A Montanha Mágica
– Eu queria ver meu falecido primo Joachim Ziemssen.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Foi um alívio para todos. Dos componentes do grupo, somente o Dr. Ting-Fu, o tcheco Wenzel e a própria médium não tinham conhecido pessoalmente o defunto citado. Os demais –
Ferge, Wehsal, o Sr. Albin, o promotor, o casal Magnus, a Stöhr, a Levi e a Kleefeld –
demonstraram ruidosa e alegremente a sua aprovação. Até mesmo o Dr. Krokowski fez um gesto de satisfação, se bem que as suas relações com Joachim sempre houvessem sido um tanto frias, pois este se mostrara recalcitrante em matéria de análise.
– Ótimo – disse o doutor. – Ouviste, Holger? Em vida, não conhecias a pessoa que te foi designada. Será que a reconheces no além e estás disposto a guiá-la até nós?
A tensão foi grande. A adormecida gingava, dava suspiros, estremecia. Parecia procurar e lutar, enquanto se deixava cair ora para um ora para outro lado, murmurando palavras incompreensíveis ao ouvido de Hans Castorp ou da Kleefeld. Finalmente recebeu Hans Castorp de ambas as mãos de Elly o aperto que significava “sim”. Comunicou o fato aos demais e...
– Pois bem! – exclamou o Dr. Krokowski. – Mãos a obra, Holger!... Música! – ordenou. –
Conversem! – E mais uma vez lhes recomendou que para servir à causa nada adiantava concentrar-se convulsivamente e fixar todas as idéias na visão esperada, senão prestar uma atenção vaga, desembaraçada.
Seguiram-se então horas mais estranhas do que a vida curta do nosso herói continha até esse momento. Ainda que não possamos vislumbrar com absoluta clareza os seus destinos ulteriores e o percamos de vista em determinado ponto da nossa história, sentimo-nos inclinados a crer que foram as mais estranhas que chegou a viver.
Havemos por bem avisar os nossos leitores previamente de que se trata de horas inteiras, mais de duas, inclusive uma pequena interrupção do “trabalho” que agora começava; esse trabalho de Holger ou, na realidade, da donzela Elly, que se prolongava terrivelmente, de maneira que todos já estavam prestes a desesperar de um resultado positivo. Acrescia a isso que, por pura misericórdia, muitas vezes se sentiam tentados a resignar-se e a abreviar o trabalho, que de fato parecia imensamente difícil e dava a impressão de ultrapassar as forças débeis da moça a quem fora solicitado. Nós, os homens, a não ser que nos esquivemos às coisas humanas, conhecemos, de uma determinada situação da vida, aquela compaixão intolerável, mas ridícula, porque ninguém a aceita, e provavelmetne inoportuna; conhecemos aquele grito indignado: “Basta!” que tende a se desprender do nosso peito, posto que “aquilo” não possa, nem deva “bastar” e que seja preciso terminá-lo desta ou daquela forma. Já devem ter compreendido que nos referimos à nossa função de esposo e de pai, bem como ao processo do parto, ao qual a luta de Elly se assemelhava tão inequívoca e inconfundivelmente, que mesmo aqueles que ainda não o conheciam tinham de reconhecê-lo. Tal era o caso do jovem Hans Castorp, visto também ele não se ter esquivado à vida. Foi, pois, sob essas condições que travou conhecimento com aquele ato cheio de misticismo orgânico. Sob que condições? E com que finalidade? Era impossível qualificar com outro adjetivo que não escandalosos os pormenores e as particularidades dessa animada sala de partos, banhada em luz vermelha. Isso se aplicava tanto à pessoa virginal da parturiente, com o roupão flutuante e os bracinhos desnudos, como ao resto do ambiente, a saber, a incessante e leviana música que partia da vitrola, as conversas artificiais que o semicírculo mantinha para cumprir a ordem recebida, as aclamações joviais e estimulantes que os componentes da roda dirigiam sem cessar à garota que ali se contorcia: “Vamos, Holger!
Coragem! Já vai melhor! Continua assim! Mais um pouco e vencerás!” E absolutamente não excetuamos a figura e a posição do “marido” – desde que podemos considerar Hans Castorp como tal, por ter ele manifestado o desejo –, o marido que comprimia os joelhos da “mãe” com os seus e lhe segurava as mãos; essas mãozinhas que estavam tão úmidas como haviam sido as da pequena Leila, de maneira que era preciso apertá-las sempre, para evitar que lhe escapassem.
Pois a lareira a gás, às costas das pessoas sentadas nas suas proximidades, irradiava forte calor.
