A Filha da Profecia

Juliet Marillier · Capítulo 12 de 17

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A Filha da Profecia

Capítulo Doze

 

 

Se a minha mente não andasse ocupada, ter-me-ia lembrado que, para se chegar a uma ilha, é preciso ir de barco, que um barco deve estar no mar e que, apesar de ter crescido na costa de Kerry, tinha medo do mar. Só quando chegamos a uma pequena aldeia fortificada no alto de uma falésia profundamente recortada e olhei para uma ilha, a norte, e vi a considerável extensão de água de aspecto turbulento entre nós e aquele lugar inóspito, é que senti os órgãos vitais revolverem-se de terror. Mas não permitiria que o meu primo, ou a minha tia, ou um único daqueles jovens e sombrios guerreiros soubesse da minha fraqueza. Havia uma baía e um ancoradouro. Também este estava muito bem guardado por homens quase todos mais velhos do que o bando de Johnny e de aspecto extremamente estranho. Não usavam capuzes, máscaras, ou uniforme, antes trajes personalizados feitos de pele de raposa ou coelho, de uma coisa parecida com pele de serpente, e onde o couro, a prata e o bronze desempenhavam diversos papéis na sua confecção. Até os homens, em si, eram distintos, com a pele tatuada como os guerreiros mais novos, mas cada um deles possuía um toque extraordinariamente pessoal: cabelos até à cintura penteados para trás e atados com uma fita; uma cabeça meio rapada; um anel perfurando um sobrolho, ou um nariz; um colar de penas escuras. Apesar da sua aparência espetacular, comportavam-se como profissionais, fazendo o seu trabalho com rapidez, calmamente e sem espalhafato. Tratavam Liadan como se ela fosse uma rainha. Quanto a mim, trataram-me com grande respeito, sem uma piscadela, um assobio ou um comentário despropositado, apesar da conversa de Johnny acerca de prováveis pretendentes. Senti, no entanto, um exame minucioso por parte de um sujeito cujo nome me pareceu ser Snake, um homem de meia-idade, de aspecto ameaçador, cujos olhos se semicerraram nas feições duras enquanto me ajudava a entrar para um barco extremamente pequeno e que balouçava de modo alarmante, assegurando-se de que ficava sentada ao meio, de modo a não atrapalhar ninguém. Os homens remaram. O barco subiu e desceu. Fiz um grande esforço para manter os olhos abertos e as feições calmas enquanto o meu estômago se retorcia e o meu rosto se enchia de gotas de suor. Apertei as mãos uma contra a outra e vi a ilha a aproximar-se. Não olhei para trás. Pensei que estava a fazer boa figura até o sujeito chamado Snake dizer, olhando na minha direção:

— É melhor teres cuidado com as serpentes marinhas. Nestes dias assim, costumam aparecer.

 

Olhei para ele horrorizada, o coração a bater com toda a força, e depois para além dele, para as grandes vagas e os misteriosos e escuros vales entre elas, onde esperava ver aparecer uma coisa qualquer. Então, Liadan olhou para mim, depois para ele e disse asperamente:

 

— Que vergonha, Snake, atormentar a pobre rapariga dessa maneira! Já tens idade para ter juízo.

 

Snake sorriu para ela.

 

— Estamos quase a chegar — disse ele num tom diferente.

 

Liadan acenou com a cabeça. Os seus olhos estavam fixos na ilha e havia uma brilhante antecipação neles, que lhe dava um ar de mulher bastante mais nova.

Eu não sabia o que esperar. Pelo menos, esperava que o marido estivesse à espera dela no embarcadouro, apesar de não ter ido ao outro lado buscá-la. Mas, se bem que estivessem ali muitos homens para nos ajudar a sair do barco e carregar a nossa bagagem por uns degraus íngremes acima, talhados na falésia, não vi nenhuma figura que correspondesse às minhas expectativas. Havia um jovem muito parecido com Johnny, com o mesmo sorriso encantador e olhar firme. Recebeu Liadan com um beijo em cada face; filho dela, portanto, aquele que as pequenas tinham dito imaginar-se um grande guerreiro. A mim parecia-me mesmo um guerreiro, com o seu rosto duro e maneiras seguras, para não falar da grande faca e do machado de arremesso que trazia à cintura. E havia um rapaz, este parecido com o meu tio Sean, de pele pálida e cabelos escuros encaracolados que lhe caíam para os olhos. Devia ser o mais novo, Coll. Eles eram quatro, mas um estava em Harrowfield. Onde estava o pai deles? Liadan parecia imperturbável. Os homens juntaram-se para a cumprimentarem; os sorrisos eram muitos, mas havia também uma espécie de deferência que os mantinha a uma certa distância, como se não se achassem dignos de se aproximar. Subimos os degraus; eram vinte e sete. As minhas pernas doíam-me.

 

No topo havia um planalto desprovido de árvores na sua maior parte e um grupo de edifícios baixos rodeado por uma robusta parede de pedra. À distância, os contornos da ilha erguiam-se e desciam e os agrupamentos rochosos, cheios de espuma do mar, pareciam guardar buracos, praias secretas, talvez grutas.

 

— É um lugar selvagem — disse uma voz calma à minha direita. — Mas é um bom lugar, depois de o conhecermos.

 

Olhei em volta. O homem que falara tinha a pele tão escura como o carvão e uma dentadura muito branca, na qual faltavam dois dentes. Usava uma pena no cabelo entrançado.

— Bem-vinda à ilha — disse ele. — Suponho que já conheces o meu filho.

 

Olhei para ele por um momento, retomei a compostura e tentei adivinhar.

 

— Evan? Eu... sim, conheço.

 

Ele estendeu uma mão, eu apertei-lha e senti imediatamente um defeito; o seu aperto era muito firme, mas a sua mão só tinha três dedos.

 

— Vamos — disse ele — vamos para casa, para comeres qualquer coisa e para te arranjarmos um lugar para dormires. É uma coisa rara aqui na ilha, a visita de uma jovem dama. O meu nome é Gull; com o tempo, conhecer-nos-ás a todos.

 

Liadan desaparecera; Johnny e os irmãos tinham desaparecido no meio do grupo de homens, que seguiam na direção do maior dos edifícios de pedra. Mais longe, podia ver algumas ovelhas a pastar; fumo a sair de uma chaminé; roupas a secar ao vento.

 

Uma cena confortavelmente doméstica, apesar de remota.

— Que espécie de lugar é este? — perguntei enquanto seguia Gull para dentro de casa. — Que fazem aqui?

 

Ele fez uma pausa e olhou para mim com as escuras sobrancelhas erguidas.

 

— Fizeste este caminho todo sem perguntar? É uma espécie de escola, miúda. Uma escola como muitas outras desde Wessex a Orkney, de Munster às costas mais longínquas da Gália. Podes chamar-lhe uma escola de guerra. Mas é mais do que isso. Muito mais. Mas, vais querer beber qualquer coisa e um lugar qualquer para descansar. Biddy!

 

A casa era quase exclusivamente um espaço aberto, mobiliado com grandes mesas e bancos. Num dos cantos havia um espaço para cozinhar e nele uma grande mulher, de olhar competente e rosto doce, enchia de sopa as gamelas dos homens, cada um à vez.

 

— A jovem dama está aqui — disse-lhe Gull. — A sobrinha de Liadan, Fainne.

 

Portanto, sabiam da minha vinda; até sabiam o meu nome. Os mensageiros de Johnny eram eficientes.

— A minha mulher Biddy — acrescentou Gull. — Ela toma conta de ti. Senta-te aqui, descansa.

 

Mas eu estava a olhar para além da entrada da cozinha, para um pequeno jardim com um muro em volta, um local abrigado, onde as ervas e os vegetais cresciam a despeito do ar do mar. Através da soleira podia ver a minha tia Liadan e um homem que devia ser o Chefe, porque estavam os dois perfeitamente imóveis, abraçados e de olhos fechados, como dois jovens que tivessem descoberto pela primeira vez o amor.

 

As mãos dele estavam enterradas nos cabelos sedosos dela, que tinham escapado da fita e lhe caíam pelas costas. A testa dela descansava na curva do pescoço dele. Eu tinha a certeza de que nenhum deles estava consciente de outra coisa que não aquele abraço e o bater de ambos os corações. Não conseguia desviar o olhar e não era só o intrincado desenho, finamente gravado, que parecia cobrir um dos lados do corpo daquele homem que me prendia a atenção, por mais espantoso que fosse. Nunca pensara que um homem e uma mulher de trinta e cinco anos de idade, ou mais, pudessem possuir tais sentimentos um pelo outro, fazendo com que tudo o mais desaparecesse das suas mentes. Pensava que o amor era uma fantasia, uma ilusão da juventude, como a paixão que destruíra o meu pai e a minha mãe, ou o rubor e os olhares tímidos de Muirrin para o seu apaixonado, que, certamente, não durariam muito mais após o casamento e a perda da graciosidade da juventude devido às tarefas domésticas e à família. Era por isso que olhava, sabendo, do fundo do meu coração, que o que estava a ver era tão encantador e contínuo quanto totalmente inesperado. Enchia-me de uma estranha e dolorosa tristeza.

 

— Ela não o cumprimenta diante das outras pessoas — disse Biddy docemente. E, estendendo uma mão, fechou a porta para que aqueles dois não fossem perturbados por olhares indiscretos. Corei de embaraço.

