A Montanha Mágica
Freqüentemente, e sempre pálido de terror, Anton…
Freqüentemente, e sempre pálido de terror, Anton Karlovitch Ferge tornou a falar dessa intervenção “abjeta”, cuja repetição iminente lhe inspirava um medo enorme. Confessara, aliás, desde o início, ser apenas um homem simples, alheio a todas as coisas “sublimes”, e de cuja alma
e intelecto não se deviam esperar realizações extraordinárias, que ele também não exigiria de ninguém. Isso posto, contou histórias bastante interessantes da sua vida antiga, da qual o arrancara a enfermidade, a vida de um viajante a serviço de uma companhia de seguros contra fogo. Partindo de Petersburgo, realizara em todas as direções longas viagens pela Rússia inteira, para visitar as fábricas seguradas e para investigar aquelas cuja situação financeira fosse duvidosa.
Pois as estatísticas demonstravam que precisamente as indústrias que andavam mal se incendiavam com a maior freqüência. Por isso, a sua companhia sempre o encarregara da missão de sondar as empresas sob esse ou aquele pretexto e de informá-la, para que ela, por meio de resseguros mais elevados ou pela divisão do risco, pudesse prevenir uma perda sensível. Contava acerca de viagens em pleno inverno através do vasto império, expedições noturnas sob um frio espantoso, que fizera deitado num trenó, metido entre cobertores de peles de cordeiro. Contava como, ao acordar, vira os olhos dos lobos luzir feito estrelas, sob a neve. Levara consigo, num caixote, provisões congeladas, sopa de repolho e pão branco, que fora necessário degelar nas etapas, durante a troca de cavalos; e o pão estivera, nessas ocasiões, tão fresco como se acabasse de sair do forno. Era, entretanto, uma desgraça, quando o degelo se apresentava inopinadamente, pois a sopa de repolho, empacotada em pedaços, derretia-se e espalhava-se toda.
Assim contava o Sr. Ferge, interrompendo-se de vez em quando para fazer notar, entre suspiros, que tudo isso seria muito bonito, se não tivessem de repetir com ele a tentativa de pneumotórax. Não era nada sublime o que ele dizia, mas de caráter real e agradável de ouvir, sobretudo para Hans Castorp, que achava útil aprender alguma coisa a respeito do Império Russo e do seu estilo de vida, de samovares, pastéis de couve, cossacos e igrejas de madeira, com tantas torres em forma de cebola que se assemelhavam a uma colônia de cogumelos. Induziu ele o Sr.
Ferge a falar dos habitantes desse país, do seu exotismo setentrional e por isso, aos olhos de Hans Castorp, ainda mais esquisito, da mescla asiática do seu sangue, das suas maçãs salientes e da posição finesa-mongólica dos olhos. O jovem escutava tom interesse antropológico. Pediu também para ouvir algumas frases em russo. O idioma oriental saía rápido, indistinto, sumamente estranho e desprovido de ossos, de sob o bigode jovial do Sr. Ferge, partindo do proeminente pomo-de-adão, de aspecto igualmente jovial, e Hans Castorp – como é peculiar à juventude –
divertia-se tanto mais com tudo isso quanto mais proibido era o terreno onde brincava.
Freqüentemente os primos iam passar um quarto de hora no quarto de Anton Karlovitch Ferge. Em outras ocasiões visitavam o pequeno Teddy, do Fredericianum, um rapaz elegante de catorze anos, louro e delicado, com uma enfermeira particular e um pijama de seda branca enfeitado de alamares. Era órfão e rico, segundo ele mesmo contava. Esperava ser submetido a uma intervenção de certa gravidade, a remoção de partes carcomidas, que tencionavam experimentar; mas, quando se sentia melhor, saía às vezes da cama, por uma hora, para participar, no seu belo traje esporte, da vida social lá embaixo. As senhoras gostavam de gracejar com o adolescente, e ele ouvia as suas conversas, como, por exemplo, aquelas que se referiam ao advogado Einhuf, à senhorita da combinação e a Fränzchen Oberdank. A seguir voltava para a cama. Dessa maneira o pequeno Teddy matava elegantemente o tempo e deixava perceber que nada mais esperava da vida a não ser precisamente isso.
No número 50, porém, achava-se a Srª. Natalie von Mallinckrodt, com seus olhos negros e com brincos de ouro nas orelhas, coquete, faceira e todavia uma espécie de Lázaro ou de Jó feminino, castigada por Deus com todo tipo de moléstias. Seu organismo parecia inundado de toxinas, de maneira que um sem-número de enfermidades a acossavam alternada ou simultaneamente. A pele era sobremodo atingida; estava coberta, em grande parte, de um eczema que causava coceiras cruéis e formava chagas em determinados lugares, até nos lábios, o que dificultava a introdução da colher. Revezavam-se na Srª. von Mallinckrodt inflamações internas, ora da pleura ora dos rins, dos pulmões, do periósteo e mesmo do cérebro, com subseqüentes síncopes. Uma insuficiência cardíaca, originada pela febre e pelas dores, angustiava-a sumamente, fazendo com que não conseguisse deglutir por completo os alimentos engolidos, que então permaneciam presos na parte superior do esôfago. Numa palavra, o destino dessa mulher era
terrível. Além disso, achava-se a Srª. von Mallinckrodt sozinha no mundo. Deixara o marido e os filhos por amor a outro homem, ou melhor, a um rapazote, que, por sua vez, a abandonara, segundo ela mesma contou aos primos. Assim vivia, sem lar, embora não sem recursos, visto, o marido enviar-lhe dinheiro. Em vez de mostrar uma altivez pouco indicada, tirava proveito dessa generosidade ou paixão persistente, tanto mais que nem a si própria levava a sério e sabia que era apenas uma mulherzinha desonrada e pecaminosa. Baseando-se nessa percepção, suportava todas as calamidades de Jó, com surpreendente paciência e tenacidade, com aquela resistência elementar, própria de uma mulher de raça, que triunfava sobre a miséria do seu corpo trigueiro e transformava numa peça elegante de vestuário até mesmo a atadura de gaze que qualquer motivo repugnante a obrigava a usar na cabeça. Mudava sem cessar as jóias, exibindo corais pela manhã e pérolas à noite. Muito satisfeita com as flores remetidas por Hans Castorp, que, evidentemente, ela atribuía antes à galanteria do que à caridade, mandou transmitir aos dois jovens um convite para tomarem chá junto à sua cama. Bebia esse chá numa chávena de bico, que segurava com os dedos, todos, inclusive os polegares, cobertos até os nós de opalas, ametistas e esmeraldas. Com os brincos de ouro balouçando nas orelhas, contou aos primos tudo quanto lhe acontecera.
Falou-lhes de seu marido respeitável, mas cacete, e dos seus filhos igualmente decentes e fastidiosos, que puxavam ao pai e nunca lhe tinham inspirado sentimentos muito calorosos; falou do rapazote, em cuja companhia fugira, e gabou-lhe a poética ternura. Mas os parentes do jovem, servindo-se da astúcia e da força, haviam conseguido afastá-lo dela, e a doença, que então irrompera violentamente e sob múltiplas formas, talvez lhe causasse asco. – Os senhores também me acham asquerosa? – perguntou com faceirice, e sua feminilidade de puro-sangue triunfou do eczema que se estendia pela metade do rosto.
Hans Castorp sentiu apenas desprezo pelo mocinho que experimentara repugnância por ela, e dando de ombros expressou essa opinião. No que tocava a ele próprio, a pusilanimidade do adolescente poético justamente o instigou em sentido oposto: fê-lo procurar oportunidades, em repetidas visitas, para prestar à infortunada Srª. von Mallinkrodt pequenos serviços de samaritano, que não exigiam conhecimentos especiais, como por exemplo meter-lhe cuidadosamente na boca o mingau que lhe serviam no almoço, dar-lhe de beber na chávena de bico, quando se engasgava, ou ajudá-a a mudar de posição na cama, pois além dos outros males existia ainda uma ferida causada por uma operação, que lhe complicava a posição deitada. Exercitava-se ele nesses atos caridosos cada vez que, a caminho da sala de refeições ou de regresso de um passeio, entrava no quarto dela. Nesses casos pedia a Joachim que seguisse sozinho à frente, e alegava que apenas queria informar-se do estado do número 50. Invadia-o então a sensação desagradável da amplitude da sua natureza, uma alegria que se alicerçava na idéia da utilidade e do alcance secreto das suas ações, e com a qual se mesclava certo prazer furtivo causado pela aparência impecavelmente cristã dessas atividades; com efeito, essa aparência era tão piedosa, tão caritativa, tão digna de elogios, que parecia impossível opor-lhe quaisquer argumentos sérios, seja do ponto de vista militar, seja do da pedagogia e do humanismo.
Ainda não mencionamos Karen Karstedt, e contudo era dela que Hans Castorp e Joachim se ocupavam com especial intensidade. Tratava-se de uma cliente particular do conselheiro, que morava fora do estabelecimento. O Dr. Behrens recomendara-a à caridade dos primos. Fazia quatro anos que ela vivia ali em cima. Sem recursos, dependia de uns parentes pouco generosos, que já uma vez a tinham levado, alegando que de qualquer forma morreria em breve. Sua volta devia-se exclusivamente à intervenção do conselheiro áulico. Domiciliara-se na “aldeia”, numa pensão barata. Tinha dezenove anos e era franzina, com cabelos lisos, oleosos, com olhos que, timidamente, procuravam ocultar um brilho que condizia com o rubor hético das faces, e com uma voz caracteristicamente velada, mas de uma sonoridade simpática. Tossia quase sem interrupção, e as pontas de todos os seus dedos achavam-se cobertas de esparadrapos, por estarem roídas pela doença.
A ela é que os primos devotavam um cuidado especial, a pedido do Dr. Behrens, que se dirigira a eles, “uma vez que eram bons rapazes”. A história começou com uma remessa de flores;
seguiu-se uma visita à pobre Karen, que os recebeu na sua pequena sacada, na “aldeia”; depois disso, os três organizaram algumas expedições especiais, assistindo, por exemplo, a um concurso de patinação ou a uma corrida de trenó. Pois a temporada de esportes de inverno chegara ao auge, no nosso vale alpino. Durante uma semana ia realizar-se um festival, com numerosas atrações. Até então, os primos haviam prestado apenas uma atenção ocasional e fugaz a esse tipo de espetáculos e de diversões. Joachim era avesso à simples idéia de se distrair ali em cima. Não se encontrava em Davos para se divertir; absolutamente não estava ali para viver e para se conformar com a estadia, tornando-a agradável e variada, senão com a única finalidade de se desintoxicar o mais depressa possível, para que pudesse voltar à planície e entrar no serviço ativo, no serviço verdadeiro, em lugar do serviço da cura, que era apenas um sucedâneo, mas cuja diminuição ele só tolerava malgrado seu. Participar ativamente dos esportes de inverno era-lhe vedado, e desagradava-o figurar como espectador. Quanto a Hans Castorp, sentia-se por demais unido aos dali de cima, num sentido muito estrito e íntimo, para manifestar interesse pela atividade de pessoas que consideravam esse vale como um campo de esportes.
Mas sua caridosa solicitude para com a pobre Srta. Karstedt modificou algum tanto a situação. A não ser que se mostrasse pouco cristão, Joachim não podia fazer objeções. Foram buscar a enferma no seu modesto alojamento, na “aldeia”, e passearam-na, sob um frio abrasado por esplêndido sol, através do bairro inglês, assim chamado por causa do Hotel d'Angleterre, por entre as lojas luxuosas da rua principal, onde tilintavam os guizos dos trenós e flanavam ricos sibaritas e vadios de todas as partes do mundo, habitantes da estância balneária e de outros grandes hotéis, que andavam sem chapéu, trajando modernas roupas esporte, cortadas em fazendas finas e caras, e exibiam caras bronzeadas pelo ardor do sol hibernal e pela reverberação da neve. Desceram, finalmente, até o local de patinação, situado não longe da estância, no fundo do vale, e que no verão servia de campo de futebol. Ouvia-se música. A orquestra da estância dava um concerto no estrado de madeira do pavilhão, acima da pista retangular, atrás da qual as montanhas cobertas de neve se destacavam do fundo azul-escuro. Compraram entradas; abriram caminho através do público, que rodeava a pista nas arquibancadas erguidas em três dos seus lados; encontraram lugares e olharam o espetáculo. Os patinadores, vestidos com jaquetas justas e calças pretas de malha, requebravam-se, adejavam, descreviam figuras, saltavam e giravam. Um casal de virtuoses – profissionais que não participavam das competições – realizou uma proeza que em todo o vasto mundo só ele sabia fazer e desencadeou toques de clarins e salvas de palmas.
