A Filha da Profecia
Capítulo Quatro
A chuva estava pegada e uma das crianças tinha tosse. Ofereci-me para ficar a cuidar dela e Peg aceitou, agradecida. Mas deixou também Roisin. Para me fazer companhia, disse ela. A idéia de fazer de enfermeira agradava-me. A rapariga não me daria trabalho nenhum. Além disso, não podia passear com aquela chuva e nem queria pensar em ir de novo a cavalo com Darragh, quanto mais falar com ele. O fato de pensar nele fazia-me sentir deprimida. Sabia que o tinha ferido. Engraçado, parecia que o meu coração me doía.
Enquanto a criança descansava, ocupei-me do meu outro encargo. Passara a noite empoleirado num suporte lateral da tenda, minúsculo, quieto e silencioso. Talvez não quisesse que eu soubesse que era capaz de voar. Não dormiu o dia todo, como qualquer mocho. Em vez disso, manteve os olhos meio abertos, observando-me e parecia feliz ao aceitar os pequenos bocados de comida que eu lhe dava: larvas, escaravelhos e outros insetos. Na tranqüilidade da noite, enquanto as pessoas dormiam, vira-o, por duas vezes, erguer as pequenas asas amarrotadas e atacar, súbita e mortalmente, uma criatura qualquer no solo, regressando depois ao poleiro para comer a sua refeição asseadamente com bico e garras miniatura.
— És uma fraude — sussurrei, sentada junto do leito da criança com o mocho empoleirado no meu dedo e dando-lhe um verme recém-apanhado. O pequeno pássaro olhou para mim intensamente, abriu o bico e abocanhou. O verme desapareceu. — Uma completa fraude. — O pássaro fechou os olhos até não serem mais do que uma fenda, agitou as penas e pareceu adormecer. Então, ouvi cascos no exterior e meti-o no canto escuro do meu bolso.
Ouvi a vozes de Roisin e de um homem. Olhei para fora da tenda e voltei para dentro. Pensava que Roisin só via o namorado uma vez por ano. Não era a maneira ideal de conduzir um namoro, se aquilo era um namoro. Sentei-me em silêncio, ouvindo as vozes de ambos, mas sem apanhar as palavras. A minha mente estava longe. Pensava no meu pai e como perdera o amor da sua vida e os seus sonhos.
Pensava que era bom ir para Sevenwaters agora e não mais tarde. Algumas coisas podem magoar-nos. Algumas pessoas podem ferir-nos. Na minha vida não havia lugar para isso. E não podia haver outro tipo de vida para mim, ou para a minha espécie. Já sabia isso. Tinha, apenas, de o dizer a mim própria, mais nada, e a dor desapareceria.
A chuva quase parara. Do exterior, junto da fogueira, Roisin chamou-me.
— Fainne?
Emergi da tenda. O jovem estava a acender o fogo e Roisin estava a fazer chá.
— Anda tomar uma bebida. Está a ficar frio. Este é o Aidan. Aidan, esta é a Fainne. Amiga de Darragh.
Já não, pensei, forçando um sorriso.
— Encantado por te conhecer — disse o jovem e eu acenei com a cabeça.
— Aidan trouxe algumas notícias, Fainne. — Roisin parecia invulgarmente hesitante. Não conseguia imaginar que notícias me poderiam interessar. — Parece que Darragh, finalmente, tomou uma decisão — continuou ela.
— Acerca de quê? — perguntei, aceitando uma taça do seu chá de camomila a ferver.
— Diarmid O’Flaherty e os cavalos dele — disse Aidan, que se sentara num dos bancos com o braço em redor de Roisin.
— Ele não te disse? — perguntou Roisin, quando eu não respondi. Abanei a cabeça.
— O’Flaherty tem andado em cima dele, e do meu pai, estes últimos dois anos, para que Darragh vá para a herdade dele para o ajudar a treinar os cavalos. Desde que Darragh conseguiu pôr as mãos num cavalo que nem O’Flaherty, nem nenhum dos seus homens conseguia tocar. Foi há um certo tempo atrás. Ele sabe lidar com eles como mais ninguém. Alguns dos melhores cavalos são da coudelaria de O’Flaherty. Seria uma grande oportunidade para Darragh. Mas a nossa espécie não se estabelece. Ele disse sempre que não. Prefere andar na estrada ou regressar a Kerry, com ou sem cavalos.
— Mas parece que, agora, quer assentar — observou Aidan. — Talvez haja aí uma rapariga. As duas filhas de O’Flaherty são bem jeitosas.
Roisin olhou para ele. Quanto a mim, fiquei ali com a taça nas mãos sem dizer uma palavra.
— Foi uma surpresa — disse Roisin. — O meu pai ficou contente e triste ao mesmo tempo. Sabe que é uma grande oportunidade. Mas vamos ter saudades de Darragh.
— Não vão ser assim tantas — disse Aidan. — Vocês vão vê-lo por ocasião da feira. Aqui, em Ceann Na Mara, é sempre assim — explicou ele, olhando para mim. — Os Verões no campo e os Invernos na costa. O’Flaherty tem muitas herdades. Quem casa naquela família tem o futuro garantido.
— Quem falou em casamento? — zombou Roisin, espetando-lhe um dedo nas costelas.
— Fala-se.
— As pessoas dizem o que lhes apetece. Isso não faz com que seja verdade. Nunca pensei que Darragh fizesse uma coisa destas. Deixou-nos a todos surpreendidos. — Ela olhou para mim. — Pensei que tinhas sido a primeira a saber.
Depois daquilo as coisas aconteceram rapidamente. O’Flaherty regressaria a casa no dia seguinte e levaria Darragh com ele. As pessoas reuniram-se em volta da fogueira nessa noite, mas o ar estava frio e ninguém estava com disposição para festas. Eu disse que estava cansada e fiquei na tenda. As pessoas conversaram em voz baixa enquanto bebiam as suas cervejas. Não houve histórias nem grandes risos. Mais tarde, alguém pediu a Darragh que tocasse gaita-de-foles; mas foi Dan Walker que entreteve toda a gente com um par de canções. Eu não via, mas ouvia. A música era melhor do que a de Darragh, mas não tinha a mesma alma.
Mais tarde, quando já toda a gente dormia e caía uma chuva fina, ouvi-o ao longe, junto da margem, na escuridão. Tocava para si próprio; uma espécie de adeus à família e aos amigos e à vida que lhe estava no sangue. Eu sou um nômade, percebes , dissera ele. Sempre em movimento. O lamento espalhou-se pela praia vazia e pelas águas escuras e ondulantes, penetrando no mais profundo da minha alma.
Antigamente teria sido fácil. Ter-me-ia levantado e teria ido ter com Darragh, sentando-me a seu lado. Não haveria necessidade de palavras entre os dois, porque a minha presença seria suficiente para que ele soubesse que lamentava tê-lo magoado.
Ele teria compreendido que continuava a ser meu amigo. Mas, agora, as coisas eram diferentes. Fora eu que as mudara e agora o meu amigo ia deixar-me para sempre.
Era melhor assim; melhor para mim, melhor para ele. Nesse caso, por que é que me doía tanto? Apertei o talismã da minha avó, sentindo o seu calor, sentindo a segurança que ele me dava, sentindo que o caminho que escolhera era o caminho certo, o único. Puxei o cobertor para cima de mim e pus as mãos nos ouvidos. Mas a voz da gaita-de-foles chegava-me ao coração e não se calava.
Muito tempo mais tarde cheguei a Sevenwaters, já depois de Meãn Fómhair, e havia uma quietude brumosa no ar. Passara muitos dias na estrada, tantos que lhes perdera a conta. O grupo separara-se em dois, deixando uma carroça num acampamento não muito longe da Cruz com a maioria do clã. Sem os velhos e as crianças andamos mais depressa, parando apenas à noite. Dan conduzia a carroça com Peg sentada a seu lado e Roisin fazia-me companhia. Apesar da gentileza de todos, os meus pensamentos estavam na missão que se aproximava; não via mais nada. Dizia a mim própria, vezes sem conta, para esquecer Darragh. O que passara, passara. E tentei, com muita força, não pensar no meu pai.
Acampamos durante duas noites num lugar chamado Glencarnagh, onde havia uma grande casa e muitos homens armados vestidos com túnicas verdes, ocupados nas suas tarefas com ares carrancudos. Vi ali mais árvores do que nunca, de todas as espécies, grandes pinheiros cobertos de agulhas e outras mais pequenas, aveleiras e sabugueiros, já preparadas para o sono de Inverno. Mas aquilo não era nada comparado com a floresta. À medida que percorríamos um trilho com grandes rochas à esquerda e à direita, podíamos vê-la à distância, espalhando-se pela paisagem, envolvendo os montes, adoçando os vales. Sobre ela, a bruma, úmida e espessa.
— Ali está ela, pequena — anunciou Dan Walker. — A floresta de Sevenwaters.
— Vamos já para lá? — perguntou Peg. O seu tom era tudo menos entusiástico.
— A minha velha tia matava-me — disse Dan se eu passasse por aqui sem a visitar. — Além disso, prometi a Ciarán que lhe poria a filha à porta do tio.
— Se assim tem que ser, que seja — disse Peg.
— Quanto mais não seja, comes lá uma boa refeição — disse Dan, olhando para ela de lado. — A minha tia trata disso.
Ir logo para lá, como Peg dissera, provou ser mais difícil do que eu imaginara.
Aproximamo-nos através de campos cultivados e subimos uma encosta até um afloramento rochoso. A floresta ficou para trás, cercada de montes, estendendo-se como um enorme cobertor escuro. Era assustador; um lugar de mistério e sombras, um outro mundo, fechado e secreto. Eu não compreendia como podiam as pessoas viver num lugar daqueles. Não teriam as almas sufocadas, privadas do vento, das ondas e dos espaços abertos? No meu bolso, o pequeno mocho agitou-se. E à nossa frente, no trilho, onde antes não havia ninguém, apareceu subitamente um bando de homens armados, vestidos todos com as mesmas roupas escuras, da cor das pedras e das árvores à nossa volta. O seu chefe vinha à frente, porque, por cima do colete de couro usava uma túnica branca com um símbolo azul: dois colares interligados.
— Dan Walker, viajante de Kerry — disse Dan calmamente enquanto descia da carroça sem que lho ordenassem. — Tu conheces-me. A minha mulher e a minha filha. Vimos de Glencarnagh. Espero ter a hospitalidade de Lorde Sean por uma noite ou duas.
