A Garota que Lê no Metrô
Capítulo 11
— De braços cruzados, Chloé se planta em frente à mesa de Juliette. Toda a sua atitude deixa clara a intenção de não se A final, vai ou não vai me contar o que anda aprontando?
mover até obter uma explicação.
— Do que está falando?
Vã tentativa de ganhar tempo — Juliette tem plena consciência disso. Alguns segundos. Poucos, pois a colega logo explica:
— Desses livros entulhados dentro da sua gaveta. De todas essas cartolinas. Vivo encontrando tiras nas cestas de papel.
Juliette tenta mais uma vez mudar de assunto.
— Eu pensei que o lixo fosse retirado toda noite…
Com um gesto seco, um golpe com a lateral da mão cortando o ar, Chloé expressa que não é essa a questão.
— Estou esperando.
E como Juliette continua sem responder, irrita-se:
— Quer fazer mais vendas do que eu, é isso? Você aperfeiçoou a jogada?
— Que jogada? — indaga Juliette, embora saiba muito bem a que a colega está se referindo.
— O home staging. A jogada do livro na borda da banheira. A ideia foi minha, não se esqueça. Você não tem o direito de usar a minha ideia.
Chloé está irreconhecível, as narinas contraídas, lívida, mas com duas manchas nas maçãs do rosto como se tivesse passado às pressas um blush escuro demais. Os dedos crispam-se na carne quase flácida dos braços, onde as unhas bem-feitas e pintadas cravam minúsculas meias-luas vermelhas como camarões. Juliette estuda a colega meticulosamente, do mesmo modo que estudaria o rosto de uma desconhecida cuja máscara de beleza de repente sumiu, tomada pela angústia e pela raiva, e acredita vê-la tal como será daqui a trinta anos, quando a vida já terá cavado nos seus traços as marcas daquela raiva e daquela angústia, aprofundando-as e imprimindo-as, indeléveis.
Feia.
Amarga.
Patética.
— Poxa, Chloé!
Sente vontade de chorar. Vontade de se levantar, abraçá-la e acalentá-la na tentativa de livrá-la da aflição que a atormenta e que ela, Juliette, ignora — e quem sabe até a própria Chloé.
— Já avisei.
Chloé dá meia-volta e caminha para a sua mesa de trabalho, para as suas guirlandas coloridas de Post-its colados ao pé da luminária, para o seu computador enfeitado com orelhas de coelho cor-de-rosa-algodão-doce — presente de um cliente a fim dela, segundo afirmou no dia em que as instalou, novas e eretas. O rosa desbotou, a pelúcia está empoeirada e as orelhas, semelhantes a folhas de lírio murchas, pendem sobre a tela projetando uma sombra comprida.
Chloé caminha como um personagem chegando ao front nos filmes de guerra dos anos cinquenta, observa Juliette, com grandes passadas, determinação forçada, um entusiasmo inspirado pelo perigo e pela perspectiva de fracasso. Acredita numa rivalidade puramente imaginária e a vivencia como uma batalha a ser vencida a qualquer custo.
Com um nó na garganta, Juliette baixa a cabeça para a proposta aberta à sua frente. Faz algum tempo, tem a sensação de que a vida lhe escapa, milhares de grãos de areia escorrendo de uma fenda quase invisível, arrastando com eles milhares de imagens, cores, odores, arranhões e carícias, cem mínimas decepções e talvez outro tanto de consolos… Aliás, nunca gostou da sua vida, tendo passado de uma infância tediosa a uma adolescência retraída, até descobrir, aos dezenove anos, pelos olhares lançados na sua direção, que talvez fosse bonita — quem sabe? Em certos dias. E que tem, como sussurrou o seu primeiro namorado determinada noite em que ambos beberam um pouco além da conta, uma graciosidade, um encanto, algo de bailarina, algo capaz de fazer acreditar na leveza das horas, à margem dos dramas e da perfídia sempre crescentes nos tempos atuais.
Mas Juliette não se sente à altura de endossar esse personagem. Conforme o provou ao terminar com Gabriel, que continuou a beber além da conta sozinho e a buscar de bar em bar uma mulher, ou melhor, um mito cujas virtudes etéreas tornassem suportável a sua existência. Conforme o provou colecionando deprimidos, agressivos, chatos, fracassados ávidos por catástrofes pessoais e reveses sucessivos. Ela procurou essas vítimas complacentes e depois fugiu, observando-as mergulharem num desespero exaltado do mesmo modo que observa as aranhas que, a contragosto, afoga na banheira. A leveza e a graça das bailarinas, ela? Como as bailarinas rodopiando nos pés torturados, os dedos dos pés ensanguentados, mas exibindo um sorriso nos lábios? Essa comparação lhe parece presunçosa; ela não é tão vaidosa assim, não pretende sublimar, mesmo ao custo de sofrimentos calculados, a monotonia do cotidiano, a sua mesquinhez, os belos sonhos não concretizados e as ilusões perdidas, todas as tristezas luxuosas, como se diz por vezes ao comparar a sua existência, limitada mas confortável, às aflições reais que roça apenas com o olhar.
