A Filha da Profecia
Capítulo Dois
Naquele dia pus todas as minhas coisas em ordem. Fiz a minha estreita cama e enrolei o cobertor. Varri o chão do meu quarto, que era uma das muitas grutas no dédalo de câmaras e passagens do Favo de Mel. Pus de lado o meu xale e as minhas botas na pequena arca de madeira que continha todas as minhas parcas posses. A nossa vida era muito simples. Trabalho, descanso e comida quando necessária. Precisávamos de pouco.
No fundo da arca, meio escondida por baixo da roupa de cama, estava Riona. Era a única coisa que eu possuía que não era uma necessidade vital para a vida. Riona era uma boneca. Quando as pessoas falavam da minha mãe, diziam que ela era linda, esguia, como um jovem vidoeiro, e que o meu pai a amara perdidamente. Diziam que ela fora sempre um pouco desequilibrada e que tinham ficado chocadas com a terrível coisa que fizera. Mas nunca falavam dos seus talentos, do mesmo modo que falavam do fato de Dan ser um campeão das gaitas-de-foles, ou de Molly ser uma cesteira formidável, ou de os bolos de Peg serem os melhores de Kerry. Dir-se-ia que a minha mãe não tinha nenhuma qualidade, salvo a sua beleza e loucura. Mas eu sabia que era diferente. Bastava olhar para Riona para perceber como a minha mãe fora hábil com a agulha. Ao fim de todos aqueles anos, Riona era mais do que uma simples boneca de trapos, apesar das feições um pouco manchadas e do vestido remendado. Fora bem-feita, com pontos tão minúsculos que eram quase invisíveis. Tinha dedos e unhas e pestanas bordadas. Tinha longos cabelos de lã tingidos de amarelo e um vestido sedoso cor-de-rosa por cima de uma combinação de renda. O colar que Riona usava, dando três voltas ao seu pequeno pescoço por razões de segurança, era a coisa mais forte de todas. Fora estranhamente tecido com muitas fibras diferentes, com tanta arte, que não era possível quebrá-lo, por mais força que se fizesse. Suspenso dele havia uma pequena pedra branca com um buraco no meio. Eu não brincava com Riona na presença do meu pai,.É claro que agora era demasiado velha para brincar. Era uma perda de tempo, como mergulhar perigosamente das rochas quando não havia necessidade. Mas, ao longo dos anos, Riona partilhara inúmeras aventuras com Darragh e comigo. Explorara grutas profundas e barrancos perigosos; quase caíra da falésia para o mar e quase desaparecera na voragem de uma maré. Usara coroas de margaridas entrançadas e capas de pele de coelho. Sentara-se à sombra das pedras, olhando para nós como se fosse uma rainha vigiando os seus súbditos. Os seus olhos escuros, bordados, olhavam para mim de um modo que, por vezes, me perturbavam. Riona não me julgava, não exatamente. Observava-me.
Naquele dia senti uma grande necessidade de me manter ocupada, de canalizar os meus pensamentos para coisas estritamente práticas. Assim, quando o meu quarto ficou varrido e limpo, fui para o local onde guardávamos as nossas provisões, tirei o peixe que a rapariga tinha trazido e algumas cebolas. O peixe já estava limpo e escamado. O meu pai e eu não somos grandes cozinheiros. Comemos porque é necessário, mais nada. Mas eu tinha tempo. Acendi a fogueira, deixei-a morrer e assei as cebolas e o peixe nas brasas. Quando ficaram prontos levei um prato cheio à gruta do meu pai. Mas a porta estava fechada por dentro. Não lhe ouvia a voz entoando cânticos, ou dizendo palavras de magia. O único som era o grito agreste de um pássaro no espaço abobadado. Aquilo significava que Fiacha regressara. O meu coração parou, porque detestava Fiacha. O corvo ia e vinha conforme lhe apetecia e quando ficava durante algum tempo parecia fixar-me com aqueles olhinhos brilhantes, medindo-me e achando-me pouco impressionante. Então, subitamente, ia-se embora de novo, sem sequer um adeus. Talvez trouxesse mensagens. O meu pai nunca me disse.
Eu não gostava do bico afiado de Fiacha, ou do brilho perigoso dos seus olhos. Uma vez, quando eu era pequena, bicou-me e doeu-me imenso. O meu pai disse que foi um acidente, mas eu nunca soube ao certo.
Deixei a comida no lado de fora da porta. Havia uma regra que não precisava de ser dita e que dizia que, quando a porta estava fechada, era para não entrar. Alguns elementos da arte têm de ser exercitados em solidão e o meu pai estava sempre a tentar aprofundar os seus conhecimentos.
É muito fácil, para um estranho, criticar-nos, ver uma ameaça em tudo o que fazemos, devido, apenas, a uma falta de discernimento. A nossa espécie nem sempre é bem-vinda em todos os recantos de Erin, porque as pessoas contam histórias acerca de nós que são meias verdades e uma mistura dos seus próprios medos e superstições. Não foi por acaso que o meu pai veio viver para este recanto distante de Kerry. Aqui, as pessoas são almas simples, cujas vidas giram em torno do mar e das estações, em cujo mundo não há lugar para o luxo do mexerico e do preconceito.
Aceitaram-no e à minha mãe como mais dois habitantes da baía, pessoas corteses, que deviam ser deixadas em paz. E todos sabiam que uma aldeia, com o seu próprio feiticeiro, era o mais seguro dos lugares para se viver. O meu pai demonstrou isso rapidamente, porque um Verão, pouco depois da sua chegada a Kerry, chegaram os noruegueses. Havia histórias acerca das suas incursões ao longo da costa, de mortes brutais, de violações, de incêndios, de roubos de mulheres e crianças e havia histórias sobre os lugares onde eles tinham chegado nos seus grandes barcos e onde se tinham instalado, simplesmente ocupando as casas e as herdades, como se tivessem todo o direito. Mas na nossa enseada não havia nenhuma colônia vicking. Ciarán tratara disso. As pessoas ainda contavam a história sobre como os grandes barcos, com as suas proas esculpidas, tinham sido avistadas, remando na direção da praia, tão rapidamente que quase não houve tempo para fugir. O Sol fazia brilhar as achas de guerra e os estranhos elmos que os homens usavam; os remos mergulhavam e saíam da água, ao mesmo tempo que os pescadores ficavam gelados de terror, vendo a morte aproximar-se. Então, o feiticeiro aproximara-se de uma alta saliência do Favo de Mel com o seu bordão de teixo na mão, erguera-o, e um instante mais tarde umas grandes nuvens começaram a correr vindas de oeste e as ondas ergueram-se até se transformarem em montanhas, que se abateram sobre a praia. Os grandes barcos começaram a lutar, a adornar e os remos partiram-se na confusão. No espaço de segundos o céu estava escuro, o oceano fervia e as pessoas observavam, de olhos esbugalhados, enquanto os barcos dos noruegueses se partiam e eram atirados, à vez, contra as rochas. Mais tarde, as crianças encontraram estranhos objetos na praia. Uma pulseira curiosamente lavrada com serpentes e cães. Um colar com a forma de uma minúscula e letal acha de guerra, feito de arame. Uma taça de bronze. O cabo de um remo, finamente trabalhado. O corpo de um homem de pele pálida e cabelos longos, entrançados, da cor do trigo por ocasião de Lugnasad. Por isso, não havia nenhuma colônia vicking na nossa enseada. Depois disso, o meu pai passou a ser venerado e protegido, um homem incapaz de qualquer mal. Quando a minha mãe morreu as pessoas choraram com ele. E deixaram-no em paz.
O meu pai ficou durante todo o dia no seu gabinete com a porta fechada. Quando, por fim, saiu, apanhou o prato de comida do chão e comeu abstratamente, não reparando que estava fria e parecendo pálido e cansado. Sentado junto dos restos da minha fogueira, pegou no peixe gelado e não disse nada. Fiacha seguira-o e empoleirara-se numa saliência, fixando-me. Fixei-o também, carrancuda.
— É melhor ires deitar-te, filha — disse o meu pai e tossiu asperamente. — Esta noite não sou boa companhia.
— Pai, o pai está doente. — Olhei para ele alarmada enquanto ele lutava por respirar. — Precisa de ajuda. De um remédio, pelo menos.
— Disparate. — A sua expressão era severa. — Não há nada de errado comigo. Vai, vai-te deitar. Isto passa. Não é nada.
Não estava nada convencida.
— Por favor, pai, diga-me o que se passa.
Ele deu uma breve risada. Não era um som muito agradável.
— Por onde havia de começar? Não, chega. Estou cansado. Boa noite, Fainne.
E assim fui despedida, deixando-o ali, imóvel, olhando para a fogueira a morrer. À medida que me afastava na direção do meu quarto, o som da sua tosse seguia-me, ecoando nas paredes das grutas subterrâneas.
Ela chegou no fim de uma manhã de Outono, quando o meu pai tinha ido buscar água. Eu saí, ouvindo-a chamar da entrada. Nós tínhamos poucos visitantes. Mas lá estava ela; uma anciã envolta em xales, sem sequer um saco, ou um cesto. A sua face era uma ruga pegada e os olhos tão afundados nas órbitas que mal se podia ver de que cor eram. Tinha uma coroa de cabelos brancos desalinhados e uma voz muito alta.
