A Filha da Profecia
Capítulo Nove
Sabia o que tinha a fazer. Era uma questão de disciplina. Controle da vontade e concentração mental. Concentrar toda a energia na tarefa e não deixar que nada se interpusesse. Devia ter sido assim desde que subira pela primeira vez para a carroça de Dan Walker e abandonara a costa de Kerry. Era o que devia ter feito na floresta de Sevenwaters, em vez de permitir que as raparigas tivessem entrado na minha guarda e se tivessem instalado no meu coração contra todas as probabilidades. Era assim que me devia ter protegido, em vez de ouvir um druida e as histórias daqueles que se chamavam a si próprios Anciãos.
Havia uma estratégia para ser seguida e o primeiro passo era Eamonn. Eamonn não era assim tão difícil, disse eu para mim própria enquanto me lavava e vestia com um cuidado pouco vulgar, franzindo o sobrolho para o meu rosto branco como um fantasma e para os meus olhos sombrios no espelho. Pelo menos, não gostava dele, pensei, enquanto escovava cem vezes o meu cabelo e o penteava no topo da cabeça para parecer mais velha, pelo menos com dezessete anos. Era apenas uma questão de não me esquecer do que devia fazer e por que razão o fazia. Pensar na voz da minha avó a dizer: Ele pode muito bem ser assassinado na estrada por causa dos seus fracos haveres. Pensar nisso e fazer o que ela queria com mãos seguras de feiticeira.
Aventurei-me a sair, sabendo que era tarde e que haveria perguntas se não aparecesse pelo segundo dia consecutivo. Estava cansada, cheia de frio e cheia de equimoses. Não parecia nada uma rapariga que estivera a descansar um dia e uma noite. Uma ligeira palidez era uma coisa: uma aparência de completa exaustão era outra. Pelo menos, estava limpa. E não usaria o Encantamento. Tinha de fazer aquilo por mim própria.
Estava com sorte. As raparigas não estavam à vista e Eamonn estava só, de sobrolho franzido a consultar uns documentos escritos em letra muito pequena, sentado numa antecâmara onde umas altas e estreitas janelas deixavam entrar a luz do Sol daquela manhã de Inverno. Fiquei à entrada a olhar para ele, pensando que o seu rosto parecia gasto e cheio de rugas sob aquela luz inexorável, reparando que o seu cabelo castanho estava grisalho nas têmporas e lembrando a mim mesma que tinha de aprender que as pessoas eram peões num jogo, nem mais, nem menos. Não fiz qualquer som, mas, subitamente, ele ficou consciente da minha presença e levantou-se rapidamente, quase como se se estivesse a pôr em guarda à vista de um inimigo.
— Bom dia — disse eu polidamente. — Peço desculpa se te assustei.
— De modo nenhum. — Ele recuperou rapidamente, aproximando-se de mim para me guiar até um banco junto da pequena lareira. Estava um frio terrível; as tapeçarias agitaram-se sob a corrente de ar. Não consegui reprimir um arrepio.
— Vem, senta-te aqui — disse Eamonn. — Ainda não estás bem. Já comeste?
Abanei a cabeça, imediatamente foi chamada uma serva, imediatamente foi despachada e pouco depois reapareceu com pão, frango frio e um jarro de cerveja num tabuleiro, que colocou a meu lado. A rapariga foi despedida e a porta fechada.
— Por favor — disse eu — perturbei-te no teu trabalho. Por favor, continua. Ignora-me. Eu fico quieta. Ou, se quiseres, posso comer noutro lado qualquer. Não queria...
Eamonn fez uma pequena careta.
— De maneira nenhuma. Isto vai devagarinho; a tarefa não é do meu gosto e não me consigo concentrar. A interrupção é bem-vinda. Além disso, estava mesmo a pensar mandar uma mulher saber como estavas. Deixa-me servir-te.
Esperei em silêncio enquanto ele deitava a cerveja na caneca, pensando na mão de Darragh na minha e recordando-o a alimentar-me como a uma criança.
— Pronto — disse Eamonn. — Estava preocupado, Fainne. Não tivemos o prazer da tua companhia, ontem.
— Como vês, já estou bem. Bebi um pouco de cerveja e esmigalhei o pão entre os dedos.
— Eu... — Eamonn estava invulgarmente hesitante. — Pensei se a tua indisposição não terá sido resultado de... pensei que talvez te tenha ofendido, afligido. Sei que meu comportamento não foi muito apropriado.
Olhei para ele.
— Não foi bem o teu comportamento que... foi o que tu disseste. Eu fiquei um pouco perturbada, é verdade. Mas, como vês, já recuperei.
— Então, ofendi-te. Lamento. — Parecia sincero. Sentara-se no banco em frente e perscrutava-me de perto. Bebi mais um pouco de cerveja. De fato, tinha fome, porque as papas de aveia não tinham durado muito, mas um bom apetite não se coadunava com a imagem que queria criar. Deixei o pão.
— Temos de falar sobre isso — disse Eamonn em tom pouco entusiasta. — Mas não sei por onde começar.
Olhei para ele de relance. Parecia um homem que não tinha dormido e pressenti que os manuscritos espalhados sobre a mesa eram a menor das suas preocupações.
— Tu falaste em compromisso — recordei-lhe. — Acredito que isso é possível entre nós. Mas não falaremos sobre esse assunto esta manhã. Ainda estou cansada e tu pareces um pouco confuso. Posso fazer uma sugestão?
— Fazes favor.
— Talvez eu possa ficar aqui um bocado, tranquilamente. Não precisamos de falar sobre o que aconteceu entre nós. Trouxe algum trabalho de costura comigo; vou comer e beber e trabalhar um pouco porque a luz é boa nesta sala e esta manhã só quero a tua companhia. Podes continuar com o teu trabalho como se eu não estivesse aqui. Mais tarde, talvez depois do jantar, falaremos de outros assuntos.
Ele ficou a olhar para mim durante alguns momentos. Então, disse:
— Esteve aqui ontem um rapaz a perguntar por ti. Um tipo rude. Disse que te queria ver e não gostou nada de receber um não como resposta. — Eamonn tinha o sobrolho franzido. Mantive-me impassível.
— A sério?
— Trazia um belo pônei, um animal bom demais para um vagabundo. Completamente branco. As pessoas daqui disseram que tu o conhecias de Kerry.
— Devia ser um dos nômades, suponho. Foram eles que me trouxeram para Sevenwaters.
— Isso foi um arranjo pouco vulgar — disse Eamonn, troçando.
— Talvez, mas foi uma viagem segura, porque uma rapariga não pode viajar sozinha sem uma escolta. As pessoas deixam os nômades em paz. Esse homem é sobrinho de uma das servas do meu tio Sean. Mais nada.
— E para ti, Fainne, que significa ele? Ele foi muito persistente. Tolamente. Parecia de compreensão lenta quando lhe disse para sair das minhas terras. Que significa ele para ti?
E, subitamente, senti um certo tom na sua voz e um olhar nos seus olhos que me deixaram muito desconfortável. Lembrei-me de que este homem sustentava o seu ressentimento ciumento há mais de dezoito anos. Este homem dissera: Um homem que me tira o que é meu é pago na mesma moeda. Não gostei daquele olhar, mas a voz da minha avó dizia: Sim, sim. Joga com isso.
Tentei uma risada suave de desprezo.
— Para mim? Nada. Eles são boas pessoas, mas simples. Têm o hábito de aparecer, perguntam por um amigo e depois vão-se embora outra vez. Não quer dizer nada.
— Amigo? Certamente, uma dama não pode ser amiga de um tipo assim, um latoeiro?
— Não tem mal nenhum — disse eu espontaneamente. — Além disso, eu não sou nenhuma dama. Tu próprio o reconheces, não negues. Um homem da tua posição não pode pensar em casar com uma rapariga como eu, no fim de contas. Uma rapariga cujo parentesco é, pelo menos, irregular. Uma rapariga educada no isolamento, sabendo mais acerca de livros e outras coisas do gênero do que do governo de uma casa.
— Fainne...
— Ah, quebrei as minhas próprias regras. Vamos fazer o seguinte. Tu sentas-te e continuas a decifrar esse teu pequeno manuscrito. Eu vou comer o que tu, amavelmente, mandaste vir e continuar com a minha costura. E só falaremos mais tarde. Estás de acordo?
