A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 5 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Cinco

 

 

A floresta era como que uma capa de escuridão em redor da fortaleza e da sua pequena aldeia. À medida que o ano ia avançando e o tempo ia ficando mais úmido e mais frio, sentia dificuldade em afastar um sentimento de opressão, de estar fechada numa armadilha que me envolvia e asfixiava. A floresta protege os seus, dissera Muirrin. A mim, parecia-me que a floresta vivia, respirava e sentia que um intruso entrara nela, com a destruição no coração. A minha avó fora devastadoramente simples. Faz com que não lutem. Mas se lutarem, faz com que percam. Perder a batalha era perder as Ilhas. Perder as Ilhas era desgraçar a floresta e todos os seus habitantes, humanos ou do Outro Mundo. A mim, parecia-me que a floresta sabia isso, do mesmo modo que um ser vivo sabe uma grande verdade.

 

Pensamentos tolos, disse eu para mim própria vivamente enquanto acrescentava um cavaco à pequena lareira do meu quarto. No fim de contas, não passava de um amontoado de árvores. E as árvores podem ser abatidas e queimadas. As árvores podem ser abatidas para dar lugar a colheitas, ou pasto. Era estupidez da minha parte ligar demasiado àqueles receios. No entanto, no saber antigo, as árvores não podiam ser menosprezadas. Para Conor e para os da sua espécie eram símbolos poderosos.

 

Para Muirrin e para a sua família eram uma responsabilidade sagrada, para serem protegidas custasse o que custasse. Por sua vez, a floresta protegia os que viviam em Sevenwaters.

Fiquei à janela a olhar para fora, vendo a chuva a cair de lado, empurrada pelo vento e as silhuetas sem folhas dos grandes carvalhos e faias oscilarem sob as investidas da tempestade, mas, no entanto, mantendo-se firmes, juntos. Era quase noite e eu tinha acendido uma vela, que lutava por se manter acesa ali na janela. O seu brilho dourado tocava nas feições bordadas de Riona, tornando-as vivas, e dava ao seu vestido sedoso uma tonalidade de rosas de Outono. Eu sentia uma coisa qualquer muito estranha naquele lugar, junto da estreita janela. Já a sentira antes: um poder qualquer, um significado, como se uma pessoa tivesse ali esperado interminavelmente, como se os sentimentos dessa pessoa fossem tão fortes que ainda permaneciam ali no ar frio, junto da chama trêmula da vela. Senti-me arrepiar ao pensar naquilo. Afastei-me, sentei-me na cama e os olhos de Riona olharam para mim.

 

Medos, disse para mim própria, demasiados medos. Tinha de me livrar deles para que pudesse levar a cabo a minha tarefa. Se a floresta era uma ameaça, tinha de me confrontar com ela. Tinha de responder às vozes e desafiar as sentinelas silenciosas.

 

A minha tarefa não era atingir o coração dos Fair Folk? No entanto, recuei ante a perspectiva de caminhar sozinha à sombra dos carvalhos e ouvir as suas vozes. Sem conhecer aqueles que tinha de derrotar, não conseguiria nada. Não era filha de um feiticeiro? Onde estava a minha coragem?

 

O tempo amainou; os dias tempestuosos deram lugar a manhãs e tardes frias, geladas, sob um sol pálido que não dava descanso aos ossos doridos. As pequenitas pararam de brigar e foram brincar para o exterior, não muito longe da casa. O último trabalho da estação estava feito, os telhados reparados, a lenha empilhada e as provisões para o Inverno cuidadosamente armazenadas. Nos pátios, os homens, com espadas, lanças e adagas, treinavam, interminavelmente, as danças letais da guerra.

Chegaram mais cavalos e os rapazes das estrebarias andavam demasiado ocupados para se preocuparem com as lições de equitação de uma das senhoras da casa. Sean parecia carrancudo e preocupado, andando de um lado para o outro com os dois grandes cães nos seus calcanhares. Chegaram mais homens, conferenciaram com ele e partiram de novo. Chegaram provisões em carroças e foram armazenadas antes que alguém lhes pudesse deitar uma olhadela. Muitas vezes, Conor estava presente junto do sobrinho, verificando as coisas e dando conselhos. Não era raro um druida envolver-se numa campanha militar, especialmente quando ela tinha a ver com algo muito querido ao seu coração.

 

A minha avó tinha razão acerca da grande aventura que estava a ser preparada para o Verão seguinte. Era, sem dúvida, nada mais nada menos do que o assalto final aos Bretões de Northwoods, o clã que se apoderara das Ilhas, sagradas para a velha fé durante gerações. Seria naquele Verão que as Ilhas regressariam, finalmente, aos seus devidos guardiões. Não donos; esse termo não era apropriado. A família tinha, apenas, a custódia da floresta, do lago e das Ilhas. Essa responsabilidade antiga fora colocada nos ombros do nosso antepassado pelos Túatha Dê Danann, quando ele pôs o pé na floresta de Sevenwaters. Houvera uma terrível negligência dessa responsabilidade e Northwoods apoderara-se das Ilhas. Ao longo de incontáveis anos, a luta pelo controle daqueles pedaços de terra, no meio do mar, fora constante e muitos filhos de Erin, assim como da Bretanha, tinham perdido a vida nessa causa.

 

Aquele seria o assalto final. Northwoods seria derrotado e as suas forças destruídas.

 

Chegara a hora; o filho da profecia chegara e era um guerreiro perfeitamente capaz.

 

Com ele a chefiar e com um conjunto de aliados como nunca antes, a aventura não podia falhar.

Aprendi tudo aquilo ouvindo e observando. O treino que o meu pai me inculcara tornou-me hábil nas duas coisas. Na verdade, havia ocasiões em que ouvia mais do que desejava; ocasiões em que pensava muito na história daquela grande família e dos segredos que lhe estavam ligados. Houve um dia em que, escapando ao barulho das crianças, me fui sentar num velho banco de pedra a um canto do jardim. O ar estava frio; eu estava bem agasalhada com a minha capa. Segurava o amuleto da minha avó na mão e tentava fixar a mente na tarefa que ela me confiara e como levá-la a cabo. Por vezes, quando tocava no pequeno triângulo de bronze, via o rosto dela e ouvia o terrível sussurro da sua voz: Não te esqueças, Fainne. Não te esqueças do teu pai. Recordava os seus castigos e não duvidava dos seus poderes. Por vezes, o meu espírito vacilava perante a impossibilidade da demanda que tinha perante mim.

 

O amuleto ajudava-me naqueles momentos de dúvida. A sua pequena forma na minha mão era sempre tranqüilizadora; quando a segurava acreditava-me capaz de quase tudo.

 

Naquele dia, estava sentada no meu banco à sombra de uma grande sebe quando ouvi as vozes dos meus tios Sean e Conor. Caminhavam ao longo de um carreiro de cascalho no outro lado das faias e fizeram uma pausa mesmo por trás de mim, de modo que não podia deixar de ouvir as suas palavras. Caso decidissem passar a curva e ver-me, fiz um pequeno feitiço para me confundir com a cerca, para mesclar as minhas roupas com as cores secas das folhas de Inverno e dos ramos escuros.

 

Escutei.

— ...tenho perguntado a mim mesmo sobre as razões de Ciarán, mas não encontro qualquer resposta — dizia Conor.

 

— Para mim é bastante claro, tio — replicou Sean. — Até Ciarán sabe que a filha não tem futuro numa aldeia isolada, algures na costa de Kerry. Não a pode trazer para o Norte; sabe que nunca será aqui bem recebido, por mais que partilhe o nosso sangue. Assim, manda-nos a rapariga na esperança de que nós a eduquemos, lhe arranjemos um bom marido e um futuro digno de uma filha de Sevenwaters.

 

Seguiu-se um pequeno silêncio.

 

— Há aqui qualquer coisa de errado. — O tom de Conor era pensativo, como se lutasse com um quebra-cabeças. — Ciarán não tinha amor por Sevenwaters, nem pela sua família, quando daqui saiu. Repudiou-nos a todos, assim como à irmandade, mal soube quem era. Selou essa decisão ao ficar com Niamh, mesmo sabendo que era contra a lei natural das coisas. Ao fazer isso, cortou todos os laços que ela tinha conosco. Por que razão havia, agora, de pôr a filha à nossa mercê? Mesmo quando era criança, Ciarán era um pensador subtil. Há um plano qualquer nisto tudo e não é o de ver a filha casada com um nobre qualquer.

 

— Com o devido respeito, tio, penso que está errado. Acho que Ciarán está a fazer exatamente o que Niamh teria desejado. A minha irmã amava este lugar e a sua família; também amava a vida que levava, as coisas boas, a música e a dança, a companhia e as festas. Niamh não era nenhuma eremita. A mim, dói-me nunca saber se a minha irmã nos perdoou a todos ou, se morreu amargurada pelo que lhe fizemos. A presença de Fainne entre nós não poderá ser interpretada como uma espécie de perdão?

— Gostarias que fosse assim — disse Conor calmamente. — Acho que não pensas no que a rapariga é; o legado que transporta. Ela é filha de Niamh, certo; vejo isso nos movimentos de cabeça, nos silêncios súbitos, na rapidez com que se sente ofendida. Mas também é filha de Ciarán. Sabes o que isso significa. Manter Fainne aqui é um risco. Temos de ter cautela.

 

— Ora vamos, tio, Fainne sabe alguma coisa de magia, isso é verdade, mas qualquer druida teria feito o que ela fez naquele dia, na floresta. Crescer sozinha com o pai, durante aqueles anos todos, pode muito bem ter feito com que tenha adquirido algum conhecimento. Creio que o perigo pode vir de outro lado; Eamonn tem-me feito perguntas às quais eu não sei que responder.

 

— Que perguntas? — O tom de Conor tornou-se, subitamente, cortante.

 

— Acerca do pai da rapariga, quem era ele, os seus antecedentes. As respostas que dei a Aisling não o satisfizeram; não aceita, simplesmente, que o homem fosse um druida de boas famílias. Exigiu-me outras respostas.

 

— Hum — disse Conor. — Que pensas do interesse de Eamonn?

 

— Eamonn interessa-se por tudo, armazena tudo, caso lhe possa ser útil, um dia. Não admira que se tenha tornado num homem tão rico e influente.

Os dois homens retomaram o passeio ao longo do carreiro. Suave como a brisa, levantei-me e acompanhei-os do outro lado da sebe. Estava habituada a caminhar em silêncio, com ou sem pé defeituoso.

 

— ...segredos dizia Conor. A história toda acerca do dia em que Niamh fugiu de Sídh Dubh e foi ter com Ciarán! Foi uma grande vergonha para Eamonn; ele nunca se perdoou a si próprio por ter permitido uma tal quebra de segurança na sua própria casa.

 

— Não é essa a história que eu gostaria de ouvir — disse Sean. — Eu gostaria de saber a verdade acerca daquela vez em que a minha irmã foi visitar Eamonn e acabou num posto fronteiriço com dois homens feridos e na companhia de foras-da-lei. Essa história preocupa-me muito. Tem-me preocupado muito ao longo destes anos.

 

— Sim; eles guardaram muito bem esse segredo, Liadan e o Bran dela. Estes anos todos. Continuo a ter algumas dúvidas quanto ao envolvimento de Eamonn nisso tudo.

 

— No entanto, ele é irmão da minha mulher. É da família, agora.

 

— Certo. E um aliado impecável a partir desse dia. O que levanta questões interessantes.

Ambos se calaram. Teria de parar de caminhar; aproximava-se o fim da sebe e eles ver-me-iam, com ou sem feitiço. Ainda não era mestra na arte da invisibilidade.

 

— Não se preocupe com a rapariga — disse Sean. — Ela é boa rapariga, tenho a certeza. Um pouco de magia, umas tantas capacidades especiais, onde é que está o mal disso? Veja a Liadan, no fim de contas.

 

Conor riu-se, mas não havia alegria no seu riso.