— Não faz mal, miúda — acrescentou ela amavelmente. — E agora, queres um pouco de cerveja? Um pouco de sopa? E vamos arranjar-te uma cama. Que sabes fazer? Costura? Cozinha? Aqui, todos trabalham.

 

— Eu... bem, dizem que sou muito boa a cuidar de crianças — disse eu, atrapalhada. Aquela gente parecia imensamente competente, à semelhança de Liadan e dos filhos. Procurei na memória qualquer coisa que pudesse ser útil. Não lhe podia dizer que podia usar a magia para acender o fogo da cozinha, ou, talvez, transformar pedras num armazém novo. — E sei ler e escrever, um pouco. E sou capaz de apanhar peixe com uma linha.

 

— A sério? — sorriu Biddy. — Não vais demorar muito a encontrar um marido com esses talentos. Eu tenho dois filhos já crescidos, para além de Evan. Ferreiros, os dois, bastante fortes. Aposto que vai haver competição, com uma coisinha bonita como tu a andar por entre as ovelhas e a cozinha. Olha, estás a corar. Bebe a tua cerveja, miúda. Aqui estás segura. Temos regras e as pessoas cumprem-nas. Os rapazes adoram o chão que Johnny pisa. Nenhum deles põe em risco o seu lugar aqui na ilha; nem pela rapariga mais linda do mundo.

 

A vida, ali, era diferente. As pessoas talvez pensassem que não me sentiria à vontade, que não me adaptaria àquele lugar desagradável, com os seus ventos fortes, falésias perigosas e isolamento, para não falar das atividades perigosas dos seus habitantes masculinos. Mas não sabiam nada acerca da maneira como fora criada.

 

Talvez fosse no lado oposto da terra, mas, em muitas coisas, Inis Eala era como Kerry. Aqui, nenhuma floresta encobria a luz. Acordava ao som do mar na pequena cabana que partilhava com três outras raparigas solteiras. Tinha o meu próprio canto.

Elas acabaram por descobrir que eu preferia estar sozinha. De qualquer modo, havia sempre trabalho. Uma rapariga ajudava Biddy na cozinha; outra parecia ter jeito para tudo, quer fosse matar e depenar galinhas, ou arrancar marisco das rochas com uma faca. A terceira rapariga, Brenna, era alfageme. Devo ter erguido as sobrancelhas, surpreendida; ela disse com orgulho que fora a profissão do pai e, quando ele morrera, ela, por assim dizer, ocupara o seu lugar. Agora, era um dos melhores alfagemes do Ulter. Se não fosse, não estaria ali. Na ilha só se usavam armas da melhor qualidade.

 

Algumas das coisas, em Inis Eala, eram executadas abertamente. Havia uma padaria e uma forja; havia um lugar na baía onde pareciam estar a construir barcos grandes e pequenos. Havia um telheiro onde o peixe era seco e fumado. Havia uma enfermaria dirigida pelo homem chamado Gull, aquele que usava uma pena no cabelo e só tinha cinco dedos nas duas mãos. Havia um padre cristão e um druida. Estes dois passavam a maior parte do tempo juntos, em debates amigáveis. Ambos executavam rituais: as pessoas, ou assistiam aos de um, aos do outro, ou a nenhum, conforme lhes apetecia. Havia uma pequena latoaria, um lugar onde se fiava e tecia e um outro onde se faziam velas.

 

E depois havia as outras coisas, razão pelas quais todos estavam na ilha. Apercebi-me disso na forja, onde dois fortes homens, chamados Sam e Ciem, fabricavam não só forquilhas, pás e ferramentas para trabalhar o solo pedregoso, mas também uma grande variedade de armas: espadas, pontas de lança, punhais, machados de arremesso e numerosos outros artigos que eu não me atrevia a adivinhar para que serviriam. Sam e Ciem eram filhos de Biddy, mas não de Gull. Ambos eram brancos, louros, de faces rosadas como duas leiteiras e possuíam braços grossos como troncos de árvores. À noitinha, depois da ceia, Sam tocava bodhrãn, Ciem assobio e eu ficava espantada por aqueles dois gigantes possuírem uma leveza de toque tão grande. Havia uma mulher que tocava uma harpa de joelho, mas não havia nenhum tocador de gaita-de-foles. Enquanto o vento de Inverno assobiava lá fora e o mar rugia, as pessoas batiam palmas, cantavam e algumas vezes dançavam abrigadas naquele aconchegante edifício e ao calor da lareira. Eu não dançava. Olhava.

Observava e pensava como as coisas podiam ser tão diferentes do que imaginara.

 

Aquele homem, por exemplo, o Chefe. Bran, era esse o seu nome, mas só Liadan o chamava assim. Em tempos, pensei que ele seria uma peça facilmente sacrificável no jogo; pensei em deixar Eamonn destruí-lo, quebrar a aliança e, assim, fazer com que perdesse a batalha. Dissera à minha avó que o faria. Pois, que sabia eu acerca do homem até então? Tinham-me dito que ele era um foragido, escumalha; que roubara cruelmente a apaixonada de Eamonn e lhe arruinara a vida. Era considerado, pelo menos, um pouco estranho. Fizera tantos inimigos ao longo dos anos, que jamais poderia regressar a Sevenwaters. Mas, mais estranho ainda, conseguia, ao mesmo tempo, ser o senhor de um grande domínio na Bretanha, o que era, certamente, uma coisa incrível. Esperava um enigma. Mas ninguém me dissera que a mulher desse homem o amava mais do que à própria vida. Não sabia que os seus filhos o respeitavam e admiravam; que a sua gente o via como um homem acima do comum dos mortais. À medida que o tempo ia passando em Inis Eala, ia-me apercebendo de que, se bem que Johnny administrasse o local, o taciturno e ameaçador Chefe era o pilar de toda a comunidade, a força que garantia o sucesso da campanha. E que campanha; apesar do tempo inclemente, os homens chegavam e partiam de barco, por trás dos altos muros do pátio o treino fazia-se até à perfeição e por trás de portas fechadas ensinava-se outra coisa: a leitura de mapas, a espionagem, o conhecimento de venenos e antídotos, subterfúgios e disfarces. Todos tinham de conhecer um pouco de tudo. Entretanto, havia regras e uma das principais era o secretismo. Ainda bem que já não precisava de arranjar informações para Eamonn, porque não o poderia ter feito sem me transformar. E não o podia tentar sem levantar suspeitas a Liadan. Ela vigiava-me de perto; outro período de doença misteriosa denunciar-me-ia. Estava imensamente grata a Johnny por me ter trazido para Inis Eala, onde não precisava de pensar em Eamonn.

 

O Chefe não era grande coisa para que se olhasse. Havia aquelas tatuagens flamejantes, é certo; aquilo era uma obra de arte, cobrindo-lhe toda a parte direita do corpo, desde a cabeça rapada à ponta dos dedos da mão e do pé. Mas, à parte isso, ele era muito parecido com Johnny, um homem pequeno, muito bem constituído e de perspicazes olhos cinzentos. A sua boca era dura; não tinha o sorriso encantador do filho. As únicas vezes que havia alguma doçura nas suas feições era quando olhava para Liadan e, mesmo então, eu achava que ele não queria que outros vissem tal fraqueza na sua imagem severa. Mas revelava-se através de pequenos toques, pequenos olhares. Era evidente que não conseguiam estar muito tempo longe um do outro. E ele procurava sempre solenemente a opinião dela; tratava-a sempre como igual, devendo sempre ser consultada e respeitada. Eu não gostava muito dele, mas gostava daquilo.

 

Havia um círculo restrito, um grupo de homens mais idosos que parecia representar o papel principal nos conselhos e tomada de decisões e que tinham o controlo de vários aspectos da campanha. As visitas do Chefe eram raras; o seu domínio de Harrowfield necessitava da sua presença e ele e Liadan passavam a maior parte do seu tempo em casa, em Northumbria. Era esse grupo de homens, liderado por Johnny, que dirigia o trabalho em Inis Eala. Uma coisa que partilhavam era os nomes estranhos, que não eram nomes de homens, mas sim de animais selvagens.

 

Além de Gull, o curandeiro, e de Snake, que tratava dos assuntos da guerra, havia guerreiros chamados Spider, Rat, ou Wolf. Os mais novos não tinham tal pretensão, se bem que os seus nomes tivessem uma variedade de origens muito grande:

 

Corentin, Sigurd e Waerfrith; Mikka, Gareth e Godric. Algum tempo depois, Biddy explicou-me amavelmente que nos velhos tempos, quando o Chefe fundou a sua força de guerra, os homens que se juntaram a ele puseram de lado os nomes que traziam e assumiram uma nova identidade. Os seus nomes de animais não diziam nada acerca das suas origens, ou história; só falavam das qualidades de cada um, como por exemplo a lealdade de um cão, ou a habilidade de uma gaivota para voar e ver longe. A esses nomes juntavam uma marca própria: a tatuagem gravada na pele, que era ao mesmo tempo um símbolo de pertença e de feroz individualidade. Agora, que já tinham assentado, por assim dizer, já não precisavam dos nomes; mas até os mais novos tinham as tatuagens. Podia saber-se quem estivera com o Chefe desde o princípio pelos nomes. E podia saber-se quem provara ter valor pela pele. Todos respondiam perante Johnny; a sua juventude não era impedimento à sua autoridade.