Misticismo e solenidade? Nada disso! Era barulhento e banal aquilo que se passava nas trevas vermelhas, às quais os olhos, pouco a pouco, haviam-se habituado a ponto de dominarem a maior parte do aposento. A música e os gritos recordavam os. métodos que emprega o Exército de Salvação, com o fim de galvanizar o auditório; recordação essa que se impunha até a quem, como Hans Castorp, jamais assistira a um serviço divino desses fanáticos jubilosos. Não era num sentido fantasmagórico que essa cena parecia mística, misteriosa, capaz de inspirar pensamentos piedosos a pessoas sensíveis, senão unicamente num sentido natural, orgânico, e já mencionamos o parentesco próximo e íntimo que era a fonte dessa associação de idéias. Os esforços de Elly produziam-se à maneira de dores do parto, depois de intervalos de repouso, durante os quais ela pendia frouxamente para o lado da cadeira, num estado inacessível que o Dr. Krokowski definiu como “transe profundo”. Em seguida tornava a sobressaltar-se; revolvia-se; lutava com os vigilantes; sussurrava-lhes nos ouvidos palavras ardentes, sem nexo; fazia bruscos movimentos laterais como se quisesse expulsar alguma coisa do seu próprio corpo; rangia os dentes; em certa ocasião até mordeu a manga de Hans Castorp.
Isso durou uma hora ou talvez mais. Por fim, o presidente da sessão julgou indicado intercalar uma pausa. O tcheco Wenzel, que, para variar um pouco, terminara poupando o aparelho e tocando o violão com grande habilidade, pôs o instrumento de lado. Com um suspiro de alívio, soltaram-se as mãos. O Dr. Krokowski encaminhou-se à parede, para acender a luz do teto. A claridade branca se fez tão deslumbrante que todos piscavam estonteados os olhos acostumados à noite. Elly dormia, muito inclinada para a frente, com o rosto quase tocando as coxas. Via-se como se entregava a uma atividade estranha que parecia familiar aos outros, mas que Hans Castorp contemplou com atenção e surpresa: durante alguns minutos passou ela a mão cava, de cá para lá, pela zona dos quadris, estendendo-a e recolhendo-a num gesto de quem, ao trabalhar com uma concha ou um ancinho, procurasse juntar e puxar para si alguma coisa. Por fim estremeceu várias vezes e acordou. Piscando estonteada, também ela, com os olhos sonolentos, esboçou um sorriso.
Foi um sorriso gracioso, um tanto alheado. A compaixão que haviam sentido ao vê-la penar parecia realmente desperdiçada. A moça não dava a impressão de estar particularmente exausta. Talvez nem sequer se lembrasse dos seus trabalhos. Estava sentada na poltrona dos enfermos, perto da janela, entre a escrivaninha e o biombo que escondia a chaise longue. Dera meia-volta à cadeira, de modo que pudesse apoiar o braço na superfície da escrivaninha e olhar para dentro da sala. Deixava-se estar assim, alvo de olhares comovidos, recebendo de vez em quando um aceno alentador, e guardando silêncio durante todo esse intervalo que se prolongou por quinze minutos.
Tratava-se de um verdadeiro recreio que dava oportunidade para descansar e para contemplar, com suave satisfação, a obra já realizada. Abriram-se as cigarreiras dos homens.
Fumavam com prazer. Aqui e ali se formavam grupos que discutiam o caráter da sessão. Estavam longe de desanimar ou de encarar o fracasso definitivo. Existiam sintomas próprios para deter tal ceticismo. Todos aqueles que ocupavam os lugares na extremidade oposta do semicírculo, vizinho ao do médico, afirmavam unanimemente que haviam sentido, diversas vezes e com absoluta nitidez, aquela aura fria que costumava partir da médium e avançar numa determinada direção, cada vez que se preparavam aparições. Outros pretendiam ter notado fenômenos luminosos, manchas brancas, aglomerações movediças de energias que acabavam de se manifestar nas proximidades do biombo. Numa palavra: nada de relaxamento! Nada de pusilanimidade!
Holger empenhara a sua palavra, e não tinham direito de duvidar de que a cumpriria.
O Dr. Krokowski deu o sinal para recomeçar a sessão. Enquanto todos voltavam aos lugares, reconduziu a médium pessoalmente até a cadeira dos seus tormentos, acariciando-lhe os cabelos. Tudo se passou como antes. Hans Castorp pediu que o substituíssem no cargo de primeiro vigilante, mas o presidente se opôs. Disse que fazia questão de oferecer à pessoa que
expressara o desejo o contato físico com a médium, a fim de garantir-lhe que praticamente não havia possibilidade de manipulações fraudulentas por parte desta. Foi assim que Hans Castorp voltou a ocupar a sua estranha posição à frente de Elly. A luz transformou-se nas trevas vermelhas. Recomeçou a música. Novamente se produziram depois de poucos minutos os bruscos tremores de Elly e o movimento de dar impulso a uma bomba. Dessa vez foi Hans Castorp quem anunciou o transe. O parto escandaloso continuaria.
Como era terrivelmente penoso! Parecia não querer realizar-se – como seria possível?
Que loucura! De onde viria a maternidade nesse caso? Dar à luz? Como e o quê? “Acudam!
Acudam!”, gemia a garota, enquanto as dores ameaçavam converter-se naquele estado desfavorável e perigoso de espasmo constante, ao qual os peritos da obstetrícia deram o nome de
“eclampsia”. Em dado momento chamou o doutor, pedindo que lhe impusesse as mãos. O
assistente assim o fez, encorajando-a energicamente. O efeito magnético, se é que se tratava de tal, fortaleceu-a para novas lutas.
