A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 11 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Onze

 

A minha mente começou a trabalhar muito depressa. A minha avó apareceria se pensasse que eu era muito lenta, disso tinha eu a certeza. Tinha de agir primeiro.

 

Tinha de me antecipar à sua visita. Tinha de ser eu a chamá-la, apesar de a perspectiva de ela aparecer em Sevenwaters me arrepiasse. Tinha de assumir eu o controlo; demonstrar-lhe-ia os meus progressos. Não podia ter a mínima dúvida de que eu continuava a ser a sua boneca e decidida a fazer a sua vontade. Era uma hipótese perigosa; ninguém poderia saber a verdade. Graças à deusa, Darragh estava a salvo em Ceann Na Mara, suficientemente longe para que a minha avó não se lembrasse dele. Quanto ao meu pai, confiava nas minhas decisões e apesar de esta ser a maior da minha vida, aplicava-se a mesma regra. Ele educara-me de modo a fazer as coisas sem ajuda e eu honraria os seus ensinamentos.

 

Precisava de uma razão para chamar a minha avó; um relatório era capaz de ser do seu agrado. O plano que elaborara para ela incluía espiar para Eamonn, descobrindo as informações de que ele necessitava para destruir o seu velho inimigo, aquele a quem chamavam Chefe. Tinha de arranjar algumas notícias para lhe mostrar que não tinha estado inativa. Como era que o sujeito se chamava? Bran? E não podia espiar se não me transformasse. Eram horas de exercitar a arte.

Ótimo disse uma vozinha estranha mesmo por trás de mim. Fiquei gelada ali onde estava, na semi-escuridão, junto da lareira apagada. Por um momento, pensei... pensei mesmo... mas não, aquele piar suave não pertencia de todo à minha avó.

 

— Achas? — perguntei cautelosamente enquanto o meu coração regressava lentamente ao seu ritmo normal, e virei-me para observar a criatura-mocho empoleirada na minha janela com a sua capa de penas e pequenas botas vermelhas. Devia, realmente, ter estado muito absorvida nos meus pensamentos, pois não a ouvira chegar e mudar de forma.

 

— Acho sim, Rapariga de Fogo. Vejo-o no teu rosto. Um olhar diferente. Portanto, o que vai ser? Um gato agressivo, talvez? Uma pulga? Poderias entrar em muitos sítios. Saberás muitas coisas esta noite, porque eles estão todos sentados a conversar por trás de portas fechadas. É melhor apressares-te.

 

Franzi o sobrolho.

 

— Agora lês-me os pensamentos? — perguntei-lhe, pensando se me arriscaria a confiar naquela pequena personagem que parecia saber tanta coisa.

 

Uma gargalhada parecida com um gorgolejar.

— Nós não lemos os pensamentos. Limitei-me a esperar que tu descobrisses por ti própria, mais nada. Mas estamos em toda a parte, se bem que as pessoas não nos possam ver. Vemo-lo nos teus olhos. Levaste tempo, filha única de druida, a descobrir este quebra-cabeças.

 

Parecia não haver resposta possível para aquilo, salvo, talvez, outra pergunta.

 

— Achas... achas que o meu pai tencionava...?

 

— Terias de lhe perguntar. Mas, agora, toca a andar, o tempo passa. O que é que vai ser?

 

Estremeci.

 

— Tenho que entrar sem ninguém me ver na sala onde eles estão, entrar por uma porta fechada, ficar lá o tempo que for preciso invisível e regressar para aqui sã e salva. Não pode ser um gato, isso é certo. Um animal noturno, bastante pequeno; um que possa entrar por uma greta.

 

— Uma barata? — sugeriu a criatura, prestável.

— Não, estava a pensar numa traça — disse eu com a voz a tremer, excitada.

 

— Boa idéia. Anda lá, então.

 

Lembrei-me, tardiamente, que um mocho também era um animal noturno e recordei o acampamento dos nômades e um certo predador miniatura, picando sobre a presa com as garras abertas e a boca escancarada.

 

— Espero que não tenhas vindo à procura de comida — disse eu franzindo o sobrolho.

 

— Já comi, obrigado — respondeu polidamente a criatura. — Anda lá, despacha-te. Podes fazê-lo, ou não?

 

— Nunca tentei antes.

 

— Nós sabemos. Por isso é que eu estou aqui. Para te vigiar. É sempre preciso, a primeira vez. É uma espécie de segunda natureza para a nossa espécie. Ficas avisada. Senti-lo-ás depois. Custa bastante. Certifica-te de que regressas para aqui antes de desfazeres o feitiço.

 

Primeiro passo. Era preciso criar uma imagem na mente, uma espécie de mapa do que tinha de ser feito, suficientemente simples para que até a mais ínfima das criaturas o pudesse compreender. Fechei os olhos e obriguei-me a visualizar o caminho que teria de seguir: sair do meu quarto por baixo da porta, por onde entrava uma corrente de ar gelada e seguir ao longo do corredor na escuridão até ao local onde eles estavam reunidos, uma pequena sala no topo das escadas. Retive na mente os contornos da porta, com réstias de luz passando por baixo e por cima. Teria de passar pela fenda no alto da porta e depois segurar-me a uma parede, ou ao teto, e tentar ouvir algo que pudesse convencer a minha avó de que o meu plano estava a avançar. Em seguida, revi mentalmente o regresso através da minúscula ranhura, voando rapidamente ao longo do corredor, pousando na minha porta e passando por baixo. Tinha de fixar o plano antes de começar, assim como o feitiço para regressar à minha forma. Tinha de fixar essas duas coisas, assim como a percepção de mim própria, ou ficaria perdida para sempre na outra forma. O meu coração batia com toda a força, com a ansiedade. Tinha de fazer aquilo. Tinha de fazer aquilo.

 

— Agora — disse a criatura-mocho.

 

Segundo passo. Pensei no animal, na traça. Senti a forma, a leveza e a alteração de equilíbrio, de modo que, em vez do plano acima e abaixo, chão e teto, havia simplesmente diferentes espécies de planos e diferentes espécies de contato. Senti a força das asas e o estranho aumento da luz. Senti a minha consciência diminuir, alterar-se e concentrar-se em algo muito mais simples e direto. Murmurei as palavras na mente e transformei-me.

 

Por um momento senti apenas um pânico cego. Não conseguia despegar as patas das asas, os olhos não funcionavam como deve ser e andei em círculos no chão, tropeçando, caindo e batendo as asas à toa.

 

Porta disse uma voz e eu assustei-me, mas senti, algures, que havia um plano e compreendi que devia segui-lo. Voei erraticamente na direção da minúscula fenda de luz e passei por baixo da porta. Luz. Calor. Era o que eu queria. Queria luz e lá estava ela, por cima de mim, não muito longe. Voei, agora mais ousadamente, atraída pelo seu brilho, sabendo que tinha de voar na sua direção, que tinha de me aproximar...

 

Não, Rapariga de Fogo. Isso não. Lembra-te de quem és. Lembra-te do plano.

 

A voz. Tinha de prestar atenção à voz. Mas a luz estava ali. A luz chamava-me com tanta força...

 

Queimas-te se voares para a lanterna. Segue o plano. Não te percas. Algures, o sentido do ego, lá muito no fundo, o treino do meu pai. Eu era Fainne, filha de Ciarán. Aquela forma, como traça, era apenas uma concha e eu tinha de ignorar o modo como ela me empurrava na direção daquele brilho e daquele calor. As minhas frágeis asas transportaram-me ao longo do corredor, por cima da tentadora chama da lanterna. Não conseguia ver o meu estranho companheiro; talvez a criatura tivesse ficado fechada no meu quarto. Mas a sua voz continuava a guiar-me.

 

Muito bem, Rapariga de Fogo. Não percas a consciência. Não te entregues a essa outra mente, ou não passarás de parte da próxima refeição de um mocho. E agora, entra.

Chegara à entrada da pequena sala do conselho. Havia apenas o espaço suficiente para eu rastejar por entre a porta de carvalho e a soleira. No lado de dentro havia luz; duas lanternas e algumas velas. Aquelas luzes chamaram-me do mesmo modo que um ribeiro de água límpida chama um homem sedento após uma longa jornada. Com um esforço de vontade, agarrei-me à parede junto da porta. A minha visão era estranha: não havia cor, apenas luz e escuridão e podia ver em redor, não em frente.

 

Não conseguia interpretar o que os meus olhos novos me mostravam; para o conseguir, precisava de aprender a ver de novo. Concentrei-me na audição e, com um esforço, consegui separar as vozes de Conor, de Sean, de Liadan e, para minha surpresa, de Johnny. Ocorreu-me que devia a Johnny o fato de a conversa decorrer em voz alta. Não fora a sua presença e os restantes teriam usado a voz da mente, conduzindo a conversa em silêncio total. Só um vidente seria capaz de compreender o que se passava naquele conselho.

 

Era difícil ouvir e mais difícil ainda compreender. Uma parte de mim só ouvia sons, sons de perigo e outra parte só via e sentia escuridão e luz: a escuridão de predadores invisíveis escondidos nas sombras e o apelo forte, maravilhoso, tremulo, da luz em cima da mesa. As palavras, o plano, Não me podia perder. O plano era escutar, porta, voar, porta, segurança. Depois, o feitiço do regresso. Primeiro, escutar.