 

Havia trabalho para mim. A escrita, por exemplo. Demonstrei a minha capacidade quando me exigiram e foram-me designadas tarefas. Nada que dissesse respeito à estratégia e coisas da guerra, claro; nada que dissesse respeito à campanha do Verão ou a outro assunto secreto. O padre e o druida tratavam desses assuntos. Nem me foram dados mapas para que trabalhasse neles, se bem que os mapas e as cartas marítimas fossem muito usados pelo círculo restrito. No entanto, havia livros para serem copiados, cartas que diziam respeito a importações domésticas e registros para serem arquivados. Havia as contas da comunidade, um trabalho entediante, mas que, para mim, era tão fácil que até o podia fazer de olhos fechados e ainda receber elogios. Faziam-me perguntas acerca de quem me tinha ensinado, eu dizia-lhes que fora um druida e tentava não pensar no meu pai.

 

E como mencionara, tolamente, crianças, fiquei encarregue do meu primo Coll. Fora idéia de Johnny, não da sua mãe. Talvez, pensei sinistramente, fosse uma espécie de teste. Descobri rapidamente que os rapazes são algo diferentes das raparigas. Não se pode esperar que escutem histórias como as que eu tinha no meu repertório, nem que mordam a língua de concentração a costurar, ou que brinquem com bonecas. Na verdade, eu própria nunca fizera tais coisas quando era criança. Riona sempre me parecera mais uma companheira de aventuras do que uma coisa para brincar.

 

Estávamos no Inverno e Coll andava inquieto. Era demasiado novo para aprender as artes da guerra; não se concentrava durante muito tempo na aprendizagem das letras com o estilete e a cera; achava o jogo das pedras aborrecido; não gostava de tocar assobio. Em vez disso, ia até à janela fechada, espreitava pelas gretas para a tempestade no exterior e suspirava pesadamente. Eu via nos seus olhos o anseio do Verão, que fazia eco em mim própria como muitas vezes antes.

 

Estava a tentar copiar um livro acerca do conhecimento das ervas. Era em Latim e eu ia traduzindo enquanto escrevia, o que requeria muita concentração. Coll estava sempre a interromper. Conseguia imaginá-lo com Eilis. No fim, pousei a pena e fui ter com ele à janela.

— Quando o tempo melhorar — disse eu esperançosa, olhando para o exterior, para o céu cinzento — talvez me possas mostrar o resto da ilha. Aposto que há grutas e praias visitadas pelas sereias. Costumas ir até à ponta? — No exterior, a paisagem estava velada por uma cortina de nevoeiro e chuva.

 

— Às vezes — disse ele cautelosamente.

 

— Só às vezes? É muito perigoso? — As falésias, lá, eram, certamente, mais altas. As vagas explodiam, brancas, quando rebentavam nas rochas. Porém, não eram mais íngremes do que no Favo de Mel.

 

— Claro que não — disse Coll de imediato, franzindo o sobrolho. Realmente, ele era muito parecido com o tio Sean; um rosto longo e magro, sobrancelhas escuras e cabelos pretos encaracolados. Olhei para ele muito séria. Mais um como Sibeal? Certamente que não. Este era... era... bem, para dizer a verdade, ele era muito rapaz. Lembrei-me de uma coisa que a minha avó me disse uma vez acerca dos filhos que poderiam ter nascido se o meu pai tivesse escolhido Liadan em vez da irmã. Se Liadan tivesse tido uma filha, pensei cautelosamente, poderia, então, ter gostado bastante dela.

 

— Aonde é que vais, então?

 

— Há pequenas baías no lado oeste. Há uma falésia com papagaios do mar. Grutas, túneis. Às vezes, as sereias aparecem. Está-se lá bem. — Ele franziu o sobrolho. — Mas acho que tu não consegues lá ir. Tens que descer até ao fundo.

— Ficarias espantado — disse eu friamente. — No sítio onde eu cresci, é preciso descer por falésias como essas sempre que se precisa de água. Eu sou ágil como uma cabra.

 

Coll não parecia convencido.

 

— Mas, tu não passas de uma rapariga.

 

— Hum. Bem, o meu melhor amigo era um rapaz e tudo o que ele fazia, também eu fazia. — Aquilo era tão pouco verdadeiro que me senti na obrigação de emendar: — Exceto a nadar. E com a música, e com os cavalos.

 

— E ele era capaz de fazer tudo o que tu fazias?

 

Tentei sorrir.

 

— Nem tudo — disse-lhe.

Depois daquela conversa, Coll e eu tornamo-nos amigos e, juntos, contamos os dias até as tempestades de Inverno amainarem e o céu ficar límpido de novo, com os tons cor de pérola de Imbolc. Chegamos a uma espécie de acordo. Ele aperfeiçoaria as letras durante um certo tempo, ao mesmo tempo que eu trabalhava com a pena.

 

Corrigir-lhe-ia o trabalho. Então, à vez, contaríamos uma história inventada por cada um de nós acerca de um rapaz que viajava para terras estranhas num pequeno barco e vivia toda a espécie de aventuras. Coll confiava plenamente, com a segurança inocente de uma criança de sete anos, que seria essa a sua vida dentro de alguns anos; não apenas as viagens, mas também a descoberta de ilhas exóticas e as lutas com monstros marinhos, que venceria e talvez até casasse com uma princesa, mas isso só quando já fosse bastante velho, pelo menos vinte e um anos, porque se estaria a divertir muito

 

O tempo passou. O amuleto mantinha-se fresco ao toque e eu perdera o receio constante de que a minha avó pudesse surgir inesperadamente, talvez para me ralhar por ter libertado Johnny do feitiço. Cautelosamente, perguntava a mim própria se aquele local seria seguro. Talvez fosse essa a razão porque ela não me queria ali. Ela dissera algo acerca de influências. Mas não havia sinal algum de gente do Outro Mundo. Nem os grandes, nem os mais pequenos se tinham manifestado desde que eu saíra de Sevenwaters. Havia apenas um forte contingente de humanos extremamente capazes, uma grande quantidade de armas de aspecto perigoso, o vento e o mar. Não havia cavalos na ilha; estes eram guardados na aldeia, no outro lado. E não havia cães, sequer, para ajudar a guardar os carneiros e as cabras. Havia um gato, que pairava na cozinha e estava sempre debaixo dos pés de Biddy. Era um dos animais mais estranhos que eu jamais vira, com uma pequena concavidade no sítio onde devia estar a cauda e saltitava quase como um coelho. Coll disse-me que ele viera da ilha de Manannan, onde todos os gatos eram assim. Quando ergui as sobrancelhas, descrente, ele disse que toda a gente sabia da história. Fora obra dos Finn-ghaill, com a sua propensão para adornarem tudo o que usavam na cabeça. Tinham desenvolvido a moda de pendurar caudas de gato nos elmos, como uma espécie de pluma, às manchas, listradas, ou brancas. E as costas de Man estavam agora cheias de aldeias vickings. Por isso, as gatas cortavam as caudas das crias mal nasciam, para evitar a crueldade que lhes seria imposta mais tarde. Era uma história interessante e não menos plausível do que qualquer uma das minhas.

 

À parte Coll, a família mantinha-se afastada. O Chefe não era um homem com quem se fizesse amizade facilmente, e eu sentia-me satisfeita por ele limitar o seu discurso comigo a um cumprimento de quando em quando, ou um aceno brusco de cabeça ao passar. Porém, eu sabia o suficiente para constatar que, enquanto ele estivesse em Inis Eala, nada aconteceria sem o seu conhecimento. Johnny era o mais amigável.

 

Tinha sempre um sorriso e uma palavra amável para mim e brincava com o seu pequeno irmão por este monopolizar a rapariga mais bonita da ilha, o que demonstrava quão poucas raparigas existiam lá, na realidade Johnny nunca mencionou o que acontecera entre nós durante a viagem para Norte e eu tão pouco.

 

Era-me impossível saber se ele ainda acreditava que o feitiço fora obra minha. O outro irmão, Cormack, andava tão intensamente envolvido no treino e no fabrico de armas, que não tinha tempo para conversar. Dizia-se que ele era tão bom como o pai no combate corpo-a-corpo e só tinha catorze anos.

 

E havia Liadan. Ouvira o que ela dissera acerca do seu desejo de querer ter uma filha, e eu pressentia que ela gostaria de conversar comigo, talvez acerca da minha mãe e dos seus tempos de infância. Mas ela andava ansiosa. Parecia-me que contava os dias que faltavam para o Verão, do mesmo modo que eu, mas as suas feições pálidas pareciam serenas e os seus olhos verdes muito solenes. Os seus homens só pensavam em desafios, conflitos e vitórias. Eu achava que Liadan pressentia um Verão que lhe traria sangue e perda, como em tempos lhe tinham dito. Receava por todos, mas, especialmente, por Johnny. Observava-o com olhos sombrios. A minha tia não me fez qualquer pergunta incômoda, talvez por saber que não obteria resposta. No entanto, permitiu que eu me tornasse amiga do filho mais novo. Era a presença dele, irrequieta, questionadora e simples, que me permitia passar o Inverno num razoável estado de espírito. Isso e o silêncio da minha avó.

