A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 17 de 17

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A Filha da Profecia

Epílogo

 

Nos anos que se seguiram à grande batalha pelas Ilhas, muitas histórias se contaram acerca dos acontecimentos que tiveram lugar e suas conseqüências. Durante algum tempo contou-se algo parecido com a verdade; uma história que até poderia ser História. Essa história dizia que Sean de Sevenwaters desafiara os Bretões com a ajuda dos seus aliados e sob a liderança de um jovem chamado Johnny, um guerreiro de poderes quase sobrenaturais. Essa vitória foi tal, que Northwoods renunciou para sempre à disputa por esse território. No entanto, de certo modo, Edwin não perdeu.

 

Formaram-se novas alianças entre os velhos inimigos. Com o tempo, a filha de Northwoods casou com o herdeiro de Harrowfield e assim, ironicamente, por meio da paz, finalmente, os dois grandes domínios de Northumbria conseguiram exatamente que o vilão Richard de Northwoods desejou um dia: uma só grande propriedade, forte, no noroeste de Inglaterra. Houve uma aliança ainda mais estranha, a que se fez entre Northwoods e Sevenwaters, nada mais nada menos do que uma promessa de paz e boa vontade entre Bretões e Irlandeses. Isso foi obra de Johnny, que resultou em longos anos de felicidade e prosperidade em ambos os lados do mar. Ninguém falou muito da batalha em si; todos sabiam que tinha havido coisas estranhas, como o uso de navios muito parecidos com os dos Finn-ghaill e a intervenção de uns estrangeiros muito poderosos e como tudo tinha acabado, no fim, num combate singular entre dois homens. Alguns disseram que tinha havido uma mulher e outros um ogre, ou uma fada; mas muitos acharam isso fruto da imaginação.

 

À medida que o tempo passou, as histórias desenvolveram vida própria. Os pescadores, especialmente, gostavam de as contar entre eles nas noites frias à volta da fogueira, enriquecidas pelos efeitos de uma boa caneca de cerveja. O que era engraçado era que todos falavam das Ilhas e como elas tinham sido reconquistadas, finalmente, com grande coragem e habilidade. Mas quando se perguntava a alguém onde eram essas ilhas, ninguém parecia capaz de o dizer com exatidão. Alguns diziam que eram a sul de Man, mas não tinham a certeza, porque todos eles tinham navegado até lá nos seus curraghs e todos sabiam que não havia ilhas nenhuma por ali, apenas umas rochas batidas pelas marés. Alguns diziam talvez para Norte, mas outros discordavam. Fosse onde fosse o local original das Ilhas, já lá não estavam; pelo menos, não eram capazes de as encontrar.

 

Mas, por vezes, ouviam uma história acerca de um tipo, ou outro, que tinha visto qualquer coisa e quando se juntam essas histórias todas, fica-se com uma bem estranha, quase inacreditável; no entanto, eles acreditavam, ou quase. Um tipo remando sozinho e uma bruma aparecendo subitamente, como que por magia e quando ela se ergueu, por momentos, viu um grande pilar de rocha, como que uma torre construída por gigantes, só que aquela estava no meio do mar com as ondas a esmagarem-se nela. E, por vezes, via-se gente lá, à noite, sentada nas rochas ao luar, ou subindo e descendo a falésia como se fossem caranguejos, tão agilmente se moviam por aquela encosta íngreme. Gente pequena, como se fossem crianças, de cabelos tão vermelhos como as folhas de uma faia no Outono; e por vezes um homem e uma mulher, mas tudo o que se conseguia ver deles era um mero avistamento, antes de a bruma se fechar de novo sobre eles. Um tipo viu luzes, mesmo no topo, e outro jurou ter visto uma criatura com uma capa de penas e botas encarnadas; mas os outros disseram-lhe que era imaginação. Um outro disse que havia lá muitas focas, nas rochas, no lado sul; e uma mulher sentada à beira da água a cantar. Uma sereia, pensou ele que era. Disparate, disseram os outros. Mas continuam a contar essas histórias.

 

As histórias fazem-me rir. Vejo os homens no meu espelho de água límpida e à medida que os anos vão passando vejo a nossa história transformar-se num estranho reflexo distorcido dela própria, tornando-se mais aceitável para as pessoas, sem o sangue e as mortes, sem a crueldade, os erros terríveis, o desperdício e, eu sorrio e vejo-a passar. Ouço a minha filha recitar o conhecimento e elogio-lhe os esforços, Muito bem, Niamh, mas não demasiado, ou não terá nada por que lutar. Dou-lhe tempo para brincar com o pai e o irmão mais novo. Riem, cantam e contam histórias sentados ao sol sob as sorveiras-bravas. Fazem assobios de ossos de baleia e inventam novos nomes para os peixes, para os pássaros e para a fugidia criatura de rocha. Não vêem qualquer estranheza nos Fomhóire.

Danny talvez nos deixe quando crescer; mas nós achamos que fica. Ele, aqui, tem duas casas, o mar e a terra, divertindo-se na liberdade de um e agradecendo o calor da outra. O destino da nossa filha será mais difícil. Para ela, talvez os Fair Folk façam naufragar um viajante, um homem de coragem e visão, que se sinta atraído por este lugar escondido pelas brumas e se deixe capturar pelo amor.

 

Daqui a muito tempo. Depois do meu tempo, do tempo da minha filha e do tempo da filha dela. Veremos coisas terríveis nas grutas da verdade; veremos a pilhagem da terra, a degradação dos oceanos, o desaparecimento das grandes florestas. Veremos a crueldade do homem e a sua ganância, o desaparecimento da velha fé em quase todos os corações. Mas virá o tempo. Tem de vir; não o disseram os próprios Fair Folk? Finalmente, a sabedoria triunfará, quando o mundo estiver quase perdido; e o homem descobrirá a sua ligação com a terra, em tempos sua mãe. Esta é a grande e solene verdade e nós cumpri-la-emos fielmente.

 

Aprendi muitas coisas na minha jornada para a Needle. Aprendi muita coisa acerca de lealdade, coragem e perdão. Aprendi que o amor é a mais cruel das coisas e a mais maravilhosa. Aprendi que se encontram amigos nos sítios mais estranhos, se soubermos procurar. A minha vida, aqui, é mais rica do que se pode imaginar; a deusa foi, sem dúvida, boa para nós. Concedeu-me a dádiva maravilhosa da segunda oportunidade; e eu não a desapontarei.

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