 

— O que quer dizer que não posso adivinhar — dizia Conor solenemente, como se tivesse chegado ao fim de uma narrativa. — Tremo só de pensar nas influências que terá sofrido. A questão é, que fazemos agora?

 

Seguiu-se um breve silêncio.

— Está a dizer-nos — o tom de Sean era cuidadoso — que acredita que Fainne veio para Sevenwaters como emissária de Lady Oonagh? Isso parece-me fantasista, não consigo acreditar. Nunca concordei com as suas dúvidas acerca dela. Ela é boa rapariga. Aisling fala muito bem dela. Teve, apenas, uma educação estranha e é um pouco tímida e desajeitada, mas mais nada.

 

— Estás a esquecer-te da magia. — A voz de Liadan era fria. — Nós vimos. Ela é forte; forte e capaz, tal como o pai. E é típico de Lady Oonagh, não é, tio, procurar fazer-nos mal usando como arma uma criança que desejamos ter conosco há muito tempo, que desejamos amar? A filha de Niamh. É uma crueldade, na verdade, e tem o selo indiscutível dessa feiticeira. Não disseste que Fainne sabe conjurar o fogo com os dedos? Isso não te diz nada?

 

— Estás a sugerir... mas isso é absurdo, Liadan! — Sean murmurou em tom chocado. Eu aproximei-me para ouvir melhor, passando da parede para o teto e ficando de cabeça para baixo na sombra. Em baixo, um dos grandes cães de Sean torceu as orelhas e começou a rosnar baixinho, sinistramente. Pressenti o movimento precipitado de outras criaturas pequenas junto de mim; senti um súbito terror sem perceber a causa.

 

— Isso é impossível, mãe. — Johnny falou com absoluta confiança. — Eu vi Fainne com as crianças. Ela adora-as. Devia ouvi-la a contar histórias, ou vê-la à cabeceira de Maeve. Não há nela qualquer maldade: na verdade, o que há nela é uma enorme simplicidade, que torna essa idéia impensável.

 

Liadan suspirou.

— Tu não sabes. Mas Conor pode dizer-te que Lady Oonagh era assim, não pode?

 

— Não exatamente — disse Conor lentamente. — Nós nunca confiamos na feiticeira, nem no primeiro momento, quando o meu pai a trouxe para Sevenwaters como sua noiva. Mas ela tinha um certo encanto; uma espécie de Encantamento, que usava para convencer as pessoas de que era pura e bem-intencionada; para as apanhar na armadilha. O meu pai foi enfeitiçado assim, assim como o meu irmão Diarmid. As feiticeiras têm essa capacidade. Mas não resulta com pessoas como eu, ou como Liadan. Mas contigo, filho, ou com Sean, é possível.

 

— Não pode ser — disse Johnny, nada convencido. — Eu posso não ser vidente, mas sei ler o caráter no rosto de um homem, ou de uma mulher. Fainne está confusa, assustada; a verdade é essa. Por baixo, não passa de uma criança inocente. De que é que têm medo?

 

— Eu digo-te — disse a sua mãe numa voz estranhamente constrangida. — Há muito tempo, foi-me dada uma oportunidade. Os Fair Folk vieram ter comigo e ordenaram-me que ficasse aqui na floresta para que o meu filho ficasse ao abrigo da influência da feiticeira. Conor pode confirmá-lo; ele deu-me o mesmo conselho. Chegaram a dizer que a profecia não se cumpriria se eu não fizesse o que eles exigiam.

 

— Mas a mãe desobedeceu — disse Johnny. — Porquê?

— Na ocasião, pareceu-me não ter outra hipótese. Ou te mantinha a salvo, ou punha em risco o teu futuro e o futuro de Sevenwaters, da floresta e das Ilhas. Muitas pessoas não compreenderam o que fiz. E havia Bran. Ele não podia ficar aqui comigo, na floresta. Para proteger o meu filho, teria de afastar o homem que faz parte de mim; negar-lhe o próprio filho. Não podia fazer isso. Desafiei as ordens deles e virei costas a Sevenwaters. Fui contra os conselhos de Conor. E foi por causa da minha intervenção que Niamh escapou ao marido e fugiu com Ciarán. Se não fosse isso, Fainne não existiria. Eles avisaram-me. Os Fair Folk disseram-me que... que... não consigo dizê-lo por palavras. Esperava nunca ter de falar disto, Johnny. Nunca contei nada disto ao teu pai.

 

— Está a dizer que a presença de Fainne é, de algum modo, uma ameaça para mim? Para a minha segurança? — Johnny estava estupefato. — Como é isso possível, mãe?

 

— Lady Oonagh tentou, em tempos, dominar Sevenwaters — disse Sean lentamente. Então, foi derrotada pela força da minha mãe; pela força humana. Pode ser que tenha tentado de novo através de Ciarán; e agora tenta mais uma vez através da filha dele.

 

— A minha mãe acredita nisso. Quando Niamh e Ciarán puseram os olhos um no outro pela primeira vez nesta casa, ela viu a mão de Lady Oonagh estender-se para nós uma vez mais. Ela acredita que aquela mulher vai continuar a estender as garras, geração após geração, até a profecia se cumprir e tudo se componha. É capaz de ser verdade. Se Lady Oonagh continua viva, deve continuar a mover-se por entre nós, tentando contrariar-nos, porque a nossa campanha, no próximo Verão, pode muito bem ter sucesso. Mas se não tivermos o Filho da Profecia, estamos condenados.

 

— A rapariga anda perturbada — disse Conor. — Ela tem muito do pai, da sua inteligência e da sua sensibilidade. Se não fosse esta loucura por causa de Eamonn e da pressão que temos sobre os ombros, gostaria de lhe ganhar a confiança e convencê-la de que os seus poderes podem ser para o bem apesar do que lhe foi ensinado. Não me parece que Fainne esteja inclinada para o mal.

 

— Desculpe-me, tio, mas penso que os seus sentimentos o fazem esquecer a verdade — disse Liadan com firmeza. — O tio sentiu muito a perda de Ciarán; nunca mais encontrou outro com os mesmos talentos e a irmandade está a degenerar. Não confie demasiado, não veja em Fainne unicamente o que quer ver.

 

A resposta de Conor foi imediata.

 

— Ela salvou Sibeal. Ela é filha da tua irmã e só tem dezesseis anos. Que queres que eu faça?

 

— O bom senso diz-me que devemos mandá-la para casa — disse Liadan firmemente. — Que Ciarán se responsabilize por ela, já que preferiu educá-la no conhecimento das artes dos feiticeiros e a expôs à influência da mãe dele.

 

— Creio que não podemos fazer isso — disse Sean com autoridade. — A minha sobrinha está assustada; vi isso quando lhe disse que devia pedir autorização a Ciarán para casar com Eamonn.

— Tu o quê? — A voz da sua irmã soou chocada.

 

— A idéia é repugnante, reconheço; mas a experiência ensinou-me umas coisas. Não lhe podia recusar o pedido sem uma explicação. Ela recusou mandar uma mensagem ao pai. A rapariga anda aterrorizada por uma razão qualquer; aterrorizada pela perspectiva de entrar em contato com ele.

 

— Mas não está com medo dele — acrescentou Conor calmamente. — Ela fala dele com grande lealdade e respeito.

 

— Eu não a mando para Kerry — disse Sean num tom que indicava que a decisão estava tomada. — Contra a vontade dela, não. Não sabemos quais são as forças que estão em campo. A mim, custa-me acreditar que Fainne queira fazer-nos mal, mas confio no teu julgamento, irmã. Não quero pôr em risco a nossa campanha, ou a nossa família.

 

Liadan ficou silenciosa.

 

— Só há uma solução, então. — Johnny falou com grande confiança.

— Levamo-la conosco para o Norte. Pomos Eamonn polidamente de fora; dizemos que a sua pretensa noiva quer esperar pela aprovação do pai e que Ciarán não pode ser contactado neste momento. Entretanto, afastamos Fainne e tudo fica bem. Não lhe faltarão pretendentes entusiastas em Inis Eala e todos eles mais novos e mais prometedores do que Eamonn de Glencarnagh, apesar de menos dotados de bens materiais. Ela esquece-o depressa.

 

— Não ouviste nada do que eu disse — disse Liadan com ar cansado.

 

— Eu ouço sempre, mãe — disse Johnny com um sorriso na voz. — Até faço uma aposta consigo, se quiser. Aposto que sou suficientemente grande e forte para ficar fora de perigo, com feiticeira ou sem feiticeira. Que tal? Além disso, se acha que Fainne está confusa, ou assustada, há algum lugar melhor do que Inis Eala para ela encontrar equilíbrio? Se ela quer respostas, é lá que as encontra, certamente.

 

— Lady Oonagh tentou matar-te, uma vez.

 

— E eu estou aqui, não estou? — disse Johnny alegremente.

