A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 10 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Dez

 

 

Ela era delgada, elegante, de boas maneiras e muito segura de si. Os criados de Eamonn correram para satisfazer os seus pedidos. Eu segui-a, sentindo-me como um gigante desajeitado, sem palavras e desastrada, até que tudo ficou a seu gosto e ela anunciou, sem consultar ninguém, que partilharia o meu quarto, já que seria mais fácil para todos. Enquanto caminhávamos à luz de uma vela, perguntei-lhe rudemente:

 

— Não confia em mim, tia?

 

Ela olhou para mim de lado, os seus olhos verdes friamente calculistas.

 

— Não confio em Eamonn — disse ela azedamente. — Sei-o capaz de muitas coisas. Acho que tenho de acrescentar à lista o abuso de raparigas.

 

Não respondi até chegarmos ao quarto e fecharmos a porta. Liadan tinha um pequeno saco com uma camisa de noite e uma escova. Era evidente que não tencionava ficar muito tempo. Observei-a enquanto desfazia as tranças.

 

— Está zangada comigo? — perguntei-lhe. Ela fez uma pausa e olhou-me fixamente.

 

— Não, minha querida — disse ela. — Não estou zangada. Apenas um pouco triste. Há tanto tempo que desejo conhecer-te. Na verdade, ter-te-ia vindo buscar imediatamente, mas Maeve precisava de mim em Sevenwaters e Aisling pediu-me muito ajuda. Se eu estivesse presente, não teriam vindo para aqui. Mas a culpa é de Eamonn, não tua. Sei que agiste inocentemente; nem poderia ter sido de outra maneira com uma rapariga da tua idade.

 

Estava a ficar confusa.

 

— Desejava conhecer-me? — perguntei, ao mesmo tempo que me sentava na cama para tirar os sapatos. — Porquê?

 

— Porquê? — Liadan parecia espantada. — Como é possível fazeres-me essa pergunta, Faimne? Fazes idéia do que passamos, afastados de Niamh durante aqueles anos todos? Ciarán nunca nos deixou aproximar. Quando ele levou a tua mãe para Kerry, foi o fim. Eu compreendi as suas razões, mas nunca achei que tivesse razão. Niamh era minha irmã e de Sean. Nós a amávamos. Foi um choque terrível quando soubemos que ela tinha morrido; e quando soubemos que não podíamos ver-te. É uma dádiva dos deuses o fato de estares aqui, Fainne. Uma dádiva que quase perdemos por descuido. Partimos de madrugada. Não quero que estejas de novo a sós com Eamonn.

— Amor — disse eu friamente. — Por que é que toda a gente usa essa palavra? O meu tio Sean, Conor e os outros não demonstraram grande amor quando expulsaram a minha mãe de Sevenwaters. Não houve grande amor na educação de um jovem para que ele fosse druida, atirando-lhe depois com todos esses anos à cara. Não acredito que o amor exista; ou, se existe, só provoca dor e perda. A minha mãe matou-se. Isso não lhe diz nada? — Eu não queria falar daquela maneira. Queria mostrar-me segura de mim própria. Mas ela fizera-me zangar, ali sentada muito direita e bela, com as suas suaves palavras de boas-vindas. Ela não via, nenhum deles via que o meu pai e eu nunca lhes pertenceríamos? Não compreenderiam que tinham sido eles os culpados?

 

— Tu és muito parecida com ela — disse Liadan suavemente, olhando para mim com aqueles olhos enormes, visionários. — Muito mais do que pensas. Recordas alguma coisa da tua mãe?

 

Abanei a cabeça, furiosa comigo própria por ter dito demasiado. Estava a deixar escapar a minha autodisciplina, quando não me podia dar ao luxo de baixar a guarda.

 

— É pena — disse ela. — Niamh, por vezes, era muito... difícil. Azeda, dura. Mas nunca era de propósito. Mas sentia tanta coisa, tanta, que, por vezes, transbordava. Não podes afastar o amor, Fainne. Se o fazes é porque ainda não aprendeste a reconhecê-lo. Niamh amava o teu pai; amava-o mais do que tudo no mundo. Teria mudado toda a sua vida por ele; e mudou, quando chegou a ocasião. E ele não fez menos por ela. É por isso que custa tanto a acreditar.

— O quê? — Enfiei a camisa de noite pela cabeça o mais rapidamente que pude, porque não gostava de me despir em frente de outras pessoas.

 

Liadan pareceu pensativa.

 

— Que ela tenha posto fim à vida. Que a sua escolha tenha sido a morte. Uma vez, ouvia-a ameaçar que se matava, quando ainda estava casada com Uí Néill. Não tenho dúvidas de que estava a ser sincera. Mas fazê-lo depois de Ciarán a ter ido buscar e depois de te ter a ti... sempre me pareceu impossível. Nunca consegui compreender. Tudo o que ela queria era estar com ele e dar-lhe filhos. Desejava isso. E amava-te muito, Fainne. Eu sei.

 

— Não pode saber — disse eu. — Acaba de me dizer que nunca mais a viu. Não pode saber.

 

Deitei-me na cama e olhei para o teto.

 

— Estou a ver — disse Liadan e pareceu-me que estava dividida entre as lágrimas e o riso — que começamos mal. Perdoa-me, tenho de me beliscar para me lembrar que és tu aí deitada em vez da minha irmã, porque ficas extremamente parecida com ela quando te zangas.

 

— Pensei que tinha dito que a amava. — Liadan suspirou.

— Toda a gente a amava, Fainne. Ela era como um belo animal no Verão, encantadora, divertida e cheia de vida. O que aconteceu mudou-a de modo terrível. O que lhe aconteceu, a ela e a Ciarán foi muito mau. Reconheço-o; na verdade, o teu pai e eu conversamos muito acerca disso há muito tempo. Mas Ciarán e eu nunca fomos inimigos. Quanto a Niamh, ela disse-me, uma vez, que gostaria muito de ter um filho dele. Compreendi o que ela disse porque, então, eu estava grávida, o pai do meu filho estava longe e parecia-me pouco provável que alguma vez pudéssemos viver juntos. Compreendi perfeitamente o seu desejo. Ela manteve essa esperança, mesmo nos momentos mais difíceis.

 

— Talvez — disse eu de má vontade. — Mas ela não me amava. Como podia ter-me amado? Se me amasse, se houvesse amor, como foi possível ela morrer quando eu era demasiado pequena para me lembrar dela?

 

— Eu sei o que ela sentia por ti. — A voz de Liadan era suave mas firme na escuridão, depois de ter apagado a vela. — Vi-o. Por vezes, tenho visões. Foi há muito tempo, antes de tu nasceres, que eu vi. Uma imagem. Niamh sentada num lugar estranho, um lugar de luz azulada e sombras suaves, como uma pequena gruta meio enterrada sob o mar e lavada pela maré. Niamh e tu. Faziam ambas desenhos na areia, cuidadosamente, em silêncio. Nunca esquecerei o olhar no seu rosto ao olhar para ti. Depois disso, nunca consegui compreender por que razão... — A sua voz desvaneceu-se.

 

Por um momento, não consegui dizer nada. As suas palavras tinham-me feito recordar: a pequena gruta por baixo do Favo de Mel, o lugar dos desejos, o refúgio onde me sentara em silêncio tantas vezes, sozinha ou com Darragh a meu lado, observando o jogo de luzes suaves sobre as pedras macias, deixando a areia brincar por entre os meus dedos e ouvindo as pequenas ondas irem e virem, irem e virem.

Aquele lugar fazia-me ter saudades de Kerry. Tentei imaginar a minha mãe sentada na pequena praia observando a pequenina Fainne a brincar na areia. Mas era apenas isso: uma imagem. Desejava recordar, mas não me lembrava dela. Ainda bem.

 

Estava em perigo de sentir demasiado e os sentimentos só tornavam as coisas mais difíceis.

 

— Tia Liadan?

 

— Hum?

 

— É assim tão impossível eu casar com Eamonn? — Seguiu-se uma longa pausa.

 

— É — disse ela finalmente.

 

— Porquê? — perguntei. — A tia sabe o meu passado. Onde hei de eu encontrar um marido com a posição de Eamonn? Ele não me honrou com a escolha? Não compreendo.

— Não vou falar disso aqui, nesta casa, Fainne. — O seu tom não admitia discussão. — Esse assunto pode esperar. Tu podes esperar. Ao contrário de Eamonn, tu só tens dezesseis anos e tens todo o tempo do mundo. Agora é melhor dormirmos, porque amanhã partimos cedo.

 

Eu não disse nada, já que não tinha qualquer resposta. Pensei que ela estava adormecida, mas, pouco depois, disse:

 

— Sabes que é possível casar por amor. Na verdade, a nossa família é sobejamente conhecida por fazê-lo contra tudo e todos. Seria muito triste casar apenas por segurança ou por interesses estratégicos. Talvez seja prático, mas é muito triste. Tens algum namorado, Fainne?

 

— Não — retorqui, demasiado depressa.

 

— Nesse caso... — disse a tia Liadan na escuridão.

 

Por vezes, o ataque é a melhor defesa.

— Certamente não casou por amor? — perguntei em ar de desafio.

 

— Por que dizes isso? — Liadan não pareceu ficar ofendida, apenas surpreendida.

 

— Desculpe, mas, para todos os efeitos, o seu marido não parece o tipo de homem por quem uma rapariga desistisse da perspectiva de um excelente casamento e por quem deixasse a casa paterna para sempre. Como é que o conheceu?

 

Seguiu-se um pequeno silêncio.

 

— Tanto quanto me lembro — disse Liadan, e eu percebi que ela estava a sorrir — os homens dele bateram-me na cabeça e raptaram-me. Nessa ocasião, achava-o bastante assustador e ele achava que eu não passava de uma miúda incômoda.

