A Garota que Lê no Metrô
Capítulo 13
T rês semanas depois, Juliette se muda para a sua nova residência. Como Soliman avisou, os dois cômodos, antigos ateliês, só recebem iluminação através da galeria e de um estreito feixe de luz; até anoitecer, a luz banha o lugar com uma claridade pálida, uniforme, que ela não tarda a achar repousante. Soliman comprou numa liquidação latas de tinta amarela, na exata cor de narcisos, pincéis usados que precisaram passar dois dias inteiros de molho de tão duras as cerdas, e lonas com as quais cobriram o piso antes de pôr mãos à obra. Largas faixas amarelas não demoraram a se entrecruzar nas paredes decrépitas ao ritmo dos seus movimentos, ou melhor, das suas conversas divagantes. Agachada no canto mais próximo da porta, Zaïde — armada do pincel do seu estojo de aquarela e de uma palheta onde várias cores de guache se espalhavam, se sobrepunham e se misturavam — pintou flores nos rodapés. Rosas numa tonalidade azul-escuro e hastes vermelhas, margaridas verdes de miolo lilás, tulipas negras “como a que Rosa cultivava no seu quarto para o pobre Cornélio, o prisioneiro”.
“Ela vive mergulhada em Alexandre Dumas, um verdadeiro peixinho”, explicou Soliman com um sorriso cheio de orgulho.
“Nada de perguntas”, repetiu mentalmente Juliette, apesar de morta de curiosidade. Então falaram de cores, de flores, da tulipomania, dos jardins do Oriente divididos em quatro partes à imagem do paraíso.
“Aliás, paraíso vem de uma palavra persa, pairidaeza”, explicou o mensageiro de livros, “que por sua vez significa ‘jardim fechado’.”
“Eu preferiria um jardim… sem muros”, comentou Juliette, enquanto constatava que o velho macacão jeans, vestido pela manhã, estava tão constelado de manchas amarelas quanto um campo inteirinho de orquídeas botão de ouro.
“Eu adoro muros”, confessou Zaïde, sem levantar a cabeça. “Ficamos protegidas.”
“Ninguém vai te fazer mal, zibâ*”, disse Soliman com ternura.
* Bonita, em farsi. (N. A.)
“Você não sabe nada. Não sabe nada que tem do outro lado do muro… Você nunca sai.”
“No entanto, foi preciso eu entrar.”
“Sim”, cantarolou Zaïde, “foi preciso, foi preciso…”
A conversa cessou. Contudo, Juliette gostaria de saber como pai e filha tinham chegado ali, qual havia sido o itinerário, de onde tinham vindo, de qual jardim ou, quem sabe, de qual guerra. Ela não pôde se impedir de inventar histórias sobre eles, e esses destinos voláteis, truncados e incertos acentuaram ainda mais o encanto que emanava dos dois e daquele lugar semelhante a um navio encalhado nas areias de um estuário, entregue a um certo abandono, mas também tão vivo.
Falaram de livros e mais livros, dos romances góticos de Horace Walpole e de Dublinenses, de Joyce, dos contos fantásticos de Italo Calvino e das prosas breves, enigmáticas, de Robert Walser, do Livro do travesseiro, de Sei Shônagon, da poesia de García Lorca e dos poetas persas do século 12. Soliman largou o pincel para recitar versos de Nezami:
Tal o astro da noite, quem vais visitar?
E esta poesia de tamanha beleza, por quem foi revelada? Uma sombrinha de âmbar cinza real tolda teu rosto
Coberto por um pálio negro. Sobre quem vais reinar? Poderia eu dizer que és mel? O mel não é tão doce;
Ou que arrebatas corações? Mas quais vais deleitar?
Tu te vais e por pouco entrego a minha alma
Oh dor de Nezami…
E Juliette quase se esqueceu do mundo tamanha a emoção despertada pelas palavras. “Mas emocionada por quê?”, perguntou-se enquanto alisava a tinta no contorno de um batente. “Não estou apaixonada por ele. Entretanto, ele também vai partir, e tudo isso — o depósito, estes cômodos, o seu escritório — me parecerá vazio, apesar da voz de Zaïde, das suas músicas, gracinhas e brinquedos que apanharei nos degraus da escada de incêndio. Apesar dos mensageiros e dos livros, apesar…”
“Você não gosta de poesia?”
