A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 13 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Treze

 

Eles treinaram vezes sem conta o barco, a corrente e os nadadores. E Darragh estava entre eles enquanto deslizavam para a água gelada. Faziam-no durante o dia. Faziam-no à noite com lanternas na proa. Habituaram-se a fazê-lo com máscaras no rosto, roupas escuras e justas, de modo a parecerem-se com criaturas do oceano, verdadeiros filhos de Manannán. Faziam-no ao luar, sem as lanternas; eu ouvia-os a subir os degraus vindos da enseada, rindo. Parecia-me que eram muito temerários, um bando de camaradas, ligados por uma fé mútua e inabalável. Sentia-me preocupada por Darragh se ter transformado num deles tão rapidamente. E não era apenas o meu receio pela sua segurança que me dava noites de insônia. Era algo que eu tinha vergonha de admitir. Ele era meu e eu não queria partilhá-lo. Não queria que ele mudasse e se transformasse num homem duro e sem escrúpulos como os outros. Por vezes, o que me dava forças para continuar, era a imagem de Darragh, com o seu sorriso torcido, cavalgando tranquilamente o seu belo pônei branco por um carreiro iluminado pelo Sol entre sorveiras-bravas. Se perdesse isso, que me restava?

 

Então, Coll adoeceu. Um dia, teve uma ligeira dor de cabeça, coisa pouca, apenas o suficiente para o fazer resmungar um pouco mais do que o costume enquanto trabalhava. No dia seguinte, tinha febre e não saiu da cama. Eu não o fui ver. Fiquei à minha mesa, atarefada com a pena, registrando as qualidades medicinais de uma erva chamada escrofulária, geralmente conhecida como ficaria. Não falei com ninguém.

 

Liadan não esteve presente ao jantar, assim como Gull. O Chefe estava muito calado, mas isso não era nada invulgar. Johnny também não dizia grande coisa e pensei que me vigiava.

 

— O miúdo está mesmo doente — murmurou Biddy. — Está tão quente como um ferro em brasa e só diz disparates.

 

Retirei-me cedo para o meu canto, dizendo para mim própria que a criança recuperaria. A culpa era minha. Como podia ter-me esquecido?

 

Como me permitira arranjar outro amigo? Como fora possível ser tão tola, acreditando que a minha avó me deixaria em paz? Tinha acabado de acender a lâmpada quando me mandaram chamar. Estavam todos na enfermaria, Liadan sentada à cabeceira do filho. O Chefe e Johnny de semblantes carregados e silenciosos por trás dela, enquanto o miúdo transpirava, murmurava e virava a cabeça, sem descanso, de um lado para o outro.

 

Eu sou filha de um feiticeiro , recordei a mim própria enquanto avançava na direção deles. Mas não pareceu ajudar-me muito.

 

— Lamento que Coll esteja doente — disse eu com a maior calma possível. — Espero que seja apenas uma constipação e que melhore em breve. — Mantive as mãos unidas atrás das costas para as obrigar a ficar quietas.

— Senta-te, Fainne. — A voz de Liadan perdera o calor que tivera no nosso último encontro. Depois de me sentar no outro lado da cama do rapaz, como ela me indicara, vi que os seus olhos estavam vermelhos e inchados, e que a sua boca estava cerrada. A expressão do Chefe estava alarmantemente feroz e a de Johnny circunspecta, como se estivessem a pesar um dilema.

 

— Suponho que sabes por que razão te chamamos aqui — disse Liadan enquanto pegava num pequeno pano e o usava para enxugar a testa de Coll.

 

— Talvez seja melhor dizer-me. — Consegui manter a voz sob controlo apesar do bater do meu coração.

 

Então, foi o Chefe que falou numa voz muito suave, numa voz treinada para instigar o medo nos homens.

 

— A minha mulher disse-me que esta febre, tão alta, que apareceu de repente, não pode ter aparecido sem uma... intervenção exterior. — Havia uma pergunta no tom de voz, mas eu não respondi. — Se o meu filho morrer os responsáveis não escaparão ao castigo.

 

— Ontem, Coll estava bem — disse Liadan e a sua voz tremia. — Corria, metia-se com toda a gente e estava perfeitamente. Não há razão para isto. Esta febre não responde, como devia, às gotas de ervas; ele está a arder, como se tivesse sido atingido por um dragão. Se não baixa dentro de pouco tempo, receio que ele não agüente. Fainne, foste tu que fizeste isto?

Hesitei. Se bem que estivesse à espera que me deitassem as culpas, não contava com uma confrontação tão direta da parte dela.

 

— Não, tia Liadan. — Seria imaginação, ou a minha voz parecia-me pouco segura? Na verdade, não fora eu a causadora; eu não lançara nenhum feitiço a nenhuma criança, nem nunca considerara tal hipótese, mesmo que a minha avó mo tivesse exigido; mesmo que me tivesse ameaçado com o maior dos castigos. Coll ainda era pequeno. Nunca o magoaria. Mas era, de qualquer modo, culpada. Se não fosse eu, a minha avó nunca teria reparado no miúdo. Nunca lhe passaria pela cabeça atingi-lo. Por isso, era como se tivesse usado a arte.

 

— Eu não faço magia desde que vim para Inis Eala — disse eu, o mais firmemente que consegui. — É a verdade. Não seria capaz de magoar Coll. Ele é meu amigo.

 

— Não seria um grande teste à tua vontade? — perguntou Johnny cuidadosamente. — Uma demonstração de força? Magoar um amigo em vez de um adversário?

 

Olhei para ele.

 

— Não há nada de errado com a minha vontade — murmurei, chocada por ele se ter aproximado tanto da verdade. — Eu não preciso de magoar crianças para a demonstrar.

E então senti um arrepio gelado na espinha, porque, claro, acontecera o incêndio, e Maeve. Magoar uma criança era algo que uma feiticeira era capaz de fazer sem a mínima hesitação; e eu era uma feiticeira. Levei as mãos à cabeça para que eles não me vissem o rosto.

 

— Olha para nós, Fainne.

 

O Chefe tem de ser obedecido. Olhei para cima. Era como enfrentar um juiz que já tivesse decidido que eu era culpada, sem ouvir as provas. E isso magoava-me. Eu não queria ser assim julgada por aquela boa gente; pela minha gente.

 

— Eu não fiz isto — disse eu em voz baixa, levantando-me. — É verdade. Talvez... talvez seja só uma constipação. Talvez Coll melhore dentro de pouco tempo. Eu ajudo a tratar dele, se quiser. Eu...

 

— Eu não te quero perto do meu filho. — A voz de Liadan era áspera. — Eu vi o que aconteceu em Sevenwaters; não quis acreditar que fosses tu a responsável, mas sei que és capaz de fazer fogo quando te apetece. Sei que Ciarán permitiu que a sua mãe te... te influenciasse. Não admira que Eamonn fosse um boneco nas tuas mãos. Não admira que o teu rapaz esteja tão desesperado por te tirar daqui. Sabe das maldades que és capaz de fazer.

As suas palavras encheram-me de angústia e gelaram-me. Pouco tempo antes ouvira-a falar com afeição, como uma mãe. Mas a minha avó transformara essa afeição numa inimizade amarga.

 

— Não fui eu — disse eu de novo, sentindo a cabeça tonta e os olhos cheios de lágrimas que não podiam ser derramadas. — É verdade! Juro!

 

— Vai para o teu quarto até decidirmos o que fazer. — O Chefe falou calmamente, mas eu vi o olhar que ele lançou na direção do filho. — Se calhar, é melhor permitirmos que Darragh te leve para casa. Não podes continuar conosco depois disto.

 

— Mas, não tem provas! Não é justo! Não me pode mandar embora, não pode! Johnny? Com certeza não acreditas que eu faria tal coisa?

 

Johnny olhou para mim com um estranho sorriso, mas não disse nada. Que a deusa me valesse, estava tudo à ruir à minha volta, tudo. Um falhanço total; estaria a ira da minha avó por trás daquilo tudo?

 

— Por favor — disse eu a custo. — Por favor. Juro que não fui eu. Desta vez não fui eu.

Seguiu-se um momento de silêncio terrível. Então, Liadan disse.

 

— Que queres dizer, desta vez?

 

Emiti uma espécie de som, algo entre um soluço e um grito e de repente estava a fugir pela porta afora para a noite, para o escuro, correndo, correndo o mais depressa que o meu pé defeituoso me permitia, para longe da criança febril e dos olhos acusadores da minha família, para longe daquela boa gente com um objetivo brilhante, firme, na sua frente, para longe do meu amigo apanhado no meio de uma coisa de que não podia fazer parte, para longe através do pasto dos carneiros, para lá do muro, para lá. Corri até a cabeça me latejar, o coração batendo como um tambor e o respirar se transformar numa agonia. A Lua iluminava-me o caminho; as minhas botas batiam em pequenas pedras, escorregavam em grandes rochas molhadas e afundavam-se em areia mole. Subi pequenas elevações, desci, aos trambolhões, até pequenos vales, fui de encontro a arbustos e quase caí de uma falésia para o mar lá muito em baixo. Um acidente; e enquanto oscilava, pensei que seria uma saída. Mas recuperei o equilíbrio. Seria uma fraca solução e, assustada, ferida e confusa como estava, não me decidiria por ela. Havia uma coisa boa que podia fazer e apesar do que quer que fosse que se metesse à minha frente, fa-lo-ia. Faria com que o meu pai se orgulhasse de mim apesar de tudo. Continuei a correr. À luz da lua primaveril, a paisagem encheu-se de uma luz prateada, fazendo brilhar as rochas, tornando a areia cor de pérola e fazendo reluzir os arbustos, como se estivesse a passar por um reino desconhecido dos mortais. E havia sons estranhos: sobre o rugido do oceano ouviam-se gritos quase inaudíveis, tristes, como se fossem de uma grande criatura das profundezas, chorando algo perdido, algum tesouro nunca recuperado. Havia uma angústia naqueles gritos, uma tristeza que estava para além de qualquer conforto.

 

Corri o mais depressa que pude até ao promontório a norte da ilha. Nunca olhei para trás em busca de pessoas com lanternas, ou archotes. Quem se importaria se eu caísse de uma falésia e partisse o pescoço? Por que se importariam se eu caísse ao mar e as águas negras como tinta me engolissem? Ficariam contentes por se terem visto livres de mim. Darragh estava enganado acerca da família e Liadan estava enganada acerca do amor. Ambas as coisas traziam, apenas, complicações desnecessárias. Era melhor não ter nem uma, nem outra.