 

— Portanto — disse eu, perguntando a mim própria se não estaria a inventar tudo para troçar de mim — não casou por amor?

 

— O amor encontrou-nos e surpreendeu-nos — disse ela docemente. — Eu casei apenas por isso, Fainne. Quando o vires, podes achá-lo estranho, selvagem e totalmente diferente de um chefe de guerra respeitável como Eamonn de Glencarnagh. Bran não respeita nem as leis nem as convenções, exceto as que ele próprio faz. E a sua aparência coloca-o tão à parte como a sua reputação. Mas é cinqüenta vezes mais homem do que Eamonn. O que existe entre nós está para além do amor, Fainne. Ele é meu marido, meu amante e amigo, aquele a quem eu posso confiar os meus maiores segredos. Espero que um dia também tu tenhas a alegria de encontrar um parceiro assim pois nada é mais importante.

 

Fui forçada a admitir que a minha tia tinha qualquer coisa. Adormeci com as mãos nas orelhas, não fosse começar a acreditar que o que ela dissera era verdade.

 

Estávamos prontos para partir pouco depois da alvorada do dia seguinte. As pequenas estavam excitadas por regressarem a casa e falavam ininterruptamente como um bando de pássaros até Sean as mandar calar com um aviso firme e bondoso. Eamonn parecia estar longe. O que eventualmente fora dito entre ele e o meu tio não o deixara de bom humor. No último minuto, quando Sean estava de costas e Liadan respondia a uma comprida pergunta que Clodagh lhe fizera, conseguimos trocar algumas palavras. A pequena égua que me transportara tão corajosamente na pegada de Aoife estava selada e pronta para mim; Eamonn dissera que podia regressar a casa nela, visto que parecia adequada para mim. Não lhe podia dizer que ela estava demasiado cansada depois da sua aventura noturna. Estava de pé ao lado da égua e Eamonn fingiu ajustar o freio. Olhou para mim de relance, de olhos semicerrados e boca severa.

 

— Promete-me — murmurou ele. — Promete-me que farás o que disseste.

 

O meu coração parecia um tambor. Havia morte naquele olhar, um olhar sombrio.

— Está combinado, lembras-te? — disse eu a tremer. — Dois pratos. Como tencionas equilibrar o teu?

 

— Duvidas de mim? — A mão de Eamonn cerrou-se na minha com força, os seus dedos magoando-me. Resisti à dor e ao medo e olhei para ele sem pestanejar.

 

— Eu mantenho a minha promessa se tu fizeres o mesmo — disse eu firmemente. — Se o meu tio recusa este casamento, por que haveria eu de correr um tal risco por ti?

 

— Ele não vai recusar. — Não havia lugar a dúvida no tom de Eamonn. — Ele há de ceder aos meus desejos. São loucos, se não se apercebem do meu poder sobre eles. A campanha de Sean não pode realizar-se sem mim. Hei de ter o Homem Pintado; e hei de ter-te a ti. Não duvides.

 

— Eu...

 

— Promete-me, Fainne.

Acenei com a cabeça, sentindo um arrepio na espinha.

 

— Di-lo!

 

— Prometo. Terei o que queres quando o Verão vier.

 

O aperto abrandou e ele levou os meus dedos aos lábios.

 

— Nesse caso, também tu terás o que queres — murmurou ele. — E esperarei esse dia com grande ansiedade, minha querida.

 

A ansiedade não será grande, pensei, enquanto Mhairí estiver disponível. Reprimi o comentário que me veio aos lábios.

 

— Adeus, Eamonn — disse eu. Então, a minha tia Liadan colocou-se a meu lado e o momento passou.

— É esta a escolta? — Eamonn correu os olhos pelos três homens com as cores de Sean em cima dos seus cavalos com as quatro pequenas entre eles. — Não chega, certamente. Estou espantado por teres vindo assim desprotegido. É melhor eu mandar alguns dos meus guardas contigo.

 

Ele franziu o sobrolho na direção de Liadan.

 

— Por favor, não mandes — disse ela friamente. — Eu tenho os meus próprios homens.

 

— A sério? São criaturas do Outro Mundo? Não vejo homens nenhuns.

 

— Não, não vês. Eles são bons nisso. Eu não vou a lado nenhum sem proteção, Eamonn. Bran assegura-se disso.

 

Ele olhou para ela, sem palavras. Então, cuspiu deliberadamente para o chão, para os cascos do cavalo dela. Foi chocante; um gesto estranho da parte de um homem que, aparentemente, fazia sempre o que era correto. Liadan não disse nada, limitando-se a dar a volta ao seu cavalo e a afastar-se sem um único olhar para trás.

 

Foi estranho. Cavalgamos para leste através dos jardins e bosques de Eamonn, passamos pelos seus campos e aldeias e Sean e os seus três homens iam à frente e nos flancos, sempre alerta apesar de estarmos em segurança, dentro das fronteiras de Glencarnagh. Só quando nos afastamos dos bosques e entramos em terreno mais selvagem, mais aberto e cheio de rochas é que eu me apercebi, gradualmente, de outros cavaleiros a nosso lado, não muito distantes, uma presença constante e invisível. A minha pele arrepiou-se. Pensei em criaturas do Outro Mundo, mensageiros dos Túatha Dê Danann, talvez, seguindo-me para descobrirem os meus segredos. Após um certo tempo tornaram-se visíveis, como se só então fosse seguro mostrarem-se. Eram seis ou sete e tinham a aparência de umas criaturas quaisquer de uma velha história, porque estavam todos vestidos de cinzento-acastanhado, misturando-se com a paisagem de Inverno e nas cabeças tinham capuzes justos, que lhes escondiam as feições à exceção dos olhos, boca e nariz; não era possível distinguir aqueles guerreiros uns dos outros. E eram mesmo guerreiros; iam todos armados com adagas e espadas e alguns transportavam também arcos e bordões, machados ou facas de arremesso. Fiquei alarmada, mas os outros continuaram a cavalgar como se a presença daquelas criaturas ferozes fosse uma coisa normal e percebi tardiamente que deviam ser os homens da minha tia Liadan. Tinham formado uma guarda silenciosa à nossa volta e o meu tio, cujo papel como parte da escolta pareceu subitamente supérfluo, refreou o andamento do seu cavalo para se aproximar da irmã, que ia mesmo à minha frente.

 

Eilis escolheu aquele preciso momento para falar.

 

— Da próxima vez que formos a casa do tio Eamonn, hei de montar aquele grande cavalo preto — anunciou ela alegremente.

 

— Fainne — disse Deirdre — vais casar com o tio Eamonn? Clodagh disse que sim.

 

— Não disse nada! — exclamou Clodagh. O que eu disse foi: Como é que ela pode casar com o tio Eamonn se tem um homem como Darragh? Não ouviste o que eu disse.

— Ouvi, sim.

 

— Chega. — Sean não precisava de erguer a voz para as silenciar. Deirdre franziu o sobrolho. Detestava não ter razão.

 

— Quem é Darragh? — perguntou a tia Liadan com indiferença. Ninguém respondeu.

 

Parecia que a pergunta me era dirigida.

 

— Ninguém — murmurei.

 

Liadan ergueu as sobrancelhas, como se achasse a minha resposta não adequada.

 

Cavalgávamos por um caminho estreito entre paredes de rocha; a escolta silenciosa seguia atrás e nos flancos numa demonstração de controlo total sem necessidade de quaisquer palavras. Fui poupada à resposta, já que tivemos de seguir em fila.

Quando emergimos, Clodagh respondeu por mim.

 

— Darragh é o rapaz das histórias de Fainne sobre nômades. Tem um cavalo branco.

 

— O nome do cavalo é Aoife — acrescentou Deirdre. — Estiveram ambos em Glencarnagh.

 

— Nunca pensamos que fossem reais, mas eles foram lá para ver Fainne. — O tio Eamonn mandou-os embora.

 

— Ele veio de... de... — gaguejou Clodagh.

 

— De Ceann na Mara — disse eu rudemente.

 

— Eu dei uma cenoura ao pônei. — Eilis tinha de falar. Não podia permitir que aquilo continuasse.

— Ele não é ninguém — disse eu repressivamente, sentindo os olhos de Sibeal em mim, assim como os de Liadan. — Não passa de um rapaz que eu conheci em Kerry, mais nada. Aquela velha, que está sempre sentada na vossa cozinha, Janis, creio que é esse o seu nome, é uma espécie de parente dele. Ele foi lá vê-la.

 

Sean e Liadan olharam um para o outro.

 

— Foi esse o rapaz que foi a Sevenwaters à tua procura? — perguntou Sean. — Do clã de Dan Walker?

 

— É filho dele — disse eu.

 

— Dan tocou gaita-de-foles no funeral da minha mãe — disse Liadan docemente. — Foi a música mais bela que ouvi em toda a minha vida e também a mais triste. Ele deve ser o melhor tocador de todo o Erin.

 

— Darragh é melhor — disse eu sem pensar. Os meus dedos subiram para tocar no amuleto. Não podia falar dele. Tinha-se ido embora. Estava esquecido. Tinha de manter isso sempre presente, para que a minha avó não se lembrasse dele.

— A sério? — disse Liadan, sorrindo. — Deve ser um músico formidável.

 

Mas eu não fiz qualquer comentário e continuamos em silêncio com a nossa estranha escolta sempre a nosso lado, como sombras vigilantes.

 

Foi no segundo dia que aquilo aconteceu. Tínhamos parado para passar a noite numa das aldeias avançadas do meu tio Sean e eu tinha partilhado o quarto de dormir com as pequenas. Aquilo agradava-me. A sua conversação incessante podia ser cansativa, mas era melhor do que ter de suportar outra das estranhas conversas com a minha tia, nas quais ela parecia compreender mais das minhas palavras do que eu própria.

