A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 2 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 2

 

L á estão a idosa, a estudante de matemática, o ornitólogo amador, o jardineiro, a apaixonada — pelo menos, assim pensa Juliette, levando-se em conta a respiração levemente arquejante e as minúsculas lágrimas umedecendo-lhe os cílios quando chega às derradeiras páginas dos romances que devora, volumes grossos e de pontas dobradas de tanto serem relidos. Por vezes, na capa, um casal abraçado sobre um fundo vermelho sangue ou a renda sugestiva de um sutiã meia taça. O torso de um homem nu, um contorno de quadris e de nádegas femininas, um lençol amarrotado, ou um par de abotoaduras, sóbria composição do título destacado pela ponta de uma gravata… e as lágrimas que, por volta da página 247 (Juliette conseguiu ver o número dando uma espiada discreta na direção da vizinha), brotam entre os cílios da moça para depois escorrerem lentamente para o lenço, enquanto as pálpebras se fecham e um suspiro involuntário ergue os seios redondos, moldados por um top bem-comportado.

“Por que a página 247?”, pergunta-se Juliette acompanhando com o olhar um guarda-chuva que escapole pela plataforma da estação Dupleix, abrigando das rajadas oblíquas toda uma família da qual só consegue enxergar as pernas — perninhas em veludo marrom, pernas compridas em jeans e pernas delicadas em meias-calças listradas. O que acontece ali naquela página, que repentina emoção desabrocha, que dilaceração, que angústia contrai a garganta, que estremecimento de volúpia ou abandono?

Sonhadora, tamborila com as pontas dos dedos a capa do livro mantido fechado com relativa frequência, absorta demais nas próprias observações. A edição de bolso com a borda manchada de café e a lombada cheia de ranhuras passa de bolsa em bolsa, da sacola grande das terças-feiras — dia em que Juliette vai ao supermercado ao sair da imobiliária — à bolsa das sextas-feiras, dia do cinema. Um cartão-postal entre as páginas 32 e 33 não é movido dali há mais de uma semana. Costuma associar a paisagem no cartão — um vilarejo na serra sobressaindo ao longe, acima de um mosaico de lavouras em tons castanhos — à idosa que folheia sempre a mesma coletânea de receitas e por vezes abre um sorriso, como se a descrição de um prato lhe trouxesse à lembrança uma loucura da juventude; às vezes, fecha o livro, nele descansando a mão sem anéis, e contempla, pela janela, os barcos subindo o Sena ou os telhados reluzentes nos dias chuvosos. O texto da contracapa está em italiano, centralizado acima de uma foto reunindo dois pimentões graúdos, um maço rechonchudo de erva-doce e um pedaço de queijo muçarela no qual uma faca de cabo de chifre deixou um sulco retilíneo.