Eamonn sorriu secamente e retirou-se para a sua cadeira junto da mesa.
— De certo modo — observou ele — sinto-me como se estivesse a receber instruções, não a ser consultado.
— Isso não te agrada? — perguntei, as sobrancelhas erguidas imitando o estilo da minha avó.
— Não disse isso.
Acabei o meu pequeno-almoço e concentrei-me no meu trabalho de costura. Ainda bem que a minha avó me tinha ensinado a coser. Talvez a qualidade dos meus pontos não a satisfizesse, mas, pelo menos, dava uma imagem de competência doméstica. E a luz era boa. Este homem falara de pele branca e cabelo ruivo como se ambas as coisas lhe agradassem. Sentei-me exatamente onde o sol de Inverno tocava nas minhas faces pálidas; sabia que os seus raios fariam sobressair a cor dos meus cabelos, transformando-os num halo deslumbrante. Concentrei-me no meu trabalho, os meus dedos movendo-se diligentemente. Sabia, sem olhar, que os olhos de Eamonn estavam mais vezes fixos em mim do que no documento à sua frente.
O tempo passou num silêncio total. O Sol percorreu o seu caminho no céu e o melhor da sua luz morreu no interior da sala. O solstício de Inverno estava próximo.
Por um momento, permiti a mim própria pensar em Darragh e em Aoife transportando-o para oeste, para Seann Na Mara. Regressaria para junto de O’Flaherty, instalar-se-ia, casar-se-ia, talvez, com Orla e criaria um rancho de filhos de cabelos escuros e filhas de belos olhos azuis. Todos eles nadariam como peixes e montariam como se tivessem nascido numa sela. E teria a sua irmã mais nova com ele quando ela se casasse com Aidan. A sua existência seria simples, feliz e cheia de projetos. Viveria para ver os seus filhos crescerem.
— Fainne?
Estremeci, como se me tivesse picado e saí dos meus pensamentos perigosos. Não podia permitir-me tal coisa. Tinha de me concentrar.
— Hum? — perguntei, terminando uma seqüência e cortando a linha com os dentes.
— Eu... nada. Esquece.
— Quebraste as regras — disse eu de modo ligeiro, dobrando o meu trabalho.
— Não fales.
— Mas eu já acabei o meu trabalho. Talvez seja melhor ir-me embora.
— Não vás. É agradável ter-te aqui enquanto trabalho. Parece estranho, mas é agradável. Eu costumava... costumava sonhar que seria assim com... costumava imaginar como seria se fosse um homem casado. Como poderia ser diferente. Tinha uma imagem na cabeça, na qual cavalgava para casa, para Sídhe Dubh e... não, não me parece próprio. Não devo dizer estas coisas diante de ti.
— Podes dizer — disse eu em voz baixa.
Eamonn levantou-se e aproximou-se de mim, olhando através da alta e estreita janela para a paisagem de Inverno: os ulmeiros de ramos nus e o jardim escavado, esperando as novas plantações.
— Vais pensar que sou tolo — disse. — Mole.
— Não vou, não, Eamonn. Não te julgarei.
Ele olhou para mim de relance, sem expressão.
— Nesses tempos, sabes, pensei que me casaria e teria filhos, como qualquer homem. Foi então que conheci o Homem Pintado; esse filho do diabo que se tornaria no desejo de vingança da minha vida. Então, não sabia que seria ele a roubar-me tudo o que me era querido; que me tiraria a esperança da minha vida e que ficaria ele com ela. Então, acreditava que a minha vida seria como a dos outros homens. E à medida que ia sentindo a escuridão entrar-me no espírito provocada pela influência desse homem, crescia na minha mente uma pequena imagem, uma imagem pura, a única que permaneceria: a minha mulher à entrada de Sídhe Dubh com o meu filho nos braços. Essa imagem era a minha garantia de que tudo seria como deve ser.
Eu não disse nada.
— Pensamentos tolos de velho — observou Eamonn amargamente — É isso que estás a pensar.
— Era Liadan que vias, claro.
— Claro. Mas ele levou-ma. Ela deu à luz o filho dele. Os filhos dela deviam ser meus.
Ele dissera uma coisa extraordinária, tão extraordinária que eu mal consegui formular uma resposta.
— Dissemos que só falaríamos dessas coisas mais tarde — consegui dizer. — Por que preferiste dizer-me isso agora?
Eamonn evitou o meu olhar. Olhou para lá da janela, para um homem no carreiro, em baixo, com uma forquilha ao ombro e um par de cães nos calcanhares.
— Não sei — disse ele após um momento. — Suponho que, vendo-te aí muito tranqüila, senti uma espécie de... de integridade, do que a minha vida poderia ter sido se as coisas tivessem sido diferentes.
Eu não disse nada.
— Eu não queria falar disto; contei-te sem querer. Foi uma tolice, um sinal de fraqueza.
— Não podemos recuperar o que nunca tivemos.
Levantei-me.
— Vou-me embora — disse eu calmamente. — Vou ver as raparigas e depois vou descansar mais um pouco. O passeio à queda de água provocou-me mais dores no corpo do que imaginava.
— Foi muito imprudente da minha parte. — Eamonn franziu o sobrolho, olhando para mim. — Muito imprudente.
— Não tem importância — disse eu de modo ligeiro. — Depois do jantar talvez possamos jogar brandubh de novo e falar mais sobre essas coisas...
— Acho que não...
— Talvez possamos. — O meu tom era firme. — Mas, antes, gostaria que pensasses numa coisa.
Ele esperou.
— O que é que tu queres? — perguntei cuidadosamente. — De que é que precisas para continuar? De que estás à espera para agarrares a vida com ambas as mãos e assegurares que és recebido em tua casa de braços abertos e que ouves risos de crianças? Qual é o fantasma que te impede de fazer isso?
— Tu não podes...
— Ah — disse eu. — Posso, sim. Fiz-te uma pergunta e estou à espera da resposta.
— Não quero falar mais dessas coisas. É melhor esquecermo-nos delas.
— Não me parece — disse eu. — Só viveste metade da vida. Se deitas fora o resto, o teu inimigo venceu-te. E agora vou-me embora. És capaz de me fazer uma coisa?
Ele inclinou a cabeça com cortesia, mas os seus maxilares estavam cerrados.
— Põe as mãos atrás das costas — disse eu. — E fecha os olhos até eu dizer que podes abri-los.
Surpreendido, mas condescendente, ele fez como pedido. Coloquei as minhas mãos em ambas as faces do seu rosto e senti o seu corpo retesar-se.
— Olhos fechados — disse eu severamente. — Então, fiz um esforço e beijei-o, um beijo que começou como o doce encosto de lábios que se poderia esperar de uma rapariga inocente como eu. Mas a minha avó ensinara-me muitas coisas. Eu sabia como fazer com que o beijo mudasse, com um ligeiro abrir dos lábios e um pequeno toque da língua, para algo mais, algo que faria com que o sangue de um homem fervesse e a sua respiração se acelerasse, tal como estava a acontecer agora com Eamonn. Esperei pelo momento em que ele já não conseguisse controlar as mãos que tinha atrás das costas e nesse momento retirei os lábios e recuei.
— Fainne! — disse ele afogueado e olhando para mim. — Que estás a tentar fazer-me?
— Nada — respondi de olhos muito abertos, surpreendida. — Só te quis mostrar que também acredito em compromissos. A propósito, se, no futuro, tiveres dificuldade em ler, estarei pronta para te ajudar. Sei ler muito bem e os meus olhos são mais novos.
Virei-lhe as costas, saí da sala e Eamonn não disse uma palavra.
Não era fácil. Desprezava-me a mim própria pelo que estava a fazer. Senti um arrepio ao pensar no que pensaria Darragh se me pudesse ver. O meu pai sempre me deixara percorrer o meu próprio caminho e fazer os meus próprios erros, mas isto tê-lo-ia chocado profundamente. No entanto, encontrei as forças necessárias para continuar. Havia uma pequena imagem do meu pai na minha mente, tossindo sangue. E havia outra de Darragh e Aoife cavalgando para Oeste, para longe do perigo. E as pequenitas, todas diferentes, cada uma delas fantástica à sua maneira? Tinham confiado em mim espontaneamente; não podia expô-las à fúria destrutiva da minha avó. Só precisava de pensar nisso para, no fim de contas, poder continuar.