 

Consciente de que tinha de continuar desde que começara, consciente das implicações do que prometera a Eamonn, não queria que Liadan se tornasse minha amiga, nem revelar-lhe nenhum dos meus segredos. Na verdade, estava na hora de pôr de lado todas as amizades, concentrando-me no que tinha de ser feito. Tinha de ter isso presente. Tinha de ser forte; seria forte, porque, não me treinara o meu pai para ser autodisciplinada, e não era ele um modelo de autocontrole?

 

Continuamos a cavalgar por um carreiro estreito que dava para um vale coberto de árvores. Nevara durante a noite e os pinheiros ainda tinham neve nos ramos. Os cães de Sean corriam à frente, deixando um rasto gêmeo no carreiro. Estava um dia tranqüilo, com o céu densamente nublado e baixo. Entre este e as árvores, não conseguia escapar à velha sensação de me sentir aprisionada, fechada. Continuei sorumbaticamente sozinha, tentando encontrar, algures nos meus pensamentos, uma imagem clara da enseada, com as gaivotas gritando lá no alto, o ar impregnado do cheiro do sal da vagas e o trovão do oceano nas rochas do Favo de Mel. Mas tudo o que conseguia ver era o rosto do meu pai, gasto e pálido e tudo o que conseguia ouvir era a sua luta para poder respirar, enquanto tossia e vomitava no seu gabinete destruído.

 

Os nossos cavalos seguiam cuidadosamente ao longo do carreiro. Este era muito estreito e à nossa direita a encosta erguia-se abruptamente, mergulhando a pique à nossa esquerda, onde uma série de pedras marcava o sítio de uma velha derrocada.

 

Três dos homens mascarados iam à frente e depois o meu tio, seguido por Clodagh e Sibeal. Eu ia a seguir com as outras atrás. Que sorte, pensei, a minha pequena égua ser um animal notável, porque continuava a saber montar muito mal. Mas aquele animal gentil sabia o caminho e eu confiava nele. Devia-lhe muito; usara-o abusivamente, exaurira-o e ele continuava a transportar-me de boa vontade. Quando chegássemos a casa certificar-me-ia de que teria um merecido descanso, cuidados e tudo aquilo de que os cavalos gostam, talvez cenouras.

 

Aconteceu subitamente. Ninguém soube exatamente o que foi: um pássaro, um morcego ou algo mais sinistro. Veio de lado nenhum, rápido como uma flecha, descendo, voltando a subir em completo silêncio e desaparecendo quase antes de eu ter tempo de ver o que era. O meu coração bateu apressadamente, em choque. A égua estremeceu e parou. Mas à nossa frente, onde a sombra passara, o pônei de Sibeal relinchou, ergueu as patas dianteiras e a pequenita foi atirada ao chão. Não havia tempo para pensar. Vi a sua figura pequena encapuçada voar na direção da encosta rochosa à nossa esquerda. Ouvi, nas minhas costas, o grito de Deirdre. A arte fluiu através de mim, se bem que mal me tivesse apercebido de que a tinha chamado. Os longos anos de prática deram resultado. Alto. A criança ficou subitamente no ar, suspensa a menos de três palmos da pedra rugosa onde iria embater com alguma violência. E agora suavemente para baixo. Fiz os ajustamentos necessários. Um pouco para a direita, de modo a que aterrasse num estreito ressalto ao lado das rochas instáveis. Mas lentamente; a pequenita poderia assustar-se e cair.

E pronto. Eu tremia da cabeça aos pés e sentia-me incapaz de falar, como se aquele uso limitado da arte me tivesse exaurido.

 

Os homens da tia Liadan eram bons. Quase antes de Sibeal ter tempo de se aperceber do que estava a acontecer, já dois deles se tinham precipitado para o barranco e descido até onde ela estava, amparando-a para se assegurarem de que não resvalaria.

 

Com palavras de conforto, transportaram-na até ao carreiro. Liadan, pálida como a cera, inspecionou a criança em busca de ossos partidos; a própria Sibeal já estava praticamente recomposta; uma fungadela ou duas e um ligeiro tremor do lábio eram os únicos sinais de angústia. Eilis, pelo contrário, chorava de susto. Assim que se soube que Sibeal não estava ferida, foi colocada no cavalo do pai e a nossa guarda guiou-nos eficientemente pelo monte abaixo até um lugar seguro sob os pinheiros, onde poderíamos fazer uma pausa e recuperar forças. Foi feita uma pequena fogueira; o chá ferveu. Tratei de tentar fazer parar os berros de Eilis, porque a última coisa que queria era responder a perguntas. Agira instintivamente; fizera a única coisa possível. Se voltasse a acontecer, sabia que faria novamente a mesma coisa. No entanto, continuava a usar o amuleto da minha avó; continuava a seguir o seu rumo.

 

Senti uma mudança em mim, ou no talismã que trazia. Desde a noite em que ela viera ter comigo, a noite em que ameaçara destruir todos aqueles que me eram queridos, que me parecia não poder continuar a fazer-lhe a vontade cegamente, sem reservas. O poder do amuleto teria de algum modo diminuído por causa do cordão que o sustentava? Tinha o coração gelado. Talvez o incidente tivesse sido casual.

 

Mas talvez tivesse sido obra da minha avó; uma espécie de teste. Se fora assim, não havia dúvida de que falhara miseravelmente. Fizera exatamente o oposto do que ela teria querido. Talvez nunca viesse a saber. Talvez, dali em diante, tivesse de olhar com atenção para todas as quedas, todos os pequenos incidentes e, mesmo assim, não ficar com a certeza.

 

— És uma boa amazona, Eilis — disse eu em voz baixa, afagando os caracóis da criança. — Quando chegarmos a casa, vou dizer à tua mãe como seguraste o cavalo quando aquilo aconteceu e como foste corajosa.

 

Lentamente, ela foi-se acalmando. Alguns minutos depois Deirdre deu-nos um pouco de chá e eu vi, à distância, Liadan examinando Sibeal de novo, mais cuidadosamente desta vez, olhando-lhe para os olhos e fazendo-lhe perguntas. O pônei da pequenita parecia também ter recuperado; estava junto dos outros, pastando a magra erva invernal.

 

— É engraçado — observou Deirdre. — Geralmente, quando as pessoas caem de um cavalo abaixo, geralmente... caem. Mas Sibeal... ela parece que flutuou o último bocadinho. Nunca vi nada parecido.

 

— Magia — soluçou Eilis. — Como na história.

 

— Ela podia ter morrido. — Deirdre estava a pensar. Mas antes que pudesse tirar conclusões, Liadan apareceu a nosso lado e as crianças foram mandadas para junto de Sibeal para lhe darem mais chá e fazerem mais perguntas.

A minha tia sentou-se ao meu lado num ramo de árvore caído. A sua expressão era séria, quase severa.

 

— O meu irmão não viu o que aconteceu; mas eu vi, Fainne — disse ela calmamente. — A princípio pensei que estava a imaginar coisas. Mas Sibeal disse: Fainne salvou-me.

 

Não respondi.

 

— Talvez não saibas que o teu pai me salvou a vida uma vez utilizando as artes druídicas. Fizeste uma grande coisa hoje, Fainne. Ciarán teria orgulho de ti. Foste tão rápida; tão subtil.

 

Senti-me miserável; teria chorado, se pudesse.

 

— Pareces triste — disse Liadan. — Tens muitas saudades dele?

 

Contra a minha vontade, acenei com a cabeça.

— Hum — disse ela. — Estamos muito longe de Kerry. Tenho perguntado a mim própria por que razão Ciarán não veio contigo, porque és muito nova para fazer uma viagem tão longa sozinha. Conor tê-lo-ia recebido bem. Tenho a certeza que ele te recebeu bem. Um talento desses seria o suficiente para que o meu tio tentasse recrutar-te para a irmandade. Ele nunca mais encontrou ninguém com o talento do teu pai.

 

— Não seja tola! — disse eu, furiosa comigo própria por deixar que os meus sentimentos me dominassem. — A nossa espécie não pode aspirar aos patamares superiores da arte druídica. Estamos amaldiçoados, nunca poderemos trilhar os caminhos da Luz.

 

Liadan ergueu as sobrancelhas. Os seus olhos eram do verde das folhas de Inverno à luz do Sol; o seu rosto era da cor da neve.

 

— A mim — disse ela docemente — parece-me que acabas de provar exatamente o contrário.

 

Ela estava errada, claro. Não sabia das outras coisas que eu fizera, coisas terríveis.

 

Não sabia das coisas que eu ainda tinha de fazer.

— Estás a tremer, Fainne. Tiveste um grande choque, minha querida. Vamos, dá-me a tua mão, deixa-me ajudar-te.

 

— Não! — A minha voz soou-me áspera. Não lhe permitiria que olhasse para os meus olhos e lesse neles o que me ia na mente. Talvez pensasse que eu não sabia que ela era uma visionária. — Eu estou bem, tia Liadan — acrescentei polidamente. — O que eu fiz foi... foi simplesmente um truque, nada mais. Sinto-me feliz por ter podido ajudar. Não foi nada.

 

Ela não fez qualquer comentário, mas eu senti o seu olhar pousado em mim, perspicaz, avaliador. Cavalgou o resto do caminho até casa ao lado do irmão e não falaram um com o outro em voz alta, mas pareceram-me ambos muito sérios.

 

Perguntei a mim própria se falariam de mim, mentalmente, da mesma estranha maneira dos Fomhóire, de quem, a acreditar na minha avó, tinham herdado aquele talento.

 

Algo se alterara em Sevenwaters desde que eu partira. Não sabia exatamente o que era; era como que um pressentimento, mas a sombra passara e a ordem parecia recomposta. Era como se, de algum modo, a família tivesse recuperado a alma.