Os homens rodearam a carroça, acotovelando-se e olhando para os ocupantes.
Tinham espadas e facas e dois deles estavam armados com arcos. Havia uma eficiência ameaçadora naquilo tudo.
— Diz à tua gente que desça enquanto nós inspecionamos a carroça — disse o chefe.
— Nós somos nômades — disse Dan em tom suave. — Só temos potes, panelas e um cesto ou dois. E as raparigas estão cansadas.
— Diz-lhes que desçam.
Fizemos como ele ordenou. De pé, no trilho, ficamos a vê-los fazerem uma busca metódica a todos os artigos na carroça. Nem a minha pequena arca de madeira foi poupada. Não gostei de ver os homens de armas apalpar as saias macias de Riona com as suas grandes mãos. Por fim, terminaram. O chefe percorreu-nos com os olhos. Roisin pestanejou para ele, mas o seu rosto permaneceu impassível. O homem olhou para mim e a sua expressão tornou-se mais penetrante.
— Quem é esta rapariga?
Ele perscrutava-me de perto e eu estava com medo. Eles eram druidas, não eram?
Talvez conseguisse ler nos meus olhos as intenções da minha avó. Talvez me detivessem antes de eu começar, sequer, e o meu pai seria punido. Rápida como um relâmpago, usei o Encantamento sutilmente, para dar ao meu rosto uma certa suavidade e aos meus olhos uma umidade inocente. Olhei para o homem de armas através das minhas longas pestanas.
— É a sobrinha de Lorde Sean, de Kerry — disse Dan. — Fainne. Foi-me confiada para que a trouxesse aqui. Vai ficar em Sevenwaters por uns tempos, até ao nosso regresso.
— Sobrinha? — disse o homem, mas a sua voz suavizou-se. — Não sei de sobrinha nenhuma.
— Manda uma mensagem a Lorde Sean, se quiseres. Diz-lhe que a filha da irmã dele está aqui. Ele deixa-nos passar.
Os homens de armas retiraram-se para conferenciar. Seguiram-se alguns olhares na minha direção e também na de Roisin.
— Está pior do que da última vez — comentou Peg. — A guarda foi reforçada. Deve estar para acontecer alguma coisa.
— Eles deixam-nos passar — disse Dan.
Seguiu-se uma longa espera. Passamos a primeira noite acampados ao lado do posto da guarda enquanto um homem corria pelo labirinto da floresta com uma mensagem para o meu tio. Na manhã seguinte, muito cedo, fomos acordados pelo som abafado de cascos de cavalo no solo mole. Ao mesmo tempo que eu punha de lado o meu cobertor e esfregava os olhos, apareceram dois homens, que desmontaram enquanto Dan se aproximava para os cumprimentar. Dois cães cinzentos, do tamanho de pequenos pôneis, ficaram de guarda junto dos cavalos.
— Meu senhor.
— És Dan Walker, não és? Deixa-te de formalidades. Espero que tenhas dormido bem, aqui.
O homem que falara devia ser o meu tio Sean. Tinha uma aura de autoridade que o distinguia como chefe. Era de meia-idade, não muito alto, mas de forte compleição, com cabelos escuros encaracolados afastados do rosto. As suas roupas eram simples mas de boa qualidade e também ele usava o símbolo dos colares interligados. Não consegui ver o outro homem a seu lado.
— Disseram-me — disse o meu tio — que trazes uma visita inesperada.
Dan Walker tossiu ligeiramente.
— Prometi trazê-la sã e salva até à tua porta, meu senhor. Ela vive perto do local onde passamos o Verão. A rapariga chama-se Fainne.
Como não podia esperar mais, coloquei-me ao lado de Dan. Olhei para o meu tio Sean e sorri-lhe
— Bom dia, tio — disse eu educadamente.
A sua expressão mudou, como se tivesse visto um fantasma.
— Brighid nos salve — disse ele suavemente. — Não há dúvida que és a filha da tua mãe.
Então, um dos grandes cães aproximou-se possessivamente para se colocar na sua frente, rosnando baixo enquanto fixava os seus terríveis olhos em mim.
— Chega, Neassa — disse o meu tio e o cão calou-se, mas continuou a fixar-me. — És bem-vinda a nossa casa, Fainne. — Lorde Sean inclinou-se para me beijar numa face e depois na outra. — É uma grande surpresa.
— Espero não incomodar.
— Vais encontrar uma certa perturbação, porque estamos no meio de acontecimentos importantes. No entanto, terás uma recepção de boas-vindas em Sevenwaters. Será melhor ires conosco. Trouxemos-te uma montada. Dan e a sua família podem seguir-nos com uma escolta.
— Não é preciso — disse Dan. — Além disso, eu fui encarregue de levar a rapariga até Sevenwaters. As minhas instruções foram muito precisas.
Os olhos de Lorde Sean semicerraram-se ligeiramente.
— Só se entra ou sai com escolta, amigo ou inimigo. É para tua proteção. Os dias em que se entrava em Sevenwaters para um casamento, ou para um aniversário, acabaram há muito. Os tempos vão perigosos. Quanto à minha sobrinha, fica em segurança com a família. Suponho que não te opões a isso?
Dan sorriu secamente.
— Não, meu senhor — replicou.
— Pode ser que precises de algum tempo para te preparares. — O meu tio olhou para mim mais de perto, talvez observando o vestido amarrotado e o cabelo desgrenhado.
— Talvez comer qualquer coisa. Mas não te demores. Ainda é uma longa cavalgada.
O meu tio afastou-se ligeiramente com Dan, como se desejasse falar com ele em particular e eu pude ver o outro homem, o seu companheiro silencioso, esperando a alguma distância e segurando as rédeas dos três cavalos numa mão. O homem era mais velho, com cabelos lustrosos, macios, que deviam ter sido castanhos, mas que agora eram grisalhos; cabelos nos quais tinham sido feitas muitas pequenas tranças atadas com fitas coloridas. Tinha um rosto curioso, sem rugas e sereno e uns olhos cinzentos sem idade; usava um longo traje branco que ondulava e mudava de forma, se bem que não houvesse vento. E usava um bastão de vidoeiro; e o sol pálido da manhã brilhava no colar dourado em redor do seu pescoço.
— Creio que sabes quem eu sou. — A voz era a de um druida, suave, como música, uma armadilha para os ouvidos e para a mente.
— És Conor, o arquidruida?
— Sou. Podes tratar-me por tio, senão achares isso muito confuso.
— S... sim, tio.
— Aproxima-te, Fainne.
Eu fi-lo relutantemente. Precisava de tempo para me preparar; tempo para me recompor, para reunir todas as forças de que necessitava. Mas não tive tempo. Olhei-lhe para os olhos, sabendo que tinha a memória da minha mãe para me ajudar.
Aquele homem planeara a sua queda. Afastara-a de todos os que amava e, com o tempo, isso fora a sua sentença de morte. Ele olhou para mim com os seus tranqüilos olhos cinzentos e eu senti-me muito desconfortável, quase como se ele estivesse a ver o que havia dentro de mim. Mas eu agüentei o olhar sem pestanejar; fora bem treinada.
— Sean está enganado — disse Conor. — Acho que és muito mais parecida com o teu pai.
Mesmo no Outono, com o solo úmido cheio de folhas sob os cascos dos nossos cavalos, a floresta era escura. Parecia estender os seus braços à medida que íamos entrando cada vez mais nela, envolvendo-nos na sombra. Por vezes, havia vozes. Chamavam do ar por cima de nós, em voz alta e de modo estranho, mas quando eu olhava para cima, tudo o que via era um movimento fugitivo na periferia da minha própria visão, por entre os ramos despidos das faias. Era como teias de aranha no ar; era como um manto de bruma movendo-se mais depressa do que a vista. Eu não percebia as palavras. Os dois homens cavalgavam imperturbáveis; se apercebiam aqueles truques de luz e sombra, aceitavam-nos como uma coisa familiar daquela paisagem impenetrável e misteriosa. Era secreta, fechada. Senti-me como numa armadilha.
O passo dos cavalos não dava qualquer concessão ao meu cansaço e eu continuei desesperadamente, grata por o meu cavalo parecer seguir a direção certa sem qualquer incitamento. Ninguém me tinha perguntado se eu sabia montar; e eu também não ia dizer a ninguém que nunca tinha montado sem Darragh a meu lado fazendo tudo. Os cães corriam à frente, procurando odores no chão. O meu tio Sean mantinha uma conversação amigável enquanto prosseguíamos. A princípio foi apenas uma conversa educada. Pensei que tentava pôr-me à vontade. Deu-me a saber que estava em curso um conselho com muitos visitantes; que eram tempos em que tinham de ter muito cuidado e que ele sabia que eu compreenderia. Mencionou que tinha uma filha mais ou menos da minha idade, que me ajudaria a adaptar-me. A sua mulher, a minha tia Aisling, ficaria encantada por me conhecer, porque também ela conhecera a minha mãe.
— Sabes, não fazíamos a mínima idéia de que virias, até aquele tipo aparecer, ontem à noite — acrescentou ele gravemente. — O teu pai não nos tem mandado muitas mensagens. Gostaríamos de te ter conhecido antes. Mas Ciarán estava decidido a limitar o contato com a nossa família. Nunca mais os vimos depois... depois do que aconteceu.
— O meu pai tinha as suas razões — disse eu para o silêncio extremamente incômodo.
Sean acenou com a cabeça.
— Eles nunca poderiam regressar juntos a Sevenwaters, isso é certo. Continuo convencido de que o que ele fez foi errado. Mas mandou-te regressar a casa. Sou receptivo a isso. Vais achar as pessoas curiosas quando chegares. Muirrin, a minha filha mais velha, vai tomar conta de ti e ajudar-te a lidar com essas questões.
— Curiosas?
— Passou muito tempo. A partida da tua mãe e o que a levou a isso tornou-se tema de histórias; um pouco como a história da tua avó e do tempo que os meus tios passaram sob um feitiço, como criaturas selvagens. As pessoas já mal sabem se aquilo aconteceu mesmo ou se é uma lenda. As coisas são assim. A tua chegada vai levantar conjecturas. As pessoas vão falar durante algum tempo. Não sabem a verdade sobre o que aconteceu à tua mãe. Toda a situação tem de ser encarada com cuidado.
Não repliquei. Estava cada vez mais consciente da presença silenciosa do druida; da maneira como ele parecia vigiar-me, se bem que os seus olhos estivessem fixos no trilho à sua frente. Sentia-me como se me estivesse a avaliar sem dizer uma só palavra. Senti-me muito pouco à vontade.