 

— Estás enganado. Creio que esta rapariga é tão poderosa como o pai. Vejo isso nela, sinto-o sempre que me aproximo dela. Tal força numa rapariga demasiado nova pode ser desastroso para nós. Uma coisa sei eu. Preferia um mágico com os talentos dela como aliado, do que como inimigo.

 

Ambos continuaram e eu fiquei para trás. Conor era um druida; não era surpresa nenhuma, portanto, sentir as minhas capacidades e desconfiar de mim. Se eu fosse realmente tão poderosa como ele pensava; então, talvez pudesse ser mais forte do que a minha avó, ser capaz de lhe dizer não e conseguir proteger o meu pai. Mas Conor estava enganado. A minha magia era débil e fraca ao lado da da minha avó. Desafiá-la significava, sem dúvida, a minha própria destruição e a do meu pai. As suas palavras continuavam na minha mente. Não serão necessários muitos erros da tua parte para o fazer ficar muito, muito doente. Ela dissera que saberia se eu falhasse no cumprimento das suas ordens e que seria louca em menosprezá-la. Teria de fazer alguns progressos, ou o meu pai sofreria as conseqüências.

Escolhi um dia sem nuvens, um dia em que, excepcionalmente, a tia Aisling não me deu que fazer. Chegara a hora. Não tinha de ter medo de nada, disse para mim própria enquanto calçava as botas e tirava o xale que estava pendurado num prego atrás da porta. De nada. Era só dar um passo após outro. E o passo daquele dia era enfrentar as sombras daquela floresta e decidir que não me podiam fazer qualquer mal. Não passavam de truques dos Túatha Dê, sem dúvida, para amedrontar as pessoas e impedi-las de fazer perguntas incômodas. A minha avó sempre dissera que os Fair Folk eram demasiado grandes para as botas que usavam. Arrogantes. Achavam-se melhores do que os outros; bastava ver como tinham expulso os da sua própria espécie, sem terem uma pequena idéia do que era carregar uma maldição para todo o sempre. Era tempo de os enfrentar. Mas, como tudo o que eu fazia, com cuidado. Os meus propósitos tinham de se manter secretos até ao fim, ou o falhanço seria certo.

 

Enrolei-me no xale. Riona observava-me. Não, parecia ela dizer. Isso não chega e tu sabê-lo. Franzi o sobrolho para ela. Fui até à pequena arca e tirei o belo xale de seda, bordado com aquelas pequenas criaturas e a franja que ondulava como uma cascata e atei-o em redor dos ombros.

 

— Satisfeita? — resmunguei. Riona não respondeu, já que não podia. Mas a sua expressão parecia dizer, assim está melhor. Agarra-te ao que tens, já que não é muito. Olhei para ela, pensando de onde teria vindo aquilo e o que significaria. Então, peguei nela, meti-a na arca e fechei a tampa.

 

Estava-se a meio do dia e o gelo continuava a estalar sob os meus pés. No lago flutuavam alguns patos, mergulhando em busca do que pudessem encontrar. O fumo das cabanas pairava no ar; a turfa estava empilhada ordeiramente ao lado das portas baixas. Ultrapassei a aldeia rapidamente e passei por entre as paredes de pedra dos campos na direção da orla da floresta. E ali, no carreiro, estavam dois dos homens do meu tio Sean, encostados aos seus bordões e observando-me enquanto eu me aproximava.

Enderecei-lhes o meu melhor sorriso.

 

— Bom dia.

 

— Bom dia, minha senhora. É melhor não vos afastardes mais sozinha.

 

— Eu não vou longe. Vou só até à margem do lago. Não me demoro.

 

— Tendes de levar um ou dois homens convosco. Ordens de Lorde Sean.

 

— Mas...

 

— Lamento, minha senhora. Não podemos permitir. Não é seguro.

Eram ambos altos e fortes e as suas expressões disseram-me que era inútil discutir. O da esquerda parecia um pato, de boca larga e o cabelo puxado para trás. O outro parecia mais um sapo. Murmurei um encantamento e ergui a mão.

 

— Eu vou com a jovem. O problema fica resolvido. — E lá estava Conor, atrás de mim, no carreiro, onde um momento antes não havia ninguém.

 

— Muito bem, meu senhor.

 

A presença de um arquidruida era, parecia, uma garantia de segurança. Os homens de armas afastaram-se e deixaram-nos passar. Caminhamos em silêncio pelo carreiro que seguia sob as árvores nuas. No chão, as folhas dos carvalhos, freixos, faias e vidoeiros tinham apodrecido, formando um manto úmido, do qual emergiam fungos estranhos e coisas rastejantes. Aconcheguei o xale em redor dos ombros.

 

— Tu tens um propósito qualquer para te aventurares assim. — Aquilo era mais uma declaração do que uma pergunta. — E gostarias de ir sozinha. Mas, como vês, não é possível. Os dias em que as crianças de Sevenwaters podiam correr livremente pelos caminhos da floresta, sem medo, já lá vão. Muita coisa mudou, aqui.

 

Acenei com a cabeça.

— Eu não me intrometo, Fainne. O meu sobrinho faz bem em restringir os movimentos através da floresta. Há uma necessidade absoluta de secretismo até ao fim do Verão. Espero que compreendas isso.

 

— Até porque — disse eu — a floresta nem sempre é benigna, segundo me disseram. Aqui, os estranhos nunca estão seguros. Muirrin disse que ela protege os seus.

 

Seguiu-se um silêncio enquanto caminhávamos juntos sob as árvores.

 

— É verdade — disse Conor após uns momentos. — Mas isso não te diz respeito. No fim de contas, tu és um dos nossos.

 

Retive uma resposta amarga. Pensas que engulo essa mentira, como o meu pai engoliu?

 

— No entanto — disse eu sinceramente — não estou acostumada a tantas árvores. Deixam-me pouco... à vontade.

 

— Nesse caso, um druida é a tua melhor companhia.

Não respondi e continuei em silêncio até que chegamos a uma clareira no meio de sorveiras-bravas de ramos nus, ainda, aqui e ali, com alguns frutos pendurados. No centro estava uma enorme pedra cheia de musgo. Havia uma tranqüilidade especial naquele lugar. Os únicos sons eram os chamamentos ocasionais de um pássaro lá no alto e o rumorejar de um pequeno ribeiro invisível, que corria para o lago.

 

— Este local serve perfeitamente — disse Conor. — Vou meditar aqui um pouco, porque também eu aprecio uma pausa nos afazeres do dia. Faz o que quiseres. Não há pressa.

 

O druida sentou-se de pernas cruzadas em cima da rocha, o traje branco flutuando à sua volta, as costas tão direitas como as de uma criança e os olhos fechados.

 

Parecia não haver outro remédio senão sentar-me também, tão longe dele quanto o permitia a largura da rocha e fazer o mesmo. Sabia o suficiente acerca de magia, transes e poderes do Outro Mundo para perceber que uma pessoa não podia, simplesmente, ir em busca de manifestações e esperar encontrá-las à sua disposição.

 

Era necessário, primeiro, acalmar os sentidos; concentrá-los num símbolo escolhido, ou numa litania familiar; para dar tempo. Mesmo então, era possível não conseguir o que se esperava. Ajudava estar no local certo e era muito mais fácil quando não havia distrações. As escarpas do Favo de Mel eram boas para isso; o rugido do oceano e os gritos das gaivotas transformavam-se numa espécie de paz solitária e sem tempo. A pequena gruta, na base das rochas, onde o mar, a terra e a luz filtrada se encontravam, tocavam e se misturavam delicadamente, era o melhor local de todos. Imaginei as suas sombras azuis-pálidas e o suave marulhar das ondas na areia.

 

Naquele lugar, o meu coração descansava. Mas Kerry estava muito longe e na floresta de Sevenwaters não se podia ouvir a canção do mar. Ali, tinha de pensar na rocha; numa rocha tão maciça e antiga que devia fazer parte da própria terra, como se estivesse no colo da própria Dana. Concentrar-me-ia na rocha e esqueceria as árvores. Abrandar a respiração; senti-la na barriga, sentir o seu poder através do corpo. Para dentro, para fora. Pausa. Para dentro e para fora. Cada vez mais lentamente. Estou aqui. Estou nos braços da terra. Antigamente, sentava-me encostada às pedras, e tornava-me parte dos padrões eternos do Sol e da Lua. Agora sinto a força desta rocha e dos seus velhos desígnios por todo o meu corpo. Pulsando-me no sangue; batendo com o meu coração; agarrando-se à minha alma. Eu pertenço à terra e a terra está em mim.

 

O tempo passou, ou talvez não. Sem me mexer, sem abrir os olhos, senti que estava ali qualquer coisa. Flutuou e pousou, do tamanho de uma coruja e um pouco surrada, na superfície musgosa perto de mim. Fixou os seus estranhos olhos redondos em mim e pestanejou. Seguiu-se uma súbita mudança; não um raio, porque não houve luz. Não uma explosão, porque não houve som. Apenas uma espécie de movimento no ar, um ajustamento nas coisas. Em vez de uma coruja, era um pequeno ser humano mais ou menos do tamanho de Eilis. Mas não era uma criança. Não sabia dizer se era homem ou mulher, porque estava envolto numa volumosa capa de penas castanhas, cinzentas, pretas, amareladas e às riscas e usava um capuz do mesmo tom, de maneira que apenas o rosto era visível, redondo e com olhos de coruja, de nariz achatado e sobrancelhas espessas e por baixo da capa dois pequenos pés metidos em brilhantes botas vermelhas. Não precisava de me mover ou abrir os olhos. Os olhos do espírito viam tudo claramente.

 

Boa passagem, Filha do Fogo disse a aparição. Aprendeste com um druida?

Com o meu pai. Parecia-me falar sem emitir um único som.

 

Isso explica tudo. Uma grande perda para os sábios; ele fez algumas escolhas infelizes. Assim como a tua mãe. Pelo menos, foi o que pareceu na ocasião. Mas acabou tudo em bem. As coisas simplificaram-se. Acontece, por vezes.

 

Quem és tu? És um dos... és um dos que se chamam a si próprios Fair Folk?

 

O pequeno ser emitiu uma grande risada que acabou num pio. A lisonja não te leva a lado nenhum observou ele maliciosamente. Bons ou maus, para mim é a mesma coisa. Se me quiseres perguntar alguma coisa, responder-te-ei. Devo-te um favor. Fiquei surpreendido. Por que me ajudaste? Não fazia parte de um plano qualquer, pois não?

 

Não posso ter-te libertado apenas porque me pareceu a coisa mais certa a fazer? Perguntei algo ofendida.

 

Um ato de pura caridade? Estás à espera de algum agradecimento?

 

Caridade?

Tu és a espécie de pessoas que atira fora um tesouro se vires que te atrapalha. A nós, parece-nos que te estás nas tintas para o que deixas para trás.

 

Que queres dizer com isso de deixar para trás? O que é isto, um interrogatório? Eu não vim aqui para isso.

 

Tu usas a tua arte inteligentemente; tens a técnica na ponta dos dedos. Mas usá-la imprudentemente. Não contas com os custos.

 

Que custos? Mas, na minha mente vi a imagem, nítida, de um bacalhau a contorcer-se no chão, lutando pela vida no ar frio e seco. Aquela imagem nunca desaparecera por completo. Limitara-me a pô-la de lado. E lembrei-me de Riona olhando para mim e naquela pequena e estranha voz, que não era uma voz, a dizer, é melhor limitares-te ao que tens. Pareceu-me ouvir, debilmente, o som da gaita-de-foles.

 

É melhor teres cuidado disse a pequena personagem encapuçada.

 

Isso é uma ameaça? disse eu em tom de desafio. Outra risada que acabou num pio.

Ameaça? Eu?

 

O que é, então? Que estás a tentar dizer-me?

 

Tens uma grande tarefa na tua frente. A maior de todas, Filha do Fogo. Não desperdices a arte. Não a uses em coisas insignificantes. Estiveste perto algumas vezes, não estiveste? Guarda as tuas forças para mais tarde. Vais precisar delas e de muitas mais ainda.