Tristezas luxuosas, pequeninas alegrias. As rotineiras: de manhã, quando o café está gostoso, experimenta uma vaga gratidão; ou quando a chuva anunciada para a semana inteira só cai à noite. Quando o telejornal não despeja um punhado de mortes e atrocidades; quando consegue tirar da blusa preferida a mancha de pesto rosso que Chloé proclamou ser impossível; quando o último filme do Woody Allen é mesmo bom…
E também há os livros. Amontoados em duas fileiras na estante da sala; em pilhas de cada lado da cama; sob os pés de duas mesinhas herdadas da avó, a avó dos vaga-lumes, a que passou a vida inteira numa aldeia no alto da montanha, numa casa de muros escuros como lava cristalizada; livros também na bancada do banheiro, entre os produtos de beleza e o estoque de rolos de papel higiênico; livros numa das prateleiras do armário do banheiro e dentro de uma cestona quadrada de roupa suja cujos puxadores cederam faz séculos; livros na cozinha, ao lado da única pilha de pratos; uma coluna de livros na entrada, atrás do cabideiro. Passiva, Juliette assiste à progressiva invasão do seu espaço, sem opor resistência, mudando apenas algum livro para a gaveta da mesa quando tropeça três vezes seguidas no mesmo, caído da pilha ou da estante, o que significa, segundo ela, que ele quer deixá-la ou, na melhor das hipóteses, já está de saco cheio do apartamento.
Aos domingos, Juliette faz a ronda nos brechós, pois morre de tristeza ao ver as caixas onde livros velhos foram jogados com desleixo, quase com nojo, e que ninguém compra. As pessoas vão a tais lugares em busca de roupas usadas, bibelôs vintage e eletrodomésticos ainda funcionando. Os livros não interessam a ninguém. Então, ela os compra, abarrota a sacola grande de compras com tomos incompletos, livros de culinária ou de bricolagem e romances policiais eróticos de que não gosta, apenas para segurá-los, dar a eles um pouco de atenção.
Certo dia, entrou em um sebo minúsculo, espremido entre uma farmácia e uma igreja, numa praça de Bruxelas. Era um final de semana chuvoso, melancólico. Os turistas haviam abandonado a cidade depois dos atentados. Ela visitou, praticamente sozinha, o Museu Real, onde um tesouro de quadros holandeses dorme sob altos vitrais de onde se derrama uma luz avara. Em seguida, sentindo necessidade de se esquentar, passou na porta de vários cafés, sonhando com uma xícara de chocolate quente, e acabou diante de uma escada de três degraus carcomidos pelo desgaste. Foi atraída pela caixa de saldos colocada sobre um banco de jardim em cujo encosto se encontrava preso um enorme guarda-chuva vermelho. Mas como a caixa só continha livros em holandês, ela subiu os degraus, girou a maçaneta com fecho tranqueta em estilo antigo e empurrou a porta. Sentiu-se em terreno familiar em meio àquelas pilhas, àquela poeirada de papel, àquele perfume de encadernações antigas. No fundo da loja, o homem sentado atrás de uma mesinha mal levantou a cabeça do livro que estava lendo quando a sineta tiniu. Já havia circulado um bom tempo entre os livros, folheado um tratado de medicina do século 19, um manual de economia doméstica, um método para ensinar latim como língua viva, vários romances antigos de Paul Bourget, um autor aparentemente bastante contrário ao divórcio, um álbum dedicado às borboletas do Brasil e, enfim, um volume fino, de capa branca, com o seguinte título em espanhol: Poesía vertical. Ao abri-lo, perguntou-se: “Vertical, ora, por quê? Afinal, as linhas dos poemas não são horizontais como todas as outras? Sim, mas a diagramação… dá uma certa impressão de…”
O poeta se chama Roberto Juarroz. O livro se abriu numa página qualquer, e ela leu:
Quando o mundo se reduz
como se mal passasse de um filamento
nossas mãos inábeis
nada mais podem reter.
Não nos ensinaram
O único exercício que poderia nos salvar:
Aprender a nos mantermos fortes como uma sombra.