 

Enquanto escutava com toda a concentração possível, esquecera-me, por momentos, que era ao mesmo tempo uma traça e uma rapariga. Aproximei-me, mas um dos pés ficou preso em algo, tentei soltá-lo e as pernas ficaram-me, subitamente, enredadas. Bati as asas, lutando por me libertar, mas a teia pegajosa apertou-se em redor das asas palpitantes e das pernas frágeis sem que eu pudesse quebrá-la. Nas trevas, por trás de mim, pressenti uma presença, esfomeada, à espera.

A parte de mim que continuava a ser a Fainne, disse-me: teia, aranha. Liberta-te, depressa. A parte de mim que continuava a ser uma traça estava paralisada por um terror cego que me mantinha presa, ao mesmo tempo que batia as asas num esforço frenético, fútil. A presença aproximou-se, movendo-se como uma bailarina nos delicados fios.

 

Depressa! disse a voz do meu guia coberto de penas, enquanto eu sentia a morte nas minhas costas. Um salto rápido, curto. Depressa!

 

Puxei para um lado, usando todo o peso do meu corpo, leve como era, batendo as asas o mais que podia, ao mesmo tempo que a aranha fazia um súbito ataque na minha direção e, por fim, consegui libertar-me descendo em espiral, descontrolada, ainda com fragmentos pegajosos de teia agarrados às pernas. O meu vôo disparatado levou-me até junto da lanterna; quente. Caí na direção da mesa e aterrei de costas; senti de novo a morte muito perto. Os cães começaram a ladrar. Uma grande mão pegou em mim; e uma outra aproximou-se, aprisionando-me. Lutei e bati as asas, até que consegui pôr-me de pé. E esperei pelo esmagamento final.

 

— Pobre coisinha — disse Johnny. — Não sabe para onde há de ir.

 

Senti um movimento, as mãos abriram-se e eu rastejei para longe do calor da pele humana para as pedras junto da soleira da porta, nas sombras. Tendo-me libertado, o meu primo voltou para a mesa e com a minha estranha visão de inseto pensei vê-lo pousar uma mão tranqüilizadora no ombro da sua mãe.

— Está combinado, portanto — disse ele enquanto eu me escapulia pela fenda entre a porta e a soleira e fugia pelo corredor, por cima da aura de luz da lanterna, até alcançar a minha própria porta. Rapidamente para baixo e sob a porta. Salva. Descansar.

 

E agora o feitiço. O meu companheiro do Outro Mundo estava empoleirado na janela; senti as pequenas botas vermelhas não muito longe de mim e a ameaça dos seus duros tacões. Mas não queria mexer-me. Estava escuro; podia ficar ali quieta. O feitiço. Ainda não acabou. Diz as palavras, Rapariga de Fogo. Debilmente, recomecei a pensar: o feitiço, o plano. Porta, voar, porta. Escutar. Porta, voar, porta, salva. O feitiço. Algures, bem lá no fundo, estavam as palavras do contrafeitiço e eu chamei-as no silêncio da minha mente de traça, palavras que pareciam não ter qualquer significado, apenas poder. À minha volta, o quarto oscilava e mudava de forma; começaram a aparecer umas cores difusas, o dourado da lanterna, o castanho-avermelhado de um vestido estendido em cima da cama e o verde e carmesim de uma grinalda sagrada que Clodagh atara por cima da minha janela para dar as boas-vindas aos espíritos de Meán Geimhrídh, O quarto desvaneceu-se e iluminou-se, desvaneceu-se e iluminou-se; a figura da criatura mocho flutuou em frente dos meus olhos. Olhei para baixo e vi que era eu de novo.

 

Olhei para cima e à minha volta a vela, a janela e a criatura-mocho mexeram-se e oscilaram ao mesmo tempo. Em seguida caí, e ficou tudo escuro.

— Nunca discuti com o teu pai acerca de um ponto de estratégia e não o vou fazer contigo. Os homens contam contigo para que tomes as decisões certas, e eu também. — Aquela voz entrou na minha consciência enquanto vinha lentamente a mim. Mantive os olhos fechados. Estava na cama, aconchegada por baixo dos cobertores e ouvia o estralejar do fogo na lareira. Um cheiro delicioso; uma bebida de ginja e cravo-da-índia. Tinha dores no corpo todo. Pensei que era melhor adormecer de novo...

 

— Além disso — desta vez era a voz de Johnny lá no fundo, — a mãe quer que ela vá. Vejo-o por trás dessa atitude austera. Tem de concordar que Fainne é uma rapariga encantadora, filha de feiticeiro ou não. Não vê como ela pode brilhar, como uma pequena lâmpada, na nossa austera casa de homens?

 

— A mãe dela, certamente, atraiu-os como a chama atrai as traças — disse Liadan retorcidamente. — Mas, na verdade, por vezes penso que estou outra vez na presença de Niamh, teimosa, espinhosa e ao mesmo tempo uma rapariga fácil de amar. Leste bem os meus pensamentos, filho. Gosto muito dos meus quatro filhos; mas sempre desejei uma filha. Talvez seja verdade. Talvez Fainne precise de proteção. Mas também é um risco terrível, sei isso melhor do que ninguém, salvo, talvez, Ciarán.

 

— Confie em mim, mãe. É melhor assim.

 

— Suponho que não vale a pena falar-te em perigo, como também nunca valeu a pena com Bran. O conceito de auto-proteção é desconhecido de vocês os dois. Esperava que ele se tornasse um pouco mais cuidadoso, como qualquer homem perto dos quarenta com filhos crescidos. Mas continua na frente de tudo, arriscando a pele como se tivesse tantas vidas como um gato.

 

— E não tem? — zombou Johnny.

 

— Ele não tem de ser assim. Há outros, homens mais novos, que só estão à espera de uma oportunidade. Sinto... sinto que é perigoso, Johnny. Tenho medo de vos perder aos dois.

 

— Conhece o Chefe. Ele calcula os riscos. Isto foi planeado até ao último pormenor e, apesar da idade, ele é um dos que nada melhor e conhece o terreno e o local de atracagem melhor do que ninguém. Selecionaremos os outros homens. É verdade, há perigo, mas também há perigo nos ventos e nas marés. E veja se não há homens no mar. Não podemos afundar a esquadra inimiga pela calada sem nos expormos ao perigo.

 

— Vocês serão tão poucos e longe de qualquer ajuda. Se isto se sabe, vocês ficarão tão vulneráveis como uma galinha no ninho.

 

— Pensa que não contamos com isso? Quanto à espionagem, quem acreditaria que até o Homem Pintado seria louco a ponto de tentar semelhante operação? Ninguém contorna a Needle pelo lado leste. Quanto a chegar a terra a nado, nunca ninguém o tentou antes, sendo as correntes o que são. Tais rumores seriam instantaneamente associados a fantasia.

— As tuas palavras fazem pouco para me tranqüilizar — disse Liadan. — Lembro sempre a mim própria que foi minha a escolha de te educar à imagem do teu pai; um guerreiro e um estrategista, que não sabe o que é o medo. As coisas teriam sido muito diferentes se tivesses sido educado como letrado e místico na floresta.

 

— Lamenta essa escolha, mãe?

 

— Até àquele momento, quando Conor nos disse que Lady Oonagh continua viva e nos ameaça, não. Tive muitos anos de felicidade; não sei se Bran e eu teríamos podido viver as nossas vidas um sem o outro. Sinto-me feliz com os meus filhos, a excelente comunidade de Harrowfield e os amigos de Inis Eala. Sinto-me orgulhosa de ter sido capaz de gerar herdeiros, não só para os domínios do meu pai, mas também para Sevenwaters. Mas há coisas que lamento; a dor e o sofrimento por Niamh mantêm-se no meu coração, assim como a indiferença de Ciarán pela sua família e o seu chamamento. É por essa razão que gostaria de ter a filha deles comigo, como se fosse minha. Mas agora... uma vez, há muito tempo, disseram-me: Tu queres mais do que o que podes ter. Disseram-me que havia sangue e lágrimas na minha escolha. Talvez tenha chegado a hora de eu pagar por esses anos de felicidade. Pergunta-me de novo, depois do Verão, se lamento alguma coisa.

 

— Tem saudades dele — disse Johnny docemente.

 

— Mais do que consigo pôr em palavras. A minha casa é aqui; mas o meu coração está onde ele estiver.

— Partiremos assim que Fainne possa viajar — disse Johnny.

 

Então, ouvi baterem à porta, o ranger desta a abrir-se e a voz de Clodagh. Seguiu-se uma conversação sobre se eu tinha desmaios antes e por que razão estivera doente em casa do tio Eamonn durante um dia inteiro e não vira o pônei branco. Por fim, pareceu-me seguro abrir os olhos e dar-lhes a conhecer que estava acordada.

 

Estivera inconsciente durante um dia e uma noite inteiros, disseram-me, desde que Sibeal me encontrara no chão do meu quarto, de manhã cedo, até ao dia seguinte.

 

Talvez mais tempo ainda, porque eu estava gelada quando a minha prima me descobriu e deu o alarme, se bem que estivesse tapada com um cobertor e tivesse uma almofada sob a cabeça, o que era estranho. Dormira durante as celebrações do solstício de Inverno, que Conor levara a cabo sozinho. Perdera a grande fogueira, disse-me Eilis, a cidra e os bolos. Na verdade, estava ainda tão fraca que quase não conseguia virar-me na cama. Tive uma série de pequenas visitantes e contaram-me muitas histórias. Johnny apareceu e deu-me a notícia de que iria para norte a cavalo com ele e a mãe, para conhecer a outra parte da minha família. Sibeal apareceu sozinha com Riona. Os meus protestos foram indeferidos.

