A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 7 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Sete

 

Tudo o que sabia acerca de cavalos devia-o a Darragh. Mas nunca ouvira as suas histórias com a atenção devida, por isso não sabia muito. A pequena égua que me transportou até casa de Eamonn era muito velha, mas continuava firme como uma rocha. Sabia que era velha porque Eilis mo dissera. Sabia-se pelos dentes, dissera ela. A égua era cinzenta-prateada, de olhos gentis e, tal como Aoife, parecia saber exatamente para onde ia, sem ser preciso guiá-la. Não tremia e não tentava fugir de mim como os outros animais dos estábulos do meu tio. Era claro que, agora que tinha tirado o Encantamento, qualquer animal estava mais pronto para confiar em mim. Mas eu achava que era mais do que isso. Aquela égua parecia, de algum modo, diferente, especial.

 

— Onde é que a arranjaste? — perguntara a Eamonn, pensando se um grande senhor e possuidor de vastas terras viajaria até uma grande feira, enviaria um homem para negociar por ele ou, simplesmente, evitaria tais lugares vulgares, criando simplesmente os seus próprios cavalos.

 

— Foi abandonada, há muito tempo. — Eamonn cavalgava a meu lado, como que para se certificar que eu não me perdia. Talvez duvidasse da minha capacidade para conduzir aquele animal tão bem treinado. — Por uma dama. É um ótimo animal e notavelmente saudável apesar da idade. Foi pouco usada.

— Não tem havido dama nenhuma para a montar? — aventurei. Ele olhou para mim.

 

— É verdade. Há muitos anos que não há uma dama em Glencarnagh. E desde que Aisling casou com o teu tio, o meu domínio de Sídh Dubh tem sido uma casa só de homens. Há muito tempo.

 

— Por que não devolveste a égua à sua dona? — perguntei-lhe. Pensei que não me ia responder. A sua boca cerrou-se e os olhos castanhos gelaram. Mais uma vez, entrara em território proibido.

 

— Não houve oportunidade — disse ele finalmente. — Ela nunca mais voltou.

 

Eu não o pressionei mais. Ele tinha no rosto a mesma expressão de quando pronunciei o nome Liadan. Perguntei a mim mesma se a égua teria sido dela.

 

Glencarnagh era um sítio bonito. Quando acampei ali com a gente de Dan Walker reparei apenas na casa sólida, bonita e extremamente bem guardada. Nessa ocasião, a minha cabeça estava cheia de pensamentos acerca de Sevenwaters e do que ali descobriria. Agora, tinha tempo para ver e ouvir.

Aquela casa fora bem construída para uma família. A mãe de Eamonn crescera ali, até que casara com o pai dele e fora para Sídhe Dubh. Mais tarde, houvera uma noiva na casa, a jovem que casara com o avô de Eamonn, Seamus, quando já era velho. Houvera uma criança; mas parecia que não vivera senão até aos sete anos e o ancião nunca mais recuperara do desgosto. Quando Seamus morreu, a sua esposa regressou para junto da sua gente. Agora, tanto Glencarnagh, como Sídh Dubh, pertenciam a Eamonn: um homem de meia-idade sem mulher nem herdeiros e não parecendo inclinado para adquirir nem uma coisa, nem outra. O que era estranho.

 

Até eu sabia o suficiente para perceber que a súbita morte daquele homem, sempre possível devido à natureza das coisas, levaria a tempos de enorme instabilidade e grande risco para o seu vizinho, Sean de Sevenwaters, cujas terras estavam cercadas, quase por completo, pelas de Eamonn. Haveria chefes de guerra e reis sem importância, de todo o Ulster, reclamando um grau qualquer de parentesco e lutando pelo túath. A meio dos preparativos para a grande batalha pelas Ilhas, seria a última coisa que eles quereriam. E Eamonn? Não se preocupava por não ter um filho para herdar os seus vastos domínios, as duas maravilhosas casas, o exército pessoal, os prados e outros empreendimentos?

 

Havia ali uma oportunidade, um segredo que a minha avó gostaria que eu descobrisse, estava certa. Esse segredo fazia o rosto de Eamonn contrair-se e os olhos escurecerem quando o nome da minha tia era mencionado, depois de tantos anos. O senso-comum dizia-me que se a minha avó queria que aquela gente fosse derrotada, não o seria com números superiores ou estratégias militares, ou até com um espetacular número de magia, supondo que eu tinha a capacidade necessária. A derrota viria deles próprios, atirando aliado contra aliado, irmão contra irmã. Eu sabia-o, sem sequer ter lido qualquer livro, ou ouvido qualquer professor. Sabia-o pela maneira como a minha avó brincara com o meu amor pelo meu pai, usando-o para me apanhar numa armadilha. As armas mais fortes eram as do coração: ódio, dor, medo. E amor, também. Essas armas podiam ser utilizadas com crueldade. A minha avó sabia isso. Não agira por desejo de exercer vingança sobre os que desgraçaram a nossa espécie? O seu ódio era uma força mais poderosa do que qualquer exército. Para ela era fácil dar-me ordens, fazer-me fazer coisas más, mesmo quando eu não queria. Eu nunca teria magoado Maeve, nunca; a criança era inocente, mal começara ainda a sua vida. Nunca teria feito aquilo. Mas fizera-o, com um simples estalar de dedos e a invocação de um feitiço, como se não tivesse mais significado do que uma pequena fogueira no campo para ferver água. E agora, quando vacilava perante a perspectiva de completar a tarefa para a minha avó, apercebi-me de que, se falhasse, havia outros que ela podia fazer com que eu prejudicasse. Quem seria o próximo? A graciosa e sempre alerta Sibeal, com os seus olhos profundos, a volátil Deirdre, que tinha tantos estados de espírito como um dia de Outono? A prática e perceptiva Clodagh, ou o bebê da tia Aisling, a minúscula Eilis? Todas se me tinham tornado queridas apesar dos meus esforços para me manter à parte; tão queridas como quatro irmãs. Não as poria em risco se falhasse os planos da minha avó?

 

Eu sabia o que ela queria que eu fizesse em Glencarnagh. Ela mesma o faria com perícia. Quase conseguia vê-la, com os seus caracóis ruivos e figura suavemente curva, sorriso inocente e olhos alegres bem grandes, sempre junto da sua vítima, cegando-a para a realidade com o seu encanto deslumbrante de borboleta, mantendo-se sempre fora de alcance para a obrigar a sair do caminho da segurança na sua desesperada perseguição. Eu sabia como fazer isso. Ela ensinara-mo pormenorizadamente. Mas eu não o faria, se houvesse outro meio. Havia algo de espalhafatoso ao conseguir atingir um objetivo com tais meios, por mais importante que esse objetivo fosse. Era um ramo da arte que gostaria de deixar intocado.

 

Esperaria um pouco; procuraria uma maneira diferente. E assim, durante algum tempo, instalei-me em Glencarnagh com a gratidão de um prisioneiro libertado inesperadamente, observando as raparigas a jogarem à bola no relvado, perseguindo-se umas às outras no labirinto, assando castanhas na lareira do quarto à luz das velas e sentindo o meu espírito descansar um pouco.

 

Esperava continuar como antes: acompanhar as raparigas durante o dia e espiar à noite, talvez incluída numa conversa adulta de tempos a tempos se isso agradasse ao meu anfitrião. Não tinha talento para a música; não podia entreter. Nem sequer podia recitar o conhecimento druídico aos presentes após a ceia. Os talentos que possuía não eram para ser partilhados. Esperava ter um pouco de tempo para mim própria, para ordenar os meus pensamentos. Não queria pensar além disso. Mas Eamonn tinha idéias diferentes e tornou-as bem claras mal chegamos a Glencarnagh. As raparigas estavam estafadas da viagem e foram para a cama cedo.

Eu também planeara retirar-me, pois tinha um belo quarto só para mim e ansiava por sossego. Ultimamente, desde o incêndio, raramente passava as minhas noites sozinha, pois era normal uma das crianças entrar em bicos dos pés no meu quarto, acordada por um pesadelo, em busca de companhia para afugentar a escuridão. Era, realmente, irônico que viessem ter comigo, o que não melhorava a opinião que tinha de mim própria. Mas, ali, as crianças tinham sido alojadas num bem apetrechado quarto para quatro, com uma serva própria e Eamonn disse-me, quando estávamos juntos à lareira, que eu poderia dormir sem ser incomodada. O salão em Glencarnagh era muito mais pequeno do que o grande espaço de Sevenwaters e o calor da lareira espalhava-se pelo compartimento. A mobília estava tão polida que podíamos ver o nosso rosto refletido nela e os espaldares das cadeiras eram habilmente esculpidos; pequenos animais e arabescos. Bebi um pouco de vinho que me fora dado e concordei sem falar.

 

— Vi como a minha irmã se serve de ti em Sevenwaters — disse Eamonn num tom uniforme. — As tuas origens podem ser obscuras, mas és, de qualquer modo, sobrinha do marido dela e deves ser tratada como tal. Usar-te como serva não é, de modo algum, apropriado. Aqui, és minha convidada.

 

— Eu... — As suas palavras deixaram-me surpreendida. Apercebi-me, para minha surpresa, de que acabara por aceitar as tarefas que a minha tia me impunha de bom grado. Na realidade, quase que gostava de as executar. — A tia Aisling sempre foi muito bondosa. As crianças não me dão nenhum trabalho. Mas agradeço a tua amabilidade. Estou ansiosa por gozar algum tempo de tranquilidade, algum tempo só.

