevenwaters.

 

— O quê? — Estava espantada. — Deixar Kerry, deixar a enseada, viajar aquela distância toda para acabar no meio daqueles que tinham tratado os meus pais de maneira tão abominável que nunca mais tinham podido regressar a casa? Como podia ele sugerir tal coisa?

 

— Fainne, acalma-te e ouve. — O meu pai tinha um ar muito grave; a luz da fogueira permitia-me ver os sulcos do seu rosto, uma sombra do ancião que se aproximava. Reprimi uma porção de perguntas. — Estás a ficar mais velha — disse ele. Tu és neta de um chefe de guerra do Ulster, o outro lado da tua linhagem não muda isso. A tua mãe não quereria que crescesses aqui sozinha, comigo, conhecendo apenas este círculo restrito de pescadores e nômades e passando a vida a praticar a arte. Há um mundo lá fora, filha, deves ir em frente e ocupar nele o lugar que te pertence. Os da floresta têm uma dívida a pagar e paga-la-ão.

— Mas, pai... — As suas palavras não faziam qualquer sentido para mim; eu só sentia o terror de ser mandada embora, de deixar o único lugar seguro que eu conhecia em todo o mundo. — A arte, o que me está a dizer, a arte é a única coisa que interessa, passei tanto tempo a aprender e agora sou boa, mesmo boa, o pai disse-o...

 

— Calma, Fainne. Respira devagar; acalma a tua mente. Não precisas de te afligir. Não tenhas medo de perder as tuas capacidades ou a oportunidade de as utilizar uma vez afastada daqui. Preparei-te suficientemente bem para que isso aconteça.

 

— Mas... Sevenwaters? Uma casa tão grande, com tantos estranhos... pai, eu... eu não consigo explicar como isso me assusta.

 

— Não há necessidade de tanta ansiedade. É verdade, Sevenwaters foi um local de tristeza e perda, tanto para mim como para a tua mãe. Mas as pessoas dessa família não são todas más. Eu não tenho querelas nenhumas com a irmã da tua mãe. Liadan fez-me, um dia, um grande favor. Se não fosse ela, Niamh nunca teria escapado daquela farsa de casamento. Não o esqueci. Liadan seguiu o caminho da mãe ao casar com um bretão. Foi contra a vontade de Conor; aliou-se a um fora-da-lei e tirou o filho da floresta. Tanto Liadan, como o marido, são boas pessoas, se bem que possa passar algum tempo antes que os possas ver, porque vivem em Harrowfield, do outro lado do mar. Mas deves conhecer Conor. Quero que ele te conheça. Estarás à altura, Fainne. Irás no próximo Verão; tens um ano para te preparares. As coisas que eu não te posso ensinar, ser-te-ão ensinadas pela minha mãe. — Os seus lábios torceram-se num sorriso triste.

 

— Oh — disse eu em voz baixa. — Ela vem cá? A minha avó?

— Mais tarde — replicou o meu pai, friamente. — Podemos não gostar muito, mas a minha mãe tem um papel a desempenhar nisto tudo e não há dúvida de que ela tem capacidades que te serão úteis. Num lugar como Sevenwaters tens de ser capaz de te conduzir, em tudo, como a filha de um chefe de guerra. E nunca conseguirás aprender isso comigo. Adquiri conhecimentos profundos na floresta, mas nunca descobri como entrar no mundo como filho de Lorde Colum.

 

— Lamento, pai — disse eu, consciente de que a minha tristeza não era nada comparada com a dele. — Mas pensei... pensei que um dia seria como o pai, um grande erudito, um grande mágico. Aquilo que me ensinou, as longas estações de prática e estudo, não se perderão se eu for para o pé de uma... senhora?

 

Os lábios do meu pai curvaram-se.

 

— Creio que empregarás todas as tuas capacidades em Sevenwaters — disse ele. — Ensinei-te a arte como a minha mãe me ensinou a mim podes ter a certeza — acrescentou ele ao ver os meus olhos abertos de surpresa. — Ela é uma perita, sem igual, em certos ramos da magia. Como tal, não precisa de estar presente, fisicamente, para te ensinar.

 

Pensei na câmara fechada, nos longos períodos de silêncio. Na verdade, guardara bem os seus segredos.