— Então, rapariga? Não me convidas a entrar? Não me digas que não era esperada. O Ciarán está a brincar com quê?
Passou por mim e desceu o túnel na direção do gabinete, como se o lugar lhe pertencesse. Eu trotei atrás dela, esperando que o meu pai não se demorasse.
Subitamente, virou-se para olhar para mim, muito depressa para uma anciã, e fixou-me intensamente, como se me estivesse a avaliar.
— Sabes quem eu sou?
— Sei, avó — disse eu, porque, se bem que parecesse muito diferente da mulher elegante de que me recordava, sentia a magia exalar de todos os seus poros, poderosa, antiga e era o suficiente para eu saber quem era.
— Hum. Cresceste, Fainne. — Absolutamente nada impressionada, virou-me as costas e continuou a sua confiante progressão através das sombrias passagens do Favo de Mel. Parou em frente da grande porta do gabinete. Ergueu a mão e empurrou. A porta não se moveu. Feita de carvalho sólido e estruturada de maneira a fixar-se firmemente no arco de pedra, aquela entrada estava selada por meio de ferrolhos de ferro e palavras poderosas. O meu pai guardava ciosamente os seus conhecimentos.
A anciã empurrou de novo.
— Não pode entrar aí — disse eu, alarmada. — O meu pai não deixa ninguém entrar. Só ele é que entra e eu, às vezes. Tem de esperar.
— Esperar? — Ela ergueu as sobrancelhas e arqueou os lábios num sorriso. Naquelas feições tão velhas, pareceu-me odioso. Os seus olhos trespassaram-me, como se quisesse ler-me os pensamentos. — O teu pai não te ensinou este truque, entrar num quarto sem abrir a porta?
Eu acenei com a cabeça, devolvendo-lhe o olhar.
— E como abrir essa porta?
— Não pense que lha vou abrir — disse-lhe eu com a voz a endurecer, zangada, face à sua temeridade. Senti as faces corarem e soube que as faíscas, que Darragh vira uma vez, começariam a aparecer nos meus cabelos. — Se o meu pai quer que ela esteja fechada, fica fechada. Eu não a abro.
— Aposto que não consegues abri-la. — Ela estava a tentar-me.
— Não a abro. Já lhe disse.
Ela riu-se, um riso de rapariga, como um toque de pequenas campainhas.
— Nesse caso, tenho de ser eu a fazê-lo, não tenho? — disse ela levianamente e ergueu uma mão rugosa, nodosa, na direção dos pesados painéis de carvalho. Estalou os dedos e uma brilhante chama percorreu a porta a toda a volta. O ar ficou cheio de fumo e eu comecei a tossir. Não pude ver nada, por momentos. Ouviu-se um som de rolha a saltar de uma garrafa e um ranger. O fumo começou a desaparecer. A grande porta estava aberta de par em par, a sua superfície escurecida e empolada, os pesados ferrolhos pendurados, sem préstimo.
Eu fiquei ali à entrada, a olhar, enquanto a anciã dava três passos no interior do quarto secreto do meu pai.
— Ele não vai ficar nada contente — disse eu firmemente.
— Ele não vai saber — replicou ela friamente. — Ciarán foi-se embora. Não voltarás a vê-lo até teres aprendido tudo o que tens a aprender, rapariga; só no fim do próximo Verão. Ele não pode ficar, comigo aqui. Não podemos ficar os dois no mesmo lugar. É melhor assim. Nós as duas temos muito trabalho pela frente, Faimne.
Fiquei gelada, sentindo o choque do que ela me disse atingir-me o coração. Como podia o meu pai fazer-me aquilo? Para onde fora? Como podia deixar-me sozinha com aquela mulher horrorosa?
Ela estava em frente do espelho de bronze, aparentemente admirando-se, porque tirou um pente de um bolso no seu volumoso traje e começou a passá-lo pelos cabelos emaranhados. Contra a minha vontade, aproximei-me.
— Ciarán não te falou de mim, filha? Não te explicou nada? — Ela olhou intensamente para o seu reflexo. Eu aproximei-me por trás, espreitando por cima do ombro dela para a superfície espelhada.
A mulher no espelho olhou para mim. Tinha dezesseis anos, não mais. O seu cabelo era uma versão do meu, mas mais brilhante, mais bonito, caindo-lhe aos caracóis pelos ombros com vida própria, de um profundo e rico castanho-avermelhado. A sua pele era leitosa, tão pálida que era possível ver as veias na superfície cor de pérola. A sua figura era esbelta mas curvilínea, com todas as curvas nos seus devidos lugares. Era a figura que eu tentara criar para mim naquele dia, quando fui ao acampamento. Pensava que era habilidosa, mas, comparado com aquilo, os meus esforços não tinham qualquer valor. Aquela mulher era mestre na arte. Olhei-lhe para os olhos. Eram profundos, escuros, da cor das amoras maduras. Eram os olhos do meu pai. Eram os meus olhos. A anciã sorriu para o espelho com os lábios vermelhos, curvos e os pequenos dentes brancos, afiados.
— Como vês — disse ela com um riso sem alegria — tenho muito para te ensinar. E é melhor começar já. Transformar-te numa senhora elegante vai ser um desafio.
Desde que me lembro que éramos só os dois, o meu pai e eu, trabalhando juntos ou separadamente, os dias devotados à prática da arte. As nossas refeições, o nosso descanso, os nossos contatos com o mundo exterior limitavam-se ao estritamente necessário: a água e a lenha para a fogueira. O peixe entregue à porta por uma rapariga. As mensagens entregues a Dan Walker. Eu tivera os Verões com Darragh.
Mas Darragh fora-se embora e eu era, agora, crescida. Esses tempos tinham acabado.
O meu pai e eu compreendíamo-nos mutuamente sem muita necessidade de palavras.
Por vezes, ele explicava uma técnica, ou uma teoria. Por vezes, eu fazia uma pergunta. A maior parte das vezes ele deixava que eu descobrisse por mim, com uma pequena ajuda aqui e ali. Deixava-me fazer os erros e aprender por mim própria.
Dessa maneira, dizia ele, tornar-me-ia mais responsável, retendo as coisas que mais necessitava de fazer. Na verdade, com o tempo, essa disciplina levar-me-ia, não só ao conhecimento, mas também à compreensão. Era uma existência ordeira, bem estruturada, se bem que um pouco à parte dos padrões das pessoas normais.
O método de ensino da minha avó era bastante diferente. Começou por me dizer que Ciarán negligenciara gravemente a minha educação; devia ter-me, pelo menos, ensinado a comer polidamente, não a meter a comida na boca com os dedos, como o filho de um latoeiro. Quando tentei defender o meu pai, ela silenciou-me com um pequeno feitiço desagradável, que me engrossou a língua e ma encheu de pêlos, como se tivesse um gato na boca. Não admira que tivesse dito que não podia viver no mesmo local com o filho. Uma das nossas regras mais básicas dizia que a arte não podia ser usada pelo professor contra o aluno, ou pelo aluno contra o professor. O meu pai teria recusado a idéia de usar a magia para infligir castigo. A minha avó usava-a sem qualquer escrúpulo. Odiava a maneira como ela falava dele, do próprio filho.
— Bem — disse ela enquanto me observava a comer o meu peixe, os olhos seguindo cada bocado que viajava do prato para a minha boca — ele ensinou-te como mudar de forma, ensinou-te uma data de truques e ensinou-te a deslocar objetos com a mente. De que te servirá isso tudo quando estiveres sentada à mesa com as pessoas educadas de Sevenwaters? Sabes dançar? Sabes cantar? Sabes sorrir a um homem de maneira a fazeres-lhe ferver o sangue e bater o coração como um tambor? Bem me parecia que não. Não bocejes, rapariga. A tua educação tem sido inadequada. A culpa é daqueles druidas que tomaram conta do teu pai e lhe encheram a cabeça de disparates. Ainda bem que ele me chamou. Quando eu acabar contigo, serás perita na arte de trazer um homem pelo beicinho sua coisinha desastrada. Eu sou uma artista.
— Eu aprendi muito com o meu pai — disse eu, zangada. — Ele é um grande feiticeiro, profundamente respeitado. Não me parece que precisemos da sua... arte. Eu tenho conhecimentos e capacidades e melhorarei o melhor que sei, porque o meu pai inculcou-me o amor pela aprendizagem. Por que razão hei de perder tempo e energia com maneiras à mesa?
Ela deixou sair o seu riso de rapariga, tão incongruente naquela boca mirrada, sem dentes.
— Bem, bem. Mal te zangas ficas logo cheia de faíscas. A primeira coisa que precisas de aprender é a não te abrires assim, rapariga. Mas há mais, muito mais. Sei que o teu pai te ensinou umas quantas habilidades. O abecedário, por assim dizer. Mas podes conseguir grandes coisas em Sevenwaters se aproveitares bem as oportunidades. Eu ajudo-te, rapariga. Acredita no que te digo, eu conheço aquela gente.
A partir dali, ela passou a comandar. Eu estava habituada às lições teóricas e às lições práticas. Estava habituada a trabalhar muitas horas, a estar perpetuamente cansada e a continuar apesar disso. Mas aquelas lições eram tão entediantes. Como comer como uma carriça, por pequenos bocadinhos. Como dar risinhos e sussurrar segredos. Como manter-me direita ao andar, bamboleando as ancas. Esta última não era fácil, com o meu pé defeituoso. Finalmente, exasperou-se.