Passei algum tempo com as pequenas. Estavam invulgarmente deprimidas; Eilis mostrou-me o seu trabalho de costura, as gêmeas estenderam-se no tapete em frente da minha lareira e Sibeal sentou-se à janela, tão quieta e calada como se fosse feita de pedra.
— Muito bem, Eilis — disse eu. — A tua mãe ficaria muito orgulhosa de ti. Lamento não ter podido ajudar-te ontem. Estive doente.
— Ajudei-a eu — disse Deirdre com um ligeiro toque de presunção — Estiveste aqui fechada o dia todo. Nem sequer respondeste quando batemos à porta. O que é que se passa contigo?
— Tive uma grande dor de cabeça. Mas já estou melhor.
— Não pareces melhor — observou Clodagh. — O teu rosto está branco e tens olheiras.
— Pensamos que talvez tivesses tido uma discussão com o tio Eamonn.
— O tio Eamonn anda mesmo maldisposto — disse Deirdre.
Não respondi. Era melhor passar menos tempo com elas a partir dali. Era melhor afastar-me rapidamente, mesmo que isso as magoasse. Ficar perto delas era pô-las em perigo. Além disso, eram muito boas a resolver quebra-cabeças.
— Não o viste — disse Clodagh no meio do silêncio. — Darragh. Ele esteve aqui e tu não o viste.
— Ah, sim ouvi dizer — disse eu com firmeza.
— Nunca pensamos que eles existissem mesmo. — Deirdre estava no chão, uma mão a amparar a cabeça e olhando para mim, sentada na cama com Eilis. — Ele e o pônei branco. Mesmo a sério. Pensamos que era uma história acerca das aventuras de um rapaz e um pônei. Mas existem mesmo. Ele deixou-nos fazer uma festa em Aoife.
— Ele disse que tinha estado em Sevenwaters. E viu Maeve, sabias? Ele disse que ela estava melhor. — Clodagh estava a segurar um graveto por cima do fogo, deixando-o arder. — Podemos ir para casa, Fainne?
Subitamente, ficou tudo silencioso no quarto. As quatro olharam para mim intensamente.
— Em breve — disse eu. — Muito em breve. Tenho de falar com o vosso tio Eamonn, primeiro. Perguntar-lhe o que pensa, se quiserem.
Clodagh olhou de relance para Deirdre e uma mensagem sem palavras passou de uma para a outra.
— Ele vai dizer que não — disse Clodagh. — Ele vai querer que tu fiques em Glencarnagh. E tu não podes ficar sem nós. Havias de o ter visto ontem, quando Darragh esteve aqui.
— Estava furioso.
— Darragh foi simpático — observou Eilis. — Deixou-me dar uma cenoura ao pônei.
— Não te importas? — perguntou-me Clodagh. — De não o teres visto?
Respirei fundo.
— Foi pena — disse eu o mais firmemente que pude. — Mas eu não estava em condições de ver ninguém, nem sequer um velho amigo. O vosso tio Eamonn fez o que devia fazer.
Senti Sibeal a olhar para mim, apesar de estar nas minhas costas. Mas ela não disse nada.
— Tu é que sabes — disse Clodagh em tom de perfeita incompreensão. Depois de elas saírem tentei descansar, mas não consegui. Ocorreu-me, nesse dia, que as visões que tivera enquanto à lareira, com o braço de Darragh em redor da minha cintura e o calor do seu corpo contra o meu, tinham sido os últimos sonhos bons da minha vida.
Agora, enquanto mergulhada num meio sono, as imagens enchiam-me a mente: a minha mãe saltando de uma falésia e caindo, caindo com os seus cabelos brilhantes chicoteados pelo vento e as rochas em baixo estendendo os seus braços antecipadamente para um abraço final; o meu pai, o rosto branco como a cal, cuspindo sangue; Darragh à beira da estrada com uma faca nas costas e Aoife farejando-o delicadamente, os seus olhos fiéis desvairados ao sentir que ele não acordava. E mais tarde outras imagens, que me pareciam falar de coisas que iriam acontecer, ou que poderiam acontecer. Uma rapariga a chorar de olhos cerrados, revelando os meus caracóis ruivos e a minha pele leitosa, as lágrimas caindo-lhe pelas faces, o nariz cheio de ranho e a boca esticada num ricto de angústia. Já vira aquilo antes. As palavras vieram com a imagem: Só mais tarde te aperceberás do que perdeste. E então, subitamente, uma escuridão súbita, como se o mundo estivesse de pernas para o ar devido àquela dor. Homens murmurando e gritando de medo. E uma grande onda, uma parede de água vinda de lado nenhum, uma ondulação tão alta que ao olhar para ela era como se se estivesse a olhar para a morte, como se se respirasse pela última vez. Eu tiro-te tudo... tudo... eu levo tudo...tudo...
Reparei, ao jantar, que Eamonn mudara de roupa e que os seus cabelos, tal como os meus, traziam sinais de terem sido escovados. Observei os seus olhos castanhos-escuros e sombrios, as feições quadradas e inflexíveis, a maneira como uma madeixa de cabelo lhe caía por cima da sobrancelha. Pensei que, em tempos, devia ter sido um jovem bem bonito, que qualquer rapariga teria gostado de ter por marido.
Quando se pensava na sua riqueza e poder, era difícil imaginar a minha tia Liadan a rejeitá-lo por outro homem, especialmente um tão estranho e tão pouco atraente como o seu marido. Não parecia fazer sentido. Tentei imaginar que espécie de mulher seria ela para tratar um pretendente de maneira tão cruel, tão cruel que lhe assombrara a existência. Então, disse de novo a mim própria que não devia esquecer que os homens e as mulheres eram apenas peças de um jogo, prontos a serem manipulados. Não me competia sentir pena daquele homem solene, pálido e de meia-idade que estava sentado, calado, do outro lado da mesa, comendo pouco e bebendo constantemente. Não me competia sentir o que quer que fosse. Menina bonita, disse a voz da minha avó.
Terminamos a refeição. Um dos criados levou os pratos e trouxe vinho. Eamonn deu-lhe instruções para não sermos incomodados fosse pelo que fosse. Diante da lareira estavam duas cadeiras de espaldar, esculpidas, com uma pequena mesa entre elas. A caixa com as peças de brandubh e o tabuleiro, elaboradamente desenhado, estavam prontos.
— Queres jogar? — perguntou Eamonn instalando-se à minha frente. Este jogo não, pensei.
— Hoje não. Creio que não me conseguiria concentrar. A tua gente não vai tirar conclusões precipitadas se a porta estiver fechada e se souberem que não nos devem incomodar? A minha reputação pode ir por água abaixo.
Eamonn olhou de frente para mim.
— Como vês, não fechei a porta à chave nem vou fechar. Não precisas de ter medo de mim, Fainne. Eu não sou um sedutor, seja qual for a opinião que formaste acerca de mim.
— O teu comportamento, no outro dia, não abona muito o que estás a dizer agora.
— Já te pedi desculpa e volto a fazê-lo. Não sei o que me deu. — Ergui as sobrancelhas.
— Mal me atrevo a adivinhar.
— Também, não me tornaste as coisas fáceis. Esta manhã tu... eu não consigo perceber o que tu queres de mim. — Eamonn deitou-me vinho na taça e voltou a encher a sua. A bebida era muito forte, com um paladar doce que fazia lembrar encostas soalheiras e flores campestres. Bebi cautelosamente, consciente de que tinha de me manter lúcida.
— Vamos ao que interessa — disse eu. — Tens uma resposta para a minha pergunta? Porque me parece que, se vamos continuar, o passado tem de ser resolvido. E eu posso ajudar, acredita.
— Não sei como, Fainne. — Eamonn olhou fixamente para a sua taça como se pudesse encontrar nela a resposta para um problema qualquer. — Tu nunca o conseguirias compreender, por muito que quisesses, porque, no fim de contas, és muito jovem e bastante inexperiente. Nunca compreenderias o que existe entre mim e...
— E Liadan?
— E outras. Tu própria o disseste. Que foste criada no isolamento, longe do convívio dos homens. Nem sequer te passa pela cabeça as coisas más que aconteceram. És uma inocente. Como me poderias ajudar?