Cheguei ao rochedo e havia uma entrada, um pequeno túnel com solo arenoso, que ia dar, talvez, até um abrigo e senti-me em casa. Ainda ofegante, com os cabelos sobre os olhos e as mãos estendidas para apalpar o caminho, entrei. Pensei em entrar apenas o suficiente para me abrigar do vento, enrolando-me, depois, sobre mim mesma, fechando os olhos com força e fingir, até de manhã, que não havia mais ninguém no mundo. Nem Coll, nem Liadan, nem Johnny, nem Darragh. E, especialmente, nem a minha avó. Estender-me-ia na areia e afasta-los-ia até o Sol nascer. Então, levantar-me-ia, regressaria e voltaria a ser forte.

 

Avancei na escuridão, os dedos tocando nas paredes de rocha de cada lado e movendo os pés com cuidado. Não fiz qualquer som. Algures, lá dentro, o túnel pareceu abrir-se; não conseguia ver quase nada, mas havia um movimento de ar, uma espécie de espaço e um barulho de água que não era o mar. Vislumbrei uma coisa branca à minha frente, no meio das sombras, como um pedaço de tecido, ou um rolo de penas. Estendi a mão e em vez de rocha dura, ou espaço vazio, os meus dedos tocaram em algo suave, quente e inegavelmente vivo. Dei um grito de medo, recuei, tropecei no vestido e caí dolorosamente no chão. Ouvi, em resposta, uma exclamação de alarme na escuridão e o som suave de passos afastando-se. Fiquei ali sentada, tentando recuperar o fôlego. Para dentro, para fora, Disciplina. Vi uma luz e depois o brilho da chama de uma lanterna a aproximar-se. Levantei-me devagarinho, olhando para o homem que a transportava e pestanejando, incrédula. Ele olhou para mim. Sem dúvida, a expressão de choque nas suas feições pálidas era igual à minha. Mas não foi o susto provocado pelo encontro que me fez bater o coração. Não foi a semelhança daquele homem com o meu tio Sean e com Liadan, com o seu longo e pálido rosto, os cabelos escuros e as feições esbeltas, retas e inteligentes. Nem foi o seu traje e capa esfarrapados e os pés descalços que me chocaram. Foi a asa que ele tinha no lugar do braço esquerdo; uma coisa grande, brilhante; uma coisa cintilante, dourada, cor-de-rosa e bege à luz da lanterna. A minha avó dissera: Terás de ter cuidado com o tipo da asa de cisne.

 

— Tu fugiste — observou o homem ali a olhar para mim.

— Quem é você? — consegui dizer ainda sem respiração. A sua voz era muito estranha; sem sotaque, mas com a hesitação de quem fala uma língua que não é a sua.

 

— Parece que a minha história ainda não chegou a Kerry — observou ele secamente. — Vem. Tu correste durante muito tempo. Vais querer descansar e talvez beber alguma coisa. Eu não tenho uma fogueira, mas posso arranjar-te água fresca e um lugar para te sentares confortavelmente. Espero que não te tenhas magoado.

 

— Não é o fato de me ter magoado que constitui problema — disse eu azedamente, seguindo-o enquanto ele caminhava à minha frente pela gruta dentro. Na realidade, parecia não haver alternativa, senão segui-lo.

 

Chegamos a um local onde havia reentrâncias na rocha e uma pequena poça de água, que cintilava à nossa frente. Acima dela, a câmara abria-se para o céu; na água escura, as estrelas brilhavam, remotas e misteriosas. O homem pousou a lanterna e foi buscar uma pequena caneca de metal escuro. Inclinou-se, encheu-a na poça e eu ouvi-o murmurar umas palavras, umas palavras familiares. Passou-me a caneca com a mão direita. Eu estava a tentar não olhar para as penas, apenas meio-escondida pela velha capa esfarrapada.

 

— Obrigada — disse eu e bebi, sentindo a frescura e a pureza da sua oferta entrarem no meu corpo. O ritmo da minha respiração abrandou; acalmei-me. — Honra a terra quando tira dela — observei.

— Eu não sou um druida, pequena. A minha mãe ensinou-nos a respeitar aquilo que nos dá a vida. É uma lição que nunca mais se esquece.

 

— Ensinou-nos? — Procurei na minha memória. Conhecia a história, claro; mas, talvez por ter acontecido na família, eu não tenha acreditado. Mas devia ter acreditado.

 

Aquela criatura, meio homem, meio cisne, era obra da minha avó.

 

— Quer dizer você, Conor e os seus irmãos?

 

Ele inclinou a cabeça.

 

— E a minha irmã. Por que vieste aqui?

 

— Por acaso. Não sabia que havia aqui alguém. Nunca ninguém me disse nada. Eu só queria... eu só queria um lugar para me esconder. Só por um bocado.

— Nesse caso, encontraste um. Eles não vêm à tua procura?

 

— Eles não querem saber — disse eu miseravelmente, tão enredada na minha angústia que nem pensei na estranheza de estar a falar com um estranho. — Disseram que eu fiz uma coisa má, e eu não fiz, mas eles não acreditam. Ninguém quer saber onde estou.

 

— No entanto — disse o homem esfarrapado — talvez fosse melhor dar-lhes a saber. Então, podes ficar aqui sem que ninguém te perturbe, até recuperares.

 

— Dar-lhes a saber? — olhei para ele sem expressão. — Como? — Então, vi os seus olhos; profundos, sem cor, como luz em água parada, uns olhos que eram a imagem dos olhos de Sibeal. Não precisava que me respondesse.

 

Fiquei sentada nas rochas durante algum tempo, fui bebendo a água e vendo as sombras dançarem e oscilarem em redor da caverna à luz da lanterna. A poça de água estava imóvel; o sussurro fraco que ouvira antes tinha desaparecido. Aquele era um lugar de grande tranqüilidade; de imenso silêncio. Era como a pequena gruta por baixo de Favo de Mel; um lugar de limites. Respirei lentamente; a minha cabeça continuava a latejar.

 

— Este é um lugar onde os segredos são guardados — disse o homem numa voz suave. — Está protegido por forças mais antigas e mais fortes do que o tempo. Estou surpreendido por eles não te terem mandado vir comigo mais cedo, porque vejo que estás profundamente perturbada.

— O que é que me está a oferecer? Conselhos? Uma conversa? Eu tenho um amigo que está pronto para me oferecer ambas as coisas e não compreende que não preciso delas. Eu percorro o meu caminho. Por que razão havia de lhe dizer fosse o que fosse?

 

Ele esperou antes de responder.

 

— Eu não ofereço conselhos. Por vezes, vejo coisas, e por vezes falo delas. Tenho visitas, por vezes, que falam comigo. Os filhos de Liadan vêm cá muitas vezes. Ela não vem porque não precisa.

 

— Porque falam um com o outro através da mente?

 

— Tu não tens esse dom? Surpreende-me. — Franzi o sobrolho.

 

— Por que havia de o surpreender? Parece saber quem sou. A Visão não vem dos seus antepassados Fomhóire? A minha mãe não tinha esse dom, e o meu pai também não, as nossas capacidades são limitadas: Foi decretado assim pelos Túatha Dê, há muito tempo.

Ele ergueu as sobrancelhas.

 

— Quem te contou essa história?

 

Não respondi.

 

— Os segredos, aqui, ficam bem guardados. Todos os segredos. Ninguém te falou de mim. Por isso, assustamo-nos um ao outro. O meu nome é Finbar.

 

— O meu é Fainne — disse eu rigidamente. — Como é possível ficarem bem guardados? Ninguém está seguro, Não enquanto...

 

— Enquanto usares isso em redor do pescoço?

 

Percebi que, durante a minha louca corrida o amuleto saíra do seu esconderijo e estava agora completamente visível no lado de fora do meu vestido. Levantei a mão num esforço vão para o esconder. O metal estava frio.

— Um feitiço muito poderoso — observou Finbar. — Se resististes à sua influência até agora, és, na realidade, a digna filha do teu pai. Reconheço o cordão.

 

— Reconhece? — O homem era cheio de surpresas.

 

— Oh sim. Foi Liadan que o fez e o deu à tua mãe quando ela se foi embora. Quem te deu esse amuleto, certamente não te deu o cordão.

 

— Não. Era eu que o tinha. E a mim parece-me...

 

— Ah sim — Finbar acenou com a cabeça. — Um neutraliza o outro o mais possível. Deves agradecer às mulheres fortes da tua família por esse talismã familiar, porque possui um poderoso feitiço de proteção. Não é um feitiço de feitiçaria, antes algo mais simples e puro. Liadan fê-lo com fibras das roupas de todos aqueles que viviam em Sevenwaters. Com isso, tentava, o melhor que podia, manter Niamh segura. A tua mãe era muito amada, sei que tu duvidas.

 

Olhei para ele, incapaz de encontrar palavras.

 

— Esse amuleto tem uma influência maligna e poderosa — disse ele solenemente. — Mas aqui, neste lugar, não pode desempenhar a tarefa para que foi desenhado. Por que não o tiras?

 

Fiquei gelada de medo.

 

— Não! — murmurei. — Não! Não posso! Nem sequer podemos estar a falar disso, senão...

 

— Senão ela ouve-nos? Olha em redor, Fainne. Liadan disse-me que o teu pai te educou no conhecimento druídico; um conhecimento do padrão de todas as existências. Olha em redor com os olhos do espírito. Aqui, todos os segredos ficam guardados.

 

Nem sequer queria pensar na possibilidade de aquilo ser verdade. Deixara-me aterrorizada ao sugerir que retirasse o amuleto ali, com Darragh tão perto; não sabia que a minha avó viria ter comigo mal eu tirasse o cordão do pescoço? Olhei no escuro para a poça, silenciosa.

 

— Tens medo de falar. Na verdade, carregas um grande fardo, demasiado grande para ti; no entanto, carrega-o estoicamente, Fainne. Deves essa força aos ensinamentos do teu pai, creio. Não precisas de dizer nada; se quiseres, podes ficar aqui em silêncio até de manhã. Não tens razão para confiar em mim. Compreendo isso. Talvez ajude se te disser que sei o que significa estar só; longe de todos, sem uma alma que compreenda o meu dilema; nem um único amigo para me ajudar. Quando estamos assim isolados precisamos de ser muito fortes para prosseguir. Houve tempos em que quase desisti. Tinha tantas esperanças; tantos sonhos, grandes e maravilhosos, antes de Lady Oonagh aparecer e me transformar para sempre. Queria endireitar o mundo. Queria transformar os tiranos em homens honestos. Queria pôr fim à crueldade e à opressão. Eram esses os sonhos de um rapaz da tua idade, Fainne. Antes dos vinte, o fogo desses sonhos transformou-se em cinzas frias e eu tornei-me no que vês perante ti: uma coisa, nem homem, nem animal, uma criatura entre dois mundos, sem lugar em nenhum deles. Mas continuo aqui. Não escolhi o caminho da faca pequena e afiada, ou a falésia e o vôo para o esquecimento.