A abelha, o bicho-da-seda, o pulgão, a cochonilha, a lagosta-das-árvores, o tatu-bola, as cantáridas, as sanguessugas… Carciofi, arancia, pomodori, fagiolini, zucchini… Crostata, lombatina di cervo, gamberi al gratin… Palavras-borboletas voando no vagão abarrotado antes de pousarem nas pontas dos dedos de Juliette. Acha a imagem bem boboca, mas é a única que lhe vem à mente. Aliás, por que borboletas? Por que não vaga-lumes piscando alguns segundos antes de se apagarem? Quando foi a última vez que viu um vaga-lume? Na verdade, nunca. Receia não haver mais vaga-lumes em lugar nenhum. Apenas nas recordações. Nas da avó, a que tricotou a echarpe. E que se parece com a senhora do livro de culinária; o mesmo rosto alvo e plácido, as mesmas mãos fortes de dedos curtos, só que enfeitadas com um único anel, a aliança grossa que, ano após ano, moldou a carne até marcá-la irremediavelmente. A pele enrugada, manchada, cobre bem o anel, o corpo digere o símbolo, deforma-se ao seu contato. “Os vaga-lumes”, dizia ela, “são estrelas cadentes. Eu ainda era tão pequena que não tinha autorização para ficar acordada até tarde, e as tardes de verão eram tão, tão compridas… Durante duas horas, no mínimo, a claridade penetrava o meu quarto através das frestas das venezianas. Deslizava devagarinho sobre o tapete, escalava as grades da minha cama e, de repente, a bola de cobre aparafusada bem lá no teto começava a brilhar. Eu sabia que perdia o mais bonito, aquele instante em que o sol mergulha no mar e este se torna vinho, se torna sangue. Então, eu dava um nó na minha camisola para encurtá-la, sabe? Bem apertado, em volta da cintura. E descia equilibrando-me na treliça. Uma verdadeira macaquinha. E atravessava correndo o gramado até o ponto de onde podia admirar o mar. Depois, já bem escuro, eu me balançava na cerca que sempre deixavam aberta, atrás da construção onde criavam bichos-da-seda… Foi lá que eu vi os vaga-lumes. De repente, eles chegaram. Ou saíram da terra. Eu nunca soube. Silenciosos, suspensos no ar, pousados na grama… Aí eu não me movia mais, não ousava sequer respirar. Eu estava entre as estrelas.”

O metrô desacelera. Sèvres-Lecourbe. Mais três estações, ou duas, depende dos dias e do humor de Juliette. Metal rangendo, uma parada. De repente, ela se levanta e cruza as portas no instante em que se fecham. Uma ponta do casaco fica presa na porta automática; puxa-a com um safanão, um golpe seco, e fica imóvel na plataforma, um pouco ofegante, enquanto a composição se afasta. Na luz matinal cinzenta, algumas silhuetas seguem na direção da saída, embrulhadas em pesados sobretudos. Manhã de fevereiro ideal para usufruir o prazer de percorrer as ruas a pé, o nariz empinado, observando o formato das nuvens ou, curiosa, bisbilhotando, o olhar em busca de uma loja nova ou de um ateliê de cerâmica. Ninguém. As pessoas vão do espaço bem aquecido dos seus apartamentos para o do escritório, tomam um cafezinho, comentam, bocejando, as tarefas do dia, as fofocas, as notícias — sempre deprimentes. Da estação na qual Juliette desce todos os dias até a porta da imobiliária, basta andar uma rua. Um lance de escada, um pedaço de calçada depois, à esquerda as vitrines de uma lavanderia a seco, de uma tabacaria e de uma lanchonete de kebab. Na da tabacaria, uma árvore de Natal de plástico, ainda ornamentada com guirlandas e laços de papel celofane, já começa a ficar empoeirada. O gorro vermelho e o pompom branco na ponta, à guisa de estrela, pendurados como uma roupa molhada.

Juliette quer ver algo novo. Dirige-se ao totem, com o mapa do bairro afixado, na extremidade da estação: entrando na primeira rua à direita e, em seguida, no segundo cruzamento, virando de novo à direita, não levará mais de dez minutos. Uma pequena caminhada para aquecer. Nem se atrasará — ou quase nada. De qualquer modo, Chloé abrirá a imobiliária. Aquela garota é de uma pontualidade doentia, e o sr. Bernard, o dono, nunca chega antes das 9h30.

Com passos apressados, Juliette entra na rua, obrigando-se logo adiante a desacelerar. Precisa livrar-se do costume de seguir sempre em frente, os olhos fixos no objetivo a alcançar. Nada de palpitante a aguarda, nadinha além de formulários a serem preenchidos e arquivados, uma longa lista de tarefas enfadonhas, uma visita ou quem sabe duas a algum imóvel. Isso em dias de mais movimento. E dizer que escolheu essa profissão por causa das visitas!