 

Aisling abraçou as filhas, sorrindo; Muirrin apareceu a seguir e junto dela estava Maeve com uma grande ligadura em redor da cabeça. As irmãs correram para a abraçar, falando todas ao mesmo tempo.

— Cuidado — avisou Muirrin. — É só um bocadinho, porque ela tem de voltar para a cama.

 

Os sorrisos e as lágrimas eram mais que muitos. Mantive-me afastada, porque não fazia parte daquilo. Esperei que acabassem, de maneira a poder ir para o meu quarto, fechar a porta e ficar sozinha. De maneira a poder ir para qualquer lado e não ver aquilo. Salvar uma criança não invalidava o que fizera a outra. Não era assim tão simples.

 

As pequenas sorriam. E Deirdre corava. Os maiores sorrisos e os cumprimentos mais efusivos não eram, de fato, para Aisling, ou para Maeve, mas para um outro alguém. Junto da família estavam outros dois homens de Liadan nas suas roupas escuras, se bem que estes dois não estivessem mascarados. Eu pensava que eram guardas. Eram ambos jovens; um atraía os olhares imediatamente, porque a sua pele era tão escura como um carvalho e o seu cabelo tinha pequenas tranças, como as dos druidas, mas decoradas com contas alegres e penas nas pontas. Estava junto de Maeve, amparando-a com um braço. Vi Muirrin murmurar-lhe qualquer coisa ao ouvido e ele sorrir, mostrando uns dentes muito brancos. Mas era o outro que atraía a atenção das minhas primas, se bem que eu não percebesse porquê. Era um tipo vulgar, de feições agradáveis, entroncado mas bem constituído e o cabelo castanho encaracolado cortado muito curto. Virou-se ligeiramente e eu vi, surpreendida, umas marcas no seu rosto, uma tatuagem delicada, subtil, que lhe torneava o olho e rodopiava audaciosamente pelas sobrancelhas e faces. Era um excelente trabalho; era uma ligeira sugestão de um bico, e penas, nada mais. À nossa volta, os homens que tinham formado a nossa guarda tinham desmontado e, à vez, tinham tirado as máscaras e eu vi que todos eles usavam tatuagens no rosto, na maior parte deles simples e noutros um pouco mais elaboradas, mas todas diferentes. Todos eles tinham representado um animal, um texugo, uma foca, um lobo, um veado. Eu era a única que estava a olhar. Para os outros, aquele bando de guerreiros pintados devia ser familiar.

— Fainne. — Era Clodagh, que aparecera a meu lado e me puxava pela manga. — Este é o Johnny.

 

O jovem de aspecto vulgar estava ali a meu lado com um sorriso amistoso nas feições pintadas. Engoli em seco. Aquele era Johnny, o fabuloso Filho da Profecia?

 

Aquele jovem pouco atraente que não parecia diferente de um dos da sua própria guarda? Certamente que havia algo errado. Esperara... bem, esperara, pelo menos, um guerreiro de estatura formidável, ou talvez um sábio cheio de arte e saber. Não... não alguém que poderia muito bem ser um moço de estrebaria, ou um cozinheiro.

 

— Tantos primos e todos raparigas — disse Johnny. — Prazer em conhecer-te, Fainne. Maeve falou-me muito de ti e contou-nos todas as tuas histórias. — Ele estendeu a mão e apertou-me a mão. O seu aperto foi quente e forte. Olhei-lhe para os olhos e percebi instantaneamente de que me enganara. Eram cinzentos e profundos. Avaliaram-me rapidamente, registraram o que viram e guardaram-no para referência futura. O homem era inteligente. Era um estrategista. E era difícil resistir ao seu olhar. Descobri que estava a sorrir para ele.

 

— Assim é melhor — disse ele. — Este é o meu amigo Evan. Evan é aprendiz da mãe. Ela dir-te-á que ele tem os predicados necessários para vir a ser um curandeiro de primeira. Ele e Muirrin fizeram maravilhas com Maeve. Fazem ambos uma ótima equipe.

 

Johnny sorriu para o homem de pele escura e depois para Muirrin. Muirrin corou; Evan olhou para o chão. Então, Liadan disse que Maeve devia voltar para a cama e na agitação da entrada na casa e da separação da bagagem consegui fugir para o meu quarto, onde fechei a porta à chave sem perceber muito bem porquê.

 

Não gosto dele, pareceu-me dizer a mim própria. Não posso gostar dele. Torna as coisas mais difíceis. Sentei-me no chão em frente da lareira, mas não a acendi apesar do dia frio que estava. Receava as visões que, eventualmente, veria nas suas brasas; as coisas terríveis que estavam no meu caminho, as que eu própria faria e as que não poderia impedir. É fácil, disse para mim própria. É um jogo de estratégia. Como o brandubh. Sabes o que tens afazer. Limita-te a fazê-lo.

 

Fácil de dizer. As coisas tinham mudado em Sevenwaters e não era só por causa da vinda de Liadan e por Maeve estar a melhorar mais depressa do que as pessoas pensavam. Era por causa dele, de Johnny. Era visível a maneira como os homens iam ter com ele em busca de respostas e a maneira como ele falava com eles, amigavelmente, respeitosamente mas confiante, como se fosse um homem muito mais velho, maduro e sábio. Era visível no seu sorriso e no seu comportamento; na maneira como usava as roupas simples com orgulho, como se fazer parte de uma equipe lhe desse mais satisfação do que qualquer símbolo de liderança. No entanto, era ele o líder. Os homens mais velhos calavam-se para o ouvir. As mulheres apressavam-se para lhe servir uma refeição ou para lhe encher a taça e coravam quando ele lhes dirigia uma palavra amável. Ele estava em toda a parte; exercitando os homens de Sean no pátio, inspecionando a construção de um novo celeiro, conversando com Janis na cozinha. Era muitas vezes visto à cabeceira de Maeve contando uma história ou ouvindo as suas confissões murmuradas. Fora o seu sorriso doce que aquecera aquelas paredes; fora a sua oferta de ajuda que devolvera a cor ao rosto pálido de Aisling; era o seu conselho que Sean procurava todas as noites quando os homens tinham longas conversas acerca de mapas e diagramas. Por sua causa, a casa recuperara a sua força e objetivo, que desaparecera no festival de Samhain, na noite do incêndio. Eu trouxera a escuridão. Johnny restaurara a Luz.

 

Meán Gemhrídh estava próximo. Muitas vezes, na enseada, por essa ocasião, o tempo estava tão mau que era impossível ler o dia a partir das pedras; tudo era sombrio, com as nuvens a cobrirem o sol de Inverno. No entanto, eu sabia; subia o monte à chuva ou ao vento e sentava-me sob o dólman virado para oeste, tentando ver suficientemente longe para conseguir vislumbrar Tir Na n’Og, a ilha dos sonhos.

 

Mas nunca consegui. Então, ficava ali sentada, com a capa sobre a cabeça para me proteger do vento, sentindo a força da rocha nas minhas costas como uma grande mão protetora e sonhava os meus sonhos de Verão. O Verão vinha sempre. Era apenas uma questão de esperar e ser forte. Tudo isso tinha acabado, claro. Dissera adeus à enseada e ao meu pai. Mandara Darragh embora para muito longe, onde estaria em segurança e, para mim, nunca mais haveria Verões. Era necessário praticar. Fazer o que tinha de fazer, exercitar-me na arte para ir mais longe do que o meu pai me permitira. Na verdade, ele proibira-mo expressamente e com boas razões. Por isso, tinha de aperfeiçoar as minhas capacidades, disciplinar a mente e fortalecer-me. Então, só então, tentaria transformar-me numa criatura selvagem e, ainda mais difícil, regressar, depois, ao meu próprio corpo. A perspectiva aterrorizava-me. E se subestimasse a minha própria habilidade? E se me condenasse a viver como um pato, ou um sapo, ou, pior ainda, se ficasse presa entre uma forma e outra? Então, seria impotente para proteger aqueles que procurava defender dela. Esse feitiço era fortíssimo, um dos mais difíceis da arte; esgotava as forças e sobrecarregava a mente. O meu pai não achava que estivesse pronta para o tentar. E se ainda não estivesse? O tempo passava rapidamente; os homens, sob o frio do solstício, já se reuniam para uma partida iminente e a tia Liadan já falava em regressar a casa. Mesmo na escuridão do Inverno, aquela gente estava com os olhos postos na vitória do Verão. E o Verão não estava longe. Tinha de me preparar.

 

Mas, como ensaiar o feitiço ali, em Sevenwaters? Não havia solidão, privacidade, salvo no meu quarto e, mesmo aí, estava a ser constantemente interrompida. A casa estava cheia de gente, a família sempre ocupada e a minha ajuda estava sempre a ser pedida para numerosas tarefas, a muitas das quais não estava acostumada. Aprendi a fazer muitas coisas, mas eram as coisas erradas: como coser bainhas, como preservar maçãs em mel e fazer geléia de língua de porco, como depenar um pato e a melhor maneira de medicar um punho torcido.

 

À noite era difícil passar despercebida. Com a chegada de Johnny e o seu bando de guerreiros pintados, o jantar tornara-se uma ocasião festiva, seguida freqüentemente pela narrativa de histórias e canções. Um dos jovens tinha uma bela voz e um outro não era mau de todo com o assobio. Havia uma harpa pequena, finamente trabalhada e tanto Deirdre, como Clodagh, eram capazes de tirar sons muito doces das suas delicadas cordas. No acampamento de Dan Walker havia o mesmo sentimento de bem-estar; o mesmo companheirismo. No entanto, era estranho. Aquela gente era da minha família, mas eu sentia-me menos parte dela do que da família colorida e simples dos nômades. Gostava mais de pensar em Peg, que me dera um lenço e o seu sorriso, do que na tia Liadan com os seus olhos perspicazes e os seus silêncios.