Desta forma transcorreu a segunda hora, durante a qual se alternavam os arpejos do violão e as peças fúteis da vitrola, ressoando pelo recinto, a cuja semi-escuridão os olhos acabavam de se reacostumar. Então ocorreu um incidente. Foi Hans Castorp quem o provocou, ao dar uma sugestão ou ao pronunciar um desejo, uma idéia, que fomentara havia muito, ou melhor, desde o início da sessão, e que talvez devesse ter manifestado antes. A essa altura, Elly se achava num transe profundo, apoiando o rosto nas mãos agarradas, e o Sr. Wenzel estava a ponto de mudar ou de virar o disco. Nesse instante, o nosso amigo pôs-se a falar resolutamente, dizendo que queria fazer uma proposta – nada de importância, aliás, mas cuja realização poderia ser útil. – Eu disponho... isto é, a discoteca da casa dispõe de uma peça do Fausto de Gounod, a
“Oração” de Valentim, uma ária muito bonita, para voz de barítono com acompanhamento de orquestra. Seria conveniente experimentar esse disco.
– E por quê? – perguntou o médico através das trevas vermelhas.
– Por motivos sentimentais. Questão de atmosfera – respondeu o jovem, explicando que o espírito da referida peça era estranho e muito particular. Valeria a pena fazer uma tentativa. A seu ver não era impossível que esse espírito ou caráter da ária abreviasse o processo em que se achavam empenhados.
– O disco está aqui? – indagou o doutor.
Não, não estava. Mas Hans Castorp poderia ir buscá-lo.
– Isso não! – Krokowski rejeitou peremptoriamente essa idéia. Mas como? Será que Hans Castorp tencionava ir e vir sem mais aquela, procurar um objeto e reencetar depois o trabalho interrompido? Nisso se demonstrava a sua inexperiência. Não, aquilo era impraticável. Tudo ficaria anulado, e seria preciso voltar ao ponto de partida. Também a exatidão científica vedava essas idas e vindas arbitrárias. Ele, o doutor, estava com a chave no bolso. Numa palavra, se o disco não se achasse disponível, melhor seria... Ainda prosseguia falando, quando o aparteou o tcheco, do seu lugar ao pé do fonógrafo:
– O disco está aqui.
– Aqui? – perguntou Hans Castorp...
Sim, aqui mesmo. Fausto, “Oração” de Valentim. Às ordens! Excepcionalmente, o disco tinha sido colocado no álbum das peças fúteis e não no álbum verde número II, o das árias, onde devia encontrar-se segundo a sua categoria. Por casualidade, por relaxamento, por uma circunstância extraordinária e, em todo caso, feliz, fora misturado com as bagatelas, de maneira que tudo o que se precisava fazer era pô-lo no aparelho.
Que havia Hans Castorp de dizer a isso? Não disse nada. O médico observou: “Tanto melhor!”, e algumas pessoas repetiram essas palavras. A agulha pôs-se a chiar. A tampa foi abaixada. E uma voz máscula começou a cantar, entre os acordes de um hino sacro: “Antes de deixar este lugar...”
Ninguém falava. Todos escutavam. Com as primeiras notas cantadas, Elly reiniciara o seu trabalho. Sobressaltou-se; lançou gemidos; executou o movimento de dar impulso a uma bomba,
e tornou a levar à testa as mãos úmidas, escorregadias. O disco continuava a girar. Veio a estrofe intermediária, com a modificação do ritmo, o trecho que tratava, de modo intrépido, pio, francês, de combates e perigos. Terminado este, seguiu-se o fim, a repetição orquestralmente reforçada do começo. Com sons poderosos ressoava a frase: “Ó Senhor Deus, ouve minhas preces...”
Hans Castorp estava ocupado com Elly. A moça corcoveava, lutava por aspirar pela garganta angustiada. A seguir entrou em colapso, com um suspiro, e daí por diante permaneceu imóvel. Hans Castorp, desassossegado, estava se curvando por cima dela, quando ouviu a voz chorosa, pipilante, da Srª. Stöhr, que disse:
– Ziem...ssen!
O jovem não se aprumou. Sentiu na boca um sabor amargo. Ouviu uma outra voz profunda e fria, que replicava:
– Já faz tempo que o vejo.
O disco chegara a seu fim. Perdera-se no ar o derradeiro acorde dos sopros. Mas ninguém fez o aparelho parar. Chiando em vão através do silêncio, a agulha prosseguia a percorrer a parte central do disco. Então Hans Castorp levantou a cabeça, e seus olhos, sem necessidade de procurar, tomaram a direção certa.
Havia no aposento uma pessoa mais. Ali, a alguma distância do grupo, nos fundos do gabinete, no ponto em que os restos da luz vermelha quase se confundiam com a escuridão, de modo que a vista mal avançava até ele, ali entre o lado comprido da escrivaninha e o biombo, na poltrona dos pacientes do médico, que Elly ocupara durante o intervalo, estava sentado Joachim.