 

Pensei arduamente por uns momentos.

 

Que me estás a dizer? Não compreendo. Certamente, aquela pequena criatura não sabia qual era o meu objetivo. Provavelmente, era um truque para me fazer falar. Devia pensar que eu era uma simplória qualquer.

 

É estranho, não é? disse a criatura acocorando-se na pedra a meu lado. Era quase impossível perceber o que havia por baixo da extravagante cobertura de penas. Os seus olhos mudaram; as pupilas escuras arredondaram-se e a sua orla amarela retraiu-se. Mesmo nos grandes planos dos Fair Folk, as coisas nem sempre resultam. Aquela rapariga, a Liadan, não entrava no esquema. Eles perceberam demasiado tarde a importância dela. Mas já não lhe puderam mudar a mente; ela seguiu o seu próprio caminho, abandonou-nos, deixou a floresta e nunca mais regressou senão para um acontecimento social qualquer. Levou a criança com ela e quase deu cabo de tudo. Mas a criança há de regressar. Todos regressam. A floresta chama por eles. Basta olhar para ti. Tu regressaste. E agora, o que vais fazer?

 

Por que hei de dizer-te? Não sei quem és. Por que hei de eu dizer seja o que for?

 

Eu posso ajudar, Filha do Fogo.

 

Eu não preciso de ajuda. Não quero ajuda. Por que persistes em chamar-me isso?

 

Quando estás zangada emites faíscas. Isso não te diz nada?

 

Apenas que me descuidei. Não voltará a acontecer.

 

És teimosa, não és? Diz-me, se mudares de idéias.

 

Não mudo. Trabalho sozinha, tal como o meu pai.

Hum. Vê o que lhe aconteceu. Devia ter regressado para aqui, onde havia um lugar para ele, se queres saber. Foi um louco.

 

Não quero saber e não admito que o insultes. Ele é um homem bom, sábio, honrado e perito no que faz.

 

Estás a fazê-lo outra vez. Faíscas. És uma filha leal. Certifica-te de que isso não é a tua perda. É melhor fazeres as perguntas agora, se tens algumas para fazer. Está quase a chover.

 

Sem abrir os olhos, podia ver o céu por cima de nós, azul-pálido e sem qualquer nuvem.

 

Muito bem. Achei que era melhor aproveitar a oportunidade, quer as respostas tivesse algum valor, quer não. O que há nas ilhas? Qual é a sua importância para esta família e para os Fair Folk?

 

O mocho-homem pestanejou.

Pergunta ao druida.

 

Pergunto-te a ti.

 

Pede ao druida que te conte a história. Ele tem um fraco por ela. As Ilhas são o Último Lugar. É pena não teres o dom.

 

Que dom?

 

O dom de ver o futuro. Em breve, tudo acabará. No tempo da tua neta, ou da neta dela. As árvores. O lago. Não passará tudo de uma porção de campos áridos para as ovelhas pastarem e de uma poça de água com enguias raquíticas tentando respirar. Sem outro lugar para onde ir. Para a minha espécie, para a espécie delas ou até para a tua. Sem as Ilhas, é o nosso fim.

 

Pensava que as Ilhas não passavam de um amontoado de rochas no mar. Se... se, como dizes, tudo se vai perder, como podem elas ajudar as pessoas a sobreviver? Certamente não se pode viver lá?

A pequena criatura deu um grande suspiro que fez estremecer todas as suas penas.

 

Já te disse. É o Último Lugar. O druida explica-te.

 

Não lhe quero perguntar nada.

 

Ele quer que lhe perguntes. Está à espera que lhe perguntes. Está à espera desde que o teu pai partiu de Sevenwaters e os sábios perderam o seu futuro líder. Mas tu sabes isso, não sabes?

 

Não o respondi. O ser com penas estava demasiado perto da verdade.

 

Mais alguma pergunta? A chuva vem aí. Queres saber o que a tua tia Liadan disse quando soube que a filha de Ciarán tinha aparecido em Sevenwaters? Queres saber o que o teu pai está a fazer, sozinho, em Kerry? Queres ouvir uma história sobre tocadores de gaita-de-foles e casamentos?

 

Chega! Como é que sabes tanta coisa? Pode ser tudo mentira, apenas para me confundir e afligir.

Afligir? Pensei que não eras capaz de um tal sentimento. Como é que sei tanto? Que espécie de pergunta é essa vinda de uma feiticeira ainda agora saída da casca? O teu pai não te ensinou a ver o futuro?

 

Hesitei.

 

Então?

 

Ensinou. Mas eu não sou muito boa.

 

O pequeno ser acenou com a cabeça.

 

Na tua família há alguns que têm um talento especial para isso disse ele. Precisas de um vidente.

 

E então aconteceu de novo, a ligeira mudança das coisas, um bater de asas e o silêncio.

Mergulhada em profundo transe, não me conseguia mexer ou abrir os olhos. Quando consegui normalizar a respiração, regressar à minha consciência normal, ao funcionamento normal do corpo e emergir para o tempo e lugar do agora e aqui, não havia uma única ave à vista. Apenas a clareira tranqüila e o arquidruida esticando os braços acima da cabeça e pondo-se de pé com a agilidade de um homem com metade da sua idade. O dia estava límpido e o Sol brilhava, cintilando na água do lago na base da colina, entre os salgueiros.

 

— Pronta? — perguntou Conor calmamente. Acenei com a cabeça e começamos a caminhada de regresso a casa.

 

Aconteceu pouco depois. Tínhamo-nos afastado o suficiente para estarmos certos da solidão e da tranqüilidade. Eu ia distraída, a minha mente repetindo aquela estranha conversa e tentando discernir o que fora real e o que fora produto da minha imaginação combinada com a minha natural falta de prática. Após um certo tempo, comecei a reparar que, se bem que estivesse certa de que estávamos a percorrer o mesmo caminho, estávamos a percorrer uma espécie diferente de terreno, onde não tínhamos estado antes; uma espécie de encosta íngreme, cheia de seixos. Ouvia-se um ribeiro perto. Começou a chover, pingos grossos, e depois um vento extremamente frio seguido de verdadeiras cortinas de água. Juraria que o Sol continuava a brilhar. Puxei o meu xale por cima da cabeça numa vã tentativa para me manter seca.

 

— Pára aqui, Fainne! — gritou Conor no meio do dilúvio e, agarrando-me na mão, puxou-me para fora do carreiro estreito para o abrigo de umas rochas. Entramos por uma abertura muito baixa numa enorme gruta com uma grande laje de pedra presa na parede acima do solo e uma pequena abertura redonda no teto, que deixava entrar a luz. Algures, perto, ouvia-se água a correr.

— O ribeiro — disse Conor, obviamente. — Um dos sete. A chuva engrossa-o. Estás muito molhada? Suponho que podemos acender uma fogueira.

 

— Com quê? — disse eu algo irritada e olhando para o interior vazio da gruta. No exterior, chovia torrencialmente. Havia uma coisa qualquer acerca de druidas e chuva.

 

— Podemos improvisar — disse ele com um pequeno sorriso. — Entre os dois, somos capazes de conseguir alguma coisa.

 

— Talvez. — O meu tom era tudo menos amável. Não gostava de ser enganada. Não gostava de estar gelada, toda molhada e presa numa gruta com um arquidruida, fosse ele da minha família, ou não. — Mas não é preciso. Isto deve passar. O dia parecia estar tão bom.

 

— Parecia, não parecia? — observou Conor. — Mas preferia que não te constipasses. — O meu tio tirou a capa que usava sobre o seu longo traje e colocou-ma por cima dos ombros.

 

Senti-a suave, quente e totalmente seca.

— Assim é melhor.

 

Não me contive por mais tempo.

 

— Se pretende deliberadamente irritar-me — disse eu secamente está a conseguir.

 

Ele sorriu.

 

— E tu estás deliberadamente a fugir a esta situação, porque não queres que eu saiba quanto sabes e, nesse caso, estás a fazer-me perder o meu tempo e o teu.

 

Olhei para ele com ar trocista.

 

— Que quer dizer?

 

— Não podias ter feito um feitiço de transporte, aparecendo à lareira em casa, a salvo?

— De fato, não — disse-lhe eu de mau humor. — O meu pai disse que eu ainda não estava preparada para aprender isso.

 

Conor acenou com a cabeça.

 

— Sensato da parte dele. É muito fácil, se soubermos como, sair de casa sempre que as coisas ficam feias. Bem, talvez ainda não saibas esse feitiço. Mas há outros.

 

— Quer dizer que eu podia transformá-lo numa rã, já que parece gostar tanto de tempo úmido?

 

— Bem, sim. Podias tentar. Mas eu sou bastante mais velho do que tu e apesar de não utilizar truques de feiticeiro, não quer dizer que não os saiba fazer. Acho, apenas, que talvez tivesses alguma dificuldade. Terias de ser excepcionalmente rápida.

 

Olhei para a laje de pedra em que estávamos sentados. O barulho da chuva era medonho; a água entrava em cascata pela abertura acima de nós, rugia no lado de fora da estreita passagem pela qual passáramos. Abaixo de nós, no chão da gruta, a água corria pelas rochas e acumulava-se no centro. As paredes escorriam.

— Eu queria que ele ficasse — disse Conor suavemente. Apesar do barulho, ouvi-o distintamente. — Pedi-lhe para ficar, mas ele não quis. Era muito novo e estava magoado. Mas não nos devia ter deixado. Nunca houve nenhum igual a ele; com tanta capacidade e inteligência. Não consigo perdoar a mim próprio. Faz parte do cargo, da tutela, fazer com que cada geração dê um filho, ou uma filha, aos sábios.

 

— Houve, certamente, outros — disse eu, tentando perceber como podia ele dizer mentiras descaradas e parecer tão convincente. Devia saber das restrições impostas aos da nossa espécie. Devia saber o que Ciarán era e como isso o agrilhoara. No entanto, falava como um pai que perdera o filho amado. — E há as minhas primas: as filhas de Sean e os filhos da minha tia Liadan. Certamente que um deles...?

 

— Os verdadeiramente capazes são difíceis de encontrar. Não é uma vocação que possamos escolher. A vocação é que nos escolhe. Em tempos, pensei que Liadan faria a escolha, ela ou o filho. Mas ela quebrou o padrão. Quanto a Johnny, poderia ser o que quisesse. Mas ela levou-o. Johnny é um guerreiro e um condutor de homens, apesar da idade. Liadan seguiu o seu próprio caminho. Os estranhos habitantes de Inis Eala e as pessoas da propriedade do marido dela, na Bretanha, vêem-na como sendo o coração das suas comunidades. E ela é uma curandeira muito capaz. Muirrin preenche esse papel em Sevenwaters. Mas não temos nenhum druida.

 

Fiquei silenciosa, vendo a poça no centro da gruta aumentar de tamanho e transbordar, enchendo em turbilhão os cantos da gruta. Não queria dar a entender que estava com medo.

 

— Sabias — disse Conor em tom de conversa — que tinha quase vinte anos quando fui para a floresta? Tinha estudado, claro, e tinha começado a entrar no conhecimento e na disciplina. Mas entrei tarde. Com essa idade já Ciarán tinha quase completado a sua aprendizagem. Sentir-me-ia melhor se acreditasse que esse saber não se tinha perdido. A água parece estar a subir.

 

Acenei com a cabeça.

 

— Quem foram os primeiros em Erin? — perguntou ele suavemente.

 

— Os Anciãos. Os Fomhóire. Gente das profundezas do oceano, dos poços e dos lençóis de água subterrâneos. Gente do mar e das profundezas da terra.

 

— E depois deles?

 

— Os Fir Bolg. Os caçadores.

 

— Serias capaz de continuar?

— Até o tio querer. Suponho que é uma maneira como outra qualquer de morrer: recitar o conhecimento enquanto me afogo lentamente.

