A Garota que Lê no Metrô
Capítulo 3
J uliette dá mais três passos, estende o braço, toca nas páginas deformadas pela umidade. Com a ponta da língua, umedece o lábio superior. Ver um livro espremido entre duas bandas de um portão de ferro lhe faz quase tanto mal quanto afogar uma aranha. Devagar, apoia o ombro em uma delas e empurra: o livro desce um pouco mais. Pega-o e, sempre encostada no portão, abre-o enquanto o aproxima do rosto.
Adora o odor dos livros, cheirá-los, sobretudo aqueles comprados em sebos — os livros novos, dependendo do papel e da cola utilizados, também guardam diferentes odores, mas permanecem silenciosos nas mãos que os seguram, nas casas que os abrigam; ainda não possuem história, alguma bem diferente da que contam, uma história paralela, difusa, secreta. Muitos cheiram a mofo, outros guardam, entre as suas páginas, obstinados aromas de curry, de chá, ou de pétalas secas; manchas de gordura, às vezes, sujam a parte superior da página; uma erva comprida, que serviu de marcador durante uma tarde inteira de verão, desintegra-se; frases sublinhadas ou anotações na margem reconstituem, em sigilo, uma espécie de diário íntimo, um esboço de biografia, por vezes o testemunho de uma indignação, de uma separação.
Este cheira a rua — um misto de ferrugem e fumaça, guano, pneu queimado. Mas também, surpreendentemente, a hortelã. Hastes soltam-se da dobra, caem silenciosas, e o perfume intensifica-se.
— Zaïde!
De novo o chamado, um barulho de galope; Juliette sente um corpinho morno esbarrar no seu.
— Desculpe.
A voz, estranhamente grave para uma criança, exprime espanto. Juliette baixa o olhar e encontra olhos castanhos tão escuros que as pupilas parecem ter aumentado e atingido a dimensão das íris.
— Eu moro aqui — diz a menina. — Posso passar?
— Claro — murmura Juliette.
Sem graça, afasta-se para o lado, e o portão pesado começa a se fechar. A menininha empurra-o com as mãos.
— É por isso que o papai sempre deixa um livro aqui — explica em tom paciente. — A maçaneta é dura demais pra mim.
— Mas por que um livro?
A pergunta sai como uma reprimenda. Juliette sente-se enrubescer, o que não acontece faz tempo — sobretudo na frente de uma pirralha de uns dez anos.
Zaïde — que nome bonito! — dá de ombros.
— Ah, só destes! Ele diz que são cucos. É engraçado, né? Igual aos passarinhos. Eles têm as mesmas páginas repetidas umas três ou quatro vezes seguidas, não foram feitos direito, sabe? Não dá pra ler. Quer dizer, não de verdade. Está vendo este aí?
A criança espicha o pescoço, fecha os olhos, funga.
— Eu já li. A história é boba… Uma garota conhece um garoto. Primeiro detesta ele, depois gosta, mas depois é ele que detesta ela e… Achei tão chato que coloquei uns galhinhos de hortelã dentro para que pelo menos ficasse com um cheirinho bom, né?
— Foi uma boa ideia — diz Juliette com doçura.
— Quer entrar? Você é uma mensageira? Nunca vi você aqui.
Mensageira? Juliette balança a cabeça. Essa palavra também evoca imagens de filmes em preto e branco, silhuetas indistintas correndo curvadas dentro de túneis ou esgueirando-se sob arames farpados, moças de bicicleta transportando panfletos da Resistência dentro da bolsa e sorrindo, com falsa candura, para soldados alemães usando uma espécie de tigela de latão azinhavrado na cabeça. Imagens vistas cem vezes no cinema e na televisão, tão familiares, tão lidas que, às vezes, esquecemos o horror que encobrem.
— Então… quer ser uma? — continua Zaïde. — É fácil. Vem, vamos falar com o papai.
De novo, Juliette esboça um gesto de negação. Depois vira o rosto e torna a pousar o olhar na placa de título misterioso — simples, no entanto, certeiro. Afinal, os livros não conhecem limites nem fronteiras, salvo, por vezes, as da língua, claro — por que então…?
Ela sente os pensamentos escapulirem, embora ciente de que o tempo voa, de que é preciso ir embora, sair daquela rua, reencontrar o mais rápido possível a iluminação fria da sua sala nos fundos da imobiliária, o cheiro de poeira das pastas “imóveis” e das pastas “clientes”, a tagarelice ininterrupta de Chloé e aquela tosse do sr. Bernard, encatarrada ou seca dependendo da estação, aguardar a quarta visita do casal de aposentados incapazes de se decidirem entre a chácara em Milly-la-Forêt e o apartamento de quarto e sala na porte d’Italie.
— Vem — repete Zaïde, em tom decidido.
E, pegando Juliette pela mão, puxa-a para dentro do pátio e depois recoloca o livro com cuidado no vão de abertura do portão.
— O escritório fica lá nos fundos, naquela porta envidraçada. É só bater. Eu vou subir.
— Você não vai à escola? — pergunta maquinalmente Juliette.
— Teve um caso de catapora na minha sala — responde a menina, assumindo ares de importância. — Mandaram a gente pra casa, tenho até um bilhete pro meu pai. Não está acreditando?
Seu rostinho redondo se franze numa careta inquieta. Uma ponta de língua surge entre os lábios, tão rosa e lisa quanto uma flor de marzipã.
— Claro que acredito.
— Então tá. É que vocês todos são tão desconfiados — conclui, dando de ombros.
De um salto, dá meia-volta, e as tranças de novo dançam sobre os ombros. Seus cabelos são grossos, castanhos, e possuem mechas cor de mel onde a luz reflete com mais força a claridade: cada trança é mais grossa que o seu pulso delicado.
Enquanto Zaïde sobe em disparada os degraus de uma escada metálica que leva a um comprido e estreito corredor ao longo de todo o primeiro andar da construção — sem dúvida, uma antiga fábrica —, Juliette dirige-se com passos inseguros à porta indicada. Não sabe direito o motivo de ter seguido a menininha e obedecido à sua ordem — pensando bem, foi uma ordem. Ou um conselho? Em todo caso, um absurdo obedecer: sabe que está atrasada sem precisar consultar o relógio. No momento, cai uma garoa fininha que a impele a buscar calor, abrigo… E, de qualquer modo, não tem mesmo nenhuma tarefa urgente pela manhã… Sempre poderá alegar que a máquina de lavar, que há meses está com defeito, enguiçou de vez. Já conversou demoradamente sobre o assunto com o sr. Bernard, que se deu ao trabalho de enumerar diferentes modelos, apesar de insistir nas marcas alemães — segundo ele, bem mais confiáveis —, e inclusive chegou a propor acompanhá-la num sábado a uma loja cujo gerente, um primo afastado, homem honesto, poderá oferecer a melhor opção.
O vidro da porta reflete um pedaço do céu, mas no fundo do aposento há uma lâmpada acesa.
Juliette ergue a mão e bate.