No campeonato de velocidade, seis moços de diferentes nacionalidades, dobrados para a frente, com as mãos nas costas e, às vezes, com um lenço entre os dentes, deram em árdua luta seis voltas em torno do extenso retângulo. O som de uma campainha misturou-se com a música. De vez em quando, a multidão rebentava em frenéticos aplausos e aclamações.
Era um ambiente colorido aquele que contemplavam os três enfermos, os primos e sua pupila. Ingleses, com boinas escocesas e dentes brancos, conversavam em francês com senhoras de perfumes penetrantes, vestidas dos pés à cabeça com lãs variegadas; algumas usavam calças.
Americanos de cabeça pequena, com os cabelos colados ao crânio, e com o cachimbo na boca, usavam casacos com o forro de pele à mostra. Russos barbudos e elegantes, de aparência barbaramente rica, e holandeses, mestiços de malaios, estavam sentados no meio de alemães e suíços. Entremeava-se em toda parte gente de proveniência indistinta, de fala francesa, oriunda dos Bálcãs ou do Levante; um mundo aventureiro pelo qual Hans Castorp demonstrava um certo fraco, e que Joachim rejeitava como sendo equívoco e despido de caráter. Nos intervalos, crianças realizavam concursos humorísticos, tropeçando ao longo da pista com um pé calçado de esqui e o outro de patim; houve também uma competição cm que os meninos empurravam pás nas quais estavam sentadas as meninas. Faziam corridas de velas, sendo vencedor o que conservava a vela acesa até chegar à outra extremidade do campo. Tinham que transpor obstáculos, ou encher regadores com batatas usando colheres de estanho. Os adultos divertiam-se muito. Eram assinaladas as mais ricas, as mais celebres e as mais graciosas entre as crianças – a filhinha de um multimilionário holandês, o filho de um príncipe alemão, e um garoto de doze
anos que tinha o nome de uma marca de champanha mundialmente conhecida. Também a pobre Karen lançava gritos de júbilo, interrompidos por acessos de tosse. De tanto prazer, batia as mãos com os dedos carcomidos. Estava cheia de gratidão.
Os primos levaram-na também ao campeonato de trenó. A meta final não ficava longe nem do Berghof nem do domicílio de Karen Karstedt. A pista partia da Schatzalp e terminava na
“aldeia”, entre as casas da vertente do oeste. Ali se achava um pequeno pavilhão de controle, que recebia, pelo telefone, a comunicação da partida de cada trenó. Por entre as barreiras de neve gelada, ao longo das curvas de brilho metálico, precipitavam-se os chassis planos, tripulados por homens e mulheres vestidos de lã branca, com faixas das cores de diferentes países em redor do peito; desciam das alturas, um a um, bastante espaçados. Viam-se rostos avermelhados, que a neve açoitava. As quedas, os choques entre dois trenós, que viravam, espalhando pela neve a sua equipe, eram fotografados pelo público. Aqui também tocava uma banda. Os espectadores estavam instalados em pequenas tribunas ou avançavam pelo estreito trilho que se abrira a pá, ao longo da pista, e por cima desta passavam pontes de madeira, igualmente ocupadas pela multidão, a observar a competição dos trenós, que de tempos em tempos deslizavam zunindo. Os cadáveres do sanatório situado lá em cima seguiam o mesmo caminho, a toda a velocidade, por baixo das pontes, acompanhando as curvas, descendo rumo ao vale – pensou Hans Castorp, e também se expressou nesse sentido.
Uma tarde, resolveram levar Karen Karstedt ao cinema “bioscópio” de Platz, porquanto ela se mostrava muito feliz com todas essas diversões. O ar viciado parecia estranho aos três, acostumados como estavam a uma atmosfera puríssima. Pesava-lhes o peito e nublava-lhes a cabeça. Mas nesse ar trepidava uma vida múltipla, que se sucedia na tela, diante dos seus olhos doloridos; uma vida apresentada em pedacinhos, divertida e apressada, cheia de uma inquietação saltitante, nervosa na demora, sempre prestes a desaparecer, acompanhada por uma musicazinha que aplicava o compasso do tempo atual à fuga das imagens pertencentes ao passado, e que, apesar da limitação dos seus recursos, sabia lançar mão de todos os registros da solenidade e da pompa, da paixão, da barbárie e da sensualidade lânguida. Era uma violenta história de amor e de crime, que se desenrolava silenciosamente ante eles. A ação passava-se na corte de um déspota oriental e constava de acontecimentos precipitados, cheios de ostentação e de nudez, saturados da libidinosidade do soberano e da fúria religiosa dos súditos, transbordante de crueldade, de cobiça e volúpia assassina e de um realismo meticuloso, quando se tratava de fazer apreciar a musculatura de uns braços de verdugo – numa palavra, uma coisa fabricada à base do conhecimento íntimo dos desejos secretos da civilização internacional que formava a assistência.
Settembrini, como homem de juízo, provavelmente condenaria da forma mais severa esse espetáculo contrário à humanidade; sua ironia reta e clássica fustigaria o abuso da técnica com o fim de dar vida a representações tão cheias de desprezo dos homens. Essa, pelo menos, era a opinião de Hans Castorp, que ele segredou ao primo. A Srª. Stöhr, porém, que também estava no cinema, não longe dos três, parecia toda enlevada, e seu estólido rosto vermelho crispava-se de tanto gozo.
O mesmo aspecto ofereciam, de resto, as fisionomias dos demais espectadores. Quando a derradeira e trêmula imagem de uma seqüência de cenas se desvanecia e se fazia luz na sala, exibindo à multidão o campo das visões em forma de uma tela vazia, faltava até uma oportunidade para bater palmas. Não estava presente ninguém que se pudesse aplaudir e admirar, graças à arte por ele demonstrada. Os artistas que se haviam reunido para dar o espetáculo que o público acabava de desfrutar fazia muito se tinham dispersado. O que se vira eram apenas as sombras das suas façanhas, milhões de imagens, brevíssimos instantâneos, em que se dissecara a sua atividade durante o processo fotográfico, para que fosse possível restituí-la ao elemento do tempo, cada vez que se quisesse, num curso tremeluzente de tanta rapidez. O silêncio da assistência após o fim da ilusão tinha qualquer coisa de inerte e repugnante. As mãos jaziam impotentes em face do nada. As pessoas esfregavam os olhos, miravam fixamente o ar, tinham vergonha da claridade e desejavam voltar à escuridão, para tornar a contemplar, para novamente ver como se desenrolavam, transplantadas para um novo tempo e arrebicadas pela música, aquelas cenas pertencentes a um outro tempo.
O déspota morria vítima de um punhal, lançando, com a boca aberta, urros que não se ouviam. A seguir foram mostradas imagens de todas as partes do mundo: o presidente da República Francesa, de cartola, com a grã-cruz da Legião de Honra, respondendo, do assento de um landô, a um discurso de saudação; o vice-rei da índia, assistindo às bodas de um rajá; o príncipe herdeiro alemão no pátio de um quartel de Potsdam. Viam-se a vida numa aldeia de indígenas de Novo Mecklenburg, uma rinha de galos em Bornéu, selvagens desnudos que tocavam flautas soprando pelo nariz, uma caça de elefantes bravios, uma cerimônia na corte real do Sião, uma rua de bordéis no Japão, com gueixas sentadas atrás de grades de madeira. Viam-se samoiedos agasalhados, atravessando, em trenós puxados por renas, um ermo nervoso da Ásia setentrional; viam-se peregrinos russos rezando em Hebron, e um delinqüente persa que recebia bastonadas. Presenciava-se tudo isso. O espaço ficava aniquilado, e o tempo recuava. O Ali e o Outrora tinham-se transformado num Aqui e num Agora, que deslizavam, dançavam, envoltos em música. Uma jovem marroquina, em trajes de seda listrada, ajaezada de correntes, fivelas e anéis, com os exuberantes seios semidesnudos, aproximava-se de repente, em tamanho natural; tinha as narinas dilatadas e os olhos cheios de vida animalesca. As feições estavam em pleno movimento. Ria-se, exibindo os dentes brancos. Uma das mãos, cujas unhas pareciam mais claras que a pele, era mantida à altura dos olhos, qual uma pala, enquanto a outra acenava para o público. As pessoas fitavam, acanhadas, a encantadora sombra que fingia enxergar e não enxergava, que absolutamente não era atingida pelos olhares, e cujo riso e aceno não se referia ao presente, senão que pertencia ao Ali e ao Outrora, de modo que teria sido absurdo retribuí-lo.
Isto, como já dissemos, mesclava o prazer com uma sensação de impotência. Por fim o fantasma desapareceu. Uma clareza vazia estendeu-se por sobre a tela, onde apareceu a palavra “Fim”.
Chegara a seu fim o ciclo de espetáculos, e em silêncio a sala se esvaziou, enquanto um novo público já se apertava lá fora, desejoso de assistir a uma repetição dessa seqüência de cenas.
Animados pela Srª. Stöhr, que se uniu a eles, foram ainda visitar o café da estância, por amor à pobre Karen, que juntava as mãos, de tanta gratidão. Ali também havia música. Uma pequena orquestra, com casacas vermelhas, tocava sob a regência de um primeiro-violino tcheco ou húngaro, que, separado da sua banda, se achava no meio dos pares dançantes e investia contra o seu instrumento com frenéticas contorções do corpo. Em torno das mesas exibia-se a vida mundana. Eram servidas bebidas seletas. Os primos pediram laranjada para si próprios e para a sua pupila, para se refrescarem, já que a atmosfera estava quente e carregada de poeira. A Srª.
Stöhr preferiu um licor doce. A essa hora – afirmou ela – ainda não reinava muita animação. Um pouco mais tarde, o baile seria bem mais alegre. Numerosos pacientes dos diversos sanatórios, bem como enfermos não internados, que moravam nos hotéis e na própria estância, entrariam na dança, em número muito maior do que agora. Não eram raros os casos graves que nesse salão haviam passado, em plena festa, para a eternidade, emborcando a taça da alegria de viver e sofrendo a hemorragia final in dulci jubilo. O que a crassa ignorância da Srª. Stöhr fez desse “dulci jubilo” foi realmente extraordinário. Tomou a primeira palavra de empréstimo, do vocabulário italiano-musical do marido, dando-lhe a pronúncia “dolce”. A segunda lembrava “jubileu” ou qualquer canto tirolês. Os dois primos inclinaram-se ao mesmo tempo para os canudos dos seus copos quando esse latim se ostentou; mas a Srª. Stöhr não se desconcertou por tão pouca coisa.
Pelo contrário, mostrando obstinadamente os dentes de lebre, serviu-se de toda espécie de alusões e de indiretas para descobrir a razão de ser das relações entre os três jovens. Parecia-lhe evidente no que dizia respeito à pobre Karen, que, segundo, a Srª. Stöhr, devia estar satisfeitíssima com a corte que lhe faziam dois cavalheiros elegantes. Menos claro afigurava-se-lhe o caso com relação aos primos, mas, não obstante a sua estupidez e ignorância, a intuição feminina ajudou-a a formar uma idéia, ainda que incompleta e trivial. Adivinhou e deixou entender, mediante alfinetadas, que o verdadeiro cavaleiro era Hans Castorp, ao passo que o jovem Ziemssen era apenas assistente; opinou que Hans Castorp, cuja inclinação por Mme.