 

Ele olhou para o chão da gruta. A água não escorria apenas pelas paredes abaixo, entrava também pela abertura da gruta, como se fosse um rio. Não poderíamos sair por ali. O nível aproximava-se rapidamente da nossa plataforma. O rugido, lá fora, continuava.

 

— Realmente, sobe cada vez mais — observou Conor.

 

Cerrei os dentes e tentei parecer totalmente despreocupada. Torturei o cérebro em busca de um feitiço apropriado, mas nada me ocorreu. O meu pai é que era bom com o tempo.

 

— Não estás com medo, pois não? — perguntou Conor, afastando-se ligeiramente da beira da plataforma. A água já nos chegava quase aos dedos dos pés. — Ele não te criou em Kerry, num lugar qualquer onde as ondas são tão altas como os carvalhos? Tenho a certeza que foi o que a pequena Maeve me disse.

 

— Bem, sim, eu estou habituada a olhar para a água, a cheirá-la e a ouvi-la, mas isso não quer dizer que queira estar dentro dela — disse eu firmemente.

 

— Não. Diria que o fogo é o teu elemento — disse o druida calmamente. — Parece que estou a ficar com os pés molhados. Vamos tentar escapar? — Ele ergueu-se, olhando para a pequena abertura no teto da gruta, por cima de nós. Talvez conseguisse, pensei, fugir por ali. Talvez. Se conseguisse subir até lá. A água já me chegava aos tornozelos e continuava a subir.

 

— O que achas? — perguntou Conor e nesse preciso momento uma cascata de água entrou pela abertura por cima da sua cabeça, uma súbita queda de água que continuou implacavelmente, fazendo com que fosse impossível ouvir e ver fosse o que fosse. O nível subia de modo alarmante e já me chegava à cintura; senti o vestido a puxar-me para baixo. O meu coração batia como um tambor e, mesmo que quisesse transformar-me num peixe, ou numa rã e salvar-me, o terror impedia-me.

 

Conor gritava-me ao ouvido.

 

— Anda! Eu ajudo-te! Respira fundo e sobe!

 

— O quê? — Subir por ali com água no nariz, nos olhos e nos ouvidos, sem saber o que havia do outro lado? Aquele pensamento paralisou-me.

 

— Rápido! — gritou Conor e agarrou-me no braço, ao mesmo tempo que o meu pé escorregava na plataforma, sob a água e eu quase desaparecia sob a superfície.

— Depressa, enquanto somos capazes de ver onde está a saída.

 

— Eu... eu...

 

— És filha de Ciarán, ou não? — disse ele e, rodeando-me a cintura com os braços, ergueu-me na direção do círculo de luz através do qual a água caía em catadupas.

 

Prendi a respiração, lembrando-me de encher o peito lentamente de ar, estendi os braços e ergui-me com todas as minhas forças contra o peso da água que descia.

 

Agarrei-me às rochas escorregadias e tentei agarrar uma raiz, um ramo, qualquer coisa, ao mesmo tempo que prendia a respiração até o peito me parecer estourar, amaldiçoava o vestido comprido, dava pontapés com as botas, encontrava uma pequena saliência nas rochas, fazia força para cima e... por fim, encontrei ar.

 

Agarrei-me às raízes expostas de um salgueiro, arfando e tossindo e subi para as rochas por onde a água corria e corria, precipitando-se pela estreita abertura para a gruta.

 

— Conor! — gritei, inclinando-me e espreitando para a escuridão por baixo da torrente.

— Conor! — Não ouvi qualquer resposta. Olhei em volta, desesperada, pensando numa corda, numa escada e até numa lanterna, se a conseguisse acender. Luz. Fogo. Pelo menos, então, ele conseguiria ver a saída. Estalei os dedos, murmurando. Um estalo, um silvo e uma pequena nuvem de vapor. — Oh, anda lá — disse eu e voltei a tentar.

 

Surgiu uma chama, que ficou suspensa no ar por cima do buraco negro nas rochas.

 

Despacha-te, Fainne, pensei, sinistramente. O homem tem idade para ser teu avô e salvou-te. Olhei de novo em volta, mesmo a tempo de agarrar num robusto ramo de freixo que passava levado pela água. Agarrei-me às raízes da árvore com uma mão enquanto a água passava por mim em turbilhão e estendi o ramo para baixo. A gruta já devia estar totalmente inundada. Quanto tempo conseguiria um ancião reter a respiração? Movi o ramo em círculos, os meus dedos segurando-o com força contra a força da água. Nunca tinha visto chover daquela maneira. Maldita floresta. As palavras vinham-me à mente. Achamos que não queres saber das baixas que deixas para trás. Malditos Fair Folk e amigos com cabeça de mocho. Que sabiam eles?

 

Estendi de novo o ramo, procurando algo, uma coisa qualquer. Onde estava ele? A chuva corria-me pelo rosto, lavando-o, levando tudo na frente. Chorar era aquilo?

 

Senti um puxão no ramo. Larguei as raízes da árvore e segurei-o com ambas as mãos, entrelaçando os pés nas raízes para não ser arrastada. Por cima da minha cabeça, o clarão da chama mantinha-se, iluminando a subida. Puxei com quantas forças tinha, sentindo a dor do esforço espalhar-se pelas costas. Vamos, velhote, vamos. Falta pouco. Falta pouco.

Uma mão longa e pálida apareceu agarrando o ramo e depois outra, emergindo através da cascata para se agarrarem às raízes lamacentas a meu lado. Inclinei-me, agarrei-lhe o braço e puxei de novo com toda a força. A sua cabeça emergiu da água, as pequenas tranças coladas às faces, a boca aberta em busca de ar, como um peixe.

 

Apesar disso, o seu ar continuava digno.

 

— Graças a Manannan — gaguejou ele — não quero repetir de novo esta experiência. Dá-me a tua mão, Fainne. Já não sou tão ágil como era... ah, pronto. Por tudo o que é sagrado. E perdi o meu bordão.

 

— Vamos — disse eu levantando-me com alguma dificuldade no solo traiçoeiro. — Deixe-me ajudá-lo. É melhor sairmos destas rochas e irmos para terreno seco, se conseguirmos encontrar algum.

 

— Muito sensato, Fainne — disse ele tossindo ruidosamente enquanto olhava para o círculo de luz que pairava sobre o buraco no solo. A água continuava a entrar no buraco e ouvíamo-la sair na base da colina.

 

Murmurei uma palavra e a chama morreu.

— Vamos — disse eu de novo e continuamos cambaleando, de braço dado por uma questão de segurança, por cima das rochas e ao longo dos restos do carreiro na encosta, agora desmoronando-se, até que encontramos um amontoado de pinheiros de copa frondosa e um espaço à sua sombra, atapetado de agulhas e abençoadamente seco. Sentamo-nos no solo, lado-a-lado, respirando com dificuldade.

 

— Ele vai voltar — observei.

 

— O quê?

 

— O bordão. Não precisa de se preocupar. Eles voltam sempre. Foi o que o meu pai me disse.

 

— Disse? Eu nunca o tinha perdido. Mas há histórias. Talvez sejam verdadeiras e talvez não.

 

— Por que é que fez isso? Por que pensou fazer tal coisa? Dizem-me que não se deve usar a arte insensatamente e quase morreu por causa disso. E é um arquidruida. Porquê?

— Fiz o quê, Fainne?

 

— Aquilo. A chuva e... tudo o mais. Na sua idade devia ter mais juízo.

 

— Por que pensas que fui eu que o fiz?

 

Olhei para ele de lado enquanto tirava o xale dos ombros e o torcia.

 

A tinta não saíra. As suas cores vivas e o padrão, delicado e belo, continuavam intactos.

 

— O meu pai sempre disse que você era bom com o tempo.

 

— Hum. — Agora que recuperara o fôlego, Conor parecia de novo ele próprio; como se nada tivesse acontecido.

— O meu pai também é bom com o tempo — disse eu cautelosamente. — Em tempos dominou os ventos e as vagas da enseada. As pessoas de lá acham que ele é um herói.

 

— Acredito que seja verdade — disse Conor baixinho. — Um herói comete erros e torna-se forte. Mas ele seria a última pessoa a admiti-lo.

 

— Escuta. A chuva parou. Vamos para casa?

 

Pusemo-nos a caminho. As minhas botas estavam cheias de água e o meu vestido parecia chumbo. Algures, na água, perdera a capa de Conor e só tinha o meu xale encharcado para me proteger do frio. A chuva transformou-se em pequenas gotas e parou, totalmente. O vento abrandou. Na margem, onde o carreiro emergia das árvores, jazia um grande bordão de vidoeiro trazido pela água, a sua lisa e pálida superfície gravada com símbolos minúsculos.

 

— Tinhas razão — disse Conor, dobrando-se para o apanhar. Pareceu-me que o bordão se elevou para se aninhar na sua mão, como que regressando a casa. Espantosamente, enquanto percorríamos os últimos metros de carreiro entre a floresta e os campos em redor, senti a minha roupa a secar, os cabelos leves e secos e as botas mais uma vez à prova de água e confortáveis. Quanto a Conor, poder-se-ia dizer que tinha ido dar, apenas, um passeio.

 

Pensei no que tinha acontecido. Juntei as peças todas, tentando perceber o que acontecera; olhando para além do físico e do imediato em busca do menos óbvio, tal como o meu pai me ensinara. A escuridão da gruta no subsolo. A subida através da água, a saída pela estreita abertura para a luz e o ar. O fogo que eu fizera. A mão estendida em sinal de amizade e companheirismo. E o estranho sentimento de paz que sentia agora contra toda a lógica. Parei de andar.

 

— Que se passa, Fainne? — perguntou Conor suavemente sem olhar para mim.

 

Não sabia bem como formular a pergunta.

 

— Acho que não é capaz de o fazer — disse eu olhando para ele de sobrolho franzido. — Tentar iniciar-me, suponho que foi isso, sem o devido consentimento. Creio que não resulta se o aprendiz não tiver sido devidamente preparado e não estiver pronto para colaborar de livre vontade. Além disso...

 

Parei. Não me cabia a mim lembrar-lhe que o descendente de uma linhagem de feiticeiros nunca se podia tornar um druida. Isso já ele devia saber.

 

— Além disso o quê, Fainne? — Ele sorria; só Dana sabia o que aquele velho manhoso estava a pensar.

 

— Nada. — Raspei a terra com a minha bota, sentindo a raiva a subir. — Apenas... que devia saber que isso não funciona comigo. Sabe muito bem de quem sou filha. Eu não posso... não posso fazer parte disto. Da floresta, da família, da... da irmandade. Tem obrigação de saber isso.

 

Conor recomeçou a andar firme e calmamente nas suas velhas sandálias de cabedal.

 

— Eu não planeei isto — disse ele. Suponho que não acreditas em mim, mas, no entanto, é verdade. Talvez tivesse sido, como dizes, um teste; se o foi, creio que o passaste. Um teste levado a cabo por outros e não por mim. Pode ser que leve algum tempo até o seu significado se tornar claro para nós. Podes utilizá-lo como base de meditação e consideração, Fainne. Aprende-se sempre qualquer coisa com uma experiência como esta.

 

— O quê? — disse eu abruptamente. Não era justo; parecia mesmo o meu pai. — Que um druida pode afogar-se com a mesma facilidade de um homem?

 

— Já devias saber que não me podes perguntar isso. És a única que podes descobrir, por ti própria, a lição contida nesta experiência. Talvez tenha a ver com quem sou e o que sou. Podemos passar uma vida inteira em busca de respostas para tais perguntas. Claro que tens razão. A experiência continha todos os indícios da entrada de um druida para a irmandade; damos aos da nossa espécie um novo nascimento, uma nova entrada na luz, vindos do corpo da nossa mãe terra. Pergunta a ti própria por que razão te foi concedida uma tal experiência.

 

— Um erro, certamente. Talvez eles, sejam eles quem forem, me tenham confundido com outra pessoa.

Conor riu trocistamente.