— Vamos fazer uma breve paragem — disse Sean parando o seu cavalo numa pequena clareira. Havia ali um ribeiro com fetos crescendo junto de uma pequena lagoa e a luz vinda de cima chegava filtrada, dando aos troncos das árvores, cheios de musgo, uma misteriosa luminescência verde. Os grandes ulmeiros estavam coberto de hera. — Eu ajudo-te a descer, Fainne.
Não consegui evitar um gemido de dor quando os meus pés tocaram no chão, e o meu corpo ficou cheio de cãibras.
— Não estás habituada a andar a cavalo — observou Sean, juntando pedaços de madeira para fazer uma fogueira. — Devias ter-nos dito. — Esfreguei o traseiro dorido e baixei-me com alguma dificuldade para a manta de sela que me foi dada. Estava mesmo cansada; mas não baixaria a guarda, porque aquele homem continuava a olhar para mim com os seus insondáveis olhos cinzentos, Sean recolhera rapidamente uma pilha de ramos caídos. O fato de ser senhor de Sevenwaters parecia não o ter impedido de adquirir capacidades práticas. Os cães deixaram-se cair pesadamente, as línguas cor-de-rosa de fora das suas grandes bocas.
— A madeira está um pouco úmida — observou Sean, olhando para Conor. — Acendê-la por mim?
Olhei para o druida e ele olhou para mim, impassível.
— Por que não a acendes tu, Fainne? — perguntou ele sem ênfase. Soube naquele momento que, por mais que fizesse, nunca conseguiria mentir-lhe. Não podia alegar ignorância feminina, ou tentar uma mentira qualquer. Aquilo era um teste e só havia uma maneira de o passar. Ergui a minha mão e apontei um dedo para a pilha de pequenos ramos e galhos. O fogo brilhou, pegou e começou a arder, firme e quente.
— Obrigado — disse Sean erguendo as sobrancelhas. — O teu pai ensinou-te umas coisas, nesse caso.
— Uma ou duas — repliquei cuidadosamente, aquecendo as mãos. — Pequenos truques, nada mais.
Conor sentou-se num grande tronco, um pouco afastado do fogo. As chamas mostraram-me o seu rosto estranhamente sombrio, de uma palidez acentuada. Os olhos estavam penetrantemente fixos em mim.
— Sabes que Ciarán seguiu o caminho dos druidas durante muitos anos — observou ele. — Seguiu-o muito prometedoramente e com grande aptidão.
Acenei com a cabeça, cerrando os dentes de irritação. Ficava-lhe bem dizer aquilo: encorajara o meu pai e mentira-lhe, deixando-o acreditar que poderia tornar-se num dos sábios, quando sabia que o seu estudante era filho de uma feiticeira. Fora uma coisa bem cruel.
— Dizes que o teu pai te ensinou um ou dois truques. E ele? Como é que ele vive a vida? Ainda exerce as capacidades que tinha com abundância?
Que te interessa, pensei, furiosa. Mas respondi cautelosamente.
— Nós temos uma vida simples, solitária. Ele anda sempre em busca de conhecimento. Pratica a sua arte. Mas raramente a usa. Foi a escolha dele.
Conor ficou silencioso por um momento. Em seguida, perguntou:
— Por que é que ele te mandou para aqui?
Sean olhou para ele franzindo ligeiramente o sobrolho.
— É uma pergunta razoável. — O tom de Conor era moderado. — Porquê agora? Por que razão educou a filha para a mandar embora após... o quê... quinze, dezesseis anos?
— Talvez pense que Fainne tem melhores hipóteses de casamento, melhores perspectivas de vida, se viver aqui com a família durante algum tempo — disse Sean. — É uma questão de bom-senso. Ela tem direitos de nascimento como todos os outros filhos de Sevenwaters, porque todos... — O meu tio parou abruptamente.
— Fainne? — Conor não ia deixar que aquela pergunta ficasse sem resposta.
— Pensamos que chegara a hora. — Aquilo pareceu-me uma boa resposta. Era verdade: e não dava a entender nada.
— Assim parece — disse Conor e foi o fim da conversa. Ele não perguntou: a hora para quê?
Regressamos aos cavalos e continuamos a jornada.
— É um pouco esquisito, Fainne — disse Sean após um certo tempo. — Eu tenho de ser sincero contigo e tu podes não gostar. Revelar a identidade do teu pai aos nossos familiares, aliados e comunidade de Sevenwaters pode trazer algumas dificuldades. Seria extremamente embaraçoso nesta fase das negociações. Mas eu não quero mentir.
— Mentir? — O meu espanto era genuíno. — Por que havia de mentir?
Ele fez uma careta parecida com um sorriso.
— Porque mesmo agora, depois de todos estes anos, as pessoas ainda não sabem a verdade. Toda a verdade. Que Niamh enlouqueceu, que fugiu para o Sul e que ficou viúva. Isso sabem. Os da nossa casa sabem um pouco mais, talvez. Mas, geralmente, todos pensam que ela se retirou para um convento cristão e que morreu lá, mais tarde. A súbita aparição de uma filha tem de ser explicada, porque ninguém que conheceu a minha irmã te reconhecerá instantaneamente como filha dela.
Senti os olhos de Conor fixos em mim, perturbadores e cheios de intenção, apesar de eu não estar a olhar para ele.
— Por que não dizer a verdade? Os meus pais amavam-se. Sei que não eram casados; mas isso não é razão para vergonha. Não é como se eu fosse um rapaz que quisesse reclamar terras e ser chefe.
Sean olhou para Conor. Conor não disse nada.
— Fainne, — parecia escolher as suas palavras com cuidado — o teu pai alguma vez te explicou por que razão não era casado com a tua mãe?
Aguentei a irritação.
— Ele raramente fala dela. Sei que a sua união era proibida por laços de sangue. Sei que o meu pai abandonou a floresta e os sábios quando descobriu a verdade acerca do seu parentesco com a minha mãe. Mais tarde ele voltou a encontrá-la e foi assim que eu nasci. Mas era demasiado tarde para eles.
Seguiu-se um pequeno silêncio.
— Sim — disse Sean. — Walker trouxe-me notícias da morte de minha irmã, se bem que só tenha dito o que Ciarán lhe disse para dizer, nada mais. Foi há muito tempo. Tu mal te deves lembrar dela.
Cerrei os lábios e não respondi.
— Lamento, Fainne — disse Sean abrandando o passo do cavalo para atravessarmos um ribeiro — que não tenhas tido oportunidade de a conhecer. Apesar de todas as suas faltas, a minha irmã era uma bela rapariga, cheia de vida e beleza. Teria tido muito orgulho em ti.
— Achas? Nesse caso, por que razão nos deixou sozinhos? Por que razão escolheu aquela morte?
— A tua mãe foi casada com um chefe de guerra dos Uí Néill, um clã muito poderoso, com duas facções guerreiras. Em anos recentes apoiamos o chefe do ramo do norte na sua luta contra os Noruegueses e isso custou-nos muito, em recursos e energia. Mas Aed Finnliath triunfou. Os invasores foram expulsos das costas do Ulster e a paz foi selada com o casamento da filha de Aed Finnliath com um nobre dos Finnghaill. O nosso apoio a essa luta foi essencial, não só para a nossa própria segurança, mas também para reforçarmos os nossos laços com os Uí Néill de Tirconnell, que tinha sido posta em causa com o falhanço do casamento da tua mãe. Isso exigiu muita paciência e diplomacia, para além do afastamento das nossas forças da demanda mais querida aos nossos corações. Os Uí Néill do norte sentam-se, hoje em dia, na nossa mesa do conselho em Sevenwaters, enquanto formulamos uma estratégia para a nossa empresa. Esta vai ser a campanha mais importante das nossas vidas. A tua chegada levanta um problema. O marido que escolhemos cuidadosamente para Niamh provou ser um homem cruel e foi para lhe escapar que ela fugiu de um lugar aparentemente seguro. Esse fato não é conhecido fora da nossa família. Deixamos que as pessoas saibam que ela está viva; de uma maneira geral, toda a gente pensa que ela enlouqueceu e que se retirou para uma casa de oração. O marido dela morreu pouco depois; não houve necessidade de falar do que ele fez. Só uma mão-cheia de pessoas sabe que ela se foi juntar ao teu pai. Eu próprio; a minha irmã e o marido. Os meus tios. Mais ninguém. Mesmo a minha mulher não sabe a história toda. Que Niamh abandonou Uí Néill por outro homem e que estava grávida de um homem proibido, é melhor que fique em segredo para teu bem, assim como para o bem da nossa aliança.
— Estou a ver — disse eu firmemente.
— Lamento se isso te entristece. — O tom de Sean era amável; o que só me fazia sentir pior. — O que não impede que sejas recebida como deve ser, Fainne. Tu não és responsável pelas ações dos teus pais. Tu és filha desta casa e serás tratada como tal.
— Prefere que eu finja que não tenho pai, é isso? — Aquelas palavras saíram-me sem que eu pudesse impedi-las, antes de conseguir disfarçar a irritação na minha voz. Como se atreviam? Como se atreviam a pedir-me que renegasse o meu forte e inteligente pai, que fora tudo para mim?
— Eu sei que isso te magoa — disse Conor. — Ele era um jovem de qualidades excepcionais. Sem dúvida que se transformou num homem de quem te deves orgulhar muito honrosamente. Nós compreendemos isso. Niamh e Ciarán eram jovens. Cometeram um erro e pagaram por ele. Tu não tens de pagar mais nada.
— Isto pode ser feito sem mentiras. — Parecia que Sean tinha tomado uma decisão. — Nós só podemos dizer às pessoas a verdade que nos convém. Não há razão para Niamh não ter casado de novo depois da morte do marido. Diremos às pessoas que o teu pai era um druida de boas famílias. Diremos que Niamh deu à luz a sua filha no Sul, algum tempo depois da morte de Fionn. E tu regressas, agora, à tua casa e à proteção da tua família. Deve chegar. Pouca gente fora da floresta sabia da existência de Ciarán, quanto mais a sua identidade. Quanto aos nossos hóspedes da aliança, não daremos a conhecer a tua presença enquanto permanecerem em nossa casa. Eamonn pode ser um problema.
— É pena Liadan não estar cá — observou Conor.
— Teremos de fazer com que saiba — disse Sean. — Eu faço isso. Pareces cansada, sobrinha. Talvez seja melhor cavalgares comigo a última parte da viagem.