Chauchat não lhe escapara, cortejava a mísera Karstedt tão-somente como sucedâneo, visto que, evidentemente, não sabia como aproximar-se da outra – opinião muito digna de uma Srª. Stöhr, desprovida de todo fundo moral, insuficiente e baseada numa intuição desprezível. Por isso, Hans Castorp limitou sua resposta a um olhar fatigado e desdenhoso, quando a mulher a expressou de forma banalmente chistosa. Com efeito, as relações com a pobre Karen constituíam para ele uma espécie de sucedâneo e de recurso suplementar, proveitoso de um modo pouco claro, assim como era o caso das suas demais empresas caritativas. Mas, ao mesmo tempo, tinham a sua finalidade própria essas suas ações piedosas. A satisfação que Hans Castorp experimentava ao introduzir o mingau na boca da inválida Srª. von Mallinckrodt, ao ouvir como o Sr. Ferge descrevia o inferno do choque pleural ou ao ver a pobre Karen bater as mãos com os dedos cobertos de esparadrapos, de tanta alegria e gratidão – essa satisfação era, em que pese a sua natureza derivada e relativa, de um caráter espontâneo e puro; tinha a sua origem num espírito formativo oposto àquele que o Sr. Settembrini representava na sua pedagogia, mas suficientemente valioso, segundo a opinião do jovem Hans Castorp, para que se aplicasse a ele o placet experiri.
A casinha onde morava Karen Karstedt achava-se situada nas proximidades do curso d'água e dos trilhos da via férrea, à margem da estrada que conduzia à “aldeia”. Dessa forma era fácil para os primos irem buscá-la, quando, depois do café da manhã, a quisessem levar ao passeio regulamentar. Dirigindo-se à “aldeia”, na intenção de chegar à rua principal, tinham ante os seus olhos o Kleine Schiahorn, em seguida as três agulhas que se chamavam as Grüne Türme, e ainda mais à direita a cúspide do Dorfberg. A um quarto da altura da sua encosta via-se um cemitério, o cemitério da “aldeia”, rodeado de um muro, e que prometia uma linda vista; motivo por que valia a pena escolhê-lo para objetivo de um passeio. Uma bela manhã foram até lá, os três. Aliás, todas as manhãs eram belas nessa época do ano, calmas e ensolaradas, de um azul profundo, com uma atmosfera entre quente e fria, cintilante de alvura. Os primos – um com a tez cor de tijolo e o outro bronzeado – iam sem sobretudo, que teria sido incômodo sob esse sol abrasador. O jovem Ziemssen usava traje esporte e galochas por causa da neve; Hans Castorp calçava da mesma forma, mas levava calças compridas, pois não tinha espírito desportivo suficiente para andar de calções de golfe. Estava-se na primeira metade de fevereiro do novo ano. Sim, o ano mudara desde que Hans Castorp se encontrava ali, e já se escrevia outro número. Um dos ponteiros grandes do relógio que media as eras do universo dera para a frente um passo correspondente a uma unidade; não se tratava de um ponteiro dos maiores, como aquele que se referia aos milênios
– muito poucos dentre os que viviam agora chegariam a vê-lo avançar – nem tampouco o dos séculos ou ainda o dos decênios. Mas o ponteiro dos anos acabava de movimentar-se, embora Hans Castorp se achasse ali fazia pouco mais de meio ano apenas, e daí por diante permaneceria parado, à maneira dos ponteiros de certos relógios grandes, que só de cinco em cinco minutos se põem em movimento. Antes que fizesse novo avanço, o ponteiro dos meses teria de avançar dez vezes, um pouco mais, portanto, do que fizera desde a chegada de Hans Castorp. O mês de fevereiro já não figurava no balanço, visto um mês começado ser um mês liquidado, assim como uma moeda trocada já se conta como gasta.
Os três companheiros dirigiram-se, pois, certo dia, ao cemitério situado na encosta do Dorfberg. Mencionamos esse passeio para manter o nosso relato rigorosamente completo.
Devia-se essa iniciativa a Hans Castorp, e Joachim, que a princípio se mostrara contrário, levando em consideração a pobre Karen deixara-se convencer e reconhecera que não adiantaria tentar iludi-la e esconder-lhe, à maneira da covarde Srª. Stöhr, tudo quanto lhe pudesse lembrar o fim.
Karen Karstedt ainda não se entregava às idéias otimistas, peculiares à última fase da enfermidade; estava a par do seu estado, e sabia o que significava a necrose das pontas dos dedos.
Não ignorava tampouco que os seus parentes avarentos não admitiriam o luxo de se transportar o féretro ao seu país natal, e que depois do exitus lhe designariam um modesto lugarzinho ali em cima. Numa palavra, podia-se opinar que o objetivo desse passeio, do ponto de vista moral, era mais próprio para ela do que muitos outros, como, por exemplo, o ponto de partida dos trenós
ou o cinema. Por outro lado, era apenas um ato decente de camaradagem visitar os lá de cima, desde que não se quisesse considerar o cemitério como mera curiosidade ou como um terreno neutro de passeio.
Subiam lentamente, em fila indiana, porque a trilha aberta a pá não permitia irem lado a lado. Deixando atrás e abaixo as mais altas das casas construídas na vertente, olhavam, enquanto subiam, a paisagem familiar na sua magnificência invernal, que mais uma vez se deslocava na perspectiva e lhes abria um outro aspecto. Dilatava-se rumo ao nordeste, em direção à entrada do vale. Surgia a esperada vista do lago circular, rodeado de bosques, congelado e coberto de neve.
Atrás da sua margem oposta, os planos inclinados das montanhas pareciam encontrar-se no solo, e mais além assomavam cumes desconhecidos, sobrelevando uns aos outros, diante do céu azul.
Os três contemplaram tudo isso, detendo-se na neve, em frente ao portão de pedra que dava acesso ao cemitério. A seguir entraram, abrindo os batentes de ferro, que estavam simplesmente encostados.
Também no interior acharam trilhas limpas de neve, que passavam por entre as elevações dos túmulos cercados de grades e estufados de neve, esses leitos bem-dispostos e simétricos, com sua cruzes de pedra ou de metal, e com seus pequenos monumentos adornados de medalhões e dísticos. Não se ouvia nem se via ninguém. A calma, o isolamento, a paz do lugar pareciam profundos e íntimos em muitos sentidos. Um anjinho ou menino de pedra, com um boné de neve colocado obliquamente na cabeça, quedava-se em alguma parte no meio das moitas e fechava os lábios com um dedo; podia passar pelo gênio do lugar, quer dizer, o gênio do silêncio, de um silêncio que se afigurava nitidamente como a negação e o antípoda da palavra falada, como um ato de emudecer, portanto, mas absolutamente não era desprovido de conteúdo ou de vida.
Para os dois visitantes do sexo masculino aquela seria sem dúvida uma ocasião de tirar os chapéus, se os tivessem levado. Mas, já que andavam descobertos – também Hans Castorp passara a fazê-lo –, limitaram-se a uma atitude reverente, caminhando com o peso do corpo sobre as pontas dos pés e fazendo uma espécie de pequenas mesuras para os lados, enquanto seguiam, em fila indiana, Karen Karstedt, que conduzia o cortejo.
A forma do cemitério era irregular. Começava por estender-se num retângulo estreito em direção ao sul, para depois ampliar-se em dois sentidos, por meio de outros retângulos.
Evidentemente se haviam feito necessários repetidos aumentos, tendo sido acrescentadas partes dos campos vizinhos. Mesmo assim, o recinto parecia novamente ocupado na sua quase totalidade, ao longo dos muros tanto como na zona interior, menos apreciada em geral. Era difícil assinalar um lugar onde mais alguém, em caso de emergência, pudesse ser enterrado.
Discretamente, os três companheiros caminharam durante longo tempo pelas estreitas trilhas e corredores, entre as sepulturas. Estacavam, de vez em quando, para decifrar um nome com as respectivas datas de nascimento e de morte. As pedras sepulcrais e as cruzes eram simples e demonstravam pouco aparato. No que toca às inscrições, os nomes eram das origens mais diversas: havia ingleses, russos ou ao menos eslavos, mas também alemães, portugueses e outros.
As datas, porém, contavam uma história delicada; o intervalo que separava uma da outra era geralmente de extraordinária brevidade; o número de anos decorridos entre o nascimento e o exitus elevava-se, na média, a vinte ou pouco mais; muita juventude e pouca gente sisuda povoava o acampamento, um povo volúvel que viera aqui de todas as partes do mundo e se adaptara definitivamente à existência horizontal.
Em determinado lugar, entre a multidão de jazigos, no interior do campo-santo, quase no seu centro, encontraram um pedacinho de terra ainda rasa, do comprimento de um homem deitado, um pedacinho desocupado, entre dois túmulos em cujas pedras estavam penduradas coroas de perpétuas. Detiveram-se ali, a moça um passo à frente dos seus companheiros, e leram as tristes inscrições gravadas nas pedras, Hans Castorp numa atitude de abandono, com as mãos entrelaçadas, a boca aberta e os olhos sonolentos; o jovem Ziemssen em posição de sentido, não somente ereto, mas até um pouco inclinado para trás. E ambos os primos, possuídos de uma curiosidade simultânea, lançaram um olhar de esguelha para o rosto de Karen Karstedt. Ela
percebeu, apesar de toda a discrição, e deixou-se ficar ali, acanhada e humilde, com a cabeça avançada um tanto obliquamente. Com os olhos piscando nervosamente, esboçou um sorriso forçado.
Noite de Valburga
Dentro de poucos dias faria sete meses que o jovem Hans Castorp se achava nessas alturas, ao passo que o primo Joachim, com cinco meses a mais nas costas, já se podia lembrar de quase doze meses de estadia, um ano inteiro, em conta redonda – redonda no sentido cósmico, uma vez que a Terra, desde o dia em que ali o deixara a potente locomotivazinha, dera uma volta completa em torno do Sol e regressara ao ponto onde então se achava. Estava-se na época do carnaval. Aproximavam-se os folguedos da terça-feira, e Hans Castorp indagou dos pensionistas com mais de um ano de permanência que tal era a festa ali em cima.
– Magnífica! – respondeu Settembrini, a quem os primos haviam encontrado durante o exercício matinal. – Esplêndida! – acrescentou. – É tão alegre como no Prater; o senhor vai ver, engenheiro. “Cá viemos mui lampeiros figurar de cavalheiros...” – citou, e sua boca se pôs a transbordar de ironias, que ele acompanhou de gestos apropriados da cabeça, dos braços e dos ombros: – Que quer o senhor? Na própria maison de santé realizam-se às vezes bailes para os loucos e os idiotas. Pelo menos é o que li em alguma parte. Por que razão não o fariam também aqui? O programa contém as mais diversas danças macabras. Infelizmente, alguns dos convidados do ano passado não poderão estar presentes, uma vez que a festa termina às nove e meia...
– Isso significa... Ah, sim! Essa é boa! – riu-se Hans Castorp. – O senhor inventa cada coisa! Às nove e meia! Você ouviu esta? É muito cedo para que “certa parte” da assistência do ano passado possa comparecer, acha o Sr. Settembrini. Ah, ah! é fantástico! Trata-se da parte que nesse ínterim disse definitivamente vale à carne, sabe? Você compreendeu o meu trocadilho?...4
Mas estou mesmo curioso para ver isso – continuou. – Parece-me muito certo que aqui se celebrem as festas quando se apresentam. Assim, as etapas são marcadas, como de costume, por meio de entalhes, para que não haja uma monotonia confusa, que seria muito tediosa. Tivemos o Natal, e notamos o começo do ano novo. E agora vem o carnaval. Depois se aproximará o Domingo de Ramos -será que aqui servem rosquinhas? —, haverá a Semana Santa, a Páscoa e Pentecostes, seis semanas mais tarde. Em seguida será o dia mais longo do ano, o solstício de verão, e logo nos encaminharemos para o outono...
– Pare! Pare com isso! – exclamou Settembrini, elevando os olhos para o céu e comprimindo as têmporas com as palmas da mão. – Cale-se! Não posso ouvir como o senhor se excede dessa maneira...