 

— Duvido muito. Tu és filha do teu pai. Agora, quero pedir-te uma coisa, Fainne. Um favor. Gostaria que me ajudasses.

 

Chegáramos ao carreiro perto da aldeia.

 

— Se for alguma coisa a ver com água, a resposta é não. — Ele sorriu.

 

— Gostaria que me ajudasses na celebração de Sambain. Suponho que te ensinaram o ritual?

 

— Sim, mas... deve compreender que o meu pai e eu não somos druidas. O que aconteceu hoje não altera nada.

 

Conor olhou para mim com ar sério.

— Duvidas de ti própria. Mas isto, podias fazê-lo com facilidade. Isto e muito mais, creio eu.

 

— Eu... eu não sei — gaguejei, achando tudo demasiado fácil, pois senti um repentino desejo de confessar tudo àquele ancião tranqüilo; contar-lhe a razão da minha presença, o que a minha avó fizera e o meu medo pelo meu pai. Tu também o amaste. Ajuda-me. Mas não consegui dizê-lo.

 

— Pensa nisso, Fainne. Terás de optar enquanto aqui estiveres.

 

— Opções difíceis, talvez mais do que imaginas.

 

— Se soubesses no que estou a pensar, tremerias de medo.

 

— Vou pensar nisso — disse eu.

 

Conor acenou com a cabeça e subimos até casa em silêncio. Quando cheguei ao meu quarto, tirei o xale, que estava completamente seco e guardei-o na arca. Hesitei um instante antes de tirar Riona e colocá-la de novo à janela. Então, acendi o lume, que ficou com uma cor quente e rosada e sentei-me diante dele. Fora um dia muito estranho. De certo modo, conseguira o que me propusera fazer. Confrontara-me com a floresta e sobrevivera à experiência. Ouvira uma voz do Outro Mundo, talvez não aquela que esperava, mas, de qualquer modo, uma voz. Mas não aprendera nada. A mensagem que a criatura com aspecto de mocho me dera não fora nenhuma mensagem. As palavras não tinham sentido. Não fizera a Conor as perguntas que desejava ver respondidas. No entanto, sentia um calor dentro de mim, como se, finalmente, tivesse acertado em qualquer coisa. Não fazia sentido. Malditos druidas. Eram demasiado confusos. Mochos que falavam, roupa que secava num ápice, bonecas que nos seguiam com os olhos e nos falavam através da mente. Dei um enorme bocejo, seguido de outro, enrosquei-me em frente da lareira e adormeci.

 

Discretamente, sem ruído, como se fossem sombras sob o céu de Inverno, os druidas chegaram a Sevenwaters. Não eram muitos: um velho de barbas cinzentas, uns poucos muito mais novos, homens e mulheres de cabelos entrançados e rostos pálidos e calmos. Impenetráveis, como o seu chefe. Ficaram albergados num anexo próximo das cavalariças, preferindo ficar do lado de fora das paredes de pedra da fortaleza e mais perto da floresta. Aguardaram.

 

Samhaim é o mais sombrio e secreto de todos os grandes festivais. Em Kerry, o meu pai e eu celebrávamos o nosso próprio ritual, apenas os dois e, por sermos o que éramos, a sua forma fora sutilmente alterada. Não como as pessoas pensavam.

 

Podemos ser feiticeiros, mas não somos adoradores do mal. Não somos necromantes nem praticantes de magia negra. Reconhecemos as antigas divindades. Saudamos os elementos, o Fogo, o Ar, a Água e a Terra. Do quinto, que é a pura essência do espírito, não nos conseguimos aproximar. Veneramos a passagem do ano e os seus pontos de viragem. Mas usamos a arte para os nossos próprios fins.

 

Não aderimos à maneira druida. No entanto, o que fazemos é, sob muitos aspectos, muito parecido. Compreendia a cerimônia e qual seria o meu papel nela. Conor mostrara-se perspicaz, era forçada a admiti-lo. Conhecera o meu pai suficientemente bem para ter a certeza que eu tinha compreendido o conhecimento e o seu significado. Tinha razão; se se olhasse apenas para a educação, eu tinha capacidade suficiente para ser druida. Além disso, que outras perspectivas tinha? Não tinha grandes probabilidades de caçar um homem rico ou influente para marido, quer se soubesse, ou não, a verdade acerca da minha família. Ou era a filha bastarda de um acasalamento proibido ou, pior ainda, uma desconhecida, uma rapariga cuja paternidade não era reconhecida. Talvez circulasse a história de que eu era filha de um druida, mas quem poderia saber ao certo? Poderia ser filha de um leproso, de um ladrão mesquinho, de uma criatura qualquer do Outro Mundo, ou talvez de um gnomo. Que chefe de guerra, consciente da sua linhagem, pensaria, sequer, em olhar para mim?

 

Naquela noite foi-me extremamente difícil recordar por que razão estava em Sevenwaters. Como já disse, a celebração do Sambaim é secreta. Os druidas tinham saído da floresta apenas porque sabiam que seria a última vez antes da batalha final. O festival marcava o começo de um novo ano, o ano em que os Bretões seriam escorraçados das Ilhas e o equilíbrio, finalmente, restabelecido. Talvez, comentara Conor, o próximo Sambain fosse celebrado como anteriormente sob as sobreiras-bravas sagradas que coroavam a Needle, lá longe, no mar oriental. Se conseguisse testemunhá-lo, partiria feliz desta vida, dissera ele. As suas palavras fizeram-se sentir um arrepio na espinha, mas não disse nada.

 

O ritual seria, também, celebrado no coração da floresta, onde os druidas levavam a sua existência solitária, protegidos por aqueles outros habitantes de vozes estranhas e manifestações meio vislumbradas. No coração da floresta ficaram uns tantos iguais de Conor para cumprir esse propósito. Os que tinham aparecido em Sevenwaters celebrariam uma cerimônia para a qual tinham sido convidados os membros mais velhos da família e, mais tarde, esses outros apareceriam para saudar toda a família e partilhar com ela o ritual de Sambain. Deste modo, todos seriam incluídos. Mas as palavras sagradas e a maneira de as dizer só seriam testemunhadas por um círculo restrito e eu não as posso mencionar aqui. As raparigas mais novas eram excluídas, sabendo-se a sua total incapacidade para ficarem quietas por mais de uns momentos.

 

Achei que era uma decisão sensata.

 

Sambain é um tempo perigoso. Durante os três dias que marcam a viragem do ano e a sua descida para a escuridão, as barreiras são afastadas e as diferenças entre os mundos tornam-se menos definidas. Deixa de haver dificuldade em ver as manifestações do outro mundo, pois as suas sombras aproximam-se nesta época de caos. As coisas não parecem ser o que são. À luz da fogueira de Sambain pode-se olhar para a pessoa ao lado e, repentinamente, ver o rosto de um amigo há muito falecido. Pode-se acordar de manhã e encontrar as coisas fora do sítio. O gado vagueia, mesmo quando vedado. Podem ser vistas luzes estranhas na escuridão da noite e ouvirem-se pequenos trechos de música antiga. Se se quisesse tentar ver o futuro, seria a altura ideal para o fazer. Certamente ver-se-ia algo. E então, desejar-se-ia ter deixado tudo como estava.

 

Havia uma parte do ritual para o druida mais jovem e essa parte foi preenchida por mim. Não era proferir as palavras com significado e sentimento. A voz de Conor tinha um poder solene que parecia entrar diretamente no espírito. Eu concordara em ajudá-lo. Decidi que se quisesse cumprir a vontade da minha avó, teria de ganhar a confiança daquele homem; teria de encontrar um lugar naquela casa. Disse a mim própria que estava apenas a representar um papel; que pouco significado tinha para mim. Mas, à medida que a cerimônia se desenrolava na câmara iluminada por velas que fora destinada para aquele propósito, tornou-se impossível ignorar a presença de outros seres invisíveis entre nós, algures nos cantos sombrios, ou nas chamas do fogo ritual. Parte desse ritual é a repetição solene de nomes; os nomes dos que partiram desta vida e seguiram o seu caminho; os dos que pudessem, naquela noite, ouvir as nossas palavras, pois no festival de Sambain os seus espíritos estavam tão próximos que quase os sentíamos. De certo modo, aquilo tocava-me mais profundamente do que qualquer outra coisa que se tivesse passado anteriormente e, contra mim própria, por um momento, esqueci que não pertencia e nunca pertenceria ali. Esqueci a minha avó. Estávamos juntos, como uma família, os vivos de mãos dadas em círculo e os outros entre nós e à nossa volta.

 

Eram muitos; tantos, mesmo os que tinham partido. Tanta saudade. Mantinham-se perto, as almas de Sevenwaters, ligando e fortalecendo os laços daquela família.

 

— Meus irmãos — disse Conor calmamente. — Diarmid, sempre audaz e obstinado. Cormack, irmão gêmeo e camarada, leal e verdadeiro. Liam, em tempos senhor desta casa. Deixastes o vosso legado no grande homem que é o vosso sobrinho, mais um igual a vós.

 

— Sorcha, filha da floresta — disse Sean. — Curandeira sem igual e de grande espírito. Lubdan, homem da terra, forte e sábio. A minha mão está na vossa, vós guiais os meus passos.

 

— Eilies, minha mãe — disse Aisling. — Deste a vida para que eu nascesse. Nunca te conheci, mas amo-te e venero-te.

 

Então, olharam para mim e as palavras saíram-me sem pensar.

 

— Niamh — murmurei. — Dançaste durante Imbolc e brilhaste. És a minha mãe e filha de Sevenwaters. Continuas conosco, assim como todos aqueles que partiram.

— E também os filhos desta casa, meus irmãos, que pouco viveram neste mundo — acrescentou Muirrin, pegando na mão da sua mãe. — Os pequenos Liam e Seamus; brilhantes como cintilantes estrelas no firmamento; belos como gotas de orvalho sobre o espinheiro-alvar; vivos como chamas ardentes nas nossas mentes e corações. Esta noite estamos convosco e tocamo-nos.

 

— Através das sombras, sentimos a vossa presença a nosso lado — disse Conor erguendo as mãos — pois nesta noite não há qualquer barreira entre nós. Partilhai a nossa festa; sede bem-vindos e andai entre nós.

 

Conor continuou o ritual. À vez, o sal, o pão, o vinho e o mel foram partilhados entre os presentes e a dose dos espíritos foi atirada para as chamas. Movi-me em redor do círculo, desempenhando o meu papel de druida. Constatei que as terríveis perdas daquela família era as minhas próprias perdas e suas as minhas. Sabia que os mortos ainda estavam entre nós. O seu legado estava nos feitos e escolhas dos que viviam.

 

Estaria a minha mãe a olhar através do véu que dividia este mundo do outro e sorriria com o que via? Que caminho quereria ela que eu seguisse?

 

O círculo desfez-se e o ritual terminou.

— Vem — disse Conor. — A boa gente desta casa aguarda a nossa presença. Festejemos juntos e preparemo-nos para o tempo da escuridão.

 

Dirigimo-nos para o grande salão onde estavam reunidas as pessoas da casa e da aldeia. Era uma grande reunião. O número de habitantes de Sevenwaters aumentara com a chegada de muitos guerreiros e de outros que tinham um papel a desempenhar nos preparativos para a guerra. Ferreiros, armeiros, homens especializados em cavalos e homens especializados em mantimentos e na deslocação rápida e silenciosa de muita gente, A tia de Dan Walker estava presente. Olhava para mim com os seus olhos escuros e penetrantes.

 

Colocaram-se bancos, deixando alguns vagos para quaisquer visitantes do Outro Mundo que quisessem reunir-se a nós. As portas estavam escancaradas, pois naquela noite nenhuma entrada era proibida ou recusada. As lareiras estavam apagadas. No exterior, na clareira entre a fortaleza e os estábulos, ardia uma grande fogueira, lançando fagulhas para o ar. A Lua estava cheia e pequenas nuvens moviam-se através da sua superfície pálida e brilhante.

