A Montanha Mágica
Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
Perguntou desde quando Hans Castorp estava tão familiarizado com aquele mundo longínquo, ao que o sobrinho replicou que devia esses conhecimentos ao repouso noturno que fazia na sacada, durante a primavera, o verão, o outono e o inverno.
– Como? Você fica de noite na sacada?
– Sim. E você fará a mesma coisa. Não há jeito de escapar a isso.
– Perfeitamente, compreendo – disse James Tienappel, complacente e um tanto intimidado. Seu irmão de criação continuou conversando sossegada e monotonamente. Sem chapéu, sem sobretudo, estava sentado junto dele, na frescura quase gelada da noite outonal. –
Você não se ressente do frio? – perguntou James, que tiritava sob a grossa fazenda do casacão.
Sua maneira de falar parecia ao mesmo tempo precipitada e hesitante, já que os seus dentes manifestavam a tendência de entrechocar-se. – Nós não sentimos o frio – respondeu Hans Castorp calma e laconicamente.
O cônsul não se cansava de olhá-lo de lado. Hans Castorp não procurou informar-se sobre os parentes e os conhecidos de casa. Recebeu, agradecendo impassivelmente, as lembranças que James lhe transmitiu, inclusive as de Joachim, que já se apresentara ao regimento e estava radiante de alegria e orgulho. Fê-lo sem pedir informações pormenorizadas a respeito das coisas da sua terra. James sentiu-se inquietado por um quê de natureza vaga, o qual não sabia se era irradiado pelo sobrinho ou se tinha a sua origem no seu próprio estado físico. Olhou em torno, sem distinguir muita coisa da paisagem alpina. Aspirou profundamente o ar, soltou-o e declarou que o achava magnífico. – Certamente – respondeu o outro. Não era sem motivo que esse ar adquirira tanta fama. Possuía virtudes poderosas. Acelerava a combustão geral, e no entanto permitia ao corpo assimilar as proteínas. Curava doenças que todos os homens traziam latentes em si, mas antes costumava dar a elas um vigoroso estímulo e causar, por meio de um impulso geral proporcionado ao organismo, a sua irrupção triunfal.
– Perdão! Por que triunfal?
– Sim. Você nunca notou que a irrupção de uma doença representa uma espécie de triunfo e constitui de certo modo uma festa do corpo?
– Perfeitamente, compreendo – apressou-se o tio a concordar, sem que pudesse conter o tremor da mandíbula inferior. A seguir anunciou que permaneceria oito dias, isto é, uma semana, ou melhor uns sete ou apenas seis dias. Repetiu que o aspecto de Hans Castorp lhe parecia extraordinariamente bom; o sobrinho estava muito mais robusto, devido a esse tratamento, cuja duração se estendera além de toda expectativa. Assim, era de supor que Hans Castorp regressaria junto com ele.
– Ora, ora, que precipitação é essa? – disse o jovem. O tio James falava à maneira lá de baixo. Bastaria que estudasse um pouco o “nosso” ambiente e se aclimatasse a ele, para que mudasse de idéia. Tudo dependia da cura definitiva. Só o definitivo tinha importância, e recentemente o Dr. Behrens lhe pespegara mais seis meses. Ao ouvir isso, o tio tratou-o por
“meu filho” e perguntou se estava louco. – Está completamente doido?! – exclamou. Afinal de contas, essas férias já duravam quinze meses, e agora se falava de mais meio ano! Deus do céu, a gente não tinha tanto tempo! Mas Hans Castorp deu uma risada serena e abrupta, com a cabeça erguida em direção às estrelas. Pois sim, o tempo! Nesse ponto, justamente, com referência ao tempo humano, James teria de retificar, antes de mais nada, os conceitos que trouxera consigo da planície, antes de abrir a boca aqui em cima. – No seu interesse falarei seriamente com o Dr.
Behrens, amanhã mesmo – prometeu Tienappel.