Que idiota! Ele não compreendeu nada. Aliás, nem ela. Isso devia fazer parte da tal famosa condição humana, daquele pacote recebido no nascimento — no fundo, todos reprimidos, impermeáveis às emoções do outro, incapazes de decifrar gestos, olhares, silêncios; todos condenados a despender um esforço enorme para se explicarem com palavras que nunca são as adequadas.
“Sim… Sim, adoro poesia. Mas o cheiro da tinta me causa um pouco de dor de cabeça.”
Embora fosse uma desculpa esfarrapada, ele caiu na armadilha, ofereceu-lhe uma cadeira, água, aspirina, e por fim lhe sugeriu sair para respirar ar fresco, o que Juliette, agradecida, aceitou. Foi para a galeria e caminhou de um lado a outro observando o pátio, os prédios cercando os três lados e que, na sua maioria, só mostravam a fachada cega. Ninguém poderia vigiar o que acontecia ali. Em plena Paris, o lugar era um refúgio perfeito — um refúgio ou um covil, isolado, protegido. E, de novo, ressurgiu a antiga e insidiosa suspeita. Soliman teria lhe contado a verdade a respeito da sua reclusão voluntária? Suas manias, aparentemente inofensivas, não esconderiam outra coisa? Juliette não ousou pensar o que essa “outra coisa” poderia ocultar, mas, apesar do seu empenho para afastá-las, as imagens a assaltaram. Imagens violentas, sangrentas, atrozes; imagens que todos os canais de TV transmitiriam sem interrupção, bem como as de portas arrombadas, separadas por um cordão de isolamento, de onde se vislumbrariam o interior destruído, armas. Sim, encontrariam armas e também listas, nomes, lugares. Interrogariam os vizinhos, “ele era tão educado”, diria uma senhora, “ele segurava a porta do elevador para mim e carregava as minhas compras”.
Juliette passou as mãos no rosto antes de se dar conta de que os dedos estavam sujos de tinta. “Vou parecer um dente-de-leão.” E riu um riso nervoso na tentativa de abolir as visões aterrorizantes, o medo, tudo o que tornaria a sua vida impossível, caso não tomasse cuidado. “Vamos, Juliette, terroristas não recitam poesia; eles odeiam poesia, música e tudo o que fala de amor.” Mais um lugar-comum ao qual tentou se agarrar, “pois quando nos afogamos não escolhemos a tábua de salvação.”
“Tome, isso vai lhe fazer bem.”
Ele estava atrás dela, ofereceu-lhe um copo de vidro fumê de onde subiu um tênue vapor.
“É chá de especiarias.”
“Obrigada”, murmurou. Envergonhada, mergulhou o nariz na emanação perfumada, fechou os olhos e imaginou-se longe, muito longe, em um daqueles mercados do Oriente reduzidos a escombros pelas bombas, num daqueles jardins só existentes em contos. E bebeu um gole.
“É gostoso”, disse.
Soliman apoiou o cotovelo no parapeito enferrujado, o olhar voltado para o céu que, pouco a pouco, se coloriu de uma tonalidade arroxeada.
“Logo ficará escuro para pintar.”
“A gente acende a luz”, replicou Juliette com uma voz que lhe pareceu estranhamente estrangulada.
Ele balançou a cabeça.
“Não… É necessária a luz do dia. É necessária a luz do dia”, repetiu inclinando a nuca para trás como que aguardando uma tempestade de luz.
“Soliman…”
“Sabe”, disse, sem fitá-la, “eles ainda existem. Os jardins. Eles existem aqui.”
Repousou uma das mãos na testa e, em seguida, tocou no peito, na altura do coração.
“Como você sabe que…?”
“O chá. Não posso tomar chá sem pensar neles.”
Juliette bebeu mais chá, e uma estranha calma espalhou-se à medida que o líquido quente descia pela sua garganta. Sentiu-se bem e, curiosamente, experimentou a sensação de estar no lugar certo. Isso não significava que todas as suas perguntas haviam recebido respostas. Como aquelas simples palavras — “eles ainda existem” — podiam ter esse poder? Ela não vivia mais no mundo dos contos de fadas nem, como ele, no dos livros. De jeito nenhum.
Mas se achava capaz de aprender a conviver com as próprias perguntas.