 

Ouvia a sua música e só pensava nos lamentos solitários da gaita-de-foles.

 

Pensei na floresta. Lá, havia, certamente, muitos espaços abertos, vazios: clareiras, pedaços de terreno desertos na margem do lago, grandes rochas cheias de musgo.

 

Esses locais eram ótimos para a prática secreta da arte. Mas não tinha nenhum druida para ir até lá comigo e os guardas eram muitos. Além disso, que seres estranhos estariam à espreita na escuridão selvagem, prontos para me espiar os segredos e antecipar os meus movimentos? Não podia ir para lá.

 

Fiquei bloqueada pelas dúvidas e aterrorizada pela minha falta de progressos. Se assim continuasse, se me permitisse pensar demasiado no que tencionava fazer e no que isso significava, arriscava-me a perder a vontade. Agora, quando tocava no cordão em redor do meu pescoço, ele não parecia fazer com que me concentrasse na tarefa que tinha pela frente, antes murmurava uma mensagem diferente: tu és filha de Sevenwaters, dizia ele. Tu és uma de nós. Mas eu não esquecera o aviso da minha avó. Ela queria resultados. Sem resultados, regressaria e faria com que outros pagassem pela minha desobediência. No entanto, quando pensava nisso, parecia-me que, fizesse o que fizesse, a gente de Sevenwaters estava sempre condenada. Podia proteger os inocentes da ira da minha avó obedecendo às suas ordens. Se o fizesse, não haveria mais incêndios, quedas inesperadas e todas as coisas que ela enumerara, tais como envenenamentos, ou desaparecimentos. Os que eu tentava proteger estariam em segurança em Sevenwaters, em Kerry e, mais a oeste, em Ceann na Mara. Talvez o conseguisse. Mas, a longo prazo, se cumprisse a sua demanda, a batalha seria perdida, assim como as Ilhas e aquela família mergulharia no caos e no desespero. Não seria uma catástrofe maior do que as perdas pessoais que eu tentava evitar? Na verdade, se ouvisse as vozes dos que se chamavam a si próprios Anciãos, a desgraça das Ilhas significaria, nem mais nem menos, do que a morte das grandes raças de Erin: os Fair Folk, os mais velhos e os muitos e estranhos habitantes do Outro Mundo que viviam por baixo da terra. Quanto à espécie humana, perderia para sempre os mistérios do espírito. Que homem ou mulher poderia viver sem isso?

 

Deixariam de ser os guardiões da terra e do mar, passando a ser parasitas, sem se preocuparem com o significado das coisas e sem respeito pela confiança sagrada depositada neles. Seria essa a vontade da minha avó? A escolha que eu enfrentava não era escolha nenhuma; ambos os caminhos iam dar à escuridão. E eu não podia esperar outra coisa, devido ao sangue amaldiçoado que me corria nas veias e nas do meu pai; sangue maculado, o que significava que nunca poderíamos pisar os caminhos da Luz. Eu não era filha de Sevenwaters. Fosse para onde fosse, não podia fazer outra coisa senão destruir a minha família e tudo aquilo que ela tentava, tão arduamente, salvaguardar.

 

Praticava o melhor que podia no interior do meu quarto até altas horas da noite. De manhã emergia pálida, a bocejar e de mau humor. E a tia Liadan vigiava-me com as suas feições pequenas e doces e sem qualquer expressão. A tia Aisling também me vigiava, franzindo o sobrolho, e ordenava-me que descansasse de tarde e às filhas que me deixassem um pouco em paz. Eu agarrava esse tempo, grata e usava-o para praticar ainda mais. Ainda não me atrevia a fazer a transformação completa, mas estava cada vez mais perto. Entretanto, ia fazendo outras coisas: a manipulação de objetos, que se tornara fácil, o deixar cair e apanhar, as deslocações subtis e os ajustamentos de forma e tamanho. Uma vez, apanhei um susto com uma barata gigante; felizmente consegui desfazer o feitiço com um estalar de dedos. Perdi uma aranha, fazendo-a tão pequena que não consegui vê-la quando quis fazer o inverso. Ainda não conseguia fazer esse truque de olhos fechados. Ensaiei transformações em frente do espelho, primeiro as mais fáceis, já que o tempo era sempre limitado: a mais bonita e mais bem-feita rapariga da feira; uma versão mais simples, estrábica, de cabelos frisados e ralos; uma matrona com uma criança na barriga e rugas nas sobrancelhas; uma velha extremamente parecida com a minha avó. Desfazia esta última rapidamente, porque me arrepiava a idéia de que, no futuro, talvez eu ficasse como ela. Depois, um pouco mais difícil, uma Fainne com cerca de oito anos de idade, do mesmo tamanho da minha prima Sibeal. A criança olhava para mim da superfície de cobre polido do espelho, as feições inocentes, ainda informes; os cabelos caindo-lhe pelos ombros, como uma capa de fogo. No dedo usava um pequeno anel de erva. E por trás dela, em vez das paredes de pedra escura do meu quarto, vi as falésias do Favo de Mel, as ondas do oceano e o céu enevoado de Kerry. Pensei ouvir a voz do meu pai a dizer: muito bem, filha. Tens talento para isso. Desfiz a transformação abruptamente, demasiado abruptamente, porque quase desmaiei devido à súbita perda de energia que acompanha tais transições e quando olhei de novo para o espelho vi-me a mim própria pálida e exausta, como uma rapariga doente. Dia e noite aperfeiçoei aqueles talentos. Em breve, muito em breve, teria de dar o último passo, de rapariga para animal selvagem, de animal selvagem para rapariga.

 

Recebi uma carta de Eamonn. Não diretamente; teria sido inapropriado e Eamonn acreditava que devia, sempre que possível, fazer tudo segundo as regras. A carta era para o meu tio Sean e era um pedido formal de casamento. Uma carta daquelas não podia ser ignorada, nem podia haver uma recusa imediata se quem a escrevera era um parente e um aliado. Parecia não ter importância o fato de já ter sido dito a Eamonn que tal casamento estava fora de questão. Na verdade, o homem parecia não conhecer a palavra não. Fazia o pedido com cortesia, indicando que um dote não estava em causa sendo as minhas circunstâncias o que eram; acrescentava que, devido aos riscos iminentes do Verão, preferia que o casamento tivesse lugar na Primavera, talvez em Imbolc. Havia outra mensagem nas entrelinhas. Eu iria para Glencarnagh antes do Verão como sua mulher. E era evidente que me deixaria com uma criança no ventre quando partisse para a grande campanha. Se morresse, deixaria, pelo menos, um herdeiro. Sean percebeu perfeitamente essa mensagem. Quanto a mim, as intenções de Eamonn eram evidentes. Queria impor os seus direitos de propriedade. Agora que sabia do que eu era capaz, queria ter a certeza de que faria a sua vontade e não a de outros. Informações; segredos; espionagem.

 

Comigo a seu lado, nenhuma oportunidade lhe seria negada. E era melhor deixar isso bem claro antes de começar a campanha. Ocorrera-lhe, talvez, que havia possibilidades na nossa união que iam além da eliminação de um inimigo particular.

Sean mostrou-me a carta em privado. Eu apreciei o gesto, não desejando ter a tia Aisling a vigiar aquele encontro. Li rapidamente a missiva e devolvi-lha.

 

— Muito formal — comentei.

 

O meu tio ergueu as sobrancelhas.

 

— Estou a ver que lês bem — disse ele.

 

— O meu pai ensinou-me. E Conor ensinou-o a ele. Suponho que poderia ser chamada de letrada. Talvez, se não me permitires que me case, eu possa arranjar um emprego como escriba.

 

Sean olhou zombeteiramente para mim.

 

— Não me parece. Conor disse que tu eras uma druida nata. Achas que serias capaz de responder à chamada?

— A minha espécie não pode trilhar esse caminho. — O meu tom era frio. — Devia saber isso, tio. No fim de contas, sou filha do meu pai.

 

— E da tua mãe, Fainne. Ela era minha irmã. Devo escolher bem por ti em memória dela.

 

— Mas escolheu bem mal para ela — disse eu amargamente.

 

— Talvez sim; e talvez não. É verdade que ela teve azar. No entanto, na ocasião, a família fez o que lhe pareceu melhor. Ninguém sabia o que viria a acontecer. Não penses mal de mim, Fainne, mas, de certo modo, Niamh comeu o fruto que colheu. Escolheu um homem que não podia ter.

 

Olhei para ele, irritada.

 

— Mas, nesse caso, eu não existiria, tio. Eu sou o fruto de uma ligação proibida. Não acha que este casamento é a melhor hipótese para mim?

 

Sean suspirou e sentou-se à pequena mesa.

— Devias falar com Liadan acerca disto — disse ele. — Alguns aspectos deste assunto devem ser discutidos entre mulheres.

 

— Não — disse eu rapidamente. — Isso não é necessário. Dê-me apenas uma boa razão para que Eamonn e eu não nos casemos; uma razão para além da diferença de idades, porque essa não tem importância, já que eu não me importo.

 

Pensei que o tinha encostado a um canto, onde me revelaria a verdade sobre Eamonn e Liadan, um segredo bem guardado, que originara uma grande amargura. Mas ele era um bom estrategista.

 

— Muito bem — disse ele. — Precisamos da autorização do teu pai. Liadan diz que tem a certeza que ele não a dará. Mas, se tu estás disposta, façamos uma experiência. Diz-me onde poderemos encontrar Ciarán e eu mando-lhe um mensageiro com a notícia, pedindo-lhe a sua bênção para o teu casamento.

 

— Não! — Não consegui controlar o medo. — Não, não pode fazer isso! — Uma vez cá fora, não podia retirar as palavras.

 

Sean olhou para mim com olhos perspicazes.