 

— Porquê? Por que não? Ficou aqui por querer vingar-se dela? — As suas palavras chocaram-me e fascinaram-me e eu esqueci-me de ser cautelosa.

 

— Vingança? — Ele disse a palavra como se tivesse esquecido o seu significado. — Nunca pensei nisso. Se não tivemos a força para agir contra ela na ocasião, eu próprio, Conor e todos os outros juntos, como havia eu de a ter agora? Aconteceu há muito tempo. Sem dúvida, a feiticeira reforçou os poderes que foram desfeitos pela minha irmã. Não me atrevo a confrontá-la. Não conseguiria enfrentar isso uma segunda vez e perder de novo.

 

O seu rosto pálido estava calmo, mas havia um medo profundo por trás das suas palavras, que eu reconhecia, porque também o sentira ao olhar para os olhos cor de amora da minha avó.

 

Acenei com a cabeça.

 

— Nesse caso, por que razão continuou? — perguntei-lhe. Por que não acabou com tudo, como disse?

— Não tomaria esse caminho enquanto a minha irmã vivesse. Deitar fora a vida que ela reconquistara para nós seria desdenhar o seu sacrifício e o seu amor. Além disso, há o Johnny.

 

— Johnny? — Fiquei surpreendida. — Que tem ele a ver com isto?

 

Finbar sorriu. Pareceu-me que aquilo era uma coisa que ele fazia tão pouco, que quase esquecera como se fazia; como falar em voz alta.

 

— Ele é o Filho da Profecia, não é? Uma pessoa assim não pode crescer à solta. Não precisa, apenas, de desenvolver as forças do corpo. Conor podia ter feito melhor. Liadan arranjou-me um lugar seguro aqui. Eu não posso viver como os outros homens. Eu... eu não sou o mesmo de antigamente. Deves saber, como filha de Ciarán, que a mente de uma criatura selvagem difere da de um homem. Não sei aonde te levaram os ensinamentos do teu pai...?

 

— Já experimentei o que acaba de dizer — disse eu rigidamente. — Sei o que quer dizer. Há... instintos, que nos chamam com muita força. Pode ser difícil ignorá-los, ao mesmo tempo que tentamos ser nós próprios.

 

— Então, já sabes. E podes imaginar o que acontece comigo. Desde esses tempos, desde que a feiticeira nos transformou que eu possuo um pouco das duas naturezas, homem e cisne. Nunca estou livre desses medos: do frio, da fome, dos dentes de um cão. É por isso que vivo aqui e não visito a aldeia. Liadan tem sido uma pessoa avisada e tem-me tratado bem. Pareces duvidosa, pequena. A tua tia há de saber, com o tempo, de que fibra és feita.

 

— Como é que sabe? — perguntei-lhe. — Teve uma visão?

 

— Não. Mas acredito. Vejo que não tiras o feitiço de feiticeira que trazes ao pescoço. Diz-me para que serve.

 

Olhei em volta e baixei a voz. Fechei a mão sobre o amuleto e senti de novo a dureza fria do metal.

 

— Tem a certeza que é seguro? — murmurei.

 

— Absoluta, pequena.

 

— É que... é que ela pode ver-me — disse eu num fio de voz. — De modo que pode vir atrás de mim e certificar-se de que faço o que ela quer. Ela não me vigia o tempo todo. Mas se lhe apetecer ver-me e ouvir-me, consegue, desde que eu use isto. Fica mais quente quando ela está próxima e quando está a olhar. E... — hesitei. — E... eu acho que há também outro tipo de controle. A única vez em que o tirei, tornei-me, de novo, eu própria, como antes. Capaz de ver com clareza; capaz de me recordar que posso ser boa, sábia e fazer bons juízos. Quando o uso, é fácil ver as trevas que há em mim. Sem o cordão, sem o talismã da família, não sei como poderia prosseguir.

 

— Por que não tiras essa coisa imediatamente, se só faz o mal?

 

— Porque — disse eu com a voz trêmula — a única vez que o fiz, ela ficou muito zangada, veio ter comigo e castigou-me.

 

À luz trêmula da vela, pareceu-me ver o rosto pálido de Finbar ficar ainda mais branco. Não havia dúvida de que partilhava o meu medo e o compreendia.

 

— Castigou-te como?

 

— Primeiro, magoou-me. Depois, quando viu que não dava resultado, ameaçou... ameaçou os que amo. Ela... ela fez-me fazer coisas muito más. Coisas que nunca mais posso fazer de novo. Só há uma pessoa, além dela e de mim, que sabe de tudo. Eu tenho um mal terrível dentro de mim; nunca pensei que seria capaz de magoar um inocente, mas magoei. Por minha causa morreram três excelentes pessoas. E agora, hoje, o meu primo Coll está doente e não fui eu a causadora, mas Liadan não acredita em mim e vão-me mandar embora.

— Eu posso dizer-lhe...

 

— Não! Não, não faça isso. Eles não podem saber a verdade. Disse que era seguro...

 

— Não te atormentes. Eu não revelarei o que tu queres manter em segredo. Por que razão a feiticeira havia de querer magoar o teu primo? O rapaz ainda é uma criança.

 

— Para me punir — disse eu hesitantemente.

 

— Punir-te porquê?

 

— Por... por lhe desobedecer. Por ser lenta. Eu ainda não agi contra ela, diretamente. Mas ela tem razão para duvidar da minha lealdade e mostra o seu poder ameaçando os... aqueles de quem gosto. Assim, comanda as minhas ações. Eu tenho sido muito tola. Aproximei-me de Coll e dos outros. Só serviu para lhe fornecer munições novas. Fui estúpida. Já tinha obrigação de saber.

 

— Uma lição muito difícil — disse ele solenemente. — Mas, agora, gostaria que pensasses numa teoria. Não tenho a certeza de que funcione, mas tenho fé. Acredito que esse amuleto tem outro propósito, além desse. Não te vou perguntar nada acerca da tarefa que a feiticeira quer que tu leves a cabo; tenho uma idéia do que deve ser e compreendo as suspeitas de Liadan. Se fosse a ti, tentaria descobrir por que razão Lady Oonagh precisa tanto de te ter sob controlo. E aposto que esse feitiço é para ela, não só uma janela para os teus movimentos, mas também um freio para as tuas capacidades. Não é só o fato de ela poder limitar a tua força: uma força que provém de Ciarán, dela própria e de uma longa linhagem de humanos, de Fair Folk e dos próprios Fomhóire. Ela usa esse feitiço para te enfraquecer, porque sabe que tens a capacidade de a derrotar.

 

— O quê

 

— É só uma teoria. Pensa. Tu tiras o amuleto e imediatamente vês o teu caminho com clareza; és tu de novo, a filha de Ciarán, uma das filhas de Sevenwaters, forte e verdadeira. E ela vem logo a correr, antes que lhe escapes para sempre. Ela age assim por está aterrorizada com o que possas fazer. Uma vez, ela disse que eu era um velho inimigo e eu pensei no que isso significaria. Hoje, acho que ela viu nos meus olhos, mesmo quando me estava a transformar, a chama dos meus ideais de juventude: justiça, coragem, integridade. Talvez veja esse velho inimigo renascido em ti. Vê, de certeza, a tua força, porque tu possuis muitas coisas que eu nunca tive: a sabedoria de um druida, a arte de um feiticeiro e o sangue das quatro raças. O comportamento dela revela que sabe isto tudo e que o teme acima de tudo.

 

Afaguei o amuleto, distraída, e senti os lábios curvarem-se num sorriso hesitante.

 

— Acredita realmente nisso? Não está a dizê-lo só para me fazer sentir melhor?

 

A sua risada retiniu na abóbada silenciosa da gruta, espantando-me. Mas ele ficou de novo solene.

 

— Não, pequena. Isto são coisas grandes, importantes; assuntos desesperados. A mim, parece-me extremamente cruel que sejas tu a carregar esse fardo; mas tens uma grande força interior. Johnny também é forte, à sua maneira. — Ele suspirou. — Liadan teme pelo filho e com razão. Mas não é a ti que ela deve recear; deve recear, antes, a falta de prontidão dele para a tarefa que tem pela frente.

 

— Ele parece ser bom homem — disse eu hesitantemente, sem compreender. — Um líder, muito sábio apesar da idade, bravo e equilibrado. Pelo menos, tem a percepção de que tem de fazer mais do que levar apenas o seu exército à vitória. Mas... mas está triste, ao mesmo tempo.

 

Finbar acenou com a cabeça.

 

— Sabe o que é que ele tem de fazer? Compreende o que os Fair Folk querem? — perguntei-lhe. — Ouvi dizer... disseram-me... que havia uma referência a uma espécie de sentinela, um guardião. O Vigilante da Needle. Na ocasião pareceu-me estranho. Mas há uma ilha chamada Needle. E... e eles disseram que os velhos costumes morreriam. Que a sabedoria da terra e do oceano, e o percurso do Sol e da Lua se perderiam para sempre, a não ser que a sentinela lá continuasse. É isso, de algum modo, que Johnny tem de fazer?

 

Finbar olhava espantado para mim.

— Estou a ver — disse ele lentamente — que outros, para além de Lady Oonagh, te têm guiado os passos. Quem te revelou essas coisas? Os Fair Folk?

 

— Não — disse eu suavemente. — Uns anciãos mais pequenos; criaturas da terra e do mar. Fomhóire. Têm-me protegido desde que ajudei um da espécie deles através da arte. Mas, aqui, não estão.

 

— Eles estão em toda a parte, acho eu — disse Finbar. — Mas não se mostram assim sem mais nem menos. Isso que disseste é maravilhoso.

 

— O tio tem a Visão. Diga-me. Liadan diz que viu Johnny e que me viu a mim, no fim. E o tio, o que é que viu? O que é que nos vai acontecer?

 

Mas o homem com a asa de cisne apenas abanou a cabeça.

 

— Não te posso dizer — disse ele. — Creio que te cabe a ti determinar o caminho; fazer com que a Visão seja verdadeira.

— Verdadeira e brilhante — disse eu suavemente.

 

— Devias descansar — disse Finbar. — É tarde e está frio. Tenho aí algures um cobertor. De manhã, o teu amigo há de vir buscar-te.

 

Eu hesitei.

 

— É possível que eu não volte aqui. Eles querem mandar-me embora. O Chefe e Liadan. Até Johnny acredita que eu lancei um feitiço sobre o irmão, para o adoecer. Se... se não puder voltar a falar consigo, gostaria de não perder o meu tempo a dormir. Pergunto a mim própria se...?

 

— Pergunta, pequena. Se te puder ajudar...

 

— Preciso de recobrar a minha força. Para fazer o que tenho de fazer, preciso de... de empregar um ramo da arte que é um tanto perigoso para quem o executa. Só o fiz uma vez e tive ajuda. Compreende o que quero dizer?