 

A estação decorreu chuvosa e tempestuosa, com noites gélidas, e quanto mais a Primavera se aproximava, mais clara se tornava, na minha mente, a tarefa a meu cargo. Para satisfazer a minha avó, tinha de permanecer ali até os aliados vencerem o inimigo. Assim, tinha de tomar as medidas necessárias para que a vitória não acontecesse. Eu achava que era capaz de transformar um exército de homens num exército de sapos, apesar de a utilização desse feitiço, numa escala tão grande, estivesse, provavelmente, para além das minhas capacidades. Ou podia fazê-lo de um modo mais simples, como ela sugerira. Podia matar o Filho da Profecia. Não havia dúvida alguma de que, sem ele, a empresa não teria sucesso, mesmo que ele perdesse a vida no auge da batalha. No fim de contas, uma profecia era uma profecia e todos dependiam dela. Por que outra razão era Johnny que conduzia a campanha em vez de Sean de Sevenwaters, ou um chefe de guerra dos Uí Néill, ou até mesmo Bran de Harrowfield, que era um homem que nunca fora vencido? Por que não Eamonn, de Glencarnagh, o líder rico e influente? Mas aquela campanha não seria vulgar, não seria uma mera disputa territorial rapidamente resolvida. Era uma luta antiga, cheia de mistério e de simbolismo pesado. Eles tinham falhado contra os Bretões, no passado, porque não tinham Johnny. Só podiam vencer se o Filho da Profecia estivesse presente para os chefiar. Toda a gente sabia isso. Se perdessem o Filho da Profecia, perderiam a coragem e a esperança.

 

Muito bem, então. Teria de fingir colaborar com o plano da minha avó até ao fim. Usaria o amuleto mesmo até ao fim; desse modo, ela acreditaria que continuava a dominar-me. Então, quando chegasse a ocasião, em vez de fazer o que ela queria, desafia-la-ia; teria de me interpor entre ela e Johnny, para que ele pudesse vencer e salvar as Ilhas. Suponho que me castigará. Se me matar, talvez eu o mereça pelas coisas más que fiz.

 

Matutei naquilo, segurando a pena, imóvel, por cima do manuscrito. A batalha desenrolar-se-ia nas Ilhas; estas estavam próximas das terras dos Noruegueses e das dos gatos sem cauda. Uma longa viagem. Muito longe de Kerry e da propriedade de O’Flaherty em Ceann Na Mara. Ainda bem. Os barcos teriam uma longa viagem pela frente. Haveria, certamente, uma escala na rota, um qualquer porto seguro, onde as forças do Chefe se reuniriam às de Sean, de Eamonn e dos Uí Néill para o ataque final. Depois, haveria uma travessia a nado; uma travessia perigosa, a partir de um local a que eles chamavam Needle, para afundarem a armada dos Bretões. Um golpe de mestre, se conseguissem. Todos apostavam nisso. Então, suponho que fariam a travessia nos barcos, atracariam e chacinariam o inimigo. Certamente, não era o tipo de feito para o qual os homens levassem uma jovem prima. Para estar lá, precisaria de um outro tipo de transformação. Traças não. Desta vez, não. E também não tinha ajuda; os meus amigos Fomhóire parecia terem-me abandonado. No entanto, sentia-me capaz de o fazer. Escolheria outra forma, acompanharia a missão do Chefe e então... então, teria de regressar à minha forma e, durante uns tempos, estaria demasiado fraca para usar a arte. Era essa a grande falha no meu plano. Não fazia idéia alguma de quanto tempo duraria tal batalha; quão bem armados estariam os Bretões, quão difícil seria o terreno e que efeito a perda da sua armada poderia ter na determinação do inimigo. Não sabia durante quanto tempo a minha avó estaria disposta a vigiar-me e a esperar que eu agisse. Teria de voltar à minha forma e esconder-me até recuperar as forças. Johnny era capaz de ganhar a batalha sozinho. Eu via-lhe isso nos olhos. Mas, no fim, a minha avó acabaria por aparecer e ele precisaria de mim; e sem a arte eu não era nada.

 

O treino no mar estava a começar, com ou sem tempestades. Já não havia navios semi-construídos nos abrigos, antes pequenos barcos de muitos tipos fundeados na pequena praia, ou no ancoradouro da baía. Cada vez havia menos homens; soube que a partir de agora e até ao Verão, nenhum regressaria a Inis Eala. Todos os recursos iam para a campanha. Todos os homens trabalhavam com esse propósito e cada um tinha um papel a desempenhar. Havia travessias todos os dias, desde que o mar o permitisse, e um grande movimento de homens e provisões.

 

Por vezes, quando não estava a chover, Coll e eu sentávamo-nos na falésia e ficávamos a olhar para aquilo tudo. Para ele era um intervalo agradável na sua luta contra a escrita, apesar de ser um rapaz inteligente. Para mim era agradável estar ao ar livre e sentir o vento nos cabelos. Gull deixara a responsabilidade da enfermaria para Liadan e agora trabalhava o dia todo nos barcos. A sua figura escura podia ser vista movendo-se agilmente nas docas e a sua voz chegava-nos trazida pelo vento, dando ordens curtas no convés. Parecia ensaiarem uma manobra particular, para norte da ponta do promontório atingida pela maré, entre ilhotas rochosas. O pequeno barco, remado por seis homens, mantinha-se para lá do redemoinho da corrente, os remos usados com grande habilidade para o manter imóvel até receberem uma ordem, deixando depois que a maré os transportasse para mar aberto. Praticaram aquilo vezes sem conta, indo e vindo e uma vez vi um homem na água gelada, nadando, com os outros inclinando-se para o puxarem para dentro do barco. Apesar da distância, identifiquei Johnny.

 

— O teu irmão é um grande nadador — observei, ajustando o xale em redor dos ombros por causa do vento.

 

— Também eu — respondeu Coll imediatamente. — Quando for grande, vou ser melhor do que ele. Vou nadar daqui até à outra margem. Nunca ninguém fez isso. — Fez-me lembrar Eilis. Talvez aquela espécie de confidência existisse em todas as famílias.

 

— Tu sabes nadar? — perguntou Coll. Abanei a cabeça.

 

— Não gosto muito da água.

 

— Se quiseres, eu ensino-te. No Verão. Se quiseres.

 

Apercebi-me, pelo seu tom de voz, que aquele era um gesto extremamente generoso.

— Obrigada — disse eu solenemente. — Talvez. Não sei bem se sou capaz de aprender.

 

— Toda a gente pode aprender — disse Coll. — É fácil.

 

Como andar a cavalo, pensei.

 

— Vais precisar de saber nadar se vais viver aqui — observou ele.

 

— Não me parece. Depois do Verão, já não.

 

— Não foi isso que Johnny disse. Ele disse que tu ias casar com um dos rapazes, provavelmente com Corentin, porque ele é inteligente e fala três línguas, mas talvez também com Gareth, porque ele é um sujeito simpático e paciente e que ficarias aqui na ilha. Foi o que ele disse. Mas não precisas de casar com eles se não quiseres — acrescentou ele apressadamente, sem dúvida ao ver a minha expressão de incredulidade.

 

Fui salva da resposta pela chegada inesperada do Chefe, que se dirigia na nossa direção vindo do pátio de treino.

— Coll! Tenho um recado para ti, filho. Vai ao cais e espera que Gull regresse. Diz-lhe que as provisões já chegaram à aldeia. Ele há de querer mandar alguém com um barco maior.

 

— Sim, Chefe. — Havia um olhar de orgulho no rosto de Coll enquanto descia rapidamente pelo carreiro abaixo, rápido como um cabrito. Eu fiz menção de me levantar e ir-me embora, mas o Chefe fez-me parar e surpreendeu-me, sentando-se a meu lado nas rochas e olhando para a baía. Seguiu-se um pequeno silêncio, silêncio esse que me fez aperceber que ele mandara Coll embora com essa finalidade.

 

— Os seus homens vão estar bem preparados para a campanha — comentei eu casualmente. — Gull está a treiná-los arduamente na arte da marinharia.

 

— Os homens de Johnny, não os meus — disse o Chefe calmamente. — Harrowfield não tem nada a ver com isto; sempre esteve à parte desta luta. Mas tens razão acerca de Gull. A sua perícia com barcos pequenos é inultrapassável. — Os seus olhos cinzentos estavam fixos no barco que flutuava entre os ilhéus. — Cada um daqueles homens é o melhor no que faz.

 

— No entanto, é espantoso como um homem com tão poucos dedos consegue fazer tanta coisa. Isso deve exigir uma imensa força de vontade.

— É verdade.

 

Ele parecia bastante amistoso. Pensei que podia atrever-me a fazer-lhe outra pergunta.

 

— Como é que ele... como é que Gull perdeu os dedos?

 

A boca cerrada do Chefe distendeu-se num sorriso um tanto ou quanto desagradável.

 

— Um homem chamado Eamonn cortou-lhos com uma faca — disse ele em voz baixa.

 

Fiquei gelada.

 

— O quê? — murmurei.

 

— Aconteceu numa tentativa para conseguir informações acerca de mim. Eamonn queria ver-nos a ambos suplicar por misericórdia, antes de acabar conosco. Liadan nunca te poderia dizer isto, nem sequer o próprio Gull. A minha mulher prometeu a Eamonn o seu silêncio e Gull já pôs isso tudo para trás das costas. Mas eu acho que algumas promessas são feitas para serem quebradas. É bom que saibas isso. O homem com quem pensavas casar é um carniceiro, Fainne. As suas mãos cheiram a sangue e traição. Acredito que esta história nunca será contada; poucos a conhecem. Estás melhor longe dele e tens de te manter assim.

 

— Mas... — ia eu a dizer, mas o homem parecia ser bom e honrado. Ia a dizer que ele era um chefe respeitado e aliado do seu filho. Mas lembrei-me do que Eamonn dissera acerca do Homem Pintado, lembrei-me do brilho dos seus olhos quando se apercebeu de que eu poderia vingá-lo e, por isso, calei-me.