— Nunca andarás direita com a tua própria forma — disse ela rudemente. — Nunca dançarás sem fazeres figura de parva. Não interessa. Podes usar o Encantamento quando quiseres. Transformares-te na pessoa mais elegante do mundo. Ficares com os pés mais graciosos do mundo, se for preciso. O único problema é que é cansativo. Manteres-te o tempo todo assim, quer dizer. Ficas estafada. Por que é que pensas que tenho estas rugas todas? A nossa espécie vive muitos anos. Por vezes penso que demasiados. Mas estou assim por ter encantado Lorde Colum, mantendo-o na palma da mão. — Ela suspirou. — Ah, aquilo é que era um homem. Foi pena aquela Sorcha. Se ela não tivesse feito o que fez, não teria havido necessidade disto tudo. Teria sido tudo meu e, por sua vez, de Ciarán. A tua miserável mãe nunca teria existido, nem tu, pequena. Pensa no que eu poderia ter conseguido. Teria sido tudo nosso, como devia ser. Mas ela fez aquilo, foi mais esperta do que eu, ela e aquelas criaturas que dão a si próprias nomes esquisitos. Seres do Outro Mundo. Ah! Subiu-lhes o poder à cabeça há muito tempo, é o problema deles. Fora com os da tua espécie. Nunca fomos suficientemente bons para eles e eles adoram lembrar-nos disso, não adoram? Muito bem, veremos o que pensarão os Fair Folk do meu pequeno presente. Hão de chorar quando o teu trabalho estiver feito, pequena.
Hesitei em perguntar-lhe o que queria dizer. Ela era rápida a ridicularizar e a punir quando achava que eu era lenta, ou estúpida.
Era demasiado tarde, disse a minha avó, para eu aprender a tocar harpa, ou flauta.
Recusei-me a cantar, mesmo quando ela me castigou, tirando-me a voz. O que não me afligiu muito, já que estava habituada a longos dias de silêncio e, com o tempo, ela desistiu de extrair qualquer forma de música de mim. Descobriu rapidamente que as minhas capacidades para ler e escrever ultrapassavam as suas de longe. Mas o mesmo não aconteceu com a minha habilidade com a agulha; achou-a extremamente rudimentar. Os materiais apareceram subitamente, sedas, tecidos e linho, para começar. À luz da lanterna feri os dedos, entortei os olhos e amaldiçoei-a em silêncio. Aprendi a coser. Ela observava-me zombeteiramente e uma vez disse: Isto faz-me recordar umas coisas. Oh se faz.
Ensinou-me outras coisas que me fariam corar, se as dissesse. Necessárias, disse a minha avó, porque eu era uma rapariga e, em qualquer parte do mundo teria de ser capaz de atrair um homem, e segurá-lo. Não era só aprender a andar de uma certa maneira, a olhar de uma certa maneira, a saber dizer determinadas coisas e quando ficar calada. Nem era simplesmente uma questão de usar o encantamento para me tornar numa mulher mais bonita, ou mais sedutora, se bem que isso, certamente, ajudasse. Os ensinamentos da minha avó eram mais específicos. Faziam-me sentir uma pessoa baixa, por vezes. Faziam-me ficar embaraçada, quando ela me pedia que demonstrasse o que aprendera. Só o pensamento de os levar à prática era suficiente para me fazer recuar, horrorizada. Ela achava que eu era uma tola e dizia-o. Recordava-me que tinha quinze anos, que estava em idade de casar e que o melhor que eu podia fazer era aproveitar o pouco que tinha de encantos, aprendendo como usar a magia para os realçar, ou não faria nada de mim. Era claro para mim, enquanto lutava com estes novos conhecimentos, por que razão o meu pai a chamara para me guiar. Se era verdade que eu necessitava de adquirir aquelas capacidades, conhecer aqueles segredos íntimos, também era verdade que ele não mos podia ter ensinado. Há coisas que uma rapariga não pode dizer ao seu pai, por mais íntima que seja dele. Mas eu ficava acordada de noite, pensando na sua decisão, porque a minha avó era uma professora cruel e a sua presença no Favo de Mel lançara uma sombra fria sobre os meus dias e enchera as minhas noites de pesadelos. Por que se fora ele embora, para tão longe, que eu nem sequer sabia onde estava? Seria aquilo uma espécie de teste? Ele nunca me deixara, nem sequer por uma única noite. Tinha saudades, sentia-me só e estava preocupada com ele. Ele era o meu mundo, a minha família, a minha única constante. Precisava dele; e ele, certamente, precisava de mim, porque não tinha mais ninguém a quem conceder aquele sorriso raro, que lhe iluminava as feições sombrias e me mostrava o homem por quem a minha mãe deixara um outro mundo. Teria ele medo da minha avó? Teria sido por isso que ele me deixara à mercê dela? Os meus sonhos mostravam-no magro e pálido, tossindo dolorosamente, algures numa gruta escura, sozinho. Desejei que ele regressasse a casa.
O Outono desapareceu, veio o Inverno e as lições continuaram lentamente.
— Muito bem, Fainne — disse a minha avó um dia, abruptamente, quando descansávamos no gabinete. Tinha-me obrigado, durante toda a tarde, a transformar uma aranha noutras formas: num lagarto brilhante; num minúsculo pássaro com asas palpitantes, voando às cegas, confuso, contra as paredes de pedra; num rato que se aproximou para escapar por uma fenda, até que eu estalei os dedos para o transformar num dragão cuspidor de fogo, que soprou uma pequena nuvem de vapor, batendo deficientemente as asas minúsculas. Eu estava exausta, tão cansada na minha cadeira como a aranha que estava agora pendurada, como morta, na sua teia por cima de mim. — E agora, uma lição de História. Ouve bem e não me interrompas, a não ser que seja absolutamente necessário.
— Sim, avó. — A obediência era a melhor maneira de lidar com ela. Era engenhosa nos métodos de castigo e não gostava de ser desafiada. Preferia, de longe, os métodos do meu pai, que, se bem que restritos, não eram desagradáveis.
— Responde às minhas perguntas. Quem foram os primeiros nas terras de Erin?
— Os Anciãos. — Aquele tipo de inquisição era fácil. O meu pai transmitira-me esse conhecimento ao longo dos anos e éramos ambos fluentes nessas perguntas e respostas. — Os Fomhóire. Um povo vindo das profundezas do oceano, dos poços e dos lagos. Gente do mar e das profundezas da terra.
A minha avó acenou com a cabeça.
— E quem é que veio depois?
— Os Fir Bolg. Os homens-saco.
— E depois deles?
— Depois vieram os Túatha Dê Danann, do Oeste, que com o tempo mandaram os outros para o exílio e se espalharam pelas terras de Erin. Governaram durante muitos anos até à chegada dos filhos de Mil.
— Muito bem. Mas, que sabes tu das origens dos da nossa espécie?
Os seus olhos eram penetrantes.
— Os da nossa espécie não estão na História. Somos diferentes. Fomos amaldiçoados e estamos sempre à parte. Não pertencemos aos Túatha Dê. Assim como os mortais, homens e mulheres. Não somos uma coisa, nem outra.
— Até aqui, tudo bem. Estamos à parte porque nos afastaram. Um de nós transgrediu a lei, há muito tempo e nunca nos perdoaram. Conheces essa história?
Abanei a cabeça.
— Nós somos descendentes deles, quer queiram, quer não. Dos Fair Folk, ou seja lá como for que gostam de ser chamados. Deuses e deusas, todos eles, superiores em tudo, vagueando por toda a parte como se fossem donos de tudo, depois de terem despachado os outros para os seus buracos e fendas. Mas alguém fez o que não devia e foi aí que tudo começou.
— O que não devia?
— Disse-te que não interrompesses. — A minha avó fixou-me nos olhos e eu senti uma dor penetrante nas têmporas. — Naqueles primeiros tempos éramos capazes de fazer tudo, tínhamos a magia na mão. Mudança de forma, transformação. Cura. Domínio do vento e da chuva, das ondas e das marés. Éramos verdadeiros deuses e não admira que os Anciãos tenham engatinhado para as suas grutas com o rabo entre as pernas. Mas há certas coisas na magia que devem permanecer intocadas. Nem sequer um mestre lhes deve tocar. Todos sabiam isso. É perigoso tocar na parte negra da magia; é melhor deixá-la em paz, afastarmo-nos. Infelizmente, houve uma que se deixou levar pela curiosidade. Brincou com um feitiço proibido; chamou o que devia permanecer adormecido. A partir desse dia passou a haver um mal à solta, que nunca mais se foi embora. Assim, ela foi expulsa e uma parte do seu castigo consistiu em retirarem-lhe a capacidade de usar os mais altos elementos da magia: os poderes da Luz, da cura, do vôo. Tudo o que lhe deixaram foi a escória, os truques de feitiçaria: podia interferir e transformar um sapo num homem, talvez, ou uma rapariga numa barata. Ficou com o Encantamento. Pouca coisa, comparada com o que perdera. Ligou-se a um mortal homem, já que nenhum dos de mente superior a quis depois do que fizera. E tu sabes o que isso significa.
Desta vez esperava uma resposta.