— Eu não a convido para aqui de ânimo leve, Fainne. A minha mãe é uma mulher perigosa. Mantive-a afastada de ti enquanto pude, mas agora precisamos dela. Chegou a hora. Não tenhas receio. És minha filha e sinto-me orgulhoso das tuas capacidades e de tudo o que conseguiste. O fato de te mandar para Sevenwaters é um sinal da grande fé que tenho em ti, Fainne, fé nos teus talentos e confiança na tua habilidade para encontrar o caminho certo para eles. Espero que um dia percebas o que quero dizer. Agora, é tarde e temos trabalho para fazer amanhã. É melhor ires dormir, filha.

 

Sentia-me profundamente chocada pelo que o meu pai me dissera e muito perturbada. Mas um ano era muito tempo. Pode acontecer muita coisa num ano. Talvez eu não precisasse de ir. Talvez ele mudasse de idéias. Entretanto, só me restava continuar com o exercício da arte, porque, se acontecesse o pior e o meu pai me mandasse embora sozinha, queria estar em condições de me ajudar a mim própria. Pus de lado os meus receios e dediquei-me ao trabalho. O tempo estava quente, mas o meu pai continuava com uma tosse persistente e com dificuldade em respirar. Ele tentava escondê-la, mas eu ouvia-o à noite, quando estava acordada na escuridão.

 

Continuei a exercitar-me com o espelho. Gradualmente reduzi o encantamento a algumas palavras apenas. Pus os meus olhos azuis, ou verdes, ou cinzentos. Dei-lhes forma longa e oblíqua, redonda como os de um gato, de longas pestanas, bulbosos, afundados nas órbitas e velhos. À medida que a estação avançava evoluí para outras partes do rosto - o nariz, a boca, os ossos da face. O cabelo. A roupa. Uma velha andrajosa, talvez um futuro disfarce. Uma rapariga pescadora com a mão na anca, com o seu sorriso sedutor e dentes brancos, brilhantes. Uma Fainne parecida comigo própria, quase uma gêmea, mas com mudanças subtis. Os lábios mais doces, as maçãs-do-rosto mais arqueadas, as pestanas maiores. A figura mais delgada e mais curvilínea. A pele pálida e delicada, translúcida, como uma pérola. Uma Fainne perigosa.

 

— Muito bem — disse o meu pai, observando-me enquanto eu mudava de um disfarce para outro. — Tens aptidão para isso, não há dúvida. A semelhança é muito convincente. Mas, pergunto a mim próprio se conseguirás aguentá-la?

 

— É claro que consigo — respondi instantaneamente.

 

— Experimente.

 

— Está bem.

 

O meu pai reuniu um conjunto de rolos de pergaminho, cartas e um saco de pele de cabra muito bem apertado com uma fita, cujo conteúdo podia ser uma coisa qualquer.

 

— Leva isto. O passeio vai-te fazer bem.

 

E encaminhou-se para a saída, os seus pés calçados com sandálias sem fazerem ruído no chão de pedra.

 

— Onde vamos? — Sentia-me desconfiada e apressei-me para o acompanhar, ainda com o disfarce de mim própria.

 

— Dan vai para o Norte amanhã. Tenho assuntos que quero que ele resolva por mim e mensagens para ele entregar. Mantém-te assim. Age como tal. Mantém esse disfarce. Quero ver a tua força.

 

— Mas... eles não vão reparar que eu estou... diferente?

 

— Há um ano que não te vêem. As raparigas crescem muito depressa. Não precisas de te preocupar.

 

— Mas...

 

O meu pai olhou para mim por cima do ombro quando saímos do Honeycomb para o carreiro na falésia. A sua expressão era neutra.

 

— Há algum problema? — perguntou.

— Não, pai. — Não havia problema nenhum. Apenas Dan, Peg e os outros homens e mulheres com os seus olhares penetrantes e os seus comentários. Apenas as raparigas com os seus risinhos e sussurros e os rapazes com as suas brincadeiras. Apenas o fato de nunca ter ido ao acampamento sem a companhia de Darragh, durante todos aqueles anos em que a tribo de Dan Walker passava o Verão na baía. Apenas o fato de ir para o meio de um povo que continuava a aterrorizar-me, apesar de ser filha de um feiticeiro, porque os meus truques não escondiam o meu defeito, o meu passo esquisito e a minha timidez de deficiente.