 

— Devo confessar — disse Eamonn cuidadosamente — que isso não é exatamente o que eu pretendia. Apesar de poderes ter solidão e paz, se é isso que desejas. Os meus motivos não são, exatamente, desinteressados. Suponho que sabes isso.

Lancei-lhe um olhar rápido e pousei de novo os olhos na minha taça. Quereria ele dizer o que eu estava a pensar? Certamente que não.

 

— Tinha esperança — continuou ele — de que pudéssemos passar algum tempo juntos. É claro que tenho de tratar dos assuntos da propriedade e as crianças parecem gostar da tua companhia. No entanto, restam os fins de tarde. E se este tempo se mantiver, podemos cavalgar juntos. Há aqui boas terras: campos de pastagens, vales arborizados e uma queda de água. Gostaria de te mostrar isso tudo.

 

— Andar a cavalo? — perguntei. — Isso não é o meu forte.

 

— Portaste-te bem na viagem para cá, Fainne. Creio que aprendes depressa.

 

Sorri.

 

— Já mo tinham dito.

 

Ele olhou para mim fixamente e havia um brilho nos seus olhos que a minha avó teria reconhecido.

 

— E eu sou um bom professor — disse ele suavemente. —Descobrirás isso quando me conheceres melhor. — Senti-me corar.

 

— Não tenho dúvidas disso — murmurei. Ele queria mesmo dizer aquilo. Mal podia acreditar. Porque não usara nenhum dos pequenos feitiços que a minha avó me ensinara desde que partíramos de Sevenwaters. Não o encorajara de modo algum. No entanto, o que ele me dizia parecia claro. Era ao mesmo tempo estranho e preocupante. Tanto quanto as boas maneiras me permitiam, aleguei cansaço e retirei-me para a segurança solitária do meu quarto.

 

O tempo, apesar de frio, manteve-se bom. As minhas primas exploraram a grande casa com as suas paredes sólidas de pedra e o seu telhado de colmo, exploraram as vacarias e os celeiros, ajudaram a dar de comer às galinhas e levavam pequenos mimos aos habitantes dos bem apetrechados estábulos de Eamonn. Eilis tentava ganhar a amizade de um grande cavalo preto, muito mais alto do que ela. Apercebi-me de que ela tinha esperança de montar aquela criatura assustadora, mal conseguisse convencer o tio. Eu invejava a sua confiança. Clodagh descobriu a saída do labirinto e mostrou-a às outras com uma certa superioridade. Deirdre caiu no lago ao correr atrás de uma borboleta e tiveram que lhe secar e limpar a roupa à lareira.

 

Mantinham-se ocupadas e os sorrisos regressaram aos seus rostos ansiosos. Sibeal continuava calada. Trouxera a sua pequena tabuinha de Sevenwaters e enquanto as irmãs corriam atrás umas das outras pelos caminhos, atiravam a bola, ou davam cenouras aos cavalos, ela era vista a escrever letras cuidadosamente na superfície de cera com um pequeno estilete. Eu era a única a quem ela mostrava o seu trabalho para ser corrigido, um fato que não passava despercebido.

— Também escreves bem? — perguntou-me Eamonn, mais tarde, quanto estávamos sentados no salão depois da ceia. Tinham estado outras pessoas presentes antes da refeição: o brithem, o feitor, o mestre-de-armas e vários homens pertencentes à casa acompanhados das esposas. Mas Eamonn, assim parecia, não comia acompanhado.

 

Ali não era como em Sevenwaters, onde todos se reuniam à hora da ceia e a conversa era animada e pontuada de gargalhadas; onde as crianças se sentavam à mesa com os pais e os trabalhadores partilhavam o faito do seu trabalho com os donos da casa. Ali, o pequeno grupo de conselheiros de confiança reunia-se para discutir assuntos sérios: disputas territoriais, negócios de gado, problemas com as armas, o envio de homens que iam buscar mercadoria a um barco que tinha atracado algures. As mulheres pouco contribuíam, mas eu pude ver que estava a ser atentamente observada. Era só conversa de homens. Eu escutava atentamente, mas não percebia patavina. Já era suficientemente estranho ter sido incluída naquele grupo. A princípio, a minha presença deu azo a alguns sobrolhos levantados e até a uma piscadela de olho de um sujeito, apesar de eu reparar que eles se certificavam, primeiro, de que Eamonn não estava ver. Então, quando chegou a ocasião de servir a refeição, desapareceram todos como se devido a uma ordem silenciosa e eu fiquei com Eamonn, sentada com algum esplendor a uma mesa cuja bela madeira de carvalho brilhava como um espelho. Evitei fazer qualquer comentário, se bem que me teria sentido muito melhor a cear com as minhas primas e a dama-de-companhia delas no seu quarto, ou comendo qualquer coisa a um canto da cozinha, ou onde quer que fosse que as restantes pessoas de Glencarnagh comiam. Pensei em peixe assado numa pequena fogueira, com um nabo ou dois misturados para dar um certo travo. O meu lugar não era na companhia daquele homem, não percebia o que ele queria de mim. Usei as maneiras à mesa que a minha avó me ensinara, disse pouco e, por fim, a refeição terminou e fomos sentar-nos à lareira com uma garrafa de vinho em cima da pequena mesa. Foi então que ele comentou a ajuda que eu dava a Sibeal com as letras.

 

— Sim, eu sei ler e escrever — disse eu cautelosamente. — Sou capaz de transcrever Latim para Irlandês e Irlandês para Latim. Sou capaz de escrever com muita perfeição. O ensino foi excelente.

— Suponho que foste ensinada numa casa de oração; no entanto, sei que uma santa irmã não pode aspirar à educação que é dada a um jovem nesse estabelecimento. É evidente que planeavam um futuro para ti intramuros. Mas tu não te converteste à fé cristã.

 

— Como sabes que não me converti? — perguntei-lhe, pensando até onde iria a conversa antes de eu ter que mentir.

 

— Sei que Conor ficou impressionado com as tuas capacidades e conhecimento e que falou a Sean na possibilidade de te juntares aos irmãos e irmãs na floresta. De certo modo, herdaste os dons do teu pai. Disseram-me que ele foi um druida. Acho isso interessante.

 

Não lhe dei qualquer resposta. O vinho era bom; aquecia-me o coração e tornava-me a cabeça mais leve. Eamonn parecia capaz de esvaziar taça após taça sem qualquer efeito visível.

 

— Queres saber o que eu penso? — perguntou. Eu não disse nada.

 

— Penso que seria um desperdício.

— O quê?

 

— Tornares-te druida. Tu gostas de crianças, vê-se bem. Penso que não te oporias às... às oportunidades que uma vida cheia te pode oferecer.

 

Olhei para ele o mais de frente que consegui, o que não era fácil depois de todo aquele vinho.

 

— Eu posso achar que uma vida cheia é uma vida dedicada ao espírito — disse eu severamente. — Ao espírito e à mente. Fui educada a pensar assim.

 

— Mas não acreditas, pois não, Fainne? — Ele aproximara-se e, subitamente, eu senti-me cansada, desconfortável, como se ele me estivesse a sondar, a cheirar, do mesmo modo que um predador cheira a sua presa. Metia-me medo o fato de lhe ter permitido que assumisse o controlo com tanta rapidez.

 

— Não sei — disse eu engolindo em seco. — Só tenho quinze anos e o meu futuro é incerto.

— Terei de fazer algumas escolhas. Suponho que o meu tio Sean me guiará.

 

— Mas, — disse ele suavemente, e a sua mão pegou no jarro de vinho que estava em cima da mesa, roçando pelo meu braço ao passar, como que por acaso — não deves escolher às cegas. Seria sensato da tua parte se explorasses algumas possibilidades antes de decidires. Não seria?

 

— Talvez — disse eu, desejando deixar de tremer, desejando que o meu coração deixasse de saltar.

 

— Não tens razão para ter medo de mim — disse Eamonn.

 

Não era capaz de responder àquela declaração e, assim, ignorei-a. A minha mão moveu-se para agarrar no amuleto, esperando desesperadamente por uma inspiração qualquer. Respirei fundo. Talvez a melhor defesa fosse o ataque.

 

— Posso fazer-te uma pergunta? — disse eu.

 

— As que quiseres.

— A mim, parece-me que esta casa é uma casa de família. Uma casa confortável, agradável; está cheia de luz. As pequenas gostam dela; é segura e elas sentem-no.

 

Eamonn inclinou a cabeça numa aparente concordância, mas os seus olhos estavam desconfiados.

 

— O dono de uma casa assim deve ser um anfitrião cuidadoso —continuei. — Está impecável, na sua beleza e conforto. É uma casa... é uma casa feita para agradar a uma mulher e para abrigar os seus filhos. No entanto, tu não tens nada disso aqui. Parece-me estranho.

 

Seguiu-se um silêncio e eu comecei a arrepender-me das minhas palavras arrojadas.

 

— Peço-te desculpa se te ofendi — acrescentei. Eamonn olhou para mim e depois para longe.

 

— De fato, tu dizes o que pensas. Quanto a Glencarnagh, pertencia ao meu avô antes de eu a herdar. Seamus Redbeard, era como lhe chamavam. Casou tarde pela segunda vez e melhorou as condições aqui para agradar à sua jovem esposa. Sempre foi uma ótima casa. Mas eu não vivo aqui; venho de visita de tempos a tempos e tenho gente que a mantém. A minha outra casa é diferente.