Juliette leu e releu o poema, sem se preocupar com os minutos transcorridos. Permaneceu imóvel, o livro aberto entre as mãos, enquanto lá fora a garoa se transformava em tempestade e rajadas fortes de chuva batiam na porta envidraçada fazendo-a tremer nas dobradiças. No fundo da loja, o livreiro não passava de uma sombra recurvada, silenciosa, um dorso feito usando-se a técnica de grisalha. Talvez não se movesse fazia séculos, desde a construção da casa em 1758, de acordo com a inscrição gravada no seu frontão de pedra tão branco ao lado do vermelho-escuro dos tijolos.
Até que disse:
“Seu guarda-chuva.”
Juliette sobressaltou-se.
“Meu guarda-chuva?”
“Ele está molhando os livros da caixa aí perto dos seus pés. Pode colocá-lo ao lado da porta, e assim você ficará mais à vontade.”
Não era uma censura, mas um convite. Entretanto, fechara o livro e avançara na direção dele, talvez um tanto ou quanto apressada demais.
“Vou levar este”, disse, estendendo-lhe o livro de poemas.
“Juarroz”, murmurou o vendedor.
Ele pegou o livro entre as mãos e aproximou a borda do rosto, fechando os olhos e sorrindo, ao estilo de um sommelier cheirando a rolha de um grand cru recém-aberto.
“Esse velho Juarroz…”
Deslizou o polegar ao longo do volume, subindo lentamente na direção do alto de uma página com um gesto no qual, perturbada, Juliette percebeu sensualidade e até amor: depois prendeu-a entre dois dedos, virando-a com a mesmíssima lentidão compenetrada, enquanto os lábios se moviam. Por fim, ergueu a cabeça, oferecendo assim à garota, pela primeira vez, o olhar doce, os olhos enormes por trás das lentes convexas dos óculos.
“Sempre encontrei uma certa dificuldade de me separar deles”, confessou. “Preciso me despedir… Entende?”
“Sim, entendo”, murmurou Juliette.
“Cuide bem dele.”
“Prometo”, sussurrou, perplexa.
Ao sair da loja, deu três passos e depois se voltou com um movimento brusco na direção da fachada de pintura descascada que tantos tesouros guardava. Uma rajada inclinou o guarda-chuva vermelho, e ele pareceu acenar um adeus, ou proferir uma última recomendação.
Um aceno de adeus. Juliette olha ao redor. O escritório mal iluminado, os vidros opacos de sujeira abrindo para o pátio dos fundos, os anúncios desbotados na parede e Chloé, que acaba de virar o seu monitor de modo a que a colega não possa captar olhares; Chloé e os seus penteados esquisitos, as suas saias curtas esvoaçantes, o seu bom humor diário que soa tão falso. Chloé e o seu riso que acaba de se transformar em ricto. Chloé e as suas ambições. Chloé e os seus cálculos, Chloé e a sua profunda e amarga pobreza de espírito.
Atrás de Juliette, aquela parede amarelo-urina, que ela é incapaz de olhar sem crispar os dedos dos pés. E, do outro lado da porta, o sr. Bernard degustando, em pequenos goles, uma bebida quente na xícara herdada da mãe. Mais longe ainda, além da fachada, a rua, os carros passando sobre o calçamento molhado com um suave chapinhar, as outras lojas e centenas, centenas não, milhares de pastas chamadas “apartamentos” sendo negociadas e que contêm milhares de desconhecidos, eles também cheios de ambições, habitados talvez por raivas surdas, mas também sonhadores, apaixonados, os loucos cegos que enxergam melhor que os outros — onde leu isso? Sim, milhares e milhares de desconhecidos. Quanto a ela, ah, ela continua ali, imóvel naquela onda estourando sem cessar na areia; e ali permanecerá tentando aplacar a cólera de Chloé, apesar de saber muito bem que jamais conseguirá; e ali permanecerá vendo a vida passar, preenchendo formulários e calculando o possível bônus em cima do valor da venda de um imóvel de cento e quarenta metros quadrados em Bir-Hakeim; ali permanecerá e ali morrerá.
E todos morrerão. E Juliette jamais terá conhecido essas pessoas, jamais terá se aproximado delas, jamais terá conversado com elas, e jamais conhecerá todas as histórias vividas por quem desfila pela calçada.
Com um gesto maquinal, empurra a gaveta do lado esquerdo da escrivaninha, aquela onde os livros se amontoam desde a sua chegada à imobiliária; um deles fica preso no entalhe de madeira e a gaveta emperra. Inclina-se, pega-o pela borda para soltá-lo. Depois, vira a capa para ler o título.
La Fin des temps ordinaires [O fim dos tempos comuns], de Florence Delay.