A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 9 de 27

Páginas do PDF

A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 9

 

S ob o efeito do vento leste, um vento forte que sopra intermitente desde a véspera, a composição oscila ligeiramente e, ao fechar os olhos, Juliette pode se imaginar a bordo de um navio levantando âncora, deixando o espelho d’água liso de um porto e rumando para alto-mar.

Ela precisa dessa imagem para se acalmar, para domar o tremor das mãos. O livro que mantém aberto à frente parece rígido, grande e pesado demais — muito espalhafatoso, para resumir.

Mas não é essa a sua intenção?

A capa dura protetora, confeccionada na véspera após fuçar, sem escrúpulos, o armário onde se guarda o material de escritório da imobiliária, usar e abusar da impressora a cores — a tal ponto ter sido necessário trocar duas vezes os cartuchos naquele mês, despesa que o sr. Bernard não verá com bons olhos —, e colocar as sobras de papel na sua cesta, para depois mudar de ideia e jogar tudo fora numa lixeira a três ruas dali, com um vago sentimento de culpa, não para de escorregar. Mais uma vez, força as dobras e, em seguida, apoia o volume sobre os joelhos. Diante de Juliette, um sujeito de uns trinta anos, terno cinturado e gravata estreita muito anos sessenta, para um instante de tamborilar no teclado do celular e a encara com ar de compaixão — um tanto ou quanto insistente demais para o seu gosto.

Disfarçadamente, Juliette observa os outros ocupantes do vagão. Não tem muita gente. Devido à greve do funcionalismo público, o metrô está operando em horário reduzido e os moradores dos arredores de Paris, pelo menos os que puderam, ficaram em casa. E, desta vez, ela está adiantada, muitíssimo adiantada, por sinal. Não são nem 7h30. Por que saiu tão cedo? Ah, claro: ficou com medo de não conseguir um lugar para se sentar. O livro que lê, ou finge ler, não é daqueles que conseguimos segurar com uma das mãos enquanto a outra agarra uma das barras nas laterais das portas automáticas.

Portanto, nenhum dos passageiros com quem costuma fazer o trajeto está se deslocando para o trabalho. Sente um certo alívio. Ninguém, com exceção do sujeito do celular, presta atenção nela. Aliás, ele se curva, o queixo para frente, as sobrancelhas levantadas numa mímica exagerada de estupefação.

— Vai ler mesmo tudo isso? É sério?

Ele dá uma risada estridente, curva-se um pouco mais e bate com a unha na capa do livro.

— Só pode ser brincadeira — acrescenta.

Juliette se dá ao trabalho de balançar a cabeça. Não, não é brincadeira. Mas não encontrou outro meio para atrair as suas presas em potencial — pensando bem, é bizarro utilizar esse tipo de vocabulário. Deduzir pela aparência um temperamento, os gostos, talvez os sonhos, e para estes sonhos escolher o alimento apropriado? Não, não se sente capacitada. Foi o que, certo dia, explicou a Soliman depois de uma briga.

Briga talvez seja uma palavra exagerada. Pode-se falar de “briga” quando se remexe na bolsa em busca — debaixo da escova de cabelo, do livro já iniciado faz um tempão, das chaves da imobiliária e do porão do prédio onde mora, do celular, de um bloco cheio de garranchos e de listas de tarefas nunca terminadas — de um lenço de papel já meio amarrotado porém limpo, para um homem que soluça abertamente?

Não, Juliette se corrige. “Agora é você que está escrevendo o romance, e exagerando.”

Replay.

Juliette conta-lhe tudo, conforme exigido: o corredor curvo e o banheiro escuro, úmido e ridiculamente grande em comparação aos demais cômodos do apartamento, a banheira com patas de leão, as marcas de ferrugem, as ideias de Chloé e o seu curso de home staging, a planta, o biombo e, por fim, o livro. E o inesperado sucesso: os clientes já assinaram a promessa de compra e venda, não precisam de empréstimo, o pagamento será cash, até já contrataram um pedreiro para dar início às primeiras reformas. E eles parecem felicíssimos.

Soliman, que até então escutou o relato prestando a maior atenção, mas sem tomar qualquer nota, seca no rosto, com um gesto quase distraído, um risco brilhante — sem a luz crua emitida pela lâmpada, cuja cúpula verde do abajur foi retirada, ela não a teria visto, embora fosse impossível não notar a seguinte. E outras lágrimas tomam o mesmo rumo: doces, lentas, deslizando sobre a pele, transformando-se, ao contato da barba de uns dois dias, numa fina película que ele não tenta enxugar.

— Não estou entendendo — murmura Juliette. — Algum problema? Eu…

Mas claro que sim. Um problema, é óbvio. Como de costume, ela fez tudo errado.

Então vira o conteúdo da bolsa sobre a mesa à procura de um pacote de lenços de papel.

— Sinto muito. Sinto muito mesmo.

Nenhuma outra palavra lhe vem à mente.

— Sinto muito, sinto muito… — repete.

— Chega!

— Sinto mui… Entenda, eu não sou inteligente como aquela mulher, a que se matou. Ou como os outros, os seus mensageiros, eu não os conheço, não sei. Não consigo adivinhar o temperamento de alguém só de ficar olhando um e outro durante o trajeto do metrô. E não tenho condições de passar o dia inteiro seguindo as pessoas, senão perco o meu emprego. Então, como eu posso saber de qual livro precisam?

Ele assoa o nariz com força.

— É idiotice dizer isso — grasna.

— Até que enfim você entendeu…

E então começam a rir, gargalhadas sonoras, contagiantes, incontroláveis. Dobrados em dois, as mãos comprimidas entre os joelhos, Juliette e Soliman choram de tanto rir. Ele segura o pé do abajur com as mãos e, soluçando, acaba derrubando-o e, com isso, mergulhando o rosto numa sombra verde.

— Está… está… está parecendo… um zumbi — ela consegue articular antes de começar a se sacudir, os músculos das pernas agitados por espasmos.

Como é bom rir assim, com a boca escancarada, sem se preocupar com o ridículo uma vez na vida. Rir às gargalhadas, morrer de rir, enxugar a saliva que escorre no queixo, e recomeçar.

Ainda riem quando Zaïde irrompe no escritório, fechando a porta com muita cautela antes de virar o rosto e encará-los com uma expressão séria.

Ela também está abraçada a um livro — e as mãos, nota Juliette, que para no mesmo instante de rir, são réplicas das do pai, embora mais delicadas e menores. A mesma ternura e cuidado ao segurar a lombada do livro, a mesma gentileza. Cada unha rosada, quase carmim, é uma pequenina obra-prima.

Mas não é isso que prende a sua atenção.

O livro de Zaïde está coberto com uma cartolina grossa levemente ondulada, de um verde vivo, sobre o qual letras de feltro vermelhas foram cuidadosamente coladas — mesmo que o alinhamento deixe um pouco a desejar.

E as letras dizem:

Este livro é maravilhoso.

Ele vai tornar você mais inteligente.

Ele vai deixar você feliz.