— Uma fortaleza rodeada de pântanos? Foi o que eu ouvi.

 

— É verdade. Talvez a aches um lugar mais apropriado para um homem de meia-idade solitário.

 

— No entanto, decidiste manter Glencarnagh como está. O jardim deve ser muito belo na Primavera. Por que razão te darias a tanto trabalho se mal o vês?

 

Outro pequeno silêncio.

 

— Há uma resposta simples para isso. Posso dizer que é para que pessoas como tu, ou como as minhas sobrinhas, o possam gozar quando vêm de visita.

 

— Mas?

 

Ele fez uma careta.

— Interessa a razão? — perguntou. — A esperança morre, mas as pessoas continuam. Glencarnagh é uma concha vazia, Fainne. Um santuário para o que nunca aconteceu. No entanto, não consigo desfazer-me desta casa. Seria... seria o fim dos meus sonhos. Sonhos que deviam ter sido enterrados há muito.

 

Olhei para ele.

 

— Isso é terrível — disse eu já sem o medo que sentira. — Como podes dizer isso?

 

— Eu só queria — disse ele suavemente olhando para o vinho na sua taça — eu só queria o que qualquer homem razoável quer. Uma esposa, um filho, a minha casa, a minha terra, a oportunidade de poder alimentar a minha gente e cumprir o meu dever. Nunca dei um passo em falso, Fainne. Segui sempre as regras. E então, bastou um estalar de dedos para que tudo me fosse roubado, não por um homem superior, coisa que eu teria compreendido, mas por um miserável que mais valia ter morrido no berço do que viver para ver a luz do dia. — Os seus dedos apertavam a taça com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. — Roubaram-me tudo o que interessava. Até me roubaram a oportunidade de me vingar. Pior ainda, forçaram-me a uma aliança profana com uma criatura cujo nome desprezo. No entanto, mantenho esta casa alegre e fresca, como se a Primavera caminhasse pelas suas paredes, quando a neve do Inverno enche os campos lá fora. Como se, mesmo agora, houvesse hipótese de ela regressar.

 

Ele tinha-me deixado sem palavras. Fiquei ali sentada calada, esperando que o ritmo do meu coração abrandasse, achando que me tinha enganado em mais do que uma coisa. Achando que, no fim de contas, os pequenos truques da minha avó não seriam de grande ajuda ali, porque aquele homem só desejara uma mulher, a única que nunca poderia ter.

 

— Estás... estás a falar da minha tia Liadan, não estás? —perguntei, finalmente.

 

— Foi Sean que te falou nisso? — perguntou ele vivamente.

 

— Não — disse eu o mais calmamente que consegui. — Adivinhei. Tu foste muito claro no teu discurso. Mal suportas ouvir o seu nome; no entanto, parece quereres dizer-me que ainda a amas.

 

— Amar? — O seu tom era amargo. — Em tempos, pensei que compreendia o significado dessa palavra. Mas agora não. Entre um homem e uma mulher tem que haver o dar e o receber. Talvez seja, aliás, a única coisa. Não pode ter sido o amor que fez com que ela tivesse feito o que fez. Foi, antes, uma espécie de luxúria perversa, que a levou a esquecer quem era e o que tinha prometido.

 

— Mas isso foi há muito tempo — disse eu. — E tu pareces ainda zangado.

 

Foi então que ele pareceu lembrar-se de onde estava e com quem estava a falar. Vi-o respirar fundo e forçar as feições a descontraírem-se um pouco.

— Desculpa, Fainne. Nem acredito que te disse isto tudo. Esqueci-me de mim próprio e só te peço perdão. És demasiado nova para suportares uma tolice destas.

 

Ele era um seguidor de regras. Fora o que Muirrin dissera. Devia ser-lhe doloroso aperceber-se de que se tinha aberto com uma mera rapariga, ainda por cima de recente conhecimento. Formulei a minha resposta com cuidado.

 

— Eu não fui criada como as outras raparigas. Por favor, não deixes que isto te perturbe.

 

— É a inocência que fala por ti — replicou ele, franzindo o sobrolho. — Foi incorreto da minha parte, indisciplinado e inapropriado.

 

— Não acho — disse eu calmamente. — A mim, parece-me que é um fardo que tu carregas há muito tempo. Vais levá-lo contigo para a sepultura?

 

— Fainne! Fiquei chocado. Posso ser um velho pelos teus padrões, mas não tenho qualquer intenção de morrer já.

— No entanto — disse eu — vais para a batalha este Verão. Uma empresa de grande perigo, de grande risco. Parece que te preocupas pouco com o futuro do teu nome e dos teus domínios. Talvez não temas a morte. Porém, é melhor libertares o teu espírito desse ódio todo. A deusa chama quando lhe apetece, não quando nós escolhemos atravessar a margem.

 

— Tu és uma rapariga estranha, Fainne — disse Eamonn, pegando na minha mão e levando-a aos lábios. — Não sei o que fazer de ti.

 

— E eu de ti, — disse eu, retirando a minha mão. — Não sei o que queres de mim.

 

— Neste momento — disse ele sem sorrir — creio que são horas de te ires deitar. Tira uma vela daquela prateleira, ali ao pé da porta.

 

— Eu...

 

— É melhor ires, Fainne. Esta noite sou uma pobre companhia.

 

Assim, deixei-o em frente da lareira com o jarro de vinho a seu lado e tentei imaginar quantas taças necessitaria de beber antes de cair no esquecimento.

 

Pus-me em frente do espelho. Um espelho muito bonito; o bronze polido devolveu a luz das velas, brilhando com um calor dourado. Em redor da moldura, o metal estava gravado num padrão intrincado: laços, uma corrente tripla, com embutidos ovais, aqui e ali, de esmalte. Escarlate, dourado, azul-escuro como o oceano insondável.

 

Era o espelho de um homem rico. O meu reflexo olhava para mim, as suas formas suavizadas pelo tom rosado do metal, uma rapariga outonal. Olhei para mim própria e ouvi as palavras de Eamonn. Sou um bom professor, dissera e quando pensei naquilo, deixei de ter dúvidas quanto às artes que ele acreditava poder partilhar comigo. A rapariga no espelho não era a espécie de rapariga que enchia um homem de desejo. Os seus cabelos curtos encaracolados; eram da cor das chamas, avermelhados. Os seus olhos eram de uma cor púrpura intensa, da cor das amoras maduras. Os lábios eram severos, a boca era a de um eremita, feita para recitar o conhecimento, ou para orar na solidão. Não eram lábios feitos para beijar, murmurar palavras doces, ou cantar canções de amor. A pele era pálida, as faces sem cor. Mas o meu corpo tinha mudado quase sem eu dar por isso. Estava a desenvolver curvas aqui e ali, de modo que a estranha e alta rapariga estava agora a ficar com tudo nos seus devidos lugares. O pé torcido continuava ali. Não havia cura para aquela herança de um acasalamento proibido, pensei, furiosa. Mas, apesar disso, eu não parecia... desagradável. Sorri para mim própria no espelho e o pequeno amuleto que me pendia do pescoço brilhou, apanhando a luz das velas. O meu sorriso enfraqueceu. Era uma tolice acreditar que pudesse ser outra pessoa. A beleza não era nada. Que tinha conseguido a minha mãe com a beleza? Fora vendida pelo mais alto preço e fora miserável durante o resto da sua curta vida. No entanto, nas observações sugestivas e olhares de viés de Eamonn estava a origem da solução do meu problema; o começo de uma estratégia para atingir o objetivo da minha avó. Podia ouvi-la: Esse homem é poderoso. E é corruptível. Aproxima-te dele, faz com que ele te deseje. Usa-o, Fainne.

 

Mas eu não podia fazê-lo. A perspectiva punha-me doente. Era usar a arte erradamente e sabia que não conseguiria fazê-lo. Vesti a camisa de noite e subi para a cama, consciente do espelho brilhando suavemente à luz da pequena lareira.

Faltava-me a força. O meu corpo tremia só de pensar. Como poderia eu fazê-lo, quando as palavras que o homem dissera me faziam tremer? Era errado. Manipular um homem assim, para que ele ansiasse por mim como um cão por um pouco de calor, dobrá-lo à minha vontade para que ele fizesse o que eu queria, era perder o respeito por mim própria. Nunca compreenderia os homens, quanto mais mentir a um e fazer tudo o que a minha avó me dissera que os homens e as mulheres fazem juntos. Só o pensamento me desgostava. Tinha de haver outra maneira. Ir a Glencarnagh fora um erro.

