A Filha da Profecia
Capítulo Três
Não era tempo de olhar para atrás e, assim, cerrei os dentes e continuei o melhor que consegui. O pior era o barulho constante: os relinchos, os latidos, o ranger das rodas das carroças e as pessoas falando todas ao mesmo tempo, como um bando de gansos.
Desejei lançar um feitiço de silêncio. Senti-me tentada a tapar os ouvidos com as mãos. Com um esforço, não fiz, nem uma coisa, nem outra.
Fizemos uma paragem bastante cedo, a propósito, para que Dan falasse com um homem acerca de um cavalo. As carroças foram colocadas ao abrigo, sob grandes ulmeiros e as mulheres fizeram uma pequena fogueira, onde puseram uma chaleira a aquecer para o chá. Mas os cavalos ficaram arreados e beberam água de um balde.
Em breve regressaríamos de novo à estrada.
O barulho continuava. As crianças corriam, riam, gritavam e molhavam-se no ribeiro que passava perto. Peg assobiava; Molly resmungava para si própria. As raparigas mais velhas conversavam acerca da feira de cavalos e qual dos rapazes, que tinham conhecido no ano anterior, estaria lá. Os rapazes gracejavam enquanto se moviam por entre os animais com os seus baldes de água.
Sentei-me à sombra das árvores e imaginei a quietude sombria do Favo de Mel, onde se podia passar um dia inteiro sem se ouvir uma única palavra; onde os únicos sons eram o sussurro dos pés calçados de sandálias e o rugir distante do oceano.
— Vem comigo.
A voz de Darragh interrompeu os meus pensamentos e a sua mão agarrou na minha, pondo-me de pé antes de eu ter hipótese de dizer sim ou não.
— Tenho uma coisa para te mostrar. Anda.
E, tirando-me da sombra das árvores de modo mais rápido do que seria confortável, puxou-me pelo monte relvado acima até um ponto coroado com um pequeno dólman. Já tínhamos percorrido uma grande distância, desde a costa; a jornada fora dura para os cavalos e as pessoas tinham, por vezes, descido dos veículos e caminhado ao lado. Peg dissera-me para ficar onde estava e eu não discutira com ela. Talvez pensassem que eu não conseguiria devido ao meu pé. Darragh não fazia tais concessões.
— Ora bem — disse ele. — Olha para além. É a tua última vista da costa de Kerry. Vais querer recordá-la. Em Sevenwaters não há mar, apenas árvores, montes de árvores.
Estava muito longe; tão longe. Não se viam as vagas nem se ouvia o seu som, ou o das aves marinhas brigando na praia enquanto os pescadores descarregavam os barcos. Apenas o brilho do Sol na água distante; apenas o céu cor de pérola e a terra que se estendia, dividida em verde, cinzento e castanho, aqui e ali com grandes pedras e amontoados de árvores batidas pelo vento.
— Olha até mais longe. Para lá daquele promontório. Diz-me o que vês. — Darragh pôs-me uma mão no ombro, virando-me ligeiramente, e com a outra apontou para o que parecia uma extensão de oceano aparentemente vazia. — Olha com cuidado.
Via-se uma ilha: um minúsculo triângulo de rocha ao longe, nas águas inóspitas. Se semicerrasse os olhos, conseguia detectar a espuma que as vagas faziam ao esmagarem-se na sua base. A seu lado estava outra ilha. Mesmo pelos meus padrões, era um local desolado.
— Não se vêem da nossa enseada — disse Darragh. — Rochas Skellig, é como lhes chamam. Vive lá gente.
— Vive lá gente? Como é possível?
— Eremitas cristãos. Homens santos. É suposto ser bom para a alma, dizem. Os Noruegueses foram lá uma vez, mataram a maioria dos irmãos e destruíram o pouco que eles tinham. Mas os eremitas regressaram. Deve ser uma vida bem estranha. Imagina.
— Pelo menos é tranqüilo — disse eu irritada ainda a olhar para os pequenos pontos no oceano e pensando naquela escolha bem estranha.
— Não achas de mais? — Eu não disse nada.
— Não estás habituada às pessoas, mais nada. Hás de habituar-te à medida que formos avançando. Não precisas de ter medo de nós.
— Medo? — irritei-me. — Por que teria eu medo? — Darragh pensou por um momento.
— Porque estás habituada à tranqüilidade, sozinha com o teu pai, sozinhos e calados todo o dia! Porque não gostas que olhem para ti!
A angústia instalou-se em mim como uma pequena e pessoal nuvem cinzenta. Olhei para o mar em silêncio.
— É verdade, não é? — disse Darragh.
— Talvez.
— Talvez preferisses ser um eremita a viver numa rocha no mar, comendo algas e mexilhão? Não terias de aturar uma única alma, a não ser tu própria.
— O que é que isso quer dizer? — repliquei eu.
— Exatamente o que eu disse.
— Não há nada de errado numa vida desse gênero — disse eu. — Pelo menos é... segura.
— Essa tem piada. E as falésias? E os Noruegueses? E passar fome o Inverno todo? Ou apontavas o teu dedinho e transformavas um dos irmãos num belo e gordo bacalhau?
Fiquei gelada, incapaz de olhar para ele. Seguiu-se um silêncio difícil.
— Fainne? — perguntou ele. — O que é que se passa?
E eu soube que as suas palavras tinham sido inocentes, uma piada, e que fora a minha mente que se enchera de medo.
— Nada.
— Preocupo-me contigo. Houve mais alguém este Verão, não houve?
— A minha avó. Veio visitar-me.
— Hum. E foi por isso que não pudeste sair?
— Mais ou menos.
— Só isso? — Ele franzira as sobrancelhas.
— Eu... eu já não posso fazer as coisas normais. Não posso ter... amigos. Não posso permitir que se intrometam no que faço. É difícil explicar. Já é suficientemente mau ir na carroça, misturada com as pessoas, ter de falar e ouvir e... já não posso fazer essas coisas. Eu... não posso deixar que se aproximem de mim.
Darragh não respondeu. Olhei para o chão, sabendo que ele estava a olhar para mim e não querendo ver a expressão daqueles olhos castanhos demasiadamente honestos.
— Lamento — sussurrei.
— Também eu — disse ele lentamente. — Parece-me esquisito. Pode ser que sejas muito fina para gente como nós. Mas no sítio para onde vais há pessoas da tua espécie. Família. Vai ser bom para ti, Fainne. Eles hão de gostar de ti. As pessoas não são assim tão más depois de as conhecermos. E devemos ter família e amigos à nossa volta. Não compreendo como podes passar sem isso.
Aconcheguei o xale em redor dos ombros.
— Não, suponho que não compreendes — disse eu. — Mas a nossa espécie não tem amigos.
Então, viramos-nos, começamos a descer o monte, ele segurou-me na mão nos pontos mais difíceis e nenhum de nós disse uma palavra até estarmos sob os ulmeiros e ouvirmos Molly a rir de uma piada qualquer de Peg.
— Mas tens, sabes? — disse Darragh suavemente. — Por vezes, os amigos aparecem sem que tu os tenhas procurado. E depois de os teres não é fácil livrares-te deles.
— Eu vou para longe — disse eu.
— Eu sou um viajante, lembras-te? — disse Darragh. — Sempre em movimento.
A jornada era longa. Aprendi a isolar-me do barulho repetindo na minha cabeça, vezes sem conta, as perguntas e respostas que o meu pai e eu fizemos durante os longos anos da minha infância.
Quem foram os primeiros na terra de Erin?
Os Anciãos. Os Fomhóire.
E depois?
E assim por diante enquanto as carroças rolavam sob uma suave chuva de Outono e uma brisa viva vinda de oeste e, por vezes, sob uma grande abóbada de estrelas.
De onde vieste?
Do Caldeirão do Desconhecido.
Qual é o teu destino?
O conhecimento. A sabedoria. A compreensão de todas as coisas.
O conhecimento era tudo o que me fazia prosseguir. O conhecimento significava controlo e sentido no meio das crianças barulhentas, das mulheres palradoras e da companhia constante, mais companhia do que alguma vez teria em toda a minha vida.
Peg era suficientemente amável apesar das suas maneiras rudes. Nunca me pedia que a ajudasse a esfolar os coelhos, que fosse buscar água ou que lavasse a roupa das crianças. Tentava arranjar-me sempre um canto sossegado para o meu cobertor depois de me ver uma vez afastar-me das outras raparigas e puxá-lo por cima das orelhas. Quando parávamos apenas por uma noite, dormíamos nas carroças com uma espécie de toldo por cima. Os rapazes dormiam sob as árvores, ao lado dos cavalos.
Havia sempre um certo cheiro, com toda aquela gente, e nunca havia um verdadeiro silêncio. Eu ficava muitas vezes acordada a olhar para o céu, pensando no regresso do meu pai a casa e escutando os pequenos sons noturnos à minha volta, os cavalos bufando, os suspiros das crianças mudando de posição no sono e os roncos dos mais velhos, cansados de um dia de marcha. De madrugada estariam prontos, de novo, para partir, depois de arrumarem tudo com uma rapidez incrível. A mim, parecia-me que cobríamos uma grande distância apesar das muitas paragens para vender cestos, comprar um cavalo ou simplesmente visitar velhos amigos. Acabei por perder a conta aos dias. Uma vez, quando chegamos a um vale desolado com o que parecia serem uns pequenos lagos no fundo, consegui que Darragh parasse por um momento quando ele se aproximou das traseiras da carroça onde eu ia sentada.
— Já estamos perto? — perguntei-lhe em voz baixa, para que mais ninguém ouvisse.
— Perto de quê? — perguntou Darragh.
— De Sevenwaters — sussurrei.
Darragh mostrou aquele sorriso torcido e abanou a cabeça.
— Ainda estamos a meio caminho — disse ele. — Ainda falta muito, para norte e para leste, antes de atingirmos a floresta. É muito diferente disto aqui. Mas vais poder descansar em breve e divertires-te um bocado.