 

— Se o teu pai quer um bom casamento para ti — continuou o Chefe sempre a olhar para o local onde os homens deslizavam suavemente do barco para a água gelada, enquanto outros tentavam mantê-lo firme — não precisa de procurar fora de Inis Eala. Surpreender-me-ia muito se Ciarán ligasse a grandes aparatos, como a riqueza, a respeitabilidade, ou grandes propriedades. Ele gostaria de um bom homem para ti, um homem firme e aqui há muito por onde escolher. Terás pretendentes. Ainda não, claro; ainda não, ninguém lhes disse, não pode haver namoros antes do Verão e eles obedecem às regras. Mas mais tarde, haverá oportunidades. E há trabalho para ti, aqui. A comunidade tem falta de gente letrada.

 

— Fala do meu pai como se o conhecesse — disse eu surpreendida.

 

— Estive uma vez com ele. E com a tua mãe. Há muito tempo, muito antes de tu nasceres.

— Im... importa-se de me falar disso?

 

— Não te posso dizer tudo. Mas fiquei impressionado com Ciarán. Um jovem de força considerável; pelo menos, foi o que depreendi. Um homem assolado por grandes paixões, creio; amor, raiva, determinação. Nós encontramo-nos numas circunstâncias muito difíceis.

 

— E a minha mãe?

 

Ele pensou por um momento antes de responder. A sua mão continuou apoiada na rocha a seu lado; o desenho complexo percorria-lhe a pele como se fosse uma linguagem antiga, crítica.

 

— As circunstâncias também eram pouco... vulgares. Mas ela não era nada parecida com a irmã.

 

— Quer dizer — disse eu amargamente — que era fraca, estúpida e egoísta? Que a beleza era a sua única qualidade?

 

O Chefe virou a cabeça para mim. Os seus olhos estavam muito sérios; pareciam julgar-me.

— Toda a gente tem uma coisa única — disse ele. — Em algumas pessoas, essa qualidade tarda em se afirmar. Eu nunca julgaria um homem, ou uma mulher dessa maneira, Fainne. A tua mãe estava sob uma grande pressão quando eu fui incumbido de a tirar de onde estava. Ela era muito bela, sim, de uma beleza digna de uma história. Mas também estava confusa, ferida e assustada e a aparência de Gull, assim como a minha, pouco fizeram para a tranqüilizar. Depois disso, deixamos de ver Niamh. Ciarán tratou de que fosse assim. Mas posso dizer-te três coisas totalmente verdadeiras. A tua mãe era uma mulher extremamente corajosa. Uma pessoa que, como ela, vive persistentemente debaixo de um medo terrível, mostra mais bravura do que um guerreiro que vai para uma batalha sem pensar nas conseqüências. Ela amava profundamente Ciarán. Havia uma ligação entre eles que durou até ao fim, apesar de tudo. Uma ligação tão forte como... — ele parou.

 

— Tão forte como a que há entre si e Liadan? — perguntei eu suavemente.

 

Ele acenou com a cabeça.

 

— Qual é a terceira coisa? — perguntei.

 

— Essa pode magoar-te. Ouvimos dizer que ela se matou. Eu sei julgar os homens, Fainne, e as mulheres. Vi o olhar da tua mãe quando percebeu que estava salva, por fim, e que Ciarán iria buscá-la. Não era o olhar de uma mulher que deita fora uma inesperada segunda oportunidade. Quem te disse que ela se matou, mentiu-te.

— O meu pai acredita que sim — disse eu com a voz a tremer. — Como é possível não ter sido assim?

 

— Ficaste perturbada. Lamento. Mas devias ponderar nalgumas possibilidades. Se uma tal morte tivesse acontecido na minha própria casa, eu teria investigado intensamente. Uma queda de uma falésia, sem testemunhas, pode ser muita coisa. Suicídio, certamente. Mas também pode ser um acidente. Ou um assassínio.

 

— Um assassínio? Isso não é possível. Não estava lá ninguém senão nós e eu era uma criança. Não está a sugerir...

 

— Não, não estou. A tua mãe era o tesouro mais precioso de Ciarán. Porém, devias ter em atenção as minhas dúvidas. Eu não acredito que ela quisesse abandoná-lo alguma vez; ou que o tenha abandonado.

 

Fiquei ali quieta, a olhar para o mar enquanto sentia a cabeça encher-se com as lágrimas de uma dor antiga.

 

— Houve uma época — disse o Chefe calmamente — em que eu jurei que nunca seguiria esse caminho, o caminho da família e da comunidade, por causa dos perigos. Os laços do amor são muito fortes. Transportam uma dor muito maior do que qualquer dor física; dilemas insolúveis, que deixam apenas angústia e perda.

 

— Mas você seguiu-o, na mesma. O caminho. — Ele acenou com a cabeça.

 

— E não me arrependo. Mas, agora, é preciso evitar que fiquemos paralisados pelo medo. Os meus filhos falam muito bem de ti, Fainne. Respeitam-te.

 

Não respondi.

 

— Eu confio na opinião de Johnny. Ele acha que devias ficar aqui conosco.

 

— Mas?

 

— Não posso deixar de pensar na desconfiança de Liadan. As suas visões deixam-na pouco à vontade; e não fala delas. Eu compreendo, porque nem sempre a Visão mostra a verdade e agir de acordo com as suas mensagens seria como andar à deriva num mar de terror. Mas o que ela vê não a deixa dormir de noite. Custa-me acreditar que ela tenha medo de ti; no entanto, é o que parece. Assim, e a despeito da minha opinião, devo deixar claro uma coisa. Quem tenta fazer mal à minha mulher, ou aos meus filhos, tem de se haver comigo.

— Os medos dela são infundados. — À medida que falava, sentia o peso do amuleto suspenso no meu pescoço.

 

— Nesse caso, por que não lho dizes?

 

— Não sei se ela acreditará em mim — disse eu em voz baixa.

 

Estávamos perto de Imbolc, o festival que anuncia a Primavera e eu já estava em Inis Eala há tempo suficiente para saber os nomes das pessoas e ganhar um pouco mais da sua confiança. Também descobrira que Johnny não fazia ameaças em vão. Um dos jovens, ainda pouco habituado à vida da ilha, cometera o erro de tentar visitar uma rapariga sem ser convidado, à noite. Não testemunhei o que aconteceu entre ele e o seu líder, mas vi-o deixar a ilha sob escolta no dia seguinte, o rosto cor de cinza e os olhos traindo a angústia que sentia por esse erro tolo lhe ter tirado a oportunidade de fazer parte daquilo tudo. Era a única maneira, disse-me Johnny. E não havia perigo de aquele homem dizer o que vira. Fazia parte do treino, aprender sobre o destino que podia esperar aquele que fosse suficientemente estúpido para revelar qualquer segredo. O braço do Homem Pintado chegava longe.

 

Depois disso, os jovens ficaram muito tranqüilos durante um dia ou dois. O moreno e belo Corentin, que me oferecera cerveja variadas vezes e me falara da vida na sua Armórica natal, evitava-me. Quando ao sorridente Gareth, que era uma dos maiores amigos de Johnny, vivia sempre segundo as regras. O máximo que fazia era olhar para mim de relance, timidamente, de vez em quando. Agora, até ele era sombrio.

Todos eles sabiam que tais coisas podiam esperar. Sam e Ciem tinham planos para o Outono; um casaria com Brenna, a alfageme e ou outro com Annie, a jovem cozinheira. Para aquela gente, a vida, por vezes, podia ser difícil, mas, pelo menos, era honesta.

 

Consciente do pouco à vontade que reinava no acampamento, Johnny propôs uma viagem à outra banda para ir buscar provisões. Se bem que pudéssemos subsistir à base de peixe, cabrito e couves, cenouras e alho-porro bravo do jardim murado, não podíamos cultivar cereais na ilha, nem tínhamos gado, por isso era necessário, por vezes, comprar aveia ou cevada, queijo ou manteiga. E havia necessidade de provisões mais especializadas. Desta vez, Brenna iria à outra banda para trazer algum equipamento que encomendara e, por isso, eu também fui autorizada a ir, já que era mais decente viajarmos juntas. Era interessante como Johnny não via necessidade de uma acompanhante, como, por exemplo, Biddy, ou outra das mulheres mais velhas. Era deliberado, pensei; assim, mostrava àqueles jovens que, apesar do que acontecera, confiava neles. O dia estava límpido e o mar agitado. Brenna ia conversando animadamente enquanto o barco subia e descia e eu, de dentes cerrados, mantinha os olhos na costa do outro lado, até que, por fim, a viagem terminou até chegar a hora de regressar. A escolha de Gareth e Corentin, por parte de Johnny, para nos guardarem, fora, talvez, um pouco cruel. Ambos iam armados até aos dentes. Brenna desatou o fardo que esperava por ela no armazém e começou uma inspeção apertada do conteúdo, murmurando para si própria. Eu observava Johnny, Godric e os outros, enquanto colocavam sobre os ombros vários pacotes e se dirigiam para o barco. A aldeia estava muito ocupada devido às carroças de mantimentos que tinham chegado recentemente; havia homens armados por toda a parte. Snake não corria riscos e mantinha uma força considerável naquele lado da água. Nenhum barco atravessava o canal e ninguém entrava sem autorização naquele lugar fortificado. Brenna não se apressava. Sentei-me num banco no exterior, gozando o dia límpido e achando o ar um pouco quente demais. Os meus pensamentos regressaram à ilha. Em breve teria de me aventurar e descobrir um lugar secreto para aperfeiçoar a transformação e avivar as minhas capacidades para a tarefa à minha frente. Talvez no dia seguinte, ou no dia a seguir.