Era Joachim, com as sombras das faces encovadas e com a barba de guerreiro dos seus últimos dias, essa barba no meio da qual ressaltavam, cheios e altivos, os lábios. Recostava-se ao espaldar e tinha uma perna cruzada sobre a outra. Não obstante a coberta da cabeça que lhe obscurecia as feições, distinguia-se novamente no seu rosto o cunho do sofrimento, bem como aquela expressão grave, austera, que lhe conferira tanta beleza viril. Duas rugas sulcavam a testa entre os olhos afundados nas órbitas ossudas; mas isso não diminuía a brandura do olhar desses olhos belos, grandes, escuros, que se dirigia, numa interrogação calma, amistosa, para Hans Castorp, e só para ele. A sua pequena aflição de tempos passados – as orelhas de abano – continuava perceptível sob a coberta da cabeça, essa coberta estranha que ninguém sabia explicar. O primo Joachim não estava à paisana. Um sabre, cujo punho segurava com ambas as mãos, parecia encostado na coxa da perna cruzada. Na cintura podia-se distinguir um coldre. Mas aquilo que usava não era um verdadeiro uniforme. Nada havia nele de brilhante nem de colorido. Era uma espécie de túnica, de gola virada e com bolsos laterais. Na parte inferior do peito achava-se uma cruz. Os pés de Joachim pareciam bastante grandes e as pernas, muito finas; estavam enroladas em grevas, o que lhes dava um aspecto desportivo antes que militar. E que significava aquela coberta da cabeça? Tinha-se a impressão de que Joachim se cobrira com uma marmita de soldado, com uma panela de cozinha, que fixara sob o queixo por meio de uma correia. Mas, coisa estranha! aquilo lhe emprestava ares antigos, de lansquenete, e essa marcialidade assentava-lhe bem.
Hans Castorp sentiu nas mãos o hálito de Ellen Brand. A seu lado ouviu a respiração da Kleefeld, que era acelerada. Fora disso não se percebia nenhum som, a não ser o chiar incessante do disco, que ainda girava sob a agulha, e que ninguém se lembrava de parar. Não procurou com os olhos nenhum dos companheiros; não desejava vê-los nem saber deles. Obliquamente, por cima das mãos e da cabeça de Elly, que jaziam sobre os seus joelhos, seu olhar atravessava as trevas vermelhas e fixava-se no visitante que se achava na poltrona. Durante um momento, o seu estômago pareceu a ponto de revoltar-se. Contraía-se-lhe a garganta, fazendo-o soluçar quatro ou cinco vezes profunda e convulsivamente. – Perdoe-me! – murmurou de si para si. Em seguida, seus olhos transbordaram de lágrimas, de modo que não enxergava mais nada.
Ouviu como murmuravam: – Dirija-lhe a palavra. – Ouviu a voz de barítono do Dr.
Krokowski, em tom solene e ao mesmo tempo jovial, pronunciar-lhe o nome e repetir a
solicitação. Ao invés de obedecer, Hans Castorp retirou as mãos de baixo do rosto de Elly e levantou-se.
Novamente o Dr. Krokowski chamou-o pelo nome, dessa vez num tom severo de admoestação. Mas Hans Castorp já alcançara com poucos passos os degraus da porta de entrada e acendeu, numa manobra rápida, a luz branca do lustre.
Ellen Brand sobressaltou-se num choque violento. Torcia-se nos braços da Kleefeld. A poltrona estava vazia.
Hans Castorp aproximou-se de Krokowski que protestava, de pé. Quis falar, mas nenhuma palavra lhe saiu dos lábios. Com um gesto brusco, imperioso, da cabeça, estendeu a mão. Depois de receber a chave, acenou várias vezes ameaçadoramente na cara do médico. Deu meia-volta e abandonou o gabinete.
A grande irritação
À medida que se sucediam os anos, um certo quê começou a pairar sobre o Sanatório Berghof, um espírito que, como Hans Castorp vagamente sentia, era o descendente direto do demônio cujo nome maligno já citamos em outra ocasião. O jovem estudara aquele demônio com a curiosidade irresponsável de um viajeiro em busca de formação e até descobrira na sua própria alma perigosas aptidões para desempenhar um papel importante no culto abominável que todo mundo lhe devotava. Segundo a sua índole, o nosso herói não era feito para se entregar ao vício que a essa altura dos acontecimentos se pôs a grassar, ao passo que antes só existira, tal e qual aquele outro, endemicamente ou em surtos espaçados. Contudo notou Hans Castorp, com espanto, que bastava relaxar um pouquinho para que, também ele, na sua fisionomia, nas suas palavras, no seu comportamento, sucumbisse a uma infecção à qual ninguém, nesse ambiente, conseguia subtrair-se.
Que se passava, afinal? Que havia no ar? Um espírito rixento. Uma irritação aguda. Uma impaciência indizível. Uma tendência geral para discussões venenosas, para acessos de raiva e mesmo para lutas corporais. Querelas ferozes, gritarias desenfreadas de parte a parte surgiam todos os dias entre indivíduos ou grupos inteiros, e o característico era que aqueles que não tomavam parte nos conflitos, ao invés de sentir-se desgostosos diante da conduta dos respectivos adversários ou de servir de pacificadores, simpatizavam com a explosão de sentimentos e intimamente se abandonavam à mesma vertigem. Ficavam pálidos ou estremeciam ao ver uma cena dessas. Os olhos brilhavam agressivamente. As bocas crispavam-se de tanta paixão.