– Não deixe de falar – disse Hans Castorp. – Você gostará dele. É um tipo interessante, ao mesmo tempo enérgico e melancólico. – A seguir apontou para as luzes do Sanatório Schatzalp e se referiu, de passagem, aos cadáveres que eram transportados pela pista do trenó.
Jantaram juntos no restaurante do Berghof, depois de Hans Castorp ter levado o visitante ao quarto de Joachim, para dar-lhe uma oportunidade de se lavar um pouco. A peça fora fumigada com H CO – contou Hans Castorp – Como se se tratasse, não de uma partida “em 2
falso”, mas de uma de caráter bem diferente, quer dizer, de um exitus em vez de um exodus. E
quando o tio pediu uma explicação do sentido dessas palavras, disse o sobrinho:
– É a gíria local; nossa maneira de falar... Joachim desertou. Fugiu para as fileiras do exército. Isto também existe. Mas, vamos, ligeiro, para que a gente ainda arranje alguma comida quente! – Sentaram-se um à frente do outro no restaurante agradavelmente aquecido, sobre o alto estrado. A anã atendeu-os sem demora, e James encomendou uma garrafa de borgonha, que foi trazida deitada numa cestinha. Chocaram os copos e deixaram-se penetrar pelo doce ardor do vinho. O sobrinho falou da vida que se levava ali em cima, no ciclo das estações; mencionou certas personagens da sala de refeições; passou para o pneumotórax, cujo processo explicou, citando o caso do jovial Sr. Ferge e alongando-se sobre o fenômeno horripilante do choque pleural, sem omitir as três síncopes de cor diferente, que o russo pretendia ter sofrido, bem como a alucinação do olfato, que desempenhava um papel importante no momento do choque, e da gargalhada que soltara ao desmaiar. Hans Castorp conduzia toda a conversa. James comeu e bebeu muito, segundo o seu costume, com um apetite que a mudança de ar e a viagem haviam estimulado. Mesmo assim interrompia de vez em quando o processo de alimentação e permanecia com a boca cheia, sem pensar em mastigar; mantendo a faca e o garfo em ângulo obtuso sobre o prato, cravava os olhos em Hans Castorp, aparentemente sem se dar conta disso.
De resto, o sobrinho tampouco se melindrava com esse procedimento do tio. As veias inchadas ressaltavam nas fontes do Cônsul Tienappel, que estavam cobertas de ralos cabelos louros.
Não trataram dos acontecimentos da pátria, nem de coisas familiares ou pessoais, nem da cidade, nem dos negócios, nem finalmente da firma Tunder & Wilms, Estaleiros, Fábrica de Máquinas e Caldeiras, que prosseguia aguardando a chegada do jovem Hans Castorp, o que, porém, estava tão longe de ser a sua única ocupação, que caberia perguntar se de fato continuava esperando. Decerto, James Tienappel já aludira a todos esses assuntos, enquanto o carro os levava ao sanatório, e mais tarde tornara a fazê-lo, mas eles haviam caído ao chão e jaziam mortos, rejeitados pela indiferença tranqüila, decidida e perfeitamente natural de Hans Castorp, por algo que o tornava, em certo sentido, intangível e inatacável e fazia pensar na sua insensibilidade quanto ao frio da noite outonal ou naquelas suas palavras: “Nós não sentimos o frio”. Talvez fosse por isso que o tio o olhava de vez em quando, fixamente. A conversa focalizou também a Superiora, os médicos, as conferências do Dr. Krokowski. James poderia assistir a uma delas, se a sua estadia durasse oito dias. Quem dissera ao sobrinho que o tio tinha a intenção de ouvir a palestra do médico? Ninguém. Mas dava-o por garantido, presumia-o com uma segurança tão plácida, que o simples pensamento de não presenciar esse espetáculo devia parecer absurdo ao outro. Daí sucedeu que o tio se apressou a dizer “Perfeitamente, compreendo”, como para prevenir a suspeita de ter projetado uma coisa impossível. Era precisamente essa a força cujo efeito indistinto, porém imperioso, fazia com que o Sr. Tienappel, sem querer, fitasse o sobrinho – agora já com a boca aberta, pois