 

— Fainne? — Dei um pulo ao ouvir a voz de Johnny.

— Chegou a hora de partir? — perguntei, levantando-me.

 

— Ainda não. Os rapazes hão de querer primeiro uma caneca de cerveja. Está além um tipo que diz conhecer-te.

 

— Um tipo? Que tipo? Deve ser engano. Não conheço ninguém. — Johnny sorriu.

 

— Tenho um pressentimento de que conheces este. Ele foi muito persistente.

 

Senti um arrepio pela espinha abaixo. Segui o meu primo, sem uma palavra, até onde estava amarrado um par de velhos cavalos, junto a uma fila de carroças. E ali, afagando o focinho de uma feia égua baia, estava um sujeito escanzelado, de cabelos pretos até aos ombros, um assomo de barba e uma argola de ouro numa das orelhas.

 

— Olá, Caracóis — disse Darragh.

 

Senti um baque no coração, que foi mais de horror do que de alegria. Se tivesse sido capaz, talvez tivesse dito a Johnny que o homem era um completo estranho para mim e ter-lhe-ia pedido que o mandasse embora. Mas nem sequer tinha voz; fiquei ali a olhar. E, subitamente, Johnny tinha desaparecido juntamente com o hesitante Corentin. Amaldiçoei o tato do meu primo.

 

— Estás com bom aspecto — disse Darragh. Consegui, finalmente, falar.

 

— Que estás a fazer aqui? Não devias estar aqui! Onde está Aoife?

 

Houve uma pausa.

 

— Vendi-a — disse ele.

 

Não podia estar a ouvir bem. Vendera-a, a bela Aoife, que fazia tanto parte dele que até parecia meio-humana? Aoife, que lhe dava tanta sorte?

 

— Vendeste-a? — repeti. — Impossível. — Darragh olhou para o chão.

— Um homem não rompe um contrato de trabalho e não percorre meio Erin sem ter com quê, Fainne. O acordo foi esse. O’Flaherty ficou com a égua. Ela há de ser bem tratada.

 

— Mas, porquê?

 

Silêncio. Ele olhou para mim e depois para longe. Pensei ver nos seus olhos uma nova mágoa, como se duvidasse da sabedoria da sua escolha.

 

— Aqui não há nada para ti — disse eu num sussurro feroz, furiosa com ele por ter vindo e comigo própria pelos sentimentos que se atropelavam dentro de mim, sentimentos que não tinham nada a ver com a filha de um feiticeiro quando esta tinha coisas mais importantes pela frente. — Não devias ter vindo. É perigoso. Tens de ir para casa, Darragh. Imediatamente.

 

— Ah — disse ele como que por acaso, mas eu podia ver a sua mão a tremer enquanto afagava o longo focinho do cavalo com dedos gentis. — Creio que não vou fazer isso.

 

— Tens de fazer! — disse eu com firmeza — Não podes ficar aqui! Vais arruinar tudo! Tens de partir imediatamente! Não posso fazer nada contigo aqui...

 

— Fazer o quê, Caracóis?

— Fazer o que tenho de fazer. Por favor, Darragh, por favor, se gostas um bocadinho de mim, vai-te embora, depressa, antes... antes... Antes que a minha avó te veja. Mas não podia dizer aquilo.

 

— Sabes, não é assim tão simples.

 

— Por que não? — Olhei para ele. Darragh olhou para cima, para além do meu ombro e, subitamente, lá estavam eles, quatro, Johnny e Gareth, Godric e Corentin, armados até aos dentes e com um aspecto feroz. Todos eles tinham a sua tatuagem especial no rosto; todos eles pareciam prontos a matar. Comparado com eles, Darragh era... uma espécie de cotovia no meio de aves de rapina. Exatamente no sítio errado.

 

Certamente que até ele via isso.

 

— Amigo teu? — perguntou Johnny, com um sorriso que não atingia os olhos.

 

— Conheço um pouco este jovem — disse eu rigidamente. — Há muito tempo.

— Como te chamas? — O olhar de Johnny era extremamente perscrutador. Achei o seu comportamento um pouco estranho. Não falara ele já com Darragh?

 

— Darragh, filho de Dan Walker, de Kerry.

 

— E qual é a causa da tua viagem até estas bandas? Surpreende-me que venhas até tão longe.

 

Darragh olhou de relance para mim.

 

— Pode-se dizer que vim à procura de uma velha amiga. Ajudei um homem com um cavalo, no caminho; apanhei uma boleia.

 

Johnny não fez qualquer comentário. Limitou-se a esperar. Por trás dele, Gareth mexeu-se pouco à vontade e ouviu-se o tinir de metal.

 

— Ouvi dizer — disse Darragh — ouvi dizer que poderiam precisar de homens, por estas bandas. Uma campanha qualquer. Vim oferecer os meus serviços.

— O quê? — exclamei eu, chocada, antes de me poder conter. Os companheiros de Johnny não fizeram qualquer tentativa para conter o divertimento.

 

— Estou a ver — disse Johnny polidamente. — E que sabes tu fazer, que aches que nos pode ser útil?

 

— Nada! — disse eu rapidamente antes que Darragh pudesse abrir a boca para responder. A minha voz não tinha nada de firme. — Nada! Este homem não sabe lutar, não sabe como usar uma arma, nunca matou ninguém na vida. Ser-te-ia completamente inútil. Acredita no que te digo.

 

Johnny olhou para mim calmamente e depois para Darragh.

 

— Ouviste a dama — disse ele. — Nós, aqui, precisamos de guerreiros. Não creio que te possamos utilizar, a não ser que saibas fazer outra coisa qualquer.

 

— Sei tocar gaita-de-foles — disse Darragh. — E tenho jeito para cavalos. Os guerreiros precisam de cavalos.

— Desta vez, não — disse Johnny. — Esta campanha será por mar. Talvez encontres trabalho nos estábulos deste lado, se demonstrares capacidades.

 

— Não. — A voz de Darragh era áspera. Olhei para ele, espantada. Não veria ele que era impossível? Como estava a ser tolo? Perdera o senso-comum? — Isso não me serve. Quero ir para a ilha. Posso aprender a lutar. Serei bom aluno. Você parece-me boa pessoa. Dê-me uma oportunidade, ao menos.

 

Johnny olhou de alto a baixo para ele.

 

— Não me parece — disse ele.

 

— É muito fino para ter o filho de um latoeiro no seu bando? Eu não tenho vergonha de ser filho de um nômade. E provarei o meu valor.

 

— Em Inis Eala — disse Johnny, que agora olhava para Darragh intensamente — estamo-nos nas tintas para as origens dos nossos homens. O que eles têm para oferecer é que conta. De onde vens?

— De Oeste. De Ceann Na Mara.

 

— Estou a ver. És persistente. Mas, como a minha prima aqui acaba de dizer, tu não és um guerreiro; e um músico, se bem que desejável, não é uma das minhas prioridades. Tens a certeza de que não sabes fazer mais nada?

 

Não digas, Darragh, disse-lhe eu em pensamento.

 

— Sei nadar — disse Darragh. — Um pouco.

 

— Já ouvi dizer — disse Johnny suavemente. — Bem, vou pensar. Talvez volte aqui antes do Verão. Se ainda estiveres por aqui, talvez voltemos a falar.

 

E, girando nos calcanhares, encaminhou-se para o barco, onde Brenna estava a supervisionar o carregamento do seu precioso fardo. Segui o meu primo cegamente, fazendo um esforço para respirar calmamente e para não olhar para trás. Fora uma coisa cruel, talvez; mas fora a decisão certa. Darragh não podia ir conosco. Não podia.

 

Os homens tiveram que remar com força contra a maré, no regresso e progredimos com lentidão. A minha mente estava perturbada e o meu coração pesado. Era uma tolice, mas o que mais me perturbava era não me ter despedido do meu amigo. Pelo menos, podia ter-lhe dito uma palavra amável; um aperto de mão, ou um beijo no rosto. Teria preferido nunca mais o ver, a encontrá-lo assim e não me despedir.

 

Os homens remavam com força de costas para a ilha e iam a falar de coisas a que eu não estava a prestar muita atenção.

 

— Tipo teimoso — observou Corentin.

 

— É preciso ser maluco para tentar semelhante coisa — sorriu Godric. — E contra a maré.

 

Johnny ia calado. Limitava-se a olhar para trás, para o local de onde saíramos, com o mesmo olhar calculista que eu vira no seu pai. Lembrei-me de ele dizer que era capaz de avaliar o caráter de um homem, ou de uma mulher. Olhei para ele e senti-me gelar de horror ao perceber o significado das suas palavras. Virei-me e olhei para trás.

 

Algures, entre o nosso pequeno barco e a costa, uma cabeça escura aparecia e desaparecia de vista nas águas agitadas. Ágil como uma sereia, aparecia para respirar e desaparecia depois nas águas turbulentas, para aparecer novamente após uma espera de fazer parar o coração.

— Lembro-me de tu dizeres que ele era um ótimo nadador — observou Johnny. — É o que vamos saber daqui a pouco.

 

Agarrei o braço de Brenna, aterrorizada. E as serpentes do mar? E o frio? E Coll não dissera que nunca ninguém o tinha feito?

 

— Johnny — disse eu em voz baixa. — É uma distância muito grande. Não vais...?