Invejava-se aos protagonistas do momento o direito, a oportunidade de berrar. O premente desejo de imitá-los atormentava as almas e os corpos, e quem não tinha a força necessária para refugiar-se na solidão era irresistivelmente arrastado pelo torvelinho. As brigas por motivos fúteis, as recriminações mútuas em presença das autoridades empenhadas em reconciliar os digladiantes, mas que sucumbiam elas próprias, com espantosa facilidade, vítimas da tendência geral para a gritaria grosseira – tudo isso se tornara freqüente no Sanatório Berghof. Os que saíam de casa mais ou menos tranqüilos eram incapazes de prever em que estado voltariam. Uma pensionista que tinha o seu lugar à mesa dos “russos distintos”, moça muito elegante da cidade provinciana de Minsk, ainda jovem e apenas levemente enferma – só três meses lhe haviam sido impostos –, desceu certo dia à vila para comprar alguma coisa na loja francesa de blusas. Ali teve um atrito tão violento com a modista que, ao regressar possuída da mais viva excitação, teve uma forte hemoptise e, tendo chegado a esse ponto, era agora incurável. Mandaram vir o marido e informaram-no de que ela estava condenada a permanecer para sempre ali em cima.
Este é um exemplo do estado de espírito que se alastrava. Muito a contragosto citaremos outros casos. Um ou outro leitor talvez se lembre ainda de certo colegial, ou ex-colegial, que usava óculos de aros redondos e comia à mesa da Srª. Salomon, aquele rapaz macilento que tinha o hábito de cortar toda a comida em pedaços, a ponto de obter uma espécie de picadinho, que então engolia vorazmente, com os cotovelos apoiados na mesa, interrompendo-se apenas para
passar de vez em quando o lenço por trás das lentes espessas. Assim fizera durante todo o tempo, continuando a ser um colegial, ou um ex-colegial, sempre abarrotando-se de comida e enxugando os olhos, sem dar motivo para se prestar à sua pessoa uma atenção mais do que passageira. Um belo dia, porém, durante o café da manhã, teve, inopinadamente, sem mais nem menos, um ataque de cólera que causou escândalo geral e agitou o ambiente da sala de refeições. Ouviu-se um barulho que partia do lugar onde se achava o rapaz. E ali estava ele sentado, lívido, a gritar, dirigindo-se à anã que se encontrava de pé a seu lado. – É mentira sua! – gritou em voz esganiçada. – O chá está frio! O chá que me trouxe está frio como gelo. Não o quero! Prove-o você mesma antes de mentir. Então vai ver que é uma água morna e já usada, intragável para gente que se preze. Como se pode atrever a servir-me um chá gelado assim, como pode ter a ousadia de me oferecer essa porcaria morna na esperança de que eu beba?! Eu não! Não tomarei isso! – vociferou e meteu-se a esmurrar a mesa com ambos os punhos, de modo que a baixela tinia e dançava. – Eu quero é chá quente! Quero chá fervendo. Tenho direito a isso perante Deus e os homens! Não aceito isto. Faço questão que me sirvam chá quentíssimo! Antes morrer imediatamente do que tomar um só gole de... Maldita aleijada! – uivou de repente, abandonando, por assim dizer, de golpe, os últimos restos de controle e avançando com arrebatamento até os derradeiros limites da raiva. Ameaçou Emerentia com os punhos cerrados e mostrou-lhe literalmente os dentes cobertos de espuma. Prosseguiu dando murros na mesa, batendo o pé no chão e urrando aqueles “Eu quero” ou “Eu não quero”, enquanto na sala se repetia o espetáculo de sempre. Uma simpatia veemente, de alta intensidade, estava sendo dedicada ao colegial raivoso. Alguns pensionistas acabavam de se levantar de um pulo. Enquanto contemplavam o rapaz, também eles tinham os punhos cerrados, os dentes rilhando e os olhos chamejantes.
Outros permaneciam sentados, pálidos, com os olhos baixos, sacudidos de tremor. E esse estado persistia ainda, quando o colegial, completamente exausto, havia muito se achava diante de uma xícara de chá novo, sem tocar nela.
Que era isso?
Um homem entrou na comunidade do Berghof, um trintão, antigo comerciante, febril desde muito tempo e que passava os anos indo de sanatório em sanatório. Era inimigo dos judeus, anti-semita por princípio e por esporte; era-o com um fanatismo soberbo, e essa atitude negativa constituía todo o seu orgulho e o conteúdo da sua vida. Tinha sido comerciante; já não o era, não era nada no mundo a não ser inimigo dos judeus. Estava gravemente enfermo; sofria de penosos ataques de tosse; às vezes dava a impressão de espirrar pelos pulmões, um só espirro agudo, breve, sinistro. Mas não era judeu, e precisamente isso é que nele havia de positivo.
Chamava-se Wiedemann, tinha um nome cristão e não um nome impuro. Era assinante de uma revista intitulada A Tocha Ariana, e dizia coisas como as seguintes:
– Hospedei-me no Sanatório X., em B... Estou a ponto de me instalar no alpendre de repouso. Quem é que vejo na espreguiçadeira à minha esquerda? O Sr. Hirsch! E quem está deitado à direita? O Sr. Wolf! Claro que parti imediatamente... – E assim por diante.
“Logo você!”, pensou Hans Castorp, cheio de aversão, ao ouvir isso.