 

Mas, pensei, enquanto seguia a figura encapuçada do meu pai, que caminhava com grandes passadas pelo carreiro abaixo na direção da enseada: eu hoje não sou essa rapariga: não sou essa Fainne. Em vez disso, sou o que me apetece. Sou a outra Fainne, envolta no Encantamento, com um vestido elegante, os caracóis suaves como seda, o passo firme, as pestanas longas e reviradas e um belo sorriso. Dan, Peg e os outros ver-me-iam e admirar-me-iam sem repararem na mudança.

 

— Pronta? — perguntou o meu pai em voz baixa enquanto percorríamos o carreiro e avistávamos a tribo preparando o gado e os pertences para a partida do dia seguinte.

 

Os cães corriam e ladravam, as crianças perseguiam-se umas às outras por entre as carroças, os cavalos e as pernas dos homens e mulheres ocupados nas suas tarefas.

 

Quando nos aproximamos e fomos avistados, as pessoas afastaram-se como era seu hábito, deixando um espaço em redor do meu pai. Ele continuou, imperturbável, com grandes passadas, até que avistou Dan Walker a ajustar uns arreios. Um par de rapazes aproximava-se com dois pôneis, vindos da praia, e olharam para mim. Pus uma mão na anca com indiferença e olhei para eles por baixo das pestanas, como vira fazer aquela rapariga, a dos dentes. Um dos rapazes desviou o olhar, como que desconcertado, e afastou-se. O outro assobiou apreciativamente.

— E entrega isto em St. Ronan — estava a dizer o meu pai a Dan Walker. — Fico-te grato, como sempre.

 

— Não custa nada. Este ano tenho que ir para esses lados. Fica perto de Sevenwaters. Não posso ir para essas bandas sem visitar a minha velha tia. Nunca me perdoaria. Já está velhota, mas continua rija, como sempre. Tem alguma mensagem para as pessoas de lá? — A pergunta saíra como que por acaso.

 

As feições do meu pai fecharam-se de maneira quase imperceptível.

 

— Desta vez não.

 

Dei um passo em frente, depois outro e reparei que Peg e as outras mulheres estavam a olhar para mim, do sítio onde penduravam a roupa nos arbustos, para secar, e vi que os olhos de Dan também estavam fixos em mim, apreciadores. Olhei para longe, na direção do mar.

 

— A rapariga honra-te, Ciarán — disse Dan. O nômade baixara a voz, mas eu ouvi-o na mesma. — Quem diria? Está a tornar-se uma verdadeira beleza; sai à mãe. Tens de começar a pensar num marido para ela.

Seguiu-se uma pausa.

 

— Sem ofensa — acrescentou Dan, sem ênfase.

 

— A sugestão não foi apropriada — disse o meu pai. — A minha filha é uma criança.

 

Dan não fez nenhum comentário, mas eu sentia que os seus olhos me seguiam enquanto eu caminhava na direção dos pôneis atados uns aos outros à sombra das árvores, mordiscando a erva. Sentia muitos olhos a seguirem-me, e não eram divertidos, piedosos ou trocistas, antes curiosos, admiradores, intrigados. Fizeram-me sentir estranha.

 

Estendi uma mão para afagar o longo focinho de um plácido animal cinzento e o rapaz que assobiara apareceu a meu lado. Era do gênero desengonçado, sardento, um pouco mais velho do que eu. Vira-o muitas vezes com os outros e nunca trocáramos uma palavra. Por trás dele estavam outros dois.

 

— O nome dele é Silver. — Aquilo foi dito com timidez, como se o rapaz estivesse pouco seguro de si. Seguiu-se uma pausa. Era evidente que esperava uma resposta da minha parte. O Encantamento era ótimo, fazendo de mim aquela-parecida-comigo a quem todos eles queriam olhar e falar. As minhas técnicas estavam à altura. Mas tinha, também, de agir em harmonia; encontrar as palavras, os sorrisos, os pequenos gestos. Encontrar a coragem. Meti uma mão na algibeira do meu vestido, repeti silenciosamente as palavras de um velho feitiço e tirei uma maçã enrugada que não estava lá quando saímos de casa.

 

— Posso dar-lhe isto? — perguntei docemente, arqueando as sobrancelhas e tentando um sorriso tímido.

