A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 17 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 17

 

— O homem de chapéu verde tem um sobressalto e derrama chá no pires. Juliette avança com um guardanapo de papel, mas E u gostaria de conversar sobre aranhas.

ele o afasta com um gesto — “sempre esse sorriso”, pensa ela, “o sorriso do gato de Alice no país das maravilhas. Amável e distante a um só tempo.” Perto dele, sente-se jovem demais, desajeitada, atrapalhada, com “mãos que fogem”, como dizia a sua avó, mãos que tudo deixam escapar, que não sabem moldar a forma dos objetos, domá-los ou seduzi-los. Mesmo agora, tem a impressão de ter sido ela que derramou o chá, e talvez tenha derramado mesmo, com a sua declaração incongruente.

Por causa do livro, do livro a respeito de insetos que ele sempre lê no metrô. A primeira vez que o notou, ela achou que se tratava de um colecionador ou pesquisador. Não pensou “o cara é completamente pirado”, mas… mentira, pensou sim.

E agora ali está ele.

Aparece quase todos os dias. Bate de leve na porta do escritório entre 15h47 e 15h49 — ela acha que essa pontualidade tem a ver com a linha do metrô escolhida. Juliette sente saudades da linha 6, dos seus pontos de referência familiares, da lancha do Ministério da Fazenda atracada sob o pórtico fluvial, do cais na outra margem, dos vitrais das estações de superfície, da creche cujo telhado é de azulejos, uma casa de verdade isolada entre construções cada vez mais altas que a destacam — repetidas vezes olhou para ela com uma ponta de nostalgia da qual ignora a causa —, dos grafites da porte d’Italie nas paredes cegas dos prédios construídos nos anos setenta, da ponte de Bir-Hakeim, da estação Passy e da sua aparência de estação ferroviária provinciana…

Sente falta também dos desconhecidos a quem entregou livros com os títulos ocultos pelas capas coloridas de Zaïde, pessoas a quem a capa prometia felicidade e transformação, e que adoraria rever, não necessariamente para lhes fazer perguntas — evidente que não, pois a leitura é algo muito íntimo e precioso —, mas para observá-las, tentar decifrar em seus rostos o início de uma mudança, de um acentuado bem-estar, de uma alegria mesmo que efêmera. Talvez tudo isso não passe de pura tolice.

— Acha tolice? — pergunta a Leonidas depois de lhe contar as reflexões.

— Acho que deveríamos falar de aranhas…

— Eu também. Afinal, você é especialista em insetos.

— Não é bem assim, mas não me canso de contemplá-los. Na minha opinião, nunca, em nenhum ser vivo, o desígnio da natureza alcançou tamanha perfeição.

— É por isso que lê sempre o mesmo livro no metrô?

— Sim. Imerso na vergonha inspirada pela minha covardia e pelo sofrimento inspirado pelo meu amor platônico, eu necessitava de apaziguamento. O que há de mais apaziguante que a estrutura dos élitros do modesto Gryllus campestris, o grilo-do-campo?

Constrangido, remexe-se no assento.

— Chega de falar de mim. Por onde quer começar?

— Pelas aranhas. Por que elas sobem pelo encanamento? Por que deixam um lugar seguro por outro bem mais perigoso?

Leonidas cruza e descruza várias vezes as mãos brancas muito bem cuidadas, nas quais cada unha está lixada à perfeição.

— Essa pergunta só se aplica às aranhas — acaba respondendo. — Eu até poderia dar uma pequena conferência a respeito dos hábitos desses insetos, mas tenho a impressão de não ser esse o seu interesse. Por acaso, estou enganado?

Juliette então solta a língua, as palavras embaralhadas, tomada pela necessidade de contar tudo à medida que ideias e sentimentos lhe vêm à cabeça: falar do seu desespero diante dessa nova vida à qual está se adaptando devagar, bem devagarinho; dessa percepção clara e impiedosa que, de repente, lhe mostrou a banalidade da sua existência anterior; das suas dúvidas; dos seus medos; dessa pontinha de obstinada esperança que talvez se aninhe entre as páginas desses incontáveis livros impossíveis de serem classificados.

— Eu também — diz ela — estava coberta de poeira. Acumulada sem que eu tivesse percebido, entende?

— Acho que sim — responde Leonidas. — E agora?

Por um instante, Juliette fecha os olhos.

— Tudo isso (levanta a mão como que para mostrar o aposento onde se encontram e, mais adiante, o estoque, o pátio, a escada de ferro bamba, os cômodos que dão para a galeria, o retângulo de céu dominando os muros e os telhados vizinhos) surtiu o efeito de uma ventania gelada em mim. Eu me sinto nua. Sinto frio. Sinto medo.

Juliette percebe que Leonidas se mexe. Com doçura, ele pousa uma das mãos na testa dela. Ela se lembra dos gestos da avó, quando a visitava nos Pireneus durante o inverno e ficava resfriada por ter brincado demais na neve e molhado os sapatos.

— Meus parabéns…

Juliette acha que entendeu mal. Por que a parabeniza? Por que merece elogios? A mão suave não se demora sobre a sua pele. Ela sente a mão se afastando. Leonidas retomou o seu lugar na poltrona, que estala. Ela não ousa erguer as pálpebras. Ainda não. Talvez tenha confundido ironia com sinceridade. Talvez…

“Para o inferno todos os ‘talvez’!”

Olha para ele. Acariciadas pela fumaça azul escapando do fornilho do cachimbo, as feições do homem tremulam, modificam-se: é o gênio da lâmpada, o duende malicioso surgindo de uma brasa ou de um pântano pontilhado de luzes pálidas saltitantes.

Leonidas tira o cachimbo da boca, ergue-o à altura da têmpora e, com suavidade, bate nela com a boquilha.

É

— É bom sentir medo — retoma, calmo. — Você começa a compreender que a grande arrumação que planeja, e contra a qual não faço nenhuma objeção, acredite, não deve ocorrer entre estas paredes.

— Onde então?

Juliette não reconhece a própria voz, febril, ávida.

— Aí. No que chamam, dependendo do gosto de cada um, de alma, coração, entendimento, consciência, mente, lembranças… Tem vários outros nomes. Todos insuficientes, na minha opinião. Mas não é isso o que importa.

Apoia-se nos braços da poltrona e curva-se ligeiramente na direção de Juliette.

— É em você que todos esses livros devem encontrar o seu lugar. Em você. Em nenhuma outra parte.

— Quer dizer… que devo ler todos? Todinhos?

Como ele não responde, ela fica agitada e acaba cruzando os braços no peito, em um gesto de autoproteção.

— Está bem. Digamos que eu consiga… O que vai acontecer depois?

Leonidas inclina um pouco a cabeça para trás e sopra a fumaça em um círculo perfeito, que observa com ar sonhador enquanto a esfera se deforma ao atingir o teto.

— Vai esquecê-los.