 

Não te estás a esquecer de nada?, disse a pequena voz interior. E o teu pai? Agarra esta oportunidade, Fainne. A aliança já balança no fio de uma faca. Escolhe o ponto mais fraco, porque é o mais frágil. Esse homem fala contigo. Fá-lo falar mais. E lembra-te que é no quarto que os homens dizem os seus maiores segredos. Tapei os ouvidos com os dedos, como se pudesse silenciar aquela voz interior. Enrolei-me sob os cobertores. Mas não tinha ali Riona para me ajudar a manter a voz afastada. Não tinha meios para silenciar a sua mensagem inexorável. Não precisava de olhar para o espelho para ver a imagem do meu pai, arfando, lutando por respirar, usando todos os restos de controlo que ainda possuía para não gritar de dor quando sentia como que uma mão de ferro agarrando-lhe o coração, roubando-lhe o ar. Senti o amuleto quente, pequeno e duro contra o meu peito. Tens de continuar , disse a voz vezes sem conta. Pelo teu pai. Deves-lhe isso. Até ao fim, Fainne. Mesmo até ao fim. A chuva regressou e não se podia andar a cavalo. Eamonn ensinou-me a jogar brandubh (NT: uma versão um pouco mais sofisticada do jogo das pedrinhas). Fiquei feliz por isso. O grau de concentração necessário para antecipar o movimento estratégico seguinte do adversário significava que não se podia manter uma conversação ao mesmo tempo. Sentados defronte um do outro com uma pequena mesa e o tabuleiro do jogo entre os dois, significava que não nos podíamos tocar. As peças do jogo eram maravilhosamente esculpidas, o próprio tabuleiro estava decorado com embutidos intrincados de madeira. Começamos um jogo experimental e quando ele viu que eu já sabia as regras começamos a jogar a sério. O nosso terceiro jogo a sério durou até muito tarde. Os restantes habitantes da casa já estavam deitados e nós os dois continuávamos, sozinhos, à lareira. Eamonn bebia continuamente como era seu hábito. Eu dava pequenos goles do meu vinho, mas bebia o menos possível. Era necessário manter a cabeça lúcida para aquele jogo e também para o jogo ainda mais subtil, mudo, que continuava entre nós por meio de gestos e olhares. Antes do amanhecer, as peças negras tinham vencido as brancas e eu tinha ganho. Eamonn estava bastante surpreendido.

— Bem — comentou ele com o sobrolho ligeiramente franzido. —Estou a ver que tenho de ter cuidado contigo, Fainne.

 

Com um grande bocejo, não resisti a acrescentar:

 

— Já me tinhas dito que eras um bom professor.

 

— E tu disseste que eras uma boa aluna. E era verdade. Tu aprendes muito depressa para o meu gosto.

 

— Preferias que te deixasse ganhar? — perguntei, erguendo as sobrancelhas.

 

— Claro que não. — A sua resposta foi brusca. — Surpreendeste-me, apenas. Geralmente, a mente da mulher não tem a capacidade de apanhar os padrões intrincados deste jogo e usá-los para vantagem própria. Na próxima vez, estarei de sobreaviso. Não te dei o devido valor como adversário.

 

— E não gostas de perder. — Aquelas palavras saíram-me antes de eu as poder reter.

Ele semicerrou os olhos enquanto me olhava.

 

— Um dia, a tua franqueza trar-te-á problemas — disse ele suavemente. — Será melhor travares um pouco essa língua quando estiveres com outras pessoas. Mas não dizes mais do que a verdade. Eu não aceito facilmente a derrota. Aventuro-me sempre esperando ganhar.

 

— E perdes muitas vezes?

 

— A longo prazo, nunca.

 

— Mas...

 

— Um homem que me tire o que é meu, é pago na mesma moeda. Ele pode esquecer o que fez. Eu nunca esqueço.

 

— E se esse homem se tornasse teu aliado? — perguntei. — Não seria, então, uma escolha impossível?

Seguiu-se uma pequena pausa. Os dedos dele apertaram a taça de vinho como se estivesse a estrangular um inimigo.

 

— Um homem desses nunca pode ser considerado um aliado —disse ele severamente. — Mais vale confiar num monstro qualquer do Outro Mundo do que num homem assim. Os códigos normais de família e lealdade não se aplicam nessa situação. Mais valia que uma criatura assim nunca tivesse nascido.

 

O seu tom desanimado alarmou-me. Lamentei ter feito a pergunta. Peguei na minha vela e ele pareceu voltar a si.

 

— É muito tarde. Está quase a nascer o dia. De manhã, é melhor ficares mais um pouco na cama, porque estás muito cansada.

 

— Talvez. Mas eu estou habituada a dias longos e a levantar-me cedo. Obrigada pelo jogo. Gostei muito. — E tinha gostado. Era bom exercitar a mente noutra coisa qualquer que não o desafio impossível que a minha avó me tinha exigido. Era bom concentrar-me noutra coisa que não a imagem do rosto queimado de Maeve, que, por algum tempo, desaparecera da minha mente. Quando regressasse a casa, talvez o pudesse ensinar ao meu pai... não, é melhor não pensar nisso. Devia estar mesmo cansada.

 

— Sentes-te bem? — perguntou Eamonn, dando um passo em frente e pegando-me no braço. — Estás pálida. Fiz com que ficasses a pé até muito tarde.

— Não é nada. Isto já passa.

 

— Nesse caso, boa noite. Ou talvez devesse dizer bom dia. —Geralmente, ele acenaria com a cabeça ou agarrar-me-ia a mão para se despedir. Desta vez, inclinou-se e deu-me um pequeno beijo na face. Não teve qualquer importância. Foi leve e rápido. Mas eu vi o seu olhar.

 

— Boa noite — disse eu rapidamente e retirei-me para o meu quarto. Meti-me debaixo dos macios lençóis de linho e dos suaves cobertores de lã, tão cansada que deveria ter adormecido mal a minha cabeça tocou na almofada, mas incapaz de evitar que a minha mente trabalhasse continuamente. Era óbvio o caminho que a minha avó queria que eu seguisse. Na realidade, era evidente que a tarefa que ela me tinha imposto não era, afinal de contas, tão impossível como eu julgara, se me propusesse a fazer o que devia em relação a Eamonn. Mas, como fazê-lo? Como suportá-lo?

 

Quando o dia surgiu e um galo começou a cantar ruidosamente no pátio, adormeci com os meus problemas sempre às voltas na minha cabeça.

 

Não dormi muito. Houve uma alteração no tempo úmido e as raparigas estavam ansiosas por ir para o exterior, apesar do frio cortante. Tinham chegado visitantes, que já estavam reunidos com Eamonn na sala do conselho. Também ele devia ter dormido pouco. Havia belos cavalos a serem tratados nas cavalariças e belas capas a secar diante das lareiras da cozinha. Ninguém parecia disposto a dizer quem eram os visitantes. Talvez ninguém soubesse. Saímos para passear, as cinco, vestidas com pesadas capas de capuz e robustas botas de Inverno. O Sol lutava para emergir das nuvens ainda escuras da chuva e o vento era cortante, mas as raparigas sorriam.

 

Estavam contentes por poderem estar, de novo, ao ar livre.

 

— Está-se bem aqui — observou Deirdre — podemos passear à vontade sem nenhum homem de armas sempre à nossa frente barrando-nos o caminho.

 

Eilis saltitava por cima das poças de água.

 

— Um, dois, três... upa! Um, dois, três... plof! — Ia precisar de mudar de roupa quando regressássemos a casa. Enquanto caminhávamos por um carreiro entre sebes de teixo bem aparadas, em direção a uma pequena clareira de aveleiras de ramos nus, reparei que, afinal de contas, havia guardas. Não surgiam de repente, como Deirdre afirmara. Apenas uma presença discreta a uma distância conveniente. Homens vestidos de verde, bem armados e silenciosos. Uma pessoa podia passear, mas não sem vigilância. Era para nossa segurança, suponho. No entanto, aquilo irritou-me. Pensei em Kerry e o modo como Darragh e eu trepávamos pelos rochedos como cabras selvagens e corríamos para trás e para a frente à beira-mar sem que as nossas famílias pensassem se estaríamos em segurança ou quando regressaríamos a casa. Sabiam que estávamos em segurança porque estávamos juntos. O meu coração doía-me de desejo de voltar a ser essa rapariguinha. Mas não valia a pena reviver o passado; a roda não parava. Deirdre queria trepar às árvores. Entalou as saias no cinto e trepou com uma agilidade impressionante, mostrando as pernas de uma maneira pouco feminina. De imediato, Eilis pediu para a ajudarem a fazer a mesma coisa.

— Bebês — troçou Clodagh, enquanto segurava a irmã mais nova e a ajudava a subir para o ramo inferior, mas o brilho dos seus olhos dizia que não ficaria atrás da irmã gêmea e em breve saltitavam as três como esquilos, balouçando-se perigosamente nos ramos sem folhas.

 

Sibeal estava sentada numa pedra lisa, próxima do local onde o ribeiro, engrossado pela água da chuva, desaguava numa pequena lagoa. A água estava coberta de espuma e a corrente forte, mesmo naquele local de repouso temporário. Sibeal estava sentada de pernas cruzadas, as mãos no colo e as costas muito direitas. Estava numa posição de meditação, imitando Conor. O seu olhar estava fixo na água. Instalei-me calmamente nas rochas a seu lado.

 

Passou algum tempo. Os sons surgiam e desapareciam; o riso e os gritos das outras, o gemer dos ramos, o chamamento dos pássaros; a voz da própria água, enquanto descia em cascata para a lagoa. O Sol, subitamente, mostrou o seu rosto por entre as nuvens, a luz tocou a superfície da água, penetrante, estonteante no seu brilho. A espuma ficou dourada e as rochas molhadas cintilaram.

 

No meu outro lado, alguém estava acocorado; alguém mais ou menos do tamanho da minha prima, mas coberto de penas. De certo modo, foi possível falarmos silenciosamente.

 

Tu outra vez.

 

Desapontada? Quem esperavas?

Eu não vim para aqui à procura de seres do Outro Mundo.

 

Ah-ah — Se a voz da mente pudesse exprimir descrença, aquilo seria o que a criatura estava a transmitir.