— Que se tornou mortal?
— Não exatamente. A nossa espécie vive muitos anos, Fainne; muitos mais do que os humanos. O que significa que, a seu devido tempo, morreria. Sobreviveria para ver a sua família morrer de idade avançada antes de chegar a sua vez. Os seus descendentes transportariam o sangue da amaldiçoada através dos tempos. Todos nós temos os olhos dela. Os teus olhos, rapariga. Todos nós temos a arte, mas só alguma, compreendes? Algumas coisas estarão sempre para além das nossas capacidades. E isso dói. Devíamos ter tudo. O castigo foi injusto; demasiado severo.
Abri a boca, pensei melhor no que ia dizer e fechei-a.
— Estás a pensar no teu pai? — perguntou ela sem sorrir. — Achas que ele parece ter mais talentos do que os que eu descrevi? Tens razão, claro. Eu escolhi bem o pai dele: nada mais nada menos do que Colum, Senhor de Sevenwaters. Naquela família são todos druidas. Repara como vivem, fechados na sua preciosa floresta, rodeados pelos Outros. Têm o sangue dos Anciãos, misturado com o dos humanos. Ciarán é diferente. Especial. Devia ter substituído Colum. Não é ele o sétimo filho de um sétimo filho? Mas fui derrotada. Derrotada por aquela rapariga miserável e pelos malditos irmãos dela. É com eles que precisas de ter cuidado. Com eles, que descendem dos Fomhóire.
Concentrei-me, franzindo as sobrancelhas.
— Por que é que é perigoso, avó? Os Fomhóire não usavam a alta magia.
— Ah. Há a alta magia, a magia dos feiticeiros e uma outra espécie. Podes chamar-lhe magia profunda. É essa que os de Sevenwaters possuem e nós não, pequena. Nem todos, repara. Muitos não passam de tolos, como a tua mãe, fracos de vontade e de mente. Nunca conseguirei compreender como o meu filho se apaixonou por aquela cabeça de vento. Niamh arruinou-lhe a vida; enfraqueceu-o terrivelmente. Mas, agora, existes tu, Fainne. Tu és a minha esperança.
Eu aprendera que era inútil ripostar, apesar de me magoar muito a maneira como ela falava da minha mãe.
— Magia profunda? — perguntei. — O que é isso?
— É a magia da terra e do oceano. O sítio de onde essa gente veio, há muito tempo. É por isso que eles se agarram às ilhas. Não são feiticeiros. Não fazem feitiços. Mas alguns têm a capacidade de falar com a mente, sem palavras. Não imaginas como tentei desenvolver essa capacidade. Esgotei-me. Mas, ou se tem, ou não se tem. Alguns deles são capazes de prever o futuro. Ferramentas poderosas, ambas. E alguns têm a capacidade de curar, muito maior do que a de um físico qualquer.
— É tudo?
— É tudo, pergunta ela! — O seu riso envergonhou-me. — Não chega? Esses dons impediram-me de atingir os meus objetivos durante duas gerações, rapariga. Levaram-me o meu filho e amoleceram-no. Mas agora vai ser diferente. Tenho-te a ti, Fainne e tenho um novo objetivo, muito maior. Tu tens em ti um pouco de tudo, graças à tua mãe. Foi a única coisa boa que ela fez por ti, patética como era. Nunca o compreendi. Se Ciarán tinha de se perder por uma fedelha qualquer de Sevenwaters, por que não escolheu a outra irmã? O fruto dessa ligação teria tido, sem dúvida, capacidades raras. Mas, não interessa, Fainne. Tu carregas o sangue de quatro raças. Isso tem que contar para alguma coisa.
Dessa vez senti que era impossível não a desafiar.
— Não gosto que fale dessa maneira da minha mãe — disse eu, irritada.
— Não? Eu só digo a verdade, rapariga. Além disso, que te importa a ti? Mal te lembras dela, certamente. Mas, suponho que essas atitudes todas te vêm do teu pai. Ele nunca suportou que se falasse mal da sua amada Niamh. Para ele, era uma princesa, uma criatura perfeita, que não dava um único passo errado. Permitiu que ela o consumisse. Muito bem, Fainne. — O seu tom mudou abruptamente. — Até agora tens ido bem, pequena; em breve estaremos prontas, se continuares a aprender assim. Amanhã dir-te-ei o que espero que faças em Sevenwaters. Tudo isto, compreendes, os ares, a graça, a conversa fácil, os artifícios do amor, tudo isto são ferramentas, meios para chegar a um fim. Amanhã começarei a explicar-te que fim é esse. Tu tens uma grande tarefa pela frente, neta. Uma grande tarefa. Agora, vai para a cama, precisas de descansar.
Nessa noite, sozinha no meu quarto com uma vela por companhia e o oceano rugindo lá fora, abri a arca de madeira e tirei Riona. Ela parecia um pouco amarrotada por estar sob os cobertores e pareceu-me ver-lhe uma sobrancelha franzida nas feições perfeitamente cosidas. Desentrancei-lhe os cabelos amarelos e refiz-lhe o laço na parte de trás do vestido. Nessa noite, subitamente, não me senti crescida e quando apaguei a vela e me deitei na cama, fiquei com Riona junto de mim, algo que não fazia há muito tempo.
— Será verdade? — murmurei na escuridão. — Será verdade que a minha mãe era uma rapariga estúpida, que estragou a vida ao meu pai? Será por isso que ele nunca fala dela? Mas, ele disse que a amava. Se falasse, talvez eu me lembrasse dela. Talvez me lembrasse de alguma coisa. Qualquer coisa.
— Talvez seja melhor assim — disse eu para ela, ou para mim própria. — Talvez seja melhor eu não saber nada. Ela era um deles, um dos da espécie humana, um dos da família de Sevenwaters. Eu sou da outra espécie; sou a filha do meu pai. É melhor não saber nada. — A minha mão afagou o tecido suave da saia de Riona e à medida que ia adormecendo via os dedos da minha mãe, os movimentos rápidos da agulha enquanto ela cosia o pequeno vestido com minúsculos pontos. Um presente para a filha, para que se lembrasse dela; uma pequena amiga para me confortar na escuridão depois de ela partir.
Na manhã seguinte a minha avó preparou tudo para mim.
— Ora bem, Fainne — disse ela olhando para mim de perto, ao mesmo tempo que eu me mantinha de pé à sua frente no meu vestido simples, com os sapatos de trazer por casa e com as mãos atrás das costas. — Por que é que pensas que o teu pai quer que vás para Sevenwaters? Não é o único lugar que ele deseja obliterar da memória, mas que não consegue? Por que razão mandaria para lá a sua única filha, para o coração do território inimigo?
— Eu sou neta de um chefe de guerra do Ulster — disse-lhe. — O meu pai disse que os de Sevenwaters têm uma dívida para pagar. Ele acha que eu devo aprender a mover-me naquele círculo, já que não há futuro para mim aqui, em Kerry. — Senti-me percorrida por um arrepio. Ocorreu-me, pela primeira vez, que talvez nunca mais regressasse ao Favo de Mel. Esse pensamento aterrorizou-me. — Eu confio no meu pai — continuei, tão firme quanto possível. Se ele deseja que eu viaje até ao Ulster, é porque é a coisa certa a fazer.
A minha avó fez um esgar, acordando uma rede de profundas rugas no seu velho rosto.
— A tua confiança no julgamento de Ciarán é tocante, minha querida, se tiver fundamento. A sua decisão é certa, se bem que as suas razões deixem um pouco a desejar. Atribuo isso à sua educação de druida. Aquele miserável do Conor há de pagá-las. Ele e os irmãos dele roubaram ao meu filho os seus direitos por nascimento, encheram-lhe a cabeça de idéias tolas e por isso é que ele não sabe o que está certo e o que não está. Nunca deveriam ter sobrevivido ao que lhes fiz. Mas a questão não é essa. O teu pai só te disse metade, Fainne. Ciarán está doente. Muito doente. Manda-te embora porque, em breve, não poderá estar aqui para te sustentar.
Senti o sangue a fugir-me do rosto.
— O quê? — sussurrei tolamente.
— Não acreditas em mim? Devias acreditar, porque estou em boa posição para isso. Ciarán não deixa a sua preciosa aprendiz aqui com os pescadores, para se tornar noutra esposa com um bando de crianças tagarelas. Não te pode deixar comigo; eu vou e venho conforme me apetece. Assim, só tinha uma hipótese. O teu tio, Lorde Sean de Sevenwaters; Conor, o arquidruída; a esquiva Liadan; a única família que tens. O teu pai não tinha outra alternativa.
— Quer dizer... quer dizer que aquela tosse, aquela palidez, quer dizer que... ele está a morrer? — forcei a palavra a sair. — Mas... mas, como é possível? A nossa espécie não é como os homens e as mulheres normais, vivemos mais tempo... como pode ele estar doente? Ele disse que estava bem. Disse que não havia nada de errado...
— É claro que disse. Mas há algumas doenças que estão para lá dos remédios mortais, Fainne; que podem atacar até o mais poderoso dos magos. Ele não te disse a verdade porque sabia que não concordarias em ir, se soubesses.
