A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 8 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Oito

 

 

Nessa noite retirei-me cedo e Eamonn não me fez perguntas. Mas não dormi. Doía-me a cabeça, debatia-me e virava-me, umas vezes fria como o gelo, outras a ferver de calor. Ouvia chiadeiras e retolhos na casa e os sons dos guardas mudando de turno lá fora, uma troca de palavras em voz baixa, botas caminhando na direção da cozinha, esperando o seu dono que a lareira ainda estivesse acesa e houvesse algo para comer. Por fim, levantei-me, vesti uma capa por cima da camisa de noite e percorri, também eu, o átrio, sabendo que não dormiria se esperasse na cama pelo sono. Iria buscar um chá de camomila, iria à casinha e se mesmo assim não conseguisse dormir sentar-me-ia muito simplesmente junto da vela e tentaria pôr os pensamentos em ordem. Não era que tivesse quaisquer deveres a cumprir. Poderia descansar o dia todo, se quisesse. Por que outra razão viera para aquele local senão para providenciar algum divertimento a Eamonn, uma diversão picante na sua existência bem ordenada? Era evidente. Fora estúpida em não perceber. Não admirava que me sentisse reles.

 

A casa dormia. No fim do átrio brilhava uma luz vinda da cozinha, a luz da lareira, através da porta aberta. Talvez ainda lá estivesse gente. Mas a passagem estava na sombra, iluminada apenas por uma vela aqui e ali em pequenos recantos para torná-la segura para pessoas como eu, que sentiam necessidade de vaguear durante a noite. Os quartos estavam às escuras. Caminhei suavemente de chinelos, cuidadosamente para não perturbar ninguém. Não me apetecia companhia.

 

Um pequeno som chamou-me a atenção, um arfar rítmico, um ah... ah... ah... baixinho. Fiz uma pausa ao passar pela soleira de um dos quartos às escuras.

Devia ter-me afastado imediatamente quando os vi. Mas descobri que não era capaz.

 

Fiquei presa ao chão, a olhar. A luz fraca das velas no corredor revelava vagamente as formas. Reconheci a mulher. Trabalhava nas cozinhas, Mhairi, era esse o seu nome, uma criatura agradável se bem que um pouco desleixada, com uma figura generosa e bonitos olhos escuros. Estava de costas para a parede, de pernas afastadas, a camisa de noite enrolada até à cintura e Eamonn fazia com ela o que não pudera fazer comigo na cascata. Os efeitos do meu feitiço tinham tido pouca duração. Não abraçava a mulher; tinha as duas mãos plantadas na parede de cada lado da cabeça dela e mal olhava para ela enquanto empurrava, empurrava com uma determinação que me pareceu não estar muito longe da ira. Mhairi parecia estar a gostar; tinham sido os seus gritos que eu ouvira e, na sombra do quarto pude ver os seus olhos semicerrados, o rosto corado e os lábios abertos. Não consegui que as minhas pernas se movessem para longe daquele lugar onde não tinha nada que estar. O ritmo dos seus movimentos aumentou, Mhairi deu um súbito gemido, Eamonn gritou, empurrou uma última vez e eu afastei-me silenciosamente, fugindo para a relativa segurança da cozinha, as faces coradas de embaraço e vergonha.

 

Os meus sonhos não fizeram nada para afastar os sentimentos de constrangimento e auto-repugnância e pela manhã descobri, muito simplesmente, que não poderia sair para as minhas tarefas diárias como se nada tivesse acontecido. Em Kerry, quando tínhamos determinados sentimentos, havia sempre uma solução. O meu pai fechava-se no seu gabinete de trabalho para lutar com os seus problemas à sua maneira, ou ia dar um passeio pela praia, sob o vento e a espuma do mar, apenas com Fiacha como companhia. Se estivéssemos no Verão, eu ia ter com Darragh e contava-lhe a minha história angustiante, ou sentava-me com ele em silêncio enquanto o mundo regressava lentamente ao seu sítio. No Inverno, meditaria: fixaria os meus pensamentos numa única frase do conhecimento, ou no fragmento de um verso e deixaria cair o resto. Em Kerry havia tempo e espaço para tais coisas. Ali era diferente. As raparigas andavam sempre por perto, esfomeadas por companhia. E Eamonn estava presente, Eamonn, que tornara claro que o assunto entre nós ainda não tinha acabado. Não podia enfrentá-lo, não podia. Havia gente por toda a parte.

Não havia possibilidade de um pouco de tranqüilidade.

 

A minha cabeça estava cheia de pensamentos indesejáveis. A minha mente estava tão confusa que era impossível ver o caminho que tinha de tomar. O Inverno estava a chegar e eu ainda não conseguira nada senão uma descida à confusão e à dúvida. Podia agradecê-lo às criaturas que se chamavam a si próprias Anciãos. Não queria acreditar no que me tinham dito acerca da batalha e do seu significado. Não me queria confrontar com isso. Mas tinha de o fazer. Uma serva trouxe-me água quente para me lavar e eu disse-lhe que estava indisposta. Queria passar o dia sozinha no meu quarto, disse-lhe. Não, não queria comida nem bebida para além do jarro de água que já tinha mandado buscar. Tinha lenha para a lareira. Disse-lhe para dizer a toda a gente que não queria ser perturbada. A toda a gente. Ficaria bem, desde que ninguém me incomodasse.

 

Em seguida, fechei a porta, acendi a lareira e sentei-me diante do fogo de pernas cruzadas com um cobertor entre mim e o chão de pedra. Ia ser um dia longo, porque a minha autodisciplina tinha enfraquecido um pouco desde que deixara Kerry. O meu pai sempre me disse que o frio era um estado de espírito. Deve aprender-se a lidar com o modo como ele faz tremer o corpo e fazer-nos desejar um cobertor e um pouco de vinho quente. Deve aprender-se a pôr isso de lado. Eu costumava sentar-me do alvorecer ao crepúsculo junto das pedras, ou nas saliências do Favo de Mel.

 

Mas agora precisava do meu cobertor e da minha pequena lareira. Estava a descuidar-me. Estava a permitir que aquela gente me perturbasse e mudasse.

O tempo passou. Comecei pelo conhecimento, que veio quase sem eu pensar. O seu recitamento transportou-me até um certo ponto. Fixei os olhos no fogo; pensei nele em todas as suas formas e comecei a mergulhar profundamente no meu transe, diminuindo o ritmo da respiração, o corpo banhado em luz, a mente começando a libertar-se, já quase na fronteira,... e então ouvi baterem delicadamente à porta.

 

— Fainne? Fainne!

 

Era Deirdre. Eu já estava longe e ouvi a sua voz como que através de uma barreira, do fundo de um poço. Ignorei-a, agarrando-me à minha imobilidade com todas as minhas forças.

 

— Fainne!

 

— Talvez esteja a dormir. — Era a voz de Eilis.

 

— Estamos a meio do dia. Não pode estar a dormir.

 

— É melhor deixá-la em paz — disse a voz de Clodagh, a voz da compreensão. — disseram...

— Sim, mas...

 

— Deirdre. Elas disseram para não a perturbarmos por nada deste mundo. Por nada deste mundo.

 

— Sim, mas...

 

As suas vozes enfraqueceram. Mas tinham-me perturbado. Percebi que não podia regressar ao meu transe e senti-me mal, como quando alguém nos interrompe abruptamente esse estado de consciência. Agora que as palavras me tinham perturbado, foram seguidas por pensamentos e sentimentos e a minha mente relatou-me de novo os acontecimentos do dia anterior e da última noite, mas não conseguindo que fizessem qualquer sentido. Muito bem, Eamonn quisera uma mulher e como eu o frustrara com o meu pequeno feitiço, ele fora a outro sítio. Isso era lógico. Por que razão me oporia à descoberta de que uma era tão boa como outra? Por que razão me havia de preocupar com a idéia de que ele só me tinha convidado porque pensava que eu era uma presa fácil, pobre, inocente, uma coisa adorável? Não podia ser. Não jogaria o jogo da minha avó com ele. Já decidira isso antes de termos ido passear juntos. Portanto, por que razão me doía ele ter-me achado reles e por que razão me aborrecia o fato de ele ter encontrado uma substituta com tanta facilidade? Pensava que ele me achara, bela? Que eu seria a cura para todos os seus problemas? Talvez que ele pensasse casar comigo?

 

Não és nada, disse eu para mim própria. É Liadan que ele quer. Para ele, as mulheres são todas iguais. Não passaste de mais uma virgem. Não és nada. Toma atenção. Que homem amaria uma rapariga como tu? É melhor contentares-te com aquilo em que és boa.

Olhei através do quarto para as teias de aranha na soleira da entrada. A grande aranha ao canto estava no centro da teia maior, escura e muito quieta, esperando.

 

Concentrei-me nela. O animal estremeceu e ali, na parede de pedra, apareceu uma minúscula e brilhante criatura, meio abelha e meio pássaro, agarrando-se à superfície rugosa com pequenos pés parecidos com garras. Parecia sentir-se ali desconfortável, como se preferisse estar num bosque colorido envolta em flores exóticas. Fiz com que a aranha regressasse e observei-a a fugir para se esconder, sem dúvida um pouco abalada.

 

Levantei-me, desaparecida a capacidade para me manter imóvel e servi-me de um pouco de água. Quando estava inclinada, de jarro na mão, algo caiu na taça com um pequeno plof. Era o amuleto de bronze que tinha no pescoço, o que a minha avó me tinha dado. Usa-o sempre. Nunca o tires, compreendes? Ele proteger-te-á. Pesquei-o do fundo da taça e sequei-o na saia do meu vestido. O cordão onde estivera seguro estava gasto. Teria de arranjar outro. Meti cuidadosamente o pequeno talismã na arca de madeira que trouxera comigo de Sevenwaters, bem no fundo, onde estaria seguro.

 

Uma das raparigas devia ter um pedaço de guita, ou uma fita, para eu o prender de novo ao pescoço.

 

Talvez a água me tivesse acalmado. Senti a cabeça mais límpida. E o Sol estava a atravessar as nuvens no lado de fora da minha janela. O quarto parecia mais iluminado. Espreguicei-me e pus-me de novo à lareira. Entrelacei as mãos no colo e fechei os olhos. Desta vez usaria o olho da mente para imaginar o meu lugar secreto, o lugar do meu coração. Uma pequena gruta, quase subterrânea. A luz suavemente cinzento-azulada, como se esta e a sombra fossem uma só coisa naquele pequeno espaço misterioso. O único som provinha do vaivém das pequenas ondas numa praia de areia branca a dois passos de distância. Um lugar onde a terra, o mar e o céu se encontravam e tocavam de uma maneira maravilhosa e doce. A minha mente estava calma. O meu coração batia regularmente.

 

Uma espécie de paz entrou no meu espírito. Sutilmente, comecei a caminhar na direção do reino para além do pensamento, que é o reino da luz.

 

Algum tempo depois ouvi baterem à porta e, de novo, vozes.

 

— Fainne! Estás acordada?

 

Desta vez era Clodagh. Mudara de idéias e decidira perturbar-me. Mas as suas palavras passaram por mim sem qualquer significado. Continuei imóvel; estava demasiado longe para regressar assim tão facilmente.