 

Eu não vim chamado por ti, mas sim por ela.

 

Pela... minha prima? Ela chamou-te?

 

Ela abriu o caminho, de modo a eu poder vir. O que ela vê é uma coisa totalmente diferente. Ela olha para a água. Vê o futuro e o que ele lhe trará. Eu estou aqui por ti.

 

Por que razão me procurarias? Eu já estava bastante confusa. A última coisa que eu queria era outro diálogo critico que fazia mais perguntas do que dava respostas.

 

Estás confusa. Sinto-o. Perdeste o rumo, se é que alguma vez o tiveste. E não sabes a quem pedir a direção.

Eu não preciso de perguntar a direção a ninguém. Eu sou capaz de encontrar o meu próprio rumo. O meu pai ensinou-me a resolver os meus próprios problemas.

 

E resolverás. Não temos dúvidas nenhumas. Mas estás a perder tempo. Que tal um pequeno conselho?

 

Um conselho teu? Acho que não. Nem sequer sei quem és, ou o que és. A pequena criatura parecida com um mocho agitou as penas, soltando uma ou duas que flutuaram no ar à minha frente, delicadas, pequenos fragmentos castanhos, como as últimas folhas de Outono. No meu outro lado, Sibeal continuava sentada, imóvel, o olhar claro fixo na água.

 

O que eu sou? repetiu a criatura. O que somos. Olha para nós, Fainne. Se não consegues adivinhar com esse conhecimento druídico todo, a tua educação foi desperdiçada.

 

Nós? perguntei e enquanto a voz falava na minha mente, vi, sem abrir os olhos, um movimento na paisagem, uma mudança, um desdobramento, como se o pequeno riacho, as grandes rochas e as fendas na terra se enrugassem e se afastassem para revelar o que sempre ali existira se uma pessoa soubesse como procurar.

Reuniram-se à minha volta em círculo, silenciosos. Nenhum era mais alto do que uma criança; eram todos diferentes uns dos outros, cada um de algum modo parecido com uma criatura conhecida, uma rã, um esquilo, talvez um bácoro, se bem que alguns se parecessem como pequenas plantas, ou arbustos; cada um deles era único à sua maneira. Não eram animais, mas também não eram humanos. Olhei mais de perto. Havia um que tinha um único olho no meio da testa e outro tinha apenas uma perna, apoiando-se numa pequena muleta feita de vidoeiro. Outro tinha rugas profundas por todo o corpo como uma maçã encarquilhada; outro parecia estar coberto, da cabeça aos pés, de musgo cinzento-esverdeado.

 

Vocês são... vocês são... hesitei.

 

Continua. A criatura-mocho acenou com a cabeça encorajadoramente. Quem foram os primeiros na terra de Erin?

 

Foram vocês? aventurei-me.

 

Ouviu-se um aprovador coro de risadinhas, murmúrios, pios e grunhidos.

 

Nós somos os Anciãos. Fora a criatura coberta de musgo, parecida com uma rocha, que falara. A sua forma era sólida e sem membros discerníveis, mas, no entanto, tinha uma espécie de rosto; uma fenda no lugar da boca e manchas avermelhadas de líquen que poderiam ser os olhos. Nós somos os teus antepassados.

O quê? Quase falei em voz alta de espantada que fiquei. Vocês? Como é possível?

 

Seguiu-se uma série de gargalhadas à minha volta. Sibeal não se mexia.

 

Teus antepassados e da tua prima. Mas ela não nos vê. Ela vê outra coisa. Pareces chocada. A criatura-mocho fixou os seus grandes olhos redondos em mim. Nunca pediste ao druida que te contasse a história, pois não? De que tinhas medo? A história fala de uma união, há muito tempo, entre um homem de Gaels e uma mulher da nossa espécie. A linhagem de Sevenwaters surgiu desse acasalamento. E tu és filha de Sevenwaters.

 

Não me parece. Franzi o sobrolho. Não fui criada a amar a floresta como esta gente. O meu caminho é diferente.

 

Havia ali uma criatura que parecia feita de água; a sua forma modificava-se e fluía e através dessa fluidez eu podia ver os rochedos e a erva para além dela. A sua forma não era muito diferente de uma pequena criança com cachos de algas a fazerem de cabelos.

 

Todas regressam. A sua voz parecia a voz de um riacho a correr por entre seixos lisos. Todas as crianças regressam à floresta. Mas isso já não chega.

Tu regressaste disse a criatura-mocho. Podes querer negá-lo, mas és um de nós.

 

Isso é um disparate. Estavam a tentar enganar-me. A tentar fazer-me revelar qual era o meu objetivo. Eu sou uma rapariga mortal, mais nada. Sou meio-irlandesa e meio-bretã. Uma mistura. Estou tão longe de vós como... como...

 

Como um cão vadio está longe dos misteriosos padrões das estrelas? É isso? Agora, irritei-te. E provei o meu ponto de vista.

 

Que ponto de vista? Que queres dizer?

 

Estás a ver as pequenas labaredas que se acendem no teu cabelo quando te zangas?

 

Eu não conheço nenhuma rapariga mortal que faça isso! Nós sabemos quem tu és.

 

Ah sim? A conversa começava a alarmar-me. Reprimi a vontade de utilizar a arte. Não me podia revelar assim sem mais nem menos. E o que é que eu sou?

A criatura musgosa falou de novo.

 

Isso mesmo, uma mistura. Uma mistura muito perigosa. Uma mistura de quatro raças. Por que razão te mandou o teu pai para aqui? Por que razão vir agora, no fim de tudo?

 

Aquelas palavras gelaram-me. Tinha de tentar assumir o controlo da situação.

 

Diz-me disse eu. Os Fair Folk querem ganhar a batalha, não querem? Recuperar as Ilhas? É isso que queres dizer com o fim de tudo? Mas eles já têm muito poder. Os deuses e deusas Túatha Dê não são capazes de controlar os ventos e as ondas, capazes de derrotar exércitos inteiros e de destroçar o mais forte opositor? Por que razão não recuperam, simplesmente, as Ilhas sozinhos? Qual é a necessidade de morrerem humanos, geração após geração nesta longa guerra? Esta família já perdeu muitos filhos. Por que é que vocês fazem isto a esta gente? A esta gente... inferior?

 

Seguiu-se uma série de sussurros, murmúrios e resmungos no círculo de pequenas criaturas estranhas. Sobrolhos franzidos; caudas agitadas; penas eriçadas e narizes torcidos de desprezo.

 

Gente inferior? A criatura musgosa falou com voz profunda e seca. Mas eles acharam-nos inferiores quando nos baniram para os poços, cavernas e profundezas do mar; para as ilhas selvagens e para as raízes dos carvalhos. Mas, apesar disso, ainda cá estamos. Estamos e somos sábios. Os tempos mudam, minha filha. A ordem muda. É assim com os Túatha Dê. Com a chegada dos filhos de Mil, a estrela deles começou a apagar-se. Os seus dias ficaram contados. O teu pai e o arquidruida estão entre os últimos sábios desta terra. Bem pode Conor chorar a perda do seu aluno mais capaz, pois não haverá mais nenhum como ele enquanto os homens existirem na terra, nem no tempo dos filhos dos seus filhos, nem dos filhos dos filhos deles. O homem gosta do poder e da influência, busca horizontes longínquos e riquezas inalcançáveis. Pensa que pode possuir o impossível. Derruba as velhas árvores para alargar os seus pastos; mina as grutas profundas e derruba as pedras que estão em pé. Abraça uma fé nova com fervor e, talvez, com sinceridade. Mas afasta-se, cada vez mais, das coisas antigas. Já não ouve o bater do coração da sua mãe terra. Já não cheira a mudança do ar; já não vê o que está para além do véu das sombras. Até o seu novo deus é formado à sua própria imagem, pois não lhe chamam eles o filho do homem? De livre escolha, separa-se dos ciclos antigos do Sol, da Lua e das estações. E, sem ele, os Fair Folk perdem importância e ficam reduzidos a nada. Retiram, escondem-se e ficam reduzidos a duendes com os seus pequenos jarros de cerveja; a duendes que roubam o leite das vacas durante o Sambain; a fadas que, com os seus lamentos, pressagiam a morte. Não passam de uma recordação na mente de um velho frágil; uma história contada por uma velha louca. Isto já aconteceu antes, Fainne. E vai acontecer de novo brevemente. Os machados entrarão na grande floresta de Sevenwaters até não haver nada. Um velho carvalho aqui e além. Um bonito vidoeiro à beira do lago, onde em tempos uma família de crianças de olhos límpidos proferiam, ao mesmo tempo, o nome da sua mãe e o nome da grande Dana. O lago não será mais do que um charco quase seco. Não haverá refúgio para eles. E, depois de desaparecerem, também a nossa espécie desaparecerá. Já assistimos a isso.

 

Aquelas palavras calmas e medidas gelaram-me o sangue.

 

Isso não pode ser impedido? perguntei eu.

 

Já aconteceu antes. É o que tem que ser. Num mundo assim não há lugar para nós. À minha volta, as criaturas suspiraram em uníssono.

 

Nesse caso, por que razão é tão importante recuperar as Ilhas? Por que razão se há de cumprir a profecia? A marca do corvo, o líder escolhido, etc., etc. Estás a dizer que, de qualquer modo, tudo se perderá. Os anos de fidelidade, a guarda da floresta pela gente de Sevenwaters, tudo para nada?