obstruíra-se-lhe o canal respiratório do nariz, ainda que o cônsul não tivesse gripado. Ouviu como o parente falava da enfermidade que ali em cima formava o interesse profissional comum a todos, e da predisposição que certas pessoas tinham para contrai-la. Foi posto a par do caso do próprio Hans Castorp, caso sem gravidade, mas de cura lenta; da atração que os bacilos exerciam sobre o tecido celular das ramificações dos brônquios e dos alvéolos pulmonares; da formação de tubérculos; da secreção de venenos solúveis e embriagadores; da decomposição das células e do processo de caseificação, a cujo respeito era interessante saber se o mal se deteria em virtude de uma petrificação calcária e de uma cicatrização do tecido conjuntivo, curando-se dessa forma, ou se, pelo contrário, estenderia a sua área, criando cavernas cada vez maiores e corroendo o órgão. James Tienappel ficou sabendo da forma loucamente acelerada, “galopante”, desse processo, que em poucos meses e mesmo em algumas sem anas levava ao exitus; informou-se sobre a pneumotomia, técnica magistralmente praticada pelo conselheiro, e sobre a ressecção pulmonar, que fariam no dia seguinte, ou em breve, numa doente recém-chegada em estado gravíssimo, uma escocesa outrora muito formosa, mas agora atacada de gangraena pulmonum, a necrose dos pulmões, de modo que
nela operava uma peste negro-esverdeada, que a obrigava a respirar durante todo o dia uma solução vaporizada de ácido carbólico, para que não perdesse o juízo de tanto nojo de si própria...
E de súbito aconteceu ao cônsul, inopinadamente e para a sua maior confusão, desatar a rir.
Explodiu numa gargalhada, procurou imediatamente conter-se, dominou-se, espantado, tossiu e empenhou-se em disfarçar, por todos os meios, a gafe inexplicável. Verificou, porém, entre tranqüilizado e novamente inquieto, que Hans Castorp absolutamente não prestara atenção a esse incidente que não lhe podia ter escapado; bem ao contrário, o sobrinho passou por cima dele com uma displicência que não era devida ao tato, à consideração ou à cortesia, senão à mera indiferença e impassibilidade, e manifestava uma tolerância de dimensões exorbitantes, como se, de havia muito, fosse incapaz de estranhar ocorrências dessa espécie. No entanto, o cônsul, seja porque desejava encobrir posteriormente com um manto de siso e de lógica o seu acesso de hilaridade, seja por qualquer outro motivo, enveredou de repente numa conversa “só para homens” e, com as veias frontais túrgidas, meteu-se a falar de uma chansonnette, cantora de cabaré, mulher para lá de boa, que a essa época se exibia no bairro de Sankt Pauli e com os seus encantos carregados de paixão virava a cabeça ao mundo masculino da república hamburguesa. No decorrer dessa narrativa, a língua do tio James mostrou-se um tanto embargada, mas não havia necessidade de se preocupar com isso uma vez que a complacência inabalável do seu interlocutor evidentemente incluía esse fenômeno. Contudo, notou o tio, pouco a pouco, a imensa fadiga da viagem que o dominava, a tal ponto que já por volta das dez e meia optou pelo fim do encontro.
Intimamente sentiu pouca satisfação quando no vestíbulo toparam com o Dr. Krokowski, que estava lendo um jornal junto à porta de um dos salões, e ao qual James Tienappel foi apresentado pelo sobrinho. Como resposta às palavras enérgicas e alegres do assistente, o cônsul foi incapaz de proferir mais do que “Perfeitamente, compreendo”. Deu-se por feliz quando o sobrinho, anunciando que iria buscá-lo às oito para o café da manhã, passou pelo caminho da sacada, do quarto desinfetado de Joachim para o seu próprio. Então o cônsul pôde finalmente deixar-se cair sobre a cama do desertor. Tinha na boca o cigarro que estava habituado a fumar antes de adormecer, e por um triz não provocou um incêndio, porque duas vezes começou a cochilar com o toco aceso entre os lábios.