 

— Fainne! — o tom era insistente. E então ouviu-se uma outra voz, uma voz de homem.

 

— Pensei que te tinham dito para deixares a tua prima em paz, hoje.

— Sim, tio, mas...

 

— A tua mãe não te ensinou a obedecer a uma ordem? — Um pequeno silêncio.

 

— Ensinou, tio Eamonn.

 

— Nesse caso, ela ficaria muito zangada se soubesse que preferiste ignorar os seus ensinamentos, agora que estás longe de casa.

 

— Sim, mas...

 

— Ouve o que te digo, Clodagh. A tua prima está cansada, talvez, até, nem esteja bem. Devias respeitar o desejo dela. Eu trouxe-a para aqui para descansar, não para ser constantemente incomodada. Vai fazer outra coisa qualquer. Tu e as tuas irmãs.

 

Seguiu-se uma espécie de pausa revoltosa. Então, três ou quatro vozes fininhas murmuram:

— Sim, tio Eamonn. — Som de passos a afastarem-se e depois o silêncio. Ouvi aquilo tudo, se bem que estivesse no meu lugar secreto, no meu paraíso. Algures, nas profundezas da minha mente, veio-me o pensamento: Chegou a hora de as levar para casa. Para Sevenwaters. Para a floresta.

 

Ao crepúsculo já eu tinha completado a minha meditação e regressara ao presente e ao meu quarto. Sentia-me cansada, mas diferente. Senti que seria capaz de dormir sem pesadelos. A minha mente estava calma. Depois do jejum e do silêncio, o meu corpo parecia, de certo modo, mais limpo. Sentia-me mais perto de mim própria, da rapariga de Kerry, da rapariga que me parecera perdida. Talvez, no fim de contas, tivesse estado presente o tempo todo, essa rapariga que era capaz de tomar decisões e de ver o futuro e que sabia quando começar e quando parar. Talvez só tivesse precisado do silêncio para a encontrar.

 

Não desci para jantar. Queria manter aquele sentimento. Queria que se mantivesse profundamente dentro de mim, para ter coragem de enfrentar tudo de novo.

 

Especialmente para que pudesse encontrar-me de novo com Eamonn, agradecer-lhe polidamente a hospitalidade e dizer-lhe que queria levar as raparigas para casa imediatamente. Tinha acabado tudo, antes mesmo de ter começado. Um erro de ambas as partes. Um equívoco.

 

Deitei-me na cama, tapei-me com o cobertor e ensaiei o discurso mentalmente. Era importante que o dissesse como deve ser. Eamonn era um homem poderoso apesar de todos os seus defeitos e eu não queria ofendê-lo. Mas tínhamos de ir embora. Para mim, era agora claro. Não era capaz, simplesmente, de fazer o que a minha avó queria. Eu não era o que ela pensava. Não podia ser como ela. Mesmo que fizesse o que ameaçara fazer, ferir o meu pai, não conseguiria fazê-lo. Se os Anciãos estavam certos, não se tratava apenas de ganhar ou perder uma batalha. Era muito mais do que isso. Era a diferença entre um possível futuro e futuro nenhum. Era evidente que tais acontecimentos se desenrolariam independentemente do que eu pudesse fazer.

 

Teria de o dizer à minha avó. Teria de recusar fazer o que ela queria e sofrer as conseqüências. Talvez pedisse ajuda a Conor. Talvez lhe contasse a verdade e me entregasse à sua mercê.

 

Sentia-me sonolenta. O fogo brilhava, dourado e a vela ardia firmemente na sua prateleira. As pessoas da casa deviam estar a jantar, as crianças no seu quarto, talvez discutindo se me deviam ter acordado ou não por uma qualquer razão trivial. Os homens e as mulheres no calor da cozinha. O senhor do Túath sentado sozinho à sua bela mesa. Fiz um esforço para não sentir pena dele. Ele era o culpado da sua solidão. Ele é que a escolhera.

 

Quente e descontraída, deslizei para o sono. Perguntei a mim própria o que quereriam as raparigas. Não tinham regressado depois de Eamonn lhes ter ordenado que se fossem dali embora. Provavelmente algum pequeno drama, um dedo cortado ou um gato perdido. Havia ali muita gente para as ajudar. Não percebia porque vinham sempre ter comigo. Agora ia dormir e teria sonhos maravilhosos acerca do mar e do céu, dos velhos amigos e dos tempos da inocência. De manhã recomeçaria tudo com toda a coragem de que era capaz.

 

— Fainne.

A princípio recusei acreditar. Fechei os olhos com força, como que para negar a voz familiar que estava a ouvir ali mesmo ao lado da minha cama, à luz da lareira.

 

— Fainne! Levanta-te!

 

Ela estava ali. Não apenas a sua imagem nas brasas escaldantes, não apenas o gentil murmúrio da sua voz na minha mente, mas ela mesma, a minha avó, ali comigo, no interior do meu quarto escuro e fechado à chave. Gelada devido ao choque, virei a cabeça e deixei que os meus olhos se certificassem do que o meu coração, aos pulos, já sabia que era verdade. Ali estava ela, a menos de dois passos de mim, na sua forma de anciã, os cabelos desgrenhados, o vestido esfarrapado, os dedos parecidos com garras e o olhar sinistro. A sua voz vibrava de fúria.

 

— Levanta-te! Vamos! Coloca-te diante de mim e presta-me contas, pequena!

 

Fiz como ela me ordenou, tremendo dentro da minha camisa de noite. Os meus sentimentos de paz e confiança desvaneceram-se quando reconheci a sua voz.

 

— C... como é que entrou aqui? — murmurei.

— Achas que não tenho o poder de me transportar de um lado para o outro? — Perguntou ela rispidamente. — Subestimas-me, pequena. Nunca conseguirás escapar à minha vigilância. Não penses que me enganas. Onde está o amuleto? Que lhe fizeste?

 

Subitamente, fiquei gelada de pavor. O amuleto; um feitiço de proteção, dissera-me ela e eu, louca, tinha acreditado. No momento em que o tirara voltara a ser eu própria. E agora ali estava ela, lívida de fúria, tão cheia de magia destrutiva que até as pontas dos seus dedos estalavam. Escolhi as palavras com cuidado.

 

— O cordão partiu-se. Guardei-o para não o perder. Amanhã arranjo outro cordão e ponho-o de novo ao pescoço. Não me esqueci do que me disse para fazer.

 

— Mostra-mo.

 

Fui até à arca de madeira, abri-a e comecei metodicamente a tirar as minhas roupas dobradas, a minha escova de cabelo e outras pequenas coisas. As minhas mãos tremiam. Mesmo no fundo estava o amuleto e quando peguei nele encontrei outra coisa; um pequeno objeto há muito esquecido, deixado ali ao longo dos anos, talvez esperando aquele momento. Senti um baque no coração. És capaz de te esquecer, disse uma voz na minha memória.

 

— Então? Tem-lo? Mostra-mo!

Estendi a mão com o amuleto de bronze na palma. Ela fungou.

 

— Muito bem. Amanhã. Sem falta. Atreve-te a tirá-lo outra vez e colocar-te-ás, e aos nossos esforços, em grande risco. Tira-o e perderás a tua última proteção contra esta gente. Olha que eles são fortes. Compreendes, Fainne?

 

— Sim avó. — Compreendia muito bem, se bem que um pouco tarde. Se não usasse aquele pequeno talismã, o seu pequeno feitiço para me obrigar a fazer o que ela queria, viria rapidamente ter comigo, pronta para me punir a mim e ao meu pai. Aquilo não era nenhum amuleto de proteção, antes um aparelho para distorcer a mente, um feitiço para me controlar. Não admira que sentisse, por vezes, que os meus pensamentos não me pertenciam. Não admira que me tivesse odiado a mim mesma.

 

— Ora bem, Fainne. Pergunto a mim própria se te terás esquecido porque estás aqui.

 

— Não, avó. Mas...

 

— Mas? — O tom de ameaça naquela simples palavra quase me gelou. Respirei fundo, outra vez, e disse para mim própria: Filha do Fogo. Procura a tua força, Filha do Fogo.

— Creio que não sou capaz de fazer o que pretende, avó. Tenho... tenho...

 

Nesse preciso momento senti uma dor, como se fosse um dardo, na minha têmpora direita, uma dor que me fez cair de joelhos e me deixou no chão a vomitar com o sabor amargo da bílis a escorrer-me pelo queixo, já que o meu estômago estava vazio devido ao dia de jejum.

 

— Eu... eu...

 

— O que é que ias dizer, Fainne? — perguntou ela suavemente.

 

— Eu... pelo menos ouça-me. Pelo menos, pode deixar-me acabar antes de me castigar pelas minhas palavras.

 

— Deixar-te, pelo menos, acabar? Oh, minha querida. Quando é que percebes que posso fazer tudo o que me apetece? Tudo, pequena!

 

— Tudo menos praticar alta magia? — murmurei. — Tudo menos restringir a atividade do meu pai? Isso não é tudo.

— Como te atreves? Como te atreves a desafiar-me? Como te atreves a responder-me dessa maneira?

 

Outra dor excruciante, desta vez do lado esquerdo. Rastejei a seus pés com a cabeça entre as mãos e o mundo a girar descontroladamente em frente dos meus olhos cerrados.

 

— Está enganada. — A minha voz era apenas um pequeno murmúrio; mas o meu pai ensinara-me bem. Através da agonia que me perfurava o cérebro, consegui encontrar as palavras. — Aquilo que quer. A floresta. As Ilhas. Está completamente enganada. A batalha tem de ser ganha, não perdida. As Ilhas têm de ser salvas, não desperdiçadas. Sem elas, nenhum de nós sobreviverá. Não posso fazer isto, avó. Nem por si, nem pelo meu pai, nem por ninguém.

 

— Levanta-te.

 

Pensei que as pernas não agüentariam comigo. A dor estava a passar lentamente, mas o meu corpo estava encharcado de suor e tinha contrações no estômago. Lutei para me pôr de pé, cambaleando.

 

— Olha para mim, Fainne.

Fiz um esforço para olhar para ela. Os seus olhos brilhavam, escuros; ela olhava para mim como se quisesse ler os segredos mais profundos do meu coração.

 

— Eles disseram-te isso. Falaste com eles. Quem foi? A dama da capa azul e voz de mel? Aquele que paira na orla da Visão, esquivo, entre a Luz e a escuridão? A donzela toda caracóis e vestidos sussurrantes, ou o senhor de chamas nos cabelos com as suas maneiras imperiais e joguinhos mentais? Quem foi? Não acredites neles. Eles são os inimigos da nossa espécie. A nossa demanda consiste em contrariar os seus objetivos, não em ajudá-los.

 

— Creio que está enganada. E não posso fazê-lo. Arranje outra ferramenta. Já que tem tanto poder, que até consegue estar aqui neste instante, porque não leva a cabo a tarefa? Ao pé de si, eu não sou nada. Não está contente comigo. Tornou isso muito claro. Leve a cabo o seu ato de destruição. Procure a sua própria vingança.

 

Ela olhou para mim sinistramente, de sobrancelhas erguidas em sinal de desprezo.