 

Ah. A questão é essa. Tudo se perderá no tempo; o lago, a floresta, os druidas, os senhores e os Fair Folk. Tudo o que vês. O invisível é que deve permanecer. A semente que espera dentro do fruto encarquilhado do Outono; a jóia guardada dentro da pedra silenciosa. O segredo guardado nas profundezas do coração. A verdade guardada no espírito. Quando as Ilhas não forem mais do que uma recordação entre os homens, o essencial tem de sobreviver. Por essa razão, a batalha tem de ser ganha, as Ilhas têm de ser reconquistadas antes que seja tarde demais. Tudo deve acontecer de acordo com a profecia. Assim diz a deusa. As Ilhas são o Último Lugar. Lá está guardado o que há de mais precioso. Guardado até a roda girar por completo e chegar de novo o tempo em que o homem ouve de novo o bater do coração da terra e se liga à vida que ela encerra. Com a chegada do Filho da Profecia vem o guardião da verdade, o Vigilante da Needle. Isto tem de acontecer, ou estaremos todos perdidos. Acredita, os Túatha Dê não procurariam a ajuda dos humanos se não fosse preciso. Fere-lhes o orgulho serem forçados a humilharem-se assim. Mas só através da espécie humana poderá a profecia ser cumprida e os mistérios guardados em segurança.

 

Um momento. O Vigilante de Needle? Não me lembro de ter ouvido falar disso antes. Que quer dizer isso? Falas por enigmas.

 

A criatura musgosa abriu a boca parecida com uma fenda. Talvez estivesse a tentar sorrir.

Já devias estar habituada, pequena. O teu pai não é um druida?

 

Nós não te podemos dizer o que vai acontecer disse a criatura-mocho. As profecias e as visões nunca são tão simples como parecem. Vai haver uma batalha, derramamento de sangue e morte. Vai haver sacrifícios e choro. Essa parte é óbvia para todos. Mas não é a morte que importa. O que importa é a custódia. Aquilo de que não se fala. A custódia da verdade em tempos de escuridão e ignorância. Sem isso, desaparecemos todos e tu acabas por ter razão. Os anos de perda e dor não terão servido para nada.

 

Por que razão me dizem isso tudo? Tremia como varas verdes. Se aquelas palavras eram verdadeiras, a demanda da minha avó era, seguramente, uma coisa abominável. Sabes quem eu sou e quem é o meu pai. Deves saber o que a minha avó é e o que fez. Não achas que estás a ser inconsciente ao revelares-me os teus segredos?

 

Achas? Disse a criatura aquosa com uma voz suave e calma. Nunca te ocorreu que todas as raparigas têm duas avós? Então, com um ligeiro movimento, um desdobramento, esconderam-se e desapareceram repentinamente.

 

— Viste-a? — A voz de Sibeal assustou-me tanto que quase caí na lagoa.

— Vi... quem? — gaguejei.

 

— A Dama. Viste-a?

 

— Que Dama? — Olhei para ela, pensando na profunda tranquilidade da sua expressão.

 

Era óbvio que não se tinha apercebido dos meus estranhos companheiros.

 

— A Dama da floresta. Não a viste mesmo? Ela esteve mesmo ali, no outro lado da lagoa.

 

Abanei a cabeça.

 

— Não vi dama nenhuma — disse eu. — Ela vem aqui muitas vezes?

 

— Algumas. — Sibeal levantou-se sacudindo o vestido. Ela mostra-me imagens.

— Imagens?

 

— Na água. Vi Maeve.

 

Senti um arrepio de medo. Não disse nada.

 

— Estava crescida, mais crescida do que Muirrin. Soube que era ela. Por causa do rosto.

 

— Do rosto? — repeti eu estupidamente, sem saber se queria ouvir a resposta.

 

— Sim, as cicatrizes. E as mãos ainda feridas, tinha uma bonitas luvas calçadas. Vamos ter com as outras, agora?

 

— Não. Conta-me o resto.

— Que resto?

 

— Maeve. Ela estava... ela estava bem? O que estava a fazer? Estava feliz?

 

Sibeal olhou para mim de relance, aparentemente surpreendida.

 

— Estava a cantar para um bebê. Por que perguntas?

 

— Por que é que achas? — exclamei, exasperada, esquecendo que ela era apenas uma miúda. — Claro que quero saber! Tu vês o futuro, não vês? Podes mostrar-me se ela vai sobreviver, recuperar e ter futuro! É claro que quero saber!

 

— Não chores, Fainne — disse Sibeal com ar sério, oferecendo-me o seu pequeno lenço de linho.

 

— Eu não estou a chorar — disse eu zangada, aborrecida por ter perdido facilmente o controlo de mim própria. De qualquer modo, não poderia chorar, mesmo que quisesse. Na nossa espécie, as lágrimas parecem amontoar-se, amontoar-se dentro de nós e nunca saem; um oceano de lágrimas inundando as profundezas do coração.

 

— A única coisa — continuou ela enquanto regressávamos lentamente para o maciço de aveleiras — é que nunca temos a certeza de que o que vemos vai acontecer, ou se é apenas qualquer coisa que pode vir a acontecer. Ou pode ser apenas um... um símbolo.

 

— Sabes o que isso significa? — perguntei eu, divertida apesar de tudo.

 

— Como a caveira da morte — explicou Sibeal com ar sério. — Ou um anel de promessa. Ou a luz alegre do Sol, ou o mistério das sombras.

 

— Esquece — disse eu. — Tens a certeza de que só tens oito anos?

 

— Acho que sim — respondeu Sibeal, perplexa.

 

Naquela noite jantei sozinha. Eamonn tinha-se atravessado no meu caminho quando regressava ao meu quarto para trocar as botas enlameadas por uns sapatos macios e tentar domar o meu cabelo todo despenteado. Como se tivesse pressentido a minha presença, saiu da sala do conselho quando eu passava e fechou a porta atrás de si.

Mas eu fora treinada para saber observar e vislumbrei dois homens de pé perto da mesa, dentro da sala. Até ouvi algumas palavras.

 

— O filho é que é a chave — disse o homem mais alto, de cabelos altos entrançados de modo a ver-se o rosto e de ombros desnivelados, como se tivesse um velho ferimento mal curado. O outro era mais baixo, mais velho, de feições rudes e severas e com uma barba grisalha. Ao fechar-se, a porta impediu que eu ouvisse a resposta.

 

— Fainne — disse Eamonn amavelmente, olhando-me de alto a baixo. — Estou a ver que saíste. Tiveste uma manhã agradável?

 

— Tive, obrigada. — O seu olhar perspicaz fez-me sentir consciência das minhas faces afogueadas, do meu cabelo despenteado, do meu vestido amarrotado e do fato de estar ainda a arfar depois de ter regressado a correr do arvoredo. — As raparigas estiveram a trepar às árvores.

 

— Dormiste bem?

 

— Bastante bem. E tu? — Ele fez uma careta.

— Hoje em dia, o descanso escapa-me. Pouco importa. Sugiro que esta noite te deites cedo, Fainne. Lamento, mas não posso jantar contigo. Estes homens e eu estaremos sempre reunidos enquanto aqui estiverem. Confesso que gostaria de te mostrar a eles. Mas, nestas circunstâncias, seria pouco sensato. Os meus convidados partirão amanhã de manhã. Talvez possamos, então, dar aquele passeio a cavalo de que te falei, se as tuas primas te dispensarem por um dia.

 

— Talvez — disse eu, não sabendo se me sentia mais aliviada com a perspectiva de uma ceia descansada com as raparigas, seguida de um bom sono, ou alarmada com a idéia de um dia fora na companhia de Eamonn. — Tu estás ocupado. Continua. — Virei-me para me afastar e senti a sua mão fechar-se em redor do meu pulso. Para um homem da sua idade, ele era, realmente, muito rápido.

 

— Estás zangada? Estás ofendida por eu te excluir? — Falei sem me virar.

 

— Por que havia de estar ofendida? Esta casa é tua; os assuntos são teus Não tenho a presunção de me querer imiscuir em qualquer um deles. — Mal as palavras me saíram, soaram-me bastante agressivas.

 

— Não? — disse Eamonn suavemente, libertando-me. Ouvi de novo a porta a abrir-se e a fechar-se atrás de mim e fugi, confusa, pelo átrio afora na direção do meu quarto.

 

Que lugar era aquele no qual, ora estava no campo a falar com criaturas do Outro Mundo que diziam que o fim do mundo estava a chegar, ora estava a jogar um jogo qualquer impossível de entender com um homem que tinha idade suficiente para ser meu pai? Quem me dera ter outra vez cinco anos e a maior das minhas preocupações fosse a necessidade de mover as minhas pernas com velocidade suficiente para acompanhar Darragh! Não que isso, alguma vez, tenha sido um problema; nem uma única vez ele deixou de esperar por mim. Só no dia em que lhe disse que não precisava mais dele e o mandei embora.

 

Não valeu de nada deitar-me cedo, porque não dormi pacificamente. Fui atormentada por pesadelos; pesadelos dos quais acordava com a cabeça a doer e o corpo encharcado em suor, pesadelos dos quais não me recordo, exceto que me deixaram num estado miserável e mais confusa do que nunca. Tudo o que me lembrava era de correr, correr o mais depressa que podia, sem conseguir alcançar o que perseguia.