— E tinha razão — disse eu, cerrando os dentes. — Não vou. Não o posso deixar. Como foi possível não me dizer? Éramos tão próximos um do outro, partilhamos tanto tempo em perfeita compreensão, em perfeita cooperação. — A dor alojou-se profundamente em mim, como uma pedra fria.
A minha avó estava calma.
— Deixa-me explicar-te uma coisa — disse ela. — Não são os humanos de Sevenwaters que interessam, pequena. É o poder por trás deles: as criaturas do Outro Mundo, com as suas maneiras esquisitas e as suas garras em cima de nós. Irás para Sevenwaters, senão pelo teu pai, pelo menos por mim. Tenho para ti uma tarefa, uma missão que deves levar a cabo. Uma grande missão, Fainne. Maior do que imaginas.
— Mas o pai disse...
— Esquece isso. Eu sou a mãe dele. Sei do que estou a falar. Há uma razão para ires para Sevenwaters, uma única. A minha. Por que pensas que vim para aqui, Fainne? Tenho-te observado ao longo destes anos; à espera, até que estivesses pronta para isto. Tu vais completar o que eu comecei. Vais conseguir o sucesso que é negado, há muito, à nossa espécie. Vais mostrar aos Fair Folk que um banido pode ser uma pessoa forte, suficientemente forte para os destruir. Tu vais-lhes frustrar o esquema. Vão cair juntos, os de Sevenwaters e as suas sombras do Outro Mundo. É essa a tua tarefa.
Olhei para ela.
— Mas... mas, avó, os Túatha Dê Danann? Quem consegue desafiar um tal poder? Serei esmagada.
Ela sorriu tristemente.
— Eu desafiei-os, e estou aqui. Um pouco gasta, mas continuo dona da minha vontade. E quase venci. Eles estão mais fracos desde que perderam as Ilhas para os Bretões. Eles tinham um plano para aquela rapariga, Sorcha, e para o palerma do amante. E têm um plano para Sevenwaters. Eu quase arruinei o primeiro. Mas a rapariga foi demasiado forte para mim. Esqueci-me dos Fomhóire. Nunca faças isso, Fainne. Tem cuidado com eles. Vais-lhes frustrar o segundo plano. Os Fair Folk querem recuperar as ilhas. Querem que tudo aconteça como na profecia. Até à última palavra. E está tudo pronto para quando se passar mais um ano. Foi o que ouvi dizer.
— Profecia? — A minha cabeça andava à roda, incapaz de perceber o horror, a grandeza e a loucura implícitas nas suas palavras.
— Ciarán não te disse nada? As Ilhas foram tomadas pelos Bretões há gerações atrás. Desde então, Sevenwaters tem estado em guerra com Northwoods. Enquanto as ilhas não voltarem para os Irlandeses, os Fair Folk e os humanos estarão sempre desorientados. Precisam delas. Os poderosos querem as Ilhas bem guardadas. Vigiadas. É a única maneira de se protegerem a si próprios do que vai acontecer. A profecia diz que virá um filho, que não será, nem da Bretanha, nem de Erin, mas das duas terras ao mesmo tempo. E há um disparate qualquer acerca da marca do corvo. Bem, finalmente, chegou esse filho, o líder há muito esperado, neto daquela Sorcha miserável. Já é um homem, está pronto para dar luta a Northwoods e tem uma força formidável por trás de si. Não falta muito. Não no próximo Verão, mas talvez no outro, é o que se diz. A tua missão consiste em impedi-los. É simples, na verdade. Tens que fazer com que eles não lutem, ou, se lutarem, que percam. Pensa nisto. Nós, os banidos, finalmente por cima dos Fair Folk. Gostaria de ver as expressões nos rostos deles quando isso acontecer.
Eu estava tão espantada que mal conseguia falar.
— Mas, como posso eu conseguir tal coisa? E por que é que o meu pai nunca me falou disso? É impossível uma rapariga deter um exército. Não tentarei semelhante tarefa. É ridículo.
— A quem é que estás a chamar ridículo? — A anciã fixou-me com os seus olhos cor de amora.
Senti a nuca a transformar-se em geléia, mas tentei manter-me firme.
— Não tentarei tal coisa sem a aprovação do meu pai disse eu. Não acredito que ele apóie semelhante idéia.
O olhar da minha avó tornou-se mais penetrante. A sua expressão alarmou-me. Senti um arrepio de frio na nuca.
— Ah — disse ela com uma voz suave que me atingiu como uma mão gelada. — Tu vais, Fainne. E farás exatamente o que eu te disser a partir de agora. Não quero ver os meus planos frustrados uma segunda vez.
— Não vou — disse eu a tremer. — Não abandono o meu pai. Não me interessa quão forte possa ser a sua magia. Não me pode obrigar.
A minha avó riu-se. Desta vez não era aquele riso parecido com campainhas, antes um riso abafado, áspero, de divertido triunfo.
— Oh, Faimne. És tão nova. Espera até começares a sentir o poder dentro de ti, espera até que os homens assassinem por ti, atraiçoem as suas mais fortes lealdades e se virem contra o que lhes é mais querido. Não há prazer igual. Espera até perceberes, bem o que tens dentro de ti. Porque podes ser a filha de Ciarán, teres em ti a influência da sua educação druídica e os seus excessos de consciência, mas também és minha neta. Nunca o esqueças. Terás sempre uma parte de mim, algures no teu espírito. Não o podes negar.
— Não me pode obrigar a fazer coisas más. Não me pode forçar a agir contra a vontade do meu pai. Pelo menos, tenho que lhe perguntar.
— Hás de perceber que posso, pequena. Isso mesmo. A partir deste momento, vais fazer o que te mandar. Prosseguirás a minha demanda até ao fim e conseguirás o triunfo que me foi negado. Se me desobedeceres, sofrerás as conseqüências Uma pequena dor de cabeça; um ataque de diarréia. Talvez umas verrugas, ou uma pequena erupção num lugar difícil. Eu não sou para brincadeiras, Fainne. Desobedece-me e não serás tu a ser castigada. Será o teu pai.
O meu coração bateu de terror.
— Não acredito! — murmurei. — Não era capaz! O seu próprio filho? Não acredito.
Mas era verdade. Via-o nos seus olhos. Ela fez um esgar, revelando os dentes aguçados, os dentes de um predador.
— O meu próprio filho, sim, e que grande desapontamento ele foi. Quanto à minha vontade, já tiveste uma demonstração. A doença do teu pai não é uma maleita que ele apanhou, ou o resultado dos nervos, ou da exaustão. É obra minha. Planeio isto há anos e tenho-vos vigiado a ambos. Talvez ele o tenha sentido; mas apanhei-o desprevenido e agora não consegue afastar-me. Por isso é que te manda embora para o que ele pensa ser um lugar seguro. Para os braços de Conor, o seu arquiinimigo. Irônico, não é?
— Mente! — retorqui, dividida entre o horror e a fúria. — O meu pai é muito rápido em contrafeitiços, nunca deixaria que isso acontecesse. Não há, no mundo, um feiticeiro mais forte do que ele. A minha voz era desafiadora, ao mesmo tempo que o meu coração tremia de pavor; tinha-nos preso numa armadilha, presos pelo amor que tínhamos um pelo outro. Ela era a mais forte; sempre fora.
— Não ouviste o que eu disse? — perguntou-me ela. — Ciarán podia ter sido o que disseste. Podia ter sido o mais poderoso de todos. Mas não quis saber. Deixou que a esperança o destruísse. Pode continuar a praticar magia, mas perdeu a vontade Foi uma presa fácil para mim. Precisarás de ter muito cuidado. Vou dar-te algumas instruções antes de partires. À mais ligeira desobediência, o teu pai é que sofre. Viste como ele está. Não são precisos muitos erros da tua parte para que piore; até não ter salvação. Por outro lado, faz as coisas bem e talvez ele melhore. Vê lá tu o poder que ponho nas tuas mãos.
— Não saberá. — A minha voz tremia. — Eu estarei em Sevenwaters e a avó disse que não conseguia ler a mente. Posso desobedecer-lhe e nunca saberá. — As suas sobrancelhas ergueram-se com desdém.
— Surpreendes-me, Fainne. Não dominas a arte das bolas de cristal, a arte dos espelhos? Saberei sempre.
Rodeei-me a mim própria com os braços, porque sentia um frio dentro de mim que permaneceria mesmo no dia mais quente de Verão. O meu pai doente, sofrendo, a morrer; como poderia suportar uma tal coisa? Era, na verdade, uma crueldade. Uma crueldade inteligente.
— Suponho... suponho que não tenho escolha — murmurei. A minha avó acenou com a cabeça.
— Esperta. Não falta muito para que te divirtas, acredita. O fato de podermos ver desenrolar-se à nossa frente uma obra de destruição provoca um prazer inaudito. E tu vais poder fazer isso. No fim de contas, só precisas de te adaptar. Eu dou-te algumas idéias. O resto podes fazer por ti própria. É espantoso o poder que uma mulher pode ter se aprender a tornar-se irresistível. Eu mostro-te como identificar, numa multidão de cinqüenta, o alvo que será o teu homem; o único com poder e influência. Fiz isso, uma vez, e quase consegui tudo o que queria. Estive quase. Depois, aquela rapariga estragou tudo. Sentir-me-ei tão feliz como Ciarán quando vir, finalmente, aquela família falhar. Vê-la desintegrar-se e destruir-se a si própria.