– Perdão, quero dizer, justamente... Bem, parece que o Behrens se decidirá finalmente a me dar aquelas injeções para me desintoxicar. Tenho constantemente temperaturas entre 37,4 e 37,7. Isso não se modifica. Sou e continuo sendo um filho enfermiço da vida. Não sou propriamente um paciente a longo prazo. Radamanto nunca me condenou a uma pena determinada, mas acha que seria absurdo interromper o tratamento prematuramente, depois de tantos meses que estou aqui, e depois de ter, por assim dizer, empatado um tempo considerável.
De que serviria fixar um prazo? Isso não significaria nada, pois quando ele diz, por exemplo:
“Meio ano, pouco mais ou menos”, trata-se do mínimo, e é preciso que a gente se prepare para mais. Vejo isso no caso de meu primo, cujo fim devia ter chegado ao princípio deste mês – digo
“fim” no sentido da alta definitiva —, mas, da última vez, o Behrens lhe acrescentou mais quatro meses até a cura completa. Sim, senhor, e depois que haverá? Haverá o solstício de verão, como eu já disse, sem a mínima intenção de melindrá-lo, e novamente estaremos a caminho do inverno.
4 “Vale” é uma palavra latina que significa “adeus”. É usada no final de um texto quando o autor se despede dos leitores. O trocadilho aqui se refere à palavra “carnaval” (Karneval = carne + vale). (N. do E.)
Ora, por enquanto só teremos o carnaval, e o senhor já sabe que acho muito acertado e bonito que a gente celebre todas as festas na ordem, como estão marcadas no calendário. A Srª. Stöhr me contou que o porteiro tem à venda umas cornetas de brinquedo.
Era verdade. Desde o café da manhã na terça-feira de carnaval, que chegara depressa, ainda antes que se tivesse tempo de avistá-la de longe – desde as primeiras horas da manhã, ouvia-se na sala de refeições toda espécie de sons produzidos por instrumentos de sopro, que roncavam ou trilavam carregados do melhor humor. Durante o almoço foram jogadas serpentinas da mesa de Gänser, Rasmussen e da Kleefeld; algumas pessoas, como a Marusja dos olhos redondos, já levavam carapuças de papel, igualmente compradas no alojamento do porteiro coxo. Pela noite, porém, desenvolveu-se na sala e nas dependências uma animação festiva, no decorrer da qual... Unicamente o autor sabe por ora o que se passou no decorrer dessa animação festiva do carnaval, devido ao espírito empreendedor de Hans Castorp. Mas não nos deixemos arrastar pelo nosso conhecimento da história a abandonar a circunspeção do nosso estilo.
Atribuamos ao tempo a honra que merece e não precipitemos a narrativa. Talvez até retardemos um pouco o curso dos acontecimentos, participando das inibições morais do jovem Hans Castorp, que por tanto tempo haviam atrasado a sua realização.
À tarde, todo mundo foi a Davos-Platz para olhar o movimento carnavalesco nas ruas.
Desfilavam as fantasias, us pierrôs e os arlequins, agitando as matracas. Entre os pedestres e as pessoas fantasiadas que ocupavam os trenós enfeitados e providos de guizos, iam sendo travadas batalhas de confete. Na hora do jantar, os pensionistas reuniram-se sumamente alegres em torno das sete mesas, decididos a manter o entusiasmo público nesse recinto fechado. As carapuças de papel, as cuícas e as cornetas do porteiro tinham sido vendidas com grande rapidez. O Promotor Paravant dera início aos disfarces mais completos, vestindo um quimono de senhora e um rabicho postiço, que, segundo as exclamações vindas de todos os lados, pertencia à esposa do Cônsul-Geral Wurmbrand; por meio de um encrespador, puxara para baixo as pontas do bigode, de maneira que parecia um chinês perfeito. A “administração” não ficava atrás. Cada mesa estava adornada de uma lanterna de papel, que mostrava uma lua multicor e tinha no seu interior uma vela acesa. Settembrini, ao entrar na sala e passar perto da mesa de Hans Castorp, citou uns versos que podiam referir-se a essa iluminação:
– “Perceberá candeios de mil cores.
Há lá festa; há de achar-se acompanhado...”
– murmurou com um sorriso fino e seco, enquanto, negligentemente, se dirigia ao seu lugar, onde o receberam com pequenos projéteis, bolinhas cheias de um líquido perfumado, que se quebravam com o choque e molhavam as vítimas. Numa palavra, a animação festiva foi extraordinária desde o início. Estrondeavam gargalhadas; serpentinas dependuradas dos lustres balançavam-se agitadas pelas correntes de ar; no molho dos assados boiavam confetes. A anã não tardou a trazer, com passo apressado, a primeira garrafa de champanha num recipiente de gelo.
Misturavam o champanha com vinho da Borgonha, obedecendo a uma sugestão do advogado Einhuf. Pelo fim da refeição, apagaram-se as luzes do teto e a iluminação limitou-se às lanternas, que lançavam sobre o ambiente o claro-escuro variegado de uma noite italiana. A essa altura dos acontecimentos o bom humor era geral, e na mesa de Hans Castorp houve muitos aplausos quando Settembrini entregou um bilhete a Marusja, que tinha o lugar mais próximo dele. A moça, enfeitada de um gorro de jóquei, de papel de seda verde, fez circular o papelzinho, no qual se liam os seguintes escritos a lápis:
“Mas veja que esta noite é a festa das diabruras cá no monte; e eu também sou uma das figuras.
Mas vá lá; faltarei contanto que releve a um pobre fogo-fátuo o modo como o leve”.
O Dr. Blumenkohl que, a essa época, novamente andava muito mal de saúde, esboçou aquela expressão, ou melhor, aquela contração dos lábios que lhe era peculiar, e murmurou algumas palavras relativas à procedência desses versos. Hans Castorp, por sua vez, achou-se na obrigação de dar uma resposta humorística. Tencionou escrever no bilhete uma réplica, que, na verdade, não poderia ser muito significativa. Remexeu os bolsos em busca de um lápis, mas não o encontrou e tampouco pôde consegui-lo de Joachim ou da professora. Pedindo auxílio, seus olhos estriados de vermelho dirigiram-se para o leste, no canto traseiro da sala, bem à esquerda.
Viu-se então como aquela intenção fugaz degenerava em associações de idéias tão longínquas, que Hans Castorp empalideceu, esquecendo-se totalmente de seu intuito primitivo.
Havia, além disso, outros motivos para empalidecer. Mme. Chauchat, que tinha o seu lugar ali atrás, engalanara-se por causa do carnaval; trajava um vestido novo, ou pelo menos um vestido que Hans Castorp nunca a vira usar – de uma seda leve e escura, quase preta, que não cambiava senão de vez em quando com um brilho dourado-castanho; o decote, redondo e discreto, qual o de um vestido de garota, mal mostrava o pescoço, a junção das clavículas e, atrás, as vértebras da nuca, um tanto salientes sob os cabelos soltos, em virtude da posição avançada da cabeça; mas os braços de Clávdia estavam desnudos até os ombros, esses braços delgados e todavia cheios, braços frios, provavelmente, e que se destacavam tão brancos da seda escura do vestido, que Hans Castorp, fechando os olhos, murmurou de si para si: – Deus meu! – Nunca antes deparara com esse tipo de vestido. Conhecia vestidos de baile com decotes tais como permitia ou até prescrevia o caráter da festa, decotes muito mais amplos do que este, sem, contudo, produzirem efeito igualmente sensacional. Evidenciou-se, antes de tudo, ter-se enganado redondamente o pobre Hans Castorp, ao supor que o encanto e a insensata sedução desses braços, que só conhecia através de um véu de gaze fina, iam ser menos intensos sem essa auréola sugestiva. Engano! Ilusão fatal! A nudez completa, acentuada e deslumbrante desses magníficos membros de um organismo intoxicado, constituía um espetáculo muito mais emocionante do que a auréola de outrora, uma visão à qual não se podia responder de outra maneira que baixando a cabeça e repetindo, em voz surda: - Deus meu!
Pouco mais tarde chegou outro bilhete com o seguinte conteúdo:
“Quem viu jamais melhor sociedade?
Tudo moças, perfeitas donzelas!
Tudo moços digníssimos delas!
Que promessas à posteridade!”
Ressoavam aclamações e bravos. Já tinham progredido até o cafezinho, que era servido em pequenos bules de barro pardo; outros tomaram licores, como por exemplo a Srª. Stöhr, que gostava imensamente de bebidas fortes e doces. Os comensais começaram a levantar-se e a circular pela sala. Visitavam-se uns aos outros; trocavam de mesa. Parte dos pensionistas já passara para os salões, enquanto outros, mais sedentários, continuavam a fazer honra à mistura de vinhos. Settembrini chegou então pessoalmente, com a xícara de café na mão e o palito entre os dentes. Sentou-se como visitante à cabeceira da mesa, entre Hans Castorp e a professora.
– “Montanhas do Harz” – disse. – “Região entre Schierke e Elend.5“ Será que lhe prometi demais, engenheiro? “Que feira! Gira-me a cabeça!” Mas espere um pouco, ainda não se esgotou o nosso engenho. Ainda não chegamos ao apogeu; estamos longe do fim. Como se ouve dizer, haverá outros disfarces. Algumas pessoas se retiraram, e isso nos permite esperar muita coisa. O
senhor vai ver.
Com efeito, apareciam novas fantasias. Senhoras vestidas de homem, com os rostos enegrecidos mediante rolhas tisnadas, e que ofereciam um aspecto pouco natural, de opereta, pela opulência das suas formas. Cavalheiros que, por sua vez, se haviam fantasiado de mulher, 5 Cenas do Fausto de Goethe. As demais citações de Settembrini são extraídas da mesma obra, particularmente da seção intitulada “Noite de Valburga”. (N. do E.)
trajando longos vestidos, em cujas saias tropeçavam, como, por exemplo, o estudante Rasmussen, numa roupa preta, enfeitada de lantejoulas, exibindo um decote cheio de espinhas e abanando-se, pela frente e por trás, com um leque de papel. Apareceu um mendigo, arrastando-se de joelhos dobrados, apoiado numa muleta. Um pensionista transformara roupas de baixo e um chapéu de senhora numa fantasia de pierrô; empoara o rosto de tal maneira que os olhos adquiriam uma expressão estranha, e, por meio de batom, dera à boca um certo relevo de sanguinolêncía; era o rapazote de unha comprida. Um grego da mesa dos “russos ordinários”, dotado de pernas bonitas, pavoneava-se em ceroulas de malha lilás, com uma golilha de papel e um florete, pretendendo ser um fidalgo espanhol ou um príncipe de conto de fadas, Todas essas fantasias haviam sido improvisadas, a toda a pressa, depois do fim da refeição. A Srª. Stöhr também não pôde permanecer no seu lugar por mais tempo. Sumiu, para logo reaparecer disfarçada de arrumadeira, com a saia e as mangas arregaçadas; tinha as fitas da touca de papel amarradas por baixo do queixo; munida de balde e vassoura, pôs-se a trabalhar, passando o pano molhado sob as mesas, entre as pernas das pessoas sentadas.
“A velha Baubo vem sozinha...”,
citou Settembrini ao vê-la, e não deixou de acrescentar, na sua pronúncia clara e plástica, o verso seguinte. Quando ela ouviu essas palavras, chamou-o de “galo italiano” e mandou-o parar com essas “porcarias”. Em nome da liberdade própria das máscaras, tuteou-o; pois esse tratamento já fora adotado em toda parte durante a refeição. Settembrini esteve a ponto de retrucar, quando uma barulheira e uma onda de gargalhadas, vindas do vestíbulo, o interromperam e atraíram a atenção da sala.
Seguidas de pensionistas que saíam dos salões, entraram solenemente duas estranhas figuras, que apenas acabavam de fantasiar-se. Uma vinha em trajes de diaconisa, mas seu hábito preto estava coberto, desde o pescoço até a barra, de faixas brancas, transversais; listras curtas, próximas umas das outras, e longas, mais espaçadas, dispostas à maneira da marcação de um termômetro. Levava um dos indicadores à boca pálida e trazia, na outra mão, uma papeleta de temperatura. O outro mascarado vinha vestido de azul, com os lábios e os sobrolhos pintados de azul, e com manchas azuis no rosto e no pescoço; usava um gorro de lã azul, colocado obliquamente na cabeça, e trajava uma espécie de macacão de alpaca azul, feito de uma só peça, atado nos tornozelos por meio de fitas e com enchimento na parte central do corpo para formar uma enorme barriga. As figuras foram reconhecidas como sendo a Srª. Iltis e o Sr. Albin. Ambos levavam cartazes de papelão, nos quais se podia ler: “A Irmã Muda” e “Joãozinho Azul”. A passo saltitante deram volta à sala.