— Estou a ver. — Levantei-me. — Então, isto não teve significado nenhum, não é verdade? Assim sendo, é melhor regressar a Sevenwaters. As pequenas têm perguntado quando poderemos regressar. Vou dizer-lhes que podemos partir amanhã.
— Não. — Eamonn levantou-se bruscamente e senti a sua mão no meu braço. — Não foi isso que eu quis dizer. Por favor, senta-te, Fainne.
— É difícil, não é? — perguntei suavemente depois de me sentar de novo e ele abriu os dedos que se tinham crispado no meu braço e regressou ao seu lugar. — Tu não percebes o que eu quero e eu não faço idéia do que tu queres. Creio que nem tu sabes. Por que não começas por responder à pergunta que te fiz?
Eamonn não respondeu. Tinha a boca cerrada, como se tivesse dificuldade em reprimir as palavras.
— Estás a fugir à pergunta? — perguntei. — Achas que é... qual é a palavra de que tu gostas muito... inapropriada?
Os seus lábios abriram-se num sorriso pálido.
— Foi bastante apropriada. Acho que me podes responder.
— Talvez. Mas eu quero que sejas tu a responder. — Outro silêncio.
— Nunca falei destas coisas — disse ele em voz baixa, como se estivesse a pedir desculpa, após um momento. — Ao fim destes anos todos. Por que o faria agora? Além disso, estou ligado a uma promessa. Não te posso contar toda a verdade.
Eu não disse nada e continuei à espera.
— Tu disseste uma coisa que ainda não me saiu do pensamento durante o dia todo. Que, se eu não agisse agora para mudar o rumo da minha vida, ele ter-me-ia, de algum modo, derrotado. Se queres te diga o nome do fantasma que devo afastar, digo-to. O Homem Pintado. Ele matou-me os meus homens, roubou-me a minha mulher e roubou-me os meus filhos. Ele roubou-me o futuro. Não consigo imaginar outra vida enquanto não lhe puser as mãos no pescoço e o estrangular. Quero vê-lo sofrer e morrer. Era isto que querias ouvir? Era?
— Diz-me uma coisa. — A minha voz não estava muito firme, mas consegui controlá-la. — Não te incomoda que a mulher que em tempos amaste perca o seu marido e enfrente um futuro de dor e solidão? Porque ainda gostas dela, não o negues.
— Amar? Lá estás tu de novo com essa palavra. Essa palavra não tem significado, Fainne. Hás de perceber isso mais tarde. Liadan condenou-me a uma vida vazia. Merece mais do que eu? Além disso, Inis Eala está cheia de homens. Criaturas ferozes como ele, todas elas. Ela tem muito por onde escolher. A cama dela não ficará fria durante muito tempo após a morte dele.
— Isso é um pouco injusto.
— Achas? Depois do que ela fez?
— Diz-me uma coisa. Não tens esperança de que, por trás do teu desejo de vingança, uma vez o homem morto, Liadan possa mudar de idéias e voltar para ti? — Observei-o atentamente enquanto ia pronunciando as palavras. — É por essa razão que continuas solteiro? Não disseste, uma vez, que estes salões continuam à espera dela?
— Ah! — troçou ele. — Eu não sou nenhum idiota. E tenho o meu orgulho. Ela aviltou-se ao deixar que aquele homem a possuísse. Já não serve para casar com um homem de posição. Ela assim o quis. Não lhe daria uma segunda oportunidade, nem que ma pedisse de joelhos.
— Além disso, ela já não tem idade para te dar filhos saudáveis. — Eamonn olhou para mim e eu aguentei-lhe o olhar. — Portanto, tens de matar esse Homem Pintado. Então, poderás esquecer e recuperar a tua vida. Se é assim por que não tomaste essa iniciativa há anos atrás? Por quê perder tanto tempo? Certamente, tens os recursos necessários? Disseram-me que esse homem é uma espécie de pária, renegado por todas as pessoas respeitáveis, apesar de possuir uma grande propriedade no outro lado do mar. Além disso é bretão. Um inimigo. Teria sido fácil. Por que esperaste?
— Pensas que não tentei? — A voz de Eamonn tornou-se abrupta, ele levantou-se e começou a andar de um lado para o outro na sala. — O tipo é escorregadio como uma enguia e não se deixa encurralar; é astuto e não tem escrúpulos nenhuns. Com o casamento, adquiriu um pouco de respeitabilidade. Com o tempo, adquiriu Harrowfield, além da bizarra propriedade no norte. Por isso, tem aliados e inimigos poderosos. Dizes que eu tenho os recursos necessários. Mas não são nada comparados com os dele. Ele é engenhoso, vigarista e consegue que tudo lhe corra de feição. Sabe como escapar da rede mais fina e como fugir ao cão mais rápido. A minha perseguição tem sido incansável ao longo dos anos, Fainne. Nunca me consegui aproximar. O tipo é assim.
— Esperto.
— Esperto? Manhoso que nem uma raposa, diz antes. Nojento.
— Esse homem é aliado de Sean e pai do seu herdeiro. É capaz de ser difícil. Se o Homem Pintado morresse não prejudicaria a campanha do meu tio contra os Bretões? Muirrin disse-me que cada um dos parceiros da aliança tem um papel vital a desempenhar no sucesso da campanha de Sean.
— Talvez — disse ele franzindo o sobrolho. — Mas a minha demanda para destruir esse homem não tem nada a ver com Sean.
— Mas os guerreiros de Inis Eala vão lutar ao lado das tuas forças na batalha pelas Ilhas. Nesse caso, o Homem Pintado não vai ser teu aliado?
— Esse homem é demoníaco — disse ele friamente. — Não pode ser considerado aliado em circunstância alguma. Desde há muito que está marcado para morrer às minhas mãos.
— Que me estás a dizer? — perguntei. — A tua sede de vingança é mais forte do que o desejo de ver as Ilhas regressarem ao Ulster? Como pode ser isso?
Eamonn resmungou qualquer coisa enquanto continuava a andar de um lado para o outro.
— O quê?
— Não posso continuar esta discussão. Já te disse. Estou ligado a uma promessa.
— Uma promessa a quem?
— A ela. Não me perguntes mais nada, Fainne. Não te posso dizer mais nada.
— Muito bem. Já sei o que tem de ser feito. Parece-me que precisas de um espião.
— Não pode haver espiões em Harrowfield. Ninguém entra, ou sai, sem o homem saber. E ele sabe sempre. Já tentei. Quanto a Inis Eala, é inexpugnável. Nem um único dos meus homens conseguiu chegar à aldeia à beira-mar, quanto mais ao outro lado. O Homem Pintado tem uma rede de espiões que rivaliza com a do próprio Northwoods. Ele viaja frequentemente entre o Ulster e a Bretanha e mais longe ainda, mas fá-lo em segredo. Ninguém lhe consegue seguir o rasto. As pessoas costumavam dizer que ele e os seus homens eram uma espécie de criaturas do Outro Mundo, fora das leis dos humanos. Por vezes, estupidamente, até eu próprio quase que acredito.
— Muito bem — disse eu. — Não pode ser um espião. Pelo menos, humano.
— Que outra espécie haverá, então?
— Ah. Já lá vamos. Mas acredito que posso ajudar-te. Queres mais vinho?
Voltei a encher-lhe a taça; acrescentei mais umas gotas à minha. Eamonn fixava-me, mal acreditando no que lhe estava a dizer.
— Tu, ajudares-me? Desculpa, Fainne, mas não vejo como.
— Não, não podes ver. Mas, a seu tempo, explicar-te-ei. Primeiro, quero fazer-te outra pergunta.
— Espero que não seja tão difícil como a última. Parece-me que isto está a ser mais cansativo do que o brandubh.
— Quero que me digas, honestamente, por que razão achas que não sirvo para tua mulher. Mas fala abertamente.
Eamonn abriu e fechou a boca.
— Achas esta pergunta despropositada? — perguntei eu friamente. — Parece-me óbvio.
— A tua educação tem algumas falhas — disse ele de lábios semicerrados. — Uma jovem não deve fazer uma pergunta dessas a um homem.
— Já a fiz e quero que me respondas francamente. E se achas que é despropositada, também é despropositado um homem da tua posição levar a sobrinha de um parente para um passeio a cavalo, sozinha, meter-lhe a língua na boca e as mãos...