A minha avó meteu uma mão num bolso escondido.
— Prossigamos. Vais precisar de toda a ajuda que puderes. Isto vai ser-te útil. Um pequeno amuleto. Uma coisa de nada, na verdade. Proteger-te-á de toda a espécie de influência. — Passou-me um cordão pelo pescoço. O símbolo pendurado nele parecia uma bugiganga sem valor; um pequeno triângulo de bronze trabalhado, cujo padrão era tão pequeno que mal se distinguiam as formas. No entanto, no momento em que o senti encostado ao coração, pareceu-me ver tudo mais claro; a minha ansiedade desvaneceu-se e comecei a compreender que talvez pudesse fazer, no fim de contas, o que a minha avó queria. Eu sabia que a magia era forte em mim. Talvez precisasse apenas de seguir as suas ordens, e tudo estaria bem. Fechei a mão em redor do amuleto; tinha um calor tépido que parecia fluir através de mim, reconfortante, tranqüilizador.
— Portanto, Fainne — disse a minha avó num tom quase amável — tens de manter esse amuleto escondido por baixo do vestido. Usa-o sempre. Nunca o tires, compreendes? Ele proteger-te-á daqueles que tentarão frustrar o nosso plano. Ciarán diria que os poderes da mente são suficientes. Isso vem-lhe da disciplina druídica, mas, que sabem eles? Eu vivi no meio deles e posso dizer-te que precisarás de toda a proteção que puderes conseguir.
O que ela dizia parecia prático.
— Sim, avó — disse eu segurando o amuleto de bronze.
— Fortalecerá a tua resolução — disse a minha avó. — Evitará que fujas quando as coisas começarem a ficar difíceis.
— Sim, avó.
— Agora, diz-me. Há alguém de quem não gostes, aqui neste teu cantinho? Detestas alguém?
Tinha de pensar bem naquilo. O meu círculo era algo limitado, especialmente ultimamente. Mas havia uma imagem que não me saía da cabeça: aquela rapariga de pele tostada pelo sol e de sorriso muito branco, envolvendo os ombros de Darragh com um xale.
— Uma rapariga — disse eu com precaução, pensando que fazia uma idéia do que se ia seguir. — Uma rapariga pescadora, lá em baixo na enseada. Não gosto muito dela.
— Muito bem. — A minha avó estava a olhar intensamente para os meus olhos. — Sabes como transformar um sapo num pássaro e uma barata num caranguejo. Que gostarias de fazer a essa rapariga?
— Eu..
— Escrúpulos, Fainne? — O seu tom tornou-se mais penetrante.
— Não, avó. Não tinha dúvidas de que me dissera a verdade e tinha de fazer o que ela me pedia. Se falhasse, o meu pai pagaria as favas. No entanto, não significava que a transformação fosse para sempre. Nem sequer tinha de durar muito tempo. Podia obedecer-lhe e, no entanto, fazer as coisas à minha maneira.
— Ótimo. Ainda bem que o tempo está bom, não achas? Podes ir dar um passeio esta tarde, para esticar as pernas. Leva contigo esse corvo que ainda anda por aí. Poderás fazê-lo, então. Tens de a apanhar sozinha.
— Sim, avó.
— Concentra-te. Lembra-te que o que vais fazer não passa de um ligeiro ajustamento. Sem importância nenhuma no esquema das coisas.
Programei a ocasião para quando os barcos ainda estivessem no mar e as mulheres em casa. Se fosse vista, dois e dois seriam quatro. Faltava-me a capacidade de me tornar invisível, porque, como a minha avó me dissera, tínhamos sido despojadas dos grandes poderes. Porém, eu era capaz de deslizar das rochas para os arbustos batidos pelo vento e para a parede de rocha sem chamar a atenção, curvada ou não, e pareceu-me que Fiacha sabia exatamente o que eu estava a fazer, porque se comportava exatamente como outro corvo qualquer que estivesse na aldeia naquele dia. Passou a maior parte do tempo empoleirado a olhar para mim.
A rapariga estava no exterior da casa a lavar roupa numa tina. Os seus brilhantes cabelos castanhos caíam-lhe para o rosto e parecia mais vulgar do que eu me lembrava. Duas crianças pequenas brincavam na erva, perto. Observei-a durante um bocado, escondida na sombra de um anexo. Mas não a observei durante muito tempo; não me podia permitir pensar muito. A rapariga olhou para cima e disse algo às crianças, uma delas desatou a rir e a rapariga sorriu, mostrando os dentes brancos.
Movi a minha mão, disse o feitiço na minha cabeça, em silêncio e um instante mais tarde um grande bacalhau saltava e arquejava no carreiro de terra e a rapariga de pele morena desaparecera. As duas crianças, aparentemente, não se aperceberam, absorvidas nas suas brincadeiras. Olhei para o peixe, contorcendo-se e saltando, desesperado, Deixa-la-ia assim o tempo suficiente para mostrar que era forte; o suficiente para provar à minha avó que conseguia fazer aquilo. Depois, apontaria o dedo e diria o feitiço que faria o contrário. Talvez agora. Comecei a concentrar-me e a juntar as palavras. Mas antes de conseguir sussurrá-las, uma mulher saiu a correr da casa com uma faca na mão e as sobrancelhas franzidas. Era uma mulher grande e parou no carreiro mesmo à minha frente. E enquanto não pudesse ver a criatura que tinha transformado, não podia fazer o contrafeitiço.
Sai daí, disse-lhe eu mentalmente. Sai daí, depressa.
— Brid! — chamou ela. — Onde estás, rapariga?
Afasta-te. Por favor.
— Para onde foi a vossa irmã? — A mulher parecia estar a falar com as duas crianças, não esperando qualquer resposta. — E o que é que isto está aqui a fazer?
Perante o meu olhar horrorizado, ela inclinou-se e apanhou algo do chão. Se ao menos ela se virasse um pouco, tudo o que eu precisava era de um vislumbre de uma cauda prateada, um olho, ou uma boca aberta, e poderia transformar de novo a criatura na rapariga. Fa-lo-ia, mesmo que toda a gente ficasse a saber a verdade. Se não o fizesse, seria uma assassina.
— Quem é que esteve aqui? — perguntou a mulher às crianças. — Brincadeiras de miúdos? A vossa irmã vai ouvir-me quando regressar, que não haja dúvidas. Deixá-los aos dois sozinhos com uma tina cheia de água é pedir sarilhos. Mas isto vai para a panela com umas couves. — Ela fez um movimento rápido com a mão, a que segurava a faca e então, só então, ela se virou um pouco e eu vi o peixe pendurado no seu punho, transformado num pedaço de comida para toda a família. Não podia fazer nada. Era demasiado tarde. Nem sequer o mais poderoso dos feiticeiros tem o poder da vida. Um terror gelado percorreu-me o corpo. Não era só o fato de eu ter feito uma coisa imperdoável. Era muito pior. Não acabara de provar que a minha avó tinha razão? O meu sangue era o sangue de uma descendência maldita, uma linhagem de feiticeiros e proscritos. Parecia que não podia lutar contra essa maldição, que se manifestaria quando lhe apetecesse. Os meus passos não se encaminhavam inevitavelmente para o caminho das trevas? Virei-me e fugi em silêncio. A mulher nunca me viu. Mais tarde soubemos do desaparecimento da rapariga. Fora feita uma busca; procuraram por toda a parte. Mas ninguém mencionou o peixe morto e as crianças eram demasiado pequenas para dizer fosse o que fosse. Nunca encontraram a rapariga. As pessoas esperavam que ela tivesse fugido com um namorado qualquer e que tivesse ido morar para outra terra qualquer. No entanto, era estranho; sempre fora uma boa rapariga.
Depois disso, tornou-se cada vez mais difícil adormecer. Riona ficou na arca.
Conseguia imaginar os seus pequenos olhos a olharem para mim na escuridão, dizendo-me a verdade sem uma palavra sequer. Não queria ouvir o que ela teria para dizer. Não queria pensar em nada de especial. Conhecia uma data de jogos mentais, truques, que o meu pai me ensinara para aumentar a concentração, uma estratégia para deixar de fora o que não se queria. Mas, agora, nenhum deles parecia funcionar.
A voz da minha avó a dizer: Escrúpulos, Fainne? Darragh olhando para mim, vendo-me acender a fogueira com um dedo. Darragh franzindo o sobrolho. Tu és um perigo para ti própria. E a imagem de uma rapariga de cabelos ruivos chorando, chorando, num delírio de desgosto, os olhos fechados, as mãos apertando a cabeça, o nariz a escorrer, a voz rouca de tanto chorar. Acima de tudo, queria-a a ela fora da minha cabeça. Não suportava testemunhar tanta angústia. Fazia-me querer gritar. Fazia-me querer chorar, sentia as lágrimas a aproximarem-se dos olhos. Mas a nossa espécie não chora. Pára, pára, disse eu, tentando afastá-la. Então, ela virou para mim o rosto trágico e inchado, e era eu.
