A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 20 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 20

 

“M udar de lugar. Fazer um esforço para mudar de lugar. E não só no metrô.” Essas três frases curtinhas não abandonam Juliette desde que observou Chloé, radiante, afastar-se pela plataforma da estação Pasteur, passando ao lado de um casal que tirava fotos na frente de um anúncio gigante do perfume Chanel n o 5. A noiva estava usando um vestido amarelo limão de tule; parecia uma borboleta. “Voará para onde? Para dentro do túnel. Não, este não é um pensamento positivo”, recrimina-se. “Mas não dá para ser positiva sempre.”

Entretanto, o encontro com a ex-colega de trabalho lhe fez bem. Para o seu espanto, o sr. Bernard fechou a imobiliária. Embalou a cafeteira pessoal, a preciosa xícara de chá e mudou-se para uma casa beirando a floresta, em algum lugar em Ardèche. Finalmente compreendeu, revelou a Chloé, o seu mais profundo desejo: sair de casa pela manhã e ver um cervo fugir correndo e desaparecer na bruma.

“Você deixou um livro pra ele também?”, indagou Chloé.

“Deixei.”

“Qual?”

Juliette lembra-se muitíssimo bem. Walden, ou a vida nos bosques, de Henry David Thoreau. Na ocasião, hesitou entre este e uma antologia de contos de Italo Calvino. Decidiu-se levando em conta o número de páginas do livro. Na sua opinião, o sr. Bernard desprezaria um volume fino demais: ele sempre fingiu gostar de pessoas “com conteúdo”.

Saltitante, entra na ruela onde o grande portão enferrujado à esquerda forma uma sombra escura e opaca. Sente-se bem. Talvez seja capaz, afinal, de fazer algo útil da sua vida, incutir um pouco de energia, um pouco de coragem ou leveza às pessoas por meio dos livros oferecidos. “Não”, corrige-se de imediato. “Tudo não passou de obra do acaso. Você não influiu em nada, não se dê tanta importância, minha filha.” Esta última frase veio automaticamente e soando como uma canção infantil, palavras cantaroladas quando criança sem prestar atenção ao seu sentido, mas sempre repetidas.

Quem lhe disse isso? Ah, claro: uma professora na quarta série do ensino fundamental. Ouviu a frase toda vez que obteve, ou acreditou ter obtido, algum êxito. A professora não acreditava nas virtudes do que agora é conhecido como “reforço positivo”; jamais algum incentivo saía da sua boca. Se alguém era bom em matemática ou em desenho, tratava-se do resultado da genética, da educação ou de uma complexa configuração planetária. “O acaso. O acaso. Não se dê tanta importância, minha filha.”

“Você não influiu em nada.”

Juliette chega ao portão. Pousa a mão na fria maçaneta de metal.

“Talvez eu tenha alguma influência. Mesmo que pouca.”

Repete a frase em voz alta. É como uma minúscula vitória.

Depois nota um detalhe banal — ao menos deveria ser, mas não é, não mesmo — que a congela.

O livro usado para manter o portão entreaberto desapareceu.

 

“Não é possível. Não é possível.”

Juliette não consegue pronunciar essas palavras em voz alta, mas as repete sem parar, como que querendo erigir uma barreira entre ela e o que Leonidas acaba de informar, um Leonidas que perdeu o seu sorriso de gato, um Leonidas pálido, cujo rosto, de repente, se assemelha a um queijo branco em vias de se desmanchar, se desmanchar, até… o quê? Isso a assusta, esse rosto vai se desfazer diante dos seus olhos, espalhar-se e desaparecer entre as ranhuras do cimento, e dele só restará o chapéu. “Que imagem horrível e incongruente, sobretudo nesse instante…”

Ela nunca deveria ter se apoiado com força no portão, nunca deveria ter entrado naquele pátio, tampouco girado a maçaneta da porta daquele escritório.

Não para ouvir aquilo.