Wiedemann tinha um característico olhar rápido e insidioso. Literalmente, era como se andasse com uma borla suspensa diante do nariz, em que cravasse os olhos com malícia, sem nada enxergar atrás dela. A idéia fixa, absurda, que o acossava, convertera-se numa desconfiança pruriente, numa constante mania de perseguição, que o impelia a catar qualquer impureza oculta ou disfarçada que porventura existisse a seu redor, e a expô-la ao desprezo público. Fosse onde fosse, remoqueava, suspeitava, detratava. Em suma, o que lhe absorvia os dias era a tarefa de levar ao pelourinho todas as criaturas vivas que não tivessem aquela qualidade única que ele possuía.
As circunstâncias internas que estamos empenhados em descrever agravaram extraordinariamente a birra desse homem, e como fosse inevitável que topasse também aqui em cima com criaturas que padecessem do defeito de que ele, Wiedemann, estava livre, essas
circunstâncias contribuíram para provocar uma cena lamentável que Hans Castorp não pôde deixar de presenciar, e que nos oferece mais um exemplo daquilo que estamos explanando.
É que existia por ali um outro homem. Não havia nada que desmascarar nele. O caso era claro. O homem chama-se Sonnenschein, e como não se pudesse imaginar nome mais imundo, a pessoa de Sonnenschein formava, desde o primeiro dia, a borla suspensa diante do nariz de Wiedemann, e que este olhava de esguelha, com olhares rápidos e maliciosos; a borla em que batia com a mão, menos para afastá-la do que para fazê-la balouçar a fim de se irritar ainda mais com ela.
Sonnenschein tinha sido comerciante, tal qual o outro. Também ele estava gravemente enfermo e distinguia-se por uma suscetibilidade doentia. Era homem amável, nada estúpido, de índole bem-humorada. Mas odiava Wiedemann, devido àquelas indiretas e batidas na borla; odiava-o cegamente. E certa tarde, todo mundo acudiu correndo ao vestíbulo onde Wiedemann e Sonnenschein se engalfinhavam de modo desregrado e bestial.
Era um espetáculo medonho, deplorável. Os dois atracavam-se como meninos, mas com o desespero de homens adultos que chegaram até esse ponto. Arranhavam-se a cara; agarravam-se pela garganta e pelo nariz, enquanto se golpeavam mutuamente; cingiam-se com os braços; revolviam-se pelo chão, com uma seriedade pavorosa, radical; cuspiam, davam pontapés, puxões e socos, espumando de raiva. O pessoal da “administração”, que acorreu às pressas, teve muito trabalho em separar os contendores enlaçados e ferrenhos. Wiedemann, babando e deitando sangue, com o rosto atoleimado de tanta cólera, apresentava o fenômeno dos cabelos eriçados.
Hans Castorp nunca vira tal coisa e pensava que aquilo não acontecesse em realidade. O Sr.
Wiedemann, cujos cabelos conservavam-se eriçados, abandonou o recinto precipitadamente, enquanto o Sr. Sonnenschein, com um dos olhos desaparecido sob uma mancha azul, e com uma lacuna sangrenta na coroa de cabelos pretos que lhe rodeava a calva, era conduzido ao escritório, onde se sentou e chorou amargamente com o rosto enterrado entre as mãos.
Foi o que se deu entre Wiedemann e Sonnenschein. Todos os que haviam assistido a essa cena continuaram trêmulos durante horas a fio. Em confronto com tal miséria, é relativamente agradável falar de um autêntico ajuste de honra, que se desenrolou nesse mesmo período e merece essa qualificação até as raias do ridículo, por causa da solenidade formal com que foi tratado. Hans Castorp não presenciou as diferentes fases do caso, mas informou-se sobre seu curso complicado e dramático por meio de documentos, declarações e termos referentes à questão, cujas cópias eram difundidas no Sanatório Berghof e fora dele, não só em Davos, no cantão e no país, mas também no estrangeiro, inclusive na América, e remetidas mesmo a pessoas a quem certamente essa história não despertaria o menor interesse.
Era um assunto polaco, uma querela de honra, originada num grupo de poloneses que recentemente se reunira no Berghof. Era uma verdadeira coloniazinha que ocupava a mesa dos
“russos distintos”. (Hans Castorp – seja dito de passagem – já não tinha o seu lugar, ali, mas passara, no decorrer do tempo, pelas mesas da Kleefeld e da Salomon, indo parar na da Srta.
Levi.) Aquela roda era de tal modo elegante, cavalheiresca e polida, que o observador só podia arregalar os olhos e preparar-se intimamente para toda sorte de incidentes. Havia lá um casal, bem como uma senhorita que mantinha relações amigáveis com um dos cavalheiros. O resto do grupo era formado exclusivamente por cavalheiros. Chamavam-se Von Zutawski, Cieszynski, Von Rosinski, Michael Lodygowski, Leo von Asarapetian, etc. Ora, aconteceu que no restaurante Berghof um certo Japoll, ao beber champanha em companhia de dois outros cavalheiros, fizera com respeito à esposa do Sr. von Zutawski e à Srta. Krylow, amiga íntima do Sr. Lodygowski, considerações que não é possível repetir. Disso resultaram as providências, os atos e as formalidades que constituíam o conteúdo das atas distribuídas e remetidas a todo mundo. Hans Castorp lia o seguinte:
“Declaração traduzida do original polonês: A 27 de março de 19..., o Sr. Stanislav von Zutawski dirigiu-se aos senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, solicitando-lhes
que fossem em seu nome ter com o Sr. Kasimir Japoll, para pedir-lhe, em conformidade com o código de honra, satisfação pela grave ofensa e difamação que o Sr. Kasimir Japoll infligiu à Srª.