— Estou bem — disse eu cerrando os dentes. Era pedir demais: ir para um lugar desagradável, úmido e lúgubre, onde as árvores bloqueavam o vento vindo de oeste, renegar o meu pai, deixar que uma rapariga qualquer me dissesse o que fazer e ser o meu guarda-costas e ter cuidado para não chamar a atenção para mim própria, tudo por causa da sua preciosa aliança. Tornava-se-me rapidamente claro que teria de ouvir com atenção e aprender com rapidez se queria ter oportunidade de conseguir levar a cabo a missão de que a minha avó me encarregara. Os homens de Sevenwaters eram inteligentes e seguros de si; aqueles dois seriam oponentes formidáveis e talvez houvesse mais como eles. Quem seria Eamonn? Por que razão seria ele um problema? O meu pai nunca mencionara tal pessoa. Teria de descobrir. E, por agora, jogaria o jogo do meu tio Sean. Mas, dentro de mim, nunca esqueceria de quem era filha. Nunca.
Atravessamos uma série de ribeiros gorgolejando encosta abaixo à sombra das árvores. Depois saímos de sob um conjunto de salgueiros e à nossa frente estava uma grande extensão cintilante de água, a superfície clara e luminosa sob a luz do Sol, com pequenas ilhas e aves aquáticas: gansos, patos e cisnes brancos, perfeitos.
Paramos.
— O lago de Sevenwaters — disse Sean em voz baixa —, nossa casa é do outro lado, para leste. O caminho é fácil a partir daqui. Estás a portar-te bem, Fainne.
Respirei fundo e mudei de posição, tentando aliviar o meu traseiro dorido. Estava contente por ver água; por me ver livre da prisão infindável das árvores à minha volta. O lago era muito bonito, com os seus reflexos cor de pérola, a sua grande superfície aberta para o céu, as suas enseadas calmas e a sua vida secreta, invisível.
— Há sete ribeiros que vêm desaguar no lago — disse Conor. — É o seu sangue. Só há uma saída; o rio que corre para norte e depois para leste, para a grande água. O lago alimenta a floresta. A floresta guarda as gentes de Sevenwaters e é sua missão secreta defendê-la e protegê-la, a ela e a todos os mistérios que encerra. A seu tempo tomarás conhecimento deles.
Talvez. E talvez , pensei, venhas a saber que nem tudo é o que parece; que para alguns o rumo não leva sempre à Luz e à Ordem. Talvez venhas a aprender que a vida pode ser cruel e injusta.
— Podes deixá-lo ir, agora — disse Conor.
— O quê?
— Podes deixá-lo ir. O mocho. Repara como ele olha em volta e vira a cabeça para o céu. Está pronto para regressar.
Olhei para ele, muda, enquanto o pequeno mocho saía do meu bolso para se empoleirar, oscilando ligeiramente, no pescoço do cavalo. A ave estava agora um pouco mais estável, porque eu tomara conta dela cuidadosamente. Mas aquele cavalo não era Aoife. O cavalo estremeceu, assustou-se e eu agarrei o mocho, impedindo-o de ser atirado ao chão. Num instante, o meu tio Sean agarrava nas rédeas do animal e acalmava-o com palavras tranqüilizadoras.
— O que é isso? — perguntou ele num tom parecido com o de Darragh. Quanto a Conor, ficou silencioso. Tendo levantado o problema, deixou-mo para eu o resolver.
— Estava preso. Eu... comprei-o. Foi tudo. Ele não voa.
— Nunca tinha visto um mocho adulto tão pequeno. Deve haver uma magia qualquer nisso. — O tom de Sean era lacônico. Suponho que não devia ficar surpreendida, porque estava em Sevenwaters, um lugar onde os velhos mistérios eram mantidos em segredo.
— Ele não voa enquanto o feitiço não for desfeito — disse Conor aproximando o seu cavalo. — Posso? — O druida estendeu uma mão, passou-a gentilmente por cima da frágil criatura e esta ficou instantaneamente do seu tamanho natural: ainda pequeno, ainda um pouco desgrenhado, mas do tamanho de um mocho e suficientemente forte para voar para os bosques. Sean estava a ter alguma dificuldade para controlar o cavalo de olhos esgazeados.
— Vai — disse Conor e, obedientemente, o animal abriu as asas andrajosas e voou, sem um som sequer, sem olhar para trás; para cima, para o topo das árvores e para longe, para o abraço sombrio da floresta. Eu não disse uma palavra.
— Fizeste bem ao trazê-lo para casa. — O tom de Conor era tranqüilo.
— Eu não o trouxe — disse eu, irritada. — Ele é que não me deu outra hipótese.
— Há sempre uma hipótese — disse o druida.
Estavam todos juntos. Raparigas, aos montes: enchendo a escadaria da casa de pedra onde, por fim, terminamos a nossa viagem, raparigas mais velhas puxando as mãos do pai, falando e rindo enquanto a mãe se aproximava para me receber e raparigas mais pequenas, correndo e provocando os enormes cães.
— Chega, filhas — disse Sean com um sorriso e elas desapareceram num instante, tão obedientes quanto exuberantes. Não conseguira contá-las, eram tão rápidas. Cinco? Seis?
— Eu sou a tua tia Aisling — disse a mulher esbelta e de olhar severo que estava nos degraus da escadaria. Um véu mantinha-lhe o cabelo ruivo no seu devido lugar e o seu rosto sardento era decidido e sério.
— És bem-vinda, como o meu marido, sem dúvida, te disse. Mas estamos todos muito ocupados. Temos muitos hóspedes. Muirrin tomará conta de ti.
— Onde está Muirrin? — perguntou o meu tio enquanto nos encaminhávamos para o interior da casa. Os cavalos tinham sido rapidamente levados. Quanto a Conor, tinha-se, simplesmente, evaporado. Talvez o bando de raparigas fosse demasiado para ele.
— Nós encontramo-la — disse a minha tia em tom eficiente. — É melhor regressares ao Conselho. Eles estão à tua espera.
— O representante de Inis Eala já cá devia estar — disse o meu tio. — Talvez consigamos concluir isto, no fim de contas. — Virou-se para mim. — E agora deixo-te, sobrinha. Foi uma longa cavalgada, para uma noviça. É melhor descansares o corpo. Muirrin deve ter uma poção ou duas, que te ajudarão. Talvez nos voltemos a encontrar ao jantar.
Pareciam pensar todos que Muirrin era a resposta para tudo. Formei uma imagem dela na minha mente que era completamente diferente da rapariga que encontramos mais tarde a trabalhar num quarto muito pequeno e escuro nas traseiras da casa.
A primeira coisa em que reparei foi no tamanho dela; pequena e magra, com grandes olhos verdes e os caracóis do pai atados na nuca para lhe permitirem trabalhar.
Estava a cortar o que parecia ser uns cogumelos com uma grande faca de aspecto perigoso. Estava extremamente concentrada, prendendo a respiração. À sua volta, as prateleiras estavam cheias de vasos e garrafas; havia montes de flores secas e ervas penduradas por cima da sua cabeça e uma trança de alho engrinaldava a janela. Por trás dela abria-se uma porta para um pequeno jardim.
— Muirrin — disse a mãe com um leve toque de severidade. — Está aqui a tua prima Fainne. Esqueceste-te?
A rapariga olhou para cima sem qualquer surpresa nos grandes olhos.
— Não, mãe. Peço desculpa por não estar presente à chegada. Recebi uma mensagem da aldeia, precisam disto urgentemente. Como estás, Fainne? Eu sou a tua prima Muirrin. A mais velha de seis. Já conheces as minhas irmãs, suponho? — A rapariga lançou-me um sorriso de esguelha e eu vi-me também a sorrir.
— Eu estou muito ocupada — disse a minha tia Aisling. — Talvez...?
— Pode ir, mãe. Eu tomo conta de Fainne. As coisas dela estão aí?
Falei, algo relutantemente, em Dan Walker, nas carroças e na minha arca e quando terminei a minha tia já se tinha ido embora.
— Senta-te — disse Muirrin. — Preciso de acabar isto e entregá-lo a uma pessoa que está à espera. Depois, mostro-te a casa. Ali, junto do fogo. Queres um pouco de chá? A água está a ferver. Usa o pote da esquerda isso é uma mistura de hortelã-pimenta e tomilho, muito refrescante. As taças estão além. Arranjas-me uma?
Enquanto falava, as suas mãos continuavam a cortar firme e meticulosamente os fungos cor de bronze que se encontravam em cima da laje de pedra à sua frente.
Observei-a enquanto misturava os condimentos e os óleos, vertendo, finalmente, a mistura de odor acre para um pequeno frasco de barro que rolhou firmemente.
— Está aqui o teu chá — disse eu.
— Ah, ótimo. Vou só lavar as mãos e desculpa-me por um momento, sim? — A jovem espreitou pela porta do jardim. — Paddy? — chamou.
Apareceu um rapaz grosseiramente vestido. A jovem entregou-lhe o frasco e uma data de instruções, obrigando-o a repeti-las para que não as esquecesse.
— E diz-lhes que passo por lá mais tarde para ver o velhote. Não te esqueças.
— Sim, minha senhora.
Eu sentia-me bem por ter estado ali sentada a observá-la. Agora, enquanto se sentava e colocava a taça entre as pequenas e ágeis mãos, fiquei sem saber o que dizer. Ela era tão confiante e segura.
— Bem — aventurou-se ela. — Que grande viagem. Vais querer lavar-te, descansar e ter algum tempo só para ti. E deves estar dorida de tanto cavalgar. Eu tenho uma pomada para isso. E se conversássemos um pouco? Depois, mostro-te o teu quarto, arranjo-te algumas coisas e deixo-te sozinha durante algum tempo. Tenho de ir à aldeia; amanhã, talvez possas ir comigo. Hoje, o principal é proteger-te das minhas irmãs. Elas fazem muito barulho.
— Já reparei.
— Não estás habituada a muita gente, pois não?
Relaxei um pouco.
— Em minha casa era tudo muito calmo. Havia pescadores e no Verão apareciam os nômades. Mas nós vivíamos à parte.
Muirrin acenou com a cabeça, os olhos verdes muito sérios.
— Aqui vai ser precisamente o oposto. Especialmente agora. A casa está cheia de gente por causa do Conselho. E não gostam uns dos outros. Os jantares, às vezes, são interessantes. Vais ter de descobrir quem é quem, aprender alguns nomes. Eu ajudo-te. Mas não já. As primeiras coisas primeiro.
— Obrigada. Disseste seis irmãs?
Muirrin fez uma careta.