 

— Por vezes, és muito estúpida, Fainne. Há uma maneira certa de isto acontecer e uma maneira errada. A coisa tem de desenrolar-se de acordo com a profecia até ao fim. Por que razão pensas que não te disse para matares os seus chefes, ou vender os seus segredos ao inimigo? Por que achas que te deixei tanto tempo com os teus próprios expedientes? Quero que te insinues, que te intrometas nas suas vidas e nos seus corações, pequena. Quero que eles confiem em ti. Quero que te amem. Então, no fim, apareces. Apareces, sorrindo e desferes o golpe mortal. Tu foste feita para esta tarefa, Fainne. É só tua, tua unicamente.

— Não faço. Castigue-me como quiser. Não posso continuar a magoar inocentes, a abusar da minha arte e a fazer disparates sem pensar nas conseqüências. Nem que acreditasse no objetivo a atingir.

 

Silêncio carregado. Continuei a respirar controladamente, pensando onde seria atingida pelo golpe de agonia seguinte.

 

— Não te estás a esquecer de nada? — a minha avó disse em tom sedoso, apontando para as brasas brilhantes da lareira. Virei-me. Enquanto olhava, as chamas subiram por si próprias, torcendo-se e vacilando até formarem uma imagem. A imagem do meu pai, sozinho no seu gabinete. À sua volta, em vez das prateleiras arrumadas, das filas ordenadas de garrafas e jarros, dos rolos de manuscrito cuidadosamente armazenados, havia um caos total, como se cada acessório, cada talismã, cada formulário de feitiçaria, cada ingrediente secreto tivesse sido tirado do seu lugar por um violento ato do destino. O meu pai rastejava pelo chão, o peito arfante, a boca aberta procurando respirar. As suas roupas estavam em farrapos. Parecia um esqueleto, uma frágil coleção de ossos que parecia unida apenas pela pele pálida e esticada. Ele olhou para mim com os mesmos olhos intensos e escuros da minha avó.

 

Virei-me com o coração a bater com força. Apelei a todas as minhas forças, mas a minha voz continuava trêmula.

 

— Eu conheço o meu pai — disse eu. — É terrível ver isto, se é, na verdade, uma visão autêntica. Mas o meu pai busca o caminho da Luz, se bem que lhe esteja vedado. Preferia sofrer e morrer do que ver perecer pessoas inocentes e coisas destruídas só porque eu o quero proteger. Eu conheço o meu pai. Conheço-o melhor do que a avó, porque sou a sua única filha.

Então, senti a dor de novo, no pé, desta vez, torcendo-se e ardendo de febre, como se os ossos tivessem sido agarrados e torcidos por um punho de ferro. Deixei escapar um grito de terror.

 

— Nunca gostaste desse pé, pois não? — observou a minha avó num tom amável. — Sempre desejaste ser uma beleza. Quem te pode culpar? Não percebo porque não usas mais o Encantamento. Enfim, estás aqui, em casa de um homem influente ainda solteiro. Que presa. Pensa, Fainne. Uma vez Sevenwaters derrotada, este tipo pode ficar com tudo. Os três domínios num só. O teu filho herdaria tudo. O neto de Ciarán. Um da nossa espécie. Seria o maior possuidor de terras de todo o Ulster. E tu serias a mãe dele. Com um poder assim, quem precisa de beleza?

 

Senti outra excruciante onda de dor no meu pé e cerrei os dentes com força para não gritar. A dor cessou.

 

— Estás a ver? — disse ela calmamente. — Olha para o pé.

 

Olhei para baixo e senti o sangue fugir-me do rosto. Onde antes estivera o meu pé direito, aquele cuja forma era ligeiramente diferente, um pouco curvo, um tudo nada inclinado para dentro, estava agora uma pata horrível igual à de um monstro de uma velha história, a imitação grotesca de um pé peludo, inchado, com dedos bulbosos e garras amarelas, retorcidas, grandes como cornos.

— Posso fazer mais — disse ela. — Muito mais. As mãos. O rosto. O próprio corpo. Passo a passo. Os homens fugiriam aos gritos. Nunca mais te atreverias a pôr os pés na rua. Ainda me queres desafiar?

 

A minha avó sentou-se, sorrindo, como que por acaso, na borda da cama. Olhei para a monstruosidade que tinha no lugar do meu pé. Chamei um feitiço para mudar aquilo. Murmurei as palavras.

 

— Oh não — disse a minha avó em voz baixa. — Não é tão fácil como isso. E antes que eu pudesse acabar o encantamento, o contrafeitiço já estava em ação e a minha pata peluda continuou como estava.

 

— Muito bem — disse eu com as lágrimas a correrem-me pela cara abaixo. Talvez consiga fazer pior ainda. Talvez eu me transforme num monstro. Então, farei como a minha mãe e acabarei com tudo. Corto os pulsos. Atiro-me da torre de Sevenwaters. Vou até ao lago e entro nele até que a água me cubra a cabeça. E depois?

 

— Rapariga miserável. O teu pai vai responder por isto. Toma lá. — A minha avó estalou os dedos e o meu pé regressou à sua forma primitiva.

 

Prendi a respiração e reprimi o abjeto agradecimento que me veio aos lábios. Não lhe ia dar a saber quão perto estivera de desistir quando vi o que ela era capaz de me fazer.

 

— Senta-te, pequena. Enrola-te neste cobertor. Está frio. Estou a ver que tens algumas coisas bem bonitas na tua arca. Uma série de vestidos bem bonitos. Isso é um alívio. Não podes cortejar um homem rico vestida como a mulher esfarrapada de um pescador. E que xale maravilhoso, todo colorido. Vem do mercado dos latoeiros, não vem?

 

— É uma porcaria. — Com um grande esforço, mantive o rosto e a voz impassíveis. Sabia onde ela queria chegar. — Pode ficar com ele, se quiser — acrescentei. — Não representa nada para mim.

 

— Não? Mas é muito barato e muito vistoso para o meu gosto, Fainne; a espécie de coisinha que um viajante daria à sua namorada. Não seria capaz de usar esta coisa tão garrida.

 

— Foi tolice da minha parte sugerir que ficasse com ele — disse eu levantando-me e começando a meter de novo as minhas coisas na arca.

 

Por trás de mim, a minha avó falou de novo.

 

— Portanto, deixas que o teu pai sofra e morra. Não te importas de te transformar num monstro. Não te preocupas com o teu futuro. Isso surpreende-me, devo admitir. Não és a rapariga que eu pensava que eras. Mas não me desafies, Fainne.

 

— Não sei o que quer dizer. Não me pode obrigar a fazer o que quer. Não me pode forçar.

 

— Achas que não? E se visses todos aqueles que amas, todos aqueles com que te preocupas, abatidos um a um? E se assistisses à destruição lenta de tudo o que te é querido? Se assistisses a isso sabendo que podes impedi-lo? Que aconteceria, então? Não farias nada para os proteger?

 

— Não sei o quer dizer — disse eu respirando com dificuldade, mas já um terror profundo se espalhava pelo meu corpo à medida que eu me apercebia do significado das suas palavras. — Eu não tenho ninguém. Não me importo com ninguém senão com o meu pai. E já lhe disse, sei muito bem o que ele pensaria disto.

 

— Oh, não tenhas dúvidas, ele vai continuar a sofrer. Quanto aos outros, não acredito em ti. Tenho-te observado de vez em quando. Vi um certo olhar nos teus olhos. Vi-te a brincar com as crianças, aconchegando-as na cama, fingindo-te aborrecida com as suas impertinências. Vejo como as tuas mãos lidam com essas tuas coisas, como se as recordações fossem demasiado preciosas para mexer nelas de qualquer maneira. Não duvides, Fainne. Verás tudo, passo a passo, de modo agonizante. Uma queda infeliz de um cavalo. Uma jovem desgraçada pela companhia errada. Um assado comido à beira da estrada com uma má escolha de cogumelos. Um incidente infeliz com um anzol. Tudo acidentes. Quanto a ti, talvez venhas a ser a única a não sofrer nada. O teu trabalho será ver como eles sofrem à tua volta. Ver, sabendo que podias ter evitado tudo. Sabendo que, sem a tua desobediência, nada teria acontecido.

— Pare! Pare! Como é que sabe que isso é verdade? Pode estar a mentir-me. O meu pai pode, até, nem sequer estar doente. Posso muito bem desafiá-la e não acontecer nada!

 

— Achas? — Ela olhou para o meu pé. — Se quiseres experimentar, não te posso impedir, minha querida. Mas o risco é teu. E tens razão, não podes saber se o teu pai sofre. Não enquanto não regressares a Kerry. E, se regressares, asseguro-te de que os seus ossos estarão na areia, branqueando ao sol, antes de chegares à tua pequena enseada. É claro que podes sempre mandar um latoreirozinho com uma mensagem. — A minha avó olhou para a arca de madeira, onde o xale estava desdobrado. — Podes sempre fazer isso. Mas, quem sabe se ele chegaria lá são e salvo com as estradas perigosas como estão? Poderia muito bem ser assassinado, por exemplo, por causa dos seus pequenos haveres antes de atingir o fim da jornada.

 

— Pare! Que maldade!

 

— Ah! Maldade? Tens muito que aprender. Entre o Bem e o Mal, a sombra e a Luz, há apenas um cabelo a separá-los. No fim, é tudo o mesmo. Diz-me. Diz-me tudo o que fizeste desde que aqui chegaste. Todos os pormenores.

 

— Não me tem estado a observar o tempo todo? Não sabe tudo?

Ela deu uma risada.

 

— Não, não sei. Vejo apenas fragmentos. Um bocadinho aqui, um pouco mais além. Peças de um quebra-cabeças. Um quebra-cabeças que me preocupa. É por isso que estou aqui. E agora conta-me. Depois, veremos o que se segue. Tens andado a perder tempo. Mas isso acabou, ouviste?

 

— Sim, avó.

 

Contei-lhe. Com o coração apertado de angústia e a cabeça cheia de lágrimas por derramar, contei-lhe tudo. Tinha de o fazer, porque a culpa era minha. Permitira que aquela gente entrasse no meu coração. Permitira-lhes que me encantassem e eu começara a ser um deles. E agora não podia ficar de lado a ver Sibeal, ou Clodagh, ou as outras a serem magoadas. Não podia ficar de lado vendo a tia Aislimg perder outra filha. Especialmente, não podia permitir que a minha avó se interessasse mais pela família de Dan Walker, estivessem onde estivessem. Estendera-me uma armadilha e eu caíra nela.

 

Por fim, estava tudo contado. A história do incêndio, se bem que tenha deixado de fora o que sentia acerca do meu passeio na floresta com Conor e o que sentira na celebração de Sambain. A história acerca do que dissera a Eamonn, a minha vinda para Glencarnagh e como as coisas tinham acontecido entre nós. Não falei dos Anciãos e o menos possível das crianças. Em especial não mencionei Sibeal e os seus estranhos olhos límpidos, de vidente.

 

— Hum — disse a minha avó quando eu acabei. — Tens de usar esse homem, Eamonn, isso é evidente. Tens e usarás. Eu conheci o pai dele. Este é igual. Um homem muito poderoso, Fainne. E perigoso. Um homem sem honra. Um homem que não hesitará em apunhalar o irmão pelas costas se isso servir os seus interesses. Um homem que nunca esquece nada.