Jadwiga von Zutawski, sua esposa, por ocasião de uma conversa com os senhores Janusz Teofil Lenart e Leo von Asarapetian.
“Quando o Sr. von Zutawski há poucos dias teve por via indireta conhecimento da referida conversa, ocorrida em fins de novembro do ano passado, fez imediatamente o necessário para obter a mais absoluta certeza quanto aos fatos e ao caráter da ofensa perpetrada. No dia de ontem, a 27 de março de 19..., a difamação e a ofensa foram confirmadas pela boca do Sr. Leo von Asarapetian, testemunha auricular da conversa no decorrer da qual foram pronunciadas as palavras e insinuações ofensivas. Em virtude disso, o Sr. von Zutawski viu-se induzido a dirigir-se, sem perda de tempo, aos abaixo-assinados, a fim de confiar-lhes o mandato para instaurar um processo contra o Sr. Kasimir Japoll perante um tribunal de honra.
“Os abaixo-assinados fazem a seguinte declaração:
“1.° – Baseando-se no termo lavrado à instância de uma das partes no dia 9 de abril de 19..., redigido em Lemberg pelos Srs. Zdzistaw Zygulski e Tadeusz Kadyi, na demanda do Sr.
Ladislaw Goduleczni contra o Sr. Kasimir Japoll, atendo-se, outrossim, à declaração do Tribunal de Honra, pronunciada a 18 de junho de 19..., em Lemberg, no mesmo caso, verificam que ambos esses documentos acham-se em completo acordo quanto ao fato de que o Sr. Kasimir Japoll, em virtude das suas reiteradas faltas às exigências da honra, não pode ser considerado cavalheiro.
“2.° – Os abaixo-assinados tiram as últimas conseqüências do acima relatado, deduzindo ser absolutamente impossível julgar o Sr. Kasimir Japoll capaz de dar uma satisfação de qualquer espécie.
“3.° – No que se refere às suas próprias pessoas, os abaixo-assinados são de parecer que é inadmissível instaurar perante um tribunal de honra um processo contra um homem que se colocou fora do terreno da honra, e intervir num assunto dessa espécie.
“Em face dessa situação, os abaixo-assinados chamam a atenção do Sr. Stanislaw von Zutawski para o fato de ser inútil defender os seus direitos contra o Sr. Kasimir Japoll mediante um processo de honra e aconselham-no a recorrer à justiça criminal, a fim de evitar futuros prejuízos que lhe possam ser causados por parte de uma personalidade tão incapaz de dar a devida satisfação como o é o Sr. Kasimir Japoll. – Datado e assinado: Dr. Antoni Cieszynski, Stefan von Rosinski.”
Além disso, Hans Castorp teve oportunidade de ler o seguinte:
“Ata das testemunhas do incidente havido entre os senhores Stanislaw von Zutawski e Michael Lodygowski, de um lado, e os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil Lenart, do outro, no bar do cassino de D., a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde.
“O Sr. Stanislaw von Zutawski, depois de refletir maduramente sobre as declarações feitas pelos seus representantes, os senhores Dr. Antoni Cieszynski e Stefan von Rosinski, com referência ao caso do Sr. Kasimir Japoll, chegou à convicção de que a recomendada denúncia criminal contra o Sr. Kasimir Japoll não lhe poderia dar plena satisfação pela grave ofensa e difamação de sua esposa Jadwiga,
“1.° – considerando que há justas razões para temer que o Sr. Kasimir Japoll no momento preciso deixe de comparecer perante o tribunal, e que a sua perseguição ulterior se possa tornar não somente difícil, senão até impossível, dada a sua nacionalidade austríaca, e
“2.° – considerando que uma condenação judicial do Sr. Kasimir Japoll não poderia expiar a ofensa pela qual este senhor procurou aviltar caluniosamente o nome e a estirpe do Sr.
Stanislaw von Zutawski e de sua esposa Jadwiga;
“em vista disso, o Sr. Stanislaw von Zutawski escolheu o caminho mais breve, que, segundo a sua convicção, era também o mais radical e, devido às circunstâncias, o mais oportuno,
especialmente após ter recebido, por via indireta, a informação de que o Sr. Kasimir Japoll tencionava partir desta cidade no dia seguinte.
“Assim sendo, encaminhou:se a 2 de abril de 19..., entre as 7,30 e as 7,45 da tarde, ao American Bar do cassino daqui, acompanhado de sua esposa Jadwiga e dos senhores Michael Lodygowski e Ignaz von Mellin. Ali encontrou o Sr. Kasimir Japoll, que consumia bebidas alcoólicas, em companhia do Sr. Janusz Teofil Lenart e de duas moças desconhecidas, e esbofeteou-o diversas vezes.