— Divertir? — Franzi as sobrancelhas, amargamente desapontada por ainda nos faltar muito e furiosa comigo mesma por ter perguntado.
— Exatamente. Os melhores dias do ano. Lá em baixo, onde o vale se abre, pararemos por uns dias. Para dar descanso aos cavalos. Montaremos um acampamento como deve ser. Não muito longe dali está a Cruz. É onde se realiza a melhor feira de cavalos desta terra. Jogos, corridas, música, muita comida e bebida e mais gente do que noutro lado qualquer. Vais conhecer muita gente. — Ele estava a olhar para mim de muito perto. — Não fiques tão ansiosa, Fainne. Eu tomo conta de ti.
Paramos junto de um lago e os homens percorreram uma certa distância ao longo da margem, até os perdermos de vista. O dia não estava muito frio, apesar de o Outono já ir avançado. Não que fosse muito difícil meter as crianças na água. A dificuldade estava em lavá-las. Observei enquanto as mulheres e as raparigas mais velhas despiam e esfregavam os pequenitos, enquanto estes gritavam, protestavam e se esparrinhavam na água. O banho deu lugar a uma espécie de luta aquática; Peg, Molly e as outras raparigas tiraram as roupas sem uma palavra, sequer, de aviso e começaram a lavar-se com um pedaço de sabão comum e uma série de comentários obscenos. Olhei para longe, sentindo uma mistura de embaraço e inveja. Aquilo parecia extremamente fácil para elas. Eu não gostava da água. Em casa, nunca nadara no mar. Os meus banhos eram tomados numa pequena tina junto da lareira e era eu própria que ia buscar a água e a aquecia. Sempre fizera as minhas abluções na maior das privacidades. Até a minha avó respeitara isso. Sabia que estava suja, que cheirava mal e que tinha dois vestidos lavados na minha pequena arca. Mas aquilo... custava-me muito.
Peg saiu da água, o corpo ainda escorreito e curvilíneo apesar dos filhos que tinha tido.
— Anda daí, rapariga — disse ela com um sorriso. — É a tua última oportunidade de te pores como nova antes da feira. A água não está muito fria.
— N... não sei...
— Anda, pequena, não está ninguém a olhar. Além há uma pequena enseada, um pouco escondida. Não estás habituada, estou a ver. Eu vigio por ti.
Assim, com as faces coradas, aproximei-me da água, separada das outras por uma curva da margem e por alguns salgueiros e despi-me, enquanto Peg, já com um vestido lavado e penteando os longos cabelos negros, se sentava num tronco de árvore e afastava as crianças se elas se aproximavam demasiado. A água estava gelada. Para piorar as coisas, o fundo era mole, lamacento e eu escorregava com facilidade. E era cada vez mais fundo. Olhei para o lado e vi as outras raparigas nadando, os braços morenos reluzindo e os cabelos molhados como graciosas algas em redor dos ombros nus. Mais longe, parecia que os rapazes se atiravam dos ramos de uma árvore para a água profunda. Lavei-me o mais depressa que pude, usando o pedaço de sabão no corpo e no cabelo, grata pela oportunidade de me livrar do suor e pó da viagem, aterrada pela possibilidade de dar um passo a mais e mergulhar de cabeça por engano. Peg estava a olhar para o outro lado. Podia afogar-me antes de ela dar conta. Ninguém sabia que eu não sabia nadar. Ninguém, a não ser Darragh.
Seria uma maneira horrível de morrer, debaixo de água, arfando, esbracejando, incapaz de encher os pulmões de ar. Seria como... seria o mesmo que... afastei aquilo da mente.
Quando saí, Peg estendeu-me um lençol para me secar e depois apareceu Molly com um vestido nas mãos, que não era meu, às riscas azuis e verdes, e sobre o ombro trazia um lenço de pôr ao pescoço com uma fita azul cosida a toda a volta.
Fiquei ali a tremer, com o lençol em redor do corpo mal me cobrindo a nudez.
— Eu tenho outro vestido na minha arca — consegui dizer. — Não preciso...
— Este é melhor — disse Peg com uma voz que não admitia réplica. — Este azul fica-te bem.
— Vamos, mete aqui os braços, rapariga. Pronto.
Elas tinham tudo, até roupa de baixo limpa e umas meias rematadas a azul. Depois de me vestir, Peg virou-me de costas e começou a pentear-me o cabelo.
— Eu não...
— Quieta, rapariga. Não dá trabalho nenhum. Tantos caracóis. Tenho uma bonita fita azul, que me ficou desse lenço Molly, vê se a descobres para te atar na ponta da trança. A tua mãe tinha uns cabelos lindos. De uma cor linda, cor de mel.
Eu não disse nada enquanto os seus dedos ágeis me entrançavam o cabelo, e o atavam com a fita azul que Molly fora descobrir nas profundezas da carroça.
— Pronto — disse Peg, segurando-me nos ombros com os braços estendidos e olhando-me de alto a baixo. — Não está mal, pois não? E agora vamos lavar estas coisas e ala que se faz tarde. Teremos tempo de sobra para as secar amanhã. Esta noite, um acampamento como deve ser; uma boa fogueira, oportunidade para nos descontrairmos e divertirmos. Vais gostar, rapariga. Vais ver.
Em breve estávamos de novo em cima das carroças, rodando por entre campos planos. Havia de novo um cheiro a maresia no ar. As rapariguitas tinham ficado invulgarmente silenciosas, olhando para mim com os seus olhos escuros. Talvez, pensei, estivessem cansadas do banho. Então, uma delas falou.
— Tu és bonita — disse ela e explodiu numa risadinha nervosa. As outras mandaram-na calar, mantiveram-se todas em silêncio durante uns momentos e depois desataram todas, de novo, a rir. E como eu não sabia se ela tinha sido sincera, ou se estava a gozar comigo, não disse nada.
Foi como Darragh me tinha dito. Chegamos ao nível mais baixo do vale, atingimos uma bifurcação e de repente havia gente por todo o lado, homens a cavalo, rapazes conduzindo pôneis, camponeses com carroças carregadas até acima e gente vestida de maneira esquisita com bolas de malabarista ou com pássaros coloridos em gaiolas. Havia uma carroça fechada com um indivíduo vestido de preto, sentado taciturnamente e guiando um velho cavalo escanzelado. A seu lado caminhava um homem mais novo e enquanto caminhava gabava as virtudes dos vários elixires que tinha para vender: filtros de amor, poções mágicas de força, maldições para lançar a um inimigo.
— Venham, venham — gritava ele com grande vigor e maior confidência. — Doenças curadas! Fortunas vaticinadas! Procurai o Grande Mestre sob os velhos carvalhos a norte da pista de corrida. Satisfação garantida.
Fiquei a vê-los passar e perguntei a mim própria quais seriam as suas misturas. Umas poucas ervas e umas gotas de mel? Nada de grande valor, suspeitei. Mas já alguns corriam atrás da sua carroça, gritando de excitação. Loucos, pensei. Em breve ficariam sem a pouca prata que tinham e para nada.
Não partilhamos a estrada com a multidão cada vez maior, tomando antes uma variante para oeste e em breve chegávamos a um extenso relvado abrigado entre amieiros e um ribeiro. Paramos e montamos o acampamento. Desta vez as carroças foram descarregadas, as tendas erguidas e foi construída, entre pedras, uma sólida fogueira no centro do espaço aberto, com espaço suficiente em volta para as pessoas se sentarem confortavelmente. Os cavalos foram desaparelhados, presos sob as árvores e os rapazes começaram a esfregá-los, um de cada vez, procurando ao mesmo tempo algum ferimento ou entorse provocados pela jornada. Achei que ficaríamos ali até a feira acabar, subindo a estrada todos os dias para fazer negócio e regressando ao acampamento à noite. Conseguia ouvir o mar, o persistente ir e vir de pequenas vagas.
As mulheres e as raparigas tinham uma grande tenda e nela foi-me dado um pequeno canto, que Peg me mostrou, piscando o olho. Enquanto desdobrava a roupa de cama e verificava o fecho da minha arca de madeira, sussurrei um obrigada e ela retribuiu-me com um sorriso torcido, à imagem do filho. Assim que as minhas coisas ficaram arrumadas escapei-me para fora da tenda e desci por entre as árvores, pelo pequeno carreiro, para oeste. Não era longe. Um pequeno passeio pelo carreiro pedregoso, por entre arbustos enfezados, depois uma pequena subida e lá estava ele. As vagas quebravam preguiçosamente e lambiam a grande e pura praia que se estendia entre grandes promontórios, a norte e a sul. Mais longe via-se a espuma e rochas escuras, a escorrerem água. Uma grande falésia, pelo menos assim parecia, guardava aquela baía tranqüila. O Sol, a pôr-se, aproximava-se cada vez mais da vasta extensão de água e dourava a areia. Aqui e ali, na praia, viam-se figuras: dois rapazes galopando com os seus pôneis numa corrida louca ao longo da linha de água; um rapaz num cavalo negro, nadando, respirando o poder das ondas e depois regressando à praia, escorrendo, agitando-se para tirar o excesso de água prateada. Havia gente a passear, um par de mãos dadas e uma rapariga dobrando-se em busca de conchas. Sentei-me ali um pouco, a observar. Sentei-me o tempo suficiente para me acalmar, para acalmar a respiração, para dizer a mim própria que conseguia, que havia de conseguir. Talvez, quando se juntassem todos em redor da lareira, nessa noite, não reparassem se eu me retirasse mais cedo para me ir deitar. Talvez, quando se juntassem no dia seguinte à grande multidão na feira de cavalos, eu pudesse ficar para trás e regressar ali, caminhar sozinha pela praia, ou sentar-me e olhar para as ondas, sempre a mudarem, sempre as mesmas. Talvez fosse possível. Se não, teria de usar o Encantamento. Na verdade, a minha avó teria achado uma tolice eu não ter feito nada ainda para disfarçar o meu embaraço, para disfarçar o meu medo dos estranhos. E eu também achava que era uma tolice. Mas havia algo que me impedia de o fazer. Lembrei-me das sobrancelhas franzidas de Darragh e das suas palavras.