 

— Todos os homens devem passar por um teste. Mas, achas que deixaria o teu namorado morrer afogado? Além disso, precisamos dele. A meio caminho, talvez, ou um pouco depois. Ele já percorreu uma distância maior do que qualquer um de nós e continua com uma boa braçada. Recolhemos os remos além, perto daquelas rochas e deixamos que ele nos apanhe.

 

— O tipo não sabe pegar numa espada; não tem estômago para matar um homem — resmungou Gareth. — Sabe nadar, e depois?

 

— É uma responsabilidade — queixou-se Corentin recolhendo o seu remo.

— Pode aprender — O tom de Johnny era sério. — Foi o que ele disse, não foi? E nós temos os melhores professores, em Inis Eala.

 

Fiquei para morrer. A minúscula figura ficou cada vez mais pequena, as ondas cada vez maiores e o ar cada vez mais frio, à medida que nos afastávamos da costa. As cristas pareciam ter longos dedos na ponta; e as depressões monstros de grandes dentes, traiçoeiros. Não sabia se o meu rosto denunciava algo. Johnny olhou para mim e a sua boca torceu-se um pouco, mas havia preocupação nos seus olhos e também alguma surpresa.

 

Brenna segurou-me na mão e disse:

 

— Tudo bem, Fainne. Nós já estamos quase nas rochas. Eles esperam lá por ele. — Gareth tinha o semblante carregado. Corentin tinha os lábios cerrados. Godric e Mikka tinham apostado se pescariam da água um latoeiro arrogante ou um cadáver. A cabeça doía-me, tal era a força com que cerrava os dentes. Agarrei firmemente a mão de Brenna e mantive os olhos naquele ponto escuro que aparecia e desaparecia.

 

Talvez tivesse sido ela, pensei. Talvez a minha avó o tivesse feito vir ali e agora forçava-me a vê-lo afogar-se, mostrando-me, assim, o preço da desobediência. Ela queria mostrar-me quão louca eu era, se achava que era forte.

 

— O teu rapaz é muito corajoso, Fainne — disse Brenna enquanto nos aproximávamos das rochas e Johnny ordenava aos rapazes que agüentassem o barco contra a maré.

— Eu acho é que é estúpido — murmurei, mas ela tinha razão, claro. Ele aproximou-se firmemente, como se não soubesse o que era o medo, como se não conhecesse as limitações de um ser mortal. A despeito do terror e da fúria, eu estava tão orgulhosa dele que pensei que o meu coração se ia partir em dois. — E não é o meu rapaz.

 

— Não? — perguntou Johnny. — Bem, uma coisa é certa. Não são as lições de esgrima que o fazem comportar-se assim.

 

Esperamos; os homens utilizaram a mesma técnica que tinham aperfeiçoado no promontório, contrabalançando com os remos o avanço da maré, o que mantinha o barco relativamente imóvel. Mantiveram-se ligeiramente afastados das rochas. A espera parecia interminável, mas a cabeça escura ficou cada vez menos parecida com uma criatura do mar e mais com a de um homem, o ritmo forte dos braços morenos e esbeltos podia ser visto no meio das ondas, assim como o rosto pálido e os olhos escuros, cheios de determinação. Por fim, ele atingiu o barco, foi içado e depositado, sem qualquer cerimônia, a meus pés, branco, tremendo e incapaz de dizer uma palavra. Os homens pegaram de novo nos remos e seguimos para casa.

 

Eu sentia as lágrimas, algures, mas não as podia limpar. Lágrimas de alegria, lágrimas dor, terríveis, lágrimas de medo e frustração. Tirei o meu xale e coloquei-lho sobre os ombros.

 

— Como te atreves a assustar-me assim? — disse-lhe eu em voz baixa, furiosa. — Devias ter vergonha!

Então, ele inclinou-se, apenas um pouco, encostou a cabeça ao meu joelho e eu ouvi-o murmurar por entre o bater dos dentes:

 

— N... n... não me obrigues a d... d... dizer adeus outra vez.

 

Nem a mais poderosa feiticeira do mundo teria conseguido impedir, naquele momento, que os meus dedos se movessem para lhe tocar no rosto e ficarem ali durante o espaço de um bater do coração. Vi um sorriso torcido nos seus lábios; então, retirei a mão e fechei os olhos. Não olharia para ele; no entanto, desejava-o loucamente, desejava olhar, olhar e armazenar tudo, como um tesouro guardado para os dias de chuva. Queria aquecer-lhe as faces com as minhas mãos, atraí-lo ao meu peito até que parasse de tremer. Queria ver as cores regressarem às suas feições geladas, ver o seu doce sorriso e os seus olhos alegres. Queria o que não podia ter.

 

Era a minha grande fraqueza e se não a reprimisse agora, seria a minha perda, a de Darragh e a ruína da grande campanha de Sevenwaters. Seria o triunfo de Lady Oonagh sobre tudo o que era reto e bom. Essa fraqueza era a melhor ferramenta que a minha avó tinha para me manipular. Não podia permitir que isso acontecesse. Teria, de algum modo, de fazer com que Darragh compreendesse isso.

 

Assim, mantive os olhos fechados, sentindo com todas as fibras do meu corpo onde ele estava sentado, qual o seu aspecto, desejando que ficasse e desejando que se fosse embora, tudo isso despedaçando-me o coração.

Quando Darragh desembarcou em Inis Eala, tremendo e todo sujo, passou a ter uma reputação. Ninguém escapa ao efeito de uma tal demonstração de coragem. Aquela gente gostava daquilo. Era algo que compreendiam. E gostavam dele; como seria possível não gostar? Fosse a falta de pretensão, o sorriso torcido, ou o desejo de aprender, o que é fato é que ao fim de alguns dias já era amigo de toda a gente. Até Gareth e Corentin admitiram, resmungando, que o tipo trabalhava bem. Tinha de ser; havia muita coisa para aprender e faltava pouco tempo. Talvez Johnny esperasse um milagre.

 

Ainda bem que Snake se encarregou pessoalmente da educação de um nômade nas artes da guerra, o que significava que eu não via Darragh durante a maior parte do dia, por trás de muros altos, tomando conhecimento dos seus progressos apenas à hora do jantar. Assegurei-me de que ele ficava sentado bem longe de mim. Mantinha os olhos no prato, ou conversava com Brenna, ou com Annie, excluindo todos os outros. Se bem que desejasse ardentemente olhar para ele, não o fazia. Se bem que desejasse ardentemente falar-lhe, assegurei-me de que não teria qualquer oportunidade.

 

O tempo começou a melhorar e a estação mudou. Imbolc tinha passado; estávamos quase na Primavera e eu tinha de agir com rapidez. Uma manhã encontrei Johnny sozinho, olhando para uns mapas na cabana que usávamos para efeitos de instrução.

 

Ainda era cedo; Coll ainda nem sequer tinha acordado.

 

— Johnny?

— Hum?

 

— Preciso de te dizer uma coisa. Pedir-te uma coisa. É importante.

 

Ele olhou para cima de olhos semicerrados.

 

— O que é, prima?

 

— D... Darragh. Ele não devia estar aqui. — Falei furtivamente, olhando em volta; uma tolice, era o que era. Se a minha avó se lembrasse de olhar, veria tudo, tinha a certeza. — Quero que o mandes embora.

 

Johnny ergueu as sobrancelhas.

 

— Eu tenho um trabalho para ele. É certo que o teu amigo ainda tem muito que aprender no que toca ao treino de combate; no que toca a tudo, para dizer a verdade. Mas ele está a aprender. Tem força de vontade e é esperto. E é rápido, ágil. Eu preciso dele, Fainne.

— Por favor — disse eu, furiosa por ouvir como a minha voz falhava. — Por favor, manda-o para casa. Darragh não é um guerreiro. Não tem nele a vontade de matar. Por favor, Johnny. Tu podes, perfeitamente, encontrar outro nadador. É... é muito importante. — Baixei o tom de voz. — Mais importante do que... parece.

 

Ele olhou para mim por um momento.

 

— Esta missão é fundamental, pode estar para além da nossa compreensão — disse ele solenemente. — Até o meu papel nela pode não atingir o que as pessoas esperam. — Havia uma tristeza nos seus olhos que eu não compreendia.

 

— Que queres dizer? — perguntei, despertando, alarmada, do meu próprio dilema pelas suas palavras.

 

— Parece fácil, ter o destino marcado desde que se nasce; um grande e glorioso futuro, o cumprimento de uma profecia antiga, nem mais, nem menos; a reconquista do solo sagrado de um povo. Para as pessoas é fácil: ganhar a batalha, reconquistar as Ilhas e regressar a Sevenwaters como herdeiro a seu devido tempo. Eu sei isso desde criança.

 

— Mas não é assim tão simples, pois não? — perguntei, recordando o que os Anciãos me tinham dito, aos bocados, e que eu nunca tinha percebido bem. — Não é só ganhar a batalha.

 

Johnny acenou com a cabeça.

 

— Acredito que não. Há algo por dizer nisto tudo, que não corresponde às expectativas desta boa gente; de modo nenhum. O destino não é nada glorioso. A minha mãe vê a minha morte, se bem que não o diga. E eu vejo algo parecido com a morte, mas que não é bem a morte; algo muito para além do destino do guerreiro. Quem sabe o que acontecerá? Isso assusta-me.

 

— Tu, assustado? — Achava aquilo difícil de acreditar. — Mas, eles têm tanta fé em ti. Não têm uma única dúvida.