 

O rapaz acenou com a cabeça, sorrindo. Agora, havia cinco à minha volta, encostados com estudada indiferença à parede ou meio escondidos atrás uns dos outros, espreitando sem se fazerem notados. Pus a maçã na palma da mão e o cavalo comeu-a. As suas orelhas estavam recuadas. Não se sentia à vontade comigo e eu sabia porquê.

 

— É verdade que consegues fazer fogo com as mãos? — perguntou subitamente um dos rapazes.

 

— Cala a boca, Paddy — disse o primeiro com um olhar carrancudo. — O que é que te deu, para perguntares a esta jovem dama uma coisa dessas?

 

— Não tens nada com isso, parece-me — disse outro, se bem que, como os restantes, tivesse uma quota parte nos mexericos acerca da nossa vida solitária no Favo de Mel.

 

— O meu pai é que é feiticeiro, não eu — disse eu docemente, afagando ainda o focinho do cavalo com dedos delicados. — Eu não passo de uma rapariga.

 

— Não te vi muito este Verão — comentou o rapaz das sardas. — Ele mantém-te ocupada, não?

 

Acenei com a cabeça, permitindo que a minha expressão parecesse abatida.

 

— Somos só o meu pai e eu, sabes? — Imaginei-me uma filha obediente, cozinhando, remendando, varrendo e cuidando do meu pai e podia ver essas mesmas imagens nos olhos deles.

 

— É uma pena — disse um dos rapazes. — Devias vir até cá abaixo de vez em quando. Há danças, jogos e bons momentos, aqui no acampamento. É uma pena perderes isso tudo.

 

— Talvez... — começou o outro rapaz, mas não cheguei a ouvir o que ele ia dizer, porque foi nesse preciso momento que o meu pai me chamou e os rapazes desapareceram mais depressa do que a neve da Primavera, deixando-me sozinha com o cavalo. E quando me virei para seguir o meu pai obedientemente até a casa vi Darragh, na parte mais afastada, escovando o seu pônei branco. O nome dela era Aoife: discutira durante muito tempo com Dan para poder ficar com ela e, no fim, ganhara. Darragh olhou de relance para mim, afastou o olhar e nem por um franzir de sobrancelhas, ou por um movimento da mão, deu a entender que me reconhecera.

— Muito bem — disse o meu pai enquanto caminhávamos para casa sob o frio crescente do vento vindo de oeste. — Muito bem. Estás a apanhar a sensação. No entanto, isto é apenas o princípio. Gostaria que atingisses um maior grau de sofisticação. Vais precisar disso em Sevenwaters. As pessoas lá são algo diferentes dos pescadores e destes nômades simples. Temos que nos debruçar sobre isso.

 

— Está bem, pai.

 

— Talvez tenhamos de começar mais cedo do que o planeado. Assim que o povo de Dan se for embora, damos o passo seguinte. Podes descansar um dia. Merecê-lo; não podemos esperar mais. Usa o dia com sensatez.

 

Não havia outra hipótese; nunca houvera.

 

— Sim, pai — disse eu e enquanto subíamos a falésia a caminho dos túneis escuros do Favo de Mel deixei que o Encantamento se afastasse e passei a ser, de novo, eu mesma, com a minha deficiência. Fizera o que o meu pai me pedira. Por que me sentia, então, tão infeliz? não provara que conseguia fazer o que queria? Não mostrara que conseguia fazer com que as pessoas me admirassem e se dobrassem à minha vontade? No entanto, mais tarde, deitada na minha cama e olhando para a escuridão, senti um vazio que não tinha qualquer relação com os feitiços, encantamentos e mestria da arte.

 

Foi uma noite de sonhos inquietos e acordei antes do amanhecer, tremendo por baixo do meu cobertor de lã, escutando o uivo do vento e o rugido do mar a bater nas rochas do Favo de Mel. Não era um dia bom para viajar. Talvez Dan Walker e o seu povo decidissem ficar um pouco mais. Mas nunca acontecia isso. Tinha chegado a ocasião deles, tal como as aves migratórias, as suas chegadas e partidas tão precisas como o movimento das sombras num círculo sagrado. Podia-se contar o tempo por eles. Os dias dourados. Os dias cinzentos. Parecia-me que a voz do vento tinha voz.