— Chega, Fainne! Até ficas... grosseira.
— Eu não sabia nada até tu me ensinares — disse eu recatadamente, detestando o seu olhar de repugnância.
— Cometi um erro. Já te pedi desculpa. Tu és uma rapariga muito bonita e tens uns modos que atraem o olhar, a imaginação e que fazem um homem desejar abraçar-te e fazer as coisas que tão francamente me fizeste recordar. É natural um homem sentir-se assim, Fainne. Até uma inocente rapariga de convento sabe isso. — Anuí com os olhos postos no chão.
— Uma mulher sente o mesmo. É o que acontece quando duas pessoas se juntam; o sangue ferve e desejam permanecer juntas. Eu sei. Mas já te disse que não me entregarei a um homem fora do casamento. E tu já disseste claramente que não tencionas casar. No entanto, trouxeste-me para aqui e não pareces ansioso por me veres pelas costas.
Eamonn olhou para a lareira, relutante em me encarar.
— Na verdade, não. Como já te disse, acho que és uma companhia agradável, esperta, inteligente e competente. Tens jeito para as crianças; és paciente e dócil. E cheia de surpresas. Começo a aperceber-me de que gosto mais de surpresas do que pensava. Não nego que esperava que pudesses... que pudesses deixar-me ensinar-te a arte do amor, Fainne. Tenho pensado muito nisso desde que te vi pela primeira vez com as tuas primas em Sevenwaters, tão deslocada naquela casa como uma flor exótica entre flores silvestres. Mas, casamento? Nunca pensei em tal coisa.
O meu coração ficou gelado de fúria. Respirei lenta e cuidadosamente. Os sentimentos são irrelevantes. Os sentimentos só atrapalham e evitam que se faça o que deve ser feito.
— Então, achas que eu deveria ficar aqui como uma espécie de... esposa não oficial? É isso? Para te aquecer a cama, para me sentar recatadamente a teu lado enquanto trabalhasses e para me esconderes sempre que recebesses visitas importantes?
— Não, Fainne. — Ele parecia triste, mas não consegui ter pena dele. — Nunca pensei em tal coisa. Portei-me levianamente, por egoísmo e sem pensar nas conseqüências. Uma falha, que não tornarei a repetir. Foi como se tu fosses uma chama que eu quisesse guardar em minha casa, para me aquecer.
— Muito poético. Mas não me aceitas como esposa. Por que não?
— Não pensei em casamento. Parece-me demasiado tarde. Além disso, quando um homem da minha posição casa, a mulher tem que ser de boas famílias. Não penses que não me ocorreu quando te conheci. Informei-me. Informei-me junto da minha irmã e de Sean. Informei-me junto do druida. Foram todos muito evasivos quanto à identidade do teu pai. Foi o suficiente para me alertar para uma irregularidade qualquer. Um homem não leva o seu melhor garanhão a uma égua qualquer, Fainne. A descendência ficaria manchada e não prestaria.
Engoli a humilhação com enorme dificuldade. Apeteceu-me bater-lhe. Em vez disso, corei levemente e bebi um pouco de vinho.
— Estou a ver. Sabes, um bom casamento seria muito importante para mim. Sou prendada e tenho alguns conhecimentos; na verdade, até tenho alguns que tu nem imaginas, Eamonn. Mas, em casa do meu tio Sean, não sou mais do que uma parente pobre. Sem um bom casamento e um homem digno para me guiar, enfrento um futuro obscuro. Quase de servidão.
Eamonn franziu o sobrolho.
— Eu ofereço-te um lugar aqui. Serás bem tratada. Terás tudo o que desejares; boas roupas, adornos, a administração da casa e da propriedade e a minha qualidade quando aqui vier. Dar-te-ei uma boa vida, Fainne. Não precisas de ser uma criada em casa da minha irmã. E... e iniciar-te-ia, a pouco e pouco, naqueles prazeres que mencionaste. Creio que não serias avessa a isso.
— Mas não colocarias o teu anel no meu dedo, não me darias o teu nome, nem me deixarias ter os teus filhos. Preferes não ter filhos a enfrentar essa vergonha. Seria, em tudo, uma pobre substituta dela, não é verdade? — A voz tremia-me apesar de todos os meus esforços.
— Oh, Fainne. Agi mal e causei-te um desgosto. Mas o casamento está fora de questão, minha querida. Toda a gente o reprovaria. Tal união seria vista como disparatada e inútil, um indício de que estaria a perder o juízo. Tornar-me-ia alvo de chacota.
— Se não te casares, não terás filhos legítimos. E, quando morreres, os abutres descerão sobre as tuas propriedades, que ficarão devastadas. É isso que desejas? Perdeste a vontade de lutar pelo que é teu, de preservar o patrimônio dos teus filhos? Estou desapontada. Afinal de contas, deixaste que o teu inimigo te vencesse.
Seguiu-se outro silêncio.
— Nesse caso, diz-me — disse Eamonn, pousando a taça violentamente na mesa e pegando-me nas mãos. — Diz-me quem és realmente e porque estás aqui. Pois, uma coisa é certa, não casarei com uma mulher sem pai.
A minha estratégia era arriscada e aquela era a parte mais difícil. Um homem com um sentido tão forte da propriedade recusaria a verdade. Tinha de lhe dizer a verdade e tinha de o manter interessado para que ouvisse o que vinha a seguir.
— Muito bem — disse eu hesitando naturalmente. — Vou contar-te a verdade. Não vais gostar do que vais ouvir. Vou ter que te exigir uma promessa. Que me deixarás acabar. Dá-me a tua palavra.
— Claro — disse Eamonn enquanto o seu polegar se movia levemente no meu pulso, como se, mentalmente, os prazeres da carne ainda o possuíssem contra a sua vontade. Se assim era, isso dava-me uma vantagem e eu teria de a usar apesar de me enojar.
— Muito bem — disse eu de novo. — Isto é muito difícil, sabes? É como admitir que estou... de certo modo, marcada. Eu não sou quem tu pensas, Eamonn. Nunca to disse, mas não fui criada num convento de irmãs católicas. Deixei apenas que acreditasses no que querias, é tudo. Cresci sozinha com o meu pai em Kerry, apenas os dois. O meu pai ensinou-me tudo o que sei. Em tempos foi druida, mas deixou de o ser quando conheceu a minha mãe e a levou. O seu nome era... é... Ciarán e é meio-irmão de Conor de Sevenwaters.
Seguiu-se um longo silêncio. Eamonn mantinha as minhas mãos nas dele, mas estas estavam imóveis, como que geladas.
— O quê? — perguntou ele tão baixinho que eu mal o consegui ouvir. Havia um choque profundo nos seus olhos.
— O meu pai é filho da segunda mulher de Colum de Sevenwaters. Ela levou-o consigo quando era muito pequeno; mas o pai trouxe-o de novo para a floresta e ali foi educado para ser druida. É um homem bom, sábio e honrado. Foi durante todos estes anos a minha única família, o meu guia e o meu mentor.
— Mas... mas isso quer dizer... sabes o que isso significa, Fainne? — Eamonn largou-me as mãos.
— Sim, sei. Significa que a união entre a minha mãe e o meu pai era proibida. O seu sangue era demasiado próximo, pois a mãe dela era meia-irmã dele. Mas eles não sabiam isso quando se apaixonaram. Ninguém disse ao meu pai de quem ele era filho senão demasiado tarde.
— Mas... mas a tua mãe, Niamh, era casada. Estava casada com um dos Uí Néill e foi raptada da minha fortaleza de Sídh Dubh. Foi raptada por... por... que Dagda me acuda! Não me digas que Liadan sabia dessa paixão incestuosa e que ajudou a irmã a fugir para os braços do amante? Que Liadan colaborou com a ajuda de... isto é uma aberração inacreditável! Que tal coisa tenha acontecido na minha própria casa, na presença da minha irmã! O Sean sabia disto?
— Sabia que eles se amavam. Foi por essa razão que a minha mãe foi dada a outro homem e foi para Tirconnell. Ela era muito infeliz. O marido era muito cruel com ela.
— Talvez ele tenha punido Niamh por ter descoberto que ela cometera um ato abjeto. Parece que tanto ela, como a irmã, tinham pouco juízo.
Engoli a raiva.