Após um Inverno interminável e uma Primavera fria, chegou o Verão e os nômades regressaram à enseada. Fiz quinze anos. Não subi ao monte para ver as longas sombras que marcavam o dia da chegada de Darragh, apesar de o poder fazer à vontade, sem as restrições do meu pai. Mas ouvi a voz doce e triste da gaita-de-foles penetrando na suave quietude do crepúsculo e soube que ele estava lá. Uma parte de mim desejava escapar, subir até ao local secreto para me sentar junto do meu amigo e olhar para o mar, conversar ou não conversar, conforme nos apetecesse. Mas, desta vez, era fácil encontrar razões para não ir. Não queria pensar em muitas delas, mas elas estavam lá, escondidas algures, dentro de mim. Aquela rapariga e o que eu fizera. Não fazia diferença o fato de a minha avó me ter obrigado; não fazia diferença o fato de eu só ter querido assustá-la, de eu ter querido transformá-la a tempo. Fora eu que o fizera e isso fazia de mim uma assassina. Sabia que o que fizera fora um abuso da magia. No entanto, tudo o que tinha, tudo o que era, devia-o ao meu pai. Para o salvar, tinha de estar preparada para o impensável. Mostrara a mim mesma que era suficientemente forte. Mas não queria que ninguém me falasse nisso. Especialmente Darragh. E havia outra razão, ainda mais convincente: algo que a minha avó disse, um dia.
— Ainda falta o passo seguinte — disse-me ela. — Portaste-te bem. Fizeste mais do que eu esperava em termos de resultado final. Mas, é fácil quando odiamos; muito fácil quando não nos importamos. Pode ser que tenhas de fazer mais do que isto. Diz-me, Fainne, tens algum amigo especial? Alguém de quem gostes muito?
Pensei rapidamente e abençoei a falta de capacidade da minha avó para ler a mente.
— Não, ninguém — disse eu calmamente. — Exceto o pai, claro. — A minha avó fez uma careta.
— Tens a certeza? Não tens amigas? Não tens um namorado? Não, suponho que não. É pena. Precisas de praticar.
— Porquê? Que quer dizer?
Ela suspirou.
— Diz-me, quais são as coisas mais importantes para ti?
Construí a minha resposta com cuidado
— A tarefa que me está destinada. Essa é a mais importante.
— Hum. Parece fácil, não parece? Vais para Sevenwaters, insinuas-te na família, fazes a tua magia e a tarefa está feita. Mas, e se te tornares amiga de alguém? E se gostares deles? Pode não ser assim tão fácil, nesse caso. É então que começa o verdadeiro teste de força. Aquela gente está muito próxima dos Túatha Dê, Fainne, não magoarás um sem magoares outro.
— Gostar deles? — O meu espanto era genuíno. — Tornar-me amiga da família que destruiu a minha mãe e destruiu os sonhos do meu pai? Como poderia eu?
— Ficarias surpreendida. — O tom da minha avó era secamente divertido. — Eles não são monstros só porque fizeram o que fizeram. E tu conheceste aqui poucas pessoas, fechada neste fim do mundo com Ciarán. Ele não te fez favor nenhum ao trazer-te para Kerry, pequena. Terás de ser muito prudente. Terás de te lembrar quem és e porque estás lá, a cada momento do dia. Não te podes dar ao luxo de baixar a guarda, nem por um instante. Há pessoas perigosas em Sevenwaters.
— Como é que eu hei de saber quem...?
— Alguns são de confiança. Outros não fazem mal nenhum. E outros têm o poder de te deter, se te abrires. Foi o que me aconteceu. Trata de que isso não te aconteça a ti, porque esta é a tua última oportunidade. Terás de ter cuidado com o da asa de cisne.
— O quê? — Não tinha ouvido bem, certamente.
— O perigo é ele. Ele é que pode passar para o outro lado e regressar quando muito bem lhe apetece. Tem cuidado com ele.
Fiquei ansiosa por saber o que ela queria dizer. Mas, por mais que tentasse, nessa tarde não me disse mais nada. Na verdade, ficou, subitamente, mal disposta e começou a castigar-me com picadelas que pareciam de vespa, por cada pequeno erro no treino de feitiços alternativos. Tive de fazer um grande esforço para me concentrar; demasiado grande para poder fazer perguntas estranhas.
Nesse Verão soube o que era a dor. Os truques anteriores da minha avó não eram nada comparados com os castigos que me infligia quando me achava provocadora ou teimosa, ou quando me apanhava a sonhar em vez de me aplicar na tarefa em mãos.
Provocava-me dores de cabeça que mais pareciam as garras de um dragão, uma agonia que me desfazia as entranhas e me tirava qualquer vontade que eu ainda pudesse ter. Era capaz de me espetar milhares de agulhas na barriga e de me irritar a pele, fazendo-a arder e supurar e fazendo-me quase gritar por misericórdia. E quase gritei. Ela sabia que eu era jovem e parava antes de a tortura se tornar insuportável.
Nunca me disse o que pensava da minha força de vontade. Eu suportava o que ela me fazia, já que não tinha escolha. O meu pai não devia saber que ela me tratava assim, ou não me teria deixado à sua mercê. Eu aprendia e tinha medo.
Uma noite mostrou-me uma visão que me aterrorizou ainda mais.
— Para o caso — disse ela — de pensares em mudar de idéias quando te fores embora. Para apagar esse último lampejo de desafio dos teus olhos, Fainne. Se calhar, pensas que te menti; que isto é tudo uma grande fantasia. Olha para as brasas, onde as chamas estão mais vermelhas. Respira devagar e esquece-te de tudo o que aprendeste. Olha bem e diz-me o que vês.
Mas não foi preciso dizer fosse o que fosse. Ela deve ter lido no meu rosto o horror que senti quando olhei para o fogo e vi uma imagem do meu pai, as suas duras feições contraídas, o seu corpo torcido de dor, o peito torturado por uma tosse que parecia parti-lo em dois. O sangue saía-lhe da boca, as mãos agarravam desesperadamente o ar e os seus olhos escuros pareciam os de um louco. Todo o meu corpo ficou gelado. Ouvi-me a mim própria murmurar: Oh não, oh não. Ter-lhe-ia suplicado se tivesse força para encontrar as palavras.
— Oh sim — disse a minha avó enquanto a visão se extinguia e eu me deixava cair em cima do tapete junto da lareira. — A mim não me interessa se se trata do meu filho ou de um estranho, Fainne. Tudo o que me interessa é a tarefa em mãos.
— O m... meu pai. Gaguejei. Ele está?...
— Tu viste o futuro, não o presente. Um futuro possível. Se quiseres uma imagem diferente, terás de me obedecer, fazendo o que te digo. Desafia-me e ele morre, lentamente. Faz o que eu te digo e mantém a boca calada. Espero que acredites no que te estou a dizer, pequena. Serias muito tola se não o fizesses. Acreditas em mim, Fainne?
— Sim, avó — murmurei.
Os dias quentes iam passando e as vozes das crianças subiam com a brisa de Verão até às câmaras mais profundas do Favo de Mel. Os barcos saíam da enseada de madrugada e regressavam ao anoitecer, carregados com a sua carga reluzente. As mulheres remendavam redes no pontão, enquanto os rapazes exercitavam os cavalos ao longo da praia, pisando as algas. Eu permanecia acordada, noite após noite, ouvindo o distante lamento da gaita-de-foles. Apesar de Fiacha ir e vir, não havia sinal do meu pai e eu começava a recear que nunca mais o veria, o que me magoava terrivelmente; no entanto, não queria que ele visse o que se aproximava e testemunhasse o mau uso que eu estava a fazer da magia, por isso, de certo modo, a sua ausência era um alívio. Esperava que ele nunca soubesse a verdade, que ao enviar-me para Sevenwaters sacrificava a sua única filha numa demanda imprudente e impossível, pagando com a sua vida o falhanço mais que provável. Quanto à minha avó, eu não passava, para ela, de uma ferramenta bem afinada, uma ferramenta planeada ao longo dos anos, que ia agora ser usada num propósito tão grande que eu mal conseguia compreender.
O Verão estava a terminar. A minha avó fizera alguns preparativos. A minha pequena arca tinha agora dois vestidos de melhor qualidade do que os meus habituais trajes e aventais de trabalho. Tinha um par de sapatos novos para além das minhas botas de marcha habituais. Tinham sido feitos especialmente por um homem, resmungando para si próprio enquanto tirava as medidas ao meu pé deficiente.
Aquilo era um sofrimento. Poupar-lhe-ia, de boa vontade, o trabalho; mas eu precisava dos sapatos.
Não perguntara à minha avó como viajaria para Sevenwaters. Era uma grande jornada, sabia-o, porque Darragh me dissera; quase nos confins de Erin. Mas não sabia quantas luas demoraria. Talvez a minha avó fizesse um feitiço de transporte e me mandasse para o Norte num instante com a minha bagagem. No fim, não foi preciso perguntar, porque, um dia, a minha avó anunciou, simplesmente, que chegara a hora da partida.
— Farás a viagem para Norte na carroça de Dan Walker — disse ela inspecionando a correia que atava a minha arca. — Muito prático, se não mesmo distinto.
— Prático? — perguntei, consternada. — Que tem uma viagem assim de prático?
— Levantarás menos suspeitas se apareceres com os nômades — disse ela secamente — em vez de apareceres subitamente no salão do teu tio por entre um chuveiro de faíscas. Assim, ninguém reparará em ti. O que é mais uma rapariga no meio de tantas outras? Não estás nervosa, pois não? Certamente que te ensinei bem. Usa o Encantamento, se precisares. Sê o que te apetecer, pequena. Esta gente não passa de um bando de latoeiros, Fainne. Não são nada.