 

Finbar acenou com a cabeça.

— Acho pouco provável Johnny vir a ser persuadido a incluir-te nas suas forças especiais. Para lá estar, precisas de te transformar. E voltar à forma primitiva, acho. A visão de Liadan era acerca de uma rapariga, não de um peixe, ou um gafanhoto.

 

— A minha prima Sibeal disse-me para ter cuidado com gatos. Haverá necessidade de atravessar mar e terra para estar perto dos homens, mas, ao mesmo tempo, ser capaz de retirar rapidamente. Creio que, desta vez, terei de me transformar numa ave.

 

— Muito perigoso. E cansativo. Assisti a uma coisa parecida em Sevenwaters. Os jovens druidas têm de experimentar metamorfoses como parte da disciplina. Mas são mais mentais do que físicas e são sempre vigiadas. Isto é diferente. Ciarán tinha um talento especial para coisas assim.

 

— Eu sei. Foi ele que me ensinou. E disse-me para não o usar. Mas não tenho escolha. No entanto, há uma dificuldade. Como é que recobro as forças e a arte com a rapidez necessária para agir depois de voltar à minha forma? Na última vez fiquei tão fraca como um bebê durante três dias, sem um fragmento de magia. Se isso acontecer de novo, não posso fazer o que deve ser feito.

 

— Imagino que o que Ciarán te ensinou vai consideravelmente além das minhas capacidades. No entanto, há técnicas que te ajudarão. Essas podes aprender. Mas não numa noite, Fainne.

— Nesse caso, posso regressar aqui para te visitar?

 

— Serás mais do que bem-vinda, pequena. Mas o tempo urge.

 

Pensei na boca cerrada do Chefe e nos olhos vermelhos de Liadan.

 

— Talvez só tenha esta noite — disse eu — se eles me mandarem embora.

 

— Não é isso que eu quero dizer. Porém, podemos começar. Qual é que achas que é o “caroço” do teu treino? A essência?

 

— O conhecimento.

 

— Então, como só temos uma noite, vamos utilizá-lo para nos concentrarmos. Eu não sou druida; não tenho essas coisas na memória. Mas sei ouvir e posso ajudar-te, libertando-te a mente do que a confunde. De manhã estarás mais forte. Depois, veremos.

Sentamo-nos de pernas cruzadas junto da poça subterrânea e ele apagou a lanterna.

 

Quando os nossos olhos se acostumaram à profunda escuridão da noite primaveril, as minúsculas estrelas refletidas na poça pareceram mais brilhantes e mais próximas, duplicados preciosos das suas irmãs celestes. Os olhos do corpo fixaram-se naqueles pontos de luz. Os olhos da mente moveram-se para cima e para baixo, pairando no reino abobadado por cima de nós. Com a voz transformada num sussurro na profunda quietude da gruta, comecei a litania das perguntas e respostas.

 

Quem foram os primeiros na terra de Erín?

 

Os Anciãos. Os Fomhóire. Um povo das profundezas do oceano, dos poços e dos lagos. Gente do mar e dos mais escuros recônditos da terra. E quem veio depois?

 

Os FirBolg. Os homens-saco.

 

E depois deles?

 

Depois deles vieram os Túatha DéDanann, de Oeste...

Não se pode recitar todo o conhecimento numa noite. São precisos dezenove anos, na floresta, para que um homem, ou uma mulher, se tornem druidas; e muitas estações para memorizar a antiga sabedoria. Eu mal lhe toquei, mas continuei firmemente até pouco antes da madrugada, quando o céu começou a clarear e o primeiro e hesitante gorjeio flutuar no ar calmo, quando as aves começam a chamar o Sol. Finbar estava sentado, muito quieto a ouvir e eu sentia uma profunda calma, que parecia fluir da sua mente para a minha, como se, durante algum tempo, fôssemos apenas um. Ao mesmo tempo que os meus lábios repetiam as palavras rituais, os meus pensamentos eram visitados por imagens do passado, coisas boas que eu tinha quase esquecido. Lá estava o meu pai, o rosto pálido, de capa negra, os cabelos da cor de uma fogueira do solstício, mostrando a uma rapariguita como apontar o dedo e fazer com que umas pedrinhas subissem uma encosta. Nômades em viagem, de lenços coloridos, rindo, e uma criança escondida nos arbustos, observando e esperando. Maeve, sorrindo tristemente enquanto eu acomodo Riona a seu lado e me sento para lhe contar uma história. O som de uma gaita-de-foles. Algures, um pônei branco e um xale com as cores do arco-íris. E... muito débil, a pequena imagem de uma mulher, uma jovem frágil com grandes olhos azuis e cabelos cor de mel até à cintura. Sentada na areia, uma criança desenhando letras com o dedo e olhando, depois, para cima e a mulher a dizer: Muito bem, Fainne, sorrindo para a criança. Aquelas imagens iam e vinham enquanto eu continuava a litania. Senti o seu calor no coração e durante algum tempo não senti medo.

 

Lá fora o dia nascia. Calei-me. Finbar levantou-se, encheu a caneca e colocou-ma na mão. Reparei, de novo, como a água era fria; dava à cabeça uma estranha claridade.

 

— Não bebe? — perguntei-lhe. Ele abanou a cabeça.

 

— Parece que já não preciso dessas coisas. Comida, bebida, uma cama macia para passar a noite. Suponho que é estranho. Mas estou acostumado.

Bocejei.

 

— Que está a dizer? Que transcendeu a necessidade de um apoio físico e que vive apenas espiritualmente?

 

— Nada de tão impressionante, receio bem. Não sei dizer o que é; apenas que não consigo viver como um ou como o outro, como homem e como ave. No entanto, vivo. O castigo dela foi, no meu caso, muito efetivo, foi para a vida toda.

 

— Diga-me uma coisa. — Ele esperou polidamente.

 

— O tio estava tão assustado como eu quando deu de caras comigo. Eu ouvi-o. Mas decidiu confiar em mim, imediatamente. Não compreendo.

 

— Uma parte de mim vive assediada por medos, Fainne. Tenho medo dos sons das criaturas selvagens; tenho medo do gelo do lago; tenho medo do toque humano. A tua mão, na escuridão, teria sido o suficiente. Mas o teu rosto...

— O meu rosto? Sou assim tão monstruosa?

 

— Olhei para os teus olhos e vi os olhos de uma feiticeira — disse ele com uma sombra de voz. — Sem necessidade de qualquer luz, vi-os antes de eu próprio os ver. Isso fez-me recordar um momento de terror que nunca me chegou a deixar: o momento da mudança irrevogável. A perda da consciência humana; o roubo de vidas jovens e a destruição da inocência da minha irmã.

 

— L... lamento — disse eu inadequadamente. — Talvez eu me pareça com ela. Lamento se o assustei. Mas...

 

— Aprendi a olhar com profundidade. Liadan tinha razão para estar preocupada contigo. Eu acho que tu tens o poder de criar e de destruir; e só escolherás o caminho no fim.

 

As suas palavras chocaram-me e falei sem qualquer precaução.

 

— Serei suficientemente forte. Tenho de ser. De qualquer modo, dificilmente me poderá julgar. A sua vida parece a de uma criatura que está sempre escondida; sábia, talvez, mas é um triste fim para um jovem que um dia ardeu com o desejo de tornar o mundo melhor. Que aconteceu a esse fogo, que o tio fechou aqui, por baixo da terra?

Espantara-o, não havia dúvida. Provavelmente, nunca ninguém lhe tinha falado daquela maneira. Na verdade, fiquei instantaneamente arrependida. Ele fora tão amável comigo.

 

Finbar puxou para trás a capa gasta para mostrar a asa branca. Olhou para ela, como se fosse ao mesmo tempo um fardo e, ao mesmo tempo, um amigo.

 

— Eu não posso entrar no mundo dos homens — disse ele calmamente. — Uma deformidade destas chama não só a atenção, mas é também ridícula, motivo de chacota; um lugar, talvez, numa feira algures, para as pessoas me verem e deixarem que os seus filhos me atirem fruta podre. Seria uma mó no pescoço da minha família; embaraço, apenas. Aqui, posso partilhar as coisas que sei e o que sou longe das pessoas. É melhor assim.

 

— Disparate! — disse-lhe eu de modo cortante. — Aquilo a que chama deformidade é um sinal de honra. Um sinal da sua força e resistência, selecionando-o para um grande objetivo. Se permitir que os seus sonhos de rapaz morram, se se esquecer do que foi em tempos, a minha avó triunfou, na verdade, sobre o seu velho inimigo. Aqui, esconde-se da vida. No entanto, pede-me que vá em frente e tente ter uma visão. E a sua? Nós somos da mesma família. Certamente, todos nós temos um papel a desempenhar.

 

Seguiu-se um longo silêncio. Finbar olhou para mim e eu reparei como ele estava magro, um espectro, os ossos do rosto aparecendo por baixo da pele branca. Os seus estranhos olhos pálidos estavam raiados de sombra e o seu cabelo escuro estava baço e desgrenhado, como se nunca se tivesse preocupado em tratar dele.

— Mas eu sou um velho — disse ele, por fim.

 

— Em anos, talvez. Mas não parece. Na verdade, não parece mais velho do que o meu tio Sean. E pensa degenerar e morrer aqui. Que perda.

 

Ele não me respondeu. Ofendera-o, sem dúvida. As minhas palavras tinham sido uma fraca recompensa pela sua paciência e compreensão. Estava a formular uma desculpa quando se ouviu uma voz familiar a chamar no exterior.

 

— Fainne! Fainne, onde estás? — Franzi o sobrolho.

 

— Por que o mandaram a ele? — perguntei, irritada. — Fizera tudo para o evitar e agora teria de regressar com ele. Eu podia muito bem ir sozinha — resmunguei.

 

— Vem — disse Finbar calmamente. — Eu levo-te até à entrada. Quem é ele?

 

— Um amigo — funguei eu enquanto o seguia ao longo do túnel sombrio apenas iluminado pela luz da madrugada. — Seguiu-me até Inis Eala e agora não se quer ir embora. Mas tem de ir. E o tio sabe porquê.

Finbar não fez qualquer comentário, mas após uns momentos disse:

 

— Suponho que ele está aqui com um objetivo. Em todo o caso, pode ser que já seja demasiado tarde.

 

— Demasiado tarde?

 

— Demasiado tarde para o mandar embora.

 

Emergimos da entrada do túnel para uma manhã pálida e límpida. Longas nuvens esfarrapadas, tingidas de cor-de-rosa, enchiam o céu e os pássaros já tinham acordado, cantando energicamente em coro para o novo dia. E lá estava Darragh à minha espera, vestido de cinzento, o mesmo cinzento dos homens de Johnny. Pelo menos, pensei sinistramente, não tinha o rosto tatuado. Os seus olhos honestos e o seu sorriso doce continuavam os mesmos.