 

— Já expliquei tudo a Maeve — disse-me a criança solenemente, como se fosse uma mulher mais velha — e ela concorda. Nós vamos fazer-lhe uma boneca nova. A mãe vai-nos ensinar. Tu precisas de Riona. Tens de a levar quando te fores embora.

O esgotamento continuou. Estava espantada como o esforço da transformação me exaurira, se bem que tivesse sido avisada. O corpo tremia-me e recusava-se a qualquer esforço; a mente ainda mantinha o terror do inseto indefeso, algures no interior da consciência humana. Na próxima vez, pensei, escolheria algo maior, mais forte e mais capaz de olhar por si próprio. Passaram-se três dias antes que estivesse suficientemente recuperada para continuar com o meu plano.

 

Sentei-me à lareira naquela terceira noite. Pusera de parte tudo o que pudesse ser perigoso. Riona estava no fundo da arca, junto do xale de Darragh e do minúsculo anel de fibras entrançadas. Se tivesse forças, talvez tivesse atirado fora aquelas coisas preciosas; talvez as tivesse destruído, não fossem atrair o olhar da minha avó e dar-lhe alguma idéia. Mas, filha de feiticeiro ou não, não estava suficientemente forte.

 

Quando tudo estava arrumado em segurança e a porta fechada à chave, fechei o amuleto na minha mão e concentrei-me nas chamas. Um distorcer mental tem um objetivo duplo. Liga quem está a usá-lo a quem o outorgou; prende um à vontade do outro. É também uma espécie de condutor, um olho, que se abre entre os dois quando quer. Fora assim, pensava eu, que a minha avó fora capaz de me ver de vez em quando para saber o que eu estava a fazer apesar de estar longe. Ela dissera que não me podia ver o tempo todo, apenas de vez em quando e por breves períodos.

 

Tais feitiços possuem as suas próprias subtilezas, os seus próprios truques. A ligação sempre me parecera forte quando eu tocava no amuleto, ou o segurava. Se o fizesse agora e a invocasse, ou convocasse, talvez ela viesse. Respirei fundo e abri o olho do espírito. Disse as velhas palavras e chamei-a.

 

Ela apareceu num instante; não em carne e osso, como no nosso último encontro memorável, mas ali nas brasas da lareira, um par de brilhantes olhos escuros e uma voz poderosa, exigente.

 

— Ah! Não estava à espera que me chamasses assim. Estou morta por ouvir as novidades, pequena. Conta, conta!

 

— Saí-me bem, avó. — Não consegui evitar o tremor na voz.

 

— Sou toda ouvidos. Continua.

 

— O meu plano está em prática, como lhe disse que estaria. O homem chamado Eamonn fez-me uma oferta, formalmente, em troca das informações que eu lhe possa dar. Quer destruir um outro, que faz parte da aliança. Transformei-me para obter o que ele queria. Se ele for em frente, certamente provocará o insucesso da campanha. Eles não podem vencer sem este homem a quem chamam Chefe.

 

— Tu fizeste uma transformação completa? Com sucesso?

 

— Sim, avó.

— Sem ajuda?

 

— Sim, avó. — Olhei de frente para o fogo e mantive uma expressão sincera.

 

— Estou a ver. E que informação é essa?

 

De certo modo, sabia que ela me poria à prova. Não bastava fabricar uma história.

 

No entanto, senti relutância em lha dizer; nas suas mãos, uma tal informação podia ser muito perigosa.

 

— S... significaria muito pouco para si, avó; trata-se simplesmente de algo que pode dar a Eamonn a oportunidade de fazer o que deseja. Depois de eu lhe dizer, fará o que entender.

 

Os olhos da minha avó semicerraram-se alarmantemente.

— Fainne — disse ela muito suavemente — tu preocupas-me, pequena. Pensei que soubesses qual é o resultado se tentares desobedecer-me. Mas parece que não. Queres que te mostre outra vez? — O fogo pareceu ficar mais brilhante em redor das suas feições, uma chama dourada e vermelha terrível, com exceção das brasas escuras que eram os seus olhos. Certamente que não adivinhara a verdade? Certamente não sabia que eu tencionava desafiá-la?

 

— Eu... eu não queria... — gaguejei.

 

— Diz-me, Fainne! Qual foi a informação que descobriste? Não estás a brincar comigo, pois não? As brincadeiras fazem-me pensar em crianças. As crianças adoram brincar, não adoram? Trepar, balançar, girar. Tudo coisas arriscadas, especialmente para as mais pequenas. E o teu tio tem muitas filhas; demasiadas, na realidade.

 

Eu tremia como varas verdes. Punha-me furiosa o fato de ela ter o poder de me manipular; o seu desprezo pelas crianças aterrorizava-me. Parecia que não podia fazer outra coisa senão dizer-lhe. Senti o amuleto aquecer contra o meu peito, como se tivesse algo da sua ira.

 

— Tem a ver com nadar — disse eu, tentando dar-lhe o menor número de detalhes possível. — Um pequeno grupo de homens. E é perigoso.

 

— Mais — ordenou a minha avó.

— Eles vão nadar de uma ilha para outra para afundar os navios do inimigo. Durante esse empreendimento, o homem que Eamonn despreza estará em grande risco. Tenciono dizer isso a Eamonn; deixar que ele agarre a oportunidade.

 

— Hum. Não é grande coisa. E se não der resultado?

 

— Dará, avó. E há mais. Vou para norte com a minha tia Liadan, para Inis Eala. Lá, estarei perto do centro da campanha; perto dos seus segredos. Estarei no local ideal para continuar a sua missão.

 

— Estou a ver.

 

— Não se sente contente com tudo o que fiz, avó?

 

— Há más influências naquele lugar. É antigo e cheio de mistérios. O teu pai sentir-se-ia em casa, sem dúvida. Vê lá se não acontece o mesmo contigo. Lembra-te, os únicos bons conselhos são os meus. E não tentes tirar o amuleto. Precisas dele, porque estes tempos vão ser muito difíceis para ti. Se o tirares, pode ser o teu fim.

— Compreendo, avó — disse eu em tom suficientemente doce. Na verdade, compreendia demasiado bem, porque já acontecera antes, no dia em que Darragh apareceu em Glencarnagh. Tira-o, ela saberá imediatamente e pintará a manta, obrigando-me a fazer a sua vontade com todas as armas que possui. Ela precisava de mim. Não podia fazer aquilo sem mim, isso era claro. Se bem que desejasse tirar aquele talismã sinistro, tinha de o usar até ao fim; até ao momento do conflito final. Tinha de usar o seu feitiço até ao instante em que ela soubesse, finalmente, que eu não era nenhuma ferramenta para seu uso, antes uma adversária. O que aconteceria então, não sabia, mas sabia, lá no fundo, que tinha de acontecer tudo até ao fim, como tinham dito os Anciãos; como ela própria dissera: o momento precede o acontecimento...

 

— E esse Eamonn? — perguntou subitamente a minha avó. — Como é que lhe vais dar a informação se ele está num lugar e tu noutro?

 

Não levara muito tempo para descobrir a fragilidade da minha estratégia. Tentei não mostrar o meu receio.

 

— Hei de arranjar uma maneira — disse-lhe com um tom que eu esperava ser de confiança. — Ele vai fazer parte da campanha final; há de haver uma altura em que vão estar todos reunidos. Inis Eala é a chave de tudo, avó. É lá que eu devo estar.

 

— Pareces diferente, pequena. Algo mudou. Não te esqueças. Não te esqueças do que te mostrei.

Estremeci perante a suavidade ameaçadora da sua voz.

 

— Não me esqueci, avó. E mudei. Agora que sei... agora que senti a satisfação de fazer com que um homem me deseje, agora que experimentei o poder da transformação, começo a compreender. Começo a perceber por que razão age como age; começo a compreender que ser feiticeira tem as suas recompensas.

 

— Pode ser — fungou ela, mas percebi no tom da sua voz que estava satisfeita. Acreditara em mim, portanto. Ainda bem que não estava presente de corpo e alma, ou teria farejado o meu medo. Era perigoso, o meu jogo com ela.

 

— E se não der resultado? — perguntou ela. — Sabes o que deves fazer?

 

— Vai resultar. Se não, arranjo outra maneira.

 

— Não é preciso, Fainne. Eu digo-te. É óbvio. Mas, agora, responde-me a uma coisa. Ele está aí, o rapaz, aquele a quem chamam o Filho da Profecia? Já o viste?

— Já, avó — disse eu cautelosamente, não gostando do tom da sua voz.