Quantos aplausos não receberam! Houve aclamações a não acabar. A Srª. Stöhr, com a vassoura debaixo do braço e com as mãos fincadas nos joelhos, riu-se desmedida e ordinariamente, como lhe permitia o seu papel de arrumadeira. Unicamente Settembrini mostrou-se reservado. Seus lábios, sob a bela curva do bigode, comprimiram-se sobremaneira, após um rápido olhar aos dois mascarados, alvo de tantas palmas.
Entre as pessoas que, formando o cortejo do Azul e da Muda, haviam voltado das dependências à sala de refeições, achava-se também Clávdia Chauchat, em companhia de Tamara, a moça dos cabelos lanosos, e daquele comensal de tórax côncavo, um certo Buligin, que usava smoking. Mme. Chauchat, no seu vestido novo, roçando a mesa de Hans Castorp, passou pela sala em diagonal, até a mesa do jovem Gänser e da Kleefeld, onde estacou, mãos nas costas, conversando e rindo, com os olhos oblíquos, enquanto os seus companheiros continuavam a seguir os fantasmas alegóricos e abandonavam a sala atrás deles. Também Mme. Chauchat enfeitara-se com uma carapuça de carnaval. Não era nem sequer um gorro comprado, mas sim daquele tipo que se faz para crianças, um tricórnio dobrado de papel branco. Usava-o atravessado, o que lhe ficava muito bem. O vestido de seda cambiante entre marrom-escuro e dourado deixava ver os pés e tinha saia godê. Nada mais diremos dos braços. Estavam nus até os ombros.
– “Repara!” – ouviu Hans Castorp a voz do Sr. Settembrini recitar como que de longe, enquanto seus olhares acompanhavam Mme. Chauchat, que, prosseguindo no caminho, se aproximava da porta envidraçada e saía da sala. – “É Lilith.”
– Que Lilith? – perguntou Hans Castorp.
O literato, gostando da pergunta correspondente ao texto, replicou:
– “Lilith, a primeira mulher de Adão. Cuidado!...”
Além deles, somente o Dr. Blumenkohl ainda permanecia à mesa, no seu lugar distante.
Os demais companheiros, entre eles Joachim, tinham passado para os salões. Hans Castorp disse:
– Hoje estás cheio de poesia e de versos. Que Lilith é essa, afinal? Adão casou-se duas vezes? Eu não sabia disso...
– É a lenda hebraica que o diz. A tal Lilith transformou-se num fantasma noturno, perigoso aos jovens, sobre tudo pelos seus lindos cabelos.
– Que horror! Um fantasma noturno com lindos cabelos! Isso não te agrada, hein? Então chegas e acendes, por assim dizer, a luz elétrica, para fazer os jovens voltarem ao bom caminho, não é? – disse Hans Castorp, divagando, porque bebera grandes quantidades daquela mistura de vinhos.
– Escute, engenheiro, deixe disso! – ordenou Settembrini, de cenho carregado. – Sirva-se do tratamento que se emprega no Ocidente entre as pessoas cultas; use a terceira pessoa, por favor! Essa maneira de falar que o senhor está experimentando absolutamente não condiz com a sua pessoa.
– Mas por que não? É carnaval. É a forma geralmente aceita nesta noite...
– Sim, senhor, devido a um prazer imoral. O “tu” entre pessoas estranhas, isto é, entre pessoas que normalmente se tratam por “o senhor”, constitui repugnante selvageria, um jogo com o estado primitivo, um jogo silencioso que abomino, porque, no fundo, se dirige contra a civilização e contra a humanidade desenvolvida, e isso de uma forma insolente e despudorada. Eu não tratei o senhor por “tu”. Apenas citei um trecho da obra-prima da sua literatura nacional.
Servi-me, portanto, de uma linguagem poética...
– Eu também! Também eu falo, em certo sentido, poeticamente. É porque o momento me parece próprio para fazê-lo, só por isso! Não digo que me seja natural e fácil tratar-te por
“tu”. Pelo contrário, custa-me certo esforço; lenho que me obrigar a isso. Mas faço-o com prazer, faço-o alegremente e de todo o coração...
– De todo o coração?
– Sim, de todo o coração. Podes acreditar-me. Já faz tempo que vivemos juntos aqui em cima! Uns sete meses; podes fazer o cálculo. Segundo os conceitos daqui não é grande coisa, mas, quando penso nas idéias que reinam lá embaixo, é tempo considerável. Bem, e esse tempo, nós o passamos um ao lado do outro, porque a vida nos reuniu aqui. Encontramo-nos quase todos os dias e tivemos palestras interessantes, freqüentemente sobre assuntos dos quais lá embaixo eu não entenderia patavina. Mas aqui era diferente. Aqui achei-os importantes e pertinentes, de modo que todas as vezes que a gente discutia, prestei muita atenção. Ou melhor: todas as vezes que tu me explicavas as coisas na qualidade de um homo humanus, pois eu, com a minha falta de experiência, pouco sabia contribuir para o tema e apenas me limitava a achar digno de ser ouvido tudo quanto dizias. Graças a ti aprendi e compreendi muita coisa... O que me contaste de Carducci é o de menos, mas as relações que existem entre a república e o belo estilo, ou entre o tempo e o progresso da humanidade – se não houvesse o tempo seria impossível o progresso da humanidade, e o mundo não passaria de um charco estagnado e uma poça pútrida... Que saberia eu de tudo isso, se tu não me tivesses ensinado? Trato-te simplesmente por “tu” e não te dou outro nome. Desculpa-me, mas não sei como te falar de outra forma. Não há jeito. Aí te achas sentado, e chamo-te “tu”, simplesmente; é o quanto basta. Tu não és um homem qualquer que leva um nome, tu és um representante, Sr. Settembrini, um representante, neste lugar e a meu lado. Eis o que és – confirmou Hans Castorp, e com a palma da mão bateu sobre a toalha. – E
agora quero agradecer-te – prosseguiu, aproximando a sua taça, cheia de borgonha misturado
com champanha, da xícara de café do Sr. Settembrini, para tocá-la em cima da mesa –, agradecer-te pelos cuidados que, durante estes sete meses, me devotaste de maneira muito amável; quero agradecer-te porque ajudaste nos seus exercícios e nas suas experiências o calouro que eu era e que se via assaltado por tantas impressões novas; porque procuraste exercer sobre mim uma influência corretiva, totalmente sine pecunia, por meio de historietas ou de forma abstrata. Tenho a sensação nítida de que chegou o momento de expressar a minha gratidão por isso e por tudo, e de pedir-te perdão por ter sido um mau aluno, um “filho enfermiço da vida”, como me chamaste.
Quando me disseste isso, fiquei muito comovido, e cada vez que me lembro sinto a mesma emoção. Um filho enfermiço é o que fui sem dúvida também para ti e para a tua veia pedagógica, da qual me falaste logo no primeiro dia. Claro, pois aí temos mais uma dessas relações que tu me mostraste, a que existe entre o humanismo e a pedagogia. Com o tempo, eu descobriria muitas outras relações ainda... Perdoa-me e não guardes de mim recordações desfavoráveis! À tua saúde, Sr. Settembrini, viva! Esvazio a minha taça em homenagem aos teus esforços literários pelo extermínio dos sofrimentos humanos – terminou; e, inclinando-se para trás, sorveu em grandes tragos a mistura de vinhos. A seguir levantou-se, dizendo: – E agora vamos reunir-nos aos outros.
– Escute, engenheiro, que lhe deu na veneta? – perguntou o italiano, com os olhos cheios de surpresa, e também se pôs de pé. – Isso soa como uma despedida...
– Não; por que despedida? – respondeu Hans Castorp, esquivo. Esquivou-se não somente nas suas palavras, mas também fisicamente, descrevendo meio círculo com o corpo e avizinhando-se da professora, Srta. Engelhart, que viera buscá-los. No salão de música –
anunciou ela – o conselheiro em pessoa estava preparando e distribuindo um ponche de carnaval, que a “administração” oferecia aos pensionistas. Que fossem para lá imediatamente se desejassem beber um copo. E eles se puseram a caminho.
Realmente, o Dr. Behrens achava-se no salão, rodeado pela multidão dos pensionistas, que lhe estendiam pequenos copos com asas. À sua frente havia a mesinha redonda do centro, coberta por uma toalha branca. Nela se via uma terrina, da qual o conselheiro tirava, com uma concha, a fumegante bebida. Também ele dera à sua aparência um cunho levemente carnavalesco, acrescentando ao avental de médico, que levava como sempre, uma vez que a sua atividade não conhecia descanso, um autêntico fez turco, carmesim, com uma borla negra a balouçar-se junto à orelha. Essa combinação parecia-lhe disfarce suficiente; bastava para levar aos limites da excentricidade e da pândega a sua aparência já em si fora do comum. O longo avental branco exagerava o tamanho do conselheiro. Quando se fazia abstração da curvatura da nuca, endireitando-a mentalmente e fazendo o corpo alcançar a sua altura verdadeira, a silhueta do homem, com a cabecinha de singulares colorido e aspecto, parecia aumentada. Pelo menos ao jovem Hans Castorp, esse rosto jamais se afigurara tão esquisito como nesse dia, quando contrastava com o ridículo fez vermelho; essa fisionomia achatada, com o nariz arrebitado, com a pele azulada, que dava a impressão de estar quente, com os olhos azuis lacrimosos e saltados sob as sobrancelhas de um louro quase branco, e com o bigodinho claro a torcer-se obliquamente por cima da boca arqueada, de lábios grossos. Procurando evitar o vapor quente que, turbilhonando, saía da terrina, o médico fazia a beberagem parda – um falso ponche açucarado – manar num arco que se estendia da concha até o copo apresentado. Acompanhava isso com incessantes discursos na sua gíria alegre, de modo que contínuas gargalhadas associavam-se à distribuição da bebida.
– “No topo monta Dom Urião” – explicou Settembrini em voz baixa, apontando para o conselheiro áulico. Em seguida, a corrente separou-o de Hans Castorp. Também o Dr.
Krokowski estava presente. Baixote, atarracado e enérgico, tinha o casaco de alpaca preta suspenso dos ombros, com as mangas pendendo vazias, a ponto de produzir o efeito de um dominó; mantendo a taça à altura dos olhos, conversava jovialmente com um grupo de mascarados de sexo trocado. Ouviram-se sons de música. A paciente com a cara de anta tocou ao violino, acompanhada pelo rapaz de Mannheim, o Largo de Haendel e depois uma sonata de
Grieg, de caráter nacional e adequado ao ambiente de salão. Houve aplausos benevolentes, até nas duas mesas de bridge que tinham sido armadas, e em torno das quais se haviam instalado pessoas fantasiadas, com garrafas em baldes de gelo ao lado. As portas estavam abertas. Também no vestíbulo achavam-se pensionistas. Um grupo cercava a mesa redonda, com a terrina de ponche, olhando o conselheiro empenhado em introduzir um novo jogo de salão. Desenhava ele com os olhos fechados, de pé, inclinado por cima da mesa, mas deitando a cabeça para trás, para que todos pudessem ver que realmente não abria os olhos. Nas costas de um cartão de visita, esboçava a lápis uma figura, às cegas. Eram os contornos de um porco o que a sua manopla desenhava sem a ajuda dos olhos; um porquinho visto de perfil, um tanto simplificado, mais esquemático do que naturalístico, porém incontestavelmente a essência de um porquinho, que o conselheiro ia traçando sob essas condições difíceis. Exigia muita habilidade, e ele dispunha dela.