Não gosto quando fazes isso. Pensei nas palavras da rapariga. Tu és bonita. Decidira, quase, que era uma brincadeira. Mas, por um momento, as suas palavras tinham-me aquecido. Se usasse o Encantamento, toda a gente pensaria que eu era bonita. Mas não era a mesma coisa.
Mas não houve escapadela possível às festividades da noite. A minha desculpa esfarrapada foi afastada por Peg, que me atirou para o meio do círculo de pessoas sentadas em troncos e caixas velhas, em redor da fogueira. Sentou-me entre Molly e ela própria, pôs-me uma caneca com algo fumegante e fragrante nas mãos e depois instalou-se, de olhos brilhantes, pronta para o divertimento. Não tinha qualquer hipótese de recusar.
Em redor da fogueira estavam muitos rostos, velhos e novos. As mais pequenas das crianças estava sentada nos joelhos de um parente, ou dormia enrolada em cobertores junto de uma irmã vigilante, ou de um irmão. Os mais velhos tinham lugares de honra, os assentos mais confortáveis, o mais próximos possível do calor.
Estavam ali todos: Dan Walker com a sua barba escura e o anel de ouro na orelha; o grupo de jovens que eu encontrara na minha visita ao acampamento, na enseada do Favo de Mel; o próprio Darragh, conversando com um par de raparigas vestidas garridamente, que eu não vira antes. Havia outros que eu não conhecia, se bem que fossem, claramente, convidados. As duas raparigas pareciam ter irmãos, ou primos, e havia um mais velho, um homem de cabelos grisalhos sentado junto de Dan, partilhando a bebida quente de uma chaleira junto do fogo. Bebi cautelosamente. Era boa mas forte, qualquer coisa parecida com cidra, com especiarias e mel.
— E que tal uma história ou duas? — perguntou alguém. — Quem tem uma boa história? Brian? Diarmuid?
— Eu não, — disse o homem de cabelo grisalho, abanando a cabeça. — Estou com dor de dentes. Não posso falar.
— Ah! — troçou outro. — Bebe mais um pouco, que isso passa.
— Há um tipo na feira que arranca dentes — sugeriu Molly. — Vai visitá-lo. Ele tira-to num abrir e fechar de olhos.
— Aquele carniceiro? — O homem empalideceu visivelmente. — Preferia que a minha velha mo arrancasse com umas tenazes.
Seguiram-se várias sugestões acerca dos remédios a que ele poderia recorrer, nenhuma delas muito prática. Então, Dan Walker falou.
— Eu conto uma história — disse ele. Ouviu-se um coro de aprovação e depois, silêncio. — É acerca de um homem chamado Daithi, Daithi O’Flahirty. Não é parente, sabem, da distinta família com esse nome que vive por estas bandas. — Ouviu-se um rugido de risadas apreciativas. — Era um camponês. Bem, este Daithi teve a idéia de ir ver a namorada para passar o tempo, estão a perceber? Ia a caminhar pela estrada quando ouviu um barulho, tape, tapiti tape, que vinha de detrás de uns arbustos, ao lado do carreiro. Daithi era um tipo esperto. Não fez um som, acocorou-se, muito quieto e espreitou por entre os ramos para ver o que era. E Deus me ajude se não viu um tipo muito pequenino, com um chapéu pontiagudo e um pequeno avental de pele, um jarro ao lado e junto dele uma pequena concha. O pequenito estava a fazer uma bota do tamanho de metade do meu dedo, que só podia servir no seu próprio pé. Enquanto Daithi observava, prendendo a respiração, o homenzinho pousou a sua ferramenta de sapateiro, meteu a concha no cântaro e serviu-se do licor; em seguida, voltou ao trabalho, tape, tapiti tape.
— É melhor ir com cuidado — disse Daithi para si próprio. Assim, manteve a voz baixa para não assustar o homenzinho.
— Bom dia para si, meu caro senhor — disse ele o mais polidamente que conseguiu.
— E para si também — respondeu o pequenito, continuando a bater.
— O que é que está a fazer? — perguntou Daithi.
— É uma bota, pois — disse o gnomo levemente trocista. — E o que é que o senhor anda a fazer, vagueando pelos caminhos em vez de estar a trabalhar?
— Eu já volto para o trabalho — replicou Daithi, pensando, a não ser que te apanhe primeiro. — Diga-me, o que é que tem nesse seu pequeno cântaro?
— Cerveja — disse o homenzinho. — A mais saborosa que há. Fui eu que a fiz. — E lambeu os lábios.
— A sério? — disse Daithi. — E que usou para fazer essa cerveja? Malte, não?
O gnomo rolou os olhos com desdém.
— Malte? O malte é para os bebês. Esta bebida é feita de urze. Não há melhor.
— Urze? — exclamou Daithi. — Não se pode fazer cerveja com urze.
— Ah — disse o gnomo. — Foi o Dubh-ghaill que me ensinou. Uma receita secreta. Só a minha família é que a faz, mais ninguém.
— Posso prová-la?
— Claro — disse o gnomo. — Mas sinto-me chocado por um camponês tão bom como o senhor pensar em passar o tempo a beber em vez de guardar os seus gansos, que saíram do pátio e andam a dar cabo do jardim do seu vizinho.
Daithi ficou chocado e quase se virou para correr para casa, para ver se o gnomo tinha razão. Mas no último instante lembrou-se e, em vez de fazer isso, estendeu uma mão para agarrar no gnomo por uma perna. O cântaro virou-se e a cerveja espalhou-se pelo chão.
— E agora — disse Daithi severamente — mostra-me onde guardas o teu pote de ouro, ou ainda te arrependes.
Bem, o gnomo ficou encurralado, porque, como todos nós sabemos, só precisamos de segurar num e guardá-lo à vista para que ele tenha de nos mostrar o tesouro.
Assim, foram os dois até ao campo de Daithi, até um local com muitas rochas, ainda por amanhar. O gnomo apontou para uma daquelas grandes pedras na direção sul do campo.
— Além — disse o homenzinho. — Por baixo daquilo está o meu pote de ouro, a tua desgraça.
Bem, Daithi tentou levantar a rocha, empurrou, sempre segurando o gnomo e percebeu que não conseguiria movê-la sem a sua pá. Mas havia ali tantas pedras, o campo estava cheio de pedras. Teria de marcar aquela, antes de ir buscar a pá. Daithi procurou no bolso. Tinha lá uma fita vermelha que comprara a um nômade e que tencionava dar à namorada. Tirou-a e atou-a em redor da rocha sob a qual estava enterrado o pote de ouro.
— Pronto — disse ele. Daithi franziu o sobrolho para o gnomo. — Agora, antes de te libertar — disse ele, sabendo como os gnomos eram traiçoeiros — quero que me dês a tua palavra. Não tiras dali o tesouro antes de eu regressar com uma pá. E não tiras a fita desta rocha. Promete-me.
— Prometo, claro — disse o gnomo com absoluta sinceridade.
Ouviram-se algumas risadas na audiência, da parte daqueles que sabiam o fim da história.
— Muito bem, nesse caso — disse Daithi.
— Deixas-me ir embora, então? — perguntou o homenzinho, muito educadamente. Daithi libertou-o e o gnomo desapareceu como uma flecha. Daithi foi a casa buscar a pá e correu de volta ao campo com a mente cheia das coisas que faria quando pusesse as mãos no pote de ouro. E quando lá chegou, que viu ele? Todas as rochas no campo tinham uma fita vermelha. E, por mais que tentasse, por mais que cavasse, Daithi O’Flahirty nunca encontrou o tesouro do gnomo.
Ouviram-se aplausos de satisfação. Apesar de ter gostado, era óbvio que aquela história não tivera a grandeza das contadas pelo meu pai. Então, o homem de cabelo grisalho, aparentemente curado da dor de dentes, ofereceu-se para cantar uma canção. Era uma bela canção, edificante, acerca da vida difícil na terra fria e árida de Ceann Na Mara e como ele gostava dela, de tal modo que o seu coração lhe pedia sempre para voltar. Seguiram-se mais histórias: engraçadas, tristes, melancólicas. No fim, Darragh foi persuadido a tocar a sua gaita-de-foles. Desta vez ele não escolheu a canção triste, de partir o coração, que eu ouvira tantas vezes do outro lado do monte, acima da enseada. Tocou música de dança, os jovens levantaram-se, fizeram um círculo e seguiu-se um bater de pés no chão, um bater de palmas e um vivo redemoinho de saias e xales à luz dourada e quente da fogueira do acampamento.
Eu fiquei sentada a olhar e a beber a minha bebida. Darragh continuou a tocar. Não olhava para os alegres dançarinos, ou para os mais velhos sentados confortavelmente, revivendo amizades depois de anos de afastamento. Olhava para mim. Levanta-te e dança, diziam os olhos dele, desafiando-me. Porque não danças?
E, no fundo do meu coração, algo me dizia para o fazer. Aquela música fazia-me ferver o sangue; despertava-me sentimentos adormecidos. Mas eu fora bem treinada.
Disse para mim própria severamente: Tu, dançar? Não sejas tola. Nunca dançarás, não sem fazeres figura de parva. Além disso, és o que és. És diferente e sempre serás.
Depois daquilo foi fácil levantar-me, dar uma palavra a Peg e retirar-me para a tenda.
— Divertiste-te, rapariga? — perguntou Peg. Acenei levemente com a cabeça e afastei-me na direção do meu canto escuro e da minha privacidade. Lá fora, a música continuava. Em determinada altura juntaram-se à gaita-de-foles um assobio e um tambor. No meu canto, abri a minha arca de madeira, procurei entre as coisas que lá estavam, encontrei Riona e tirei-a. As suas feições mal se distinguiam nas sombras.