James Tienappel, que Hans Castorp chamava “tio James” ou simplesmente “James”, era um homem de pernas longas, à beira dos quarenta, que trajava ternos de tecidos ingleses e roupa de baixo de nívea alvura; tinha cabelos de um amarelo canário, olhos azuis, pouco distantes entre si, um bigodinho de palha, semi-aparado, e mãos cuidadosamente tratadas. Esposo e pai havia alguns anos, nem por isso se vira forçado a abandonar a espaçosa vivenda do velho cônsul, à Avenida de Harvestehude; desposara uma moça da sua classe social, que era tão civilizada e distinta quanto ele e falava da mesma maneira suave, acelerada, correta e polida. Lá embaixo, era considerado um homem de negócios muito enérgico, circunspecto e – apesar de toda a sua elegância – friamente realista. Mas, num ambiente onde reinavam costumes diferentes, por ocasião de viagens, pelo sul da Alemanha, por exemplo, assumia certa atitude de adaptação precipitada, uma pressurosa e cortês tendência para renegar a si mesmo, que absolutamente não revelava uma falta de fé na própria cultura, senão, ao contrário, a consciência da limitação que a fazia forte, bem como o desejo de corrigir o seu particularismo aristocrático e de não deixar perceber a menor surpresa diante de formas de existência que lhe pareciam incríveis. “Claro, perfeitamente, compreendo”, apressava-se a dizer, para que ninguém pensasse que ele, embora distinto, era um espírito estreito. Chegara a Davos com uma missão precisa e concreta, com o encargo e na intenção de intervir com firmeza na situação do parente pachorrento, de “arrancá-lo”, segundo ele mesmo dizia, e de devolvê-lo ao lar. E, todavia, não deixara de perceber que estava operando em terreno estranho. Desde o primeiro momento sentira-se acolhido por um mundo singular, um ambiente moral cuja segurança de si próprio não era menos forte do que a sua, e até a ultrapassava. Aconteceu assim que a sua energia de homem de negócios entrou imediatamente num conflito com a sua boa educação, e mesmo num conflito dos mais graves, uma vez que a confiança altiva desse ambiente novo se manifestava deveras esmagadora.
Era precisamente isso o que previra Hans Castorp, quando, no seu íntimo, respondera ao cônsul com um sereno “Como quiser”. Mas não há motivo para acreditar que o sobrinho conscientemente tirasse partido, contra o seu tio, da força de caráter do mundo ambiente. Hans Castorp já estava por demais identificado com esse meio para que pudesse proceder assim. Não era ele quem se valia dessa força; pelo contrário, tudo ocorria com a simplicidade mais natural, a partir do momento em que o primeiro pressentimento da inutilidade da sua empresa vagamente roçou o espírito do cônsul, até o clímax e o desfecho, que Hans Castorp, apesar de tudo, não pôde deixar de acompanhar com um sorriso melancólico.
Na primeira manhã, depois do café, durante o qual o veterano apresentou o visitante à roda dos comensais, Tienappel travou conhecimento com o Dr. Behrens, que, comprido e corado, remando com as mãos, atravessava a sala em companhia do assistente pálido, vestido de preto, e passava de mesa em. mesa com o seu retórico “Dormiu bem?” de todos os dias. E o cônsul ficou sabendo, da parte do conselheiro, que não somente era uma excelente idéia fazer companhia ao neveu solitário, mas que isso parecia recomendável também no seu próprio interesse, porque, evident e m e n t e , estava muito anêmico. Anêmico, ele, Tienappel? – E
bastante! – retrucou Behrens, enquanto, com o indicador, abaixava uma das pálpebras inferiores do cônsul. – No mais alto grau – acrescentou. – O senhor faria muito bem se durante algumas semanas se instalasse comodamente na sacada, estendendo-se na espreguiçadeira e imitando em todos os pontos o exemplo de seu sobrinho. No seu estado, o procedimento mais inteligente é portar-se como se estivesse atacado de uma leve tuberculosis pulmonum, que, aliás, existe latente em todas as pessoas.