 

— Morrigan observa-nos por trás do seu véu — disse Conor. — Vem comigo, Fainne. Espevitemos a fogueira e caminhemos na direção do novo ano.

 

Conor acendera a fogueira umas horas antes usando as mãos e um feitiço e outros tinham-na mantido acesa com meios mais terrenos, tais como ramos de freixo bem secos. O druida pegou num archote, aproximou-o das chamas e este acendeu-se, ardendo com um brilho dourado na noite.

— Este é o fogo do novo ano. — A sua voz era forte e clara e os seus olhos estavam cheios de uma esperança serena. — Este é o ano do ajuste de contas. Contamos os dias de escuridão e preparamo-nos com cuidado. Preparamo-nos para o tempo do Sol e da alegria e para o dia da vitória. Juro ao povo da floresta, de ambos os lados do mundo, que antes do próximo Sambain as Ilhas serão reconquistadas. O filho da profecia liderar-nos-á e nós cumpriremos a nossa missão sagrada. Juro.

 

Então, Conor colocou o archote na minha mão.

 

— Sabes o que deves fazer? — perguntou ele suavemente. Acenei com a cabeça. Tinha a estranha sensação de que já fizera aquilo antes; era como se uma cena do passado estivesse a ser repetida, mas com diferenças subtis. Os meus pés moveram-se sem eu querer. Levei o archote a arder para o grande salão e, perante a assembléia presente, aproximei-o dos troncos já colocados na grande lareira. Estes pegaram fogo e arderam. Depois, andei pela casa, tendo o cuidado de me afastar das tapeçarias, até ter aceso todas as lareiras, mesmo a do meu quarto. Pelo canto do olho pareceu-me ver um pequeno sorriso na boca bordada de Riona, mas, quando me virei, ela estava a olhar solenemente para o exterior.

 

O meu dever terminado, regressei ao salão. Subitamente, percebi que não temia nem a multidão que ali se encontrava, nem as suas conversas, nem o seu esplendor. Havia vinho e pão de aveia, algumas carnes frias e um pouco de queijo macio, feito de leite de ovelha. Mas pouco, porque não haveria mais leite fresco até à chegada da Primavera e a maior parte da nossa manteiga e queijo estava guardada nas caves. O excesso de gado tinha sido abatido e as últimas colheitas armazenadas. A criação, os melhores rebanhos e manadas estavam confinados em redis e estábulos, ou nos campos murados próximos da aldeia. O pouco cereal que ainda se encontrava no campo seria deixado para os espíritos. Chegara a ocasião de trocar a luz do Sol pelo calor da lareira; os trabalhos da herdade, da floresta e da guerra pela atmosfera aconchegada do lar e da família e planear o que viria a seguir.

Não era exatamente uma celebração. As pessoas conversavam entre si, em voz baixa. Até as minhas primas estavam mais caladas do que habitualmente. Já passava da sua hora de irem para a cama e Eilis estava sentada ao colo da minha tia Aisling, de polegar na boca como um bebê. Maeve, que me seguira pela casa passo a passo, de olhos esbugalhados de admiração, sentou-se perto da lareira, encostando-se sonolentamente ao seu grande cão. Sibeal estava ao lado da velha Janis, que parecia contar-lhe uma história. As raparigas mais velhas moviam-se atarefadas, certificando-se de que as taças e as travessas estavam sempre cheias.

 

— Portaste-te muito bem esta noite, Fainne — disse Muirrin, aproximando-se com uma garrafa de vinho para me encher de novo a taça. — Como se tivesses sido predestinada. Foi uma grande honra teres participado na cerimônia. Foi uma honra ainda maior teres acendido as lareiras. Nunca vi Conor confiar essa missão a outro que não um druida.

 

— A sério? — disse eu, e bebi um pouco de vinho.

 

— Ele dá-te valor, Fainne. Não subestimes isso. De todos os irmãos-cisnes, Conor é o único que continua na floresta. Mantém viva a memória dos velhos tempos. Não permite que esqueçamos quem somos e o que temos pela frente. E não tenho dúvida de que tem um papel para ti nisto tudo.

 

— Talvez — disse eu. — Muirrin, tu disseste-me que os teus pais tiveram filhas e que a tia Liadan tinha filhos. Mas...

Ela teve um meio sorriso.

 

— Houve dois irmãos gêmeos. Entre Maeve e Sibeal. Viveram menos de um dia. Eu tinha mais ou menos sete anos quando eles nasceram. Peguei neles ao colo por alguns instantes. Tinham umas mãos tão pequeninas.

 

— Lamento. Não devia ter falado no assunto. Disseste que o teu pai se sentia feliz por Johnny herdar. Mas não sabia que tinham tido filhos e que os tinham perdido.

 

— O desgosto deles foi terrível. Mas o meu pai conseguiu ultrapassá-lo. É um homem muito forte. Ama e respeita Johnny. Com a minha mãe é um pouco diferente.

 

Muirrin hesitou.

 

— Não gosta que um sobrinho seja o herdeiro? — perguntei.

 

— Ela nunca o admitiria. É uma boa esposa, devotada ao meu pai e dedicada à administração da casa. Nunca o diria em voz alta, mas acha que falhou por não lhe ter dado um filho saudável. E há uma certa... reserva, se assim se pode dizer. Ela gosta de Johnny. Não poderia ser de outra maneira. Ele há de ser o chefe ideal de Sevenwaters. Mas tem algumas dúvidas.

— Dúvidas? — perguntei-lhe enquanto nos sentávamos num banco a um canto. — Por que razão há de ter dúvidas se toda a gente acredita que Johnny é a pessoa ideal?

 

Ela fez uma careta.

 

— Ele é perfeito. Tenho a certeza de que concordarás comigo quando o conheceres. Os sentimentos da minha mãe têm mais a ver com o seu parentesco. Ele é nosso primo, claro, mas...

 

— A tia Aisling tem dúvidas quanto ao pai de Johnny?

 

— Ela não se opõe. Não diria isso. A minha mãe submete-se às decisões do meu pai. Só que... há sentimentos duvidosos entre o meu tio Eamonn e o Chefe. Ninguém sabe o que é, ou o que aconteceu entre ambos. Eu acho que a minha mãe acredita que o seu irmão nunca aprovará que Johnny seja o futuro senhor destas terras. Isso deixa-a pouco segura em relação ao futuro. O Chefe nunca mais cá veio desde que a tia Liadan se foi embora. Quando precisa de ver o meu pai, encontram-se noutro lugar qualquer; num lugar sempre diferente. Eu própria só o vi uma vez. E o tio Eamonn faz os possíveis por estar bem longe quando Liadan está cá. É como se tivessem de estar afastados uns dos outros para haver paz.

— Que estranho. Há quanto tempo é que isso dura?

 

— Desde que o Johnny nasceu. Há quase dezoito anos.

 

— Estou a ver — disse eu, se bem que não muito bem. Havia ali muitos segredos; segredos interessantes. — Lamento, Muirrin. Acerca dos teus irmãos. — Era a pura das verdades.

 

Vira o ar de desolação nas feições pequenas e sardentas da minha tia Aisling quando os seus nomes tinham sido pronunciados.

 

— Obrigada, Fainne. Tu és uma ótima rapariga. Sinto-me feliz por teres vindo para cá. É ótimo ter irmãs, mas é maravilhoso ter uma amiga com quem falar. Com o tempo, a minha mãe há de concordar com os planos do meu pai para Sevenwaters. Primeiro, temos de ganhar a batalha. Depois, trataremos do futuro. — O seu rosto estava iluminado de esperança e propósito.

 

— Desculpa — disse eu. De repente, senti-me muito cansada. — Achas que o tio Sean se importa se eu me for deitar?

 

— Oh, Fainne, coitadinha! Desculpa, esqueci-me que trabalhaste arduamente, ajudando Conor e transportando aquele grande archote... vai, vai-te deitar. Eu digo-lhes que estás muito cansada.

 

Escapei-me para o meu quarto, fechei a porta, desfiz o Encantamento e troquei o vestido por uma simples camisa de noite. Retirei Riona da janela e sentei-me à lareira com ela a meu lado. Os meus dedos tocaram a superfície gravada do amuleto em redor do meu pescoço, percorrendo as minúsculas inscrições. Se bem que a lareira estivesse bem acesa, o quarto estava frio: mais frio do que a madrugada gelada; mais frio do que o toque da espuma das ondas a meio do Inverno; mas não tão frio como o frio que me enchia o espírito e que não desaparecia. Era a garra gelada da incerteza. Peguei no atiçador para dar mais calor à lareira. Aproximei o ferro das brasas e de imediato o quarto ficou iluminado com uma luz alaranjada, enchendo-me o nariz e a boca com um fumo sufocante. O ar parecia estralejar e assobiar à minha volta e o meu coração bateu, assustado. As chamas esmoreceram de novo, ficaram arroxeadas, escuras como amoras e, no fundo, surgiu o rosto enrugado da minha avó, coroado por labaredas, os olhos penetrantes fixando-me e, no estralejar da madeira que ardia, ouvi a sua voz trocista.

 

— Devias ter vergonha, Fainne. Esqueceste o sofrimento do teu pai? Perdeste o sentido de disciplina tão rapidamente que brincas aos druidas, esquecendo o teu propósito?

 

Fiquei incapaz de falar. O meu coração batia como um tambor e a minha pele estava suada e pegajosa. Sabia que ela me procuraria. Sabia que viria, mais cedo ou mais tarde. Mas não já. Não assim.

 

— Eu... eu... — gaguejei, lutando para me controlar. — Eu não me esqueci, juro, não me...

— Oh, Fainne. Tão fraca. Tão facilmente ludibriada. Por que salvaste o druida da inundação? Por que não deixaste afogar-se no escuro o causador da desgraça do teu pai? Sim, eu vi tudo. Não és tão forte como pensavas.

 

— Conor faz o seu jogo. — Os meus dentes batiam uns nos outros. Que ela não me mostrasse a imagem do meu pai. Isso nunca. — Eu sei o que ele quer; hei de trocar-lhe as voltas. Ele é um homem velho.

 

— Ele é um druida. Não me convences, Fainne. Tenho de ir aí em corpo e espírito para te espevitar? Esqueceste a razão por que estás aí, pequena?

 

— N... não, avó.

 

— Então, por que perdes tempo a sonhar à lareira?

 

— P... porque foi necessário ganhar a confiança desta gente — gaguejei. Aquilo não era nada bom, tinha de me controlar rapidamente. Os olhos dela pareciam facas, pareciam penetrar no fundo da minha alma, procurando todos os meus pequenos segredos. — Parecer amiga deles; desempenhar o papel de familiar. A minha mãe... — parei. Naquela noite, parecera-me que Niamh me observava através do véu das sombras.

— A tua mãe teria vergonha de ti. — A voz da minha avó era fria e dura como uma pedra. — Ela despreza essa gente pelo que lhe fizeram, a ela e a Ciarán. Estás a perder a vontade, Fainne. E sabes porquê?

 

— Que quer dizer?

 

— Essa gente é manhosa. Parece que te aceita, mas não é verdade. Conor adormece-te, fazendo com que quase acredites na mesma mentira que pregou ao teu pai. Começas a pensar que, afinal de contas, talvez consigas. Talvez possas atingir a Luz; seguir o caminho dos sábios até te transformares no que ele é. Ah! Olha para ti, Fainne. Olha para ti sem a roupagem do Encantamento. Tu és um ser à parte; não pertences a essa gente. Tu transportas o meu legado, o sangue dos banidos e Conor sabe isso muito bem. Ele está, apenas, a brincar contigo. Até o teu pai te usa para os seus fins. É assim conosco. Não há amor. Não há Luz. Não há aceitação. Apenas confusão e escuridão. Ao menos, tenta ter algum objetivo.

 

— A avó diz que não há amor, mas eu amo o meu pai e ele ama-me. Isso deve valer alguma coisa.