O olhinho rasgado entrou, pouco mais ou menos, onde devia entrar, talvez um pouco perto do focinho, mas, de qualquer maneira, em seu lugar; o mesmo se deu com a orelha pontuda e com as perninhas que pendiam da arredondada pança; prolongando a linha das costas, igualmente redondas, o rabinho formava um sacarolhas muito elegante. Todos exclamaram “ah!”, quando a obra estava concluída, e apressaram-se a imitar a proeza, tomados da ambição de igualar o mestre.
Mas eram muito poucos os que sabiam desenhar, com os olhos abertos, um porquinho apresentável, e ainda menos às cegas. Que monstros não resultaram das suas tentativas! Não havia nenhuma relação entre os traços. O olhinho colocado fora da cabeça; as patinhas dentro da pança, que por sua vez ficava vastamente aberta; o rabinho enrolava-se em algum lugar longe do corpo, sem nenhuma relação orgânica com a figura principal, formando um arabesco independente. Houve ondas de risadas. O grupo aumentou. Foi atraída a atenção dos jogadores de bridge, que se aproximaram, curiosos, com as cartas abertas em leque na mão. A assistência controlava os olhos de quem experimentava, para certificar-se de que ninguém estivesse fazendo trapaça, como alguns tentavam, na sensação da sua impotência. Os espectadores riam-se aberta ou secretamente, enquanto o candidato cometia seus erros cegos, e rebentavam de júbilo quando ele, abrindo os olhos, contemplava a sua obra absurda. Uma confiança falaz em, si próprios impelia todos a participar da competição. O cartão, apesar de bem grande, encheu-se rapidamente em ambos os lados, de maneira que os desenhos entravam uns nos outros. O conselheiro sacrificou um segundo cartão, que tirou da sua carteira, e sobre o qual o Promotor Paravant, segundo um plano premeditado, tentou desenhar o porquinho num só traço, com o único resultado de malograr de forma muito pior do que os outros; os rabiscos que saíram de seu lápis não somente não se pareciam com nenhum porco, mas tampouco recordavam, nem de longe, qualquer coisa deste mundo. Novos gritos, novas gargalhadas e tumultuosas felicitações. A seguir foram buscar cardápios na sala de refeições, para que diversas pessoas, cavalheiros e senhoras, pudessem desenhar ao mesmo tempo. Todos os competidores tinham seus vigilantes e seus espectadores, cada um dos quais esperava a sua vez de se apossar do lápis que estava sendo usado. Havia apenas três lápis, que eram arrebatados. Todos eles pertenciam a pensionistas. O
conselheiro, ao ver que o jogo estava bem encaminhado, desapareceu acompanhado do assistente.
No meio da multidão, Hans Castorp observava por cima do ombro de Joachim o trabalho de um dos desenhistas; tinha o cotovelo apoiado nesse ombro e o queixo agarrado com toda a mão, enquanto a outra se fincava no quadril. Falava e ria. Também queria desenhar.
Reclamou em voz alta e recebeu um lápis, um pedaço bem curtinho, que mal se podia segurar entre o polegar e o indicador. Protestou contra esse toco, com os olhos fechados erguidos para o teto; resmungou em voz alta e praguejou contra a insuficiência do lápis, enquanto a mão apressada rabiscava no cartão uma espantosa monstruosidade, que por fim se estendia até sobre a toalha. – Isso não vale! – exclamou em meio às merecidas risadas. – Como se pode com um troço... Que vá para o diabo! – E atirou na terrina de ponche o toco assim acusado. – Quem tem um lápis decente? Quem me empresta um? Tenho de desenhar outra vez. Um lápis! Um lápis!
Quem tem outro lápis? – gritou, voltando-se para todos os lados, com o antebraço esquerdo ainda firmado na mesa, e agitando no ar a mão direita. Não pôde obter nenhum. Eis que deu meia-volta e atravessou a peça, continuando a gritar. Foi em direção a Clávdia Chauchat, que, como ele sabia, se achava perto do reposteiro diante da salinha e dali observava sorrindo o alvoroço em torno da mesa de ponche.
Atrás de si, Hans Castorp ouviu chamar, em palavras sonoras e estrangeiras: – Eh!
Ingegnere! Aspetti! Che cosa fa, ingegnere! Un po' di ragione, as! Ma è matto questo ragazzo! – Mas abafou essa voz com a sua própria. Viu-se então como o Sr. Settembrini levantou a mão acima da cabeça
– gesto usado em seu país, de um sentido difícil de se expressar em poucas palavras, e que ele acompanhou de um “Eh!” prolongado –, depois do quê abandonou o ambiente carnavalesco...
Hans Castorp, porém, achando-se no meio do pátio ladrilhado, fitou de muito perto o azul verde-cinzento desses olhos providos de epicanto, acima das maçãs salientes, e disse:
– Tu não tens, por acaso, um lápis?
Estava pálido como a morte, tão pálido como naquele dia quando, manchado de sangue, após o passeio solitário, fora assistir à conferência. Os nervos que controlavam os vasos capilares de seu rosto funcionavam de tal maneira que a pele exangue emurcheceu, lívida e fria, fazendo com que o nariz parecesse mais pontiagudo e a parte abaixo dos olhos adquirisse uma cadavérica cor de chumbo. O nervo simpático, por sua vez, mandava o coração de Hans Castorp martelar num ritmo tão acelerado que já não se podia falar de uma respiração regular. Calafrios percorriam o corpo do jovem, devido a um trabalho das glândulas sebáceas, que se eriçavam junto com os folículos pilosos.
A mulher do tricórnio de papel contemplou-o de alto a baixo com um sorriso que não revelava nenhum vestígio de compaixão ou desassossego diante do aspecto transtornado de Hans Castorp. O sexo feminino ignora, aliás, tal compaixão e desassossego diante dos terrores que traz consigo a paixão, esse elemento que, evidentemente, lhe é muito mais familiar do que ao homem, o qual, por natureza, não se dá com ele. Daí acontece que a mulher nunca o vê numa situação dessas sem sentir vontade de escarnecer e de mostrar uma alegria maliciosa. Por outro lado, o homem protestaria contra qualquer testemunho de compaixão e de desassossego.
– Eu? – respondeu àquele “tu” a enferma dos braços desnudos... – Sim, pode ser. – No seu sorriso e na sua voz talvez transparecesse um pouco da emoção que se produz, quando, depois de prolongadas relações mudas, se profere a primeira palavra; é uma emoção sutil que secretamente inclui o passado inteiro no momento presente. – Tens muita ambição... és muito...
ardoroso – continuou zombando na sua pronúncia exótica, com o “r” estrangeiro e o “e”
demasiado aberto. A voz levemente velada, agradavelmente rouca, dava às palavras uma acentuação esquisita que as fazia parecer completamente novas. Enquanto isso, remexia a bolsinha de couro, vendo se descobria um lápis. De sob um lenço tirou uma minúscula lapiseira de prata, frágil e fininha, artigo de fantasia inútil para trabalho sério. O lápis de outrora, o primeiro, fora diferente, mais prático e mais autêntico.
– Voilà – disse ela, pondo diante dos olhos de Hans Castorp a pequena lapiseira, que segurava pela ponta, entre o polegar e o indicador, balouçando-a ligeiramente.
Como ela fingisse oferecê-la e negá-la ao mesmo tempo, ele, então, fez menção de pegá-la, sem a receber; quer dizer, levou a mão à altura do objeto, bem próximo dele, com os dedos prontos para apanhá-lo, mas sem concluir o ato. Do fundo das órbitas cor de chumbo, seu olhar fixava-se alternadamente na lapiseira e no rosto tártaro de Clávdia. Seus lábios exangues estavam abertos e permaneciam assim sem que ele se servisse deles para falar, quando disse:
– Estás vendo? Eu já sabia que tinhas um lápis.
– Prenez garde, il est un peu fragile – respondeu ela. – C’est à visser, tu sais.
E enquanto as duas cabeças se avizinhavam por cima da lapiseira, explicou-lhe ela o mecanismo, que nada tinha de anormal. Fazendo-se girar a rosca, aparecia uma mina de grafite, delgada qual uma agulha, provavelmente dura e pouco própria para escrever.
Permaneciam inclinados um para o outro. Como ele trajasse smoking, podia escorar o queixo no colarinho engomado.
– Pequenino, mas com carinho – disse Hans Castorp, com a testa quase tocando a dela, mas falando em direção ao lápis, sem mover os lábios e portanto suprimindo as consoantes labiais.
– Ah! És também espirituoso? – tornou ela com uma rápida risada, endireitando-se e abandonando-lhe a lapiseira. (Deus sabe do que ele se servia para fazer espírito, já que, manifestamente, não tinha nenhuma gota de sangue na cabeça.) – Pois então, vai, não percas tempo! Desenha, desenha uma figura, faze um figurão! – Tinha-se a impressão de que ela, de forma igualmente espirituosa, procurava afastá-lo.
– Não. Tu ainda não desenhaste. Deves desenhar também – disse Hans Castorp, sem pronunciar as labiais. Ao mesmo tempo recuou um passo, como para fazê-la seguir.
– Eu? – perguntou ela novamente com uma surpresa que parecia referir-se antes a outra coisa do que à sua proposta. Sorrindo, mas um tanto perturbada, permaneceu imóvel durante um momento. Depois, porém, obedecendo ao magnetismo do recuo de Hans Castorp, deu alguns passos em direção à mesa de ponche. Verificou-se, entretanto, que o interesse pelo jogo decaíra nesse ínterim e estava nas últimas. Havia ainda quem desenhasse, mas já não encontrava espectadores. Os cartões jaziam cobertos de garatujas. Todos tinham manifestado a sua incapacidade. A mesa achava-se quase deserta, tanto mais que uma contracorrente começava a agir. Os pensionistas acabavam de notar a saída dos médicos, e de repente alguém sugeriu que se dançasse. Logo se puseram a tirar a mesa do centro da sala. Vigias foram colocados nas portas da sala de correspondência e da saleta de música, com a ordem de dar um sinal para interromper o baile, caso reaparecessem o “Velho”, Krokowski ou a Superiora. Um rapaz eslavo atacou com fervor o teclado do pequeno piano de nogueira. Os primeiros pares começaram a girar pelo interior de um círculo irregular, formado por poltronas e cadeiras, nas quais estavam sentados os espectadores.
Hans Castorp fez um vago gesto de mão, como para dizer adeus à mesa que se afastava.
Apontou com o queixo para alguns assentos livres que descobrira na saleta, e para um cantinho bem abrigado à direita do reposteiro. Não falou, talvez porque a música lhe parecesse muito barulhenta. Colocou, para Mme. Chauchat, uma poltrona forrada de pelúcia, no lugar que antes assinalara pantomimicamente. Para si mesmo apossou-se de uma cadeira de vime, de braços redondos, e que gemeu e rangeu, quando nela se sentou. Inclinou-se para Mme. Chauchat, apoiando os cotovelos nos braços da poltrona, com a lapiseira na mão e com os pés para trás, embaixo da cadeira. Ela, por sua vez, afundou-se no estofamento coberto de pelúcia; seus joelhos achavam-se muito levantados, mas, apesar disso, cruzou as pernas e balançou um dos pés, cujo tornozelo, acima da margem do sapato de verniz preto, desenhava-se sob a seda igualmente preta da meia. À sua frente estavam sentadas outras pessoas, que se levantavam para dançar e cediam o lugar a outras, cansadas. Era um constante vaivém.
– Estás com um vestido novo – disse Hans Castorp, para ter o direito de olhá-la, e ouviu como ela respondia:
– Novo? Então conheces o meu vestuário?
– Tenho ou não tenho razão?
– Tens, sim. Mandei fazê-lo aqui, recentemente, no Lukacek, na aldeia. Ele trabalha muito para as senhoras daqui. O vestido te agrada?
– Muito – respondeu ele, envolvendo-a mais uma vez no seu olhar, antes de baixar os olhos. – Queres dançar? – acrescentou.
– E tu, gostarias? – perguntou ela, sorrindo, com as sobrancelhas alçadas, ao que ele replicou:
– Gostaria, sim, se tivesse vontade.
– És mais levadinho do que eu pensava – observou ela, e quando ele se riu desdenhosamente, acrescentou: – Teu primo já se foi?