— Estou a ver — disse ele. — No entanto, temos de responder a esta carta de uma maneira ou de outra, ou Eamonn aparece aí a exigir uma resposta. Puseste-me numa situação muito delicada, sobrinha.

 

— Peço desculpa — murmurei.

 

— Não interessa. Conor chega amanhã para celebrar o ritual do solstício; discutiremos isto com ele e com Liadan antes de decidirmos a nossa resposta. Que Brighid nos salve. Por vezes, penso que recuei até à data em que a tua mãe recusou uma oferta semelhante. Já então, a feiticeira que era a velha inimiga da nossa família tinha de novo a mão em cima de nós, movendo-nos como peças de um jogo qualquer da sua própria invenção. Talvez, quando chegou a ocasião, Niamh não tenha tido hipótese.

 

Fiquei gelada. Pensei na minha mãe saltando para o vazio e nas palavras de Liadan:

 

— Sempre me pareceu impossível. — Um terrível pensamento introduziu-se na minha mente, recusando-se a sair.

 

— Não precisas de ter medo de Liadan — disse Sean com um pequeno sorriso. — Ela amava a irmã e não te quer mal nenhum.

— Medo? É claro que não tenho medo. — Até a mim aquilo me parecia pouco convincente. Olhei de novo para o meu tio. Ele estava tranquilamente sentado, os dedos afagando a cabeça do grande cão sentado a seu lado. Os olhos do animal estavam meio fechados de prazer. Aos pés de Sean, o outro cão dormia. — Só que...

 

— Diz, Fainne. — A sua voz era amável. — Eu quero que te sintas aqui como em tua casa, sabes isso. Quero que te sintas como mais uma das minhas filhas enquanto estiveres conosco.

 

— É que ela tem... o... o poder, a capacidade de falar sem palavras, de ler os pensamentos das outras pessoas, eu sei que ela tem. E eu... tenho medo disso, tio. Medo que a tia Liadan me leia o pensamento e veja coisas que são... privadas. — Por que dissera aquilo? Só servia para lhe aumentar as suspeitas. — Uma rapariga da minha idade tem segredos acrescentei apressadamente. Coisas que é capaz de dizer à sua melhor amiga, mas a mais ninguém.

 

— Devias falar com ela — disse Sean de novo. — É verdade, há pessoas na família com essa habilidade. A sua força varia de pessoa para pessoa; Liadan tem um dom poderoso, partilhado apenas por mais uma pessoa, que eu saiba. Mas ela nunca o usa para espiar, ou meter-se onde não é chamada, Fainne. Tal dom acarreta uma grande responsabilidade. Não pode ser usado de ânimo leve. Só se soubesse que aqueles que ama estão em perigo mortal é que o usaria dessa maneira.

 

As suas palavras não fizeram nada para me tranqüilizar.

— Estou a ver. Talvez fale com ela. Isto tem de ser discutido em alguma espécie de... fórum familiar, com Conor e com os outros?

 

O meu tio acenou gravemente com a cabeça.

 

— Acho que sim, Fainne. Temos de escolher as palavras com cuidado quando elaborarmos uma resposta para Eamonn. Ele é um homem muito influente; não nos podemos dar ao luxo de o enfurecer.

 

Não via Conor desde o incêndio. E ele não me via desde que levara o velho druida para descansar sob a tranqüilidade dos grandes carvalhos. Não sabia o que lhe diria.

 

Parecia-me que o sentimento de culpa estaria espelhado no meu rosto e eu achava que ele sabia ver essas coisas. Parecia-me que o espírito maligno que eu herdara da minha avó se veria nos meus olhos e que isso não passaria despercebido a um homem com as capacidades do arquidruida.

Eu estava sentada ao lado de Maeve, contando-lhe uma história. Apesar dos meus melhores esforços, descobri que não conseguia recusar os seus repetidos pedidos para a visitar e, uma vez sentada a seu lado, era incapaz de lhe recusar uma história. Desta vez começara com uma história acerca de dois pequenos amigos e como quase foram apanhados pela maré. Maeve e eu não estávamos sós; Muirrin estava ocupada a bater qualquer coisa num almofariz e o jovem de pele escura, Evan, estava no quarto ao lado a cuidar de um sujeito com uma grande dentada no traseiro. Os bosques estavam cheios de porcos selvagens e nos seus esforços para arranjar um bom espécime para a festa do solstício conseguira mais do que previra. A presa entrara e saíra com uma limpeza a toda a prova; Evan falava de modo a tranqüilizar o paciente enquanto lhe suturava a ferida. Johnny estava em frente da pequena lareira. Aparecera depois de eu ter começado e eu pensara interromper a história, já que não me queria revelar a ele daquela maneira. Mas Maeve, com a sua vozinha delicada, disse:

 

— Continua, Fainne, por favor.

 

Johnny abriu a boca num sorriso grande e desarmante e eu continuei.

 

— Bem, que haviam eles de fazer? As ondas estavam a ficar cada vez maiores, o dia cada vez mais escuro e tudo o que restava da praia era um pedaço de areia, suficiente apenas para a pequena Fainne pousar os pés. Ela estava assustada, mas não abandonaria Darragh e, assim, não disse nada, apertou Riona contra o peito, olhou para a água que se aproximava cada vez mais e sentiu a rocha inclinada por trás de si; demasiado inclinada para poder trepá-la.

 

Maeve olhava para mim com ar solene. A sua cabeça ainda estava ligada; mas o olho, pelo menos, tinha sarado, o inchaço desaparecera e a vista estava intacta. As mãos estavam enfaixadas. Sabia que Muirrin mudava as ligaduras duas vezes por dia e que a obrigava a dobrar e mexer os dedos. Ouvira a criança chorar de dor ao sentir a pele queimada esticar. A própria Muirrin saía daquelas sessões com os olhos vermelhos.

 

— Então, Darragh disse: Vamos ter de nadar. Não é longe... só até àquelas rochas além e depois podemos saltar para o paredão. Dá-me a Riona, que eu levo-a. E Fainne disse em voz baixinha: “Eu não sei nadar”. Darragh olhou para ela, com a água a chegar-lhe aos tornozelos e disse: “Achas que vou deixar que te afogues? Não podes deitar-te de costas e flutuar sem entrar em pânico? Eu nado pelos dois. Tem que ser; as ondas estão cada vez mais perto”. Dito isto, meteu Riona no cinto e entrou na água. As ondas já rebentavam na base da falésia. Fainne sentiu a água nos joelhos, ensopando-lhe o vestido. Só o pensamento de entrar na água fazia-lhe tremer o corpo todo. Mas não daria a entender a Darragh que tinha medo. Assim, fez o que ele lhe pedira: entrou no mar revolto e deixou que ele a envolvesse, sentindo o frio percorrer-lhe o corpo; sentiu os braços de Darragh sob os seus e em redor do peito, segurando-a e começaram a deslocar-se na água, deixando que ela os levasse. Fainne nunca tivera tanto medo. Por vezes, a água esparrinhava por cima dela, entrava-lhe para a boca e para o nariz e uma vez o aperto de Darragh abrandou e ela quase se afogou. A água estava gelada e ela sentiu a força do oceano erguendo-os e baixando-os, para cima e para baixo. Outra vez, atreveu-se a abrir os olhos e olhou para trás; mas fechou-os logo a seguir porque estavam muito longe da praia, tão longe que parecia impossível Darragh conseguir nadar de volta com o seu peso a retardá-lo. Fainne fechou os olhos com força.

 

“Olha, Fainne,” disse Darragh. “Temos companhia. Que visão rara”. Era mesmo dele; nada como um rapaz que estava quase a afogar-se nem sequer tinha a respiração acelerada. Cautelosamente, ela abriu um pouco os olhos. E ali, ao lado deles, à direita e à esquerda, nadavam duas grandes criaturas de pele macia das profundezas, mantendo a mesma velocidade deles, como guardiões elegantes. Eram sereias, filhas de Manannán mac Lir, que tinham vindo para os levar a salvo para a margem. Durante toda a travessia através da baía elas brincaram, mergulharam e nadaram em círculos, dançando na água e Fainne olhava de olhos esbugalhados, quase se esquecendo que tinha medo. E, por fim, chegaram às rochas macias no outro extremo da baía e Darragh e Fainne saíram da água, tremendo de frio e com sorrisos de orelha a orelha. As duas sereias foram-se embora sem um único olhar para trás, mas, durante algum tempo, puderam vê-las brincar ao gato e ao rato para lá das ondas.

— Dizem, — disse Darragh a olhar para elas, — que as sereias são meio humanas. Sabias? Por vezes, saem da água, tiram as peles e tornam-se homens e mulheres de novo, por um certo tempo. Mas têm sempre de regressar. O mar chama-as. Estão sob um feitiço. Pelo menos é o que dizem.

 

Fainne acenou com a cabeça e foram os dois para casa, cheios de frio, ensopados e cansados, mas felizes. Quanto a Riona, tomou um banho que não queria tomar, mas secou depressa em frente da lareira e o que ela ficou a pensar da aventura nunca ninguém soube, porque ela não diz.

 

Maeve deu um pequeno suspiro de satisfação, eu olhei para cima e na soleira da porta estava Conor.

 

— Uma história verdadeira, sem dúvida — observou ele solenemente enquanto se aproximava para cumprimentar Muirrin e Johnny e tocar na cabeça da criança com uma mão gentil.

 

— Oh sim — disse Maeve com toda a segurança. — Todas as histórias de Fainne são verdadeiras. Bem, aquela do duende talvez não. Mas as de Darragh são verdadeiras.

 

— A sério? — Johnny sorria de sobrancelhas erguidas enquanto olhava para mim. — E que grande nadador ele é. Acho que gostava de o conhecer. Parece ser um tipo bom para termos junto de nós.