 

— Lembra-te — disse ela no fim, a única coisa que interessa é ele. Ele é a única peça de real valor neste jogo. O resto, o druida, o guerreiro, o chefe de guerra, a dama, estarão todos a seu lado, darão tudo por ele e morrerão por ele se necessário, para conseguirem o objetivo final. Ele está na profecia e todos contam com isso. A sua confiança vem daí, dele. No fim, tudo o que é preciso é tirar o Filho da Profecia e tudo entrará em colapso. Espera até ao último momento e faz com que ele falhe. Se não tiveres, outra vez, estômago para o matar, há outras maneiras. E tu sabes quais são. É fácil arranjar alguém que faça o trabalho sujo por ti. Como é ele? Espero que não te apaixones por ele, estás a ouvir?

 

— Não, avó. Não sou assim tão estúpida.

 

— Hum. Não sei se será verdade. Tu és muito mole com essas crianças. Suponho que é bonito; e tu és filha da tua mãe, no fim de contas.

 

— Acredite — disse eu com pouca firmeza — não me atreveria a mentir-lhe.

 

— Muito sensato, Fainne. Mas acho que gostaria de uma pequena demonstração de lealdade. Vamos fazer o seguinte. Vamos pôr esse jovem guerreiro à experiência, assim como tu. Veremos se é assim tão forte; veremos quanta dor é capaz de suportar. Será útil, mais tarde. Essa viagem para o Norte representa a oportunidade ideal. Não precisas de fazer um feitiço, neta; guarda o teu poder para o fim, porque nessa altura terás de estar no teu melhor. Eu farei o necessário. Não vou matar o sujeito, esse é o teu trabalho e virá mais tarde. Vou só brincar um bocadinho com ele.

 

Senti um arrepio pela espinha acima; era-me difícil para os seus olhos rodeados de chamas e manter o rosto calmo.

 

— Não compreendo — disse eu. — Qual é a finalidade?

 

— Já te disse, Fainne. É um teste. Um teste fácil para ti, porque não precisas de fazer seja o que for. Vais simplesmente observá-lo. Não é pedir muito.

 

Fiquei em silêncio quando percebi o significado das suas palavras.

 

— Compreendo — murmurei. — Que tipo de feitiço tenciona usar? — A minha avó cacarejou de divertimento.

 

— Precisas de me perguntar? Tu, que desfiguras crianças? Ora vamos, onde está a tua imaginação? Que usarias tu?

Aquilo era, na verdade, um teste. Mantive a minha expressão impassível enquanto o meu estômago se retorcia de repugnância.

 

— Teria de ser subtil — disse-lhe. — A minha tia Liadan é desconfiada. Se tenciona inverter o feitiço mais tarde, terá de ser algo invisível.

 

— Noites de terror, talvez — disse a minha avó encorajadoramente. — Podia enlouquecer o tipo com visitações de morte e desastre.

 

Recordei a firmeza nos olhos cinzentos de Johnny.

 

— Não penso que isso dê resultado — disse-lhe.

 

— Então? — Ela estava a ficar impaciente. — O que é que há de ser?

 

Eu sabia a resposta, se bem que não lhe quisesse dizer qual era. Pelo menos, aquilo que tinha na idéia era facilmente reversível. E para manter a confiança dela em mim, tinha de continuar a brincar.

— Uma dor de barriga — disse eu — que até pode ser natural, algo que comece como um distúrbio pequeno e aumente de intensidade. Que pretende de Johnny? Subserviência? O reconhecimento da sua fraqueza? Que espera provar?

 

Os seus lábios arquearam-se, mostrando os dentes nitidamente pontiagudos.

 

— Quanto tempo consegue agüentar — disse ela. — Mas, mais importante, durante quanto tempo és capaz de assistir sem o ajudar. Se forem ambos fortes, a conclusão final será muito mais satisfatória, Fainne. Muito mais. Na verdade, mal posso esperar para ver. Muito bem, seja uma dor de barriga; e tu perceberás o que se passa, já que te fiz, em tempos, uma demonstração. Pequenos dentes roendo a carne, uma dor que irrita os nervos e faz tremer os tendões, uma agonia que faz com que um homem ache que a morte é uma bênção. E lembra-te, não penses em fazer seja o que for, minha querida; limita-te a ver. Mais nada.

 

Acenei com a cabeça, tentando não tremer.

 

— Tu não me verás —disse a minha avó. — Mas eu ver-te-ei, Fainne. Trata de agir de acordo com as minhas instruções.

 

— Sim, avó — disse eu.

— Não te preocupes — continuou ela — eu deixo que o tipo recupere a tempo. Quero que esteja bem para tomar o seu lugar na batalha afinal. Quero que esta gente saboreie o gosto do sucesso até ao último momento. Então, tiramos-lhes a vitória, mas só então. Os humanos e os Fair Folk afundar-se-ão juntos, mesmo diante dos nossos olhos. Que momento! Provavelmente, acrescentarei uns pequenos toques da minha lavra. Não serei capaz de resistir.

 

— Farei como diz — disse eu. — E o meu plano com Eamonn vai dar resultado, prometo. Mas vou estar muito tempo longe. Provavelmente, só terá notícias minhas no fim.

 

— Eu saberei onde estás e o que estás a fazer — disse Lady Oonagh. — Eu sei sempre.

 

Nem sempre, pensei.

 

— Então, adeus — disse eu.

 

— Adeus, pequena. Tenho muita esperança em ti. Não me desapontes. Não esqueças o teu pai e esse outro que nunca está longe dos teus pensamentos.

 

— Não, avó. — Pronunciei as minhas palavras com firmeza e segurança enquanto as chamas e os olhos brilhantes se iam desvanecendo, assim como a voz demoníaca.

 

Esperei durante muito tempo e quando achei que era seguro fui à arca, tirei Riona e deitei-me na cama embalando-a como a um bebê. Não conseguia deixar de tremer, mesmo com um cobertor a tapar-me e após algum tempo levantei-me e fui até à janela para ver a neve a cair através do ar escuro da noite de Inverno. Pensei no meu pai, sozinho no Favo de Mel e disse docemente, usando a ferramenta que ele me dera para manter a coragem: concentrar-me no que foi, é e terá de ser.

 

De onde vieste?

 

Do Caldeirão do Desconhecimento.

 

Que procuras?

 

Sabedoria. Entendimento. Procuro o caminho da Luz.

 

Era uma época estranha do ano para viajar, com o tempo inclemente e os dias curtos.

Mas não fiz qualquer pergunta. Mandáramos uma mensagem a Eamonn com o texto sugerido por Johnny. Prevíamos que o destinatário ficaria pouco satisfeito com a missiva, não perdendo tempo com uma visita nem a fazer perguntas. A nossa partida, por isso, teve lugar no dia em que a mensagem foi despachada. Se Eamonn fosse a Sevenwaters, nós já não estaríamos lá. Essa suposição não foi dita por palavras, mas eu compreendi-a perfeitamente. Talvez devesse protestar um pouco. Mas a minha mente estava ocupada com outras coisas e deixei passar a ocasião.

 

Para meu espanto, as pequenas ficaram desgostosíssimas com a minha partida. Eilis chorou. Nunca pensara que a criança gostava de mim; no fim de contas, eu era uma amazona péssima. Talvez as suas lágrimas não passassem de um hábito. Mas Clodagh abraçou-me, assim como Deirdre e a expressão de ambas era lastimável.

 

— Regressa quando puderes — disse Clodagh.

 

— Vamos ter muitas saudades tuas — fungou Deirdre. — Vai ser tão aborrecido sem ti.

 

— Adeus, Fainne — disse Sibeal solenemente. — Vais ter de ter cuidado com os gatos. — Olhei para ela, compreendendo que ela tivera uma visão, talvez uma transformação. Não lhe podia perguntar o que queria dizer enquanto os outros estavam por perto, mas acenei em reconhecimento. Muirrin beijou-me em ambas as faces e deu-me um vestido macio de lã cinzenta, que disse ser bonito e muito quentinho, porque os ventos, no norte, eram muito frios. Muirrin não chorava. O aprendiz de feiticeiro da minha tia, Evan, ficaria em Sevenwaters até à campanha, já que tinha a força necessária em caso de fraturas ósseas e a capacidade cirúrgica que a minha prima não tinha. Já vira o modo como ambos se tocavam as mãos e trocavam olhares tímidos quando pensavam que ninguém estava a ver e compreendi a razão do brilho que iluminava as feições pálidas de Muirrin. Quando a Maeve, despedira-me dela em privado e a última história que lhe contei era só para nós. A imagem dos ferimentos da pequenita, e a sua coragem, estavam profundamente alojadas em mim. Usa-las-ia para me darem forças.

 

Antes de partirmos, fiz um esforço e fui à cozinha em busca da velha tia de Dan Walker, Janis. Ela estava sentada na sua cadeira junto do fogão, como sempre, como um velho guardião daquele domínio, uma espécie de espírito caseiro, velando por tudo com benigna disciplina. Era uma fantasia minha; ela não era uma criatura do Outro Mundo, antes uma simples mulher de avançada idade. A pele enrugada e as faces encovadas diziam-no; e a mão nodosa, segurando um galho seco, confirmava-o.

 

Mas os seus olhos escuros continuavam brilhantes e perspicazes

 

— Bem, pequena. Parece que te vais embora? O que é que eu digo ao nosso rapaz quando ele te vier procurar?