 

— Fainne! Estás bem, então. — O alívio no seu tom era indisfarçável.

— É claro que estou bem. Não era preciso teres vindo.

 

— Obrigado por teres vindo, meu rapaz. — Finbar falou de um modo um pouco estranho, como se não estivesse habituado a estranhos. — Eu sou tio de Fainne e asseguro-te que a tua amiga esteve em boas mãos. Agora, é melhor irem para casa e dizerem ao pequenito que penso nele e que vou visitá-lo assim que estiver melhor.

 

Então, Darragh deu um passo em frente, estendeu a mão num gesto de cumprimento e Finbar, nitidamente espantado, apertou-lha.

 

— Obrigado, meu senhor — disse Darragh, sorrindo. Nem uma única vez olhou para a asa de cisne; era como se não fosse diferente de outra parte qualquer do corpo do homem. — Obrigado por ter tomado conta dela. Ela nunca soube olhar por si própria como deve ser.

 

Nas feições austeras de Finbar apareceu um pequeníssimo sorriso.

 

— E tu tencionas fazer isso por ela — observou ele secamente. Darragh retirou a mão.

 

— Pode parecer ridículo um nômade misturado com guerreiros, senhores e visionários. Mas eu faço o que devo fazer. Se a estrada me trouxe aqui, é aqui que devo estar.

Finbar acenou com a cabeça. Mas já não sorria.

 

— Desde que compreendas a escolha que fizeste. Uma escolha muito difícil; com muitos perigos e poucas recompensas.

 

— Não é isso que me vai impedir — disse Darragh. Finbar virou-se para mim.

 

— Adeus, Fainne.

 

— Adeus e... obrigada.

 

— Se calhar, eu é que te devo agradecer. Foi uma visita muito esclarecedora. Não estava nada à espera.

 

Dito aquilo, Finbar voltou a entrar no túnel e desapareceu.

— É melhor irmos andando — disse Darragh, subitamente inquieto. — Tens a tua capa? Está frio e ventoso.

 

— Deixa-te de espalhafato, está bem? — disse eu, enquanto a tranqüilidade e a certeza do conhecimento começavam a desvanecer-se, substituídos pelos medos e pressentimentos familiares. Uma grande caminhada ao ar livre e eu com o amuleto.

 

Os meus dedos moveram-se para o tocar; não parecia estar quente. No entanto, era preciso despacharmo-nos.

 

— Faço uma corrida contigo até àqueles arbustos — disse Darragh inesperadamente. — É uma boa maneira de aquecermos. Pronta? Um, dois, três!

 

Os velhos hábitos levam tempo a morrer. Corri pelo estreito carreiro pedregoso, coxeando e sabendo que nunca lhe poderia ganhar. Corri o mais depressa que pude, coisa nada fácil depois de uma noite sem dormir. E ainda não comera nada. Podia ouvir os seus passos suaves atrás de mim, mesmo nas minhas costas.

 

Chegamos às rochas juntos. Juntos, os nossos dedos estenderam-se para tocar ao mesmo tempo na superfície rochosa. Era assim que terminavam todas as nossas corridas de infância; com ele sempre impassível, nada afetado. Darragh esperou que eu recobrasse o fôlego. O vento afastava-lhe os cabelos escuros do rosto; a luz dourada da madrugada espalhava um brilho quente pela pele suave das suas faces e da sua fronte.

 

— Estava preocupado — disse ele. — Fugiste.

 

— Que havia de fazer? Ficar ali enquanto me acusavam de uma coisa que não fiz? Eles disseram que fui eu que fiz aquilo a Coll. Não é verdade. E agora o Chefe quer mandar-me embora.

 

— Já recuperaste o fôlego? Ótimo. É melhor irmos andando.

 

— Darragh? — murmurei.

 

— Sim?

 

— Coll. Ele...?

A sua expressão era grave.

 

— Eles não dizem grande coisa. Ele ainda está vivo, isso eu sei. Saberemos mais quando lá chegarmos.

 

Fiquei silenciosa, cheia de pensamentos sombrios.

 

— Eu disse-lhes — disse Darragh. — Eu disse-lhes que não foste tu.

 

— Tu o quê?

 

— Eles ficaram preocupados quando tu fugiste. Johnny perguntou-me se sabia para onde tu tinhas ido. Eu exigi uma explicação; e ele deu-me uma. Depois, fui ter com o Chefe e com a tua tia e disse-lhes que tu nunca poderias ter feito uma coisa daquelas.

 

Arrisquei um olhar de relance para ele.

— Por que é que disseste isso? Sabes melhor do que ninguém do que eu sou capaz. És o único a saber. Morreram pessoas. Por que me defendeste? Não sabias.

 

— Sabia — disse Darragh muito calmamente, dando-me a mão para me ajudar a passar por cima de um muro de pedra. — Não foste tu, pois não?

 

— É claro que não!

 

— Nesse caso...

 

— De qualquer modo, por que razão lhes foste dizer? Não é o que queres? Que eles me mandem embora?

 

Seguiu-se um pequeno silêncio.

 

— Pára com isso, Caracóis — disse ele asperamente. — Pára de lutar comigo. Pensas que não me dói, mas dói e eu não sei se consigo agüentar isto por muito mais tempo. Eu sei que não me queres aqui. Sei que estás zangada comigo por ter vindo. Mas continuamos a ser amigos, não? Não devias precisar de me perguntar essas coisas. Seja o que for que eu queira, não vou permitir que eles te castiguem por uma coisa que não fizeste. Qualquer pessoa vê que tu gostas do miúdo. Eu limitei-me a dizer a verdade, mais nada, e não o lamento. É sempre melhor dizer a verdade, mesmo se, com isso, não conseguimos o que queremos.

 

Eu não disse nada. A sua bondade enchia-me de vergonha. Subimos as pequenas colinas, atravessamos os pequenos vales, passamos pelos pastos escassos e pelas cabras descendo ao longo de carreiros íngremes sobre o mar. Tínhamos de nos apressar, mas, no entanto, de certo modo, eu queria ir devagar, porque as recordações enchiam-me a mente, recordações de Kerry, quando o mundo era um lugar simples e dois amigos podiam passar o dia inteiro ao ar livre sem qualquer temor ou estranheza mútuos. Apareceram, à distância, as primeiras casas da aldeia.

 

Caminhávamos em silêncio há já algum tempo. Então, ambos abrandamos o passo.

 

— Fainne? — Darragh parecia muito sério.

 

— O que é?

 

— Tu sabes que, em breve, me vou embora. No fim de contas, é para isso que aqui estou. Para ser um guerreiro. Vai haver uma missão e uma batalha. Quero que me dês a tua palavra em como vais ter cuidado contigo enquanto estou fora. Olha por ti e pensa antes de fazer as coisas e... e tem cuidado. Quero que esperes aqui na ilha por mim.

Olhei para ele sem compreender.

 

— Esperar por ti? Creio que não posso prometer isso. Esperar porquê? — As suas faces coraram.

 

— Esperava que... que quanto tudo acabasse, a batalha e tudo o mais, me deixasses levar-te para casa. Para Kerry. Gostaria de fazer isso. Para junto do teu pai, de novo.

 

— Eu sei que não posso ter tudo o que quero; foi o que ele disse, o visionário, não foi? Mas eu gostava muito que tu ficasses livre de perigo, em casa, onde pertences. Vais comigo depois do Verão?

 

Ele fizera-me aquela oferta uma vez, eu dissera que não e sentira o coração chorar com saudades de casa. Mas, agora, senti apenas uma frieza desesperada.

 

— Não te posso prometer nada. Não sei o que vai acontecer; mas acho que nunca mais regressarei à enseada, Darragh. Cometeste um erro ao vir aqui. Acho que vais ficar desapontado.

 

— Ah, isso é que não. Eu estou aqui, tu estás aqui. É melhor do que nada. E estás aqui a falar comigo. Já é qualquer coisa. Se me esforçar, talvez por ocasião de Lugnasad consiga um sorriso. Seria ótimo.

 

— D... desculpa. Não tenho grandes razões para sorrir.

 

— Há sempre uma razão qualquer para sorrir, Caracóis. Coisas tolas; coisas boas. O som de um assobio à tardinha; a luz no cabelo de uma rapariga. Uma piada entre amigos. Tu é que te esqueceste, mais nada. Ah, o que é que se passa agora? Perturbei-te. Não foi minha intenção.

 

Era estranho como as suas palavras pareciam ter entrado numa pequena parte de mim e despertado sentimentos que eu queria deixar adormecidos, de maneira a poder continuar com o que tinha de fazer. A dor era tanta que levei as mãos ao rosto, com medo das lágrimas. Elas estavam lá, logo abaixo da superfície. Mas a filha de um feiticeiro não chora.

 

— O que é, Caracóis? O que é que se passa? — Gentilmente, os seus dedos agarraram-me nas mãos e afastaram-nas do rosto. — Diz-me, querida. Diz-me o que se passa.

 

— N... não posso — murmurei, incapaz de não lhe olhar para os olhos, cheios de preocupação e algo mais que eu não queria interpretar. — Não te posso dizer.

 

— Podes sim. Nós somos amigos, não somos? — Uma das mãos aproximou-se para me afastar os cabelos das têmporas e ficou ali, afagando docemente.

 

— Eu... eu não quero que sofras. — Aquele pequeno murmúrio escapou-me apesar de todos os meus esforços. — Se te acontecer alguma coisa a culpa é minha e eu não sei se conseguirei suportar isso. — Fechei os lábios com força para impedir que mais palavras tolas se escapassem. O seu toque era de uma doçura tão grande que me senti derreter e tive medo de fazer uma coisa ainda mais estúpida, que era pôr-lhe os braços à volta do pescoço e abraçá-lo com muita força para o manter sempre junto de mim. Que se passava comigo? Dera em fraca à última da hora? Pestanejei e recuei.

 

— É melhor irmos — disse eu com um esforço terrível. A minha voz tremia como um vidoeiro no Outono. — Não devia ter dito o que disse. Por favor, esquece.

 

Recomecei a andar, a capa bem enrolada em redor do corpo. E Darragh caminhou a meu lado, calado, mantendo o mesmo passo.

 

— Talvez tu não possas prometer — disse ele uns momentos depois — mas eu posso. Prometo que nunca te deixarei sozinha. A não ser que não queiras. É só desta vez, é só esta campanha, porque dei a minha palavra a Johnny. Depois, será tudo diferente. Juro, Fainne. Não precisas de ter medo por mim. Estarei sempre presente quando precisares de mim. Sempre.

 

Quando ele disse aquela palavra, uma nuvem tapou o sol matinal. Seria um acidente?

