A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 5 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 5

 

— tomam, devagar, um café escuro e forte, quase licoroso. — Ele colocou nomes dos personagens da ópera Zaïde em mim e na M eu pai adorava Mozart — diz, pouco depois, enquanto

minha irmã. E este é o nome da minha filha.

— E a sua mãe concordou?

Cônscia da indiscrição, Juliette enrubesce e pousa a xícara.

— Desculpe. Às vezes, eu falo o que me vem à cabeça. Isso não me diz respeito.

— Não faz mal — replica ele, esboçando um sorriso que ameniza os traços graves. — Minha mãe faleceu muito jovem. E já fazia bastante tempo que não estava mais, de fato, conosco… De certa maneira… vivia ausente.

Sem mais explicações, ele deixa o olhar vagar sobre as caixas de papelão empilhadas ao longo das divisórias alinhadas à perfeição, quase imbricadas — uma parede duplicando a parede original, isolando da luz e dos barulhos lá de fora o pequeno aposento.

— Conhece o princípio dos livros viajantes? — retoma, após alguns segundos de silêncio. — Foi um americano, Ron Hornbaker, que o inventou, ou melhor, sistematizou o conceito em 2001. Fazer do mundo uma biblioteca… Bela ideia, não acha? Alguém deixa um livro num lugar público, estação, banco de praça, cinema, qualquer um apanha o livro, lê e, por sua vez, ao terminar, deixa o livro, alguns dias ou semanas depois, em outro lugar.

Ele une as mãos sob o queixo, num triângulo quase perfeito.

— Mas faltava seguir os rastros dos livros “libertados”, reconstituir o seu itinerário e permitir aos leitores compartilharem as suas impressões. Daí o site na internet associado ao movimento, no qual cada livro é registrado. A cada um é atribuído um identificador que deve ser sinalizado de maneira legível na capa, com o endereço eletrônico do site. Quem encontra um livro viajante pode então assinalar a data e o lugar onde o encontrou, postar uma opinião ou uma crítica e…

— É esse o seu trabalho? — interrompe-o Juliette.

— Não exatamente.

Levanta-se, dirige-se para as pilhas mais ou menos reconstituídas por Juliette. Em cada uma delas, apanha um livro.

— Pronto. Temos uma seleção bastante aleatória de leituras possíveis e até em diferentes idiomas: Guerra e paz, de Tolstói. Harmur englanna [A tristeza dos anjos], de Jón Kalman Stefánsson. Suíte francesa, de Irène Némirovisky. O combate do inverno, de Jean-Claude Mourlevat. Rien ne s’oppose à la nuit [Nada se opõe à noite], de Delphine de Vigan. Lancelote, o cavaleiro da carreta, de Chrétien de Troyes. O próximo mensageiro a entrar nesta sala será responsável pela distribuição de todos estes livros.

— Responsável? — enfatiza Juliette.

— Ele não os deixará ao ar livre ou dentro de um trem. Não os deixará soltos, ao acaso, se prefere assim, para que encontrem os seus leitores.

— Mas como…

— O mensageiro deverá escolher um leitor. Ou uma leitora. Alguém que ele irá observar, diria mesmo seguir, até a intuição apontar de qual livro essa pessoa necessita. Não se engane, é um trabalho sério. Não se atribui um livro por desafio, por capricho, por vontade de provocar ou desestabilizar, a não ser que haja motivo. Meus melhores mensageiros são dotados de grande faculdade de empatia: sentem, no mais profundo de si mesmos, quais frustrações, quais rancores se acumulam em um corpo que nada, na aparência, se diferencia de outro. Enfim, eu deveria dizer meu melhor mensageiro: a outra, infelizmente, nos deixou faz pouco tempo.

Coloca os livros sobre a mesa e volta-se para pegar, com a maior delicadeza, uma foto ampliada em formato A4.