 

— Ele não vem — disse eu decididamente. Talvez a idade avançada desse coragem às pessoas. Ela tinha uma maneira muito própria de dizer o que tinha a dizer, por mais desagradável que fosse. — Ele sabe isso. Nunca mais vem. De qualquer modo, ele agora vive no Oeste. Já lhe tinha dito.

 

— Um nômade nunca assenta. O que é que lhe digo? Não tens nenhuma mensagem? Ou invento eu uma? Digo-lhe o que leio nos teus olhos, talvez?

— Ele não vem. Mas se... se viesse, dir-lhe-ia...

 

As palavras faltaram-me. A única mensagem que tinha no coração estava errada; não a podia dizer. Darragh devia sabê-lo; ele não podia vir atrás de mim enquanto a minha avó pudesse exercer nele a sua magia demoníaca.

 

— Se viesse — ousei dizer — dir-lhe-ia, ou antes, ordenar-lhe-ia que regressasse a casa e nunca mais voltasse. Dir-lhe-ia que ele e eu nunca serviremos um para o outro. Se vier atrás de mim só provocará dor e tristeza. Diga-lhe que eu sei tomar conta de mim própria. É melhor assim.

 

— Mais alguma coisa? — Janis cerrou os lábios enrugados e ergueu as sobrancelhas negras. Era óbvio que não ficara impressionada.

 

— E... e diga-lhe — murmurei — diga-lhe que não me esqueci. Diga-lhe que estou a tentar fazer o que tem de ser feito.

 

Seguiu-se um silêncio entre as duas no meio do ranger do espeto onde assava um flanco inteiro de carneiro, do bater dos pratos, das risadas e brincadeiras dos guerreiros enquanto usufruíam de um momento de calor e companhia, antes de regressarem aos infindáveis treinos e preparativos para a campanha.

 

— Escolheste um caminho solitário — observou Janis em voz baixa. — E ainda não tens dezesseis anos; ainda és uma criança. Um caminho longo e solitário.

 

— Já estou habituada — disse eu ferozmente. Talvez fosse a expressão dos olhos de Janis, ou a bondade da sua voz, não sei dizer ao certo. Mas fizeram-me recordar imagens do passado, de tal modo que me apeteceu chorar. — Mas tenho as recordações — disse-lhe. — E essas ficarão para sempre.

 

— Não chega para construíres a tua vida — disse Janis.

 

Cavalgamos para norte. Assim que partimos da fortaleza de Sevenwaters, Johnny tornou-se num dos guardas, o capuz escuro do uniforme tornando-o indistinto dos seus camaradas. Tudo parecia correr bem. A vozinha da minha avó mantivera-se silenciosa desde a noite em que a conjurara e soubera dos seus planos para Johnny.

 

Cavalgávamos todos ininterruptamente; ninguém mostrava sinais de doença ou dor.

Não sabia, ao certo, quando ela o atingiria, apesar de, agora, sentir o amuleto permanentemente quente no peito, sabendo, assim, que ela me observava. Os nossos guardas mantinham a sua presença silenciosa e vigilante, rodeando-nos, a mim e à minha tia Liadan enquanto atravessávamos encostas arborizadas e caminhos, florestas, lagos e riachos gelados. Conduziram-nos por caminhos estreitos e pântanos; através de desfiladeiros onde grandes aves de rapina voavam e o solo duro como pedra devido ao gelo. Acamparam conosco num lugar de pedras eretas, onde dormimos abrigados sob um antigo túmulo com símbolos secretos gravados. Nunca tiraram as máscaras, a não ser para comer. Não os conseguia diferenciar.

 

— Uma forma de proteção — explicou Liadan. — Necessária por causa das tatuagens.

 

— Se são tão perigosas, por que as fizeram? — perguntei. Liadan sorriu.

 

— Um símbolo de orgulho; de pertença. Os nossos guerreiros consideram isso uma grande honra. Nem todos são aceites no bando.

 

— Quais são os... requisitos? Sangue nobre? Feitos heróicos?

 

— Cada homem é único. Cada um tem as suas próprias qualidades. Se puder contribuir com algo, algo de que nós necessitemos, será aceite desde que passe o teste.

— Teste? Que teste?

 

— Um teste de perícia e lealdade. Varia. Encontrarás gente de toda a espécie em Inis Eala. Homens de toda a espécie; de todas as cores e credos.

 

— E mulheres?

 

— Ah, sim, também há algumas. Mas têm de ser muito especiais para viver num lugar daqueles, Fainne. Muito especiais.

 

— Tia Liadan — perguntei enquanto nos deitávamos no estranho espaço abobadado da velha sepultura. — Este lugar, por exemplo. Já leu os sinais? As inscrições?

 

Seguiu-se uma pequena pausa.

 

— Não, Fainne — disse ela com um tom de voz estranho. — Estas inscrições são de uma língua ainda mais antiga do que qualquer outra que eu aprendi a decifrar. Não consigo lê-las.

 

Parecia haver uma pergunta por trás das suas palavras.

 

— Sabe — disse eu — isto é tão antigo que ninguém o consegue decifrar. Mas eu cresci num lugar onde havia umas pedras como estas; os pedreiros do caminho do Sol foram os meus companheiros diários durante a minha infância. Eu reconheço alguns destes sinais.

 

— Eu sei que é um dos locais dos Anciãos — disse a minha tia suavemente — um lugar de grande força e magia. — Ela hesitou e depois continuou: — Eles falaram-me aqui. Os Fomhóire.

 

Olhei para ela espantada.

 

— Está a falar... está a falar das criaturas que são meio rocha, meio água, criaturas com pêlo e penas ao mesmo tempo? Esses seres pequenos que se consideram os nossos antepassados? — Devia falar com mais cuidado, mas ali, no coração da terra, pareceu-me seguro.

 

— Eu nunca os vi — disse Liadan, sonhadora. — Só lhes ouvi as vozes. Vozes profundas, vindas da terra e da água, guiando-me. De qualquer modo, nunca pensei que fossem pequenos. Sempre pensei que seriam enormes, velhos e imensamente poderosos. Eles aconselharam-me a seguir os desejos do meu coração; seguir os meus instintos. Foi aqui, neste local, que... que foram tomadas decisões de grande importância, decisões que mudaram o rumo das coisas. Já viste essa gente, Fainne, para falares deles assim, como se os conhecesses?

 

Acenei com a cabeça.

 

— Os sinais falam de uma ligação antiga. Falam de sangue e trevas. E falam de esperança. Pelo menos, isso consigo entender.

 

A minha tia olhou para mim em silêncio. A nossa lanterna brilhava suavemente na escuridão daquele espaço subterrâneo. Mais abaixo, na enorme câmara vazia, estavam instalados e já dormiam alguns dos homens de Johnny e, por isso, falamos em voz baixa. Após um momento, Liadan perguntou cautelosamente:

 

— Essa gente também te acompanha, minha querida? Achas que eles são... bons?

 

Aquela conversa estava a tornar-se perigosa. Eu não podia saber ao certo se a minha avó estava a ouvir, ou não. Aquele local parecia-me seguro; mas nenhum local era seguro enquanto eu usasse o amuleto e tirá-lo era o mesmo que chamá-la.

— Eles têm as suas próprias teorias acerca de como as coisas devem ser feitas. Mas têm o hábito de não as explicar, de me obrigarem a descobrir os significado das coisas. E consigo, como foi? Seguiu as instruções deles, ou seguiu o seu próprio caminho?

 

Liadan suspirou.

 

— Ambas as coisas, creio. Foi às ordens de outros que eu desobedeci. E tu, Fainne? Qual é o caminho que tu segues?

 

Pergunta perigosa.

 

— Um caminho solitário — disse eu. — Pelo menos, foi o que me disseram.

 

— Igual ao de Ciarán? — perguntou ela baixinho.

 

— Eu não quero falar do meu pai. — Deitei-me e tapei o rosto com o cobertor. O amuleto pesava-me; a sua forma, pequena e maligna, parecia queimar-me permanentemente, obrigando-me a recordar o olhar inquiridor da minha avó e o meu papel no jogo.

Perguntei a mim própria se ela lhe teria reforçado o poder, agora que nos aproximávamos do fim. Talvez as minhas suspeitas fossem verdadeiras. Talvez ela me temesse. Não liguei à queimadura. A dor não significava nada. O meu pai ensinara-me a resistir-lhe.

 

Em breve soube que Johnny não era unicamente um rapaz bondoso, que salvava insetos aflitos e dava a mão a crianças doentes. Era costume da nossa guarda silenciosa cavalgarem dois à frente, dois atrás, com vários nos flancos nem sempre visíveis, mas suficientemente perto para se poderem aproximar rapidamente de nós em caso de perigo. Liadan e eu vestíamos simples capas escuras, túnicas confortáveis, saias e robustas botas de Inverno. Ela montava uma égua castanha e eu a pequena égua cinzenta que Eamonn me emprestara. Liadan parecia não se importar.

 

— Essa égua é minha — disse a minha tia com simplicidade. — Um presente, mas não de Eamonn. E, certamente, não foi por culpa minha que ela ficou em Glencarnagh. Esse animal já viu muita coisa, Fainne. Coisas tristes; coisas terríveis. Acho que chegou a ocasião de a levarmos para casa.