 

— De certeza que está enganada. — Estranho como era, era difícil acreditar que Eamonn fosse tão convencional. Não me dissera ele que nunca violava as regras?

 

— Não acredites nisso. Ele é a resposta para os teus problemas. Usa o seu ódio. Usa o seu desejo. Faz com que te queira de maneira a prometer-te tudo o que lhe pedires.

 

— Isso é ridículo. — Eamonn pode ter as mulheres que quiser. O interesse dele por mim foi momentâneo. Ele não se quer casar comigo. Tenho a certeza.

 

— Então, tens de o fazer mudar de idéias. Assume o controle. Usa a arte. Faz com que ele arda de desejo por ti.

 

— N... não posso. Tenho vergonha e rebaixo-o. N... não é justo.

 

— Justo? Justo, diz ela? — A minha avó deu outra risada carcarejante. Pensei quanto tempo demoraria até alguém a ouvir e bater à porta para perguntar se estava tudo bem. — Esquece o que é justo. Esquece a honra. Isso são conceitos sem qualquer significado. Só uma coisa que interessa aqui, Fainne. O poder. O teu poder sobre esse homem. O seu poder para quebrar a aliança. O nosso poder para derrotar os Fair Folk. Poder e vingança. O resto não interessa.

 

— Sim, avó.

 

— E agora conta-me outra vez. Conta-me o que ele disse acerca da tua tia Liadan. E conta-me o que ele disse acerca do marido dela.

 

— Não preciso de repetir. Sei o que tenho de fazer.

 

— Ah! Tu? Custa-me a acreditar pelo que fizeste até agora.

 

— Eu sei o que tenho de fazer — repeti azedamente. — Faria melhor se me deixasse sozinha para continuar.

 

— O quê? Continuar o quê?

E contei-lhe tudo, passo a passo: um plano baseado no ciúme e na obsessão, que usava subterfúgios e traições para conseguir o objetivo final. Mal acreditava que iria para a frente com ele. Mas parecia não haver outra saída. Quando acabei, a minha avó sorriu com os seus dentinhos aguçados na boca envelhecida pela idade.

 

— Muito bem — disse ela. — Muito bem, Fainne. Talvez, no fim de contas, te tenhas transformado em alguém apesar do teu aspecto pouco atraente.

 

— Avó, pode acreditar que vou até ao fim com isto. Não haverá necessidade de vir aqui outra vez. Se vier, posso ter dificuldade em manter a confiança deles.

 

Ela tremeu de alegria.

 

— Agora dás-me ordens? Venho se quiser, pequena.

 

— Não está a ouvir. Dou-lhe a minha palavra. Farei como quer, desde que... desde que não...

 

— Magoe os que amas? Oh minha querida, o amor é uma coisa tão confusa para uma rapariga, não é? Passaríamos todas muito bem sem ele. Quanto mais depressa te aperceberes disso mais fácil a vida te parecerá. Nunca escolhas um homem por amor. Não há futuro nisso.

— Concorda? Acredita que levarei isto até ao fim por si?

 

— Acreditar? Ah! Preciso de uma garantia. E grava as minhas palavras na tua cabecinha: Se não conseguires que esse teu plano funcione, terás de tomar medidas mais drásticas. Dar-te-ei um pouco de tempo extra, apenas o suficiente. Mas quero ver progressos, Fainne. Quero resultados. Tens razão, não venho para estas bandas de bom grado. Usa o amuleto. Saberei se estás em segurança. Não o tires. Nunca, compreendes?

 

Ela estava a olhar outra vez para mim intensamente, como se quisesse ler-me a mente. Graças à grande deusa, nunca aperfeiçoara a arte de ler os pensamentos, de falar sem palavras. E ela só me consegue ver se eu o usar. Doce Brighid, era verdade. Tinha sido estúpida. Mesmo cega.

 

— Sim, avó. Amanhã arranjo um cordão forte e volto a pôr o talismã ao pescoço. Prometo.

 

— Espero que não me estejas a mentir. Saberei se não cumprires a promessa. E haverá outros a sofrer.

 

Mordi os lábios e abstive-me de responder.

— Muito bem — disse ela expansivamente. — Uma visita tão agradável. Toma cuidado para que dê tudo certo, Fainne. Não me assustes outra vez. Atreve-te a deixar-me ficar mal e verás como posso ser criativa, prometo-te. Faz as coisas como deve ser e talvez não me vejas de novo durante muito tempo.

 

— Sim, avó.

 

— Então adeus.

 

Observei enquanto ela se desvanecia lentamente à luz fraca da lareira e da vela solitária. Fiquei a olhar até todos os traços daquela velha desgrenhada e odiosa terem desaparecido. Mesmo depois, passei a mão pelo ar uma, duas, três vezes antes de me dar por satisfeita e de que não havia ali nada. Lá fora estava escuro. O jantar já devia ter acabado e as raparigas deviam estar a preparar-se para irem para a cama. Eamonn devia estar sentado, sozinho, em frente da lareira do salão com um jarro de vinho por companhia. Talvez devesse começar esta noite mesmo. O meu coração fraquejou.

 

Por que acreditara que tinha força suficiente para a desafiar? Por que me permitira pensar que poderia escolher o meu caminho, que poderia ir na direção da Luz em vez de na da escuridão? Não havia escolha para mim, nunca haveria.

E o amuleto. Que tola fora para não reconhecer aquilo como um feitiço de feiticeira!

 

Usa sempre isto. Proteger-te-á. Um aparelho para distorcer a mente, o mais poderoso dos instrumentos de controle; através dele podia ver-me e dobrar-me à sua vontade. Eu lera, em tempos, acerca daquele feitiço, nas páginas poeirentas de um velho livro. Enquanto o usasse, ela poderia sempre encontrar-me. No momento em que o tirei ela soube; soube e veio ter comigo a toda a velocidade, furiosa e... e também algo mais. Quase assustada. Como se uma Fainne fora de controlo fosse infinitamente mais perigosa para ela do que todos os Fair Folk do mundo. Mas talvez não fosse assim. Como feiticeira semitreinada que era, mal sabia os ramos mais desafiadores da arte, impedida pela minha juventude e inexperiência. Pelo contrário, a minha avó era uma mestra, mais poderosa até do que o meu pai, porque não o adoecera ela fatalmente com o seu feitiço? Devia estar enganada. Olhei de relance para a arca de madeira. O amuleto estava lá. Pô-lo-ia de novo ao pescoço no dia seguinte. Tinha de manter a minha palavra. Era a única maneira. Protegê-los-ia, ao meu pai, às raparigas, à família e... e a todos os que me eram próximos. Não podia permitir que ela os destruísse um a um.

 

Ouvi as pessoas a deslocarem-se no átrio. Não era assim tão tarde. A minha avó viera e desaparecera entre o começo do jantar e o apagar das últimas velas. Tinha de ir falar com Eamonn enquanto tinha coragem. Tremendo de frio, despi rapidamente a camisa de noite e vesti um vestido lavado. Atei os cabelos na nuca com uma fita.

 

Calcei os chinelos e disse a mim própria que nunca mais me voltaria a queixar do meu pé defeituoso. Lavei a cara com água tirada do jarro enquanto sentia o bater do meu coração e as garras do medo em todo o meu corpo. Essa sensação só desapareceria quando a tarefa de que ela me incumbira acabasse. Depois disso, nada mais teria importância.

 

Abri a porta cautelosamente, esperando poder deslizar pelo átrio sem que ninguém me visse. Dei um passo e parei. Sibeal estava sentada no chão da passagem, envolta numa capa para resistir ao frio. Estava tão quieta que eu mal a vi ali na sombra. Não falou, olhando antes para mim e a chama da minha vela tremeluziu, pequena mas segura, na superfície límpida como a água dos seus estranhos olhos. A pequenita levantou-se em silêncio total. Quando abri a porta por completo, ela aproximou-se como um pequeno fantasma, passou por mim e entrou no quarto. Fechei a porta atrás de nós.

 

Por um momento, ela não disse nada.

 

— O que é, Sibeal? Por que estavas ali à espera?

 

— As minhas irmãs disseram-me para não te dizer. Disseram que já era muito tarde.

 

— O quê? Dizer-me o quê? — Haveria uma coisa ainda pior para me acontecer naquele dia? A minha mente percorreu as possibilidades. Notícias de Sevenwaters. Maeve.

 

— Notícias de mais longe. O meu pai.

 

— O que é? Diz-me!

A criança olhou para mim com ar sério.

 

— Nós tentamos dizer-te. Mas tu não respondeste. E então apareceu o tio Eamonn e mandou-nos embora.

 

Agarrei-a pelos braços e abanei-a ligeiramente.

 

— Diz-me! — disse eu através dos dentes cerrados.

 

— Não é preciso magoares-me. Não precisas de te zangar. — Recordei a mim própria que ela tinha apenas oito anos e que tinha estado à espera, silenciosa, na escuridão, até que eu estivesse pronta para sair.

 

— Desculpa. Eu... eu estou preocupada, mais nada. As notícias são más?

 

— Não. É que aquele pônei esteve aqui. O das tuas histórias. Pensamos que gostarias de saber. Pensamos que gostarias de o ver. Mas agora é tarde.

Se sentira medo antes, não fora nada comparado com a angústia que me atingiu o coração.

 

— Que pônei? — murmurei, como se não soubesse a resposta.

 

— O pônei branco. Tu sabes, aquele das tuas histórias todas. Ele deixou-nos fazer-lhe festas e a Eilis até lhe deu uma cenoura.

 

— Ele? — perguntei a custo.

 

— O homem. O homem das histórias, aquele que tem um anel de ouro na orelha. Ele perguntou por ti.

 

— Darragh? Darragh esteve cá hoje? — A minha voz tremia. Ele estivera ali, a minha avó estivera ali e ela dissera... ela dissera: Podias mandar uma mensagem por um latoeirozinho. Ela dissera: Ele pode muito bem ser assassinado no caminho. Talvez não fosse ele disse eu agarrando-me a uma esperança louca. Por que veio ele aqui?

— Ele tem trabalho longe daqui, a quilômetros de Glencarnagh. Talvez fosse outra pessoa qualquer. Onde é que ele está agora, Sibeal? Depressa, diz-me!

 

O tom de Sibeal era solene.

 

— Foi-se embora. Ele e o pônei. O tio Eamonn mandou-o embora. O tio Eamonn estava zangado.

 

— Há quanto tempo? Para onde é que ele foi?

 

— Para longe. Não sei para onde.

 

— Em que direção? Para leste, para Sevenwaters? Para Oeste? Em que direção? Há quanto tempo, Sibeal?

 

— O que é que se passa, Fainne? — Os seus olhos estavam abertos, interrogativos, quase assustados.

— Desculpa, desculpa. Tudo bem. Fizeste bem em esperar por mim para me dizeres. É que eu... eu...

 

— Tens pena de não o teres visto? Pensamos que tinhas. Por isso é que eu tentei dizer-te antes. Mas não respondeste quando bati à porta.

 

— Desculpa — disse eu de novo. Tinha mais pena do que ela imaginava. Era muito estranho ele ter aparecido em Glencarnagh. Quem saberia por que razão viera ele?

