A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 15 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 15

 

M eia hora depois, Juliette e Leonidas — é esse mesmo o seu nome, um nome que lhe evoca, de modo irresistível, uma das marcas mais famosas e tradicionais de chocolates finos da Bélgica, com montanhas de bombons, pralinês e barrinhas sortidas — dividem um croissant com amêndoas, a sobra do café da manhã, e café solúvel, pois ela se recusa a tocar na complicada maquininha inventada por Soliman para preparar o negro néctar que ele bebia, no mínimo, doze xícaras por dia. Ao olhar o chapéu verde pousado sobre uma dezena de romances ingleses, o casaco pendurado em um cabideiro escorado — falta-lhe um pé — nas obras desprezadas de uma autora norte-americana de best-sellers, as espirais do cachimbo desenhando auréolas no teto de bordas azuladas e vincos movediços, alguém poderia supor que o visitante é o verdadeiro morador do lugar, e Juliette, uma simples estagiária nervosa e louca para mostrar serviço.

— Preciso catalogar isso tudo — explica ela. — Não termino nunca. Os mensageiros chegam, eu entrego umas sacolas de livros indiscriminadamente, apanhados aqui e ali… onde não posso mais andar, na verdade. Tenho a impressão de fazer tudo de qualquer jeito. Eu… não sei como Soliman procedia. Quero dizer, como escolhia os livros.

Leonidas não responde a essa interrogação disfarçada; ele reflete, o cenho franzido, dando tragadas cada vez mais fortes.

— O problema, minha querida menina, não é tanto saber como ele os escolhia, mas sim de que maneira os arrumava. E de que maneira os próprios livros escolhiam sair.

 

Os dois passam o final de tarde explorando o escritório e o grande cômodo anexo, no qual Juliette ainda não ousou se aventurar. É uma sala de paredes nuas que recebe luz graças a duas janelas localizadas bem debaixo do teto, mais largas que altas, que uma correntinha permite entreabrir. Mas de tão sujos os vidros, a claridade é apenas suficiente para não esbarrarem um no outro.

Ali, naquele lugar, não há uma única prateleira e nem mesmo as estantes feitas com caixas de frutas de que Soliman parece tanto gostar.

Apenas livros. Livros encostados nas paredes, em duas, três, por vezes quatro fileiras. O centro do aposento está vazio.

— Pois bem — constata Leonidas com satisfação —, ao que tudo indica, Soliman começou esse trabalho que julga extraordinário. Vamos encontrar aqui uma orientação, como eu diria… uma diretriz. Com a mais absoluta certeza.

E meneia a cabeça duas vezes, soltando um enorme círculo de fumaça. E ela corre para puxar a correntinha mais próxima e permitir a entrada de, pelo menos, uma lufada de ar.

— Uma diretriz.

Juliette tenta, ao menos uma vez, não dar à voz aquela inflexão interrogativa que, definitivamente, a classificaria aos olhos desse amante de edições raras entre as antas desprovidas de cérebro.

— Está vendo? A arrumação dos livros tem uma história no mínimo tão interessante quanto a dos próprios livros. Conheci um homem… — diz Leonidas.

E, animado, prossegue:

— Talvez eu não o tenha de fato conhecido. Digamos que eu li um livro do qual ele era o personagem principal, mas é uma boa maneira de conhecer as pessoas, concorda? Talvez a melhor. Pois bem, esse homem evitava colocar na mesma prateleira dois livros cujos autores não se dessem bem, mesmo depois de mortos. Sabia que, por ter ridicularizado Cícero, Erasmo foi condenado por um juiz de Verona a doar cem escudos aos pobres? Shakespeare e Marlowe acusaram-se mutuamente de plágio; Céline chamava Sartre de “merdinha”; Vallès achava Baudelaire cabotino. Quanto a Flaubert, usava o elogio com duplo sentido: “Que homem teria sido Balzac se soubesse escrever!” Escrever jamais eximiu alguém de ser invejoso, mesquinho ou filho da puta, me perdoe o termo. Em geral, não me expresso assim, mas, nesse caso, não encontro coisa mais adequada para dizer.

Juliette lança-lhe um olhar enviesado e começa a rir. Esse homem lhe faz bem. “Um erudito plácido, uma espécie de tio como os dos romances antigos, daqueles que nos colocam sentados no colo e permite que brinquemos com a sua corrente de relógio quando somos pequenos, e mais tarde nos fornece um álibi quando dormimos fora. Adoraria tê-lo conhecido antes.”

Ele fala dos livros como de seres vivos — velhos amigos, às vezes temíveis adversários, alguns o protótipo do adolescente provocador, e outros de senhoras idosas tecendo a sua tapeçaria ao pé da lareira. Há nas estantes, segundo ele, sábios rabugentos e apaixonados, fúrias desencadeadas, assassinos em potencial, franzinos meninos de papel estendendo a mão a frágeis meninas cuja beleza se desintegra à medida que mudam as palavras para descrevê-las. Certos livros são cavalos fogosos, selvagens, e nos levam em galope desenfreado, a respiração entrecortada, agarrados com dificuldade à sua crina. Outros, barcos navegando sossegados nas águas de um lago em noite de lua cheia. Outros ainda, prisões.

Ele discorre sobre os seus autores preferidos, de Schiller, que jamais escrevia sem deixar de guardar maçãs podres dentro da gaveta da escrivaninha, para se forçar a trabalhar mais rápido, e mergulhava os pés numa bacia de água gelada a fim de se manter acordado à noite; de Marcel Pagnol, tão apaixonado por mecânica, que registrou a patente de uma “cavilha irremovível”; de Gabriel García Márquez, que, para subsistir enquanto escrevia Cem anos de solidão, vendeu o carro, o aquecedor da casa, o liquidificador e o secador de cabelos; aos erros de concordância de Apollinaire, Balzac, Zola e Rimbaud, erros que ele perdoava de coração aberto e anotava com certa gula.

Anoiteceu faz um tempão. Zaïde deve estar com fome, e ela também sente a barriga roncar.

— Adoro as suas histórias — diz por fim Juliette —, mas nelas não vejo o início do que chama de “diretriz”. Continuo sem saber por onde começar. Pelos escritores que cometem erros gramaticais? Pelos que têm um hobby ou uma predisposição à loucura? Pelos viajantes, pelos sedentários, pelos reclusos?

Leonidas morde a boquilha do cachimbo, cujo fornilho esvaziou faz um tempão, e meneia a cabeça, suspirando.

— Para ser sincero, nem eu sei por onde começar. Mas tudo bem. Vá dormir, minha menina. Amanhã, você verá as coisas sob uma luz totalmente nova.

Ele reflete ainda alguns segundos.

— Ou não — conclui.

— Isso não é muito encorajador…

— Nada é encorajador na vida. Cabe a nós buscarmos encorajamentos onde os nossos olhos, ou o nosso entusiasmo, a nossa paixão, a nossa… ora, onde qualquer coisa seja capaz de descobrir esses encorajamentos.

Com ar indulgente, dá um tapinha na bochecha dela.

— E você é capaz. Posso garantir.