A Garota que Lê no Metrô
Capítulo 6
D e pé no vagão lotado, Juliette sente a sacola a tiracolo machucá-la bem entre as costelas e o quadril, no lado esquerdo. Os livros, pensa, tentam infiltrar-se nela com os seus múltiplos ângulos, cada um empurrando o outro para ser o primeiro, animaizinhos cativos e obstinados, e, naquela manhã, quase hostis.
Ela sabe o motivo. Ao chegar em casa na véspera, decidiu telefonar para a imobiliária avisando que não estava se sentindo bem — “não, não, nada grave, uma indisposição, nada que um dia de repouso não cure” —, enfiou os livros de qualquer jeito na sacola grande das terças-feiras, a das compras, fechou o zíper e deixou-a ao lado da porta de entrada, com o guarda-chuva em cima, pois o serviço de meteorologia anunciara dias tristonhos para a semana inteira. Depois ligou a TV, colocou bem alto o volume e comeu uma lasanha congelada, aquecida no micro-ondas, assistindo primeiro a um documentário sobre os gansos-patola e a outro dedicado a uma estrela decadente do rock. Precisava dos barulhos do mundo interpondo-se entre ela e o depósito entulhado de livros, entre ela e a hora que vivera no cômodo minúsculo; não, minúsculo não, mas invadido, aquele escritório onde o espaço ainda vazio parecia ter sido construído de dentro para fora, volume por volume, arrumados na estante, empilhados entre os pés de uma mesa, encostados numa poltrona ou nas prateleiras de uma geladeira com defeito, aberta e morna.
O que ela trouxe daquele cômodo subtraiu da vista, dos sentidos, senão da memória; com a boca inundada do sabor quase açucarado, artificial, do molho à bolonhesa industrial, os tímpanos saturados de música, de exclamações, de cantos de pássaros, de confidências e análises, de falatório, Juliette começou a tomar pé do familiar, da banalidade, do passo em falso, do quase suportável, da vida, ora, a única vida que conhecia.
E, agora de manhã, os livros estavam sentindo raiva dela por tê-los ignorado.
Que ideia idiota.
— Nossa — resmunga o vizinho de assento, um homenzinho espremido numa parca de estampa de camuflagem —, esse negócio aí tá me incomodando. O que você está carregando nessa sacola?
Com o olhar na altura do crânio dele, onde uma calvície rosada e reluzente começava a surgir entre as mechas besuntadas de pomada capilar, Juliette responde automaticamente:
— Livros.
— Na sua idade? Devo estar sonhando. Preste atenção, não estou criticando, é bom ler, mas não seria melhor…?
Ela não ouve o final da frase. A composição acaba de parar com um solavanco; as portas se abrem; o rabugento, arrastado pela massa de corpos em movimento, já desapareceu e foi substituído por uma mulher alta e magra, vestindo uma capa de chuva amarrotada. Embora esbarre durante todo o trajeto nos livros, que parecem ter se organizado por conta própria para oferecer o máximo de pontas ao menor contato, ela não reclama. A situação chateia Juliette, por isso ela se mexe o mínimo possível, mas nada no rosto visto de perfil sugere o menor incômodo; apenas um pesado cansaço, volumoso como uma carapaça incrustada e reforçada pelo tempo.
Enfim Juliette chega à sua estação, esgueira-se em meio ao fluxo de passageiros subindo e descendo as escadas, tropeça, recupera o equilíbrio na calçada, procura com o olhar a vitrine da imobiliária, os retângulos brancos emoldurados por um tom laranja berrante com anúncios expostos, e corre até a porta.
É a primeira a chegar. Assim, pode livrar-se da sacola escondida debaixo do casaco e enfiá-la no armário metálico no qual as duas funcionárias guardam os pertences. Fecha a porta com desnecessária violência e senta-se à mesa, onde uma pilha de propostas incompletas e um bilhete com a escrita desordenada de Chloé a aguardam: Já tá melhor? Tô em visita now, vô direto pro apê feio da rua G. Beijos!
“O apê feio da rua G” significa uma demorada, demoradíssima visita. Dos cinquenta metros quadrados, todo — ou quase todo — o espaço é devorado por um corredor e um banheiro inutilmente grande, contendo uma banheira com patas de leão consumidas pela ferrugem. Chloé transformou a venda do apartamento em um desafio pessoal. Juliette ouviu, alguns dias antes, Chloé elaborar o seu plano de ataque, enumerando com entusiasmo as vantagens de uma banheira em plena Paris.
“Se for um casal, o aposento vai despertar a libido deles. Preciso que se imaginem juntos dentro da banheira cheia de espuma, e com óleos essenciais para massagear os pés.”
“E a ferrugem? E o azulejo rachado do piso? Não vejo muito glamour nisso”, rebateu Juliette.
“Vou levar para lá o velho tapete chinês da minha avó. Fica guardado no porão; mamãe nem vai saber que não está mais lá. E uma planta. Eles vão se imaginar num jardim de inverno, entende, como naquele livro que você me emprestou… Que livro chato, páginas e mais páginas… Nem consegui terminar, mas tinha aquele negócio bacana cheio de flores e poltronas de vime…”
Sim, Juliette entendia. O livro é La Curée [O padre] de Zola, e Chloé devolveu-o com o seguinte comentário: “Fazem drama por nada!” Contudo, aparentemente, apreciou a sedução fatal da cena na qual Renée Saccard entrega-se ao jovem enteado na estufa, onde pairam os inebriantes perfumes de flores raras ali reunidas como testemunho da fortuna e do bom gosto do marido.