 

— Bem, isso é pouco provável — disse eu reprimidamente. — Ele vive muito longe, para Oeste. E as histórias são verdadeiras e não são.

 

— As melhores histórias são todas assim — disse Conor. — Aprendeste essa arte com o teu pai, sem dúvida — acrescentou ele calmamente. — Ele tinha a habilidade de nos manter suspensos das suas palavras.

 

— Desculpem-me. — Levantei-me de repente e desapareci murmurando algo acerca de coisas a fazer. Quando fiquei a salvo no meu quarto, fiz um esforço para me acalmar, coloquei-me em frente do espelho e chamei a arte. Mas a minha mente estava confusa e triste e não consegui escapar às minhas próprias feições, que olhavam para mim ameaçadoramente. Por fim, desisti. Abri a minha arca e, procurando lá bem no fundo, tirei o xale de seda que levara uma vez, há muito tempo, numa outra vida, numa ida à feira a cavalo. Sentei-me no chão com as suas cores alegres de Verão em redor dos ombros, fechei os olhos com força e comecei a oscilar para trás e para a frente, murmurando: Lamento, lamento. Mas se estava a falar do meu pai, ou de Darragh, não sabia.

 

Ceder daquela maneira à fraqueza era perigoso. Demonstrava uma lamentável falta de autocontrole. O meu pai nunca deixara que os seus sentimentos o dominassem.

 

Como ficaria desapontado se me pudesse ver. No entanto... no entanto, lembrava-me daqueles longos períodos de tempo em que ele se fechava no seu gabinete e não me deixava, sequer, aproximar. Lutaria com a prática complexa da arte, ou lutaria com outra coisa qualquer? E via-o sair ao fim do dia com a expressão confusa e de aversão por si próprio que eu via agora nas minhas próprias feições. Então, atribuía aquilo aos grandes desafios que ele punha a si próprio como mestre feiticeiro que era. Mas agora, subitamente, já não tinha tanta certeza. Como filha dele, teria feito tudo para lhe aliviar a tristeza, para lhe fazer chegar aos lábios aquele raro sorriso, mas, quando estava assim, evitava o contato e cortava pela raiz as minhas perguntas ansiosas. Mais tarde, fazia o possível para me recompensar, contando uma história à lareira e escutando pacientemente enquanto eu relatava os pequenos acontecimentos do dia. E eu desejava que o seu mundo fosse melhor, mas sabendo que era impossível. O meu amor por ele dera cor à minha vida e ainda dava. Era essa a arma mais poderosa da minha avó, que me condenava a um futuro de trevas e traições.

 

Não pude escapar a Conor. Ele encontrou-me antes do jantar, quando fazia um recado à tia Aisling. Eu estava na cozinha, onde havia outro par de olhos que eu preferia não ter encontrado. A anciã, Janis, não dissera grande coisa desde o meu regresso de Glencarnagh, mas o que dissera deixara-me bastante desconfortável.

 

— Eu sempre soube — observou ela, fixando o seu escuro e perscrutador olhar em mim — que a tua mãe só arranjaria sarilhos. E arranjou. Parece-me que tu não és diferente.

 

— Que quer dizer? — disse eu, ultrajada com aquela ridícula acusação.

 

— Ele encontrou-te? — foi o esforço seguinte dela.

— Quem? — perguntei, olhando irritada para ela.

 

— De quem pensas tu que estou a falar?

 

Seguiu-se uma pausa. Percebi que tinha as mãos cerradas. Fiz um esforço para as relaxar.

 

— Não o vi — disse-lhe eu friamente.

 

— Não o viste, ou não o quiseste ver?

 

— Que tem com isso? Como se atreve a interrogar-me assim?

 

— Miúda, eu sou suficientemente velha para dizer a verdade sem medo. Talvez não tenhas ouvido. Niamh nunca ouvia quando eu lhe dizia o que lhe convinha. Arrepender-te-ás para sempre se despedaçares o coração do rapaz.

— Que disparate — disse eu tremendo, mas o tom da minha voz perdera a sua certeza. — Os corações não são para aqui chamados. Darragh é... era... meu amigo, mais nada. Foi-se embora. Tem uma namorada em Ceann Na Mara, uma rapariga muito bonita que sabe tudo acerca de cavalos e que tem um pai rico. É... é ótimo para ele. Aqui não há corações, nem para ele, nem para mim.

 

Janis suspirou e sorriu tristemente.

 

— Eu vi o olhar nos olhos dele, miúda. A mim, parece-me que não sabes o valor do que deitaste fora. A mim, parece-me que tu não sabes nada de nada.

 

— Sei, sim — murmurei, perguntando a mim própria porque estava ali a ouvi-la, deixando-a magoar-me tanto com as suas palavras. — Só que... só que, precisamente, por saber o que sei é que faço o que devo fazer. É melhor assim. Melhor para Darragh e melhor para toda a gente.

 

Janis perscrutou-me de perto.

 

— Não é assim que as coisas funcionam, miúda — disse ela em voz baixa. — Não podes dispor das vidas das outras pessoas e dos seus sentimentos só porque achas que é melhor. Cresceste com Darragh, não cresceste?

Acenei com a cabeça, de lábios cerrados.

 

— Hum. Ele disse-me. E alguma vez ele te deixou decidir por ele?

 

Abanei a cabeça.

 

— Estás a ver, então.

 

— Eu sei o que é melhor — disse eu, furiosa.

 

Janis estendeu a mão rugosa e pegou-me na minha. O seu toque era surpreendentemente suave.

 

— Há aí muitas lágrimas, miúda — disse ela.

Tudo o que consegui foi acenar com a cabeça, porque as suas palavras tinham-me feito recordar a pequena imagem que vira em sonhos, noite após noite, desde o dia em que transformara uma rapariga num peixe e permitira que a sua própria mãe pusesse fim à sua vida com uma faca de cozinha. Via-me a mim própria com uma angústia que ameaçava rasgar-me a alma.

 

— Não posso fazer nada — disse eu com a voz estrangulada, e fugi. Depois daquilo fiz os possíveis para me manter afastada de Janis. No entanto, havia os recados e era impensável não os fazer, porque naquela casa a palavra da tia Aisling era lei.

 

Portanto, estava eu na cozinha, pedindo à cozinheira para mandar alguns homens buscar algumas galinhas e Janis estava sentada silenciosamente à lareira a olhar para mim. E no outro lado do fogão estava Conor, fazendo exatamente o mesmo.

 

— Ah — disse ele com um sorriso — precisamente a rapariga com quem eu queria falar. — Vem, Fainne, vamos dar um pequeno passeio juntos. Tenho uma proposta para te fazer.

 

Não podia recusar. Encontrei uma capa pendurada perto da lareira; Conor puxou para cima o seu capuz. Tinha nevado de novo e deixamos as marcas das nossas botas na neve enquanto caminhávamos pelo carreiro na direção da floresta. No ar havia aquele calor que pressagia mais neve antes do cair da noite. Esperei que o druida falasse. Tentei antecipar as perguntas, formando as convenientes respostas na minha cabeça. Talvez me fizesse perguntas acerca do incêndio e o meu papel nele. Talvez falasse de mortes e ferimentos. Talvez me perguntasse, de novo, porque viera para Sevenwaters. Talvez quisesse falar do meu casamento; para me dizer que era impossível.

— Amanhã celebramos Meán Geimhridh — disse Conor. — Provaste ser uma boa assistente na última vez, Fainne. Estás disposta a desempenhar de novo o mesmo papel?

 

Lutei para encontrar uma resposta.

 

— Eu... não percebo porque quer que eu faça isso. Não seria de modo nenhum apropriado.

 

— Não? — perguntou Conor sorrindo um pouco. — E por que não?

 

Não lhe podia contar a verdade: que seria uma falsidade. Na noite de Sambain eu fizera de conta que pertencia à família. A minha avó aparecera na noite de Sambain e eu provocara o incêndio.

 

— Não posso — disse eu rudemente. — Sabe que eu nunca poderei pertencer à Ordem dos sábios. E sabia que o meu pai também não podia, mas mentiu-lhe e deixou-o pensar, durante aqueles anos todos, que era possível. Foi como... foi como prometer a alguém um premio maravilhoso se esse alguém trabalhasse arduamente e depois, no fim, tirar-lho. Não admira que o meu pai fale de si com amargura. Eu não posso ser uma druida, tio. Não posso fazer as coisas próprias de um druida. Não sou capaz.

Passou-se muito tempo antes que Conor respondesse. Se o tinha feito zangar, disse a mim mesma, não me importava; já era tempo de ele enfrentar a verdade. Ele sentou-se no muro de pedra, perto do local onde o carreiro passava por baixo das árvores nuas a caminho das sombras da floresta. E eu fiquei ao lado dele, olhando para lá do lago.

 

— Lembro-me de o teu avô reconstruir este muro, pedra a pedra — observou ele finalmente. — Hugh de Harrowfield era um grande professor, sábio e paciente. Ensinou aos homens daqui como se faziam as coisas, mas fazia sempre a sua parte; dava sempre o exemplo. Há um truque nisto, um certo saber. Tens de dispor as pedras ao comprido ao longo da linha do muro com o lado mais estreito para baixo; desse modo, as pedras amparam-se umas às outras e não quebram sob pressão. Estas pedras são como uma grande família; os fortes apóiam os fracos, mas cada um desempenha o seu papel no todo.

 

Não fiz qualquer comentário. Aquilo pareceu-me um conto educativo.

 

— O que disseste não é verdade, Fainne — disse Conor solenemente. — Creio que percebo por que razão pensas assim, pois isso era o que o teu pai pensava: por ser filho de uma feiticeira, foram-lhe interditados os poderes da Luz, a prática mais elevada da arte. Uma vez a idéia na sua mente, nenhum argumento a abalou. Tentei dizer-lho naquela noite em que ele veio a Sevenwaters e lhe contamos a verdade acerca dos pais. Mas recusou ouvir.