— Eu queria pregá-la na parede deste escritório. Mas ela não gostaria. Era uma mulher discreta, silenciosa, reservada. Eu nunca soube exatamente de onde veio. Assim como nunca soube o motivo de ter decidido acabar com a própria vida.

Juliette sente um nó na garganta. As paredes de livros parecem aproximar-se dela, compactas, ameaçadoras…

— Quer dizer que ela…?

— Sim. Suicidou-se há dois dias.

Soliman empurra na direção de Juliette a foto sobre a mesa. É um retrato em preto e branco meio granulado, os detalhes desbotados pela distância e pela má qualidade da reprodução, mas a jovem logo reconhece a mulher corpulenta, espremida num sobretudo, que se mostra num perfil 3x4 para a câmera.

É a mulher do livro de culinária, a da linha 6 — a que frequentemente olhava pela janela do vagão com um misterioso sorriso de expectativa.

 

— Sinto muito… Como sou idiota!

É a quarta ou quinta vez que Soliman repete essa frase. Entrega para Juliette uma caixa de lenços de papel, outra xícara de café e um pires — não muito limpo — sobre o qual ele despeja o conteúdo da caixa de biscoitos.

— Por acaso a conhecia?

— Sim — Juliette consegue, por fim, responder. — Quer dizer, não. Ela tomava a mesma linha de metrô que eu pela manhã. É verdade que não a vi ontem, nem anteontem. Eu deveria ter imaginado… Deveria ter feito alguma coisa por ela…

Soliman aproxima-se das costas dela e, desajeitado, fricciona os ombros de Juliette. Estranhamente, a sua mão rude reconforta-a.

— Claro que não. Você não poderia fazer nada. Escute, sinto muito, sinto muito mesmo, sinto…

Juliette começa a rir de nervoso.

— Não precisa ficar se desculpando.

Recompõe-se, piscando para expulsar as lágrimas. O pequeno aposento parece ter encolhido ainda mais, como se as paredes de livros estivessem avançando. Impossível, claro. Assim como é impossível a curvatura que parece viva acima da sua cabeça — os exemplares da última fileira estão realmente debruçados na sua direção, as lombadas encadernadas prestes a sussurrar palavras de consolo?

Juliette balança a cabeça, levanta-se, escova a saia com a mão para limpar os farelos dos biscoitos. Achou-os muito moles, com um gosto estranho: canela demais, provavelmente. Ele mesmo nem comeu. As espirais de vapor que ainda se erguem da cafeteira — que emite, a intervalos regulares, um leve estalido — formam, diante do rosto do homem, um véu movediço que esmaece os seus traços. Fita-o discretamente, erguendo os olhos para em seguida desviá-los tão logo encontra os seus. Ainda bem que ele se levantou e parou atrás dela. Nunca viu, assim lhe parece, sobrancelhas tão negras, olhar tão triste, embora o sorriso constante amenize o formato cerrado dos lábios. O rosto evoca, ao mesmo tempo, a tormenta, a vitória, a derrocada. Que idade terá?

— Tenho mesmo que ir embora — diz, mais para se persuadir do que para comunicar.

— Mas voltará.

Não é uma pergunta. Ele entrega o pacote de livros que amarrou com uma tira de pano. “Como no passado”, pensa Juliette, “os livros escolares carregados nas costas pelos estudantes, fardo rígido e sacolejante.” Não fica surpresa: não o imaginaria usando sacolas plásticas.

— Sim, voltarei.

Enfiando os livros debaixo do braço, dá-lhe as costas e caminha na direção da porta. Para com a mão na maçaneta.

— Costuma ler romances, digamos, românticos? — pergunta, sem se voltar.

— Vou surpreendê-la — responde ele. — Leio, sim. De vez em quando.

— O que acontece na página 247?

Passa-se um tempo; ele parece refletir em busca da resposta. Ou talvez busque uma recordação. Em seguida, diz:

— Na página 247, tudo parece perdido. É o melhor momento, sabe?