— É verdade; eu e mais cinco, sem um único irmão. — Ainda bem que a minha tia teve rapazes, senão Sevenwaters não teria herdeiro.
— A tua tia? Deve ser...?
— A nossa tia Liadan. Irmã gêmea do meu pai. Ele teve filhas. Ela teve filhos. O túath vai passar de tio para sobrinho como várias vezes antes. O meu pai não se importa.
— Quais são os nomes das tuas irmãs?
— Queres mesmo saber? Deirdre, Clodagh, Maeve, Sibeal e Eilis. Vais aprendê-los rapidamente. Elas vão repetir-tos vezes sem conta até os fixares.
Fiz uma visita relâmpago à casa, que era mais confortável por dentro do que o seu aspecto exterior fortificado dava a entender. Muirrin manteve-me afastada da sala do conselho, cujas portas estavam fechadas. A cozinha fervilhava de atividade; aves a serem depenadas, pastéis a serem confeccionados, um grande pote de ferro a ferver sobre o fogo. Íamos prosseguir quando uma voz peremptória, vinda de junto da lareira, nos deteve.
— Muirrin! Traz aqui a rapariga, miúda!
Pertencia a uma mulher muito velha sentada num banco junto da lareira. Não era nenhuma velha desgrenhada, antes uma criatura seca, ereta, com o cabelo escuro apertado atrás, na base do pescoço, num grande nó e um xale franjado em redor dos ombros ossudos. A sua pele era enrugada, mas os olhos eram muito vivos. A mim, parecia-me que ninguém se atreveria, ali na cozinha, a pôr o pé em ramo verde enquanto ela ali estivesse.
— Bem, não pode ser Niamh — disse ela quando nos aproximamos. — Portanto, deve ser a filha de Niamh, porque é igualzinha a ela. Ora aqui está uma coisa que eu nunca pensei ver.
— Esta é a Janis — disse Muirrin, como se isso quisesse dizer alguma coisa. — Ela está em Sevenwaters desde sempre. — A jovem virou-se para a velha mulher. — Fainne acaba de chegar de Kerry, Janis. Ia agora mesmo levá-la para o quarto dela para descansar.
Os olhos escuros semicerraram-se.
— Kerry, ha? Então, já sei de quem é a carroça em que vieste. Onde está Dan? Por que é que ele não me veio ver? Onde está Darragh?
Portanto, aquela era a tia muito falada.
— Dan está a caminho — disse eu — e Peg também. Mas Darragh não veio.
— O quê? Por que é que o rapaz não veio? Parou para ver uns cavalos, não? Vai comprar algum?
— Não — disse eu. — Não veio, mais nada. Deixou a vida errante e instalou-se numa herdade a oeste. A treinar cavalos. Uma grande oportunidade. Pelo menos é o que dizem.
— E o que é que tu dizes?
— Eu? Não tenho nada a ver com isso. — Ela não pareceu convencida.
— A treinar cavalos, ha? Isso não o afastava da estrada por muito tempo. Deve haver uma rapariga metida no caso. Que outra coisa havia de ser?
— Não há rapariga nenhuma — disse eu severamente. — É apenas uma grande oportunidade. Ele fez uma escolha acertada.
— Achas? — disse a anciã olhando para mim fixamente com os seus olhos escuros. — Nesse caso, não conheces o meu Darragh muito bem. Ele é um viajante e um viajante nunca assenta. Pode tentar; mas, mais tarde ou mais cedo, a estrada volta a chamar e lá vai ele. São diferentes das mulheres. As mulheres podem ter saudades da estrada, mas adaptam-se por amor a um homem, ou a uma criança. Bem, vai-te lá embora. Muirrin, trata de lhe dar o quarto da mãe dela. Põe as miúdas na parte norte. E não te esqueças de arejar bem a cama.
A mulher falava como se fosse a dona da casa e Muirrin uma criada. Mas Muirrin sorriu e quando, depois de subirmos as escadas, entramos num quarto muito limpo cuja janela estreita dava para a orla da floresta, a primeira coisa que ela fez foi acender a lareira e verificar o colchão de palha e os cobertores de lã. E eu decidi que precisava de mudar de opinião acerca da vida numa casa como a de Sevenwaters.
Não desejava nada estar agradecida a Muirrin. Não me queria tornar amiga dela. Não me podia dar ao luxo de ser amiga fosse de quem fosse se queria levar a cabo a vontade da minha avó. Mas fui forçada a admitir que a minha prima era muito sensata. O que eu mais desejava era ficar só. A necessidade de conhecer tanta gente nova, sorrir, ser educada, fora demais para mim. Muirrin limitou-se a verificar que eu tinha tudo aquilo de que necessitava e deixou-me com a promessa de regressar mais tarde. O quarto, agora, era só meu apesar das duas camas. Deirdre e Clodagh não se importavam nada de mudar, dissera-me ela com um sorriso.
Mais tarde ouvi um toque delicado na porta e um homem entrou com a minha pequena arca. Senti uma certa estranheza ao desfazer a bagagem no quarto que pertencera à minha mãe. Talvez ela o tivesse partilhado com a irmã, a tia Liadan de quem todos falavam. Eu tinha poucos haveres. Tirei um dos bons vestidos e coloquei-o em cima da cama para mais tarde. Tirei uma Riona amarrotada e de olhar de viés e sentei-a no parapeito da janela, a olhar para a floresta. Não me parecia que houvesse uma razão, naquela casa, para a esconder. Era uma casa de raparigas; provavelmente, havia imensas bonecas. De fato, Riona parecia até mais em casa do que eu. Eu não conseguia descansar apesar das minhas dores de pernas. A minha mente estava muito ocupada tentando tirar de tudo aquilo algum sentido. A magnitude da tarefa à minha frente exigia que eu não perdesse tempo. Tinha de descobrir o máximo que pudesse e arquitetar, depois, um plano. Não podia ficar sem fazer nada. A minha avó estaria a ver-me. Fora uma louca em duvidar. Era um dos ramos da arte para o qual eu tinha pouca aptidão, que me deixava frustrada e iludida. Mas ela, com o seu espelho sombrio e a sua tigela de água, tinha a habilidade para procurar e os olhos para ver. Quando me encontrasse, não haveria lugar algum onde me pudesse esconder.
Levou tempo. E coragem. Havia demasiada gente e demasiado barulho e, à parte Muirrin, ninguém parecia perceber que eu odiava tudo isso. Fazia-me doer o estômago e a cabeça e os meus dedos desejarem fazer uma velhacaria qualquer. Mas não me servi da arte. Em vez disso, observei e aprendi e em breve, com a aplicação que era para mim uma segunda natureza depois de anos de tutela do meu pai, aprendia as complexidades da família e dos seus aliados.
Havia as pessoas da casa, a fortaleza de Sevenwaters, que era o centro do vasto túath do meu tio Sean. A ele, conseguia tolerar. Por vezes parecia um pouco distante, mas quando falava comigo era em termos de igualdade e levava o seu tempo a explicar-me as coisas. Nunca o vi ser injusto para nenhum dos membros da casa. Tive de recordar a mim própria que fora ele, entre outros, que banira a minha mãe. Não me parecia que o meu tio Sean fosse perigoso, exceto, talvez, no campo de batalha, ou num debate de estratégia. Depois, havia a minha tia Aisling. Só de olhar para ela, cansava-me. Estava perpetuamente ocupada, supervisionando todos os aspectos da casa com uma energia incrível, que lhe consumia os dias. Como resultado, o local funcionava com a mesma eficiência. Perguntei a mim própria se ela seria feliz.
Perguntei a mim própria por que razão teria ela tido tantas filhas quando mal tinha tempo para lhes desejar os bons dias antes de ir tratar de um qualquer assunto urgente.
Aquela fortaleza fora, em tempos, a única grande residência da floresta de Sevenwaters. Mas agora havia outras, construídas pelo meu tio e alugadas aos seus clientes livres, cujos bandos de homens de armas podia chamar em caso de necessidade. Assim, o túath era menos vulnerável, com poderosos postos avançados servindo de advertência no caso de vizinhos poderosos pensarem em estender demasiado os braços. Esses clientes livres faziam parte do Conselho, assim como os chefes dos Uí Néill, ricamente vestidos com as suas túnicas brasonadas com o símbolo escarlate da serpente enrolada. Na fortaleza de Sevenwaters havia um brilhem, um escriba e um poeta. Havia um mestre-de-armas, um fletcherm e vários ferreiros. Mas eram os outros, os que não se viam, que me intrigavam.
A minha tia Liadan era irmã da minha mãe e gêmea de Sean. O meu pai dissera-me que ela vivia em Harrowfield. Não me apercebera de como era longe dali.
Estranhamente, ela vivia na Bretanha, entre os inimigos de Sevenwaters, porque o seu marido era agora o senhor de um domínio em Northumbria, que pertencera, em tempos, ao seu pai. Quando não estavam lá estavam em Inis Eala, um remoto lugar no norte, tão distante que quase ninguém o conhecia. Mas quando o meu tio Sean falava da irmã era como se ela vivesse ali a um passo, no outro lado dos campos.
Conor falava dela como de um velho e respeitado amigo. Tentei lembrar-me do que a minha avó me dissera. Ela dissera algo acerca de ter desejado que Ciarán tivesse escolhido a outra irmã, porque os seus filhos teriam sido mais inteligentes, ou mais capazes. Não fora uma observação muito diplomata. Mas a minha avó era assim.
Liadan e o marido tinham filhos. Comecei a saber coisas deles pouco depois da minha chegada. Apesar dos meus esforços para ficar no meu quarto sozinha por algum tempo, para dar um certo descanso ao Encantamento, ou para repetir em paz os encantamentos secretos da arte, não conseguia evitar o afluxo regular de algumas visitantes curiosas. Como Muirrin previra, aprendi rapidamente a distingui-las apesar dos cabelos ruivos muito semelhantes e dos vivos rostos sardentos. Sibeal era a exceção; escura, como a irmã mais velha e muito calma. E tinha uns olhos muito estranhos, claros, sem cor, que pareciam olhar para lá das coisas. Eilis era muito pequena e muito traiçoeira. Tinha que a vigiar o tempo todo. Maeve era a do meio e tinha um cão que a seguia para toda a parte como um escravo fiel. E Deirdre e Clodagh eram gêmeas. Quando crescessem mais um pouco seriam como mais duas tias Aisling, percorrendo a casa apressadamente para verem se estava tudo em ordem. Comecei rapidamente a compreender por que razão Muirrin passava a maior parte do seu tempo na sua ervanária, ou na aldeia cuidando dos doentes.