– Perfeitamente, compreendo – apressou-se o cônsul a responder. Com os olhos acompanhando por um instante a figura do médico, com a nuca saliente, que remava ao se afastar, deixou-se ficar com a boca semiaberta, numa atitude polida e pressurosa, ao passo que Hans Castorp, a seu lado, se mantinha perfeitamente calmo e impassível. Depois começaram o passeio em direção ao banco junto do curso de água, que era o que o momento exigia. A seguir, James Tienappel fez a sua primeira hora de repouso, instruído por Hans Castorp, que, além do plaid que o tio trouxera consigo, lhe emprestou ainda um dos seus cobertores de lã de camelo –
por causa do bom tempo outonal bastava-lhe sobejamente um só cobertor – e lhe ensinou com todo o cuidado, manobra por manobra, a arte tradicional de se enrolar. Mesmo depois de o cônsul já se achar agasalhado e convertido numa múmia lisa e cilíndrica, o sobrinho desmanchou tudo e mandou o tio repetir o processo inteiro, corrigindo-o apenas em caso de necessidade.
Mostrou-lhe ainda como o guarda-sol era fixado na cadeira e orientado em relação ao sol.
O cônsul pôs-se a gracejar. O espírito da planície era ainda forte nele e fê-lo zombar daquilo que aprendia, assim como já zombara da extensão preestabelecida do passeio que haviam dado depois do café. Mas, ao ver o sorriso plácido e incompreensivo com que o sobrinho acolhia as suas ironias, e no qual se espelhava toda a confiança serena que inspirava a tradição local, assustou-se, temeu pela sua energia de negociante e resolveu solicitar a entrevista decisiva com o conselheiro, sem demora, o mais rápido possível, nessa mesma tarde, quando ainda pudesse conduzi-la com as forças e idéias lá de baixo. Pois sentia que estas iam diminuindo, e que o espírito do lugar, aliado à sua boa educação, constituía adversário perigoso.
Notou além disso que o médico lhe dera um conselho totalmente supérfluo, ao sugerir-lhe que, em virtude da sua anemia, se submetesse ao regime dos enfermos; evidenciou-se que isso vinha por si mesmo, que, aparentemente, não se podia imaginar nenhuma outra alternativa, e de antemão era impossível para um homem bem-educado como ele discernir até que ponto a tranqüilidade e a imperturbável segurança de Hans Castorp criavam essa aparência, e até onde essa impossibilidade existia real e irrestritamente. O fato de o segundo café da manhã sumamente abundante seguir-se ao primeiro repouso pareceu-lhe apenas natural, e dessa refeição resultou, de um modo convincente, o passeio até Davos-Platz, depois do qual Hans Castorp tornou a embrulhar o tio. Embrulhou-o – essa é a palavra adequada. E ao sol de outono, numa cadeira cujo conforto era indiscutível e mesmo digno dos mais altos elogios, deixou-o estendido, assim
como ele próprio ficava, até que o ribombante gongo os convidou a tomar, em companhia dos demais pensionistas, o almoço, que estava excelente, saborosíssimo, e era de tal maneira farto, que o subseqüente repouso geral se afigurava, não como um mero hábito exterior, senão como uma necessidade interior, à qual todos se submetiam por convicção pessoal. Isso continuou até o estupendo jantar e a reunião noturna no salão, em torno dos instrumentos ópticos. Nada havia que objetar contra uma ordem do dia que se impunha com tão branda naturalidade; ela não teria oferecido nenhuma oportunidade para objeções, mesmo que as capacidades críticas do cônsul não se encontrassem minguadas em virtude do seu estado, que ele não queria qualificar precisamente de mal-estar, mas que representava uma combinação desagradável de fadiga e excitação, acrescida de calor e de frio.