— Sim, avó.
As suas palavras não eliminaram o nervoso que me enovelava o estômago. Sabia que tinha de ser forte. A missão que ia cumprir para a minha avó, a sua terrível vingança contra os que tinham desprezado a nossa espécie, tinha de ser levada a cabo com a maior das perseveranças. A vida do meu pai estava nas minhas mãos.
Não podia falhar. Não falharia. Porém, ainda só tinha quinze anos, torturada pela timidez e de modo nenhum habituada ao mundo exterior. Era isso, suponho, que fazia de mim uma arma tão subtil. Devia parecer tão inócua como um pequeno animal selvagem, que foge ao menor sinal de perigo.
Despedi-me da minha avó. Se ainda tinha dúvidas, guardou-as para si própria.
— Apetecia-me ir contigo — suspirou ela e, por um instante, vislumbrei aquela outra transformação de que ela gostava tanto, uma criatura sedutora, curvilínea, de cabelos ruivos e pele cor de pérola. — Ainda deve haver belos homens por aquelas bandas, se bem que não devam ser nenhum Colum. Ainda sou capaz de lançar a minha rede, não tenhas dúvidas. — E então, abruptamente, voltou a ser ela própria. — Mas sei que não daria resultado. Eles reconhecer-me-iam, com Encantamento ou sem ele. O druida reconhecer-me-ia. Assim como o outro. Chegou a tua vez, pequena. Lembra-te do que te ensinei. Lembra-te do que te disse. Lembra-te de tudo, Fainne.
— Sim, avó.
Saímos do Favo de Mel e aproximamo-nos do ponto em que o carreiro descia até à praia e até à parte ocidental da enseada, onde Dan Walker e os seus estariam a fazer os preparativos para a partida. E ali, com a sua capa escura e rosto cor de cinza, estava o meu pai, olhando silenciosamente para o mar. O meu coração saltou.
— Sou capaz de ir contigo até lá abaixo — disse a minha avó. — Para me despedir de ti.
Não é fácil lançar um feitiço sobre um praticante da arte. Temos de ser rápidos, ou encontraremos uma barreira, ou um contrafeitiço, e os nossos esforços perder-se-ão por completo. Mas fomos excepcionalmente rápidos. Num instante, sem sequer olharmos um para o outro, o meu pai e eu lançamos uma rede que imobilizou por completo a minha avó, deixando-a pregada na rocha, a boca ligeiramente aberta e os olhos gelados de contrariedade.
— Ela vai ficar zangada — observei para o meu pai enquanto descíamos o carreiro, ele carregando a minha pequena arca ao ombro e eu uma trouxa de roupa de cama para a jornada. Fiacha voava por cima das nossas cabeças.
— Eu, depois, falo com ela — disse o meu pai calmamente. Eu olhei para ele e pensei detectar uma sombra de divertimento nos seus olhos. Mas estava magro, tão magro, e parecia mais velho do que no último Outono, as faces cavadas, a boca severa entre novas rugas de dor. — Fainne, não temos muito tempo. Estás bem? Foram tempos difíceis para ti, tempos de grandes mudanças. Custou-me muito deixar-te assim; mas foi necessário. Estás pronta para esta viagem, filha?
Caminhei com cuidado pelo carreiro estreito. Tinha estado a chover e o piso estava escorregadio. As perguntas atropelavam-se na minha cabeça. Como é possível deixar que a própria mãe lhe faça tal coisa, e Por que é que ele não me disse a verdade? E, acima de tudo Voltarei a vê-lo? Não podia fazer-lhe nenhuma delas, porque a minha avó saberia e seria o meu pai a pagar por isso. Desejei lançar-lhe os braços ao pescoço, dizer-lhe toda a verdade e ser de novo uma criança num mundo onde as regras faziam sentido. Mas não lhe podia dizer nada.
— Sim, estou pronta — disse eu, sentindo uma sensação estranha por trás dos meus olhos, como se fosse chorar a qualquer momento.
— Tens a certeza?
— Tenho, pai.
E assim caminhamos em silêncio e, se bem que caminhássemos lentamente, como se não quiséssemos chegar ao fim, depressa chegamos ao trilho que contornava a praia e junto de Dan, de Peg e do grupo vestido de cores alegres.
— Pai — disse eu abruptamente.
— Sim, Fainne?
— Eu quero dizer-lhe... quero agradecer-lhe por ter sido um professor tão bom. Agradecer-lhe pela sua sabedoria e paciência... e... e por me ter deixado descobrir as coisas por mim própria. Por ter confiado em mim.
Por um momento, ele não disse nada. Quando falou, a sua voz estava um pouco insegura.
— Fainne, tenho uma certa dificuldade em dizer-te isto.
— O quê, pai?
— Eu... tu não precisas de ir, se não quiseres. Se, no teu coração, sentes que não deves ir, ainda estás a tempo.
— Não ir? — O meu coração bateu com força. Agora, que era demasiado tarde, ele dizia-me para ficar e eu estava proibida de dizer sim. Tossi para clarear a garganta.
— Quando chegamos a este ponto, não fazer isto por si? Não devo à minha mãe ir para Sevenwaters e ser o que ela desejaria que eu fosse? Certamente que devo ir. — E, oh, como desejava dizer-lhe que daria tudo para ficar com ele em Kerry e para que as coisas fossem como antigamente. Mas ele era meu pai e, para seu próprio bem, tinha de arranjar coragem para o deixar.
— Gostaria... gostaria que compreendesses que, no fim, o que acontecer será determinado por ti. E... Fainne, isto que vai acontecer pode muito bem estar para além do que nós, alguma vez, imaginamos. É tão importante que, não me atrevo a pô-lo em palavras. Nós somos o que... somos por nascimento e pela herança do sangue. Não podemos nada contra isso. Não podemos quebrar os laços da nossa espécie. Mas sempre pudemos praticar a arte, de uma maneira ou de outra, ou pormo-nos de parte. Tu tens essa escolha, filha.
Olhei para ele.
— Não praticar a arte? Mas... há mais alguma coisa?
O meu pai não respondeu, limitando-se a acenar levemente com a cabeça. A sua expressão permaneceu impassível. Sempre fora um mestre na arte do controlo.
Recomeçamos a caminhar, o nosso último passeio na enseada, com a espuma das ondas a envolver o Honeycomb nas nossas costas, o grito longínquo das gaivotas por cima das nossas cabeças e, na nossa frente, Dan Walker avançando na nossa direção, uma mão estendida em saudação e um sorriso no rosto escuro, barbudo.
— Então, Ciarán? Pelo que vejo, trouxeste a rapariga. Dá a tua trouxa ao Darragh, pequena, para te instalarmos na carroça. Estás pronta?
Eu acenei com a cabeça nervosamente, olhando para o grupo. Nem sequer olhei para Darragh quando ele se aproximou e me tirou a trouxa das mãos. A arca de madeira foi atirada sem cerimônia para uma das carroças e eu vi-me içada para outra, sentada junto de Molly, a amiga de Peg e de várias rapariguitas de vozes muito altas. O meu pai ficou em baixo e eu achei-o ainda mais pálido, se possível.
— Eu tomo conta dela, Ciarán — disse Dan enquanto subia para a primeira carroça e segurava nas rédeas. — Ela, conosco, está segura.
O meu pai acenou com a cabeça. Na retaguarda, os rapazes juntavam a manada de cavalos, assobiando agudamente. Os cães ajudavam com os seus latidos excitados.
Fiacha retirou para um ponto no alto de uma árvore morta e as gaivotas fugiram espavoridas.
— Bem — disse o meu pai calmamente. — Adeus, filha. Pode ser que passe muito tempo antes de nos vermos de novo.
Agora que a despedida final se aproximava, eu mal conseguia falar. A tarefa à minha frente era tão intimidante que eu mal conseguia imaginá-la. Mudar o curso de uma batalha. Derrotar os Fair Folk num jogo que eles jogavam a mais anos do que grãos de areia havia na praia branca da enseada. O que vai acontecer... Tinha de levar a cabo a tarefa que a minha avó começara, tinha de fazê-lo custasse o que custasse, para lhe pagar os anos de paciência e conhecimento sem preço.
— Adeus, pai — sussurrei e então Peg gritou aos cavalos, agitou as rédeas e partimos.
Olhei para trás, por cima do ombro, para a figura do meu pai cada vez mais pequena.
Lembro-me das cores. A cor ruiva do seu cabelo. A cor cinzenta do seu rosto. A longa capa escura, uma capa de feiticeiro. Por trás dele, o mar ia e vinha, ia e vinha e o céu cheio de nuvens escuras, púrpuras, violetas, sombrias e misteriosas, como se fosse o esconderijo de uma grande criatura do oceano. O vento começou a agitar os arbustos que bordejavam o trilho e as rapariguitas aproximaram-se umas das outras por baixo dos seus cobertores, rindo e sussurrando umas para as outras.
— Isso passa — disse Peg para ninguém em particular.
— Tudo bem, miúda? — perguntou Molly, acanhada. Eu acenei com a cabeça, hirta, e estremeci quando a carroça passou por cima de uma pedra. Então, passamos uma curva e o meu pai desapareceu.