Naquele dia tinha as gêmeas no meu quarto, cada uma sentada num banco, e também Maeve, com o cão. Este, pelo menos, estava quieto, se bem que o seu enorme corpo impedisse o calor do fogo de chegar até nós.
— Esta é a tua boneca? Posso pegar nela? — perguntara Maeve imediatamente após entrar e pegando em Riona antes de eu poder responder. Podiam acontecer coisas ruins a raparigas que me aborreciam. Podiam picar os dedos numa agulha escondida. Podiam descobrir que os seus cães já não gostavam delas. Ou podiam descobrir que esse mesmo cão desaparecera subitamente, deixando no seu lugar uma formiga, ou uma barata. Com alguma dificuldade, controlei-me.
— Foi a tua mãe que a fez? — perguntou Clodagh. Deirdre olhou para ela.
— Foi disse eu.
— Como é que ela se chama? — perguntou Maeve inspecionando a saia cor-de-rosa de Riona e metendo o nariz no colar estranhamente entrançado.
— Riona.
— Muirrin, uma vez, fez-me uma boneca. Mas não era tão bonita como esta. Posso brincar com ela?
— Ela não é para brincar — disse eu, aproximando-me e tirando Riona dos braços da criança. Voltei a colocá-la cuidadosamente no lugar que lhe pertencia, a olhar para fora da janela, para a orla da floresta.
— Bebê — disse Deirdre, fazendo uma careta para Maeve.
— Eu não sou nenhum bebê! Eilis é que é um bebê. Coll é um bebê. Eu tenho dez anos. Já sou crescida.
Deirdre ergueu as sobrancelhas e sorriu. Maeve desatou a chorar.
— Sou, sou e sou! Não sou, Fainne?
Mas também podiam acontecer coisas às raparigas que faziam chorar as irmãs por dá cá aquela palha. Os meus dedos estavam cheios de comichão; já tinha passado algum tempo. Fiz um esforço. Tinha de guardar a arte para os meus propósitos.
— Podes brincar com Riona, se quiseres — disse eu magnanimamente.
— Agora já não me apetece — disse Maeve fazendo beicinho, mas pegou novamente em Riona e sentou-se aos soluços com a boneca nos braços.
— Toma — disse eu estendendo-lhe a minha escova de cabelo. — Ela precisa de ser penteada. — Virei-me para as outras. — Quem é o Coll? perguntei.
— É o nosso primo. — Clodagh gostava de explicar as coisas; gostava de partilhar os seus conhecimentos. — O que faz com que também seja teu primo, suponho.
— Filho da tia Liadan?
— Um dos. Ela tem montes deles.
— Quatro, na verdade — disse Deirdre. Coll é o mais novo.
— Além dele há o Cormack, que tem catorze anos e pensa que é um guerreiro. Depois, há o Fintan, mas a esse não o vemos muito, está em Harrowfield. E depois há o Johnny. — Aquele nome foi pronunciado de um modo especial, como se se estivesse a referir a um deus.
— Eu vou casar com Johnny quando tiver idade suficiente — disse Deirdre com grande segurança.
A sua irmã gêmea olhou para ela de esguelha.
— Não vais, não — disse Clodagh.
— Vou sim! — Deirdre parecia que ia explodir.
— Não vais não — repetiu a irmã gêmea com firmeza. — Tu não te podes casar com um primo direito, ou com um sobrinho, ou com um tio. A Janis é que me disse.
— Por que não? — perguntou Deirdre.
— Porque os teus filhos serão amaldiçoados. Nascerão com três olhos, ou com ouvidos como os de uma lebre, ou com pés defeituosos, ou coisa parecida. Toda a gente sabe isso.
— O que é que se passa, Fainne? — perguntou Maeve subitamente, olhando para mim.
— Ficaste branca como a cal.
— Não é nada — disse eu tão animadamente quanto pude, se bem que as palavras de Clodagh me tivessem gelado o coração. — Diz-me uma coisa. Esses rapazes, esses primos. Eles vivem muito longe, não vivem? No entanto, vocês parecem conhecê-los muito bem.
— Às vezes estamos com eles. Com Fintan não; ele é o herdeiro de Harrowfield e a tia Liadan diz que ele é igual ao avô, preferindo ficar na herdade a arar a terra e a falar dela a viajar até ao Ulster. E Cormack passa a maior parte do tempo em Inis Eala.
— Mas a tia Liadan traz o Coll com ela quando vem de visita. Ele e Eilis são terríveis.
— Nada está a salvo quando eles estão juntos.
— E o outro? Johnny, não é esse o nome?
— Johnny é diferente. — A voz de Clodagh adoçara-se. — Ele vem cá muitas vezes para aprender coisas sobre Sevenwaters, os nomes das pessoas, como dirigem as herdades, sobre as alianças, as defesas e as campanhas.
— Johnny é um grande cavaleiro — acrescentou Maeve.
— Que é que esperavas? — disse Clodagh, trocista. — Basta ver a maneira como ele cresceu, no meio dos melhores guerreiros de todo o Ulster. É um verdadeiro guerreiro e um grande chefe, apesar de ainda ser novo.
— Portanto, é uma espécie de terrível homem selvagem? — perguntei.
— Não. — Maeve olhou para mim de sobrancelhas erguidas. — É uma jóia.
— Tão jóia — acrescentou Clodagh, sorrindo — que me espanta como ainda não se casou.
— Um dia destes aparece aí com uma bela noiva de boas famílias.
— Não sabes do que estás a falar — resmungou Deirdre.
— Sei sim — retorquiu Clodagh.
— Não sabes!
— É verdade o que dizem — arrisquei — que esse Johnny é o filho da velha profecia? Sabem alguma coisa acerca disso?
— Toda a gente sabe dessa história — disse Maeve, desdenhosa, enquanto
transformava o cabelo amarelo de Riona numa coroa complicada.
— Bem, é verdade? — As gêmeas viraram para mim os seus pequenos rostos.
— É, pois — disseram elas em coro e Deirdre suspirou.
Achei que não devia fazer mais perguntas sem parecer demasiado curiosa. Mantive-me calada e após um certo tempo elas aborreceram-se e foram incomodar outra pessoa qualquer.
Portanto, havia o tio Sean com as suas raparigas e a tia Liadan com os seus rapazes.
Um avô muito querido morrera recentemente e fora sepultado sob os carvalhos. E havia Conor. Os druidas viviam no segredo da floresta, como era hábito dos sábios.
Mas Conor fazia parte do Conselho e, portanto, ficaria em Sevenwaters enquanto as discussões prosseguissem para lá das portas fechadas. Na verdade, ele era o membro mais velho da família e era muito respeitado. E havia outro tio, irmão da tia Aislling.
A esse conheci-o logo no primeiro dia, por acaso, quando descia as escadas com Muirrin para ir jantar. Não me teria interessado por aquele homem de meia-idade bem constituído, ricamente vestido, de feições agradáveis e cabelos castanhos, se não tivesse ficado rígido quando me viu, e branco como a cal.
— Tio Eamonn — disse Muirrin como se fosse a coisa mais natural deste mundo — esta é a minha prima Fainne. Filha de Niamh. De Kerry.
Uma declaração bem ensaiada, que dizia o suficiente e não deixava lugar a perguntas embaraçosas.
O homem abriu a boca e fechou-a logo a seguir. As expressões seguiram-se umas às outras no seu rosto: de choque; de raiva; de ofensa; e, com um visível esforço, de boas-vindas.
— Como estás, Fainne? Estou certo que Muirrin te está a ajudar a instalares-te. Esta visita é... inesperada?
— O meu pai foi buscar Fainne esta manhã — disse Muirrin suavemente. — Ela vai ficar cá por uns tempos.
— Estou a ver. — Por trás das feições agora sob controlo podia ver que a sua mente trabalhava a toda a velocidade, como que juntando as peças de um quebra-cabeças.
Não gostei nada daquilo.
— Agora temos que ir. Vemos-nos ao jantar, tio Eamonn.
— Espero que sim, Muirrin.
E foi tudo; mas apanhei muitas vezes aquele homem a olhar para mim, à mesa, quando os outros estavam embrenhados nalguma conversa, ou do outro lado do salão quando as pessoas se reuniam à noite, ou no jardim, a passear. Era um homem influente, podia ver isso pela maneira como os outros homens da aliança lhe falavam. Muirrin disse-me que ele era senhor de um grande domínio, na verdade de dois, que limitavam a leste e a norte com Sevenwaters. Adquirira Glencarnagh assim como Sídhe Dubh, o que queria dizer que controlava mais homens e terras do que Sean. Ao mesmo tempo, era da família e, portanto, não representava uma ameaça.
Mas olhava muito para mim, até que eu me aborreci e comecei também a olhar para ele. Não tenho dúvidas do que a minha avó diria acerca daquele homem. Diria o poder é tudo, Fainne.
O tempo passou e Dan Walker foi-se embora. Mal os vi, porque fui apanhada, bem contra a minha vontade, na rotina diária da família e quando não era precisa escapava-me para o meu quarto, ou para o jardim em busca de um certo tempo precioso para mim própria. Tornou-se, então, claro para mim por que razão os druidas preferiam viver isolados, emergindo apenas por ocasião de grandes festivais, para celebrar casamentos ou abençoar as colheitas. Manter a sabedoria, a força interior e a concentração requeria silêncio e solidão, tanto para eles, como para nós. Para um druida era preciso, também, a companhia das árvores, porque as árvores eram símbolos poderosos na aprendizagem dos sábios. Numa paisagem praticamente sem árvores, eu aprendera os seus nomes e formas antes de fazer cinco anos. Sean pusera em causa a sabedoria do meu pai por ele ter escolhido viver em Kerry, um lugar tão remoto, tão longe de Sevenwaters. Para mim, tornou-se claro que o meu pai sabia exatamente o que estava a fazer. Talvez, ao princípio, ele tivesse partido para proteger a minha mãe. Mas eu recordei todos aqueles anos de estudo, de silenciosa meditação, de privações auto-impostas e soube que, se não tivéssemos vivido no Favo de Mel, quase completamente rodeados pelo mar selvagem, quase permanentemente sob um céu coberto de nuvens e vigiados pelas formas secretas das pedras, nunca teria sido o que era. Ele limitara-se a passar-me o que sabia, proporcionando à sua única filha uma espécie de profissão, para que ela pudesse percorrer o seu próprio caminho no mundo. A ironia era que ele forjara uma arma digna de um verdadeiro mestre: a arma da sua mãe. Talvez nunca tenha escapado ao legado que ela lhe deixou, porque, na sua mente, não fizera ele exatamente como ela desejara?