 

Vou varrer-te... varrer-te. Levo tudo... tudo... E o mar respondendo. Tenho fome... dá-me... dá-me...

 

Tapei os ouvidos com as mãos e enrosquei-me. No fim de contas era suposto ser um dia de descanso. Não conseguiria dormir em paz, pelo menos até ao nascer do Sol?

 

Mas as vozes não se iam embora e eu levantei-me e vesti-me, não muito certa do que o dia me traria, mas pensando que me manteria ocupada e tentando ignorar o sentimento de vazio no estômago. Foi quando estava a calçar as botas que ouvi, muito fraco através do vento, um outro som. Uma nota ou duas, fragmentos de uma canção sobre um firme e sólido zumbido. O som de uma gaita-de-foles. Portanto, ainda não se tinham ido embora. Sem pensar, peguei no meu xale e subi o monte na direção das pedras erguidas, o meu cabelo voando ao vento, a espuma do mar perseguindo-me.

 

Darragh parou de tocar quando me viu. Encontrara um local abrigado entre as pedras e estava sentado de pernas estendidas e encostado ao grande dólman a que chamávamos o Guardião, não de forma desrespeitosa, apenas encostado a ele como se lhe pertencesse, tal como os coelhos. Tropecei, afastei os cabelos dos olhos e sentei-me ao lado dele. Apertei o xale em redor dos ombros. Ainda mal amanhecera e o ar tinha o toque de um Inverno distante.

Levei um certo tempo até recuperar o fôlego.

 

— Então? — disse Darragh, o que não ajudou muito.

 

— Então? — repeti.

 

— Levantaste-te cedo.

 

— Ouvi-te tocar.

 

— Vim para aqui tocar muitas vezes. Mas tu não apareceste. Vamo-nos embora esta manhã. Mas, suponho que já sabes.

 

Acenei com a cabeça, sentindo-me, subitamente, muito infeliz.

— Desculpa — consegui dizer. — Tenho estado muito ocupada. Demasiado ocupada para sair. Eu...

 

— Não te desculpes. Pelo menos, se estás a ser sincera — disse Darragh.

 

— Eu queria... mas não tive hipótese — disse-lhe.

 

Darragh fixou-me, os olhos castanhos muito sérios e o rosto ligeiramente franzido.

 

— Há sempre hipótese, Fainne — disse ele sombriamente. Ficamos ali sentados um bocado e, por fim, ele pegou na gaita-de-foles e recomeçou a tocar uma música que eu não reconheci, suficientemente triste para me levar as lágrimas aos olhos. Não que eu chorasse por causa de uma coisa tão tola, mesmo que fosse capaz.

 

— Esta música tem uma letra — aventurou-se Darragh. — Eu podia ensinar-ta. É muito alegre com a gaita-de-foles.

 

— Eu, cantar? — Senti-me arrancada da minha infelicidade. Não me parece.

— Nunca tentaste, pois não? — perguntou Darragh. — É estranho. Nunca conheci uma alma que não tivesse um pouco de música. Aposto que eras capaz, a cantar, de arrancar as focas ao oceano, se tentasses. — O seu tom era de lisonja.

 

— Não — disse eu, sem graça. — Tenho coisas melhores para fazer. Coisas mais importantes.

 

— Como, por exemplo?

 

— Coisas. Sabes muito bem que não posso falar disso.

 

— Fainne.

 

— O que é?

 

— Não gosto nada que faças aquilo... aquilo... que fizeste ontem.. Não gosto nada.

— Aquilo o quê? — Ergui as sobrancelhas o mais arrogantemente que pude e olhei de frente para ele. Ele devolveu-me o mesmo olhar.

 

— Provocar os rapazes. Namoriscar. Portar-te como... como uma rapariga tola. Não está certo.

 

— Não sei do que estás a falar — retorqui, trocista, se bem que me sentisse atingida pela crítica. — De qualquer maneira, não estavas a olhar para mim.

 

Darragh fez o seu sorriso torcido, mas não havia qualquer alegria nele.

 

— Estava a olhar, sim. Tu fizeste com que toda a gente olhasse.

 

Fiquei silenciosa.

 

— O meu pai tem razão, sabes? — disse ele após um momento. — Devias casar-te, ter um rancho de filhos, assentar. Precisas que tomem conta de ti.