 

— Isso é um disparate sentimental. Ciarán achava que amava a tua mãe. Foi o seu maior erro. Se ele te amasse, nunca te teria mandado para aí. O teu pai sabe, e eu sei, que nunca serás outra coisa senão o que és. Presta atenção. Olha para o fogo.

— Estou a olhar.

 

— Olha de novo.

 

Obedeci e as chamas modificaram-se, encaracolando-se, espalhando-se e mostrando-me, mesmo no centro, uma imagem pequena e nítida: o meu pai, dobrado, tossindo como se o seu peito fosse rebentar e o sangue, vermelho-vivo, escorrendo-lhe por entre os dedos que mantinha encostados à boca. Pestanejei e a imagem desapareceu. O meu coração ficou gelado.

 

— Viste bem? Foste tu a causadora. O que vês está a acontecer. É difícil um homem engolir com uma tosse assim. Não admira que esteja tão magro. Às vezes, torna-se difícil respirar. E, no Inverno, Kerry é muito frio. — Os olhos dela trespassaram-me.

 

— Por favor! — A voz tremeu-me de angústia. Não podia deixar de lhe suplicar. — Por favor, não faça isso. O meu pai não tem culpa. Por favor, não o magoe assim! Estou a fazer o que a avó quer, estou mesmo, tenho planos. Está a castigá-lo para nada.

 

— Os planos são uma coisa. A ação é outra. O que tens feito, desde que chegaste aí? Tens usado a arte? Encontraste um homem que seja o teu instrumento? Que fizeste até agora?

 

— Eu... eu fui até à floresta em busca dos Fair Folk. Falei com um deles.

— E?

 

— Um... um homem interessou-se por mim — gaguejei eu, agarrando-me

desesperadamente àquele episódio. — Um homem influente. Ele faz parte do meu plano.

 

— Se ele se interessou por ti, onde está ele neste momento?

 

— Foi para casa. Mas disse que se sentia ansioso por me ver de novo. — Aquilo não chegava, sabia que não chegava. A tosse abafada do meu pai ecoava na minha cabeça como um toque a finados.

 

— Isso não chega, Fainne. Cada vez mais digna de pena. Lembras-te do bacalhau? Fizeste aquilo com muita facilidade. A etapa seguinte é que é o verdadeiro desafio. Foste pateta em deixar essa gente começar a insinuar-se no teu coração. É melhor agires rapidamente, antes que te esqueças de como o fazer. De outro modo, perderás a vontade. Tornar-te-ás, simplesmente, um deles. Talvez gostes de ver sofrer o teu pai.

 

— Pare com isso! Não foi fácil. Todas as noites, antes de adormecer, vejo aquele peixe na minha mente. Foi terrível. Usei a arte indevidamente.

— Ela era dispensável. Todos são. Onde está a tua coragem, pequena? Mostra-ma. Mostra-me que ainda a tens. Mostra-me que não queres saber dessa gente. Foi essa gente que mandou a tua mãe para os braços de um homem, tão cruel que ela nunca mais recuperou. Foi essa gente que colocou a esperança no coração do teu pai, apenas para lha arrancar depois. Essa gente não se preocupa contigo. Nada. Tudo o que lhe interessa é a sua querida floresta, as suas Ilhas e a vontade dos Fair Folk. A tua mãe morreu. Matou-se devido ao que essa gente lhe fez. Já te esqueceste? Preferes ser atraída para a sua estranha compreensão do mundo, dando mais valor a uma profecia qualquer, à imaginação deturpada de um bardo, do que à existência de uma mulher. Acorda, Fainne. Onde está a tua raiva? Mostra-me a tua força.

 

Então, senti-a, a arte em toda a sua força, emergindo de todas as partes do meu corpo. Era capaz de fazer o que ela queria, sabia que era capaz; só precisava de pôr em prática tudo o que o meu pai me ensinara. No entanto, ele dissera:

 

— Por vezes — sussurrei — é preciso muita força para não agir...

 

— O que é isso? Um disparate qualquer dos druidas? Acredita em ti própria. Reconhece a tua herança. Mostra que és capaz. Há quanto tempo não usas a arte? Mostra-me, Fainne. Talvez um pouco de fogo. Um pequenino. Mas que seja bem quente. Assusta-os. Transtorna-os. Não consegues, pois não? Perdeste a raiva. Perdeste a vontade. Afinal de contas, o amor que dizias ter pelo teu pai não era verdadeiro.

 

— Eu consigo! Ainda agora senti as chamas na ponta dos dedos! Mas... mas parece não haver um propósito nisso... não passa de um truque...

— Falas-me em propósito? Nesta noite, entre todas as noites? A tua mãe não esperou, ano após ano, entre dois mundos, ver-te através do véu numa noite de Sambain? Ver-te, por fim, mostrar ao irmão, ao tio e a toda essa gente que não podem pisar alegremente um caminho cheio do sangue de inocentes? Esta noite, a tua mãe está a ver-te, Fainne. Fá-lo por ela. Eles tiraram-lhe o poder; forçaram-na às trevas e ao desespero. Recupera-o por ela. Mostra-lhe o que a sua filha é capaz de fazer.

 

Eu sentia a força em mim, a chama que parecia empurrar-me, se bem que, por qualquer razão, eu continuasse a lutar contra ela. Aquela gente era a gente da minha mãe, apesar do mal que lhe tinha feito.

 

— Eu... eu não sei bem...

 

— Se não consegues reunir em ti a força necessária, és, na verdade, uma pobre estudante. Não devias hesitar, nem sequer por um momento. Ciarán perdeu o seu tesouro, Fainne; o seu amor e a sua esperança. Perdeu a própria identidade. E tu renegaste-o ao apresentares-te aí como órfã, em Sevenwaters. Sabes bem que o farei sofrer se te recusares a obedecer às minhas ordens. Faz o que te digo. Mostra-me que não esqueceste o teu pai. Procura a fúria bem dentro de ti. Acende o fogo.

 

Fechei os olhos por um momento, incapaz de agüentar o poder do seu olhar por mais tempo, e quanto os abri de novo o fogo morrera, transformando-se em brasas, e ela desaparecera.

— Pai — sussurrei. — Pai, agüente-se, esteja onde estiver. Seja forte.

 

Peguei em Riona e guardei-a na arca, mesmo no fundo, por baixo do xale de Darragh. No fundo, na escuridão, onde não poderia ver nada. Cerrei o fecho. Em seguida, fui até à janela. Era muito tarde. Estivera sentada, sozinha, durante muito tempo. Parecia que toda a gente se tinha ido embora, mas devia haver guardas; havia sempre guardas. A família, os druidas, as pessoas da casa e da aldeia já deviam estar a dormir. Estava tudo calmo. Apaguei a vela e fechei os olhos. Respirei lenta e profundamente, evocando o olho do espírito; lenta e profundamente, aumentando gradualmente o poder como as vagas do grande oceano. Na mente vi a fogueira que Conor acendera, ardendo ainda lá em baixo, junto das muralhas da fortaleza. Vi-a nitidamente. Havia guardas junto dela, alerta na escuridão, aproximando-se uns dos outros para se aquecerem. A noite estava calma, suficientemente fria para enregelar um homem através da pele de carneiro, da capa de lã e de tudo o mais. Pensei naquela fogueira, vendo-a com tanta nitidez como se estivesse mesmo diante de mim. Grandes toros no centro, brilhando, dourados e laranja, transformando-se em cinza. Fagulhas subindo no ar quente, dançando no ar como insetos brilhantes. Uma centelha ou duas. O fumo encaracolando-se. De manhã, não restaria muito mais. Eu era capaz de acender uma fogueira. Tudo o que tinha a fazer era apontar o dedo. Mas aquilo seria diferente. Seria um acidente. Não teria nada a ver comigo. Não estava no meu quarto a dormir, na parte mais afastada da fortaleza? Da minha janela nem sequer conseguia ver o pátio onde o fogo, infelizmente, se descontrolou e espalhou por onde não devia. De olhos bem fechados, mantive o fogo na mente. A mudança foi rápida. Tinha de ser, antes de os guardas poderem acorrer com paus e sacos de serapilheira para apagarem as chamas. Um súbito fulgor e estas espalharam-se pelo solo, apanhando tudo o que pudesse arder. Homens gritando, homens correndo. As chamas eram de uma cor linda, dourado-avermelhadas, como o sol de Outono atravessando o mel.

 

— Está a ver, avó? Está a ver o que eu consigo fazer?

As chamas atingiram as vedações dos edifícios exteriores e ergueram-se, esfomeadas, na direção do céu. Cantavam. Chiavam. Rugiam. E havia outros sons, não já na minha cabeça, mas lá fora na noite, demasiado reais, sons de pessoas gritando, transportando baldes e a voz do meu tio Sean gritando em todas as direções. Cavalos relinchando, um som de esmagamento quando algo grande caiu ou foi arrastado, um súbito e terrível som de dor, um homem gritando, gritando, gritando. Eu não queria ouvir aquilo. Tapei as orelhas com as mãos, mas não senti qualquer diferença. Ouviram-se mais sons de coisas esmagadas e o som de cascos nas pedras do pátio. Abri os olhos e vi, por baixo da minha janela, homens conduzindo cavalos aterrorizados para a segurança dos campos e correndo de volta para o inferno. O brilho da conflagração espalhava as suas sombras pelo espaço entre a fortaleza e a floresta. Fiquei muito quieta. Não havia necessidade de desfazer o feitiço. Eles apagariam o fogo. Os animais estavam salvos. Sentia-me feliz por isso. A família não seria desalojada. Tal acontecimento, na noite de Sambain, podia sugerir que as esperanças do arquidruida para o ano seguinte tinham saído frustradas.

 

Lançaria a semente da dúvida. Correra tudo bem. Mas, por que razão me tremiam as mãos como as folhas de um vidoeiro sob um temporal de Outono? Agarrei com força no amuleto que tinha em redor do pescoço, para me acalmar.

 

Alguém bateu à porta do meu quarto.

 

— Fainne! Estás acordada?

 

Era Muirrin. Não pude fazer outra coisa senão abrir a porta e deixá-la entrar.

— O que é? O que é que se passa? — Fiz os possíveis para parecer meio adormecida e confusa.

 

— Oh, Fainne! Não ouviste o barulho? Houve um fogo terrível. Um dos druidas morreu e há outras pessoas muito feridas. E não conseguimos encontrar Maeve. Esperava...pensava que ela pudesse estar contigo. Mas estou a ver que não. Oh, Fainne, que faremos se...

 

Naquele momento, a competente e reservada curandeira de Sevenwaters levou as mãos aos olhos e irrompeu em lágrimas. Senti um arrepio terrível percorrer-me o corpo, que não tinha nada a ver com a hora tardia ou o frio da época.

 

— Eu ajudo-te a procurá-la — disse eu com uma voz incerta que não tinha nada de artificial. — Deixa-me pôr a capa. Tenho a certeza de que ela está bem, Muirrin.

 

— Quando chegarmos lá abaixo já eles a encontraram, acredita. — Brighid me ajude, por que não parei aquilo a tempo e horas? Por que não parei quando as chamas começaram a lamber as paredes? Por que não me lembrei do local onde os druidas estavam a dormir?

 

Se havia uma resposta para aquelas perguntas, eu não a tinha. Em vez disso, enquanto descíamos as escadas à pressa e saíamos para o pátio, ouvi uma pequena voz interior. Foi a mesma coisa outra vez. O mesmo da outra vez, com o peixe. Não podes fazer nada; está-te no sangue...