 

Era muito cruel da minha parte não ter aparecido para lhe falar. Mas era melhor assim. Ele tinha-se ido embora e eu nunca mais o veria o que significava que estava a salvo da minha avó. Talvez tivesse aparecido para visitar a sua velha tia Janis.

 

Talvez fosse isso. Em qualquer dos casos, assim era melhor. Muito melhor. Por que razão, então sentia eu uma dor tão grande que quase me despedaçava o coração?

 

— Desculpa, Fainne — disse Sibeal com uma voz baixinha. — Ele foi para Oeste, penso. Antes do pôr do Sol. Disse que tinha de regressar rapidamente. Mas ele queria esperar até tu estares melhor e poderes descer para falar com ele. O tio Eamonn mandou-o embora. O tio Eamonn estava mesmo zangado.

— Eu... ele... Darragh parecia bem? Ele falou contigo? — Ela que me diga tudo, cada palavra, cada gesto. Não que seja suficiente.

 

— Ele deu-me uma mensagem para ti — disse Sibeal solenemente. — Obrigou-me a dizê-la.

 

Esperei.

 

— Ele disse: Diz adeus à Caracóis por mim. Diz-lhe que se mantenha afastada de sarilhos até eu voltar. Ele queria que eu dissesse exatamente isto.

 

— Mas ele não pode voltar! — A minha voz tremeu, ao mesmo tempo que o medo me fez enovelar as entranhas. — Não pode! Não posso permitir que volte!

 

— O que é que se passa, Fainne? — Os olhos límpidos de Sibeal perscrutaram-me com uma expressão ansiosa.

 

— Nada — murmurei. — Nada. Está tudo bem, Sibeal. Fizeste bem, muito bem. Fico em dívida para contigo. Agora, vai para a cama, que estás gelada. Toca a andar, vai para o pé das tuas irmãs. E... Sibeal?

 

Ela virou para mim o seu rosto pequeno e pálido.

 

— Não fales nisto. Por favor. Não gosto de te pedir que guardes segredo. Mas não fales nisto ao teu tio, ou às tuas irmãs. É muito importante.

 

Ela acenou com a cabeça e saiu silenciosamente pela porta.

 

Tinha uma noite. Apenas uma noite antes de pôr de novo o talismã ao pescoço e voltar a ser uma criatura da minha avó. Darragh viera e eu não estivera com ele.

 

Darragh dissera que voltaria. Mas não pode voltar. Tinha até ao amanhecer para o encontrar e dizer-lho. Depois disso, não poderia esconder mais segredos à minha avó. Depois disso, deixaria de ser possível ter amigos.

 

Um bom pônei é capaz de percorrer uma grande distância do nascer do Sol até à hora de deitar. Através de campo aberto, quando o seu cavaleiro está com pressa, pode percorrer muitos quilômetros. Para lá das fronteiras de Glencarnagh, Aoife poderia estar ainda a cavalgar para Oeste, para as costas áridas de Ceann Na Mara. Uma coisa eu sabia. Não podia pedir ajuda a Eamonn. Um homem que fica com o que é meu é pago na mesma moeda, dissera ele. Ouvi a vozinha séria de Sibeal. O tio Eamonn ficou muito zangado. Não podia atravessar o átrio e pedir delicadamente um cavalo emprestado e dois homens com archotes. Tinha de fazer a jornada sozinha, sem ser vista e regressar ao meu quarto antes de amanhecer. Tinha de percorrer aqueles quilômetros todos de alguma maneira, tinha de o encontrar. Um grande feiticeiro, como o meu pai, usaria o Encantamento; totalmente, para efetuar uma transformação total. Correria pelos campos afora como um gamo, ou voaria com fortes asas como um mocho, ou outra ave noturna. Eu sabia, teoricamente pelo menos, como isso era feito. Mas o meu pai proibira-me de tentar.

 

Era muito perigoso. Era possível fazer a transformação e não regressar à primeira forma. Podia ficar armadilhada na segunda forma para sempre, ou, desastradamente, ficar entre as duas formas. E esgotaria a arte; exauriria a força. No entanto, o tempo passava e eu estava suficientemente desesperada para tentar. Com o coração a bater e o sangue a correr, pus-me à janela, olhei para a noite e pensei se me atreveria a diminuir a distância que havia entre uma mulher e uma ave, passando de uma criatura humana terrena para um ser alado. E se falhasse e caísse do céu para me esmagar nas pedras? Mas, de que outro modo poderia chegar a tempo?

 

A luz espreitou por entre as nuvens. A brisa fez restolhar as sebes, fazendo agitar os ramos nus dos velhos ulmeiros que abrigavam os canteiros ordenados do jardim e o lago escuro como tinta. Lá fora, perto da sebe, estava um cavalo. A Lua apanhou o cinzento-escuro do seu pêlo, iluminando-o e fazendo-o ficar de uma cor delicada de pérola. Talvez a mão da deusa me tocasse. Movi-me o mais rapidamente que pude. Uma capa escura; as minhas botas na mão, para não fazer barulho. E depois o feitiço. Não para alterar a minha forma, não muito, de qualquer modo. Uma meia mudança: apenas um efeito sombra, para que pudesse passar despercebida se tivesse sorte. Movi os pés silenciosamente ao longo do átrio e passei pelo salão onde Eamonn estava sentado sozinho. Passei pelas cozinhas, escondi-me num pequeno recanto quando os guardas passaram a rir e a brincar a caminho de um jantar tardio e de uma boa caneca de cerveja. Afastei-me antes que o turno seguinte entrasse de serviço. Segui a linha da sebe até onde estava a pequena égua que montara antes e que esperava por mim placidamente, nada espantada por eu aparecer assim mesmo por baixo do seu nariz. Como escapara ela da cavalariça e aparecera ali sem ninguém a ver? Talvez fosse uma criatura do Outro Mundo, porque tinha mais anos do que aqueles que um cavalo vive e continuava inteligente e nervosa. No fim de contas pertencera, em tempos, a Liadan e dizia-se que Liadan possuía alguns poderes para além do normal. De qualquer modo, a égua estava ali e parecia pronta. Mas não resolvia o problema de como montar nela e cavalgar sem sela nem rédeas. Além de que não ajudava nada o fato de eu não saber para onde ir.

 

— Vem — murmurei. — Vem cá. Depressa.

 

A égua estava a afastar-se de mim, descendo ao longo da linha da sebe, misturando-se com as sombras.

 

— Espera. — Corri atrás dela. Junto do muro de pedra que protegia a horta dos porcos, a égua parou.

 

— Ótimo — murmurei. — Ótimo. Tu sabes como se faz, estou a ver. — Saltei para cima do muro e depois para o lombo do animal, onde me empoleirei precariamente sem sela nem cobertor, sem brida nem rédeas para me ajudarem. — Muito bem — disse eu em voz baixa. — Vou precisar de toda a ajuda que puder conseguir. Vais ter de correr muito. E sem fazer barulho. E sem me deitares ao chão. Compreendes? E agora encontra Aoife. Encontra Darragh por mim. — Pus-lhe uma mão no pescoço, desejando que me ouvisse, desejando que se apercebesse do que tinha de ser feito. Uma tolice, na realidade. Não podia esperar sussurrar ao ouvido de um cavalo e ganhar-lhe amizade eterna. Uma criatura selvagem nunca se viraria para mim em busca de amizade. Mas a égua cinzenta levantou a cabeça, espetou as orelhas e afastou-se firmemente em direção a Oeste, passando a sebe, atravessando uma pequena ponte e ultrapassando as aveleiras em direção à noite sombria. Agarrei-lhe na crina com ambas as mãos e apertei os joelhos com força. Não cairia. Não cairia. Iria e regressaria de madrugada. Tinha de o fazer. Quando o encontrasse dir-lhe-ia que devia ir imediatamente para casa de O’Flaherty e que nunca mais se deveria aproximar de mim. Dir-lhe-ia isso, despedir-me-ia e regressaria a Glencarnagh. Era simples, na realidade.

O tempo passou e a égua continuou pela noite dentro, a princípio com firmeza, como se o luar fosse suficiente para lhe mostrar o caminho. Estava frio. Tanto, que tinha cãibras nos dedos. Os pés estavam entorpecidos e as orelhas doíam-me. Tinha arrepios por todo o corpo, como ondas de água gelada numa praia árida.

 

A égua parecia saber para onde ir, pensei eu sinistramente, tentando imaginar quanto tempo duraria antes de os meus pés gelados se recusarem a continuar e eu cair no chão duro. Uma coisa era certa. Se caísse, não teria as forças suficientes para voltar a montar.

 

A princípio, aquele mundo noturno pareceu ser silencioso. Mas à medida que íamos prosseguindo para Oeste, fui ficando cada vez mais consciente de alguns pequenos ruídos. Por cima do som dos passos da égua cinzenta ouvi um restolhar e um estalar, como se as árvores se inclinassem para observar a nossa passagem. Uma vez, pensei ouvir uns uivos distantes, de lobos esfomeados. Disse a mim própria que estava enganada. Algo piou nos escuros ramos por cima da minha cabeça. Um coro de rãs recebeu-nos quando passamos por um pântano escuro, brilhante. Outra vez, ouvi um súbito rufar de asas de pele e uma vibração muito rápida quando um bando de morcegos voou sobre as nossas cabeças na direção de uma qualquer gruta subterrânea. Tinha tanto frio que mal conseguia manter-me acordada apesar da urgência da jornada. Estava tão cansada que pensei em parar para dormir um pouco enrolada nos fetos. Um belo e longo sono. No fim de contas, quem daria pela minha falta?

 

A égua abrandara o passo. A sua cabeça virou-se para um lado e depois para outro.

 

Deu um passo e parou. Deu outro passo e fez uma pausa. Acordei abruptamente, o coração batendo com toda a força, alarmado.

 

— Tu sabes o caminho! — disse-lhe eu rispidamente. — Tens de saber! Vais desistir depois de chegarmos aqui? Não podes seguir o rasto de Aoife como um cão? O que é que se passa contigo?

 

O animal estremeceu, parado ali na noite. Estávamos na orla de um espaço aberto; o luar deixava ver umas colinas suaves, arborizadas.

 

— Anda! — disse eu. — Depressa, antes que gelemos os dois! Não sabes que temos de chegar lá e regressar antes de amanhecer? Anda! Por favor!

 

Espetei-lhe os calcanhares nos flancos e apertei os joelhos. Restava-me tão pouca força que duvido que ela tenha sentido alguma coisa.

 

— Oh, por favor — murmurei na escuridão, mas a égua manteve-se imóvel. A minha mente ponderou, a um nível distante, que explicação daria a Eamonn quando fosse descoberta ali no dia seguinte, meio gelada e com um cavalo que não me pertencia.

 

Talvez morresse de frio. Pelo menos, evitaria muitas desculpas.

Ouvi um pio por cima da minha cabeça e algo escuro passou por mim a voar com um súbito rufar de asas. Pensei sentir uma pequena pena passar-me diante do nariz.

 

Funguei. Ouvi outro pio. O seu tom pareceu-me uma mensagem clara. Anda, estúpida. Não temos a noite toda.

 

A pequena égua avançou. À nossa frente, o mocho voava de um lado para o outro, esperando num ramo baixo, num muro de pedra, no topo de uma rocha. Impaciente.