Uma grande ave escura passou por cima de nós, gritando asperamente enquanto caminhávamos na direção da aldeia no mais completo silêncio. Seria um acaso?

 

Ainda era muito cedo; no entanto, já havia pessoas na rua. O fumo subia pelas chaminés e havia no ar um cheiro a peixe frito e panquecas. Os homens carregavam coisas na direção da enseada, decidida e silenciosamente. Johnny estava sentado numas pedras junto da muralha exterior, afiando uma faca e tendo a seu lado, empoleirado, um grande corvo. O animal virou a cabeça para o lado e fixou os seus pequenos e intensos olhos em mim.

 

— Fiacha! — exclamei. O meu coração bateu com força. — O meu pai está cá? — perguntei, dividida entre o medo e uma esperança impossível.

 

— Só o pássaro — disse Johnny metendo a faca na bainha. — A mãe disse que era provável que ele te fosse familiar, como foi para mim, um dia. Há muito tempo, tanto que já nem me lembro; ainda era bebê. O animal está aqui por alguma razão; segue-me por toda a parte. Talvez tenha uma mensagem para ti.

 

— Não me parece. Nunca consegui comunicar com esse corvo, mas também não estou muito interessada. Fiacha tem um bico muito aguçado. Falo por experiência própria.

 

Os meus dedos moveram-se instintivamente para tocarem no ombro, por baixo do vestido, onde o pássaro me picara há muito tempo. Tinha-me doído e, desde então, nunca mais gostara dele.

 

— E Coll, como é que ele está? — perguntei, fazendo um esforço.

 

— Melhor — disse Johnny com indiferença. — Está a comer papas de aveia e a resmungar por a mãe dizer que tem de ficar de cama.

 

Apeteceu-me dizer uma quantidade de coisas quando a imensa maré de alívio me percorreu, mas contive-me. De que valeria? Darragh estava menos circunspeto.

 

— Nesse caso, acho que deves a Fainne uma desculpa. — Ele olhou a direito para Johnny, de boca cerrada e olhos semicerrados; nunca vira aquela expressão no seu rosto.

 

— Tudo bem, Darragh — disse eu pousando-lhe uma mão no braço. — Foi um erro razoável, atendendo às circunstâncias.

 

— Não está nada tudo bem. — A sua voz era firme. — Tu ficaste perturbada e assustada. Está longe de estar bem. A tua tia devia pedir-te desculpa, se Johnny não o fizer.

— Infelizmente — disse Johnny suavemente — isto não prova nada. Fainne é tão capaz de desfazer este tipo de feitiços como de os fazer. Sei-o por experiência própria, amigo. E agora, já que estamos aqui, diz-me porque foste buscá-la sozinho em vez de levar Godric contigo? Não compreendes as ordens que te dão?

 

Darragh corou. Não gostei nada de o ver zangado. Ele nunca se zangava.

 

— Johnny — disse eu, metendo-me entre os dois. — Eu não dormi e não como nada desde o pequeno-almoço de ontem. Não quero saber do que pensas; sei qual é a verdade, Darragh também sabe e isso é suficiente para nós. Eu quero ir ver Coll e depois quero descansar. E Darragh tem trabalho para fazer, sem dúvida. Podemos parar com isto, por favor?

 

Johnny sorriu e olhou de relance para Darragh.

 

— Ela sempre foi assim? — perguntou ele.

 

Mas Darragh tinha o sobrolho franzido e não respondeu. Em vez disso, virou-se para mim com muita calma:

— Ficas bem?

 

Eu acenei com a cabeça, não confiando suficientemente em mim para responder.

 

Então, ele afastou-se sem uma palavra e um momento depois Johnny seguiu-o. O pássaro abriu as suas grandes asas brilhantes e voou atarás dele, em círculos, umas vezes à frente, outras vezes atrás. E eu esperei que a sua ligação com o meu pai fizesse dele mais um amigo do que um inimigo.

 

Coll estava mesmo melhor. Estava sentado na cama ainda um pouco corado, enquanto Liadan lhe ajustava as almofadas.

 

— Fainne! — exclamou ele quando eu entrei. Gull estava presente, empacotando coisas que estavam nas prateleiras, tintura e emplastros, pomadas e ungüentos. Sorriu para mim, os dentes brancos brilhando na pele escura como a noite. As suas mãos defeituosas moviam-se agilmente quando pegava num frasco minúsculo ou numa tigela delicada. — Onde tens estado? — continuou Coll. Os seus olhos estavam extremamente brilhantes; mas a mudança era notável.

 

— Na ponta norte — disse eu avançando até à cabeceira da cama. Coll deitou-se; a mãe aconchegou-lhe o cobertor, tapando-lhe o peito. Eu olhei para ela e ela devolveu-me o olhar calmamente. Não havia maneira de saber o que pensava, mas não vi uma desculpa nos seus olhos.

— Posso sentar-me um bocadinho? — perguntei-lhe.

 

Liadan acenou com a cabeça.

 

— Está bem, Fainne. Mas só um bocadinho.

 

Liadan levantou-se e foi ajudar Gull. Começaram uma conversa qualquer acerca de ferimentos de facas e se a verbena, ou a tintura eram melhores contra os maus humores.

 

— Foste mesmo até à ponta norte? — perguntou Coll. — Sozinha? De noite?

 

— Sim.

 

— Não tiveste medo.

— Por que havia de ter medo?

 

— Podias ter caído de uma falésia, ou partido uma perna. E o tio Finbar?

 

— Não fales tanto — disse-lhe eu firmemente. — Estiveste muito doente. Tens de descansar e ficar melhor para recomeçarmos as nossas lições, antes que te esqueças do que te ensinei.

 

Coll suspirou.

 

— Lições! Talvez seja melhor ficar na cama. Fainne?

 

— Hum?

 

— Eles disseram que talvez te fosses embora. Vais-te embora? — Olhei para Liadan.

— Não sei, Coll — disse eu.

 

— Talvez ainda não. — O tom da minha tia era solene. — Se continuares a fazer progressos com as tuas letras, pode ser que a deixemos ficar mais um pouco. Além disso, vou precisar da ajuda dela.

 

— Ótimo — disse Coll de modo sonolento. — Estou contente por não te ires embora. Isso aqui vai ficar tão calmo como uma tumba depois de toda a gente se ir embora. Até Cormack vai. — O garoto fechou os olhos.

 

Tardiamente, apercebi-me de uma coisa terrível. Os homens transportando fardos para a enseada. Gull empacotando medicamentos. Finbar dizendo que não havia tempo.

 

— Tia Liadan? — perguntei com a voz a tremer.

 

— O que é, Fainne?

 

— A... a campanha. Não era suposto ser só no Verão? — Seguiu-se uma espécie de silêncio delicado. Então, Gull falou.

— O Chefe joga com informações falsas — disse ele apertando a tampa de uma pequeno frasco de barro e metendo-o no fundo do saco. — Oficialmente é no Verão. Mas estamos para partir a qualquer hora e parece que vai ser agora.

 

— A... agora? Quer dizer... agora mesmo? Hoje? — O meu coração falhou um batimento.

 

Aquilo queria dizer que teria de fazer a transformação sem preparação, sem qualquer ajuda. Queria dizer que antes da madrugada veria Darragh entrar num daqueles barcos e navegar para a batalha.

 

— Amanhã — disse Liadan. — Hoje vamos fazer uma festa para nos despedirmos. Bran não irá enquanto Coll estiver em perigo. Mas...

 

— É tão cedo — disse eu, tremendo. — Tão cedo. Nunca pensei que fosse já.

 

Liadan surpreendeu-me. Sentou-se na cama a meu lado e passou-me um braço pelos ombros.

— Não é fácil dizer-lhes adeus — disse ela. — É como morrer um pouco; pedimos aos deuses por eles. Os homens não sabem o que é esperar. As mulheres suportam-no porque têm de o fazer. É o preço do amor. Suponho que, para ti, é a primeira despedida.

 

— Entre mim e ele não há nada disso — disse eu ferozmente, porque a sua amabilidade ainda era pior do que a sua desaprovação. — Ele não devia ir, mais nada. Ele não sabe o que está a fazer. Pelo menos, estes homens, Johnny e Snake, e o Chefe, pelo menos são guerreiros. É a profissão deles. Darragh é... é um inocente.

 

— Ah sim. — A mão de Liadan subiu e tocou-me no cabelo, afastando-o um pouco do meu rosto. Eu devia estar um susto, com olheiras e os caracóis todos emaranhados por causa do vento. — Por vezes, os inocentes passam por um campo de batalha incólumes, Fainne. É essa mesma qualidade que os protege. Esperemos que regressem todos sãos, salvos e vitoriosos. Mas, agora, acho que Coll precisa de descansar. E tu deves estar exausta e cheia de fome. Biddy e Annie levantaram-se cedo e devem ter feito um ótimo pequeno-almoço. Por que é que não vais comer, gozar um pouco de companhia e depois dormir um pouco? Não podes mudar o que vai acontecer.

 

Gull tinha acabado de empacotar tudo e estava a atar o saco.

 

— Foi alguma vez com eles? — perguntei à minha tia. — Eles devem precisar desesperadamente de curandeiros nestas ocasiões.

— Um campo de batalha não é lugar para uma mulher. Mas, se me deixassem, ia, acredita; é como ter uma faca espetada no coração saber que estão longe, em perigo. Mas Bran nunca o permitiria. É demasiado perigoso. Gull vai com eles; é ele que vai tratar dos ferimentos deles. Entretanto, eu trato das coisas por aqui.

 

— Liadan?

 

Ela olhou para mim, mas eu não encontrei palavras para o que queria dizer. Ela sorriu levemente numa espécie de reconhecimento.

 

— Finbar disse-me que não temos outra hipótese se não confiar em ti — disse ela. — Se ele confia, suponho que também eu posso confiar. Tem mais razões para ter medo do que eu. E agora, vai. E não faças má cara. Temos de nos despedir destes homens com sorrisos e confiança e não com lágrimas. Essas ficam para depois, quando ficarmos sozinhas.

 

Comi, mas não muito. Sentia uma dor no estômago. Dormi e fui visitada por sonhos tão maus que nem os posso contar aqui. Acordei, lavei o rosto e mudei de roupa.

 

Penteei os cabelos de modo a caírem-me pelas costas abaixo. Em seguida saí e sentei-me no alto da falésia por cima da baía e pensei nas aves. O tempo estava calmo. Os barcos estavam fundeados, prontos para partir. Havia três grandes e muitos mais pequenos, alguns carregados de sacos e fardos e outros vazios. Suponho que levariam armas. Suprimentos. Deveriam acampar algures, no caminho. Não fazia a mínima idéia onde seria e eles não me tinham deixado olhar para os mapas.