— Agora já sabes quem sou, Eamonn. Esta é a verdade. Agora já percebes por que razão os meus parentes foram tão evasivos nas respostas que te deram.
Pareceu-me que ele não tinha mais nada a dizer, continuando a fixar o fogo de braços cruzados. Pensei que estava a pensar na sorte que tivera; agradecendo aos deuses por, afinal, não me ter levado para a cama.
— Já chega disse eu com uma leveza que não sentia. Temos outros assuntos a discutir: o teu inimigo e a tua vingança. Porque parece-me que é isso que mais que te preocupa; de tal maneira que se sobrepõe à tua lealdade para com os teus aliados e parentes.
— Já não interessa — disse Eamonn desprendidamente. — Está tudo acabado entre nós. Se quiseres, regressa a Sevenwaters e leva as crianças. Que tudo fique como estava. Não tenho futuro, Fainne. Se eu quiser passar o resto da minha vida a perseguir um fantasma, que tens tu a ver com isso?
— Talvez nada — disse eu baixinho. — Mas detesto ver definhar um homem bom. Além disso, disse que te ajudava. Disse a verdade e vou dizer-te o que deves fazer. Antes de mais nada, era necessário explicar-te tudo acerca do meu pai. Ele foi criado para ser um druida. Mas depois de ter deixado a floresta, aprofundou o conhecimento da feitiçaria. Quando a minha mãe morreu, tornou-se o meu único companheiro; e ensinou-me muitas coisas, tal como um mestre ensina um aprendiz. Era isto que eu queria dizer quando falei em talentos.
— Isso já não me interessa.
— Prometeste que me deixarias falar até ao fim. — Eamonn estava hirto. Enchi uma taça de vinho, meti-lha na mão e ele despejou-a de uma só vez. Duvidei de que ele se apercebesse do que fizera.
— Imagina uma balança — disse eu calmamente. — De um lado está a tua oportunidade de acabar com o Homem Pintado de uma vez por todas. A certeza da vingança e de que tens a vida dele nas mãos. Do outro lado, está uma jovem; uma rapariga que, tu próprio admitiste, te faz bater o coração e ferver o corpo. Uma rapariga que se guarda para ti; que se mantém fresca e intocável para a tua noite de núpcias. Talvez não seja a que tu amas; mas dar-te-á o que Liadan nunca te deu. Dar-te-á a sua juventude, belos filhos e filhas e nunca olhará, sequer, para outro homem, mantendo a tua casa impecável, a tua lareira permanentemente acesa e que te receberá de braços abertos quando regressares. Com ela, nunca te aborrecerás; surpreender-te-á sempre, vezes sem conta. Mas há um problema. A sua linhagem está um pouco manchada. Tu próprio dizes que não a queres. Afastá-la. E, assim, perdes ambos. Os pratos da balança ficam desequilibrados; perdes o teu futuro e, ao mesmo tempo, desperdiças a oportunidade de destruir o teu velho inimigo e apagar as injustiças do passado. Porque, para teres um, tens de aceitar ambos.
— Tu falas como um druida. Não te compreendo. — Despertara-lhe a curiosidade.
Escolhera as palavras cuidadosamente.
— Para derrotares este inimigo, precisas de um espião. Precisas de saber os seus pontos fracos; Informações acerca dos seus movimentos, para saberes em que ocasião estará só e sem guardas e altura em que estará mais vulnerável. Ambos lutarão lado-a-lado no próximo Verão. Terás, então, muitas oportunidades.
— Mas...
— Sim, há um problema. Por um lado, uma propriedade na longínqua Northumbria, bem guardada, em território inimigo. Ninguém se atreve a atacá-la. Por outro, uma fortaleza numa ilha remota e secreta, com uma proteção tão grande que parece quase uma coisa do Outro Mundo. Este homem pode ser encontrado lá de tempos a tempos. Mas, como penetrar em tais defesas? Certamente que não através de um guerreiro qualquer treinado em espionagem. Este homem terá sempre um outro homem bem melhor. Não, tu precisas de algo mais. Precisas de um espião que passe despercebido, que se confunda com o meio, como se não estivesse lá. Um espião que penetre no conselho mais secreto e na reunião mais privada. Um espião que possa descobrir as confidências trocadas num quarto, se as quiseres saber. Isso posso eu providenciar.
Eamonn olhava chocado e divertido para mim. As suas maçãs-do-rosto estavam coradas; talvez fosse do vinho, mas detectei nele um novo entusiasmo.
— O meu pai ensinou-me umas coisas um pouco... vulgares — disse eu docemente. — Vou demonstrar-tas. Chama o teu criado; pede-lhe que traga alguma comida ou uns troncos para a lareira.
Sem fazer qualquer pergunta, Eamonn fez como lhe pedi. O homem entrou e ficou diante de nós. Um jovem um pouco atarracado, de rosto duro e olhos pequenos. O meu coração bateu com toda a força quando murmurei o feitiço porque via, ao mesmo tempo, a imagem da mulher utilizando a faca para abrir o peixe que era a sua própria filha. Desta vez não posso cometer nenhum erro. Enquanto Eamonn dava instruções em voz baixa ao servo, proferi algumas palavras mágicas em voz baixa, refreando a tentação de transformar Eamonn, talvez, num furão. Enquanto eu pronunciava as palavras, o homem começou a modificar-se, o nariz mais comprido, a pele mais escura e peluda e o corpo a encolher perante o olhar fascinado e horrorizado de Eamonn e ali, defronte dele, ficou um belo cão negro, arfando um pouco, de língua de fora, orelhas arrebitadas e a cauda abanando esperançadamente.
— Cãozinho bonito — disse eu. — Senta-te.
Eamonn pousou cuidadosamente a taça de vinho na mesa.
— Será verdade o que estou a ver? — murmurou ele. — Não será nenhum truque de luz, que desaparecerá mal nos movamos? Como conseguiste fazer isto?
— Chega-te aqui — disse eu. — É verdadeiro. Toca-lhe. Depois, é melhor transformá-lo outra vez e mandá-lo embora.
Cautelosamente, Eamonn estendeu uma mão e o cão lambeu-lhe os dedos.
— Dagda me acuda! — murmurou Eamonn. — Que és tu? Uma praticante de magia negra?
Toquei na cabeça do cão, murmurei uma palavra e, num ápice, o criado ficou de novo na nossa frente piscando os olhos, confuso. Senti-me percorrida por uma vaga de alívio; funcionara. Desta vez fizera tudo bem.
— Vai buscar mais vinho — disse eu bondosamente ao homem. — E algum pão de trigo, se houver. Lorde Eamonn está com fome. — Quando o homem saiu da sala, disse: — Não sou nenhuma bruxa má. O meu pai é feiticeiro. Ensinou-me. Mas não somos necromantes. Usamos a arte com sabedoria e cautela. Estás a ver como podemos usar isto para alcançar o objetivo que há tanto tempo te foge?
— Diz-me lá, então. Anda, vamos sentar-nos, esperamos que ele venha e saia de novo. Ele lembrar-se-á de alguma coisa?
— Depende. Depende de como o feitiço é feito. Este homem pensará que teve uma ligeira tontura, uma confusão momentânea, nada mais. Se eu o tivesse deixado na sua forma alterada durante mais tempo, poderia ser diferente.
— Tu eras... eras capaz de mandar um homem com a forma de uma criatura qualquer para obter informações? Ele seria capaz de, o fazer e trazer-mas de volta? — Eamonn estava ansioso, a mente pesando as possibilidades.
— Não, Eamonn. Eu vou explicar-te. E verás como a imagem da balança é adequada. Ah, aqui está o teu homem com o vinho. Obrigada. — Sorri enquanto o criado pousava um tabuleiro com outro jarro de vinho e um pequeno pão macio
— É tudo por hoje. — Eamonn não conseguia deixar de olhar para o criado, como se esperasse que, de um momento para o outro, ele arrebitasse as orelhas ou abanasse a cauda. — Podes ir deitar-te. Os outros também. Fecha a porta quando saíres e diz ao resto do pessoal que não nos incomode.
— Sim, meu senhor.