 

Mas o dia começou bem. Se estava à espera de passear apenas com ele, não pensei com lógica. Tinha de haver guardas, claro, homens vestidos de verde que nos acompanharam à distância. No fim de contas, aproximava-se uma batalha e os membros da aliança mal confiavam uns nos outros, quanto mais na oposição. Eu seguia na pequena égua que me trouxera até Glencarnagh; com ela, quase gostei do passeio. Demos, primeiro, a volta aos campos fechados, aos pastos mais acima e às pequenas aldeias asseadas, cada uma com a sua bem defendida fortificação. A maior parte dos campos era aberta: colinas suaves, grandes vales verdejantes, com aqui e ali um ribeiro franjado de salgueiros e sabugueiros. Havia muitas árvores, mas o local não tinha a quietude opressiva e abafada de Sevenwaters e eu gostava mais assim. Gostava mais ainda do fato de Eamonn parecer gostar de me explicar tudo, sem nunca sugerir que o passeio tinha outros propósitos que não o de me mostrar o que devia ser mostrado a qualquer hóspede. Fiquei mais aliviada e comecei a divertir-me, porque estava um dia lindo, a propriedade era muito bonita e havia muita coisa interessante. Vimos colméias e falamos com o apicultor acerca das características curativas do mel. Inspecionamos um pequeno dique e um moinho.

 

Paramos numa das aldeias maiores, um grande recinto fortificado com uma poderosa muralha exterior de estacas, fechando a aldeia e o pequeno forte. Ali, um dos clientes livres de Eamonn, que era o chefe da comunidade, serviu-nos uma refeição de cerveja, pão e carneiro cozido com alho e permitiu-nos que descansássemos um pouco.

 

— Estás a coxear — observou Eamonn quando me sentei num banco e desapertei um pouco a bota. — Magoaste-te?

 

— Não é nada. — Não consegui evitar a brusquidão na voz. E odiei-me por me preocupar tanto. Não usaria o Encantamento para retificar a situação. Não depois daquela vez na feira. Não depois de Maeve.

 

— Tens a certeza? Talvez seja melhor regressarmos imediatamente. Não quero que te canses.

 

— Já disse que não é nada. Tenho um pequeno problema no pé, mais nada. Coxeio um pouco. Não tinhas reparado?

 

Eamonn abanou a cabeça ligeiramente e sorriu. Em seguida voltou a trocar notícias sociais com os seus anfitriões.

 

De regresso da aldeia, Eamonn falou em voz baixa com um dos seus homens de armas. Em seguida, foi ter comigo.

— Gostarias de ver a cascata? — perguntou ele. — Deve estar bem grossa depois desta chuva toda. Não estás muito cansada?

 

Abanei a cabeça.

 

— Ótimo. É do outro lado do monte, para oeste.

 

Enquanto cavalgávamos nessa direção reparei que todos os guardas que nos acompanhavam, menos dois, tinham ficado para trás, aparentemente instruídos para esperarem onde estavam até ao nosso regresso. O caminho subia cada vez mais sob os ramos nus e entrelaçados dos vidoeiros e dos freixos e desembocava numa encosta aberta e rochosa. A minha pequena égua escolhia, com cuidado, o caminho pelo carreiro acima. Por cima de nós, o céu de Inverno estava sem nuvens, uma enorme tigela invertida de um azul-profundo e eu apercebi-me de uma enorme extensão à minha direita de campos, árvores e muros de pedra e, mais além, para leste, um escuro manto de árvores que marcavam a fronteira com Sevenwaters.

 

— Não olhes ainda — disse Eamonn por cima do ombro. Fiquei um pouco alarmada devido a encosta do monte ser íngreme de um lado do carreiro e abrupta do outro, porque só podia confiar no instinto da minha montada. A ansiedade afastou outros pensamentos da minha mente e foi somente quando o som da água que se precipitava se transformou num rugido aos meus ouvidos e o carreiro se alargou, transformando-se numa larga plataforma relvada rodeada por grandes rochedos, que me apercebi de que os últimos guardas tinham sido deixados para trás. Eamonn ajudou-me a descer do cavalo e pareceu-me que as suas mãos se demoraram na minha cintura além do estritamente necessário.

 

O ruído da água estava por toda a parte, ecoando pelas paredes de rocha, martelando-nos os ouvidos, vibrando no solo onde nos encontrávamos. Havia espuma no ar e, sobretudo, uma umidade que tudo cobria.

 

— Vem ver — disse Eamonn elevando a voz para poder ser ouvido por cima do ruído. — Mas tem cuidado. O piso está escorregadio.

 

De pé, num local especial, sobre a escorregadia superfície de pedra, mesmo à beira da plataforma, era possível vê-la. A queda de água estava mesmo ali, cerca de dois metros acima de nós. Podíamos observar a descida repentina e violenta, um véu rodopiante de água rebentando e salpicando por ali abaixo até uma lagoa invisível lá muito no fundo. A escarpa era suavizada por fetos, musgos e pequenas plantas que se agarravam à sua superfície fendida e estalada. Olhei para a torrente que descia e espumava e lembrei-me da plataforma no rochedo acima do Favo de Mel e da minha mãe a dar um único passo para o vazio e cair, cair através do ar impiedoso de encontro aos rochedos e às vagas alterosas em baixo. Pensei na arte e no truque que aprendi com a bola de vidro. Cai. Pára. Desce suavemente. Ninguém parara a sua descida. Nenhuma mão se esticara para a apanhar suavemente na palma e pousá-la docemente no chão. Eis a tua segunda oportunidade. Revive a tua vida. Em vez disso, fora-lhe permitido partir. Talvez o objetivo dela já tivesse sido cumprido. Ser o brinquedo de um homem rico. Quebrar o coração do meu pai. Dar à luz uma filha cuja mente estava tão confusa e infeliz como a dela. Uma vez isso feito, que importância tinha se ela esmagasse o seu pobre, belo e frágil corpo nos rochedos do Favo de Mel?

 

— Fainne!

Talvez tivesse fechado os olhos. Talvez tivesse cambaleado, ou meu pé defeituoso tivesse deslizado um pouco na superfície traiçoeira. Quando Eamonn me chamou, senti de novo os seus braços em redor da minha cintura, agarrando-me firmemente e puxando-me para trás.

 

— Cuidado — disse ele abruptamente — não me assustes.

 

Mas, quem agora estava assustada era eu. Pois ele não me largava, agora que estávamos de novo em segurança na relva. As suas mãos continuavam a segurar-me com força e ele estava muito próximo, tão próximo que eu sentia o calor do seu corpo e ouvia a sua respiração por cima do som da água.

 

— Não quero perder-te, agora que te encontrei — disse ele suavemente.

 

— Eu... eu não sei o que queres dizer — murmurei. Eu só queria afastar-me e libertar-me das suas mãos. Mas receava ofendê-lo. Eamonn virou-me de modo a encará-lo.

 

— Pensei... por um momento pensei... não, esquece o que eu disse.

— Pensaste que eu ia saltar?

 

— Cair, talvez. Creio que hoje estás pouco firme.

 

— Já te disse, não é nada.

 

— Estou preocupado por te ter exigido demasiado. Deixa-me ver esse pé. Talvez possamos improvisar uma almofada para a bota, ou...

 

— Já te disse. Não é um ferimento. O meu pé é defeituoso, sempre foi. Nunca hei de andar como as outras pessoas.

 

— Mostra lá. — Ele tirou as mãos da minha cintura e sentou-se na rocha de braços cruzados, observando-me calmamente.

 

— Eu... — Como poderia dizer-lhe que aquela era a coisa mais dolorosa que alguém me podia pedir para fazer? Como poderia explicar-lhe como me sentia envergonhada por mostrar a minha deformidade? Clodagh tinha razão, esta era a marca de uma criança que nunca devia ter nascido. E o homem mal me conhecia. Não compreendia nada.

— Por que tens medo, Fainne? — perguntou Eamonn em voz baixa.

 

— Eu não tenho medo — respondi bruscamente e, de mãos trêmulas, desatei a bota e tirei-a do pé. Enrolei a meia e coxeei até junto dele para me sentar a seu lado. — Pronto — disse eu abruptamente. — Não imagino porque queres ver isto. — As minhas faces estavam vermelhas de vergonha.

 

Então, ele ajoelhou-se a meu lado e as suas mãos moveram-se de encontro ao meu pé nu, parecendo não se importar com a sua estranha forma, afagando a curva, seguindo-a, os dedos movendo-se, quentes e fortes, para me rodear o tornozelo.

 

— Isto não é uma deformidade que cegue um homem aos teus outros encantos. Mas vejo que estás preocupada — observou ele olhando para o pé, apesar de a sua mão parecer estar a subir pela minha perna, sob a saia, de um modo que me era bastante perturbador — que pareces diferente, hoje. Mais distante. Como um animal prestes a fugir. Estás assustada, Fainne? Já te disse, sou um bom professor. Serei meigo contigo e não me precipitarei. Não há necessidade de te afastares com medo.

 

A sua mão continuava a mover-se, afagando-me a canela, levantando a saia, subindo como que por acaso até ao joelho e mais acima ainda.

— Eu... eu...

 

— Estás com medo. — Eamonn retirou a mão e sentou-se de novo a meu lado, mas mais perto. Esperava que o meu suspiro de alívio não fosse demasiado audível. — Não tenho pressa. Só que... tens de compreender que nós, homens, somos precipitados nestes assuntos, temos uma... uma necessidade que é difícil de controlar. Por vezes, pode ser doloroso tentar controlar os nossos impulsos.