 

Vamos. Não podes andar mais depressa? A égua começou a andar a trote e depois, quando emergimos para uma espécie de carreiro, começou a galopar. Fui sacudida para cima e para baixo como um saco de grão. Agarrei-me de novo à crina e inclinei-me para a frente, desejando que os meus joelhos se agüentassem. A dor percorria-me as pernas e as costas. Cerrei os dentes com força.

 

O mocho voava à nossa frente e a égua seguia-o. Pensei em Fiacha, o corvo. Era assim que ele voava: umas vezes à frente, outras atrás, uma pausa aqui e ali, dando a impressão de que achava os humanos incríveis e entediantemente lentos, mas que a sua missão era tomar conta deles e pronto. Tentei imaginar onde estaria ele. Estaria na beira de uma falésia por cima do Favo de Mel observando o feiticeiro Ciarán a tossir, a lutar pela vida no meio das ferramentas destruídas da sua antiga arte? Ou fora banido pela minha avó, deixando o meu pai sozinho? Por que razão apareceriam estas criaturas do Outro Mundo para nos guardar e guiar, já que nenhum mocho normal, ou corvo, tinha a inteligência e a vontade suficiente para isso? A ave voava à nossa frente, guiando a minha égua por montes e vales, pelo meio dos pântanos e dos bosques e passando em segurança as fronteiras de Glencarnagh.

 

Por fim, sob umas macieiras nuas, paramos. O mocho ficou por cima de nós, empoleirado num ramo coberto de musgo, a sua silhueta contra a Lua. Vi-o baixar a cabeça, ansiosamente, para ajustar as penas. Eu sentia-me como se tivesse sido agarrada, agitada como um batedor de leite e pousada de novo. Doíam-me os ossos todos.

 

O bosque à nossa volta estava tranqüilo. A égua continuava imóvel. O mocho não emitia som. Esperavam que eu fizesse qualquer coisa. Forcei o meu corpo a mexer-se e quase caí do lombo da égua para o chão. As minhas pernas pareciam de geléia.

 

Consegui ficar de pé agarrando-me à crina do animal. Ela manteve-se firme, imperturbável; um cavalo raro, aquele.

 

Um pouco abaixo de nós havia mais árvores e um curso de água que brilhava sob a luz suave da Lua. Mas havia, também, outra luz, uma luz quente, tremeluzente.

 

Detectei um odor saboroso no ar frio: não era, certamente, o odor de papas de aveia?

 

Então, a égua emitiu um pequeno relincho e da base da colina veio uma resposta, outro relincho suave. Vi uma figura levantar-se junto da fogueira brilhante e virar-se lentamente para mim. Encostando-me pesadamente ao flanco da égua, avancei aos tropeções.

 

Então, as coisas aconteceram rapidamente, sem uma única palavra. O som de passos rápidos e um súbito suster de respiração. Um braço rodeando-me e amparando-me até chegarmos à fogueira. Uma capa sobre os meus ombros, abençoadamente quente.

 

Não me podia sentar, o meu corpo estava demasiado dorido; apareceu um cobertor dobrado, cheirando fortemente a cavalo e eu semideitei-me nele, o mais perto possível do fogo. Ouviu-se um tinir de metal, como se um recipiente estivesse a ser cheio por outro. Em seguida, uma mão meteu-me uma taça com algo quente e a cheirar deliciosamente na mão gelada. Todo o meu corpo tremia e os meus dentes batiam uns nos outros. Não seria capaz de dizer uma única palavra, mesmo que quisesse. Darragh espevitou o fogo, atirando para cima das brasas um ramo ou dois.

 

As chamas crepitaram; o meu rosto começou a aquecer. Bebi um gole da bebida que ele me tinha dado. Era chá, muito quente e muito doce. Nunca provara nada tão bom.

 

Por fim, Darragh instalou-se junto da fogueira e olhou de frente para mim.

 

— Tens ali uma ótima égua — observou. — Estou a ver que aprendeste a montar desde que me deixaste.

Fiquei sem saber o que dizer, por momentos. Era só aquilo que ele tinha para dizer?

 

Mas, pensando bem, era típico.

 

— Pelo que me lembro, tu é que me deixaste — disse eu rispidamente, mas a minha voz saiu trêmula e patética. — Mas sim, sei montar. Um pouco. Mas não interessa. Tenho de regressar antes de amanhecer.

 

Darragh olhou para mim.

 

— Ai sim? — disse ele.

 

— Não precisas de ser assim — retorqui.

 

— Assim como, Fainne?

— Sabes muito bem. Achas que eu sou estúpida por ter vindo. Nem sei porque me preocupo. — O meu corpo foi percorrido por outro arrepio e eu apertei a capa em redor dos ombros.

 

Darragh olhou para mim em silêncio durante alguns momentos. O pequeno brinco de ouro na sua orelha brilhou à luz da fogueira.

 

— Por que vieste? — perguntou ele, por fim.

 

— P... para te dizer. Para te dizer uma coisa importante.

 

Ele agitou a panela por cima do lume. Senti de novo aquele odor saboroso. Peg, Molly e as outras mulheres faziam sempre papas de aveia de manhã. Peg dizia que afastava o frio. Darragh tirou o recipiente do fogo e aproximou-o de mim.

 

— Aqui não há pratos dourados — disse ele. — Nem colheres de prata. Não estou habituado a servir damas, sabes? Mas a comida é boa. Anda lá, Fainne. Tens de comer.

 

— Estou demasiado cansada para comer.

— Toma — disse ele gentilmente e sentou-se a meu lado. — Come e não fales. — Ele mergulhou a colher de osso na panela e eu abri a boca, sentindo-me como um pássaro a ser alimentado no ninho. Teria sido humilhante, mas a expressão preocupada no seu rosto e o extremo cuidado como estava a levar a cabo a sua missão fazia com que parecesse tudo natural. Além disso, as papas estavam deliciosas e eu descobri que estava esfomeada.

 

— Muito bem — dizia Darragh de vez em quando. — Muito bem. Boa menina. — E em pouco tempo as papas desapareceram.

 

— Desculpa — disse eu com a voz já um pouco mais forte. — E o teu pequeno-almoço?

 

Darragh não respondeu. Ele estava sentado junto de mim, olhando para o fogo, de braços cruzados. O silêncio prolongou-se. Por fim, falou com algum acanhamento.

 

— É melhor dizeres-me. É melhor dizeres-me o que se passa.

 

— Diz-me tu primeiro. Por que foste a Glencarnagh. E o que andavas a fazer tão longe de casa em pleno Inverno. Não é suposto estares a trabalhar para O’Flaherty?

— E estou. Vamos para lá agora, Aoife e eu. Ele não me queria deixar ir a Sevenwaters. Tive que pedir a Orla que falasse com ele. Por fim, lá disse que sim, mas eu tive que prometer que regressaria com a Lua nova. Não me resta muito tempo.

 

Fiz os possíveis para compreender o que ele me estava a dizer.

 

— Quem é Orla? — perguntei. Darragh olhou para mim de lado.

 

— A filha de O’Flaherty. A mais nova.

 

— Estou a ver.

 

— Não estás não, Fainne.

 

— Estou sim. Suponho que ela é boa com cavalos, não?

— Muito boa — disse ele, os seus dentes brancos brilhando na escuridão enquanto sorria. — Monta muito bem, para uma rapariga. Sabe os truques todos.

 

— Sim, deve saber. E também é bonita, não?

 

— É — disse Darragh estendendo as mãos para as aquecer na fogueira. — Cabelos grandes, louros, faces rosadas e os olhos da cor do céu de Verão. Iguais aos da irmã. Têm ambas muitos pretendentes, daqui até Cross.

 

Ele estava a provocar-me.

 

— Esquece que eu perguntei — disse eu, zangada. — Responde à pergunta. Por que estás aqui?

 

— Fiquei ansioso. Preocupado. Pareceu-me que estavas metida em sarilhos e que precisavas de ajuda.

 

— O quê?

— Não é preciso ficares chocada. Fui a Sevenwaters e disseram-me que não estavas lá. Fui a Glencarnagh e descobri que não precisavas nada de mim. E agora, vou para casa. É uma história simples. Cometi um erro. Não foi o primeiro, aliás.

 

Não soube o que dizer e, por isso, fiquei calada. Começava, por fim, a ficar quente, com a fogueira, a capa e as papas de aveia. O meu corpo sentia-se melhor apesar das dores e dos arrepios. A minha mente é que parecia não estar a trabalhar muito bem.

 

Tudo o que conseguia pensar era que a noite era muito curta, que tinha muitas coisas para dizer e que cada vez que abria a boca só dizia asneiras.

 

— Fainne? — A sua voz soou suavemente na escuridão.

 

— Hum?

 

— Conta-me. Diz-me o que se passa. Por que é que fizeste este caminho todo para me encontrar? Diz-me o que se passa. Que coisa é essa tão importante que quase morreste gelada?

 

A sua gentileza quase me derreteu. Recordei tudo: o meu pai, a minha avó e o amuleto, Maeve e o incêndio, Eamonn. Desejei contar-lhe tudo, absolutamente tudo; tirar de cima dos ombros a culpa e o medo. Mas não consegui. Ele tinha de ficar de fora. Tinha de o deixar de fora.

 

— Vim para te dizer que vás para casa e nunca mais voltes. — disse eu em tom neutro. — Não podes voltar, Darragh. Não tentes ver-me de novo. É importante.

 

Seguiu-se uma pausa.

 

— Fizeste este caminho todo para me dizer isso?

 

— Sim. Tem de ser. Acredita-me.

 

— Estou a ver — disse ele com firmeza.

 

— Não, não estás. — Não conseguia disfarçar a miséria que me ia na voz. — Não estás a ver nada. Mas, apesar de tudo, somos amigos. Tenho de te pedir que confies em mim e fazer o que te peço.

Ele semicerrou os olhos.

 

— Diz-me uma coisa. Esse tipo, o senhor de Glencarnagh, que significa ele para ti? Não é boa rês, esse tipo. Que significa ele para ti?

 

— Não tens nada com isso. O que é que ele te disse?

 

— Mandou-me embora. Até falou numa escolta até à fronteira. A mim, um viajante. Recusei a amabilidade. Disse-me que não, que não te podia ver, nem hoje nem amanhã, no dia seguinte ou no próximo ano. Disse que estavas ali como sua hóspede especial e que não devias ser perturbada. Que um insignificante como eu devia saber que não se incomoda uma dama. Palavras do gênero. Por momentos, fez-me desejar ser um guerreiro, em vez de músico. Que quis ele dizer, Fainne? Hóspede especial?

 

— Lamento que te tenha tratado assim. — A minha voz tremia. —Eu estava doente. Indisposta. Não sabia que estavas ali.

 

— E não te importas que o tipo tome as decisões por ti? Não te importas que seja ele a escolher os teus amigos?

Não respondi.

 

— Fainne. Olha para mim.

 

Virei o rosto para ele. Darragh estava muito pálido e muito sério.

 

— Vais casar com ele? É isso? Diz-me a verdade.

 

— Não tens nada com isso — murmurei.

 

— Tenho, sim. Diz-me.

 

Com relutância, acenei com a cabeça.

 

— Não é impossível.

— É um bocado velho para ti, não achas? — perguntou ele rudemente.