O homem retirou-se e Eamonn debruçou-se para pôr outro tronco na lareira. A sala estava bastante escura à exceção da luz trêmula da lareira e das velas colocadas aqui e além. Lá fora, o vento assobiava por entre as árvores. Ali, em frente da lareira, havia um sentimento de conspiração e segredos partilhados sob o manto da escuridão. Bebi um grande gole de vinho e pousei a taça. Não demasiado. Até ao momento, tudo correra como eu previra. Não podia dar-me ao luxo de agir irrefletidamente.
— Vou explicar-te tudo, Eamonn. Não posso transformar um homem num cão, numa mosca ou num pássaro e enviá-lo como espião. Com essa forma, não se lembrará das tuas instruções e não entenderá a fala humana. Eu podia modificar-te; podia transformar-te num sapo, ou num furão. Mas tu és da mesma espécie do teu criado; perderias também a tua consciência humana até eu te fazer regressar. Portanto, como vês, seria inútil.
— Nesse caso, como poderemos consegui-lo?
— Nem um homem, nem uma mulher, podem ser transformados assim e continuarem a ter o conhecimento de ambas as formas, homem e animal. Para isso, é necessária a sabedoria de um vidente. Ou de um feiticeiro.
— Queres dizer...?
— Quero dizer que, se queres fazê-lo, tens de confiar em mim. Porque eu posso transformar-me num mocho, num salmão ou num gamo e posso ir a casa do meu tio, ou às salas secretas de Inis Eala escutar tudo. Posso regressar e trazer-te a chave para a destruição desse homem. Tenho a capacidade e posso fazê-lo.
— Estás a falar a sério? — perguntou Eamonn lentamente. — Isso é verdade? Não é uma fantasia de rapariga?
— A minha avó transformou seis rapazes em cisnes e quase destruiu a casa de Sevenwaters — disse eu sinistramente. Podes acreditar que sou capaz de fazer a mesma coisa. O que conta aqui é a tua vontade. Porque, se isto for avante, a campanha do meu tio Sean está condenada. Afinal de contas, a tia Aisling é tua irmã. Gostarias que Sevenwaters caísse e que os Bretões ficassem com as ilhas?
Eamonn sorriu amargamente.
— Nós temos o Filho da Profecia, não é verdade? Talvez não falhe.
— O filho do homem que tentas destruir? Ele não será tão malvado como o pai, o homem que pensas ser menos do que humano?
— Por estranho que pareça, o rapaz é um bom líder, muito admirado entre os aliados. É forte, hábil e muito sábio para a idade. Custa-me aceitar que o filho desse homem possa, um dia, vir a ser o senhor de Sevenwaters. Mas um filho não escolhe o pai.
— Estou a ver. — Surpreendera-me. O seu ódio era tal que pensei que se refletiria em todos aqueles que estavam ligados ao Homem Pintado. Perguntei de novo a mim própria que tipo de homem seria aquele Johnny, em quem toda a gente confiava.
— Achas, então, que, se o pai morrer, ele comandará os aliados na batalha?
Eamonn franziu o sobrolho.
— Ele comandará em qualquer circunstância. A profecia é bastante clara. Quanto ao papel do pai, nada sei. Podemos ser aliados, mas Sean só diz o que lhe convém e isso irrita-me. Não sei se a perda do Homem Pintado afetará a campanha, ou não. Nem me interessa. Porque, a meu ver, devo confessar-te que uma coisa pesa mais do que a outra. Quero que me mostres, Fainne. Mostra-me que podes fazer o que dizes. — A sua voz tremia de antecipação. — Mostra-me que és capaz de te transformar.
— Ah não, isso não faço.
— Porquê?
— Porque é muito perigoso, Eamonn. Enfraquece a arte; depois, fica-se vazia e exausta. Tais poderes não podem ser usados levianamente como uma mera demonstração. Acredita, posso fazê-lo e fa-lo-ei quando chegar a ocasião.
— Tenho dificuldade em entender isto — murmurou ele e eu apercebi-me de que a sua mente fervilhava com as possibilidades que eu lhe propunha. — Com isto, posso apanhá-lo antes de o Verão acabar. Ficarei a saber os seus pensamentos e segredos mais íntimos. Com isto, certamente a minha demanda não falhará e o homem morrerá às minhas mãos. Tens a certeza, Fainne? Tens a certeza de que queres fazer isto por mim?
— Oh sim — disse eu calmamente. — Sem dúvida que quero. Mas há um preço a pagar, Eamonn. Tu não és o único com uma visão e um objetivo.
— Que preço é esse? — Conseguia perceber a excitação na sua voz; naquele momento, poderia pedir-lhe o que quisesse.
— Já te disse — disse eu. — A balança, o equilíbrio. Se aceitares um dos lados, tens de aceitar o outro. Se formos parceiros nisto, seremos parceiros em tudo. Eu executo a tua vontade e reúno as informações que tu queres. Partilho a tua lareira e a tua cama. Descobrirás que também ali sei fazer magia. Tenho os teus filhos e tu dás-me o teu nome. Preciso dessa segurança. Preciso de respeitabilidade, de um lar e de um sítio onde me sinta em casa. Sem isso, não farei nada. Porque, se matares esse aliado e a campanha do meu tio falhar, o meu único futuro é contigo.
Seguiu-se um silêncio de morte, interrompido apenas pelo estalar da lareira e do piar de um mocho no exterior. Esperei que ele dissesse que não casaria com uma mulher de sangue manchado, apesar de tudo. Se o dissesse, talvez não me conseguisse controlar; manter-me calma. Os poderes mágicos não protegem uma pessoa desse tipo de dor.
— Fainne? — disse ele baixinho. Estava a olhar para as chamas e eu não lhe conseguia ver a expressão.
— Sim? — Maldição, a minha voz começara a tremer, como se fosse chorar a qualquer momento. Fora pateta em beber tanto vinho. O controlo era tudo.
— Anda cá. Aproxima-te.
Levantei-me e ajoelhei-me diante dele, de modo a que a luz da lareira se refletisse nos meus cabelos e me aquecesse a pele pálida até ficar rosada. Olhei-lhe para os olhos, mantendo no rosto uma expressão de esperança inocente, fresca e sem artimanhas.
— Juras que estás a dizer a verdade? Que consegues fazê-lo e ser bem sucedida?
— Juro, Eamonn. — Ainda brinquei com a idéia de fazer mais uma magia; como o contrário do feitiço que usara com ele num momento delicado, perto da queda de água, mas vi a expressão no seu olhar e soube que não precisaria de tal ajuda. Havia mais do que simples desejo no seu olhar. Era o olhar de um homem tão consumido pelo ódio que não olhava a meios para obter o que queria; um olhar que me dizia que por mais que o seu corpo sentisse luxúria e necessitasse de ser apaziguado de tempos a tempos, a única coisa que realmente o excitava era o pensamento do pescoço do seu inimigo entre as mãos exalando o último suspiro.
— Toca em mim, Fainne — murmurou ele e eu ouvi a mesma excitação, irritada, perigosa, na sua voz. — Deixa-me saborear os teus lábios; deixa-me saborear neles a minha vingança.
Senti um forte desejo de lhe cuspir no rosto, pois parecia-me que o homem não me via, afinal, como uma verdadeira mulher, antes como uma ferramenta para os seus tenebrosos propósitos. A raiva e a vergonha cresceram em mim; suprimi ambas.
Controle, disse a voz da minha avó. Não o percas agora, quase no fim. Faz o que ele te pede. Disseste que serias uma boa esposa, não disseste? Demonstra-lho. Faz com que ele te deseje.
— Mas tu disseste... — murmurei.
— Só um beijo, apenas um — disse Eamonn suavemente, abraçando-me, encostando os lábios ao meu pescoço e ao meu rosto e como eu não tinha outra alternativa, deixei que me beijasse nos lábios. Foi o momento mais difícil de todos; fingir que colaborava, rodeando-lhe o pescoço com os braços, abrindo a minha boca para que ele a invadisse com a língua, sentindo as suas mãos no meu corpo e sabendo, o tempo todo, que não havia nenhum sentimento verdadeiro em tudo aquilo. Senti-me enojada, ao mesmo tempo que arquejava de prazer simulado e me encostava a ele.
Quanto a Eamonn, sentia-lhe o desejo, mas sabia que não eram os meus encantos que o excitavam. Ele provara que era o sentimento de vingança que o mantinha vivo.