A despeito das minhas saudades de casa, fui-me gradualmente acostumando ao padrão de vida de Sevenwaters e cada vez se me tornou mais difícil recordar por que razão estava ali. A recordação das ameaças da minha avó parecia-me quase uma fantasia. As distrações eram muitas. Por vezes, olhava para a animada cena doméstica à minha volta, pensava na magnitude da tarefa de que fora incumbida e dizia para mim mesma: Isto não pode ser verdade. Estas coisas não podem existir ao mesmo tempo neste mundo. Talvez eu esteja a sonhar. Deixem-me sonhar.
A minha tia Aisling, ocupada como sempre, não fazia tenção de me deixar desaparecer sempre que me apetecia. Tinha de ajudar Muirrin no seu trabalho de enfermeira; tinha de ajudar Deirdre e Clodagh nas suas lições de leitura e escrita, já que parecia que eu era capaz de ambas as coisas e a educação das raparigas fora algo negligenciada nos tempos recentes, visto que toda a gente andava muito ocupada. E devia supervisionar as mais novas na costura, já que também era hábil nisso. Devia aprender a montar a cavalo como devia ser, porque nunca se sabia se era preciso partir à pressa. E precisava de roupas novas. Perguntava a mim própria o que pensaria a minha tia Aisling que me aconteceria se não fosse ela a organizar-me todos os minutos do dia.
Muirrin ajudava. Muitas vezes, quando eu era despachada para a ajudar na ervanária, ou ir com ela numa qualquer missão de misericórdia, olhava para mim com aqueles grandes olhos verdes e dizia-me para me sentar no jardim e conseguir um pouco de paz e sossego, enquanto ela prosseguia com o seu trabalho. Então, trabalhava nas suas misturas e fusões, secagens e preservações, por vezes sozinha e outras vezes assistida pela pequena Sibeal, uma criança silenciosa e diligente. E eu sentava-me no banco de pedra no jardim de ervas, envolta no meu xale de todos os dias, porque arrumara o presente de Darragh no fundo da minha arca de madeira, a salvo dos olhares indiscretos e das pequenas mãos ansiosas. Ficava ali sozinha ao frio do fim do Outono e dizia para mim própria a litania. Quase conseguia ouvir a voz do meu pai.
De onde vens?
Do Caldeirão do Desconhecimento.
E assim por diante ao longo do dia, ao longo da estação, ao longo do grande ciclo do ano, uma litania tão velha como o padrão de todas as existências. E por vezes, enquanto deixava que o recital familiar fosse desfiando, pensava noutras coisas durante algum tempo, quase sem consciência do que estava a fazer. Talvez houvesse uma mudança subtil na maneira como o musgo crescia nas pedras. Talvez houvesse mais abelhas em volta das últimas flores da lavanda e talvez menos pássaros empoleirados nos ramos nus do lilás. As pedrinhas no chão tomavam o formato de símbolos antigos. Freixos; vidoeiros; carvalhos; zaragatoas. Nada de extraordinário.
Apenas para me exercitar, por assim dizer.
A minha vida diária era um grande esforço, mesmo depois de se me tornar familiar.
Era exaustiva. Sabia que nunca me habituaria às pessoas, à companhia, à necessidade de dizer coisas óbvias, de ouvir outras entediantes e à necessidade de participar. Se somos criados na solidão e no silêncio, nunca perdemos o hábito. Por vezes, sentia-me tentada a fazer uma pequena trouxa e ir-me embora, com ou sem floresta, com ou sem avó. Mas tal aventura estava voltada ao fracasso. O sítio estava cheio de homens armados e as raparigas estavam proibidas de ir além de um determinado ponto sem escolta. Em tempos como aqueles, disse-me Clodagh muito séria, todo o cuidado era pouco.
O Conselho chegou ao fim. Eu tentara ver quem era o representante de Inis Eala, porque queria saber mais acerca da minha tia Liadan, do marido e do fabuloso Johnny. Mas não vi caras novas ao jantar, nem vi cavaleiros no pátio no dia em que o meu tio Sean falou dela. No fim, acabei por perguntar a Muirrin.
— Os de Inis Eala não estão representados no Conselho? — Tentei parecer casual. — E Harrowfield? Se Johnny é o herdeiro de Sevenwaters, por que não está ele presente, ou o seu pai? Não tomam parte no empreendimento, seja ele qual for?
Muirrin olhou para mim enquanto punha um pequeno pote no fogo.
— Harrowfield não tem nada a ver com isto — disse ela. — Esse domínio sempre esteve fora do feudo; mantém-se à parte de Northwoods, que é o nosso verdadeiro inimigo, se bem que tenham ambos a mesma fronteira. Isso não mudou depois de Liadan e o Chefe terem tomado conta da propriedade. Por essa razão, o Chefe nunca vem a Sevenwaters. Para ele, a tarefa não é fácil, porque continua a ter interesses nos negócios de Inis Eala. E Inis Eala está representada no Conselho. Esta aventura não se pode fazer sem eles.
— O Chefe? — perguntei.
— O marido da tia Liadan. Toda a gente lhe chama assim. O seu verdadeiro nome é Bran, o Corvo.
— Quem é que veio de Inis Eala para o Conselho? — perguntei. Não vi ninguém chegar.
Desta vez, Muirrin franziu ligeiramente o sobrolho.
— Por que é que estás tão interessada? — perguntou.
— Estou apenas a tentar saber coisas da família. Johnny parece ser muito importante. E a tia Liadan era irmã da minha mãe.
— Sim, é uma pena ela não estar aqui para te conhecer — disse Muirrin, provando um pouco da sua mistura e fazendo uma careta. — Ora bolas, creio que preciso de mel. És capaz de mo ir buscar, Fainne? Não admira que não tenhas conseguido ver o homem que eles mandaram. Os homens do Chefe são mestres no disfarce. — Ela viu a minha expressão e riu-se. — Oh, não há qualquer magia, asseguro-te. É a sua imagem de marca, entram e saem sem serem vistos, adotam os disfarces de que precisam e assim nunca ninguém se lembra deles. É por isso que o Chefe nunca vem em pessoa. Nunca mais te esquecerias dele. Um homem veio e foi-se embora. Mais nada.
— Por que razão nunca mais me esqueceria do... do Chefe?
— Saberás se algum dia o conheceres. Mas ele não vem a um Conselho deste gênero. Como já te disse, tem que manter uma certa neutralidade. Além disso, tem demasiados inimigos e, mesmo hoje, não tem a confiança total de todos os aliados do meu pai.
— A sério? Nesse caso, por que é que os homens dele e de Inis Eala, estão envolvidos? Isso não é arriscado para ele?
— Por causa de Johnny. — Ela não pronunciou aquele nome no mesmo tom que as irmãs. Mas ficou profundamente séria. — Johnny é um símbolo. O filho do corvo. É ele o líder da aventura e não a pode conduzir sem o apoio do pai. Além disso, as capacidades únicas do Chefe e as forças especiais de Johnny são a parte essencial da campanha. Sem eles, esta não pode ser levada a cabo. Pelo menos, é o que o meu pai diz.
— E onde é que entra o teu tio Eamonn, nisto tudo?
— Ele tem a maior e mais bem equipada força de guerreiros de todo o Ulster — disse Muirrin com desenvoltura. — Segura aqui enquanto eu torço. Obrigada. Tem que fazer parte. Todos têm. O trabalho do meu pai é mantê-los afastados das gargantas uns dos outros o tempo suficiente para que a coisa funcione. Um pouco como ser a irmã mais velha, acho eu.
Eu tinha a cabeça cheia de perguntas, mas senti que não lhe podia perguntar mais nada sem levantar suspeitas. Em vez disso, observava e escutava, porque o meu pai treinara-me para resolver quebra-cabeças. O homem chamado Eamonn era um livro fechado; difícil, reservado. Sentava-se à mesa do jantar junto da minha tia Aisling e ficava calado, quase anormal. Poder-se-ia pensar que a sua falta de contribuição para a conversação era causada por uma certa indulgência provocada pela boa cerveja, porque ficava sentado a beber permanentemente durante a noite inteira, olhando para o espaço e comendo pouco. Mas os olhos denunciavam-no. Eu era capaz de jurar que ele ouvia tudo, armazenando o que lhe poderia ser útil, um dia. E continuava a apanhá-lo a olhar para mim, vezes sem conta, como se eu fosse a peça final do seu quebra-cabeças e ainda não tivesse decidido onde me colocar. Eu olhava para ele por baixo das minhas pestanas. O seu olhar permanecia constante. É ele, pensei. É ele o alvo, como me diria a minha avó. Encontra um homem influente, Fainne. Uma mulher é capaz de fazer maravilhas com um homem assim. Aquela idéia aterrorizou-me. Fez-me doer o estômago e fiquei com pele-de-galinha.
Um a um, os membros da aliança fizeram as suas despedidas e deixaram Sevenwaters sob escoltas armadas. Para sua própria proteção, era-lhes explicado, enquanto os homens de Sean, com os seus trajes da floresta partiam com os visitantes.
Como era possível trabalhar lado-a-lado, planear uma grande campanha, perguntei a Muirrin, se havia tanta falta de confiança? Não seria possível um aliado mergulhar uma faca nas costas de outro?
— Oh, não é só isso — disse Muirrin desenvoltamente. — É a floresta. A floresta conhece os seus. Os outros não podem ir e vir em segurança. Os caminhos mudam. As raízes crescem sobre os trilhos. As vozes desnorteiam as pessoas e as brumas espalham-se.
Ela disse aquilo como se fosse a coisa mais natural deste mundo e eu senti um arrepio na nuca.
— Vozes? — perguntei.
— Nem toda a gente as ouve — disse-me ela. — Mas a floresta é muito antiga. Foi confiada à nossa família nos tempos antigos, nós somos os seus guardiões. Não somos, nem de longe, os seus únicos habitantes.
Acenei com a cabeça.
— Ouvi falar na história — disse eu cautelosamente. — Um dos vossos, nossos antepassados não casou com uma mulher dos Fomhóire?
— É o que dizem. E com ela veio o segredo das Ilhas. Ambas as coisas estão ligadas: as ilhas, a floresta e a confiança dos Fair Folk em nós, há muito tempo. Se uma delas falha, tudo cai. Já deves saber disso.
— Um pouco. E gostava de saber mais.
