A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 25 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 25

 

— Não é uma pergunta. Sentado na poltrona de Soliman e, como de hábito, envolto por uma nuvem de fumaça, Leonidas V ocê quer mesmo fazer isso.

quer apenas confirmar ter entendido direito o discurso precipitado e entrecortado que Juliette acaba de fazer.

— É uma boa ideia, não acha? Eu nunca consegui concretizar o que Soliman nos pedia: seguir alguém, estudar a pessoa de perto para saber de qual livro precisava, qual lhe devolveria a esperança ou a energia ou a raiva que lhe faltava. É isso, encherei de livros a van e visitarei as pessoas nos vilarejos, e terei tempo para conhecê-las, pelo menos um pouco. Será mais fácil. Aconselhá-las, quero dizer. Encontrar o livro certo. Para elas.

O homem do chapéu verde — do qual não se separa — tira o cachimbo da boca e, pensativo, contempla o fornilho.

— É tão importante para você o que Soliman queria? Nunca passou pela sua cabeça que ele era louco — e nós todos também? É assim que nos vê?… Como uma espécie de médicos da alma ou representantes da indústria farmacêutica andando para lá e para cá com a maleta de medicamentos?

— Bem…

Como lhe dizer que sim, que é um pouco essa a sua ideia? Que acabou acreditando, não, acreditando não, adquirindo a certeza de que dentro das páginas dos livros se escondem ao mesmo tempo todas as doenças e todos os remédios? Que neles encontramos a traição, a solidão, o assassinato, a loucura, a raiva, tudo o que pode nos agarrar pela garganta e acabar com a nossa existência, sem falar com a dos outros, e que às vezes chorar sobre as páginas impressas pode salvar a vida de alguém? Que encontrar a sua alma gêmea em um romance africano ou em um conto coreano ajuda a compreender a que ponto os seres humanos sofrem dos mesmos males, a que ponto se assemelham, e que talvez seja possível conversar — sorrir, trocar carícias, sinais de reconhecimento, não importa quais — a fim de tentar evitar, no dia a dia, causar tanta mágoa uns aos outros? Mas Juliette receia ler no rosto de Leonidas uma expressão condescendente, pois, sim, isso tudo não passa de psicologia barata.

Ainda assim, acredita nisso.

Então, espera na esquina o reboque que vem de Dourdan-la-Forêt, sem fazer cara feia por ter aceitado o preço exorbitante cobrado pelo motorista e assiste à liberação da van — por enquanto, parece um destroço e em nada lembra o pedacinho de sol que acredita ter visto na cabana em ruínas, cercada pela magia ilusória do nevoeiro.

Chama o mecânico mais próximo — dessa vez, nem pensar em se afogar em dívidas com gastos de reboque —, pede um orçamento, emburra a cara mais uma vez, sobe ao sótão para recuperar as últimas latas de tinta amarela, compra material de limpeza e põe mãos à obra.

Leonidas coloca uma cadeira de jardim diante da porta envidraçada do escritório e só a observa. De tempos em tempos, leva um croissant com amêndoas e uma xícara de café instantâneo — definitivamente, renunciaram a pôr em funcionamento a máquina de Soliman —, meneia a cabeça num gesto compungido e torna a se sentar. Os mensageiros não aparecem mais, a notícia a respeito do falecimento de Soliman já deve ter se espalhado. Rumores correm ainda mais rápido que livros, cujas palavras estão sujeitas à impressão, talvez a metamorfoses. “Aliás”, Juliette pergunta-se, esfregando o capô coberto de musgo, “não passaria a história do mundo, tal como a conhecemos, de fabulosos rumores que certos indivíduos tiveram o cuidado de deixar por escrito e que continuará a se modificar, repetidas, incontáveis vezes até o fim dos tempos?”

A verdade é que somos todos sós.

Com os nossos fantasmas.

E com o veículo que se livra das suas peles mortas tal uma cobra enroscada num arbusto. E começa a reluzir. E, naquele pátio apertado, parece ocupar cada vez mais espaço.

— Ela é grande demais — critica Leonidas, embora com certa admiração. — E se não passar pelo portão? Como vamos fazer?

De pé ao seu lado, Juliette, orgulhosa da sua obra, batalha para tirar as luvas de borracha. A carroceria continua amarela, mas exibe inúmeras tonalidades diferentes, pois a tinta acabou e a moda do “amarelo-ouro” há tempos cedeu o trono ao “amarelo-canário” e ao “amarelo alaranjado”. Resta ainda um pouco da cor original no capô, onde a carroceria ficou mais protegida. Ela lamenta o fato de Zaïde não estar ali para pintar flores ao longo da porta, como fez no cômodo no qual Soliman lhe propôs instalar-se, algumas semanas antes. Mas Zaïde não voltará à antiga casa/depósito. Não de imediato. Leonidas passará ali a sua aposentadoria, comenta bem-humorado, satisfeito de poder poupar o dinheiro do aluguel. Quer reconstituir a rede dos mensageiros; em resumo, dar continuidade ao trabalho iniciado por Soliman, e também…

— Os barcos precisam de um porto seguro — diz, admirando o veículo recém-pintado. — E isso é um barco. Não um veleiro de regata, com certeza, a sua estrutura nada tem de delgada; pelo contrário, está mais para bojuda. Parece um brinquedo de criança. Ela me lembra aquela música dos Beatles, sabe qual? Yellow Submarine. Deveríamos chamá-lo assim, se não for inconveniente, é claro.

Juliette cai na gargalhada.

— Conhece os Beatles?

— É óbvio. Mesmo se eu fosse centenário, conheceria os Beatles. Você, mais do que eu, não pertence à sua época, Juliette. E acho isso ótimo. Eu não diria para continuar como é porque sei que deseja o contrário. Mas não perca esse seu lado… É, não tem jeito, estou envelhecendo, esqueço as palavras. Não consigo encontrar a palavra adequada.

— Nem eu — murmura a jovem.

Ele abre um sorriso — um sorriso meio triste, mas repleto de bondade.

— No fundo é melhor assim.