Que viria depois, pensei, enquanto a sua mão subia pela minha perna? Não me conseguia imaginar como mulher daquele homem. Se isso viesse a acontecer, tinha as ferramentas necessárias para o punir pela sua arrogância. Mas nunca aconteceria.
Ocorresse o que ocorresse, não havia futuro para mim depois do Verão. Falara-lhe em casamento apenas para que a minha oferta de magia parecesse mais convincente, porque era pouco possível eu fazer tal gesto de boa vontade. Talvez o tivesse feito, também, por um certo sentido de orgulho. As suas mãos subiam cada vez mais.
Talvez não tivesse percebido o que eu queria dizer.
— Eamonn... — arquejei. — Tu prometeste...
— Só uma vez — murmurou ele. — Só uma vez, Fainne. Tu vais gostar. Farei com que isso aconteça. Depois, espero... não me digas que não...
Ele era muito forte; o suficiente para me impedir de escapar sem usar a arte e eu não podia usar o mesmo truque novamente. Não queria irritá-lo, porque, no fim de contas, ele ainda não dissera que sim, pelo menos por palavras. Além disso, eu não podia pronunciar as palavras de um feitiço enquanto tivesse a sua língua na minha boca e ele não parecia ter pressa de a tirar.
Ouvi o pequeno som antes dele. Não passou de um pequeno ranger, de um restolhar, quando a porta se abriu e alguém parou subitamente na soleira. Eamonn retirou os seus lábios dos meus e as mãos do meu corpo. Susteve a respiração, pronto para repreender o eventual criado que se atrevera a entrar onde não devia. Olhou na direção da porta. Seguiu-se um silêncio de espanto.
— Vim para levar as minhas filhas para casa. — A voz era do meu tio Sean, tão fria como um dia de Sambain. — E parece que cheguei a tempo.
Virei-me lentamente, sentindo o rubor subir-me às faces apesar de todos os meus esforços. O meu tio usava um fato de montar e o olhar nos seus olhos era tão glacial como a sua voz.
Por trás de mim, Eamonn respirou fundo e eu senti quando ele colocou as suas mãos nos meus ombros num gesto que me pareceu de posse.
— Sean. Surpreendeste-nos — disse ele com uma calma digna de louvor. — Fainne concedeu-me a honra de ser minha mulher.
A repugnância e o choque que vira antes no rosto de Sean não se comparavam com a expressão com que ele ficou depois daquela declaração. Deu deliberadamente dois passos no interior da sala, sem falar, os lábios cerrados com força. Então, retraí-me de dor ao sentir as mãos de Eamonn apertarem-me convulsivamente os ombros e o seu corpo ficar hirto.
O meu tio não viera só. Por trás dele, na soleira, estava uma mulher que eu antes não conseguira ver por ser pequena, mal chegando aos ombros de Sean. Pensei que era Muirrin; e então olhei de novo. Aquela mulher tinha os mesmos cabelos escuros e encaracolados da minha prima, entrançados e com madeixas teimosas caindo-lhe pelas feições delicadas. Tinha os mesmos olhos visionários e verdes e a mesma figura delgada. Mas Muirrin não tinha aquela boca doce e curva, uma boca que qualquer homem pensaria ter sido feita para beijar. E Muirrin não tinha aquele ar de autoridade, porque aquela mulher era consideravelmente mais velha e quando ela entrou no quarto, desapertando a capa de capuz, pareceu-me tão formidável como o meu tio, uma mulher que obteria obediência total sem necessitar de a exigir. Como inimiga seria terrível. Não tinha dúvidas de que era a única irmã da minha mãe, a minha tia Liadan.
— Eu... eu... — Eamonn, que lidara com o aparecimento inesperado do meu tio com uma calma surpreendente, parecia agora completamente perdido.
— Uma noite fria para andar a cavalo — observei e coloquei a minha mão sobre a de Eamonn por um momento, tirando-a depois quando ele abrandou o aperto. — Gostariam de uma taça de vinho, suponho?
— Obrigada. — Liadan parecia capaz de falar, ao contrário dos dois homens. A minha tia avançou, atirando com a capa para cima de um banco e revelando um vestido e uma túnica extremamente bem-feitos, o primeiro cinzento-escuro e a segunda um pouco mais clara, com um toque de violeta. Apesar da severidade da sua aparência, a sua voz era quente e os seus grandes olhos verdes observaram-me tranquilamente. Enchi a taça e passei-lha, mantendo as mãos firmes.
— Não os esperávamos — disse eu.
Liadan olhou de relance para Eamonn e de novo para mim. A sua boca cerrou-se.
— É verdade. Não vou pedir desculpa, porque me parece que a nossa chegada foi atempada. Tencionamos levar-te a ti e às crianças amanhã para casa. Maeve melhorou um pouco e está sempre a perguntar pelas irmãs.
— A... ainda bem que ela está melhor — disse eu. Fiz um esforço para continuar. — E o homem que também foi ferido, o jovem druida?
— Consegui apaziguar-lhe um pouco a dor. Mas nem um homem jovem e forte recupera de tais ferimentos. Expliquei-lhe isso. Conor levou-o para a floresta.
— Lamento. — A minha voz fraquejou e o seu olhar aguçou-se. Os dois homens não se mexiam nem falavam. O ar na sala escura parecia vivo de tanta tensão. Então, ouvi passos a aproximarem-se e o criado de Eamonn apareceu à porta apertando a camisa, passando a mão pelo cabelo e desculpando-se. Eamonn deu-lhe umas rápidas instruções. Preparar comida, quartos e tratar dos cavalos.
— Parece-me que temos coisas para discutir. Sean, — por fim, mexeu-se, mas apenas para cruzar os braços e para franzir o sobrolho. — Coisas que não podem esperar.
— Quero as pequenas fora daqui logo que tiverem feito as malas.
— Certamente que não é necessária tanta pressa. — Já conhecia suficientemente Eamonn para perceber a hesitação na sua voz e o cuidado que punha em não olhar para a minha tia enquanto ela se sentava num banco, de costas direitas, conseguindo parecer uma princesa apesar do vestido simples.
— Não tenciono ficar aqui mais do que uma noite — disse Liadan friamente. — É tempo de as pequenas irem para casa. Quanto ao que disseste, está fora de questão. À luz do dia, depois de refletires, até tu verás isso, Eamonn.
— Creio que não. O casamento parece-me possível e eu tenho esperança de que Aisling concorde. A minha irmã tem-me pressionado, ao longo dos anos, para que eu me case e eu já estou cansado dessa pressão. E tu não conseguirás que a tua sobrinha se case tão bem noutro lado qualquer.
— Não é possível — disse Sean pesadamente. — Por razões que não vamos discutir aqui.
— Se te referes ao parentesco de Fainne, eu estou ao corrente. Ela disse-me tudo, foi muito corajosa. Penso que, se debater o assunto esta noite, ela não deve estar presente. Fainne não tem andado bem e está muito cansada. Estes assuntos devem ser discutidos entre homens.
Vi a boca da minha tia Liadan torcer-se num dos cantos, mas os seus olhos continuaram mortalmente sérios. Ela olhou para o irmão, ele olhou para ela e eu lembrei-me que Sean e Liadan eram gêmeos. Lembrei-me do que Clodagh me dissera; que as mensagens fluíam de um para o outro em silêncio, fosse qual fosse a distância. Da escura e sombria floresta de Sevenwaters ao secretismo impenetrável de Inis Eala, ou a Harrowfield, no outro lado do mar, mensagens mentais, rápidas como uma flecha ou como o mais veloz dos gamos.
— Pela primeira vez, concordo contigo, Eamonn.
Liadan levantou-se, bocejando.
— Certamente que podemos poupar Fainne aos pormenores; quanto a mim, estou muito cansada e só quero um lugar bem quente para dormir. Vou-me certificar de que a nossa escolta está instalada e depois retiro-me. Acredita que não quero ficar aqui nem mais um instante do que o necessário. Vens, Fainne?
Enquanto saíamos as duas da sala, deixando os homens num pesado silêncio, olhei para Eamonn por cima do ombro. A sua expressão era uma mistura de agonia provocada por um amor impossível e de ódio alimentado por anos de frustração. Eu tinha razão. Era nela que os seus olhos estavam fixos e a escuridão neles mostrava a sua luta interior. Para ele, nada mais interessava.