 

— Mas vais ter de te controlar — consegui dizer com a voz trêmula de nervoso.

 

— Podes encontrar-te comigo a meio caminho.

 

— Não... não te estou a compreender.

 

— Não? Certamente percebes o que te estou a dizer, Fainne. As tuas palavras e os teus olhares levaram-me a acreditar que não és avessa às minhas atenções. Não negues. Desde que te conheci, em Sevenwaters, que o vejo no teu rosto e nos teus misteriosos olhos escuros. No levantar das tuas sobrancelhas, na maneira como inclinas a cabeça e na maneira como o teu corpo se bamboleia quando andas. Um homem teria de ser monge para não te desejar. Um homem teria de ser louco para não tocar nessa pele branca como a neve, não sentir a pureza desse corpo contra o seu, não olhar para ti deitada na sua cama apenas com a chama escura do teu cabelo escondendo-te a nudez e não saber que serias só dele, uma jóia brilhante a não partilhar com ninguém. Não tenho forças para negar esse desejo, Fainne; tenho de to afirmar, quer tenhas medo, quer não.

Fiquei incapaz de responder. O meu coração batia fortemente com o choque. Fizera tudo aquilo sem sequer tentar? Fizera-o sentir daquela maneira sem sequer usar o Encantamento? Entendera mal, certamente, as suas palavras.

 

— Choquei-te e peço-te desculpa. Mas, aqui, não há olhares curiosos nem ouvidos abertos. Falaste-me com muita franqueza. Pareceu-me dizeres que era altura de esquecer; altura de continuar. Não sei se consigo, Fainne. Mas tu podes ajudar-me. Contigo, posso começar a apagar o passado.

 

— Eu... eu não creio que... — Tinha cruzado os braços com força no peito, como que para evitar fazer qualquer coisa de que me iria arrepender para sempre.

 

— Pronto. Dou-te a minha palavra. Não farei nada de que não gostes. Só tens de me dizer e eu pararei. Mas não podes mentir-me. Sei que me desejas. Vejo-o no modo como coras, como uma labareda repentina sob a pele transparente do teu rosto. Sinto o desejo na tua respiração.

 

Ele tinha muita prática. Antes de eu poder dizer uma palavra já estava presa nos seus braços, as minhas mãos contra o seu peito, as minhas pernas sobre as suas, de modo que estava quase sentada nos seus joelhos e recebia um beijo que me pareceu bastante perito, se bem que eu não tivesse qualquer termo de comparação. Foi um beijo que começou gentilmente e se tornou, pouco a pouco, duro; um beijo que começou com um encontro suave de lábios e se transformou numa úmida e íntima sondagem de línguas, um beijo esfomeado, sugestivo, que me deixou sem respiração e a tremer. Sob a minha mão, o seu coração batia com toda a força e as suas moviam-se de modo experiente, uma nas minhas costas segurando-me contra si e a outra na minha coxa. Havia sensações estranhas no meu corpo nas quais eu não queria pensar e o toque dos seus dedos fez-me arfar e estremecer.

 

— Oh, Fainne — disse ele. — Aproxima-te. Põe as tuas mãos em mim, meu amor. Põe a tua mão aqui, deixa-me mostrar-te.

 

E, subitamente, os ensinamentos da minha avó deixaram de me ajudar. Na verdade, estava tão chocada que mal me conseguia lembrar de uma única palavra acerca deles. Sabia apenas que aquilo era errado. Era tão errado que, simplesmente, não podia deixar que acontecesse. Gritar ou lutar seria um sinal de indisciplina e ofensa. Concentrei-me; fiz um esforço para tratar aquilo como um quebra-cabeças a ser resolvido, enquanto as suas mãos me acariciavam o corpo e os seus lábios me beijavam os ouvidos, o pescoço e desciam na direção dos meus seios. Sentia, sob a minha mão, a parte do seu corpo que ele queria que eu tocasse. Era interessante o modo como mudava entre os meus dedos. Não era totalmente ignorante acerca daqueles assuntos apesar da minha educação estranha. Uma vez, na enseada, vira uma égua que tinha ido ao garanhão; observara o ato com grande admiração e decidira que não devia ser uma coisa muito agradável, pelo menos para a égua.

 

Apercebera-me, no acampamento de Dan Walker, de encontros secretos pelos cantos, sob os cobertores, ou na noite, sob as árvores; de sons e movimentos que aprendi a ignorar. Mas agora, com o corpo de Eamonn contra o meu, a sua respiração cada vez mais apressada e descontrolada e a sua mão desapertando-me o corpete para mostrar os meus seios ao sol de Inverno, sabia que tinha de o fazer parar.

 

Eamonn estava a desapertar o cinto e fazia pressão contra a minha mão. Fosse qual fosse a solução, tinha de ser rápida. Podia usar a arte como antes, causando-lhe uma dor lancinante nos intestinos, uma súbita fraqueza no estômago. Mas isso parecia-me um pouco cruel; e suficientemente arbitrário para ser visto de maneira suspeita.

 

Eu já estava no chão com todo o peso do seu corpo em cima de mim e as suas mãos extremamente insistentes. No outro extremo da plataforma a pequena égua relinchou suavemente. Cavalos. Algo acerca de cavalos. Se, ao menos, conseguisse pensar por uns momentos. Um garanhão não podia levar a cabo o ato, não podia entrar na égua, se o seu equipamento deixasse de ter desejo e se transformasse numa espécie de ferramenta. E que ferramenta impressionante. Evidentemente, com o homem acontecia o mesmo. E, se bem que não conhecesse um feitiço específico, podia adaptar um rapidamente; um feitiço que modificasse a forma das coisas, que transformasse o mole em duro, por exemplo, ou o duro em mole. Mas não repentinamente; para que não houvesse suspeitas.

 

— Eamonn arfei não posso fazer isto. Não está certo. Eu sempre... eu sempre disse que esperava. — Com a respiração ofegante, murmurei o feitiço enquanto a minha mão tocava aquela parte mais íntima do seu corpo. — Que esperava até me casar. — O feitiço parecia estar a funcionar com uma rapidez alarmante. Vi a expressão no seu rosto mudar de uma intensa excitação para o espanto primeiro e depois para uma aguda mortificação. Afastou-se rapidamente da minha mão.

 

— Desculpa — disse eu. — Sei que isto deve ser muito difícil para um homem.

 

— Na verdade — disse ele após um momento ou dois. — Na verdade.

 

— Eu... eu não posso fazer isto — disse eu sentando-me e começando a compor o meu vestido com dedos trêmulos. — Fui educada a acreditar que este ato é sagrado na cama matrimonial. Para uma mulher, quero dizer. Não quero ofender-te, ou... provocar-te qualquer angústia. Mas fiz o voto de nunca me entregar a um homem antes de ele ter metido a aliança no meu dedo.

 

Eamonn parecia estar a ter alguma dificuldade em acalmar a respiração.

 

— Desculpa — repeti.

 

— Não. Eu é que peço desculpa. Exigi demasiado de ti e demasiado cedo. Esqueci-me que és muito nova. Mas tu fizeste-me esquecê-lo, Fainne.

 

— Não tive qualquer intenção...

 

— Ah. Agora não me estás a dizer a verdade. Porque penso, do fundo do meu coração, que falamos a mesma linguagem, tu e eu. Vem, é melhor regressarmos a casa. Talvez tenhas percebido mal.

 

— Percebido mal o quê?

— A minha posição. As minhas obrigações. As minhas intenções ao convidar-te para Glencarnagh.

 

Senti-me humilhada, logo a seguir furiosa, e falei sem pensar.

 

— É melhor seres franco, Eamonn. Por que razão te darias ao trabalho de me proteger velando a verdade? Queres dizer que pensaste que eu viria e me entregaria a ti, sentindo-me honrada por um grande homem como tu se dar ao incômodo de se deitar comigo? Queres dizer que a tua intenção era apenas ir para a cama comigo, mais nada? Um homem gosta de ter uma virgem de vez em quando, não gosta? — Conseguia manter a voz firme. Esse meu descontrolo perturbava-me. Pensava que tinha sido esperta com o meu pequeno feitiço. Mas agora sentia-me reles, suja e, pior ainda, tinha sido insultada. Não gostaria de ter aquele homem como inimigo.

 

Mas tinha-o, também, subestimado. Fazia-o um homem mais simples do que era na realidade.

 

— Ficas muito bonita quando te zangas — disse ele calmamente, olhando para mim. — Teu cabelo parece que está em chamas. Os teus olhos brilham de fúria. Como pode um homem olhar para ti e não te querer? Tu és perigosa, Fainne. Muito perigosa. Mas eu sempre gostei de desafios. Aproveitemos o passeio de volta a casa, porque está um dia lindo. Nada está acabado entre nós. Somos ambos parecidos, tu e eu. Falaremos disto mais tarde. Estou certo de que encontraremos espaço para... negociarmos.

Eamonn ajudou-me a subir para a égua e começamos a descer o monte comigo à frente desta vez. Os homens de armas estavam à espera. O tempo que estivéramos ausentes não fora muito. Conseguia imaginar como eles o interpretariam. A minha reputação, entre aquela gente, não melhoraria. Ao pensar nisso, senti-me enjoada.

 

— Como te disse, — a voz de Eamonn veio das minhas costas, apenas audível por cima do rugido da grande cascata — não gosto de perder. Mas, no fim, verás que isto é um jogo em que ganhamos ambos.