 

Passamos por uma clareira. Estava uma manhã extremamente fria, o solo gelado e não se via um único pássaro nos ramos despidos dos espinheiros. Passávamos por um espaço onde estranhos aglomerados de pedras salpicavam a encosta do monte ao acaso, aglomerados esses que ninguém podia dizer ao certo se eram obra do homem, ou de algo mais antigo e onde as sombras invernosas transformavam essas rochas em duendes, fantasmas, gigantes e dragões. Até a vegetação parecia maligna, pequenos arbustos escuros estendendo longos ramos num abraço espinhoso, prontos a rasgar um vestido, ou umas meias. O nosso passo era vivo; parecia que nem os guerreiros mascarados tinham desejo de permanecer naquelas paragens mais tempo do que o necessário.

O carreiro estreitou até que só um dos cavaleiros da escolta podia ser visto, o homem que ia à nossa frente. Alguém gritou e ele estacou. Ambas desviamos os nossos cavalos para parar a seguir a ele e Liadan estendeu uma mão tranqüilizadora na minha direção.

 

À nossa frente, no carreiro, estava um grupo de homens de ar feroz armados de facas, mocas e pequenos machados. O seu líder aparente, um sujeito enorme com uma pala num dos olhos e dentes amarelos e podres, avançou e apontou a sua arma para o nosso grupo.

 

— Toca a descer dos cavalos — ordenou ele. — E nada de brincadeiras. Nós somos seis e vocês um, se não contarmos com as damas. Devagarinho. Dá-me essa espada. E a faca. Vira-te. E agora...

 

Para meu espanto, o nosso homem fez exatamente o que o outro lhe disse sem uma palavra de protesto. Os atacantes aliviaram-no das suas armas e seguraram nas rédeas do seu cavalo, como que para o levarem. Fiquei cada vez mais alarmada quando o homem com a pala no olho se aproximou de nós sorrindo. A minha tia permaneceu quieta e de olhar calmo. Os atacantes tiraram o capuz ao nosso homem.

 

Não se via sinal do resto da escolta.

— Bem, bem — disse o líder com uma risadinha sufocada, aproximando-se do meu pequeno cavalo. — Que temos nós aqui?

 

Eu ergui a mão, pronta para pronunciar as palavras de um feitiço.

 

— Não, Fainne — disse Liadan suavemente. — Não é preciso.

 

Atrás do líder, os seus homens tinham tirado a máscara do guerreiro, revelando as distintas marcas do seu rosto. Alguém praguejou e eu ouvi as palavras Homem Pintado proferidas num murmúrio aterrado. O sujeito a meu lado estacou e depois recuou, o rosto subitamente branco como a cal em redor da pala. Então, ouviram-se vários sons pequenos: um zumbido, uma vibração e o som de uma flecha penetrando no alvo; o homem que eles tinham desarmado rodopiou e desarmou um dos atacantes com um pontapé estrategicamente colocado. Subitamente, sem qualquer sinal de luta aparente, havia seis homens no chão duro, gemendo, arquejando, ou, mais sinistramente, totalmente silenciosos. À nossa frente, dos lados e atrás, os homens de Johnny emergiram da cobertura das rochas ou das árvores, metendo pequenas coisas nos cintos, ou nos bolsos. Uma flecha foi arrancada de um corpo de modo descuidado. Uma faca curta foi usada com eficiência. Fechei os olhos.

 

— Fainne? Desculpa. Estavas com medo? — O guerreiro mascarado falou com a voz de Johnny. O homem que os atacantes tinham desarmado reclamava as suas armas, recolocando o capuz como se aqueles encontros fossem tão vulgares como, por exemplo, juntar ovelhas ou cortar uma fatia de pão.

— Eu sei tomar conta de mim — disse eu com brusquidão, forçando o meu coração a abrandar o ritmo. — Pareceu-me uma maneira estranha de enfrentar uma emboscada, mais nada. Podias ter-nos avisado.

 

— Nós temos os nossos métodos. E isto não se pode bem chamar uma emboscada, tal foi a inépcia.

 

— Não precisavam de os matar.

 

— Eles foram loucos em tentar e não mereciam melhor. Além disso, nem todos estão mortos. Alguns vão levar uma história para casa; uma história acerca do Homem Pintado. Esta passagem vai ser segura durante algum tempo, até eles esquecerem e tentarem de novo. Mas desta vez escolheram mal a vítima. Ninguém toca na minha mãe. Viajar com ela é ter, também, a melhor proteção.

 

A sua voz era firme e as suas maneiras seguras, como sempre. A minha avó ainda não tinha lançado o feitiço, então? Seria possível ela ter preferido não exercer aquela crueldade?

 

Continuamos a viagem e eu ponderei na estranheza de tudo aquilo, que o homem que a minha avó me mandara destruir fosse aquele que fizera com que aquela força de especialistas me salvasse. Ele transportava a morte consigo, guardando-a cuidadosamente, como se fosse o mais precioso dos tesouros. Ainda bem que era forte, porque se ela fosse em frente com o seu pequeno plano, o sofrimento seria terrível. A maestria da minha avó com aqueles feitiços só era superada pela sua total falta de escrúpulos. Ela estivera na origem da morte de muitos pequenos animais ao demonstrar este ou aquele feitiço; observara desapaixonadamente a minha própria agonia enquanto me castigava com facas de vidro na cabeça, com bizarros inchaços de língua ou garganta e cruéis alterações de visão, ou audição. Não assistia calmamente à morte lenta do próprio filho? A minha avó usaria a arte fria e eficientemente no meu primo. Só esperava que não por muito tempo.

 

Aprendera a reconhecer Johnny no meio dos seus idênticos e vestidos de igual companheiros de armas. Era o mais baixo, pouco mais alto do que eu, o dorso tão direito como um de uma criança, a cabeça orgulhosa e os ombros quadrados.

 

Mudavam de cavalo de vez em quando, mas eu reconhecia-o. Enquanto continuávamos a jornada para o norte, para as costas mais a norte do Ulster, fui observando-o, pensando que em breve, muito em breve, teria de parar e desmontar, ou cair do cavalo com convulsões. Sabia qual era o feitiço; ela usara-o em mim uma vez. Nem o mais forte dos homens o suportaria por muito tempo.

 

Os montes e os vales, os riachos escondidos e os bosques enublados iam passando. À minha frente, o meu primo continuava a cavalgar, porte altivo como sempre, a mão nas rédeas, frouxa. Procurava, em vão, um sinal qualquer de doença. Ao escurecer comecei a perguntar a mim própria se o Filho da Profecia estaria de algum modo protegido contra aquele feitiço, talvez pelos poderes da floresta que a minha avó tanto detestava. Senti o calor do amuleto contra o corpo e soube que ela estava próximo; o pequeno triângulo parecia cada vez mais ligado à sua presença, o seu calor uma mensagem clara de que ela me estava a observar, observava Johnny e que iria, realmente, testar-nos aos dois.

 

Acampamos para passar a noite na carcaça de uma velha casa, onde as paredes de pedra se desfaziam e os restos de traves e de colmo ofereciam um abrigo precário contra o frio do Inverno. Os homens retiraram os capuzes e comeram uma refeição frugal. Johnny estava um pouco pálido e não o vi partilhar a comida, mas a sua voz continuava firme; sorria com as anedotas dos homens e deu-nos um cortês boa noite antes de se retirar para fazer o seu turno de ronda. Não parecia haver nada de errado com ele.

 

Dentro de dia e meio alcançaríamos a costa, disse-me Liadan enquanto cavalgávamos na manhã seguinte. Ali, um barco levar-nos-ia até à ilha. Havia uma nota na sua voz que falava de alegria antecipada; não conseguia disfarçar o desejo de chegar ao destino. Não perguntou ao filho se estava tudo bem e eu também não.

 

Olhei para o meu primo enquanto percorríamos um carreiro íngreme e perigoso.

 

Mantive os olhos nele enquanto o jovem nos precedia, seguia ou guiava e as suas costas continuavam direitas e orgulhosas e o seu cavalo movia-se firmemente em frente. Johnny erguia a cabeça como se fosse o herói de uma história muito antiga. O amuleto queimava-me o peito. Ela estava a observar-me e a observá-lo a ele.

 

Subitamente ocorreu-me que tinha estado errada. Não só ela já exercera o feitiço, talvez há já alguns dias, como o reforçava permanentemente, perfurando, apunhalando, triturando. Não era a ausência de magia que fazia aquela coisa malévola invisível, era a fantástica força moral do homem que a suportava.

 

Prossegui a jornada com os dentes cerrados e a testa cheia de suor; as minhas mão tremiam enquanto seguravam nas rédeas. Desiste, disse eu mentalmente. Não sejas tão forte. Quanto mais depressa desistires, mais depressa isso pára. À nossa volta os outros continuavam, ignorantes da batalha que se desenrolava no meio de nós.