 

— Casamentos desses não são raros. É a idade da mulher que importa se um homem quer um herdeiro.

 

Darragh nunca se zangava. Era uma das boas coisas dele. Pensei que, desta vez, se ia zangar. O seu maxilar cerrou-se, mas a voz manteve-se calma.

 

— Portanto, casas-te pelo nome e pela fortuna. E vais dar à luz os filhos de um velho.

 

— Não compreenderias.

 

— Tenta.

 

— Não podes compreender.

Darragh ficou silencioso por um momento. Então, disse:

 

— Disseste-me isso uma vez, não disseste? Algo acerca de um cão vagabundo, creio que foi isso.

 

— Falei sem pensar, dessa vez. Lamento se te magoei. Mas isto é uma coisa que não te posso explicar. Peço-te, simplesmente, que te afastes, mais nada. — Desejava tanto contar-lhe a verdade.

 

Ele esperou um pouco. À medida que a noite ia avançando, o ar à nossa volta ia ficando cada vez mais frio. A pequena fogueira já não era suficiente para afastar o sentimento gelado que parecia vir do fundo da minha alma. Pensei que, se fosse capaz de chorar, as minhas lágrimas transformar-se-iam em gelo antes mesmo de caírem dos meus olhos.

 

— Amas esse tipo? — perguntou Darragh sem olhar para mim.

 

— Amor? — exclamei, sentando-me repentinamente levada pelo choque e reprimindo um gemido de dor. — É claro que não! O amor não é para aqui chamado. Quem é que se casa por amor? Isso é uma tolice. Num casamento desses só há dor e perda. — Pensei na minha mãe e no meu pai e como as suas vidas tinham sido destruídas pelos laços que os ligavam.

— Nesse caso, aconselhas a minha irmã Roisin a não se casar com Aidan, não? Eles estão a planear casarem-se no Outono, quando ela fizer dezessete anos. Aidan já tem um pouco de terra. Achas que eles não deviam seguir em frente?

 

Olhei para ele de sobrolho franzido.

 

— Isso é diferente — disse eu.

 

— Diferente como? Queres dizer, por serem pessoas simples, ao contrário de ti e do teu grande senhor?

 

— É claro que não! Pensei que me conhecesses melhor!

 

— Também eu — disse Darragh suavemente. — Mas passas a vida a surpreender-me.

 

— É diferente porque... porque... não te posso dizer. Mas é.

— Hã-hã — disse Darragh. Ficamos ali sentados por um bocado. O frio parecia vir de todos os lados. As únicas partes do meu corpo que ainda estavam relativamente quentes eram as mãos, que eu mantinha estendidas para o fogo. O resto tremia de frio, para já não falar dos danos que a viagem tinha feito. Pensei, vagamente, em como iria subir outra vez para cima do cavalo quando chegasse a madrugada e fazer o caminho todo de volta.

 

Darragh rodeou os joelhos com as mãos, olhando para as chamas. Tinha um ar solene; não era o Darragh sorridente de sempre.

 

— Não me convenceste — disse ele.

 

— Convencer-te de quê?

 

— De que tens razão. De que não precisas que tomem conta de ti. Não acredito numa única palavra. As tuas palavras dizem-me uma coisa e os teus olhos outra. Fainne, podes dizer-me. Não há segredos entre nós. O que é que te preocupa tanto?

 

— Nada. — A minha voz falhou apesar dos meus esforços. — Nada. Acabo de te dizer, vai-te embora e nunca mais voltes.

— E que vais tu fazer depois de eu me ir embora?

 

Pôr o amuleto e acabar a tarefa para a minha avó, de maneira a ficares livre de perigo.

 

— Regressar a Glencarnagh e ir para o meu quarto antes que eles descubram que eu saí — disse-lhe. — Continuar com a minha vida. Mas isso não te diz respeito.

 

— Tenho outra sugestão — disse Darragh. Eu não disse nada. — Esperamos até de madrugada, ponho-te em cima de Aoife e vamos os dois para casa, para Kerry. É isso que vamos fazer.

 

Aquelas palavras cortaram-me a respiração e, por um momento, fiquei incapaz de responder. A ansiedade tomou conta de mim. Se eu pudesse dizer sim. Se pudesse ir para casa, para o Favo de Mel e para o meu pai, para o tempo em que tudo fazia sentido e a coisa pior da minha vida era ter que esperar o Inverno todo pelo regresso de Dan Walker e do seu clã à enseada. Mas não podia ir. Se não pusesse, na madrugada que se aproximava, o amuleto da minha avó ao pescoço, ela apareceria junto de mim, furiosa e em busca de respostas. E uma vez posto o amuleto, ela poderia ver-me sempre que quisesse. Regressar a Kerry representava a morte para o meu pai e para Darragh. Não levar a cabo a tarefa da minha avó seria o fim para todos nós.

 

— Não posso — disse eu. — E o teu trabalho para O’Flaherty? E os cavalos dele? E Orla?

Darragh atirou um graveto para o fogo.

 

— Esquece O’Flaherty — disse ele. — Não te preocupes com isso. Eu estou a dizer que te levo para casa. Estás cansada, tens medo e nem sequer sabes para que lado te hás de virar. Penso que o teu pai ficará feliz por te ver.

 

Fiz um esforço para falar.

 

— Não posso voltar atrás. — A minha voz era tão fria como o gelo que me enchia o coração e me gelava as lágrimas por derramar. — Mas tu tens de ir. Tu e Aoife. Eu tenho de ficar aqui. Eu sei o que estou a fazer, Darragh.

 

Então, ele não disse nada durante muito tempo e à medida que o silêncio se foi prolongando eu comecei a bocejar, os meus olhos começaram a fechar-se apesar do frio e eu pensei vagamente que não dormia há muito tempo. Mas não podia dormir.

 

Tinha de regressar a Glencarnagh, tinha de...

— Pega — disse Darragh. Ele tinha arranjado outro cobertor não muito maior do que um saco, talvez utilizado para aquecer Aoife, porque, tal como o outro, cheirava fortemente a cavalo. — É melhor descansares um bocado. Estás mortalmente cansada. Anda lá, deita-te, que eu cubro-te.

 

— Não posso — protestei por entre os meus convulsivos bocejos. — Já te disse... tenho de estar lá de madrugada... viagem longa...

 

— Aoife é rápida — disse Darragh. — Eu levo-te a tempo. Eu acordo-te, não tenhas medo.

 

— Não... tu não compreendes...

 

— Compreendo sim, Fainne.

 

— Mas... — O cobertor sabia tão bem, tão bem. Deixei cair a cabeça e fechei os olhos enquanto continuava a murmurar os meus protestos.

 

— Ehhh — disse Darragh. — Eu fico de vela. Descansa.

O sono atingiu-me como uma grande vaga, súbita e imparável. Quase acordei uma vez ou duas, consciente do frio intenso que entrava através do cobertor, da capa e do vestido, tocando no meu espírito com os seus dedos gelados; consciente de que tremia como varas verdes a despeito das brasas e dos meus esforços para me enrolar sobre mim própria o mais possível. E então, subitamente, fiquei quente, maravilhosamente quente, segura e confortável e algures na minha mente o Sol brilhava sobre a água da enseada e era Verão. Mais tarde agitei-me de novo, sabendo que a noite ia passando mas não querendo acordar por completo com medo de que aquela visão se perdesse para sempre. Havia um braço que me rodeava, segurando a capa em redor dos meus ombros e o mesmo velho cobertor cobria-nos a ambos.

 

Darragh estava por trás de mim, o seu corpo encostado ao meu, o seu calor fazendo parte de mim e os meus cabelos sentiam a sua respiração tranqüila e lenta. Mantive-me muito quieta. Não queria acordar por completo. Pensei que, se tudo acabasse naquele momento, não me importaria nem um pouco. Que acabasse tudo, para que não precisasse de acordar. E deslizei de novo para o sono.

 

— Caracóis.

 

Puxei o cobertor para cima de mim e fechei os olhos com força.

 

— Fainne. Acorda, minha querida. — Puxei o cobertor para cima do rosto.

— Fainne. Vamos, acorda.

 

Pestanejei, espreguicei-me e gemi. Sentei-me com alguma dificuldade. Ainda estava escuro. Do outro lado da fogueira, Darragh andava de um lado para o outro e reparei que Aoife já tinha as bolsas da sela e o cobertor dobrado na garupa. A égua cinzenta estava perto, tranqüila. O esplendor desvaneceu-se na minha mente como se nunca tivesse existido.

 

Tentei levantar-me. Não foi fácil. A viagem causara mais danos do que eu pensava.

 

— Darragh.

 

— Hum?

 

— Eu quis dizer o que disse. Regressa para junto de O’Flaherty. Eu volto para Glencarnagh sozinha.

 

— Hã-hã.

— Pára com isso! — A minha voz era tão fraca e hesitante como a de uma criança. Que se passava comigo? — Não podes ir comigo. Eu vou sozinha.

 

— Muito bem. Nesse caso, vem até mim.

 

— Isso não é justo! — Dei um passo e a dor dilacerou-me as costas. — Eu posso ir. Eu consigo.

 

— Senta-te, Fainne. Se insistes em regressar, Aoife e eu levamos-te, já te disse.

 

— Por que não ouves o que eu te digo? — protestei, deixando-me cair no chão de modo estranho, porque as minhas pernas não me suportavam. — Tu não podes voltar lá. Não podes ser visto comigo. Nem em Glencarnagh nem em qualquer outro sítio.

 

— Sentes-te embaraçada, é isso, por seres vista na companhia de um nômade? — Ele estava de costas para mim, a tratar da égua.

 

— É claro que não!

— Tu és suficientemente estúpida para tentar regressar sozinha. E eu talvez te deixe, porque estou farto de lutar contigo. Mas não podes montar esta égua daqui até Glencarnagh. Ela está velha e já percorreu um longo caminho contigo, esta noite. Não está em condições de te levar de volta na escuridão. Eu levo-te. Não te preocupes, não te envergonho. Não mostro a cara ao teu grande senhor. Não quero estragar as tuas expectativas.

 

Eu não disse nada. Não valia a pena. Faria o que tinha de fazer e a cada momento agradeceria à deusa por ele estar longe, a Oeste, sem me poder ver. Daria graças todos os dias por ter tido a oportunidade de o afastar dos olhos da minha avó. Mas necessitava da ajuda dele para regressar a Glencarnagh. Teria de aceitar.

 

— Muito bem — disse ele de modo agradável uns momentos depois. — É melhor partirmos.

 

— Lamento — disse em voz baixa.

 

— O quê?

 

— Lamento ter feito esta égua percorrer tanta distância na escuridão, ao frio. Lamento tê-la cansado. Não pensei. Tudo o que eu queria era...

— Não te preocupes com isso — disse Darragh. — Ela está um pouco cansada, mas nada que um bom descanso e um estábulo quente não resolvam. A pobre não está habituada a uma excitação tão grande. Mas é um animal saudável. Não tenhas medo por ela. Ela faz o caminho de volta com relativa facilidade atrás de Aoife. A mim, parece-me que já tens problemas suficientes.

 

Em seguida ergueu-me para cima de Aoife, montou também, colocando-se atrás de mim e partimos.