“Você deveria ter ido ao curso de home staging”, prosseguiu Chloé, condescendente. “Foi superinteressante. É preciso dar vida aos apês, sacou? A vida que as pessoas têm vontade de ter. É preciso levar elas a pensar, ao entrarem: ‘se eu me mudar para cá ficarei mais forte, mais importante, mais popular. Obterei a promoção que desejo há dois anos e que não pedi por medo de ouvir um não, de levar um fora; ganharei um aumento de salário de quinhentos euros, convidarei aquela gata que trabalha no pub para sair e ela aceitará’.”
“Você vende ilusões aos compradores…”
“Nada disso; vendo sonhos. E os ajudo a se projetarem num futuro melhor”, concluiu Chloé, em tom pomposo.
“Pare de repetir o que aprendeu no curso!”, exclamou Juliette. “Você acredita mesmo nisso?”
Emburrada, Chloé encarou a colega.
“Claro. Desde que eu ganhe o meu bônus. Como você pode ser tão baixo-astral…”
O telefone toca. É Chloé:
— Traz um livro pra mim. Sei que tem um monte na gaveta da sua mesa. Eu já vi — dispara em tom de acusação.
— Que gênero de livro? — pergunta Juliette, meio desnorteada. — E por que você…?
— Qualquer um. É para a mesinha que vou colocar ao lado da banheira. Assim, vai dar para esconder um pouco a ferrugem. Ah, e também vou colocar um abajur tipo vintage com uma franja de pérolas; tem mulher que adora ler no banho, sei lá, acho eu. Dá logo para ver o clima.
— Eu achava que queria sugerir brincadeiras eróticas na banheira.
— O carinha dela não vai estar sempre aqui. E depois, de vez em quando, é bom respirar um pouco.
— Bem, se é você quem está dizendo, eu acredito — responde Juliette, brincalhona.
Chloé coleciona transas de uma noite apenas, lamenta cada final de semana de celibato como sendo uma tragédia, e com toda certeza jamais teria a ideia de convidar Proust ou Faulkner para compartilhar com ela um banho de espuma.
— Vou pensar no seu caso — diz Juliette, antes de desligar.
Chloé viu certinho: a última gaveta da mesa da colega, a mais funda — pouco prática, portanto, para guardar em ordem as propostas —, está abarrotada de edições de bolso, tipo pocket, vestígios de quatro anos de trajetos casa-trabalho, livros em que pôs entre as páginas, ao acaso, em meio às leituras interrompidas, entradas de cinema ou recibos de lavanderia, o flyer de um pizzaiolo, programas de concertos, páginas arrancadas de agendas onde rabiscou listas de compras e números de telefone.
Quando puxa a alça de metal, a gaveta pesada sai dos trilhos com um rangido e emborca bruscamente fazendo cerca de meia dúzia de livros caírem no chão. Juliette pega-os e senta-se de novo para colocá-los ao lado do teclado do seu computador. Inútil revirar a gaveta, o primeiro título que vê dará conta do recado. “Título” é a palavra apropriada. Porque Chloé só lerá mesmo o título.
O título. Isso. O título é importante. Alguém leria no banho La Démangeaison [A coceira], de Lorette Nobécourt, um livro que só de segurar ainda faz a sua pele se lembrar do sorrateiro formigamento que começou na omoplata esquerda, subiu até o ombro, e pronto, ela desatou a se coçar toda, a ponto de se ferir? Não, obviamente não é uma boa ideia. No entanto, não conseguiu largar o livro quando iniciou a leitura. Por isso mesmo é uma péssima ideia: a água correrá o risco de esfriar. Precisa de algo delicado, reconfortante, envolvente. E de certa dose de mistério. Contos? O Horla de Maupassant, o diário inacabado de um homem tomado pela loucura e levado ao suicídio? Juliette imagina a leitora imersa na espuma até os ombros erguendo a cabeça e, ansiosa, escrutinando o corredor sombrio pela porta entreaberta… Dessa escuridão irromperão então os espectros e os temores infantis tão cuidadosamente reprimidos anos a fio e todo o seu cortejo de angústias… Apavorada, a jovem ficará de pé na água do banho, sairá da banheira, escorregará no sabonete — como lady Cora Crawley em Downton Abbey —, talvez quebre o pescoço no tombo e…
Não.
Insatisfeita, afasta a coletânea de contos, o primeiro tomo de Em busca do tempo perdido, vários romances policiais com capas esmaecidas, um ensaio sobre o sofrimento no trabalho, uma biografia de Stalin (por que comprou aquilo?), um manual de conversação, dois densos romances russos compostos em corpo 10 e entrelinha apertada (ilegível!), e suspira. A escolha não será tão fácil assim…
Não lhe resta outra opção senão esvaziar a gaveta e recolocá-la nos trilhos. Encontrará alguma coisa. Um livro inofensivo, incapaz de provocar a menor catástrofe.
A menos que…
Com a palma da mão, empurra os livros, que caem de qualquer jeito no que, é preciso confessar, parece um túmulo. Em seguida, fecha a gaveta. É triste, sabe, mas não quer, por enquanto, prolongar aquela emoção difusa e desagradável.
Tem uma missão a cumprir.
Levanta-se, contorna a mesa e abre o armário.
A sacola continua lá. Por que passou pela sua cabeça, mesmo que por um breve segundo, a possibilidade de ter desaparecido?
Abaixa-se, pega-a e, instintivamente, aperta-a contra o peito.
A ponta de um livro tenta inserir-se entre as suas costelas.
Será aquele, pensa então, com uma certeza jamais experimentada.