— A minha mãe dançava? — perguntei-lhe. — Isto foi um vestido de baile? — Os meus dedos tocaram numa prega do tecido sedoso cor-de-rosa do pequeno vestido de Riona.
Certamente, só uma rapariga confiante, encantadora, usaria um tal vestido. No entanto, essa mesma rapariga tornara-se na frágil criatura das palavras de Peg, na mulher que abandonara a filha e o homem que a amava desesperadamente, na mulher que se atirara um dia da falésia e que caíra, caíra através da espuma para as garras geladas do oceano que se atirava contra as rochas do Favo de Mel. Fora a sua própria família que provocara aquilo; o seu pai, os seus tios, o seu irmão, que era ainda o senhor de Sevenwaters. A conversa de Darragh acerca da família era um disparate. Tinham-na matado e tinham destruído o meu pai. À sua maneira, eram tão maus como a minha avó. E agora tinha de enfrentá-los e, de algum modo, tinha de levar a cabo a tarefa de que a minha avó me encarregara. Como podia eu pensar em histórias de fadas, em música e divertimento, quando tinha uma coisa daquelas pela frente? Dan Walker e os seus eram gente simples. Até as histórias que contavam eram simples. Eu não pertencia àquele povo e era louca se pensava que algum dia pertenceria. Tinha de me manter como era e ter a certeza que não atraía as atenções.
Com o tempo a viagem acabaria e poderia começar o trabalho que me esperava. Mas não era fácil. Parecia que havia uma pequena conspiração para me afastar de mim própria e fazer com que fizesse parte de tudo, quer quisesse, quer não. Acordaram cedo, na manhã seguinte e já estavam a comer as suas papas quando eu emergi da tenda com os olhos todos ramelosos. Havia uma gamela de água comunal.
Salpiquei apenas a cara, tendo já aprendido a não ser muito exagerada.
— Come depressa — aconselhou-me uma das raparigas ao passar por mim a correr e atando o cabelo com um lenço. — Ainda é longe. E os negócios começam cedo.
Aceitei silenciosamente uma escudela de papas e fui para debaixo das árvores para me sentar num tronco a comê-las. Sentia-me cansada. Deitara-me tarde. De qualquer maneira, não queria ir. Mas pareciam todos tão ocupados; não havia ninguém a quem perguntar. Os pôneis tinham de estar impecáveis; Dan inspecionava-os enquanto os rapazes davam os últimos retoques: o intrincado entrançamento de uma crina aqui e o cuidadoso escovar de uma cauda ali. Peg preparava os seus melhores cestos e dava às raparigas instruções infindáveis sobre o negócio e sobre como não se meterem em sarilhos. Talvez não fosse preciso perguntar se podia ficar. Talvez se esquecessem de mim. Subitamente fui invadida por uma onda de saudades de casa, um desejo de ver o meu pai e regressar a Kerry, um sítio tranqüilo, seguro, familiar.
Se, ao menos, pudesse empacotar algumas coisas e partir sozinha, regressando pelo mesmo caminho até chegar ao monte onde as pedras eretas marcavam a passagem do tempo e à enseada. Mas não podia regressar. Só podia ir em frente. Sentia-me triste e sem forças. Sentia-me realmente deslocada, como se não pertencesse a lugar nenhum.
— É melhor lavares essa escudela e preparares-te para partir, rapariga. — A voz de Peg interrompeu-me os pensamentos. — Vamos todos daqui a pouco. Vai ser um dia cheio.
Olhei para ela, preparando as palavras. Então, Darragh apareceu por trás dela, muito bem-vestido, um lenço verde ao pescoço, as botas muito bem polidas e um ar confiante.
— É uma caminhada longa demais para Fainne — disse ele para a mãe.
— Ela agüenta — disse Peg olhando para ele de lado com uma expressão esquisita. — Não é nenhuma inválida.
— Eu... eu... gostava... — foi tudo o que consegui dizer. Dois pares de olhos fixaram-me intensamente e percebi que ambos sabiam o que eu estava a querer dizer.
— Fazemos o seguinte — disse Darragh com indiferença. — Eu levo Fainne comigo. Aoife aguenta bem com os dois. Desço-a perto dos carvalhos e vamos ter consigo antes de eu ir para junto dos outros. Assim é mais fácil.
— Se é isso que queres — disse a mãe secamente. — Não te atrases.
— Não, mãe — sorriu Darragh, e avançou para onde eu estava, sob as árvores, de escudela vazia nas mãos. — Pronta? — perguntou ele com as sobrancelhas erguidas.
— Eu nem sequer quero ir — resmunguei.
— Bem, não podes ficar aqui sozinha, portanto não tens escolha, pois não? — disse ele. — Precisas de um lenço na cabeça, por causa do vento. É melhor entrançares o cabelo, também. Queres que te faça isso?
— É claro que não! — ripostei secamente. — Não sou nenhum bebê. Eu faço.
— Não te demores — disse ele tranquilamente.
Uma das raparigas ofereceu-se para me ajudar com o cabelo e, como estávamos com pressa, deixei-a. Mas depressa me arrependi.
— Tratamento especial, ha? — disse ela enquanto os seus dedos tentavam fazer alguma coisa dos meus espessos e intratáveis caracóis ruivos.
Não conseguia olhar para ela, para lhe reprimir o mexerico com uma expressão de desdém. Por isso, perguntei:
— O que queres dizer?
— Vais a cavalo com Darragh. Ele nunca fez tal coisa, levar uma rapariga com ele até à Cruz. Andam muitas atrás dele, o problema é esse. O Darragh é muito cuidadoso. Não tem favoritas.
Não consegui pensar em algo para dizer. Talvez lhe desse uma bofetada, se não me estivesse a entrançar o cabelo.
— Não se trata de favoritismo nenhum — sussurrei, irritada. — Ele está só a tentar ajudar, porque eu não posso andar com rapidez. — Movi o meu pé ligeiramente, para lhe mostrar a bota ligeiramente diferente.
— Isso? — disse a rapariga sem cerimônia. — Isso não é nada. Agüentavas nas calmas. Tens uma fita?
Estendi-lhe a fita azul por cima do ombro.
— Não. Estás a ser favorecida. Nem parece dele, chegar atrasado logo no primeiro dia de feira. É sempre o primeiro a partir, mal o Sol nasce. É louco por cavalos. Espera até ele aparecer na Cruz contigo na garupa. Vai partir os corações das raparigas todas.
— Tenho a certeza de que estás enganada — disse eu, sentindo as faces corar. — Eu não sou uma de vós. Ele só está a ser delicado. Sou uma... uma estranha, uma convidada. Mais nada.
A rapariga atou a fita com firmeza.
— Talvez sim — disse ela dando a volta com um pequeno sorriso que a marcava como mais um dos numerosos filhos de Peg. Devia, portanto, ser irmã de Darragh. Nem sequer sabia o seu nome. — E talvez não.
E então foi-se embora com um frufru de saias encarnadas e um tilintar de brincos de ouro antes de eu ter tempo, sequer, de lhe agradecer.
Ela estava completamente errada, claro. Darragh e eu éramos velhos amigos, mais nada. E ele achava que eu seria um incômodo e que me meteria em sarilhos se não me vigiasse. Qualquer coisa para além disso era muito difícil de compreender. Atei o pequeno lenço com a sua orla azul por cima do meu cabelo entrançado e fui até onde ele me esperava sem qualquer sinal de impaciência, enquanto Aoife pastava tranquilamente. Parecia que Dan, os homens e os rapazes já tinham ido. Peg e Molly estavam a organizar as crianças mais velhas no sentido de carregarem as mais pequenas e a aparelharem um par de velhos cavalos, que transportariam os cestos e os bebês.
Darragh olhava para mim com uma expressão esquisita, quase como se fosse começar a rir.
— Pareces uma pequena nômade — observou ele. — Tudo o que precisas é de um toque final e ficas igual. — Toma. Ele procurou no interior da sua jaqueta e tirou um pedaço de tecido sedoso, perfeitamente dobrado. Quando peguei nele, desdobrou-se e eu vi um xale deslumbrante de muitas cores, cuidadosamente decorado com criaturas minúsculas, delicadas, lagartos verdes, pássaros azuis, borboletas douradas e exóticos peixes com as cores do arco-íris e caudas frondosas. O xale tinha uma franja brilhante, entre o dourado e o prateado. Era o ornamento mais maravilhoso que eu já tinha visto.
— Eu não posso usar isto — disse eu, olhando para o objeto. Parecia feito para uma princesa.
— Não? — disse Darragh e tirando-mo das mãos, colocando-mo em volta dos ombros e atando-o à frente. — Vamos — disse ele. — Prometi que não chegávamos atrasados. Não tens medo de andar a cavalo, pois não?
— É claro que não! — retorqui.
— Então, vamos.
Com a sua ajuda, não foi muito difícil subir para cima de Aoife. Pensava que iria atrás dele, como dissera a irmã; mas ele colocou-me na frente, sentada de lado como uma senhora, segurando-me com uma das mãos enquanto, com a outra, segurava levemente nas rédeas. Pareceu-me, quando começamos a andar, que Aoife sabia o que queria, sem necessidade de lhe dizerem nada. Quando havia uma bifurcação no trilho, Darragh dizia uma palavra em voz baixa e ela virava. Tocava-a com os joelhos, ou pousava-lhe uma mão morena no brilhante pescoço branco e ela percebia instantaneamente o que o dono queria.
— Tudo bem? — perguntou ele uma vez ou duas, e eu acenei com a cabeça. De fato, ia melhor do que bem. Sentia-me como nos velhos tempos; quando partilhávamos uma camaradagem silenciosa. Esses tempos tinham acabado. Eu sabia. Mas, enquanto aquela cavalgada durasse, podia fingir que nada tinha acontecido. Sentia o toque suave do xale maravilhoso, com o seu vibrante padrão de vida, envolvendo-me como um talismã de proteção; quase acreditava que era um dos nômades, cavalgando para a feira, orgulhosa e, por trás de mim, com o braço em redor da minha cintura, um belo rapaz, que era o melhor tocador de gaita-de-foles de Kerry.