Naquela noite senti que havia duas pessoas dentro de mim. A Fainne que ajudava Muirrin em busca de Maeve pela casa, pelo jardim, com uma lanterna na mão, pela aldeia onde os anciãos e as crianças estavam agora acordados e receosos e os novos a caminho da fortaleza para combater as chamas. O gado era reunido nos campos e os rapazes e os cães faziam os possíveis para manter alguma ordem naquela caótica manada de animais aterrorizados. Perguntamos a toda a gente, mas ninguém tinha visto Maeve. E quando regressamos para o que restava dos edifícios queimados, chegamos mesmo a tempo de ver Sean carregando-a para o exterior; o seu rosto parecia o de um velho à luz dos archotes e Muirrin lançou um enorme grito de angústia antes de correr na direção do pai e da silhueta mole, como uma boneca, que ele segurava nos braços. E durante esse tempo todo, a outra Fainne observava tudo aquilo. Ninguém a podia ver. Ninguém podia ouvir a sua voz senão eu; a pequena voz que era a voz da minha avó.

 

Foste tu que fizeste isto. Vê como podes ser forte. Amanhã, o teu pai respirará com mais facilidade.

 

Levei as mãos aos ouvidos e respirei profundamente uma vez, duas, três. Depois, obriguei-me a aproximar-me e abri a boca para fazer uma pergunta cuja resposta temia ouvir. Mas não precisei de perguntar.

 

— Muito bem — dizia Muirrin com vivacidade, se bem que o seu rosto estivesse cheio de lágrimas e pálido. — Leve-a para o quarto a seguir ao meu e mande também os feridos para o outro ao lado. Leve-a com cuidado. Vamos precisar de muito linho limpo e pessoas para nos ajudar. Depressa.

Portanto, Maeve estava viva. Tossi para clarear a voz.

 

— On... onde está o cão? — perguntei hesitantemente. — Ela é capaz de querer o cão ao pé dela quando...

 

— O cão morreu — disse Sean pesadamente. — Ela não quer que ele durma no quarto; ele foi em busca de calor e os druidas acolheram-no.

 

— Ela andava à procura do cão? — murmurei enquanto caminhávamos em procissão, tristes, em direção à fortaleza. Algures, à distância, um homem continuava a gritar de dor. — No fogo?

 

Sean acenou com a cabeça.

 

— Não sei como, perdemo-la. Deve ter-se afastado para o ir buscar.

 

— Que aconteceu? Está muito ferida? — Forcei-me a perguntar-lhe.

— Parece que tropeçou e ao tentar não cair agarrou-se a um ferrolho de ferro, não sabendo que estava quente. As mãos dela estão... estão queimadas. — A voz do meu tio tremeu. — O cabelo dela estava em chamas. Apagamo-las. O rosto e as mãos ficarão marcados para sempre, se sobreviver. Não perdôo a mim mesmo. Como pode ter acontecido uma tal coisa?

 

Pálida como a cera, Muirrin ordenou tudo com rapidez e eficiência. Linho, água, ervas. Foi colocada em linha uma série de enxergas. Pessoas traziam os feridos. Havia um jovem druida com queimaduras terríveis nas pernas e nos pés. Apesar do treino, não era capaz de conter os gritos e o som dilacerou-me. Quanto a um outro, o mais velho, a enxerga onde estava deitado estava coberta da cabeça aos pés com um pano branco. Aquele sábio não regressaria para ver o solstício de Inverno sob os carvalhos nus. Alguém colocara um ramo de teixo em cima do pano branco como a neve que o cobria. Havia cinco homens feridos; alguns com queimaduras, outros tontos e tossindo devido ao efeito do fumo. No quarto onde os puseram, Conor ia de um a outro, inclinando-se para murmurar palavras suaves, tocar uma mão ou afagar uma testa. Levaram Maeve para o quarto seguinte e eu fiquei à entrada, desamparada, enquanto a deitavam. Pela primeira vez, vi a minha tia Aisling completamente perdida. Ajoelhou junto da filha, olhando sem expressão para os cabelos, rosto e mãos queimadas, enquanto o som áspero da respiração da criança se ouvia no quarto iluminado por velas.

 

Muirrin estava a acender mais lanternas. Podia ver-lhe as mãos a tremer.

 

— Pai — disse ela. Sean olhou para ela.

 

— Há demasiados feridos — disse ela calmamente. — E isto pode estar para além das minhas capacidades. Precisamos de Liadan.

O meu tio acenou com a cabeça.

 

— Felizmente, ela está em Inis Fala, não na Bretanha. Pelo menos, não precisa de atravessar o mar e em breve estará aqui. Que podes fazer por Maeve?

 

Muirrin hesitou.

 

— Farei o melhor que sei, pai — murmurou ela. — E agora, vá. Estou a ouvir os homens a chamarem por si. A mãe também.

 

— Eu fico com ela. — A voz da minha tia Aisling estava irreconhecível; tênue e pouco segura, nada de acordo com a sua personalidade. Fiquei assustada por as coisas poderem mudar com tanta rapidez. — E se ela acorda e...

 

— Eu chamo-a logo — disse Muirrin com uma voz de comando firme. — Prometo. Tem razão, ela há de querê-la junto de si. Mas eu vou dar-lhe um remédio para as dores; para já, não acorda. As pessoas vão precisar de si lá em baixo, para lhes dizer o que fazer e para as tranqüilizar. Isto perturbou toda a gente.

— Tens razão, claro. — Aisling levantou-se, uma silhueta pequena e delgada dentro de um bonito vestido. Sem o véu, os seus cabelos eram brilhantes como mal-me-queres à luz das velas. — Vou para baixo. — Vi-a endireitar os ombros e engolir as lágrimas. Alguém a chamou e ela desapareceu.

 

— Eu... posso fazer alguma coisa? — Muirrin olhou para mim.

 

— Não, Fainne. Isto tem que ser feito por mãos capazes; e tenho gente que me vai ajudar para ir buscar água e apanhar ervas. Mas... — estava a olhar para além de mim, na direção da porta. Virei-me.

 

Elas estavam ali, imóveis, como uma fila de pequenas estátuas. Deirdre, Clodagh, Sibeal e a pequena Eilis, nas suas camisas de noite, descalças no chão de pedra. Oito olhos, grandes e temerosos, fixavam-se em mim em busca de alguma coragem. Em mim. Nas minhas costas, Muirrin falou firmemente.

 

— Está tudo bem, meninas. — Uma jovem aproximara-se, bloqueando a visão do quarto. — Um incêndio e Maeve feriu-se. Eu estou a cuidar dela. Fainne vai levá-las de volta à cama e vai contar-vos uma história. Amanhã saberão tudo. — baixou a voz. — Por favor, Fainne? — O tom da sua voz revelava um medo terrível por trás das palavras calmas.

 

— Eu quero a mãe — Eilis, esfregando os olhos.

— Podemos ver Maeve? — Deirdre, pondo-se em bicos dos pés para tentar ver alguma coisa. — O que é que ela tem?

 

Não podia fazer outra coisa senão o que me tinham pedido.

 

— Vamos embora — disse eu imitando o estilo de voz de Muirrin. — A vossa mãe está ocupada e Muirrin também. — Eu sei uma história muito bonita acerca de um homem que apanhou um gnomo e outra acerca de um cavalo. E tu — disse eu, olhando para a exausta e lacrimosa Eilis — podes levar Riona contigo para a cama. Se te portares bem.

 

Por trás de nós, a porta fechou-se suavemente. No outro quarto, um homem soluçava de dor. Ouvi a voz suave de Conor, cadenciada e calma.

 

— Fainne — Clodagh em voz baixa enquanto nos afastávamos. — Quem é que está a chorar?

 

— Um homem que se feriu — disse eu, pensando que não valia a pena mentir. — Um dos druidas. Estão a tratar dele. Ficou muito queimado.

Seguiu-se um silêncio, coisa rara entre elas. Nenhuma delas disse uma única palavra até estarem as cinco no quarto, ao mesmo tempo que eu distribuía os cobertores e acendia a lareira. Era bom encher a mente com coisas práticas e imediatas.

 

Contei-lhes a história do gnomo, depois a outra e aconcheguei Riona ao lado de Eilis. Em breve dormiam todas, menos Clodagh, que continuava sentada à lareira, segurando o meu xale de seda nas mãos, tocando nas pequenas criaturas com uns dedos surpreendentemente cuidadosos.

 

— Este xale é tão bonito — disse ela em voz baixa para não acordar as irmãs. — Foi o teu namorado que to deu?

 

— Eu não tenho namorado — disse eu. — Foi-me dado por um amigo. — Ainda bem que ele se tinha ido embora depois de mo dar. Pelo menos, não podia ver o que eu tinha feito naquela noite.

 

— Fainne?

 

— Hum?

— A Maeve vai morrer?

 

Estremeci. Era como se estivesse a ver a criança sentada à janela, penteando os cabelos amarelos de Riona enquanto o seu grande cão ressonava junto da lareira.

 

— Não sei — disse eu. — Muirrin é uma curandeira muito competente, todos o dizem. E o tio disse que Liadan vem aí, se bem que possa demorar ainda algum tempo a chegar, é que é difícil fazer chegar lá uma mensagem para a trazer para Sevenwaters.

 

Clodagh olhou para mim.

 

— Oh não — disse ela. — O pai fala com ela. Ela já deve estar a caminho.

 

— Fala com ela?

 

— Como eu com Deirdre. Tu não consegues? Falar sem dizer palavras, quer dizer. O pai é capaz de dizer coisas a Liadan instantaneamente, mesmo quando ela está em Harrowfield, que fica muito longe, em Northumbria. Ela vem o mais depressa que puder. A tia Liadan é capar de curar seja quem for.

— Muito bem, então — disse eu com um sorriso. — Suponho que isso quer dizer que Maeve tem boas hipóteses de recuperar. E agora tens de dormir. Vais ter de te encolher aqui ao pé de mim. Espero que os teus pés não estejam muito frios.

 

Mas enquanto ela, finalmente, adormecia, eu ficava de olhos abertos, vendo a luz da madrugada entrar pela janela e a casa recomeçar a viver lentamente à nossa volta.

 

Fiquei ali a olhar para as paredes de pedra e pensei na minha mãe. Imaginei se o seu espírito infeliz vaguearia por ali, algures, observando-me, observando tudo o que eu fazia. Que dissera o meu pai? Houve tempos de felicidade... o teu nascimento... ela acreditava que, finalmente, fizera uma coisa boa. Mas, no fim, não fora capaz de acreditar. Talvez a sua resposta final fosse a única que lhe restava. Era uma boa saída. Cortar os pulsos, saltar de um telhado, ou mergulhar nos braços do lago. Mas eu não podia fazer o mesmo que ela. Isso destruiria o meu pai. Tinha de fazer o que a minha avó queria. Devia-lhe tudo e não podia permitir que ela o torturasse. No entanto, como podia conciliar aquilo com o que tinha feito naquela noite? Era a segunda vez que matava. E tinha feito uma coisa horrível a Maeve e àquele jovem druida. Qual seria o preço a pagar pela segurança do meu pai? A maldade que fizera naquela noite não tinha relação, certamente, com a batalha que se aproximava e com os Fair Folk? Por que me forçara ela a fazer aquilo?

 

Ela não te forçou a fazer aquilo, disse a voz involuntária dentro de mim. Tu é que o fizeste de livre vontade. Está-te no sangue. Não podes fazer nada. Além disso, foi um castigo pelo que fizeram.

Não se pode castigar uma criança pelos erros dos adultos, disse eu a mim própria.

 

Errado. Veio a propósito. Perturbaste o teu tio e puseste dúvidas no coração do povo. Enfraqueceste o druida. Três passos na direção do grande objetivo. Veio mesmo a propósito.

 

Cr... creio que não quero ser quem sou.

 

E que queres tu ser? A mulher de um latoeiro qualquer, com uma criança na barriga, mais três a teus pés e uma vida errante? Pensas que tens escolha? Foi o que o teu pai pensou. Vê o que lhe aconteceu. E sentes simpatia por essa gente?

 

Fiz força para que aquela voz deixasse de me atormentar, mas não consegui. A voz era minha e não podia ser silenciada. As crianças dormiam tranquilamente à minha volta e enquanto a luz da madrugada enchia o quarto com um brilho dourado, pareceu-me que as sombras me enchiam a mente e o coração e que o próprio Sol era incapaz de as afastar.