A Garota que Lê no Metrô

Christine Féret-Fleury · Capítulo 23 de 27

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A Garota que Lê no Metrô

Capítulo 23

 

F az três dias que Juliette continua à espera na casinha beirando a floresta — aliás, ela própria não sabe o que está esperando. Sabe apenas que essa espera é um país frio e tranquilo, incrivelmente luminoso, vasto, deserto, e no qual se lança sem resistência, com alívio mesmo.

Não para de chorar. Tal e qual uma criança diante do seu primeiro desgosto, tal e qual uma adolescente no primeiro término de namoro. A mera visão de uma xícara de café a leva às lágrimas, um velho pulôver preto jogado nas costas de uma cadeira arranca-lhe soluços. Num relance, ela imagina ver a roupa desdobrada, em movimento, vestindo a silhueta familiar, desengonçada, que deve ter encolhido na lavagem, e nas quais Soliman não mais conseguiria enfiar os braços compridos.

Firouzeh, impassível, acompanha-a com o olhar e não tenta consolá-la, a não ser trazendo xícara após xícara de chá.

— Você poderia ser inglesa, não? — brinca Juliette entre dois soluços, enquanto enxuga os olhos com a ponta do xale com que Zaïde, solícita, lhe cobriu os ombros. — Os ingleses veem o chá como uma espécie de solução para tudo. Firouzeh, você sabia que na Agatha Christie…

— Nunca li — interrompe Firouzeh, exultante. — Como eu já disse, prefiro as imagens. As cores. Os gestos. O que acaricia o papel, a pele…

Juliette repousa a xícara na moldura da lareira. Sua mão treme ligeiramente.

— A pele dele… A pele de Soliman… Era morena, mas não do mesmo tom, homogênea; havia partes mais escuras, áreas pálidas… uma granulação… e o formato das coxas… eu precisaria mostrar a você… desenhar…

— Não — sussurra Juliette, o olhar fixo nos bicos dos sapatos.

Firouzeh estende a mão na sua direção.

— Juliette… Você e ele… Vocês não eram…?

— Não.

— Mas você não para de chorar.

— Eu sei. Não é normal, é isso o que quer dizer? — dispara, de súbito agressiva. — E Zaïde não chora. Por acaso isso é normal?

Os dedos de Firouzeh descansam sobre os de Juliette, e esta tem a sensação de que um passarinho da floresta acabou de escolhê-la para pousar, e sente-se estranhamente reconfortada.

— Normal… Nunca compreendi o sentido dessa palavra. E você?

Como a resposta tarda, acaricia os cabelos da filha que se aconchegou, e começa a cantarolar com os lábios cerrados. A melodia é surpreendente: às vezes, grave até ficar inaudível — apenas uma vibração na garganta trai o som que habita o corpo da cantora —, outras vezes, aguda, fina e tensa como um solo de criança. Zaïde fecha os olhos e enfia o polegar na boca.

Juliette deixa uma última lágrima secar na maçã do rosto e contempla a menina. Vê os anos recuarem no rosto — no entanto, tão juvenil — e Zaïde recuperar a imagem da recém-nascida deitada em cima da barriga da mãe, no dia do parto.

— Se é normal eu não sei — acaba por dizer. — Só sei que estou me sentindo vazia, apenas isso. Minha vida é repleta de pequeninas coisas. Embora não me agradem, quer dizer, não de verdade, mas elas estão ali e me bastam. E depois eu encontrei os dois…

Fecha os olhos um instante apenas.

— Eu deveria dizer os quatro. Soliman, Zaïde, o homem do chapéu verde e a mulher que… que também morreu. Cada um deles me deu uma coisa, e ao mesmo tempo me tiraram tudo. Não sobrou mais nada, entende? Sou como uma concha vazia. Sinto o ar atravessando o meu corpo. Sinto frio.

— Você tem sorte — diz Firouzeh devagar. — Quanto a mim, estou repleta dessa criança que reencontrei. Da sua ausência. Da sua presença. Da morte que nos reuniu. É o fim da minha viagem… por enquanto. Mas não pense que lamento.

Solta-se com delicadeza dos bracinhos que a enlaçam, caminha até a janela e abre as duas venezianas. Uma lufada de vento forte penetra o aposento, e salpicos de chamas saltam das brasas e ganham uma tonalidade azulada.

— O vento — diz Firouzeh —, o vento… Vá lá fora, Juliette, vá respirar. Vá escutar o vento. Você passou tempo demais trancada com os livros. Como ele. Tanto os livros quanto as pessoas precisam viajar.

Zaïde não desperta. Mas se mexe um pouco, como um gatinho que se espreguiça no meio de um sonho e ronrona sob a carícia de um fantasma querido.

 

Apesar do conselho, Juliette leva um livro no bolso. Sente o formato dele enquanto dá uma volta do lado de fora da casa, em passos miúdos.

“Eu sou de dar dó. Pareço uma velhinha.”

Debochar de si mesma faz-lhe bem. Tocar na capa através do tecido, também. É um livro de Maya Angelou, Carta a minha filha, que guardou no bolso no último instante, antes de sair da casa de Soliman. Por estar no topo de uma pilha ao alcance da mão, por não ser muito grosso e porque as duas sacolas pesavam muito. (“Não tenho o hábito de escolher as minhas leituras pelo peso; foi a primeira vez. Mas não foi necessariamente uma má ideia”, reflete. “E não deixa de ser uma nova modalidade para a classificação dos exemplares: livros grossos, livros para ler ao pé da lareira ou em férias longas e ociosas, livros para piquenique, coletâneas de contos para trajetos frequentes e curtos, antologias para recolher aqui e ali informações sobre um mesmo tema a cada pausa, quando o telefone emudece, quando os colegas saem para o almoço, quando nos encostamos no balcão de um bar para tomar um espresso duplo, acompanhado de um copo d’água que fazemos durar até a conclusão do texto.”)

Durante o trajeto, só teve tempo para folheá-lo; Zaïde não parava de chamar a sua atenção para essa ou aquela maravilha avistada ao longo da via — a lona listrada vermelha e branca de uma tenda de circo, uma bacia onde canários nadavam, uma fogueira de folhas num jardim de onde a fumaça subia em espiral na direção do sol. E todas aquelas ruas, aqueles carros, todos indo a algum lugar, assim como elas.

“Como as pessoas se mexem, que loucura!”, declarou a menina. “Não param.”

Naquele instante, Juliette deslizou o dedo entre duas páginas e leu:

Eu sou uma mulher negra

alta como um cipreste

de uma força ainda indefinível

desafiando o espaço

e o tempo

e as circunstâncias

agredida

imprevisível

indestrutível

Mas não pôde continuar a leitura. À noite, no sofá da sala, onde Firouzeh deixou travesseiros e um edredom quentinho, apanhou novamente o volume fino. O poema não é da autora do livro, mas de Mari Evans. Mari Evans, cujo nome logo digitou num site de busca, foi — franziu os olhos, aumentando a página surgida no seu celular — uma escritora que nasceu em Ohio, 1923, e esse poema, I Am a Black Woman [Eu sou uma mulher negra], transformou-se numa espécie de palavra de ordem para muitos afro-americanos, inclusive Maya Angelou. Durante toda a existência, Mari Evans militou a favor de melhores condições de vida para as mulheres negras. Michelle Obama declarou que o poder das palavras de Maya Angelou conduziu uma menina negra dos bairros pobres de Chicago até a Casa Branca.

Em seu livro, Maya Angelou citou esse poema como um exemplo da exaltação contra o aviltamento.

E os últimos versos são:

Olhe

para mim e sinta-se

renovada.