 

— Eu não posso escolher o meu próprio futuro — disse Johnny. — E lamento muito isso. Mas farei o que devo fazer. Vencerei a batalha e enfrentarei o que estiver para vir com os olhos bem abertos. Mas o teu Darragh, por exemplo, é um homem que escolhe o seu destino. E este é o destino dele, Fainne. És capaz de lhe negar isso?

 

Mordi os lábios.

— Ele não sabe. Não sabe o que isto significa. Ele quer ajudar-me, ou proteger-me e é por isso que me segue, mas não percebe que é a pior coisa que pode fazer. Ele tem de ir para casa, Johnny. Por favor, manda-o embora.

 

Johnny ficou a olhar para mim.

 

— Tu mudaste desde que ele veio para cá — disse ele suavemente. — quase choras, a pedir por ele. Mas a escolha é dele, prima, não tua. E eu respeito a escolha de um homem. Além disso, precisamos dele Precisamos de cinco nadadores; e só temos quatro com a força e a resistência necessárias para levar a cabo a missão. Eu, o meu pai, Sigurd e Gareth. Foi um milagre o aparecimento deste filho de latoeiro. Não posso fazer o que me pedes.

 

Senti-me, mais uma vez, desesperada. Quem me poderia ajudar, se ele não queria?

 

— Fainne. — O tom de Johnny era gentil. — Eu raramente perco homens; eles são únicos no que fazem. Seria muito estúpido se, com tão pouco treino, mandasse um tipo para a frente de combate.

 

— Não é isso, se bem que também seja. É... é... — não lhe podia dizer. Não lhe podia dizer: se o deixares prosseguir, ela coloca-lo-á em perigo e então... então... não sei se terei forças para continuar. Não sei se o conseguirei suportar. No fim de contas, se critica calhar, fica provado que sou, apenas, um instrumento da minha avó.

— Tu tens visões? — perguntou-me ele. — Sombras de coisas que estão para acontecer, tal como a minha mãe?

 

Abanei a cabeça.

 

— Não. Mas fui avisada e... não, não te posso dizer. Não devia ter falado nisto. Vejo que não me ajudarás.

 

— Os meus instintos e o meu treino dizem-me que a minha decisão está certa — disse Johnny. — Não ponho um homem em risco, a não ser que seja necessário. Coll já chegou e é melhor eu ir-me embora antes que me ponha a fazer exercícios com estilete e cera, coisa que nunca foi do meu agrado. Até logo, prima.

 

Falei com o Chefe, mas também não serviu de nada, porque o único argumento que pude usar com ele foi o da inexperiência de Darragh como guerreiro e como a sua ajuda, uma vez em terra, seria praticamente nula apesar de toda a sua força na água. E que preferia que ele não se deixasse matar ainda. O chefe escutou solenemente e depois disse-me que Snake estava muito satisfeito com os progressos do rapaz; para um tipo escanzelado, ele tinha bastante força de braços, muita perícia com o pau e não era mau de todo no combate sem armas, também. Talvez fosse coisa que se aprendesse na vida errante. Quanto à espada e ao punhal, esses precisavam de prática, mas ainda havia tempo. Quando tentei protestar, o chefe disse que a decisão era de Johnny e que confiava no juízo do filho — Além disso, não era o que o rapaz queria?

Havia uma última possibilidade. Liadan estava na enfermaria, moendo uma coisa acre qualquer num almofariz. Não havia mais ninguém. Esteiras vazias aguardavam as vítimas da guerra, de um acidente doméstico, ou de uma febre sazonal. Por cima da sua cabeça havia tranças de alho penduradas numa viga; e as prateleiras estavam cheias de frascos com ervas.

 

— Fainne! — exclamou ela, surpreendida, quando eu entrei. — Não estava nada à espera da tua visita. — Ela usava o seu vestido escuro do costume com uma túnica por cima, sóbria como o uniforme de uma enfermeira; os cabelos estavam presos com uma fita, mas os caracóis escapavam e caíam-lhe para a testa pálida. Franziu o sobrolho.

 

— Vens, sem dúvida, pedir-me que mande Darragh para casa? — perguntou ela enquanto moía o pó vermelho na tigela.

 

Olhei para ela.

 

— Aqui, toda a gente sabe tudo? — perguntei. A minha tia sorriu.

 

— Nós falamos uns com os outros, Fainne. Isso é costume nas famílias. Além disso, Darragh veio ter comigo.

— Ele o quê?

 

— Ele está muito preocupado contigo. E eu sei que tu estás muito preocupada com a segurança dele. Darragh sugeriu uma coisa que eu estou pronta a fazer, se tu concordares.

 

— Não tinha a certeza se queria concordar, mas, de qualquer maneira, perguntei:

 

— Que coisa?

 

— Vocês saírem daqui juntos e regressarem a Kerry. Desse modo, não o perdes; e ele terá o que veio aqui procurar. Podem estar bem longe antes de esta campanha começar. A salvo.

 

— A salvo? — repeti com alguma amargura. Ela estudou-me atentamente com os seus intensos olhos verdes. Esperei que não me estivesse a ler a mente. — Não ficaríamos de todo a salvo, tia. Não pode ser. Eu tenho de ficar aqui; não posso regressar a Kerry. Mas Darragh pode e deve. Ele não pertence a Inis Eala. Nem nunca quis pertencer. Ele só lhe apeteceu aparecer, sem ser convidado. Foi o que ele fez.

— A mim parece-me uma boa sugestão — disse ela suavemente. — Darragh foi muito convincente. Ele ama-te, Fainne. Não vês isso?

 

— Aquilo não é amor cortei eu. É... é teimosia. Ele acha que eu não sou capaz de tomar conta de mim própria. Não sabe o que é bom para ele e o que não é. Nunca soube.

 

— E tu? — perguntou Liadan. As suas mãos tinham deixado de trabalhar e estavam pousadas na mesa. — É o amor que faz com que queiras vê-lo longe daqui, quando ele arriscou a vida para estar perto de ti?

 

— A nossa espécie não sente o amor — murmurei, sabendo que era mentira. — Torna a vida demasiado complicada. Im... impede-nos de fazer o que deve ser feito. Como o meu pai. O amor arruinou-lhe a vida.

 

— Ele tem uma filha — disse ela docemente. — Suponho que ele tem muito orgulho em ti. Tu és inteligente, és dotada e... astuta, tal como ele. E teimosa. Pergunta a Ciarán se ele está arrependido de ter conhecido a minha irmã antes de despedires assim, com tanta ligeireza, o amor. Põe-no de lado e não viverás a vida, apenas uma sombra de vida.

 

— De qualquer modo — disse eu não desejando continuar com a conversa — Johnny não deixará Darragh partir. Diz que precisa dele.

Liadan suspirou.

 

— Se tu também quisesses ir, eu falava com Johnny.

 

Abanei a cabeça.

 

— Tenho de ficar aqui. Não posso regressar a casa.

 

— Sim — disse ela com ar cansado, sentando-se num banco. — Já calculava; mas quis tentar, de qualquer modo. Darragh é bom rapaz, Fainne. Ele não merece isto.

 

— A culpa é dele — disse eu num murmúrio.

 

Ela acenou com a cabeça.

— Talvez tenhas razão. Os homens têm a mania de se meter onde não são chamados. Não vale a pena tentar mudar o rumo das coisas, mas nunca consegui... ficar quieta e deixar as coisas acontecerem como o meu tio Conor me aconselha. Acho que devemos seguir em frente, se pudermos. É assim que Darragh faz; ele tem uma grande força de vontade.

 

— Ele não sabe o que se passa — disse eu sem ênfase.

 

— E tu, sabes? — A sua voz era calma. Parecia que tinha pena de mim.

 

— Pelo menos — murmurei — sei o que tem de ser feito.

 

— E hás de chegar ao fim — disse Liadan num tom de voz que me assustou; um tom que falava de uma verdade incontestável. — Como, não sei, mas, tanto Johnny, como tu, estarão lá. Já o vi.

 

Fiquei gelada.

 

— O que é que viu? E Darragh?

— Eu não posso falar disso. Posso estar enganada.

 

— Não se pode dizer nada? Mesmo nada?

 

— O meu filho enfrentava a morte. E tu choravas. Choravas como quem perde um tesouro inestimável. Nunca vi uma dor assim.

 

Engoli em seco.

 

— Eu também vi essa parte. Se tiver de acontecer, acontecerá, suponho.

 

Liadan acenou com a cabeça.

 

— Devias pedir a Coll que te levasse, um dia destes, à ponta do promontório — disse ela num tom de voz totalmente diferente. A nossa conversa terminara e eu perdera a última oportunidade de conseguir mandar Darragh embora. — O tempo está a mudar; vêm aí dias claros. Precisas de te afastar das tuas tarefas, de respirar ar puro e de fazer exercício. Far-te-á bem. — O tom de voz dela era vulgar, como o de uma mãe qualquer. Algures, por trás de todos os medos que me enchiam a mente, achei que devia ser bom ter uma mãe que se preocupasse comigo. Talvez, se a minha mãe não tivesse morrido, tivesse sido assim. Talvez, se o Chefe tinha razão, ela nunca tivesse pensado em deixar-nos; talvez nos tivesse amado e tivesse esperança no futuro.

 

Nunca mais me esqueceria disso nem das palavras de Liadan: Ele deve ter muito orgulho de ti, minha querida. Guardaria essas palavras no coração e transformaria a minha história numa história viva, verdadeira e sem lágrimas. Não podia fazer outra coisa.