– Pois é, é meu primo – confirmou Hans Castorp sem necessidade. – Eu também notei que ele não está mais aqui. Acho que já se recolheu.
– C’est un jeune homme très étroit, très honnête, très Allemand.
– Étroit? Honnête? – repetiu ele. – Entendo o francês muito melhor do que falo. Queres então dizer que ele é um pedante. Achas que os alemães são pedantes, nous autres Allemands?
– Nous causons de votre cousin. Mas c'est vrai, vocês são um pouco bourgeois. Vous aimez l’ordre mieux que la liberté, toute l’Europe le sait.
– Aimer... aimer... Qu’est-ce que c’est? Ça manque de définition, ce mot-là. Um ama, outro possui, comme nous disons proverbialement – afirmou Hans Castorp e prosseguiu: – nos últimos tempos meditei às vezes sobre a liberdade. Isto é: ouvi esta palavra com tanta freqüência, que me fez refletir. Je te le dirai en français o que pensei a respeito. Ce que toute l’Europe nomme la liberté est peut-être une chose assez pêdante et assez bourgeoise en comparaison de notre besoin d'ordre – c'est ça!
– Tiens! C’est amusant. C’est ton cousin à qui tu penses en disant des choses étranges comme ça?
– Não, c'est vraiment une bonne âme, uma natureza singela, cujo espírito não corre nenhum perigo, tu sais. Mais il n'est pas bourgeois, il est militaire.
– Não corre perigo? – repetiu ela com alguma dificuldade... – Tu veux dire: une nature tout à fait ferme, sûre d'elle-même? Mais il est sérieusement malade, ton pauvre cousin.
– Quem te disse isso?
– Aqui a gente anda bem informada sobre os outros.
– O Dr. Behrens te disse isso?
– Peut-être en me faisant voir ses tableaux.
– C’est-à-dire: en faisant ton portrait!
– Pourquoi pas? Tu l’as trouvé réussi, mon portrait?
– Mais oui, extrêmement. Behrens a três exactement rendu ta peau, oh vraiment, très fidèlement.
J’aimerais beaucoup être portraitiste, moi aussi, pour avoir l’occasion d'étudier ta peau comme lui.
– Parlez allemand, s’il vous plaît!
– Oh, eu falo alemão também quando falo francês. C’est une sorte d’étude artistique et médicale – en un mot: il s’agit des lettres humaines, tu comprends. E então, não queres dançar?
– Não. Acho isso pueril. En cachette des médecins. Aussitôt que Behrens reviendra, tout le monde va se précipiter sur les chaises. Ce sera fort ridicule.
– Tens tanto respeito a ele?
– A quem? – disse ela, pronunciando a interrogação com uma brevidade exótica.
– A Behrens.
– Mais va donc avec ton Behrens! Além disso falta espaço para dançar. Et puis sur le tapis...
Vamos ver como dançam os outros.
– Pois sim, vamos – concordou ele, e pôs-se a olhar, sentado junto dela, com o rosto pálido; os olhos azuis que tinham a expressão pensativa do avô observaram os saracoteios dos enfermos disfarçados, no salão e na biblioteca. A Irmã Muda saltitava com o Joãozinho Azul; a Srª. Salomon, fantasiada de cavalheiro engalanado, de casaca e colete branco, com uma camisa engomada de peito saliente, com um bigode pintado e com um monóculo, girava nos saltinhos altos dos seus sapatos de verniz, que, inaturalmente, saíam por baixo das calças de homem; seu par era o pierrô, cujos lábios luziam num vermelho de sangue no rosto caiado, e cujos olhos se pareciam com os de um coelho albino. O grego de mantilha requebrava suas pernas harmoniosas, revestidas de ceroulas violeta, em torno de Rasmussen, decotado e resplandecente de lantejoulas escuras. O promotor público, no seu quimono, a Srª. Wurmbrand e o jovem Gänser dançavam juntos, a três, mantendo-se abraçados, ao passo que a Stöhr bailava com a sua vassoura, que apertava contra o coração, e cujas crinas acariciava como se fossem a cabeleira hirsuta de um homem.
– Vamos, sim – repetiu Hans Castorp mecanicamente. Falavam baixinho, no meio dos sons do piano. – Vamos sentar-nos aqui e olhar como num sonho. Para mim, isto é um sonho, sabes? estarmos sentados assim – comme un rêve singulièrement profond, car il faut dormir très profondément pour rêver comme cela... Je veux dire: c’est un rêve bien connu, rêvé de tout temps, long, éternel, oui, être assis près de toi comme à présent, voilà l’éternité.
– Poète! – disse ela. – Bourgeois, humaniste et poète – voilà l’allemand au complet, comme il faut.
– Je crains que nous ne soyons pas du tout et nullement comme il faut – replicou ele. – Sous aucun égard. Nous sommes peut-être des filhos enfermiços da vida, tout simplement.
– Joli mot. Dis-moi donc... Il n’aurait pas été fort difficile de rêver ce revê-là plus tôt. C’est un peu tard que monsieur se résout à adresser la parole à son humble servante.
– Pourquoi des paroles? – disse ele. – Pourquoi parler? Parler, discourir, c’est une chose bien républicaine, je le concède. Mais je doute que ce soit poétique au même degré. Un de nos pensionnaires, qui est un peu devenu mon ami, Monsieur Settembrini...
– Il vient de te lancer quelques paroles.
– Eh bien, c’est un grand parleur, sans doute, il aime même beaucoup à réciter de beaux vers – mais est-ce un poète, cet homme-là?
– Je regrette sincèrement de n’avoir jamais eu le plaisir de faire la connaissance de ce chevalier.
– Je le crois bien.
– Ah! Tu le crois?
– Comment? C’était une phrase tout à fait indifférente, ce que j’ai dit là. Moi, tu le remarques bien, je ne parle guère le français. Pourtant, avec toi je préfère cette langue à la mienne, car pour moi parler français c’est parler sans parler, en quelque manière – sans responsabilitê, ou comme nous parlons en rêve. Tu comprends?
– A peu près.
– Ça suffit... Parler – continuou Hans Castorp – pauvre affaire! Dans l’éternité, on ne parle point.
Dans l’éternité, tu sais, on fait comme en dessinant un petit cochon: on penche la tête en arrière et on ferme les yeux.
– Pas mal, ça! Tu es chez toi dans l’éternité, sans aucun doute, tu la connais à fond. Il faut avouer que tu es un petit rêveur assez curieux.
– Et puis – disse Hans Castorp —, si je t’avais parlé plus tôt, il m’aurait fallu te dire “vous”!
– Eh bien, est-ce que tu as l’intention de me tutoyer pour toujours?
– Mais oui. Je t’ai tutoyé de tout temps et je te tutoierai éternellement.
– C’est un peu fort, par exemple. En tout cas, tu n'auras pas trop longtemps l’occasion de me dire “tu”.
Je vais partir.
A palavra custou a lhe penetrar a consciência. Em seguida, ele sobressaltou-se, lançando em redor de si olhares confusos, como faz quem é despertado de repente.. Sua conversa desenvolvera-se com certa lentidão, porque Hans Castorp falava o francês de modo lerdo, como que numa meditação vacilante. O piano, que se calara durante algum tempo, voltou a ressoar, agora sob as mãos do rapaz de Mannheim, que substituíra o jovem eslavo e colocara na estante um álbum de músicas. A Srta. Engelhart estava sentada a seu lado e virava as folhas. A assistência do baile já se tornara menos numerosa. Grande parte dos pensionistas parecia ter adotado a posição horizontal. Ninguém mais se achava nas poltronas à sua frente. Na biblioteca, alguns jogavam cartas.
– Que vais fazer? – perguntou Hans Castorp, consternado...
– Eu vou partir – repetiu ela, aparentemente surpreendida pelo seu aspecto estarrecido.
– Não é possível – disse ele. —– Estás apenas brincando.
– Nem um pouquinho. Estou falando com a mais absoluta seriedade. Partirei.
– Quando?
– Ora, amanhã. Après diner.
Um cataclismo de vastas dimensões produziu-se nele. Depois, disse:
– Aonde vais?
– Muito longe daqui.
– A Daghestan?
– Tu n’es pas mal instruit. Peut-être, pour le moment...
– Estás, então, curada?
– Quant à ça... non. Mas Behrens acha que no momento não se pode fazer grande coisa aqui. C’est pourquoi je vais risquer un petit changement d’air.
– De maneira que voltarás?
– Isto não se sabe. Sobretudo não sei quando. Quant à moi, tu sais, j’aime la liberté avant tout et notamment celle de choisir mon domicile. Tu ne comprends guère ce que c’est: être obsédé d’indépendance. C’est de ma race, peut-être.
– Et ton mari au Daghestan te l’accorde – ta liberté?
– C’est la maladie qui me la rend. Me voilà à cet endroit pour Ia troisième fois. J’ai passe un an ici, cette fois. Possible que je revienne. Mais alors tu seras bien loin depuis longtemps.
– Achas, Clávdia?
– Mon prénom aussi! Vraiment tu les prends bien au sérieux les coutumes dü carnaval.
– Será que sabes até que grau estou doente?
– Oui... non... comme on sait ces choses ici. Tu as une petite tache humide là-dedans et un peu de fièvre, n’est-ce pas?
– Trente-sept et huit ou neuj l’après-midi – explicou Hans Castorp. – E tu?
– Oh, mon cas, tu sais, c’est un peu plus complique... pas tout à fait simple.
– Il y a quelque chose dans cette branche des lettres humaines dite la médecine – disse Hans Castorp –
qu'on appelle bouchement tuberculeux des vases de lymphe.
– Ah! Tu as mouchardé, mon cher, on le voit bien.
– Et toi?... Perdão. Deixa que agora te pergunte uma coisa, com insistência e em alemão: naquele dia, quando me levantei da mesa, para ir ao exame médico, faz seis meses... Tu te voltaste para me olhar... Ainda te lembras?
– Quelle question! Il y a six mois!
– Tu sabias aonde eu ia?
– Certes, c’etait tout à fait par hasard...
– Soubeste pelo Behrens?
– Toujours ce Behrens!
– Oh, il a représenté ta peau d’une façon tellement exacte... D’ailleurs, c’est un veuf aux joues ardentes et qui possède un service de café très remarquable... Je crois bien qu’il connaisse ton corps non seulement comme médecin, mais aussi comme adepte d’une autre discipline des lettres humaines.
– Tu as décidément raison de dire que tu parles en rêve, mon ami.
– Soit... Laisse-moi rêver de nouveau après m’avoir réveillé si cruellement par cette cloche d’alarme de ton départ. Sept mois sous tes yeux... Et à présent, où en réalité j’ai fait ta connaissance, tu me parles de départ!
– Je te répète que nous aurions pu causer plus tôt.
– Terias gostado?
– Moi? Tu ne m’écbapperas pas, mon petit. Il s’agit de tes intérêts, à toi. Est-ce que tu étais trop timide pour t’approcher d’une femme à qui tu parles en rêve maintenant, ou est-ce qu’il y avait quelqu’un qui t’en a empêché?
– Je te l’ai dit. Je ne voulais pas te dire “vous”.
– Farceur! Réponds donc – ce monsieur beau parleur, cet Italien-là qui a quitté la soirée – qu’est-ce qu’il t’a lancé tantôt?
– Je n’en ai entendu absolument rien. Je me soucie très peu de ce monsieur, quand mes yeux te voient.
Mais tu oublies... il n’aurait pas été si facile du tout de faire ta connaissance dans le monde. Il y avait encore mon cousin avec qui j’étais lié et qui s’incline très peu à s’amuser ici: il ne pense à rien qu’à son retour dans les plaines, pour se faire soldat.
– Pauvre diable. Il est, en effet, plus malade qu’il ne sait. Ton ami Italien du reste ne va pas trop bien non plus.
– Il le dit lui-même. Mais mon cousin... Est-ce vrai? Tu m’effraies.
– Fort possible qu’il aille mourir, s’il essaye d’être soldat dans les plaines.
– Qu’il va mourir. La mort. Terrible mot, n’est-ce pas? Mais c’est étrange, il ne m’impressionne pas tellement aujourd’hui, ce mot. C’était une façon de parler bien conventionnelle, lorsque je disais: “Tu m’effraies”.