“Imediatamente depois, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Kasimir Japoll, acrescentando que isso era a punição das graves ofensas infligidas à Srta. Krylow e a ele mesmo.
“A seguir, o Sr. Michael Lodygowski esbofeteou o Sr. Janusz Teofil Lenart, em desforra das inqualificáveis injúrias que este senhor assacara contra o casal Von Zutawski, depois do que,
“sem perda de um instante, também o Sr. Stanislaw Zutawski esbofeteou repetidas vezes o Sr. Janusz Teofil Lenart, por ter manchado caluniosamente a honra de sua esposa e da Srta.
Krylow.
“Os senhores Kasimir Japoll e Janusz Teofil mantiveram-se completamente passivos durante todo esse incidente.
“Datado e assinado: Michael Lodygowski, Ign. von Mellin.”
O estado de espírito em que Hans Castorp se achava a essa altura dos acontecimentos não lhe permitia rir-se dessa metralha de bofetadas oficiais, como o teria feito em outros tempos.
Estremeceu ao ler o relatório. O pundonor inatacável de uma das partes e a desonra vil, desprezível, da outra, que os documentos patenteavam aos olhos do leitor – tudo isso o emocionou intensamente pelo contraste pouco vivo e todavia impressionante. O mesmo ocorreu a todo mundo. Onde quer que se fosse, eram vistas pessoas que estudavam apaixonadamente e comentavam com os dentes a rilhar a querela de honra dos polacos. Uma réplica do Sr. Kasimir Japoll, difundida por meio de um folheto, esfriou algum tanto os espíritos. Dizia ele que, tempos atrás, em Lemberg, alguns almofadinhas presunçosos o haviam declarado incapaz de dar satisfação, e que Zutawski tivera perfeito conhecimento desse fato, de maneira que todas as suas medidas tomadas de inopino tinham sido pura comédia, visto ele saber de antemão que não teria necessidade de se bater em duelo. Por outro lado renunciara Zutawski a fazer queixa contra ele, Japoll, unicamente porque sua esposa Jadwiga, como ninguém ignorava, nem sequer o próprio Zutawski, o presenteara com uma verdadeira coleção de cornos, coisa que ele, Japoll, com a maior felicidade, poderia ter provado perante a justiça. Também com respeito à Srta. Krylow, uma citação em juízo teria sido pouco honrosa, dada a sua conduta habitual. De resto, existiam provas da incapacidade de dar satisfação somente no que se referia à pessoa do autor dessas linhas, o próprio Japoll, e não com respeito a seu interlocutor, Lenart; mas Zutawski servira-se de um pretexto para não correr perigo. Do papel que o Sr. Asarapetian desempenhara em toda essa história nem era bom falar. E quanto àquela cena no bar do cassino, convinha levar em conta que ele, Japoll, embora mordaz e propenso a pilhérias, era homem muitíssimo débil. Zutawski, por sua vez, chegara acompanhado dos seus amigos e da esposa, mulher de grande robustez, de modo que tinha a seu favor a superioridade física. Acrescia a isso que as duas senhoritas que se encontravam junto com ele, Japoll, e Lenart, eram criaturas muito alegres, sim, mas medrosas como galinhas. Para evitar um pugilato brutal e um escândalo público, ele mesmo rogara a Lenart, que fazia menção de reagir, que se mantivesse tranqüilo e tolerasse, por amor de Deus, o contato passageiro e inconvencional com os senhores Von Zutawski e Lodygowski, uma vez que esse contato não era doloroso e os vizinhos julgariam que se tratava de uma brincadeira de amigos.
Assim rezava o folheto de Japoll, que, naturalmente, poucas possibilidades tinha de salvar as aparências. Suas emendas não conseguiram anular senão superficialmente o belo contraste entre a honra e a covardia que as declarações da outra parte acabavam de estabelecer, tanto mais que ele, não dispondo dos meios de ampla divulgação do partido de Zutawski, se limitava a espalhar pelo público algumas cópias datilografadas da sua réplica. Aquelas atas que acabamos de transcrever eram, por sua vez, acessíveis a todo mundo, sendo remetidas até a pessoas completamente desinteressadas, como, por exemplo, Naphta e Settembrini, que também as tinham recebido. Hans Castorp viu-as nas suas mãos e notou com surpresa que até eles as liam com fisionomias contraídas, singularmente arrebatadas. A zombaria alegre que ele mesmo, devido à mentalidade que reinava no Berghof, era incapaz de forjar – esperara-a ao menos da parte do Sr. Settembrini. Mas aquela epidemia que Hans Castorp via grassar a seu redor contagiara também o espírito claro do maçom com uma força que lhe tirava a vontade de rir e o tornava facilmente acessível à fascinação provocante da história das bofetadas. Além disso, sentia-se ele, o lutador, deprimido em face do seu estado de saúde, que piorava lenta, porém inexoravelmente, apenas com melhoras passageiras e ilusórias. O humanista praguejava contra essa miséria, tinha vergonha e desdém de si próprio, e no entanto, já por essa época, não podia evitar de se acamar de vez em quando.
Naphta, o seu vizinho e adversário, tampouco ia melhor. Minando-lhe interiormente o organismo, ia em progresso a doença que havia sido a causa física – ou deve-se dizer o pretexto?