 

Foi uma cavalgada estranha; silenciosa a maior parte do tempo e mais rápida do que a jornada anterior, porque Aoife tinha um passo rápido e suave, sem necessidade, aparentemente, de ser guiada. A certa altura, Darragh disse:

 

— Vai ali um mocho, umas vezes atrás de nós e outras à frente. Estás a vê-lo? Faz-me lembrar aquele corvo que está sempre perto do teu pai, vá ele para onde for. Como se fosse um guardião.

 

Acenei com a cabeça na escuridão.

 

— É da mesma espécie — disse eu.

— Estou a ver. Fainne?

 

— Hum? — Recusei-me a permitir que a minha mente continuasse a funcionar para lá daquele momento; para lá do passo firme do pônei, do brilho branco do seu pêlo à luz da Lua, de Darragh com o braço em redor da minha cintura e do calor do seu corpo afastando o frio do meu coração. Sentia-me segura. Pensei, tolamente, que faria com que aquilo durasse muito tempo; porque seria a última vez.

 

— Eu já vi que não vens comigo. Já vi que não vais regressar a Kerry. E já me disseste que não sou aqui bem-vindo. Mas...

 

— Mas o quê?

 

— Gostaria que aceitasse o conselho de um velho amigo. Gostaria, pelo menos, que não ficasses em Glencarnagh. Estarás mais segura em Sevenwaters. As pessoas, lá, são boas. O teu tio é bom homem. O meu pai respeita-o muito, assim como toda a família. E... e devias esperar antes de tomares uma decisão. Ainda és muito nova. Tens todo o tempo do mundo.

 

Ah isso é que não tenho. Só tenho até ao Verão. Não mais. O meu destino é medido pelo espaço de tempo entre duas estações. Mas, para ti, posso comprar mais um pedaço.

— Acabaste?

 

Ele não respondeu.

 

— Há algum tempo, se bem me lembro, aconselhaste-me a encontrar um marido e a criar um rancho de filhos — disse-lhe. — Agora, dizes-me para esperar. Afinal, o que é que vai ser?

 

— Não brinques, Fainne. Tu deves casar-te, mas, pelo menos, escolhe um homem bom.

 

Fiquei calada. De certo modo, ele tinha o dom de dizer as coisas mais simples, fazendo-me ficar alegre ou miserável num instante. Continuamos a cavalgar e eu pensei ver o céu a clarear, como se a madrugada não estivesse muito longe. O frio começou a entrar-me de novo no espírito, como se o melhor e mais verdadeiro amigo do mundo não tivesse o poder de deter os seus dedos gelados.

 

— Darragh — disse eu em voz baixa e até a mim a minha voz me pareceu estranha, como se estivesse a lutar com as lágrimas. Mas os meus olhos estavam secos. Eu era filha de um feiticeiro, e era forte. Não choraria

— Sim?

 

— Se soubesses as coisas que eu fiz, não quererias ser meu amigo. Se soubesses, compreenderias por que razão te peço que fiques longe de mim. Coisas terríveis. Coisas maldosas, das quais não suporto falar.

 

— Por que não mas contas e me deixas julgar? — O meu coração deu um salto de alarme.

 

— Não posso. Não te posso contar.

 

— Mas eu posso adivinhar.

 

— Não, não podes. Ninguém consegue adivinhar. Está... está para além da compreensão das pessoas normais. Acredita apenas que é melhor ficares longe de mim. Por favor, acredita.

 

Aoife continuava firmemente em frente e agora havia um acinzentar distinto no céu, uma mudança nas sombras à nossa volta.

— Eu posso adivinhar — disse Darragh de novo. A sua mão segurava as rédeas descontraidamente e o seu braço rodeava-me a cintura com firmeza e segurança.

 

— Houve um incêndio. A minha tia contou-me. Morreu um homem e outro ficou ferido. E uma criança ficou queimada. Um acidente terrível. Tu sempre foste boa a fazer fogo.

 

Eu não disse nada.

 

— Tens razão, foi uma coisa horrível. Podes persuadir-me, sem grande dificuldade, de que tiveste algo a ver com ele. Mas nunca me convencerás que o fizeste de propósito. Magoar e ferir pessoas inocentes, tirar a vida a um homem santo. Não acredito.

 

— Há mais — murmurei. Darragh esperou.

 

— Aquela rapariga na enseada. A rapariga pescadora, aquela que desapareceu. Lembras-te?

Ele continuou em silêncio.

 

Cada palavra era um julgamento. Forcei-as a sair, uma a uma, com o coração a bater como um tambor.

 

— Eu... eu usei a arte, Darragh. Usei-a de modo errado. Mudei-a e ela morreu. Algo correu mal e ela morreu. Nunca disse a ninguém até agora. Depois disto nunca mais quererás ser meu amigo.

 

E agora ele ir-se-ia embora de boa vontade. Desprezar-me-ia e deixar-me-ia e eu já não teria de me preocupar, porque ficaria a salvo. Paciência se isso lhe doía, paciência se ele sentia uma faca no coração, torcendo-se e virando-se. Eu sofreria sempre pelo que fizera e pelas coisas que teria de fazer.

 

— Ela era boa rapariga — disse Darragh calmamente. Chegamos a uma ligeira inclinação, entre grandes ulmeiros e ali, à luz da madrugada, estava a grande e baixa casa de Glencarnagh, e um pouco mais perto estavam dois guardas com túnicas verdes e armas nos cintos. Aoife parou.

 

— E agora vai-te embora — disse eu entredentes. — Deixa-me aqui, eu faço sozinha o resto do caminho. Já te aventuraste demasiado.

Por trás de mim, Darragh não se mexeu.

 

— Darragh! — murmurei, aflita. O céu estava cada vez mais claro. Eu tinha de estar dentro de casa, com o amuleto ao pescoço, antes de o dia nascer. Prometera à minha avó. E Darragh tinha de se ir embora antes de ser visto. Eu temia a ira de Eamonn.

 

Por fim, Darragh moveu-se. Deslizou do cavalo e estendeu os braços para me ajudar a desmontar. Senti as pernas pouco seguras e ele segurou-me, franzindo o sobrolho enquanto me perscrutava o rosto à luz pálida da madrugada.

 

— Talvez eu vá até Kerry e traga o teu pai — murmurou ele. — Talvez faça isso.

 

— Não! — arquejei. — Não! Não faças isso! Vai-te embora e deixa-me! Que hei de dizer para que tu compreendas?

 

— Tu precisas que tomem conta de ti. Foi o que eu sempre disse e isso não mudou. Tu estás metida numa coisa qualquer demasiado grande para ti. Não está certo, Fainne.

 

Respirei fundo.

— Não sejas estúpido — disse eu e fiz com que a minha voz parecesse o mais fria possível. — É muito simples. Eu quero esquecer-te. Quero apagar cada traço teu da minha mente. Quero que te vás embora, não quero voltar a ver-te. Acredita. É a verdade.

 

Darragh ficou branco como a cal e tirou lentamente as mãos da minha cintura. Descobri que podia manter-me de pé sem ajuda. Ou quase. O seu olhar manteve-se firme no meu rosto. Os seus olhos castanhos, olhando para os meus e perscrutando profundamente.

 

— Dá-me a tua mão.

 

Abri a boca para discutir, mas, em vez disso, vi-me a estender a mão e ele a pegar nela. Olhamos ambos para baixo.

 

— Não acredito — disse Darragh enquanto os seus dedos tocavam no pequeno círculo de erva entrelaçada que eu usava no dedo mindinho; o minúsculo presente que as minhas mãos tinham encontrado, como que por acaso, no canto mais escondido da minha arca de madeira quando pensara desafiar a minha avó e fora derrotada. Ela não vira aquilo e nunca veria, porque voltaria de novo para a arca antes de o amuleto regressar ao meu pescoço. Aquele pequeno círculo era um símbolo de inocência; e eu não o podia usar. No entanto, usara-o esta noite no meu dedo para provar que não me tinha esquecido.

— Não acredito — disse ele de novo e largou-me a mão. — Está a amanhecer e é melhor ires para dentro. Os guardas não te vêem?

 

Abanei a cabeça.

 

— Há sempre um meio de fazer as coisas. — Ele franziu o sobrolho.

 

— Não gosto nada disto, Fainne. Não gosto de te deixar aqui.

 

Eu não disse nada. Olhamos um para o outro por um momento e comecei a virar-me para me ir embora.

 

— Bem — disse Darragh gentilmente e a sua mão estendeu-se para me afastar um caracol do rosto. Os seus dedos percorreram-me a têmpora e retiraram-se. — Adeus, Caracóis. Mantém-te afastada de sarilhos até...

 

— Não! — exclamei. — Não digas isso! Tu não podes voltar! Nunca mais, entendes, nunca mais!

E virei-lhe as costas, correndo o mais depressa que o meu corpo dorido me permitia por baixo dos grandes ulmeiros, murmurando o feitiço para que os guardas não vissem nada senão um truque da madrugada, um mero movimento dos arbustos e da erva, e não olhei para trás nem uma única vez. Corri ao longo da sebe, atravessei o jardim, deslizei pela porta da cozinha e pelo átrio até ao meu quarto, onde a lareira estava apagada e a vela reduzida a um pedaço de cera. O ar estava gelado, mas não tanto como o meu coração.

 

Tirei o pequeno anel do dedo e meti-o nas profundezas da arca, por baixo do xale de seda. Não o voltaria a usar. Em seguida, tirei o amuleto da minha avó, o triângulo de bronze estranhamente trabalhado e procurei um cordão ou uma fita, qualquer coisa para o poder pôr ao pescoço, porque não me queria arriscar a que ela voltasse enquanto Darragh não chegasse à fronteira de Glencarnagh. Uma vez posto o amuleto, ela já me podia controlar. Só teria de fazer a sua vontade e os que me eram queridos estariam salvos.

 

Lembrei-me de uma coisa. Um cordão, estranho, que adornara a minha boneca, Riona. Tinha-o tirado para o guardar, juntamente com a pequena pedra branca que o acompanhava. Onde o pusera? No bolso de um dos vestidos, se bem me parecia. O vestido castanho-avermelhado. Estava na arca, dobrado. Sim, lá estava ele, um cordão resistente, entrançado com muitas fibras, tão resistente que parecia inquebrável, as suas pontas atadas com um pedaço de couro. Tentara, uma vez, desatá-lo, mas não conseguira. Mas agora, curiosamente, o nó desfez-se facilmente.

 

Parecia que aquela coisa, que pertencera à minha mãe, não se importava de transportar aquele talismã tão perigoso. Meti a pequena pedra na arca e coloquei o triângulo de bronze no seu lugar. Enquanto apertava o cordão em redor do pescoço, descobri que estava a murmurar: Lamento. Lamento tanto. O amuleto parecia mais leve, como se o cordão que o suportava fosse mais forte do que o anterior, que se partira devido ao seu fardo maldito. Talvez, mesmo naqueles tempos de escuridão, o espírito da minha mãe velasse por mim. Estremeci. Ainda bem que ela não me podia ver; ainda bem que não sabia que eu era, mais uma vez, um instrumento da minha avó. Porque me parecia que, a partir deste momento, os meus passos seguiriam o caminho da feiticeira e a minha história seria a história dela.