L’idée de la mort ne m’effraie pas. Elle me laisse tranquille. Je n’ai pas pitié – ni de mon bon Joachim ni de moi-même, en entendant qu’il va peut-être mourir. Si c’est vrai, son état ressemble beaucoup au mien e je ne le trouve
pas particulièrement imposant. Il est moribond, et moi je suis amoureux, eh bien!... Tu as parlé à mon cousin à l’atelier de photographie intime, dans l’antichambre, tu te souviens?
– Je me souviens un peu.
– Donc ce jour-là Behrens a fait ton portrait transparent.
– Mais oui.
– Mon Dieu! Et l’as-tu sur toi?
– Non, je l’ai dans ma chambre.
– Ah, dans ta chambre. Quant au mien, je l’ai toujours dans mon portefeuille. Veux-tu que je te le fasse voir?
– Mille remerciements. Ma curiosité n’est pas invincible. Ce será un aspect très innocent.
– Moi, j’ai vu ton portrait extérieur. J’aimerais beaucoup mieux voir ton portrait intérieur qui est enfermé dans ta chambre... Laisse-moi demander autre chose! Parfois un monsieur russe qui loge en ville vient te voir. Qui est-ce? Dans quel but vient-il, cet’homme?
– Tu es joliment fort en espionnage, je l’avoue. Eh bien, je réponds. Oui, c’est un compatriote souffrant, um ami. ]’ai fait sa connaissance à une autre station balnéaire, il y a quelques années déjà. Nos relations? Les voilà: nous prenons notre thé ensemble, nous fumons deux ou trois papiros, et nous bavardons, nous philosophons, nous parlons de l’homme, de Dieu, de la vie, de la morale, de mille choses. Voilà mon compte rendu. Est-tu satisfait?
– De la morale aussi! Et qu’est-ce que vous avez trouvé en fait de morale, par exemple?
– La morale? Cela t’intéresse? Eh bien, il nous semble qu’il faudrait chercher la morale non dans la vertu, c'est-à-dire dans la raison, la discipline, les bonnes moeurs, l’honnêteté – mais plutôt dans le contraire, je veux dire: dans le péché, en s’abandonnant au danger, à ce qui est nuisible, à ce qui nous consume. Il nous semble qu’il est plus moral de se perdre et même de se laisser dépêrir que de se conserver. Les grands moralistes n'étaient point des vertueux, mais des aventuriers dans le mal, des vicieux, des grands pécheurs qui nous enseignent à nous incliner chrétiennement devant la misère. Tout ça doit te déplaire beaucoup, n’est-ce pas?
Ele permaneceu calado. Estava ainda sentado da mesma forma que antes, com os pés cruzados muito para trás, sob o assento. Inclinava-se para a frente em direção à mulher reclinada com o tricórnio de papel. Tinha entre os dedos a lapiseira que pertencia a ela. Com os olhos tão azuis como os de Hans Lorenz Castorp, o jovem fitava a sala que se esvaziara. Os pensionistas haviam-se dispersado. O piano, no canto diagonalmente oposto, não deixava ouvir senão alguns sons suaves e espaçados, produzidos com uma mão só pelo enfermo de Mannheim, a cujo lado se achava a professora, folheando um tomo de músicas que tinha sobre os joelhos. Quando se interrompeu a conversa entre Hans Castorp e Clávdia Chauchat, o pianista cessou de tocar, deitando no colo também a mão que até então acariciara o teclado. A Srta. Engelhart prosseguiu estudando as notas. Os quatro únicos remanescentes da festa carnavalesca conservavam-se imóveis. O silêncio prolongou-se por alguns minutos. Sob o seu peso baixaram-se lenta e cada vez mais profundamente as cabeças do par sentado junto do piano, a do jovem de Mannheim em direção ao piano, e a da Srta. Engelhart para o álbum de músicas. Por fim, como se se tivessem posto secretamente de acordo, levantaram-se ambos ao mesmo tempo e com grande discrição.
Caminhando suavemente, nas pontas dos pés, e evitando lançar um olhar para o outro canto da sala, a cabeça baixa e os braços rigidamente pendurados, sumiram-se o rapaz de Mannheim e a professora pela sala de correspondência.
– Tout le monde se retire – disse Mme. Chauchat. – C’étaient les derniers; il se fait tard. Eh bien, la fête de carnaval est finie. – E ergueu os braços a fim de tirar com as duas mãos o gorro de papel do cabelo arruivado, cuja trança cercava a cabeça qual uma coroa. – Vous connaissez les conséquences, monsieur.
Mas Hans Castorp fez que não, com os olhos fechados, sem modificar, de resto, a sua posição.
– Jamais, Clavdia – respondeu. – Jamais je te dirai “vous”, jamais de la vie ni de la mort, se é que se pode dizer assim; deveria ser possível. Cette forme de s’adresser à une personne, qui est celle de l’Occident cultivé et de la civilisation humanitaire, me semble fort bourgeoise et pédante. Pourquoi, au fond, de la forme? La
forme, c’est la pédanterie elle-même! Tout ce que vous avez fixé à l’égard de la morale, toi et ton compatriote souffrant – tu veux sérieusement que ça me surprenne? Pour quel sot me prends-tu? Dis donc, qu’est-ce que tu penses de moi?
– C'est un sujet qui ne donne pas beaucoup à penser. Tu es un petit bonhomme convenable, de bonne famille, d’une tenue appétissante, disciple docile de ses précepteurs et qui retournera bientôt dans les plaines, pour oublier complètement qu’il a jamais parlé en rêve ici et pour aider à rendre son pays grand et puissant par son travail honnête sur le chantier. Voilà ta photographie intime, faite sans appareil. Tu la trouves exacte, j’espère?
– Il y manque quelques détails que Behrens y a trouvés.
– Ah, les médecins en trouvent toujours, ils s’y connaissent...
– Tu parles comme Monsieur Settembrini. Et ma fièvre? D’où vient-elle?
– Allons donc, c’est un incident sans conséquence qui passera vite.
– Non, Clavdia, tu sais bien que ce que tu dis là n’est pas vrai, et tu le dis sans conviction, j’en suis sûr.
La fièvre de mon corps et le battement de mon coeur harassé et le frissonnement de mes membres, c’est le contraire d’un incident, car ce n’est rien d’autre – e seu rosto pálido, com os lábios trêmulos, inclinou-se ainda mais para o rosto da mulher – rien d’autre que mon amour pour toi, oui, cet amour qui m’a saisi à l’instant où mes yeux t’ont vue, ou, plutôt, que j’ai reconnu, quand je t’ai reconnue toi – et c’était lui, évidemment, qui m’a mené à cet endroit...
– Quelle folie!
– Oh! L’amour n'est rien, s’il n’est pas de la folie, une chose insensée, défendue et une aventure dans le mal. Autrement c’est une banalité agréable, bonne pour en faire de petites chansons paisibles dans les plaines.
Mais quant à ce que je t’ai reconnue et que j'ai reconnu mon amour à toi – oui, c’est vrai, je t’ai déjá connue, anciennement, toi et tes yeux merveilleusement obliques et ta bouche et ta voix, avec laquelle tu parles – une fois déjà, lorsque j’étais collégien, je t’ai demandé ton crayon, pour faire enfin ta connaissance mondaine, parce que je t’aimais irraisonnablement, et c’est de là, sans doute c’est de mon ancien amour pour toi que ces marques me restent que Behrens a trouvées dans mon corps, et qui indiquent que jadis aussi j’étais malade...
Seus dentes batiam. Enquanto ia divagando, retirou um pé de sob o assento rangente. Ao avançar esse pé, tocou o chão com o outro joelho, de maneira que se ajoelhava diante dela, com a cabeça baixa e o corpo todo trêmulo. – Je t’aime – balbuciou – je t’ai aimée de tout temps, car tu es le Toi de ma vie, mon rêve, mon sort, mon éternel désir...
– Allons, allons! – disse ela. – Si tes précepteurs te voyaient...
Mas Hans Castorp sacudiu a cabeça, desolado, com o rosto junto ao tapete, e respondeu:
– Je m’en ficherais, je me fiche de tous ces Carducci et de la République éloquente et du progrès humain dans le temps, car je t’aime!
Ela acariciou-lhe suavemente com a mão os cabelos aparados da nuca.
– Petit bourgeois! – disse. – Joli bourgeois à la petite tache humide. Est-ce vrai que tu m’aimes tant?
E arrebatado por esse contato, já sobre ambos os joelhos, com a cabeça deitada para trás e com os olhos fechados, continuou ele a falar:
– Oh, l’amour, tu sais... Le corps, l’amour, la mort, ces trois ne font qu’un. Car le corps, c’est la maladie et la volupté, et c’est lui qui fait la mort, oui, ils sont charnels tous deux, l’amour et la mort, et voilà leur terreur et leur grande magie! Mais la mort, tu comprends, c’est d’une part une chose mal famée, impudente, qui fait rougir de honte; et d’autre part c’est une puissance très solennelle et très majestueuse – beaucoup plus haute que la vie riante gagnant de la monnaie e farcissant sa panse – beaucoup plus vénérable que le progrès qui bavarde par les temps –
parce qu’elle est l’histoire et la noblesse et la pitié et l’éternel et le sacré qui nous fait tirer le chapeau et marcher sur la pointe des pieds... Or, de même, le corps, lui aussi, et l’amour du corps, sont une affaire indécente et fâcheuse, et le corps rougit et pâlit à sa surface par frayeur et honte de lui-même. Mais aussi il est une grande gloire adorable, image miraculeuse de la vie organique, sainte merveille de la forme et de la beauté, et l’amour pour lui, pour le corps humain, c’est de même un intérêt extrêmement humanitaire et une puissance plus éducative que toute la pédagogie du monde!... Oh, enchantante beauté organique qui ne se compose ni de teinture à l’huile ni de pierre, mais de matière vivante et corruptible, pleine du secret fébrile de la vie et de la pourriture! Regarde la symétrie merveilleuse de l’édifice humain, les épaules et les hanches et les mamelons fleurissants de part et d’autre sur la poitrine, et les côtes arrangées par paires, et le nombril au milieu dans la mollesse du ventre, et le sexe obscur entre les cuisses!
Regarde les omoplates se remuer sous la peau soyeuse du dos, et l’échine qui descend vers la luxuriance double et fraîche dês fesses, et les grandes branches des vases et des nerfs qui passent du tronc aux rameaux par les aisselles, et comme la structure des bras correspond à celle des jambes. Oh, les douces régions de la jointure intérieure du coude et du jarret avec leur abondance de délicatesses organiques sous leurs coussins de chair! Quelle fête immense de les caresser ces endroits délicieux du corps humain! Fête à mourir sans plainte après! Oui, mon Dieu, laisse-moi sentir l’odeur de la peau de ta rotule, sous laquelle l’ingénieuse capsule articulaire sécrète son huile glissante! Laisse-moi toucher dévotement de ma bouche l’arteria femoralis qui bat au front de la cuisse et qui se divise plus bas en les deux artères du tibia! Laisse-moi ressentir l’exhalation de tes pores et tâter ton duvet, image humaine d’eau et d’albumine, destinée pour l’anatomie du tombeau, et laisse-moi périr, mes lèvres aux tiennes!
Não abriu os olhos, depois de ter terminado de falar. Permaneceu sem se mover, com a cabeça deitada para trás, estendendo as mãos com a lapiseira de prata, estremecendo e vacilando sobre os joelhos. Ela disse:
– .Tu es en effet un galant qui sait solliciter d’une manière profonde, à l’allemande.
E lhe pôs na cabeça o gorro de papel.
– Adieu, mon prince Carnaval! Vous aurez une mauvaise ligne de fièvre ce soir, je vous le prédis.
Com essas palavras, resvalou a cadeira, deslizou pelo tapete, rumo à porta, sob cujo umbral hesitou um instante, meio voltada, levantando um dos braços nus, com a mão a repousar no gonzo. Por cima do ombro disse baixinho:
– N’oubliez pas de me rendre mon crayon.
E saiu.