— É melhor perguntares a Conor. Ele conta a história melhor do que ninguém.
Mas eu evitava Conor. Ele continuava em Sevenwaters, mas não fizera qualquer esforço para estar comigo. Em vez disso, passava muito tempo a conferenciar com Sean, ou a falar com Muirrin, ou sentado silenciosamente no jardim, olhando para a floresta. Eu tinha a impressão de que ele estava à espera.
A minha mente estava noutras coisas. O meu tio Sean decretara que eu tinha de aprender a montar como deve ser, já que poderia ser preciso partir a qualquer momento. Era uma experiência humilhante. Os cavalos não confiavam em mim. E toda a gente sabia montar, até Eilis, que tinha apenas cinco anos. Era muito fácil para ela, pensei eu, irritada, vendo-a galopar em redor do pátio no seu pequeno pônei preto. Crescera naquilo. Quase me senti tentada a fazer com que o pônei se assustasse e a atirasse ao chão. Há muito tempo, num outro mundo, Darragh oferecera-se para me ensinar e eu recusara. Agora, estava amargamente arrependida.
Aoife não teria tremido e não se teria afastado de mim. Darragh teria sido paciente.
Talvez dissesse alguma piada, mas nunca se riria de mim como Eilis. Não que os rapazes da estrebaria não quisessem ajudar, mas isso tinha mais a ver com a maneira como eu sorria do que com a sua amabilidade natural. Desde a minha chegada a Sevenwaters que não aparecia às pessoas sem vestir o traje mágico de beleza e doçura que o Encantamento permitia. Não admirava que as pessoas dissessem que eu era parecida com a minha mãe. Sem o disfarce do Encantamento ficaria paralisada pela minha própria timidez. Mas ali, no picadeiro, sentia-me tentada a tirá-lo e a mostrar-lhes o tipo de criatura tímida e simples que era na realidade. Podia ter usado um truque ou dois para os colocar nos seus devidos lugares. Mas resisti à tentação e continuei. Ao fim da manhã estava cansada, sentia-me frustrada e os meus professores coçavam as cabeças, desanimados.
— Os cavalos parecem que não gostam de ti — observou um dos rapazes da estrebaria. — Nunca vi nada parecido. — A seu lado, o cavalo que eu tinha estado a montar rolava os olhos e tremia.
— Não te preocupes — disse eu. — Obrigada pelo tempo que perdeste.
— Foi uma honra, minha senhora — disse o rapaz, corando furiosamente. E eu escapei-me.
Era suposto levar Eilis e Maeve para se lavarem e começar uma lição de costura.
Mas, subitamente, senti que era demasiado e deslizei para a parte de trás dos estábulos, desesperada por uns momentos de solidão. Havia um lugar onde me podia sentar em paz, uma porta com três degraus. Era apenas de uma pequena pausa, sem companhia, que eu precisava.
Mas tive companhia. Eamonn estava sentado nos degraus, vestido para montar, as pernas calçadas com botas estendidas à sua frente, os braços cruzados, os olhos fixos na distância e a expressão sombria, como se estivesse submerso em pensamentos profundos. Usava uma túnica verde-escura por cima da roupa de montar.
— Oh — disse eu apanhada de surpresa. — Oh... peço desculpa...
Ele levantou-se.
— Fainne, creio que ocupei o teu local de refúgio. Em todo o caso, tenho de ir. Regresso a casa hoje. Tenho muitos assuntos à minha espera.
Gelada de timidez apesar do Encantamento, não encontrei o que dizer, ou o que fazer. Automaticamente, falei com a voz doce e sem fôlego que a minha avó me teria recomendado para uma situação como aquela e mexi-me como ela me ensinara, porque não sabia o que havia de fazer.
— Por favor... fique, se assim o deseja. Não era minha intenção perturbá-lo. Tem razão, este é um bom lugar para onde fugir quando as coisas... quando as coisas se tornam complicadas. Mas... não me importo de o partilhar. Também gosta de paz e sossego? Uma pausa na confusão dos negócios? Parece ser um homem muito ocupado.
Aproximei-me hesitantemente e senti-me corar delicadamente, sem recorrer à arte.
— Por favor — disse ele. — Senta-te. Estiveste a andar a cavalo, não estiveste? Deves estar cansada.
— Estou um pouco cansada — disse eu com um sorriso de desventura e sentei-me graciosamente no degrau de cima. Ele ficou em pé com a expressão fechada, como sempre.
— Nunca aprendeste a montar? Isso é pouco vulgar numa rapariga da tua idade — observou Eamonn.
— Eu sei — disse eu com a maior das honestidades. — E não quero aprender, mas o tio Sean diz que eu devo. Preferia passar o tempo a fazer outras coisas.
— Outras coisas?
Ele parecia querer conversar comigo. Talvez os conselhos da minha avó sobre como lidar com homens fossem melhores do que eu pensava. Não sabia bem qual era a resposta que ele esperava. Tentei adivinhar.
— Coser, ler, estudar. Não estou acostumada a tanta gente.
Ele acenou com a cabeça em sinal de assentimento. Parecia-me que o tinha julgado bem.
— Não cresceste, então, numa família como a da minha irmã? Cresceste apenas com o teu pai?
Era um erro subestimar um homem daqueles. Senti-me corar ainda mais e baixei os olhos.
— De... desculpe-me, isto entristece-me. Terá de perguntar ao meu tio Sean. Custa-me muito falar disto.
Eamonn acocorou-se a meu lado, visivelmente preocupado. Não me passou despercebida a expressão inquiridora nos seus olhos.
— Lamento — disse ele. — Perturbei-te. Não era minha intenção...
— Não faz mal. — A minha voz tremeu um pouco. — Eu... eu não me importo de falar destas coisas. Levei uma existência muito protegida até vir para aqui. Uma vida calma, de contemplação.
— Acreditei, durante muito tempo, que a tua mãe se tinha afogado nas minhas terras por negligência minha — disse Eamonn. — Mais tarde soube que tinha sobrevivido e que estava numa casa de oração. Disseram-me que tinha problemas de saúde. Mas... desculpa-me a franqueza, ninguém me falou de uma filha.
— Eu não conheci a minha mãe — disse eu num sussurro. Aquela conversa estava a deixar-me pouco à vontade. Não percebia o que ele queria. Se queria saber alguma coisa de especial que lhe pudesse servir para o futuro, certamente não a saberia por mim.
— Ela era muito parecida contigo — disse Eamonn. — Niamh era muito admirada como rapariga. Na verdade, nunca houve duas irmãs tão diferentes. — A sua boca torceu-se.
O seu rosto estava muito próximo do meu.
— Sem dúvida, está satisfeito por regressar a casa — disse eu.
Ele olhou para mim em silêncio.
— A sua família deve ter saudades suas — acrescentei.
— Aislling é a minha única família — disse ele após um momento, e olhou para o chão.
Fiz uma pausa.
— Estou surpreendida — disse eu. — Não tem mulher? Nem filhos? Talvez a minha falta de convivência com o mundo me tenha limitado a compreensão de tais coisas, mas não quer um herdeiro para as suas terras?
Ele sorriu muito levemente.
— Tu és muito direta, Fainne. Espantosamente direta.
Pus de novo em prática os ensinamentos da minha avó e fiz um gesto delicado de confusão, levando os dedos à boca.
— Desculpe. Não queria ofendê-lo. Eu cresci muito só e nunca aprendi a arte da conversação. Por favor, ignore o que eu disse.
— Suponho que não é muito vulgar — disse Eamonn, movendo-se para sentar a meu lado. — Em tempos sonhei com isso. No fim de contas, ter mulher e filhos é um direito básico de qualquer homem. Mas tudo mudou.
— Como?
Ele olhou para as próprias mãos, agora cruzadas uma na outra.
— Ah. Agora és tu que te aventuras em assuntos de que não posso falar. Todos temos os nossos segredos, acho.
— Desculpe, Eamonn.
Ele olhou para mim de sobrancelhas erguidas.
— Gostaria mais que o tratasse por tio Eamonn? Parece-me mais apropriado.
— Na verdade não, Fainne. No fim de contas, não sou teu tio, se bem que pudesse ter sido. Tenho de ir. Os meus homens estão à minha espera. O caminho é longo até Sídhe Dubh.
— É onde vive?
— E em Glencarnagh. Gostarias mais deste último lugar. É um local melhor para uma mulher.
— E eu tenho de regressar para junto das crianças — disse eu. — Tenho de as segurar e dar-lhes alguns trabalhos de costura para fazer. A tia Aisling mantém-nos a todas muito ocupadas. Eu não me importo. Mas elas são tão barulhentas.
Eamonn sorriu. Aquele sorriso melhorava-lhe muito a aparência. Era uma pena ser tão velho. Trinta e nove, pelo menos, pensei. Mais velho do que o meu pai.
— Gostas de paz e sossego, portanto?
Acenei com a cabeça.
— Teria preferido ficar no Sul e dedicar-me a uma vida de paz e contemplação — disse eu docemente, contente por não ter de mentir.
— Não gostarias de ter a tua própria família, um dia? — perguntou Eamonn com ar sério.
Pensei no que a minha avó acharia correto responder.
— Sim, gostava — disse eu num sussurro e pus no rosto a expressão delicada de uma qualquer jovem à beira da descoberta. — Um marido, um filho saudável, uma filha encantadora para cuidar... não é esse o desejo de todas as raparigas?
Seguiu-se outra pausa.
— Espero... — disse Eamonn — espero que Sean seja sensato na escolha que fizer para ti. Não gostaria de ver uma... espero que ele escolha como deve ser para teu bem. E agora tenho de ir. Boa sorte com as tuas lições de equitação. Estou certo de que, no fim, serás tão boa nisso como em tudo o resto que fazes.
— Lisonjeia-me — disse eu.
— Duvido muito. Adeus, Fainne. Talvez voltemos a conversar quando eu visitar de novo Sevenwaters.
— Gostaria muito — disse eu e segui-o com os olhos. Por fim, conseguira. A minha avó teria aprovado, provavelmente. Mas, por que razão sentia um nó no estômago sempre que pensava naquela conversa? Pensei em tudo o que dissera e não conseguia encontrar qualquer erro. Mas estava sempre a ver o rosto de Darragh a olhar para mim, como quando eu estava a dançar na feira, o rosto de um homem que se sente, de algum modo, traído. E senti-me feliz por Darragh não me ter visto enquanto conversava com Eamonn; por ele não saber o que eu teria de fazer e por não saber em que espécie de pessoa eu teria de me transformar.