Ali ia eu, cavalgando o cavalo mais branco e mais inteligente de todos, com o rosto ao vento, as formas rígidas das montanhas distantes de um lado e as águas de uma vasta enseada rochosa do outro, deixando ver aqui e ali uma pequena praia e um barco ou dois em terra, para melhor segurança. Havia pouca gente no caminho.
Talvez estivéssemos atrasados. Darragh não parecia aborrecido e Aoife prosseguia como se fosse a única criatura importante na estrada. Ultrapassamos Peg, Molly e as crianças e a irmã de Darragh piscou-me o olho. Passado um bom bocado, perguntei-lhe:
— Como é que se chama a tua irmã?
— Qual delas?
— A que tem uma saia vermelha e um ar altivo. Creio que deve ser logo a seguir a ti.
Seguiu-se uma pequena pausa.
— Por que é que não lhe perguntas? — disse Darragh. Não respondi.
— Elas não mordem, Fainne — disse ele, mas não havia qualquer reprovação no seu tom. — Deve ser a Roisin. Foi atrevida contigo?
— Não.
— Tens de ter cuidado com ela. Ela diz o que pensa.
— Hum — disse eu. — Já reparei.
— Mas é boa rapariga. Todas são.
Chegamos depressa demais. Nunca vira tanta gente num só lugar, nem nunca ouvira tantas vozes. Mas havia uma certa ordem, se se olhasse com cuidado. O verdadeiro negócio desenrolava-se no local onde estavam os cavalos, com pequenos grupos de camponeses, nômades e alguns com ar de senhores locais, ou mestres-de-armas, inspecionando dentes e cascos e conduzindo conversações intensas e privadas. Mais perto desenrolava-se o comércio de bens variados, as pessoas conversavam, havia um odor a carne assada vindo de uma pequena fogueira e vi a carroça coberta do Grande Mestre e do seu fluente assistente. Alguém chamou de longe por Darragh.
Paramos sob um grupo de grandes árvores.
— Pronto — disse ele, e deslizou do alto de Aoife, leve como uma pena. — Chegamos. Segurou-me enquanto eu descia e ficou, depois, por instantes, com as mãos em redor da minha cintura. — Ah — disse ele. — Um sorriso. Coisa rara.
Estendi o braço para afagar o flanco reluzente de Aoife.
— Não vais vendê-la, pois não? — perguntei.
— A ela? Nem pensar. Não me separo dela. Dá-me sorte.
Acenei com a cabeça.
— Está alguém a chamar-te — disse eu.
Darragh afastou as mãos.
— Acho que não posso ir já — disse ele franzindo o sobrolho. — A minha mãe ainda não chegou e eu disse que esperava por ela. E lá em cima não é lugar para uma rapariga — disse ele, indicando o lugar onde estavam os cavalos com um movimento de cabeça.
Outra voz gritou:
— Darragh! Precisamos de ti aqui!
— É melhor ires — disse eu com mais coragem do que a que sentia. — Eu espero por ela aqui, sob estas árvores.
Os olhos castanhos de Darragh olharam para mim fixamente.
— Tens a certeza?
— Não sou nenhuma criança. Não me perco.
— Promete-me que não te metes em sarilhos.
— Não sejas ridículo.
— Promete, ou não saio daqui.
— Darragh! — Desta vez era Dan Walker que chamava.
— Que estupidez. Está bem, prometo.
— Até logo, então. — Puxou-me o canto do lenço, girou nos calcanhares e foi-se embora com Aoife caminhando obedientemente a seu lado, firme como uma rocha no meio de toda aquela multidão.
Tencionava cumprir a minha promessa. A sério. Mas não nos podemos esquecer de quem somos e do que somos. Por vezes, as coisas acontecem e temos de agir, não podemos, apenas, ficar parados. Foi o que aconteceu naquela manhã, na Cruz.
Misturei-me com as sombras das grandes árvores, desejando ter o poder da invisibilidade. Porque podia ficar ali escondida, com ou sem xale garrido, já que toda a atenção estava concentrada na carroça do Grande Mestre. Estava a ser aberta e descarregada a dez passos dali para delícia dos muitos pescoços esticados, ooohhhs e aaahhhs da multidão reunida em volta. O assistente esgalgado fazia a maior parte do trabalho e só ele é que falava, enquanto o Mestre permanecia com a sua miserável capa de feiticeiro esfarrapada, olhando para todos com o seu nariz que mais parecia um bico e fazendo os possíveis para parecer altivo e misterioso. Havia menos magia naquele tipo lúgubre, pensei, do que no meu dedo mindinho. Via-se logo que era uma fraude, mas era espantoso ver como as pessoas pareciam atraídas por ele.
O assistente era um homem muito irrequieto. Em breve a área em redor da carroça era um festival de bandeiras, redes e muitas gaiolas pequenas penduradas em paus, dentro de cada uma das quais estava uma estranha criatura que podia ser obtida por um determinado preço, para divertir uma namorada ou para provocar ciúmes num vizinho. Aproximei-me um pouco, mas era difícil ver sem ser vista. Na gaiola mais próxima de mim estava um pássaro com ar abandonado, uma espécie de mocho com a plumagem em farrapos. Andava de um lado para o outro no seu poleiro, os movimentos irregulares, os olhos redondos e selvagens. Por baixo dele estava sentada uma criatura penugenta, com uma mão provida de garras em redor de uma das barras da sua pequena prisão e a cabeça inclinada, como se estivesse a dormir. No outro lado, algo lançava guinchos estridentes e as pessoas apontavam, lançando pequenas exclamações.
— Minhas senhoras, meus caros senhores, meus queridos jovens! — O assistente gritava; essencial para se fazer ouvir. — Aproximai-vos, aproximai-vos e o Mestre mostrar-vos-á os incríveis remédios que temos para vós este ano, alguns já testados e confirmados, outros maravilhosas descobertas, tudo espantosamente eficaz.
Aquela lengalenga continuou durante algum tempo. Olhei em volta. Não havia sinais de Peg, de Molly e das crianças. Aproximei-me. Consegui ver a origem do barulho: um pássaro brilhantemente colorido, preso num poleiro na parte de trás da carroça. Por trás dele outros animais enjaulados. Pombas. Tentilhões. Uma lebre numa gaiola tão pequena que não conseguia virar-se, nem sequer flectir as fortes pernas, ou saltar, como todos os da sua espécie. Estava lá um rapaz, metendo um dedo na gaiola e o animal nem sequer podia fugir. Olhei-lhe para os olhos: sem expressão, olhando em frente, a razão submersa pelo pânico. O pássaro gritou de novo e a mim pareceu-me que aquele grito representava a raiva e o medo de todos os outros, por terem sido metidos em gaiolas, por serem mostrados, por servirem de divertimento a um bando de parolos e depois atirados fora sem um segundo pensamento, sequer.
O homem continuava a falar acerca de uma poção de força. Fingiu que bebeu um pouco e depois escolheu, entre a multidão, um grandalhão para lutar com ele. O resultado era inevitável. Os dois fizeram um simulacro de combate e o assistente do Mestre assentou um murro no queixo do seu opositor muito maior. O gigante caiu e a multidão fez um ah! de espanto. Após uma curta pausa, durante a qual se ouviu uma criança perguntar: Ele está morto, mãe? o sujeito começou a resmungar e foi içado, massageando o queixo e revirando os olhos. Seguiu-se um murmúrio de excitação e os compradores, ansiosos, empurraram-se uns aos outros. Perguntei a mim mesma quanto teriam eles pago ao grandalhão para fazer aquele papel.
— E agora — disse o assistente, aparentemente inchado pela sua proeza — o Mestre em pessoa vai fazer a demonstração de um novo e incrível filtro de amor. Feito por ele próprio, esta poção transformará a mais relutante das namoradas numa... caros amigos, não imaginais. Tendes de ver por vós próprios. Meus senhores... o Mestre.
Era suposto toda a gente aplaudir, penso. Ainda não conseguia ver muito bem. Mas, se me aproximasse, ficaria no meio da multidão e as pessoas olhariam para mim, aproximar-se-iam, falar-me-iam e... Os meus dedos apertaram o talismã e senti-me mais confiante. Usa o Encantamento, dizia a voz da minha avó, algures na minha cabeça. Sê o que quiseres. Fi-lo rapidamente, antes que mudasse de idéia. Peg e Molly não estavam presentes. Darragh estava ocupado. Ninguém repararia. Escolhi a forma que atrairia menos as atenções, uma versão bastante mais velha de mim própria, uma mulher de meia-idade, com roupas de trabalho, xale, lenço e cabelos soltos. Podia ser qualquer pessoa. Na verdade, havia muitas assim na multidão.
Ninguém reparou quando me aproximei da frente, onde podia ver o homem que se chamava a si próprio Mestre, perscrutando a multidão e mantendo, ao mesmo tempo, a sua pose de desdém.
— O Mestre está à procura — disse o assistente portentosamente. — A procura de um homem que se sinta só; à procura de uma pobre alma sem amor. Que tal você, amigo?
— Esse já tem dono! — respondeu uma aguda voz feminina na parte de trás da multidão.
Toda a gente se riu.
— Ah — disse o assistente, enquanto o Mestre apontava um dedo ossudo. — Eis o homem.
— Qual é o seu nome, amigo?
O homem, embaraçado, corou, sorrindo ao mesmo tempo.
— O nome dele é Ross — disse um amigo prestável, desatando a rir. — Não tem os parafusos todos, mas é bom rapaz. Parecia que já tinham ambos uns copos a mais.