 

— Quando foi?

Ela recupera parte da voz. Um guincho de camundongo.

— Faz três dias — responde Leonidas. — O hospital demorou a encontrar o endereço. Ele informou outro, falso, é claro.

— Mas por que falso?

— Acho que planejava apenas desaparecer. Talvez pensasse em proteger Zaïde. Ou nos proteger. Jamais saberemos.

— Mas quando vamos fazer uma cirurgia, precisamos dar o nome de uma pessoa de confiança, é o que dizem — argumenta.

— Mas ele fez isso.

Seu rosto se enruga ainda mais, unindo as mãos à frente, num gesto mais de raiva que de oração.

— Silvia. A que… Você sabe…

Não, Juliette não sabe. Olha as próprias mãos pousadas sobre os joelhos, imóveis, parecendo mortas.

— A que sempre levava com ela um livro de receitas. A que… Ela também costumava tomar a linha 6. Como você. Como eu.

— Ah…

— Eu era apaixonado por ela e nunca me declarei. Eu me contentava em observá-la. No metrô. E mais, nem todos os dias. Na sua frente, Juliette. Você nunca percebeu, tenho certeza. Nem ela.

Não, Juliette nunca percebeu. E não tem vontade de escutar mais detalhes — não naquele instante. Ele compreende e imediatamente pede desculpas.

— Sinto muito.

Ela permanece em silêncio, apenas balançando a cabeça.

— Soliman. Soliman está morto. Ele faleceu após se submeter a uma cirurgia cardiovascular, uma cirurgia arriscada que adiou por muito tempo — explica Leonidas —, além do razoável. Como se quisesse — acrescenta ele — não se permitir nenhuma chance.

Tudo isso ele soube quando foi ao hospital.

“Enquanto eu estava no metrô. Enquanto conversava com Chloé. Quando me sentia feliz e um pouco orgulhosa de mim mesma, uma vez na vida.”

— E Zaïde? — indaga. — Cadê ela?

— Ainda não voltou da escola. Ainda é cedo, você sabe.

Não, Juliette não sabe mais nada. Está sentada ali há séculos, com aquela coisa crescendo na sua barriga, crescendo, crescendo, e que não é nem uma vida nem uma promessa. Uma morte, ou melhor, um morto, um morto recente que será preciso aceitar e acalentar, e consolar, e conduzir…

A palavra atinge-a, mas Juliette logo se recompõe. Prometera uma viagem a Zaïde — pois a sua aposta não tinha sido uma aposta de verdade — e manteria a promessa. Mas depois, não seria obrigada a…? Ela não encontra palavras para formular a imagem deprimente que se apresenta, e tampouco deseja encontrá-las, ao menos, não agora.

Leonidas pigarreia e se aproxima.

— Zaïde é feliz aqui — sussurra. — Mas não nos permitirão cuidar dela.

Com ou sem cachimbo, aquele homem é um feiticeiro. Muitas vezes, desde que o conheceu, Juliette achou que ele conseguia ver através das capas dos livros; sem dúvida, um rosto não lhe oporia maior resistência.

— Eu sei. No entanto, não posso suportar a ideia de…

Não, não pode prosseguir. Mais uma vez, ele compreende.

— Nem eu. Contudo, a menina tem mãe, embora Soliman nunca nos tenha falado a seu respeito.

— Eu pensei… que ela estivesse morta.

Ele pousa, desajeitado, a sua larga mão na da jovem. Ela se retesa, depois se entrega ao calor reconfortante propagado pelos dedos roliços.

— Eu sei onde ela mora — continua. — Soliman me contou. No dia em que o fiz descobrir que as bebidas alcoólicas gregas são tão boas quanto eram as infusões de ervas dele. Ele estava bêbado de cair, e, na ocasião, senti remorso.

Leonidas baixa a cabeça, as bochechas tremendo, e conclui:

— Mas agora não estou arrependido.