— Disparate — trocei. — Sei muito bem tomar conta de mim.

 

— Precisas de alguém que olhe por ti — persistiu Darragh. — Talvez tu não vejas isso, talvez o teu pai não perceba, mas tu és um perigo para ti própria.

 

— Disparate — disse eu, amargamente ofendida por ele pensar tão mal de mim. — Além disso, quem casaria comigo aqui, na baía? Um pescador? Um latoeiro? Não me parece.

 

— Tens razão, claro — disse Darragh após um momento. — Seria inadequado. Percebo muito bem. — Então, levantou-se, colocando a gaita-de-foles ao ombro. Crescera muito, naquele último ano e começava a aparecer-lhe um princípio de barba em redor do queixo. Pusera um pequeno anel de ouro numa orelha, tal como o pai. — É melhor ir-me embora, então. — Ele olhou para mim sem sorrir. — Levava-te no meu bolso se fosses um tudo nada mais pequena, lá isso levava. Não te metas em sarilhos.

 

— De qualquer maneira, vou estar muito ocupada — disse eu, enquanto a desolação, devido à separação, se apossava de mim uma vez mais. Nunca fora fácil, ao longo dos anos e saber que me iria embora no Outono seguinte ainda piorava as coisas. — Tenho um trabalho para fazer. Um trabalho difícil, Darragh.

 

— Hum. — Ele não parecia ouvir-me, limitando-se a fixar-me. Então, estendeu um braço para me puxar os cabelos, não com muita força e disse o que sempre dizia. — Adeus, Caracóis. Vejo-te no Verão que vem. Cuida-te até eu voltar.

 

Acenei com a cabeça, incapaz de dizer fosse o que fosse. De certo modo, apesar de ter aprendido muito durante aquela estação, apesar de me ter tornado quase uma autoridade na minha arte, senti, subitamente, que o Verão se perdera, que desperdiçara algo precioso e irremediável.

 

Olhei para o meu amigo enquanto ele atravessava o círculo de pedras, o vento puxando e afastando as suas velhas roupas e chicoteando o seu cabelo escuro, descia pelo outro lado do monte e desaparecia.

 

Fazia tanto frio, tanto, que o senti nos ossos, um frio que nenhuma fogueira, ou pele de ovelha conseguiria afastar.

 

Fui para casa ainda com o Sol a espreitar no céu, a leste, vermelho-escuro, por trás de umas nuvens de tempestade.

 

Enquanto regressava ao Favo de Mel, acendendo uma lanterna para me iluminar através das passagens sombrias, regulei a respiração. Uma inspiração, grande e profunda, a partir da barriga. E uma expiração intercalada, como a água de uma grande catarata. Controle. Tinha de controlar as minhas emoções. Perdê-las tirava todo o sentido à arte. Eu era filha de um feiticeiro. A filha de um feiticeiro não tinha amigos, ou sentimentos; não se podia dar a esse luxo. O meu pai, por exemplo. Tentara viver uma vida diferente e tudo o que conseguira fora desgosto e amargura. Era melhor concentrar-me na arte e pôr o resto de lado.

 

De regresso ao meu quarto tentei imaginar a tribo carregando as carroças, arreando os cavalos e partindo para o norte com os cães correndo ao lado e os rapazes fechando a marcha. Tentei imaginar Darragh no seu pônei branco e as suas últimas palavras.

 

Não gosto de te ver fazer aquilo... és um perigo para ti própria. Fizeste com que toda agente olhasse... és um perigo para ti própria... Se era assim que ele me via, era melhor que os nossos caminhos se separassem.

 

Ano após ano, estação após estação esperara por ele, fixando a minha esperança e felicidade no seu regresso. Por vezes, parecia-me que não estava totalmente viva se ele não estivesse ali. Agora, a minha avó estava a chegar e eu ia-me embora; estava tudo a mudar. Era melhor tirar Darragh dos meus pensamentos e continuar. Era melhor aprender a viver sem ele.

 

Além disso, que poderia um rapaz nômade perceber de feitiçaria, de mudanças de forma e das artes da mente? Era um mundo diferente; um mundo para além das suas mais fantásticas fantasias. Um mundo no qual, finalmente, temos de ser suficientemente fortes para continuarmos totalmente sós.