— Gostava de ter uma bela namorada, não gostava, Ross? — perguntou o assistente e acenou à sua vítima para que subisse os degraus da carroça, de modo a que toda a gente o pudesse ver. — Vamos lá a ver se lhe arranjamos uma. Qual das senhoras quer experimentar o nosso novo elixir?
Seguiu-se um arrastar de pés e um silêncio. Aparentemente, ninguém se oferecia.
Não fiquei surpreendida. O homem que eles tinham escolhido era escanzelado, não tinha um ar muito limpo e tinha um nariz bulboso, com uma verruga na ponta.
— Então? — aliciou o assistente. — Quem quer tentar? Deve haver aqui uma bela senhora que goste de se divertir? Não? Bem, nesse caso, o Mestre terá de suplicar.
O homem da capa negra já tinha descido da carroça e começara a passear ao longo da fila da frente, onde as pessoas se amontoavam. Eu tinha-o observado, enquanto os outros prestavam atenção ao que falava. O Mestre segurava na mão uma corrente de ouro com um pequeno e brilhante objeto na ponta e fazia-a oscilar, para um lado e para o outro.
— Pode ser que haja alguma coisa para a rapariga que tiver coragem — insinuou o assistente. O Mestre andou de um lado para o outro. A pequena corrente oscilava para a esquerda e para a direita. O homem parou. Fez uma pausa. Estendeu um dedo e apontou.
— Ah! — exclamou o assistente. — Temos ali uma voluntária. Aproxime-se, minha cara, suba até aqui e prove esta poção requintada, feita de uma seleção cuidadosa de ervas, bagas e... um... — o homem fez um círculo com o polegar e o indicador — ingrediente secreto. Apenas umas gotas.
A rapariga escolhida era muito nova, certamente mais nova do que eu e pobremente vestida, com um vestido todo remendado. À parte isso, havia uma frescura nela que era capaz de atrair a atenção de um homem. Ninguém levantou objeções quando os homens a empurraram. Parecia que ela estava ali sozinha. Ninguém reparou na maneira como ela olhou para a pequena corrente de ouro oscilando de um lado para o outro, como se fosse a única coisa que conseguisse ver. Senti a irritação crescer dentro de mim.
O Mestre guardou a corrente no bolso. A rapariga colocou-se diante dele, as suas puras feições vazias de qualquer expressão. No outro lado, o homem de nariz bulboso olhou de esguelha para ela e depois para os amigos na multidão, revirando os olhos e estes riram-se, acotovelando-se.
O Mestre inclinou-se e segredou qualquer coisa ao ouvido da rapariga. Tudo o que ouvi, foi:
— Bebe isto, minha querida. — Mas ele tinha-lhe dito mais qualquer coisa. E eu era capaz de adivinhar o quê.
Ela pegou na pequena taça e bebeu. Seguiu-se um silêncio de expectativa. Por um momento, nada aconteceu. Então, ela virou-se e, sem qualquer expressão, deu um passo na direção do homem chamado Ross. Pôs-lhe os braços em redor do pescoço, pressionou o corpo contra o dele e beijou-o nos lábios longamente. A multidão deu vivas e aplaudiu. Reparei na maneira como o homem a apalpava e lhe metia a língua na boca. Esperava que o Mestre estalasse os dedos, ou acenasse diante dos olhos da rapariga para desfazer o que tinha feito. Em vez disso, ficou a ver o homem conduzir a rapariga pelos degraus abaixo e através da multidão. Um grupo de homens amontoou-se em redor da carroça, ansiosos por comprar a poção. Senti-me ultrajada. Aquilo não passava de um simulacro, de um velho truque, fácil, se se encontrasse um indivíduo suscetível. Fazia-se com facilidade. E desfazia-se com a mesma facilidade.
Mas aquele homem não o desfizera. Deixara ir aquela rapariga com aquele tipo e como eu disse, somos o que somos. Por vezes, temos de agir. O pássaro multicolorido continuava no seu poleiro perto do ombro do Mestre, sempre a gritar.
Olhei-o nos olhos e disse uma palavra em silêncio.
A corda que o prendia quebrou-se. Ninguém viu. O pássaro encolheu-se, aumentou de tamanho e transformou-se. Por momentos, na confusão, ninguém reparou. As penas de cores vivas transformaram-se em escamas brilhantes. Garras e bico desapareceram. Usei a imaginação. O animal tornou-se comprido, esbelto e sinuoso.
A serpente enrolou-se no poleiro, sentindo o poder do seu corpo musculoso e o veneno na sua língua bifurcada. Sentindo o quase esquecido poder da liberdade.
Uma criança perguntou: O que é aquilo, mãe?
O Mestre ficou gelado quando sentiu o animal circular-lhe pelos ombros e enrolar-se em redor do seu pescoço, por cima da capa esfarrapada.
— Aaah... — conseguiu ele dizer num mero fio de voz. O assistente recuou. A multidão recuou. O homem chamado Ross parou e olhou para trás, segurando ainda a rapariga por um braço. Eu avancei um passo, certificando-me de que o Mestre me podia ver.
— Desfaz o feitiço — disse eu muito calmamente. Os seus olhos esbugalharam-se na minha direção. O seu rosto estava violeta. Talvez o aperto fosse forte. Não me importei. — Chama a rapariga e desfaz o que fizeste — disse eu de novo, suavemente, de modo que apenas ele e o assistente pudessem ouvir. — Já, ou morres. Não penses que me importa o que te possa acontecer...
— Aaaah... — conseguiu dizer de novo o Mestre, olhando para o assistente com os olhos esbugalhados. A serpente aumentou o aperto e a sua cauda saiu do poleiro para se enrolar em redor do braço do Mestre. Agora, o homem suportava o peso total do animal. A cabeça, pequena e triangular, estava, agora, mesmo em frente dos seus olhos. O assistente mexeu-se e chamou.
— Tu! Tu aí! Trá-la de volta!
A multidão afastou-se do homem e da rapariga. O terror afastou as pessoas da carroça; mas o fascínio mantinha-as suficientemente perto, porque aquele divertimento seria objeto de todas as histórias à volta da fogueira durante o longo Inverno que se aproximava. O assistente agarrou na rapariga pelo outro braço e afastou-a do lúbrico Ross. Não precisou de puxar com muita força. Ross tinha empalidecido à vista dos pequenos e maldosos olhos da serpente. Recuou para o meio da multidão. A rapariga ficou próxima do Mestre. A sua expressão era vazia; o terrível animal até podia ser um porco, ou uma ovelha.
— Desfaz o que fizeste — sibilei. — Depressa. Ou ela morde-te. — Não tinha a certeza de que conseguiria fazer aquilo, mas pareceu-me convincente. O Mestre ergueu uma mão trêmula e estalou os dedos diante do rosto vazio da rapariga. Esta pestanejou e esfregou os olhos. Então, viu a serpente e gritou.
— Está tudo bem — disse-lhe eu a coberto da reação excitada da multidão. — Vai para casa. Vai. Procura a tua família e vai para casa.
— O meu pai — disse ela com a voz em pânico, como se recordasse qualquer coisa. — O meu pai mata-me. — Olhou em volta desvairada, avistou alguém na direção dos cavalos e desatou a correr.
— Argh... — ouvi eu a seguir. Não me tinha esquecido do Mestre. Não por completo. E tinha de agir rapidamente e desaparecer, porque tinha avistado Roisin na orla da multidão e sabia que as restantes também deviam lá estar e andariam à minha procura.
Olhei para os pequenos e brilhantes olhos da serpente. Sentia-me contente por ter criado um tal animal. Mas, no fim de contas, uma serpente não pode voar. Disse a palavra em silêncio e ela mudou. O Mestre deu um grito de dor no momento em que o pássaro surgiu fincando-lhe as garras momentaneamente no pescoço, abrindo de seguida as suas grandes asas e erguendo-se, algo desajeitado, no ar, circundando a multidão com um grito de despedida, antes de voar para leste. Toda a gente olhava para cima, estendendo o pescoço para ver o fenômeno. Eu não o desejara, mas era boa naquele gênero de coisa. As portas das gaiolas abriram-se, os trincos desfizeram-se e as dobradiças caíram. Nem todos podiam ser salvos; tinha que transformar alguns. A lebre transformou-se num belo e saudável pequeno pônei, que mandei na direção dos outros cavalos com uma palmada na garupa. Sair-se-ia bem. A criatura peluda e com garras foi transformada num esquilo, que correu pelo espaço aberto na direção dos carvalhos, onde faria a sua casa. Os tentilhões e as pombas safar-se-iam. Talvez não estivessem presos há muito tempo, porque se afastaram rapidamente, arriscando-se ao Inverno, às armadilhas e aos falcões. Mas faltava um cativo. O pequeno mocho, cuja gaiola estava aberta para a liberdade, ficou no seu poleiro, tremulo, erguendo um pé e depois outro, incapaz de fazer o primeiro movimento. E as pessoas estavam a olhar, a apontar e o Mestre e o assistente avançavam para o sítio onde eu estava, dizendo à criatura para abrir as asas e voar. Imaginei ouvir a voz de Peg, algures para o lado dos carvalhos, a chamar por mim.
— Voa, estúpido, — disse eu ao pássaro. Não podia transformar aquele; era demasiado frágil e estava demasiado aterrorizado para sobreviver. Precisava de tomar uma decisão rapidamente. Virei-me para o Mestre.
— Dá-me este mocho. Ou digo a esta gente a fraude que és. Como todos os teus remédios são uma porcaria. Sou capaz de o fazer.
Ele olhou para mim.
— Tu? — ele em voz baixa para que a multidão não o ouvisse. — Mulher de um camponês? Não me parece. Afasta-te, ou mando-te chicotear por me arruinares o espetáculo e roubar os meus animais. Vai, desaparece... — o homem parou abruptamente quando lhe olhei para o pescoço e disse outro pequeno feitiço.
— Aã aaaggg...
— Estás a ver? — disse eu suavemente. — A serpente foi apenas um divertimento. Não preciso dela para te estrangular lentamente. Dá-me o pássaro.