Para quem procura contato humano, como mencionava o anúncio ao qual respondeu. Sim, contato humano; abordar clientes e ler em seus olhos os sonhos e os desejos, até se antecipar e encontrar para eles um ninho onde esses sonhos pudessem se transformar em realidade, onde os desconfiados voltassem a reconquistar a confiança, onde os deprimidos tornassem a sorrir para a vida, onde as crianças crescessem ao abrigo dos vendavais que derrubam e desenraízam, onde os velhos, exaustos, aguardassem a morte sem angústia.

Ainda se lembra da sua primeira visita, um casal na faixa dos trinta anos. Sugeriu um café antes de entrarem no imóvel, “preciso conhecê-los melhor e assim compreender as suas expectativas”, anunciou ela com uma segurança que, naquele momento, estava bem longe de sentir. Compreender as suas expectativas. Achava que a expressão, lida no fascículo entregue pela diretoria da imobiliária a cada funcionário, soava bem. Mas o homem a encarara, a sobrancelha levantada, e depois batera no mostrador do relógio num gesto impaciente. A mulher, consultando as mensagens na tela do celular, sequer levantara os olhos nem mesmo enquanto subia a escada, ao passo que Juliette, petrificada, recitava a ficha decorada na véspera à noite: “o silhar e o charme do estilo haussmaniano; poderão observar que o assoalho da entrada, restaurado, respeitou as partes originais; calma absoluta; o elevador vai até o quarto andar; vejam só a espessura do tapete nos degraus”. Sua voz parecia vir de muito longe, ridiculamente aguda, voz de criança tentando imitar a de adultos. Sentiu pena de si mesma, a garganta apertada pela absurda vontade de chorar. O casal percorrera o apartamento de sala e dois quartos com passos acelerados, enquanto ela penava para acompanhá-los. As palavras alçavam voo, embaralhavam-se, “o pé direito alto, o estilo dos relevos da lareira, tacos em formato ponta de diamante, isso é tão raro, a possibilidade de criar um quarto extra, ou um escritório, instalando-se um mezanino…” Eles não a escutavam, não se olhavam, não faziam pergunta alguma. Corajosa, ela tentava entabular uma conversa: “tocam piano, têm filhos ou…?” Sem respostas, tropeçara num raio de luz que obstruía uma tábua do assoalho coberto de poeira, sua voz cada vez mais distante, tão tênue que era impossível alguém, doravante, conseguir ouvi-la: “apartamento espaçoso, muito iluminado, sol desde as nove da manhã na cozinha”… Eles já tinham ido embora, ela corria tentando alcançá-los. Na rua, entregara o seu cartão de visitas ao homem, que o enfiara no bolso sem sequer lhe lançar um olhar.

Teve certeza de que não os veria mais.

 

Um grito de gaivota devolve Juliette à realidade. Para e ergue os olhos. O pássaro, as asas abertas, descreve círculos acima da sua cabeça. Uma nuvem baixa cobre o seu bico e logo o seu corpo, restando apenas as pontas das asas e o grito ressoando entre os muros altos. O pássaro desaparece bruscamente. Uma rajada de vento fustiga o rosto de Juliette. Hesitante e desiludida, olha ao redor. A rua sombria, vazia, é ladeada por prédios cujo reboco, riscado por compridos sulcos de umidade, descasca. O que foi buscar ali? Estremece, enfia o nariz na grossa echarpe e torna a andar.

— Zaïde!

O chamado parece vir do alto, mas a menina correndo na sua direção simplesmente o ignora; ágil e travessa, mergulha entre as pernas de Juliette e uma lixeira tombada de onde brotam plásticos para reciclagem, apruma as perninhas finas e começa a saltitar na calçada escorregadia. Juliette se vira e vê a menina se afastar, saia rodopiante, um pulôver curto verde-bandeira, duas tranças dançando… até o olhar recair sobre um portão alto e enferrujado que um livro — um livro — mantém entreaberto.

Acima dele, uma placa de metal esmaltado, “saída direto de um filme dos anos de guerra”, pensa Juliette, anuncia em letras garrafais azuis: Livros sem Limites.