 

— Como é possível eu estar errada? O nosso sangue é mau. Por mais que tentemos, todas as nossas alternativas conduzem à escuridão. E isso não se pode controlar. Eu sei.

Conor suspirou.

 

— És muito jovem, Fainne. Como podes ter tanta certeza?

 

— Porque... porque é o que me acontece — murmurei. — Não vale a pena pensar de outra maneira.

 

— Não acredito numa coisa dessas, filha.

 

— É verdade, tio. Não se trata apenas do que o meu pai preferiu acreditar. É uma coisa antiga, muito antiga. A história do que nós somos. Nós descendemos de uma dos Túatha Dê, os Fair Folk; de uma que foi banida por praticar o lado negro da arte. Ela originou algo de demoníaco e libertou-o no mundo. Por isso, os Fair Folk baniram-na e interditaram-lhe a magia mais elevada. É assim com todos os seus descendentes.

 

Conor olhou para mim intensamente.

 

— Uma história interessante — disse ele. — Mas, no fim de contas, não passa de uma história. Onde ouviste isso, Fainne?

 

— O meu... o meu pai disse que foi assim.

 

— E onde terá ele ouvido isso, pergunto a mim próprio? Uma pessoa pode ou não acreditar nessas histórias. Mas eu retribuo-te com um argumento que não podes deixar de acreditar que é verdadeiro, pois baseia-se em fatos verídicos.

 

Esperei.

 

— Diz-me uma coisa. Alguma vez viste o teu pai usar a arte com fins maléficos?

 

— Não — respondi contrafeita. — Mas isso é diferente. — O meu pai fez uma escolha. Ele disse-me que a nossa espécie é atraída pelo mal. Mas uma pessoa pode sempre escolher não utilizar a arte.

 

Conor acenou com a cabeça solenemente.

— Então, ele não exerce a arte?

 

Franzi o sobrolho.

 

— Exerce; para quê, ninguém sabe. Talvez o faça para se desafiar a si próprio; para preencher os dias vazios. Ele costumava fazer demonstrações para me ensinar. Mas... na realidade, exerceu-a apenas uma vez. — Olhei de relance para o druida. — Ele salvou a população da enseada quando os Nórdicos a invadiram. Ainda hoje falam disso.

 

— Então — disse Conor — a única vez que ele a exerceu foi para praticar o bem.

 

— Mas houve pessoas que morreram — disse eu. — Houve um guerreiro de cabelos louros muito claros, que o mar atirou para a praia no meio da madeira dos navios destruídos.

 

— É um assunto complicado. Às vezes é difícil separar o que está certo do que está errado, Fainne. E tu ainda és muito nova e mal começaste o teu treino.

 

— O que é que isso quer dizer? — perguntei abruptamente, um pouco ofendida por ele me considerar uma principiante.

— Já falamos do teu pai. E de ti? Dizes que só podes trilhar um caminho para a escuridão por seres quem és. Digo-te que isso está errado. Tu, realmente, podes escolher. Sim, tu és neta de uma feiticeira. Mas a tua outra avó era a minha irmã Sorcha, a quem as pessoas chamam, por vezes, a Filha da Floresta. Ela era uma mulher extremamente forte; de grande coração, espírito puro, muito amada nesta casa e na comunidade. O teu avô, Hugh de Harrowfield, era um homem forte e admirável, porque, no fim de contas, era bretão. Tu também recebeste essa herança, Fainne. Quer queiras, quer não, também és uma de nós. E estás errada no que diz respeito à arte. Liadan contou-me o que aconteceu com Sibeal no regresso de Glencarnagh. Usaste as tuas capacidades para praticar o bem. Estou certo que já o fizeste noutras ocasiões.

 

Senti que ia chorar.

 

— Fiz muitas coisas más, tio. — Parecia que as palavras me estavam a ser extraídas à força apesar dos meus esforços. — Coisas terríveis que não lhe posso contar. Se a família soubesse, seria banida como o meu pai.

 

— Ciarán nunca foi banido. — A voz de Conor era calma, mas a sombra de uma dor antiga permanecia nela. — Ele preferiu partir. Preferiu um rumo perigoso. Acredito foi em busca de Lady Oonagh.

 

— Lady Oonagh?

Ele ergueu as sobrancelhas.

 

— A mãe dele, a feiticeira.

 

— É esse o nome dela? Eu sempre lhe chamei apenas avó.

 

Por vezes, dizemos coisas, mas as palavras saem, sabemos que nunca as devíamos ter dito. Mas é tarde demais para voltar atrás. Vi a expressão de Conor mudar; vi a confiança serena desaparecer para dar lugar a uma rigidez pálida que era quase medo. Afastei o olhar, virando o rosto para as águas do lago, naquele dia, cinzentas e escuras sob o pesado céu de Inverno.

 

— Tu... — balbuciou ele, tossindo levemente. — Diz-me uma coisa, Fainne — disse ele já mais calmo. — A tua... a tua avó esteve sempre em Kerry enquanto tu lá viveste?

 

Achei que ele estava a escolher as palavras com o máximo cuidado. Quanto a mim, deixara que a conversa enveredasse por águas muito perigosas. Perdera totalmente o controlo. Era assim que os druidas agiam. Com a educação que tive, tinha obrigação de não me ter deixado enredar.

— Não, tio. Ela esteve lá pouco tempo. Eu cresci sozinha com o meu pai, como já lhe tinha dito.

 

— Se ele acreditava que a arte te conduziria ao mal, por que ta ensinou?

 

Não tinha resposta para aquilo.

 

— Vem — disse ele. — O tempo está a refrescar. Regressemos.

 

— Sim, tio.

 

Encaminhamo-nos para a fortaleza em silêncio. Fui assaltada por sentimentos contraditórios, um deles o medo da fúria da minha avó caso tivesse ouvido aquela troca de palavras. Mas, para além desse medo, sentia um enorme terror, o de que talvez Conor tivesse razão. Seria possível, então, eu não ser totalmente má e poder aspirar a algo diferente? Este pensamento era cruel. Certamente, não passava de uma esperança vã, a mesma esperança que o meu pai tivera e que lhe foi rudemente sonegada. Enquanto caminhávamos na direção da porta principal, onde uns rapazes estavam atarefados a varrer a neve dos caminhos e umas raparigas bem agasalhadas com xales e lenços penduravam grinaldas de verdura em redor da porta, lembrei-me daquela ocasião na feira. Eu não tive razão quando impedi aquele tipo de executar os seus truques maldosos; não devia ter libertado os animais julgando que estava certa. Mas fizera-o. Usava o amuleto, mas fizera-o na mesma.

A idéia que Conor colocara na minha mente era tão aterradora que desejei, do fundo do meu coração, nunca a ter ouvido. Mas, uma vez alojada na minha mente, não a podia afastar. Apercebi-me de que a verdade se aproximava sorrateiramente de mim há já muito tempo, desde o momento em que enfiei o pequeno talismã da minha avó no estranho cordão feito de várias fibras. Havia qualquer coisa neste colar que funcionava contra a maldade do talismã. Algo de maravilhoso e belo. Talvez fosse o amor, ou a família; talvez ambos. Sentia-me feliz por a minha avó nunca ter conseguido dominar a arte de ler os pensamentos alheios. A arte que a minha tia Liadan possuía em abundância. Pois a idéia que me ia na mente nunca poderia ser vista pela minha avó.

 

Naquela noite, apaguei a lareira do meu quarto e sentei-me, gelada, à luz vacilante de uma pequena vela, enquanto as sombras dançavam nas paredes ao ritmo do bater do meu coração. Lá fora, nevava; o silêncio era profundo. Acreditara que não podia fazer senão o que a minha avó queria: levar a cabo uma missão terrível, de enormes proporções. Apesar de me parecer impossível, planeara fazê-la, pois estava ligada pelo medo e pela crença de que, mais cedo ou mais tarde, não poderia fazer outra coisa senão o que ela queria e seguir o rumo demoníaco ligado ao meu sangue amaldiçoado. Assustador, mas, ao mesmo tempo, fácil, porque era inevitável e estava fora do meu controlo.

 

Mas estava errada. O poder do amuleto distorcera-me a mente e enfraquecera-me a capacidade de raciocinar. Cegara-me a tudo, exceto ao que ela queria que eu visse. Através do talismã, a minha avó provocara o mal e fizera-me acreditar que fora eu a praticá-lo. Na verdade, era uma feiticeira formidável. Mas, talvez, não fosse assim tão formidável. Ela nunca me explicara por que razão não podia ela própria matar o Filho da Profecia e acabar, de uma vez por todas, com tudo. Tudo que dissera era que os acontecimentos deviam desenrolar-se de acordo com as profecias antigas. E, naquela noite, quando tirei o amuleto, ela precipitou-se para ver o que eu estava a fazer. Estava com medo de mim; medo do que eu pudesse fazer se escapasse ao seu controlo. Uma revelação importante, dissera o meu pai, e mais qualquer coisa acerca de encontrar o rumo certo para os meus dons. Muito bem, parecia-me que acabava de encontrar esse rumo, apesar de estremecer ao contemplá-lo. Poderia devolver a vida ao meu pai. Poderia mostrar-lhe que a nossa espécie podia, na verdade, aspirar à Luz. Poderia fazer com que àquela gente não fosse roubada a oportunidade de ganhar a batalha e salvar as Ilhas. Nunca poderia compensá-la pelo terrível mal que causara. O passado não podia ser apagado. Mas podia, de agora em diante, pisar, se tivesse coragem, um caminho diferente. Um caminho de medo e sacrifício; com o tempo, talvez um caminho de redenção. Lady Oonagh era forte. Mas eu tinha de ser ainda mais forte.