O homem gesticulou selvaticamente com uma mão e levou a outra à garganta. O assistente tirou a pequena gaiola com o seu pequeno habitante do gancho e eu peguei nela.
— Ótimo — disse eu calmamente, e desfiz o feitiço. O Mestre cambaleou para trás, o rosto branco como a cal, ao mesmo tempo que o seu assistente era cercado pelos espectadores confusos e gesticulantes. Agora que a serpente tinha desaparecido, queriam respostas.
O Mestre olhou para mim.
— Quem és tu? — perguntou ele com um verdadeiro medo nos olhos.
— Sou a filha de um feiticeiro e mais mestre do que tu algum dia serás com os teus taíques baratos. Não voltes a tentar isso, levar uma rapariga a comportar-se como uma qualquer para alugar. Nem te atrevas a pensar nisso. Apontei para o meu próprio pescoço, como que a avisá-lo das conseqüências. Então, vi Molly e a seu lado Roisin e desapareci na multidão, onde era mais uma mulher de um camponês em busca de um dia de divertimento.
Retirei-me para um canto tranqüilo por trás de uma carroça vazia e sentei-me na erva. Disse as palavras em silêncio e voltei a ser eu, uma pequena nômade, com uma saia às riscas, um lenço com uma orla azul, uma longa trança ruiva e um pé defeituoso. Uma rapariga usando o mais belo xale em toda a Cruz, um xale com um desenho soberbo de maravilhosos animais de todas as espécies. Uma rapariga transportando uma gaiola quebrada com um mocho maluco lá dentro. Mas não faria essa última parte.
Falei ao animal em voz baixa. Este parecia estupidificado de medo, limitando-se a levantar, mecanicamente, ora a pata esquerda, ora a direita.
— Não tenhas medo — disse eu, pouco certa de que ele me conseguisse ouvir, quanto mais compreender. — Voa. Voa para a liberdade. — Coloquei lentamente a mão na gaiola, esperando, pelo menos, umas bicadas nos dedos. O pássaro não fez qualquer movimento, continuando, apenas, a levantar as patas alternadamente. Talvez estivesse mesmo louco. Talvez fosse uma boa ação torcer-lhe o pescoço. Ouvi de novo a voz de Peg sobre o barulho da multidão.
— Anda lá — disse eu. — Ajuda-me! — Rodeei a ave com uma mão, segurando-lhe as asas para que não se magoasse se resolvesse batê-las e tirei-a cuidadosamente, primeiro a cabeça. Sentia o seu coração a bater como um tambor e a fragilidade do seu corpo, todos os ossos e todas as penas. Usei ambas as mãos para manter a ave mais ou menos direita no chão à minha frente, enfrentando o espaço aberto.
— Árvores — disse eu. — Carvalhos. Aquilo, além, são carvalhos. Voa. Usa essas asas. Vai. — Soltei as mãos. A ave ficou ali, trêmula. Pelo menos parara de saltar de uma pata para a outra. — Vai — disse eu dando-lhe um pequeno empurrão.
O pássaro virou a cabeça e olhou para mim.
— Por todos os druidas! — sussurrei, exasperada. — Que hei de fazer? Não posso ficar contigo, tenho de ir e além disso...
A ave olhou para mim com os seus olhos grandes, redondos e loucos.
— Não me chegam os meus problemas? — perguntei-lhe. — Oh, está bem, pronto. — Aquele patético monte de penas não agüentava uma transformação, sabia-o por experiência.
Mais do que um rato, ou escaravelho, fora sacrificado às exigências da minha avó pela perfeição da arte. Mas podia torná-lo mais pequeno. E o meu vestido tinha bolsos fundos, já que uma rapariga nômade precisa de levar consigo agulha e fio, ou uma faca, ou um lenço ou dois. Estendi o braço e peguei na andrajosa criatura.
— Pronto — disse eu pegando nela. — Agora, estava mais ou menos do tamanho de um rato: as garras pareciam os pequenos espinhos de uma rosa brava e os olhos estavam minúsculos, escuros e solenes. Piscaram para mim.
— Espero que não estejas com fome — disse eu em voz baixa. — Espero que compreendas quando eu disser quieto e calado. — Meti o pequeno animal no meu bolso e fui para a feira.
— Fainne! — gritou Roisin, antes que eu tivesse dado cinco passos através da erva. — Onde estiveste? A minha mãe está farta de te procurar, disse que não te conseguia encontrar em parte nenhuma. Onde estiveste?
— Em lado nenhum — disse eu. — Ela não precisava de se preocupar.
— Não foi isso que Darragh disse. — Olhei para ela intensamente.
— E o que é que Darragh disse? — perguntei-lhe, chocada com a minha falta de timidez.
Roisin sorriu.
— Disse que eras capaz de arranjar sarilhos.
— Disparate, vês, estou bem. Onde é que vamos agora?
— Vender os cestos. Assim que os vendermos todos podemos dar uma volta. Mas não sozinhas. A minha mãe não deixa. rapariga andar sozinha — olhou para mim de lado, as sobrancelhas erguidas.
— Desculpa — disse eu. — Não sabia.
— Hã-hã — Fez Roisin e pareceu mesmo o irmão.
Foi tudo o que disse nesse dia. Sentei-me a olhar enquanto Peg, Molly, Roisin e as outras raparigas discutiam o preço dos seus produtos e embolsavam os lucros e a história do que se passou naquela manhã tornou-se mais elaborada. Vimos o Grande Mestre e o seu assistente empacotarem os seus pertences e abandonarem a feira sem mais demoras, deixando clientes descontentes e sem qualquer explicação.
Eventualmente, tinham fugido e isso era causa de conjecturas surpreendentes, porque faziam ambos, há muito, parte da feira, disse Peg. As pessoas tinham grande fé nos seus remédios. Quanto a ela, nunca precisara daquelas poções. O que não podemos fazer por nós próprios, não podemos, paciência. As pessoas deviam aceitar isso e deixar de querer ser o que não se é. O tipo arrastava multidões, era a única coisa boa a dizer dele. Instalar a venda perto da carroça do Mestre era sinal de boas vendas.
Mantive-me afastada de tudo aquilo. Roisin perguntou-me se eu vira alguma coisa e eu disse-lhe que não, porque havia muitas pessoas mais altas do que eu à minha frente. Só muita agitação e uns pássaros a voarem. Mais nada. Mas as pessoas falaram daquilo durante a manhã toda. Diziam que a magia tinha corrido mal por uma razão qualquer. Uma maldição, talvez. Os animais tinham enlouquecido e uma serpente quase matou o tipo, assim como outro animal maior, com garras afiadas como facas. Nunca tinham visto nada daquilo. E houve uma mulher qualquer que lhe deu uma descompostura. Não gostariam nada de a desafiar. Terrível, como uma feiticeira, se bem que não passasse da mulher de um camponês. E então, de repente, desapareceu. Mas o tipo ficou assustado, via-se bem. Ficou da cor do queijo fresco e com uma marca vermelha no pescoço.
Os cestos venderam-se rapidamente e Peg ficou contente. Tinha mais no acampamento, disse ela, assim como outras coisas, lenços e outras coisas. No dia seguinte traria mais. Tínhamos a tarde livre. Mas, disse-nos Peg, nada de disparates. Nenhuma de nós poderia andar sozinha e teríamos de voltar antes do Sol tocar nos carvalhos, porque ainda era uma longa caminhada até ao acampamento e não queria que as crianças se cansassem muito. Ela e Molly empacotariam tudo, saboreariam umas canecas de cidra e poriam a conversa em dia com as amigas.
Mais uma vez, não tive escolha. Roisin agarrou-se a mim e na companhia de duas outras raparigas levou-me por entre uma data de corpos, desejosa de algum divertimento. Subitamente, senti-me invadida pelo pânico. Havia gente a mais, muito perto e eram todos estranhos. Uma coisa horrível, homens de olhar lúbrico como aquele tipo, Ross, homens estendendo as mãos para beliscar e apalpar, homens dizendo coisas como Queres vir comigo, querida? e depois rindo ruidosamente como se tivessem dito uma grande piada. Mulheres insultando crianças desobedientes. Donos de barracas gritando os seus produtos com vozes que mais pareciam trompas. Não podia sair dali, porque não tinha para onde ir. Não tinha o poder de lançar um feitiço de transporte. O meu pai recusara-se a ensinar-me isso, dizendo que eu não estava preparada. Brinquei com o pensamento de transformar toda a gente em baratas, ou aranhas. Pelo menos, então, a pequena criatura no meu bolso poderia comer. Mas eu não queria discussões com Roisin, ou Peg, ou Molly. Ou até com Darragh. Não, tinha de fazer outra coisa. Usa o encantamento, Fainne.
Já resultara antes, dando-me a confiança necessária para o usar quando precisasse dele. E ninguém reparara em nada. Seria fácil.
Fi-lo gradualmente enquanto andávamos por entre a multidão O cabelo, de ruivo entrançado, passou a um dourado-avermelhado, cor de mel, mais suave. Os olhos mais claros, mais azuis, maiores, as pestanas longas e escuras. As sobrancelhas delicadamente arqueadas, os lábios doces e vermelhos. A silhueta, não muito diferente: uma pequena curva ali, uma pequena curva aqui e uma mudança na forma dos ombros. Por fim, os pés. Direitos, belos, perfeitos, em botas que assentavam que nem uma luva. Pés para dançar.
Compramos nozes assadas a um tipo de pele escura que tinha uma braseira. Foram pagas com um beijo. Mas não fui eu que o dei; o Encantamento não era suficiente para me tornar, de repente, corajosa. Foi Roisin, que espetou um beijo em cada uma das faces do homem, com um sorrisinho matreiro. Depois foi a cidra, que era grátis para todos aqueles que vendiam na feira.