Teria de voar e teria de ir logo a seguir a eles, porque, se não os encontrasse, atravessaria aquela extensão toda de água até as minhas asas se cansarem e eu cair nas presas de uma criatura marinha qualquer. Isso se não morresse antes de frio. Pensei nos homens nadando de noite e estremeci. Certamente que no Verão seria melhor. Por que não tinham esperado até Beltane, pelo menos? O ar estava gelado; e o mar devia estar implacável.

 

Aves. Aves marinhas: gaivotas, andorinhas-do-mar, albatrozes. Boas para longas distâncias através do oceano, abençoadas com resistência e força. Mas talvez não tão boas em terra. Demasiado barulhentas; demasiado selvagens. Talvez fosse necessário aproximar-me; talvez fosse essencial ser discreta. Uma carriça; um pardal. Não. Demasiado vulneráveis, demasiado fracos. Um jantar saboroso para um predador alado qualquer. Sim, talvez um caçador, um açor, ou uma águia. Mas também não me pareceu. Qual era a ave mais pequena, mais simples, com pouco medo do homem e capaz de voar longas distâncias? Havia uns pequenos pássaros cinzentos em Kerry; apareciam, por vezes, quando eu estava sentada à sombra das pedras, pavoneando-se e olhando para mim na esperança de que eu tivesse alguns grãos, ou um pedaço de pão. Umas coisinhas rechonchudas, de cabeças e bicos pequenos. Chamavam-lhes pombos das rochas. As pessoas, por vezes, não enviavam pombos com mensagens? Mas havia a empada de pombo. Mas, se calhar, no sítio para qual nós íamos, as pessoas não gostavam muito de cozinhar. Um pombo era um pássaro pequeno, mas não demasiado pequeno. Tinha uma voz suave e doce e uma plumagem modesta, discreta. E voava muito bem. Era isso, então. Assim que eles partissem, faria a transformação e sem qualquer ajuda. E, no outro lado, teria de ser suficientemente forte.

 

Aquela gente já se tinha despedido muitas vezes antes, mas, mesmo para eles, era uma coisa pouco vulgar. Das outras vezes, era um grupo de homens que partia para uma missão qualquer, regressando algum tempo depois com uma baixa ou duas e um ou dois feridos, um sem um olho e o outro com um braço ferido, ou talvez um ombro. Estavam habituados a isso, disse-me Biddy enquanto estávamos sentadas na cozinha comigo a comer uma tigela de sopa. Não me podia dar ao luxo, naquela manhã, de estar fraca com uma jornada daquelas pela frente. Naqueles dias, continuou Biddy, antes de o Chefe vir para Inis Eala, andavam fugidos o tempo todo, nunca estavam seguros, andavam sempre escondidos, ou arriscando as vidas numa missão impossível qualquer. Tinham a reputação de conseguir o que os outros não conseguiam. Ela já perdera um bom homem; só lhe restava esperar não perder outro.

 

Graças ao Chefe, os seus filhos tinham um ofício, não eram guerreiros, ficando, assim, na ilha. Mas Gull tinha de ir: não o podia impedir. A sua primeira lealdade era para com Johnny, disse ela retorcidamente enquanto borrifava com rosmaninho um carneiro que Annie virava no espeto. Johnny era filho do Chefe e o Chefe dera uma vida a Gull. Ela compreendia isso. O que não impedia que Gull fosse um perfeito idiota e ela havia de lho dizer. Um homem que já tinha passado os quarenta era demasiado velho para fazer um tal disparate e não merecia que uma mulher lhe mantivesse a cama quente para quando regressasse.

 

Mas desta vez era algo mais. Nunca antes, desde que tinham vindo para a ilha, construído a escola e a comunidade, tinham ido tantos para uma missão. O seu trabalho era ensinar as artes da guerra e não irem eles próprios para a guerra. Dizia-se que o Chefe não queria que eles fizessem parte daquele empreendimento. Ele, agora, era um proprietário, com responsabilidades diferentes, instalado em Harrowfield. Continuava a interessar-se por Inis Eala porque não o podia evitar; estava-lhe no sangue. Mas quisera ficar de fora daquela missão. Mas Sean de Sevenwaters era da família e eles deviam-lhe muito. Fora Sean que os ajudara a estabelecerem-se; que passara palavra no sentido de que, se alguém precisasse de homens bem treinados, seria em Inis Eala que os encontraria. E Sean era irmão de Liadan. Além disso havia Johnny, que era o herdeiro de Sevenwaters. E havia a profecia. E assim lá foram, todos eles, menos os velhos, os mais novos e aqueles cujo ofício não estava ligado às armas. Todos os jovens que nos tinham guardado de modo tão silencioso e inteligente; todo aquele bando estranho e capaz, com os seus estranhos nomes e trajes coloridos. Até o jovem Cormack foi; esse era, na verdade, um guerreiro.

 

Houve uma festa com carneiro, galinhas recheadas com alho e um pudim com especiarias e frutos. Houve cerveja, mas não em abundância; era preciso que as cabeças estivessem límpidas para poderem partir de madrugada. E depois houve música. Sam e Ciem tocaram até mais não poderem; a mulher da harpa excedeu-se, primeiro com uma giga e um reel e depois com uma ária flutuando das cordas tão docemente como uma música de fadas. Quando ela terminou alguém falou em dançar e a banda recomeçou.

Como era a última noite, parecia que homens e mulheres se podiam tocar, havia olhares e palavras sussurradas. Como os seus homens estavam ocupados com o assobio e o bodhrán, Brenna e Annie dançaram uma com a outra, dando risadinhas.

 

Os jovens puseram-se em pé e de repente não havia uma mulher no salão que não estivesse a girar e a bater palmas ao som da música enérgica e do ritmo trepidante. E a atividade não estava apenas reservada ao jovens. A grande Biddy dançou com o alto e magro Spider; a rapariga que criava galinhas andou às voltas com o feroz e cheio de cicatrizes Snake, resplandecente na sua túnica de pele de serpente. Gull levou Liadan para a pista, os dois rindo como velhos amigos. O Chefe não dançava.

 

Estava sentado muito quieto, os olhos cinzentos sempre fixos na figura esbelta e vestida com simplicidade da sua mulher enquanto ela passava por baixo do braço de Gull, ou girava graciosamente em redor dele, ou dava passos intrincados com ele por entre as filas de dançarinos. Eu compreendia o olhar do Chefe, intenso, esfomeado.

 

Estava a armazenar recordações, que durassem até regressar e tomá-la nos braços uma vez mais.

 

Johnny aproximou-se sorrindo, pediu-me para dançar e eu recusei polidamente.

Então, Gareth tentou o mesmo, tropeçando nas palavras, corando e eu disse que estava cansada. Corentin olhou para mim de sobrancelhas escuras franzidas e olhou para Darragh, mas não se aproximou. Darragh não dançava. Estava sentado perto de mim, mas não demasiado perto e eu podia ver, pela maneira como os seus pés batiam no chão e os dedos estalavam que estava mortinho por fazer parte da festa. Aquele rapaz respirava música. Mas não se levantou e eu também não. O reel acabou e Liadan aproximou-se, corada e a sorrir, do Chefe. Não olharam um para o outro; a mão dele, simplesmente, estendeu-se para agarrar a dela quando ela se sentou a seu lado e as duas figuras aproximaram-se uma da outra. Como era a última noite, não se preocupavam com o que os outros pudessem pensar, já que o tempo era pouco. Mais uma! pediu o loiro Godric, que tinha Brenna como par. Aquilo demonstrava uma certa coragem, já que o namorado dela, Sam, estaria a observar cada movimento enquanto o seu braço de ferreiro batia no bodhrán. Mas o tocador de harpa estava cansado, queria descansar e beber um pouco de cerveja e Ciem dissera que era tempo de dançar um pouco com Annie.

 

— Darragh! — gritou Godric, sentindo-se frustrado. — Não disseste que sabias tocar gaita-de-foles? Que tal uma moda?

 

Darragh sorriu ligeiramente.

 

— Está guardada — disse ele.

 

— Então, vai buscá-la. Não há nada melhor do que uma gaita-de-foles para dançar.

Aquilo era verdade. Podia ver, pela expressão dos rostos de todos, que esperavam ouvir os sons rudes e trapalhões de um rapaz que teria aprendido a tocar em romarias, copiando o que ouvia na ocasião, ou talvez por tentativa. Poderia ter-lhes dito o contrário, mas não houve necessidade. Em breve, Darragh enchia o fole, metia-o debaixo do braço, os seus longos e finos dedos começavam a voar sobre os orifícios da cana e um rio de melodia enchia o ar, calando as vozes no grande salão.

 

Ficaram todos quietos e calados, até que Sam começou a bater o ritmo para a giga, os mais velhos juntaram-se batendo palmas e a dança recomeçou.

 

Armazenando recordações. O Chefe não era o único. Ele precisaria das suas até ao fim da campanha. Achei que as minhas teriam de ser para sempre. Mas não precisava de olhar para Darragh para perceber que não as poderia ter. Podia fechar os olhos e deixar que o som da gaita-de-foles formasse a imagem por mim: um rapaz de cabelos escuros em cima do seu belo pônei branco e por cima dele o grande e pálido céu de Kerry, o ar suave e o som do mar.

 

— Tudo bem, miúda?

 

Pestanejei e olhei para cima. Biddy estava ali ao pé de mim, ofegante do esforço, o rosto doce e largo muito corado e umas madeixas de cabelo formando um halo brilhante.

 

— Estás branca como o leite; espero que não estejas a adoecer.

— Estou bem. — Pelo menos, estava até Darragh ter terminado a frenética giga e com um olhar de relance para mim ter começado um lento lamento. A dança parou; os risos e as conversas morreram. Os pares ficaram de pé, mão na mão, ou sentados, muito quietos, os olhares adoçaram-se e aqui e a ali caiu uma lágrima enquanto a melodia pairava e descia tão graciosamente como uma andorinha, transformada em fina filigrana de luz e sombra pelo padrão intrincado da decoração do salão. Uma boa canção, tal como uma boa história, fala a cada ouvinte de maneira diferente. Faz surgir o que vai no espírito de cada um; acorda o que ele mal sabe ter lá dentro, tão tapado está pela desordem da vida de todos os dias, pela capa da auto-proteção.

 

Darragh tocava com o coração, como sempre e no fim descobri que, simplesmente, não conseguia suportar. Um pouco mais e choraria, ou gritaria, ou arrancaria o amuleto, gritando que não poderia fazê-lo e que ninguém me poderia obrigar. Mas fora bem treinada. Levantei-me silenciosamente e saí. Não para muito longe. Sentei-me no muro da horta, por baixo da Lua pálida. Lá dentro o lamento continuava; uma canção de amor e dor; uma canção de adeus, que falava do que podia ter sido. Cerrei os dentes, envolvi-me nos meus próprios braços e recordei a mim própria que era filha de um feiticeiro e que tinha uma tarefa para fazer. Tinha de esquecer que era uma mulher e que Darragh era um homem e lembrar-me de que no dia seguinte seria uma criatura do ar, voando sobre o mar traiçoeiro. Tinha de me lembrar da minha avó e do mal que ela forjara; uma família quase destruída e uma casa despedaçada.