 

Apenas três pessoas sabiam o que estava a acontecer: o meu primo, eu e a feiticeira que ninguém podia ver. Acampamos para passar a noite. Johnny foi deitar-se cedo. Não comeu. Apercebi-me da palidez cinzenta no seu rosto e reparei no modo como ele evitava o olhar da mãe. Durante a noite acordei e ouvi o som de vômitos para lá das rochas, nas sombras, e Liadan agitar-se sob o cobertor, mas não acordou. Partimos de madrugada e os homens cavalgavam ao nosso lado, silenciosos. O cheiro no ar era como em Kerry, cortante e salgado. Gaivotas passavam por cima de nós, gritando. Conseguia ouvir o distante rugido do mar. Mas não sentia alegria naquelas coisas familiares, não ali, naquele local distante, com todo o Erin a separar-me do meu pai. Não quando nunca mais escalaria aquelas falésias com um amigo a meu lado e nunca mais me sentaria ao abrigo das rochas num companheirismo silencioso, numa confiança total. Nunca mais teria isso. Não merecia; nunca merecera. O amuleto magoava-me; O seu cordão tocava-me nos seios. Mas não era nada comparado com o que o meu primo devia estar a sofrer. Ela estava a observar-nos; estava perto. Eu não o podia ajudar, se bem que soubesse qual era o feitiço inverso, se bem que o tivesse na ponta dos dedos. Mas não podia.

 

A paisagem abriu-se. O céu parecia iluminar-se e alargar-se à medida que avançávamos para norte. Havia poucas árvores; e as que havia naquele canto da terra varrido pelo vento aninhavam-se em ravinas, ou agrupavam-se em bolsas abrigadas por trás de pequenas colinas. Dois homens afastaram-se a galope, sem dúvida para anunciarem a nossa chegada. Os outros continuaram espalhados ao longo do trilho, sempre silenciosos. A nossa jornada terminaria em breve. Quando chegamos a uma elevação e avistamos o oceano pela primeira vez para lá de uma pálida linha de falésias, ouvi-a murmurar-me na cabeça. Tentador, não é? picou-me ela. Sabes como a dor o come; reconhecê-la. O rapaz é forte; é um daqueles Fomhóire ancestrais, além de ser um guerreiro, treinado para suportar tudo. Trabalho do pai. Subestimei-o. Mas não cometeremos o mesmo erro na próxima vez. E tu estás quase lá; e as oportunidades escasseiam. Acho que vou prolongar isto mais um pouco. Até ao ponto em que o corpo dá de si, até ao ponto em que o coração enfraquece e falha... tão, tão perto... sabes como é, Fainne...

Eu sabia. Uma criatura selvagem banqueteando-se no meu corpo vivo enquanto eu permanecia deitada, consciente e desamparada perante o seu apetite rapace. A dor percorrendo cada parte do meu corpo, cada fibra do meu ser. Eu sabia, porque já o tinha sofrido. Esperei, tremendo enquanto olhava para ele. Os meus dedos agitaram-se com o esforço que eu estava a fazer para reter o contrafeitiço; obriguei-me a engolir as palavras que o libertariam. Por fim, houve uma reação. A sua montada tremeu, parou e Johnny escorregou da sela para o chão do trilho. Conseguia ouvir-lhe a respiração; cortante, rápida. No entanto, mantinha-se de pé, quando qualquer outro homem se espojaria no chão, gritando e agarrando-se à barriga. Atrás dele, o meu cavalo tinha também parado e tremia.

 

Sentia-me incapaz de dizer fosse o que fosse. Não chegava? Por que não caía Johnny, ou não gritava, ou reconhecia a derrota para que ela parasse? Eu sabia que ela não podia continuar, já que se arriscava a matar o homem ali mesmo, onde ele estava. Seria ele Cu Chulainn renascido, para conseguir suportar uma tal agonia?

 

Um dos homens voltou para trás e foi feita uma troca discreta. Liadan vinha lá atrás, fora de vista.

 

O outro homem desmontou e segurou as rédeas dos dois cavalos. Por trás da sua máscara, Johnny olhava para mim. Indicou, com um pequeno gesto de cabeça, que eu devia continuar e meter por um trilho lateral em direção a leste, onde um grupo de três velhas rochas fora colocado no topo de uma elevação. Sobre elas crescia uma crosta de líquen cinzento e eu lembrei-me daquela estranha criatura parecida com uma rocha que me falara uma vez de confiança antiga e caminhos futuros. Desci do cavalo e deixei-o com os outros. Johnny começou a caminhar e eu segui-o e se os meus passos eram vacilantes devido ao meu pé defeituoso e ao desnível do solo, os passos de Johnny ainda eram mais. No entanto, continuou a andar sem falar, mas eu percebi, pela sua respiração, que fazia um esforço para continuar silencioso quando tudo dentro dele gritava de dor. Perguntei a mim própria, então, por que razão a minha avó não tornava o amuleto ainda mais forte e matava, de uma vez por todas, o Filho da Profecia. Seria certamente mais fácil do que aquele cruel jogo de testes e provas. Ela não precisava de mim para extinguir a esperança de vitória de Sevenwaters. Johnny já vacilava às portas da morte e sem Johnny a batalha não podia ser ganha. Paramos à sombra de umas pedras antigas no lado leste, longe da vista do trilho onde os outros esperavam. O meu primo retirou a máscara. Olhei para ele e ele para mim, o seu rosto cinzento, os olhos brilhando de febre, e ferozmente determinados. Há algo aqui que ela não consegue derrotar , pensei eu. Talvez seja a extrema coragem, ou talvez algo mais; uma magia mais antiga e profunda do que a dela, uma força que vela pelos seus passos, que o guia em direção ao destino que lhe foi predestinado. Johnny respirou fundo, estremecendo e nesse preciso momento o calor contínuo do amuleto enfraqueceu e morreu, até não passar de um pequeno triângulo de metal num cordão em redor do meu pescoço. Ela desaparecera, mas o feitiço ainda o possuía.

 

— Não me parece — disse Johnny numa voz que denotava imensa dor — que saibas exatamente com o que estás aqui a lidar. — A sua mão, pousada na pedra gasta para se apoiar, mostrava os nós dos dedos brancos.

 

Respirei fundo.

 

— O que queres dizer?

 

— Diz-me — conseguiu ele dizer, tentando controlar-se. — Quanto tempo mais? Não por mim; nós estamos treinados para suportar tudo. Mas não quero que a minha mãe sofra.

 

Olhei-lhe para o rosto pálido, tatuado com a cabeça de um corvo e cheio de suor; um rosto cujo olhar corajoso não parecia ter vacilado por um só instante. Ele pensava que era eu a culpada. Pensava que era eu a única responsável pela sua tortura cruel. Não admira que não tivesse dito nada. E a minha avó desaparecera sem o libertar. Com um murmúrio e um pequeno movimento da mão, inverti o feitiço. Então, ele perdeu momentaneamente o controle. Expirou repentinamente e deslizou para o chão, as costas de encontro à rocha, de olhos fechados. Quanto a mim, fiquei instantaneamente exaurida de forças e sentei-me abruptamente a seu lado. O céu estava claro e a brisa fresca; os pássaros voavam por cima de nós em círculo, gritando. Tudo aquilo me parecia errado; como se estivéssemos deslocados. Tudo aquilo parecia pertencer a um tempo longínquo, a um tempo de inocência, mas não àquele, onde tudo era perigoso e difícil, doloroso e onde o medo imperava.

 

— Deves saber — disse Johnny um pouco depois sem abrir os olhos — que eu tenho um caminho a seguir e uma missão a cumprir e que nada me deterá. Nada. — A sua voz não passava de um feroz murmúrio, assustador na sua certeza. Se alguma vez tive dúvidas de que ele era o herói de que falava a profecia, deixei de as ter.

 

— Eu não fui responsável por isto — disse eu, trêmula. — Mas não espero que acredites em mim. — Não lhe podia dizer mais do que aquilo. Já falhara no teste da minha avó; ela não me deixara outra alternativa, senão a de intervir. Não me arriscaria a revelar-lhe a verdade.

 

— Estou a ver — disse o meu primo num tom que poderia não querer dizer nada.

 

— Por que me trouxeste contigo? — perguntei-lhe rudemente. Ele abriu os olhos e conseguiu um pequeno sorriso.

— Desobedeci à minha mãe — disse ele pouco seguro. — Ela não queria que tu fosses para Inis Eala. Porquê, não sei, salvo que tu pareces andar perturbada e precisas de proteção e isso é uma coisa que nós sabemos fazer muito bem.

 

— E estás arrependido dessa decisão?

 

— Não, prima, não estou. Raramente me engano.

 

— Algumas pessoas diriam que isso é uma tolice — disse eu cautelosamente.

 

— E tu, achas que é uma tolice, Fainne?

 

Não me arrisquei a responder em voz alta. Mas abanei a cabeça e ofereci-lhe a minha mão quando vi que ele estava a tentar levantar-se.

 

— Tu tens uma grande força de vontade — disse eu enquanto fazíamos o caminho de regresso. Ele caminhava cuidadosamente, como se fosse a experimentar cada parte do corpo para se assegurar de que a dor tinha mesmo desaparecido.

— Sou filho do meu pai — disse Johnny.

 

Eu também sou filha do meu pai, disse-me o meu coração. E, de regresso ao trilho, montamos nos nossos cavalos como se tivéssemos, apenas, ido esticar as pernas e continuamos o nosso caminho na direção da costa norte do Ulster e de Inis Eala: a Ilha do Cisne.