A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 1 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 1

 

O homem de chapéu verde entra sempre em Bercy, sempre pela primeira porta do primeiro vagão, e desce por essa mesma porta em La Motte-Picquet-Grenelle exatos dezessete minutos depois — isso

nos dias em que as paradas, os avisos sonoros e os rangidos metálicos se sucedem com regularidade, nos dias sem um fluxo excepcional, sem acidentes, sem alertas de segurança, sem greve, sem paralisações para aguardar a normalização do tráfego. Nos dias comuns. Nesses em que temos a impressão de fazer parte de uma máquina bem lubrificada, de um grande corpo mecânico onde cada um de nós, queira ou não, tem uma função e desempenha o seu papel.

É nesses dias que Juliette — escondida atrás dos óculos escuros em formato de borboleta e da grossa echarpe tricotada em 1975 pela avó Adrienne para a filha, uma echarpe de exatos dois metros e meio, no tom azul-claro dos cumes longínquos às sete horas de uma noite de verão, não em qualquer lugar, mas lá pelos lados de Prades olhando-se na direção do Canigou — questiona se a sua existência neste mundo tem mais importância do que uma das aranhas que afogou hoje de manhã ao tomar banho.

Ela não gosta nem um pouco de fazer isso — mirar o jato d’água no corpinho preto e aveludado, olhar de esguelha as patas finas se agitarem frenéticas e depois se dobrarem de repente, ver o aracnídeo se retorcer todo, tão frágil e insignificante quanto um fiapo de lã arrancado do pulôver preferido, até a água arrastá-lo pelo ralo retapado às pressas com um safanão.

Assassinatos em série. Todos os dias, elas, as aranhas, reaparecem, emergem dos canos após um périplo de pontos de partida indeterminados. Serão sempre as mesmas que, uma vez projetadas nessas profundezas escuras, difíceis de se imaginar, nessas entranhas da cidade semelhantes a um imenso reservatório de vidas fervilhantes e pútridas, se desdobram e ressuscitam para, logo em seguida, recomeçarem uma ascensão quase sempre fadada ao fracasso? Juliette, assassina culpada e enojada, imagina-se com as feições de uma divindade impiedosa, embora distraída ou ocupada demais a maior parte do tempo para cumprir a sua missão, vigiando em intervalos intermitentes o buraco de acesso ao inferno.

Que esperam as aranhas? Que viagem terão decidido empreender e com que objetivo?

 

Talvez o homem de chapéu verde possa responder, se Juliette ousar perguntar. Todas as manhãs, o homem abre a sua pasta e retira um livro encapado com um papel fininho, quase transparente, puxado também para o esverdeado, e desdobra as pontas com gestos lentos, precisos. Depois desliza um dedo entre duas páginas já separadas por uma tira do mesmo papel e inicia a leitura.

O livro se intitula: História dos insetos úteis ao homem, aos animais e às artes, incluindo um apêndice a respeito da destruição dos insetos nocivos.

Ele acaricia a encadernação de couro matizado, a lombada com filetes dourados, onde o título sobressai no fundo vermelho.

O homem de chapéu verde abre o livro, aproxima-o do rosto e sente o cheiro com os olhos semicerrados.

Lê duas ou três páginas, não mais, tal um gourmet degustando profiteroles de creme com ajuda de uma minúscula colher de prata. Em seu rosto desenha-se um sorriso enigmático e satisfeito — aquele que Juliette, fascinada, associa ao do Gato de Cheshire de Alice no país das maravilhas. Por conta do desenho animado.

Na estação Cambronne, esse sorriso se apaga e dá lugar a uma expressão de pesar e desapontamento; ele dobra o papel, guarda o livro e fecha os trincos da pasta com um estalido. E se levanta. Nem uma única vez pousa o olhar em Juliette, que, sentada à sua frente — ou de pé, agarrada à barra lustrada diariamente por centenas de palmas de mão enluvadas ou não —, devora-o com os olhos.

O homem se afasta a passos lentos, muito empertigado no casaco abotoado até o pescoço, o chapéu inclinado sobre a sobrancelha esquerda.

Sem esse chapéu, sem esse sorriso, sem essa pasta onde trancafia o seu tesouro, na certa, Juliette não o reconheceria. É um homem como tantos outros, nem bonito nem feio, nem simpático nem antipático. Mais para gorducho, idade indefinida; enfim, normal, para usar um clichê.

Um homem.

Ou melhor: um leitor.

 

“A abelha, o bicho-da-seda, o pulgão, a cochonilha, a lagosta-das-árvores, o tatu-bola, as cantáridas, as sanguessugas…”

— O que você está dizendo?

Juliette, cantarolando distraída, sobressalta-se.

— Ah, nada. Uma musiquinha de criança… Eu estava tentando me lembrar dos nomes…

— Recebi um cadastro pro apartamento do boulevard Voltaire — comenta Chloé, sem ouvir a resposta. — A proposta tá aí com você?

Com um minuto de atraso, Juliette balança afirmativamente a cabeça. Ainda pensa no homem do livro verde, nos insetos, nas aranhas — afogou duas nessa manhã.

— Pode me dar. Eu arquivo — responde.

Gira a cadeira, puxa uma pasta da estante que ocupa uma parede inteira do escritório e guarda as folhas. O papel, repara, está amarelo urina. Não pode ser mais nojento. A parede está completamente entulhada e coberta de etiquetas descolando nas beiradas, e parece prestes a desabar sobre ela como uma avalanche de lodo. Juliette fecha os olhos, imagina o lamaçal, as bolhas de gás estourando na superfície, o fedor, e aperta o nariz com força na tentativa de reprimir a náusea.

— O que você tem? — pergunta Chloé.

Juliette dá de ombros.

— Tá grávida?! — insiste a colega.

— Claro que não. Mas gostaria de saber como você consegue trabalhar de cara para isso… Essa cor é asquerosa.

Arregalando os olhos, Chloé encara a colega de trabalho.

— As-que-ro-sa — repete, separando as sílabas. — Pirou, é? Já ouvi muita coisa esquisita, mas isso nunca. É só papelada, Juliette. É feio, tá certo, mas… tem certeza de que está tudo bem?

Juliette tamborila sobre a escrivaninha, em ritmo irregular:

A abelha, o bicho-da-seda, o pulgão, a cochonilha, a lagosta-das-árvores, o tatu-bola, as cantáridas, as sanguessugas…

— Está tudo ótimo — responde. — O que você costuma ler no metrô?