 

Finbar, um jovem transformado num fantasma ambulante. A morte das esperanças da minha mãe e dos sonhos do meu pai; tudo começara com ela. Tinha de me lembrar do que ela me obrigara a fazer e do que me obrigara a ser. Se isso não me desse a força de que precisava, estaria, então, perdida.

 

A música cessou. As luzes apagaram-se; as pessoas começaram a sair do grande salão e encaminharam-se para as suas camas. Eu esperaria, pensei, até que Brenna e as outras estivessem deitadas para entrar depois, silenciosamente. Não me apetecia falar. Precisava de todas as minhas forças, de toda a esperança e de toda a confiança. Mas, em vez disso, senti-me só, desanimada e cheia de medo. Como poderia transformar-me se não tinha fé? Agora que a música cessara, tinha de respirar fundo, como o meu pai me ensinara: lentamente, a partir da barriga; em três fases, como a água de uma grande cascata. E outra vez. O controle era tudo. Sem controle ficava à mercê de sentimentos e os sentimentos não eram outra coisa senão um obstáculo.

 

— Fainne?

 

Dei um salto. Ele estava ali na minha frente, eu não o ouvira nem vira.

 

— Assustaste-me! De qualquer modo, não podes estar aqui sozinho comigo, pelo menos de noite. É contra as regras.

 

— Que regras? — perguntou Darragh, erguendo-se para cima do muro a meu lado. — É melhor termos uma conversa. De manhã não temos tempo. Assustei-te mesmo?

 

— É claro que não.

 

— Saíste. Pensei que gostavas de me ouvir tocar.

— A música entristeceu-me. Darragh, é melhor ires-te embora, ou vou eu. Ainda há luzes acesas e há pessoas na rua. Pode alguém ver-nos.

 

— Somos apenas dois amigos a conversar, mais nada. Onde está o mal?

 

— Sabes muito bem que não é só isso. E agora vai-te embora, por favor. Não tornes isto mais difícil do que já é. — A minha voz tremia. Precisava de todas as minhas forças para não olhar para ele. Darragh não disse nada durante alguns momentos. Então, deslizou do muro e virou-se para olhar para mim, os seus olhos ao nível dos meus, para que não os pudesse evitar.

 

— Não é só isso? Que queres dizer? — A sua voz soava muito doce na escuridão. Por trás dele, através da porta meio aberta, podia ver o brilho da luz de uma lanterna e ouvir as vozes de Biddy e de Gull preparando-se para se deitarem.

 

— Nada. Esquece. Por favor.

 

— Que quiseste dizer com isso, Caracóis? — Ele estendeu uma mão, ergueu-me o queixo com ela e o seu olhar fez-me sentir extremamente esquisita. Fez-me querer fazer coisas que eu sabia não poder fazer.

— Não te posso dizer. — Olhei para ele, mantive as mãos muito quietas no colo e comecei a respirar profundamente: para dentro, dois, três; para fora, dois, três. Controle. Consegui não erguer uma mão para lhe tocar. Consegui não lhe rodear o pescoço com os braços e encostar o meu rosto ao dele, cedendo à grande onda de calor e desejo que me percorria o corpo. Era cruel. Por um instante, pensei que podia conseguir o que tanto desejava. Podia sorrir-lhe como sorrira a Eamonn, pedir-lhe que fechasse os olhos e beijá-lo como a minha avó me ensinara, de um modo que fazia com que um homem ardesse de desejo por uma mulher e fizesse tudo para a ter. E podia, também, fazer barulho, fazendo com que Gull, ou Biddy saíssem e nos apanhassem ali. Então, mandariam Darragh embora e eu ter-lhe-ia salvo a vida. Mas não o podia fazer; nem sequer por essa razão. Ele era meu amigo. Era a única pessoa do mundo em quem eu confiava para além do meu pai. Não podia abastardar o que havia entre nós. Porém, o que mais desejava naquele momento, com todo o meu ser, era apertá-lo contra mim e despedir-me como namorada dele, com palavras ternas e o calor do meu corpo. Mantive-me muito quieta. Não disse nada. Mas não podia esconder os meus olhos.

 

— Caracóis? — disse Darragh cuidadosamente, como se tivesse visto algo em que não conseguia acreditar.

 

Toca-me outra vez, disse uma voz dentro de mim apesar de todos os meus esforços.

 

Põe os teus braços em redor da minha cintura e abraça-me. Só uma vez. Só esta vez. Mas Darragh virou as costas, cruzou os braços e a sua voz, quando falou, tremia com um sentimento qualquer que eu não conseguia compreender.

— É melhor ires — disse ele. — Vai, Fainne. Já é tarde. É melhor ires. — Deslizei do muro, subitamente frio. Que fizera eu de errado? Ele parecia zangado; no entanto, pensei...

 

— Vai, Fainne. — Ele continuava de costas voltadas para mim, de braços cruzados, como se a idéia de olhar para mim, ou de me tocar, fosse, subitamente, repugnante. Não sabia que podia doer tanto; era como se tudo o que me restava da minha infância se tivesse transformado em cinzas. Estendi uma mão e, por um instante, ela ficou pousada na manga dele.

 

— É melhor não fazeres isso — disse ele numa voz que me pareceu chocada e afastou-se como um cavalo nervoso.

 

— Nesse caso, boa-noite. — Fiz um esforço para que as palavras saíssem e lutei para conseguir controlar a respiração. Tinha de ser forte para a manhã seguinte, para a jornada. Não me podia permitir aquilo. Estava a desfazer-me por dentro.

 

— Adeus, Fainne. Não te metas em sarilhos enquanto eu estiver ausente.

 

Darragh continuava a não olhar para mim. Mas a sua voz era a mesma de sempre, forte e verdadeira. Afastei-me antes de dizer algo de que me arrependeria para sempre.

 

Passei pela grande casa onde Gull e Biddy estavam sentados à lareira, conversando docemente juntos. Todos faziam as suas despedidas, mas achei que nenhumas eram tão terríveis, ou definitivas, como as minhas. Cheguei à pequena cabana onde dormia, entrei e deitei-me na enxerga de olhos abertos. Duas das raparigas já ressonavam suavemente. A voz de Brenna chegou até mim num sussurro.

 

— Estás bem, Fainne?

 

— Hum — disse eu e puxei o cobertor para cima do rosto. Não estava nada bem e parecia-me que nunca viria a estar. Tinha feito tantas coisas erradas. Tinha magoado tanta gente, tal como dissera a criatura-mocho. A nós parece-nos que te estás nas tintas para as baixas que deixas para trás. Mas eu preocupava-me, o problema era esse. Era isso que me fazia resistir. Sentimentos. Amizade. Lealdade. Amor. Era muito mais fácil para uma feiticeira como a minha avó, que se estava nas tintas para o que deixava para trás. O que interessa é o poder, dizia ela. Quase conseguia ouvi-la naquele momento, bem dentro de mim; uma voz baixa, sombria, há muito tempo adormecida e agora, mais uma vez, acordada. Tens de compreender isso, Fainne.

 

Adormeci de dentes e olhos cerrados e o corpo feito numa pequena bola por baixo do cobertor. Sonhei com o fogo.

 

Darragh tivera razão. De manhã não houve tempo. Levantei-me antes da madrugada e ao sair do edifício da escola vi luzes na baía e ouvi passos ordenados de homens nos degraus. Ouvi velas a estalarem; a brisa de norte já soprava. À luz de uma vela encontrei um bocado de pergaminho, tirei a tampa do tinteiro e peguei na pena. Que havia de escrever? Como havia de dizer aquilo? Por fim, fui breve. Tenho de me afastar por algum tempo. Peço desculpa. Assinei o meu nome e espalhei areia pela folha para secar a tinta. Dobrei e selei a mensagem, escrevi o nome de Liadan na parte da frente e coloquei-a num sítio onde o padre, ou o druida, a encontrariam. Em seguida, fui até ao local que escolhera, uma estreita plataforma logo abaixo do topo da falésia, de frente para a baía. Um maciço de arbustos raquíticos esconder-me-ia, dando-me, ao mesmo tempo, uma vista parcial da frota preparando-se para a partida.

 

Talvez devesse ter escolhido umas roupas mais próprias, visando o meu destino.

 

Talvez devesse ter roubado qualquer coisa de Cormack; vestida de guerreiro teria mais hipóteses de permanecer discreta quando regressasse à minha forma. Mas, em vez disso, estava corajosamente vestida. Usava um vestido simples às riscas azuis e verdes, a espécie de vestido que as raparigas nômades usam em ocasiões especiais, como uma feira de cavalos, por exemplo. Por cima tinha o xale mais bonito de todo o Erin, magnífico com as belas criaturas pintadas com todas as cores do arco-íris.

 

Tinha os cabelos soltos; os primeiros raios do Sol da manhã, tornavam-nos vermelhos. Estava vestida para mostrar que era eu própria, não pertencia a ninguém. Mas continuava a usar o amuleto, porque ia deixar aquele local de proteção e ia partir para o desconhecido. Sabia que, se o tirasse, ela apareceria. Ela não podia vir, pelo menos por enquanto. Tinha de me ver e acreditar que eu era leal até ao fim, desconhecendo o poder do cordão da minha mãe, desconhecendo que, por fim, eu começara a reconhecer a força que tinha em mim, a força que recebera do meu pai e da minha mãe. Não era ao mesmo tempo uma feiticeira e uma filha de Sevenwaters, uma poderosa mistura? Como a minha avó dissera, tudo tinha de acontecer de acordo com a profecia até ao fim, mesmo até ao fim. Então, compreenderia como tinha escolhido mal o seu instrumento de vingança.

 

Levava Riona metida no cinto; não a podia deixar para trás. Esperei enquanto os homens desciam e embarcavam; esperei enquanto as mulheres acenavam e diziam adeus. Esperei até os remos entrarem na água escura, até o vento encher as velas e os barcos começarem a navegar para leste, para fora da baía e para mar aberto. Então, fechei os olhos e disse as palavras do feitiço. Com todo o meu ser, mente corpo, espírito, pensei: pomba. As palavras do feitiço vibraram através do meu corpo. Senti o poder na ponta dos dedos, nas solas dos pés, nos cabelos, para cima e para baixo na espinha, como uma grande corrente, transportando-me. Abri os olhos, abri as asas e voei.