Fomos tentadas pelo som de um assobio, de um bodhrán e de um especialista em colheres e fomos arrastadas para um grande círculo de gente que se preparava para dançar a jiga e o reehl na relva. Os homens começavam a regressar, tendo terminado os negócios, e Roisin e as outras tinham os olhos postos em certos rapazes de quem gostavam.
Ninguém reparou que eu estava diferente. No fim de contas, não me tinha transformado na mulher de um camponês, ou numa velha, ou num dragão. Tudo o que fizera fora melhorar a minha pessoa sutilmente, muito sutilmente.
Como o meu pai me dissera, não somos nós que mudamos com o Encantamento. A percepção das pessoas que nos vêem é que muda. Assim, naquela tarde, não me disfarcei. Não queria desaparecer e ter Roisin e as outras à minha procura. Queria, apenas, encaixar-me, aderir, libertar-me do terror que tinha de ser eu mesma e estar sempre deslocada. Além disso, disse eu para mim própria, era uma boa prática para quando estivesse em Sevenwaters.
Roisin tinha um namorado. O rapaz apareceu na orla da multidão e eu vi-o a olhar para ela, aproximar-se e pôr-lhe as mãos nos olhos por trás, rindo e pedindo-lhe para dançar. Tinha um queixo determinado e ombros fortes. Pouco tempo depois, outro rapaz pediu-me e eu aceitei, sorrindo como a minha avó me ensinara.
Ser elegante era uma sensação estranha. A música parecia transportar-me e eu flutuava de um parceiro para outro, sorrindo naturalmente, sem sequer me esforçar.
Estava calor e tirei o lenço. A fita azul perdeu-se e o meu cabelo soltou-se. Senti aquele rio dourado-avermelhado nos ombros, a saia às riscas girando à minha volta e o meu belo xale cintilando ao Sol da tarde. Senti o som do bodhran bem dentro de mim, transportando-me. Senti os olhos dos homens em mim, admirando-me e não me importei nem um bocado. Dancei com o rapaz sardento do nosso acampamento, o que tinha um cavalo chamado Silver, ele sorriu muito e não disse nada. No outro lado do círculo, Roisin continuava com o mesmo rapaz: só tinham olhos um para o outro. Dancei com um homem mais velho, um camponês com um belo casaco de botões de prata e olhos penetrantes. Perguntou-me o nome e eu disse-lhe. Perguntou-me se me poderia ver no dia seguinte e eu disse talvez. Apertou-me mais do que eu gostaria e eu pensei rapidamente. O homem ficou subitamente muito pálido e pediu desculpa. Não lhe fizera nada de mal. Ele é que vomitou a comida toda que tinha dentro. No dia seguinte estaria melhor.
O Sol estava perto da copa dos grandes carvalhos e as nuvens amontoavam-se. Mas eu ainda não estava pronta para ir. Ali, era o centro de algo. Era eu e não era eu, era as duas ao mesmo tempo. Tudo se movia à minha volta, os homens de olhos esfomeados, o ritmo e a vibração da música, os lenços e os xales coloridos, os cabelos ao vento, o movimento, o riso e as luzes.
Um tipo alto estava a pedir-me para dançar, empurrado pelos amigos. À distância, podia ver Roisin a despedir-se do jovem. E para lá deles, na parte mais longínqua do círculo estava Darragh, muito quieto, olhando para mim. A sua expressão não estava exatamente zangada. Era mais do que isso. Era o olhar de um homem cujos maiores receios se tinham concretizado mesmo diante dos seus olhos. Deu um trejeito com a cabeça, como que a dizer vamos embora, chegou a hora. Em seguida virou costas e desapareceu na multidão. Nem sequer ia esperar por mim.
— Desculpe-me — sussurrei eu ao meu par seguinte, e fui-me embora calmamente, desfazendo o Encantamento à medida que caminhava na direção do sítio onde Darragh me deixara nessa manhã, perto dos grandes carvalhos.
Aoife estava sob as árvores, à sombra. Darragh estava junto dela, carrancudo e silencioso. Juntou as mãos para me ajudar a subir para a égua, saltou por trás de mim e partimos em passo rápido. Ele não disse nada até estarmos bastante afastados, depois de passarmos pelos pequenos barcos em terra, com as nuvens a amontoarem-se no céu por cima de nós. Não havia mais ninguém à vista.
— Não te posso perder de vista por um momento, pois não? — observou ele.
— Não sei de que estás a falar.
— Pensei que me tinhas prometido que não te meterias em sarilhos. E agora, olha para ti.
— Que queres dizer com isso, olha para mim? — repliquei, detestando que ele estivesse zangado comigo. — Fui à feira, vendi cestos, fui dançar com a tua irmã e agora vou para casa. Como toda a gente. Não era isso que querias?
Silêncio.
— Então, não era? — Até a mim a minha voz soava esganiçada. Ele estava a deixar-me pouco à vontade.
— O que eu quero não é para aqui chamado — disse Darragh calmamente.
— Isso é um disparate — respondi, não compreendendo o que ele queria dizer.
Continuamos em silêncio, enquanto a chuva começava a cair. Aoife abanou as orelhas.
— É claro que é bom estar entre as pessoas e divertires-te — disse ele, finalmente. — Não há nada de errado em dançar. Mas não... assim.
— Assim como?
— Exibindo-te. Chamar a atenção. Fazer com que os homens olhem para ti como se quisessem algo mais para além de dançar. Fazer... o que tu fazes.
Mordi os lábios e não disse nada.
— Fainne?
— Eu não me meti em sarilhos — disse eu com toda a dignidade de que era capaz, tentando descobrir por que razão ele conseguia perturbar-me tanto. — Tudo o que fiz foi divertir-me um pouco. Além disso, não tens nada com isso.
Seguiu-se outro silêncio incômodo, pontuado pelo som de cascos a aproximarem-se.
O jovem das sardas, no seu cavalo cinzento, aproximou-se de nós, sorrindo para mim.
— Querem companhia? — ele olhando para Darragh, e eu vi a expressão dele mudar, enterrar os calcanhares nos flancos do cavalo e desaparecer a galope.
— De qualquer maneira — disse Darragh enquanto virávamos à direita, afastando-nos da água — que é que aconteceu antes? Ouvi uma história acerca de uma feiticeira, de animais a fugirem, uma desordem e pássaros transformados em serpentes.
— Também ouvi.
— E então?
— Então o quê?
— Então, Fainne — disse ele, exasperado, e deteve Aoife. — Me digas que não tens nada a ver com isso. Alguém me disse que um homem foi quase estrangulado. Diz-me a verdade.
Eu não disse nada. Não tive que o fazer, porque nesse momento um pequeno animal todo esfarrapado pôs a cabeça de fora do meu bolso, talvez pensando que os solavancos tinham, por fim, acabado. O minúsculo pássaro saltou e instalou-se no pescoço de Aoife, bicando a plumagem desordenada numa vã tentativa de a alisar.
Aoife permaneceu firme como sempre, uma jóia entre os cavalos.
— Em nome de Brighid, o que é isto?
Tossi para clarear a voz.
— Creio que é uma espécie de mocho. Não quis voar e eu não podia deixá-lo abandonado. Tive de lhe reduzir o tamanho para que as pessoas não reparassem nele.
— Estou a ver.
— O homem era uma fraude, Darragh. Tentou fazer com que uma rapariga fizesse uma coisa horrível. Por meio de truques. As suas poções não valem nada. Não se preocupava com os animais, estavam cruelmente engaiolados e... querias que eu ficasse ali sem fazer nada?
Darragh suspirou.
— Não sei. Já não sei nada. — Sem um sinal visível por parte do seu cavaleiro, Aoife recomeçou a andar e o minúsculo mocho oscilou um pouco. Baixei a mão para o amparar. Gafanhotos, pensei vagamente. Vermes. Pequenos escaravelhos.
Estávamos quase a chegar ao acampamento quando ele falou de novo.
— Tu precisas de vigilância constante, dia e noite. Não sei em que pensava o teu pai quando te mandou embora assim, por tua conta. É como... como entregar um archote a uma criança e dizer-lhe que vá brincar. Não és só um perigo para ti própria, és um perigo para toda a gente. E o pior é que não te apercebes disso.
— Que sabes tu? — resmunguei, pensando em como me sentia feliz naquela manhã, quando passei por aquele lugar, e como me sentia agora, miserável. Ele conseguira tirar toda a alegria àquele dia.
— Sei, Fainne — disse ele calmamente. — Conheço-te melhor do que ninguém. Gostaria que me ouvisses. O que tu fazes é... não está certo. Estás a manchar o teu próprio futuro. Não é por aí que vais lá. Gostaria que me ouvisses.
Uma parte de mim ansiava por lhe dizer que lamentava; por ter estragado o nosso dia, por termos discutido, por no Verão seguinte ele regressar a Kerry e eu não estar lá. Mas não podia dizer aquelas coisas, não me podia dar ao luxo de o ouvir dizer que eu não tinha coragem para continuar; para fazer o que a minha avó dissera que eu devia fazer. A vida do meu pai dependia disso. E Darragh ferira-me profundamente, porque a sua opinião era tudo para mim. As palavras saíram-me aos trambolhões antes que eu as pudesse evitar, detestáveis, ofensivas.
— Tu não sabes nada! Como poderias saber? Como poderias compreender o que devo fazer e porquê? É como... é como se um cão vadio tentasse interpretar o movimento das estrelas. É impossível e ridículo. Gostaria que me deixasses em paz! Já não te consigo ouvir. E não posso ser mais tua amiga. Não preciso de ti, Darragh. Nem agora, nem nunca.
Uma vez dito aquilo, não podia recuar. Acabamos a jornada em completo silêncio.
Ele desmontou sem uma palavra e ajudou-me, polidamente, a descer, ao mesmo tempo que eu pegava no pequeno mocho e o metia, de novo, no bolso. Olhei para Darragh e ele olhou para mim. Então, o nômade pegou nas rédeas de Aoife, afastou-se e eu fiquei sozinha.