A fim de marcar uma hora para a ansiosamente almejada entrevista com o conselheiro Behrens, James Tienappel seguira a via hierárquica. Hans Castorp dirigira o requerimento ao massagista, que o encaminhara à Superiora, cuja pessoa singular o Cônsul Tienappel chegou a conhecer nessa ocasião. Surgiu ela na sua sacada, onde o achou deitado, e suas maneiras estranhas sujeitaram a dura prova a boa educação do cônsul, estendido sem defesa no invólucro cilíndrico dos cobertores. Que o prezado rapaz – assim se expressou a enfermeira-chefe – tivesse paciência durante alguns dias, pois o conselheiro andava atarefado com intervenções cirúrgicas e exames gerais. A humanidade sofredora tinha preferência, em conformidade com a ética cristã, e como o cônsul alegasse estar bem de saúde, devia acostumar-se ao fato de não ser ali em cima o número 1
e de ter de esperar na fila até chegar a sua vez. Seria diferente se porventura quisesse pedir um exame médico, o que a ela, Adriática, não causaria espécie. Bastava olhar-lhe os olhos, assim de perto, para ver que estavam turvos e irrequietos. A julgar pelo seu aspecto, absolutamente não dava a impressão de estar com o organismo em perfeita ordem; que a compreendesse bem: não lhe parecia lá muito limpo... Tratava-se de saber – terminou a Superiora – se o cônsul desejava uma consulta ou uma entrevista de caráter particular.
– Uma entrevista particular, naturalmente – assegurou o cônsul, do seu leito.
Nesse caso devia esperar até que fosse chamado. O conselheiro não dispunha de muito tempo para entrevistas particulares.
Numa palavra, tudo se passou de modo bem diverso daquele que James imaginara. A conversa com a Superiora abalara-lhe consideravelmente o equilíbrio. Por demais civilizado para dirigir-se com desabrida franqueza ao sobrinho cuja calma impassível demonstrava o pleno acordo em que Hans Castorp se achava com os fenômenos ali de cima, e para dizer-lhe quão horrorosa lhe parecia aquela megera, limitou-se a sondar cautelosamente o terreno. Fez notar que a Superiora era, sem dúvida, uma senhora muito original, o que o sobrinho admitiu em parte, após ter lançado ao ar um olhar vagamente interrogador. Perguntou por sua vez ao tio se a Mylendonk lhe vendera um termômetro. – Não! A mim? Ela costuma fazer isso? – tornou o tio...
Mas a fisionomia do sobrinho demonstrava claramente – e isso era o pior – que ele não se teria admirado nem um pouquinho se o contrário tivesse acontecido. “Nós não sentimos o frio”, podia-se ler no rosto de Hans Castorp. O cônsul, porém, ressentia-se do frio, ressentia-se dele sem cessar, apesar de a cabeça lhe arder. Se a Superiora realmente lhe houvesse oferecido um termômetro – disse ele de si para si –, decerto o teria rejeitado; mas talvez tivesse feito mal, porquanto não convinha a um homem civilizado usar o termômetro de outra pessoa, como, por exemplo, o do sobrinho.
Assim decorreram alguns dias, uns quatro ou cinco. A vida do emissário avançava sobre trilhos – sobre os trilhos que se achavam preparados para ela, e dos quais parecia inimaginável apartar-se. O cônsul fez experiências, recebeu impressões – não nos queremos dar o trabalho de observa-lo nessa empresa. Um belo dia, no quarto de Hans Castorp, apanhou uma chapinha de vidro preto que, recostada num minúsculo cavalete lavrado, se achava na cômoda, junto com outros objetos pessoais com que o morador do asseado aposento comprazia-se em adorná-lo.
Mantendo-a contra a luz, verificou tratar-se de um negativo fotográfico. – Que é isso? –
perguntou o tio, enquanto o olhava... Havia motivo para perguntar assim. O retrato não tinha
cabeça; era o esqueleto de um torso humano, envolto numa névoa de carne um torso feminino, segundo se podia reconhecer. – Isso? É uma lembrança – disse Hans Castorp. Ao que o tio replicou: – Perdão! – Repôs o retrato no cavalete e afastou-se depressa. Isto é apenas um exemplo das experiências e das impressões por que James Tienappel passou nesses quatro ou cinco dias. Participou também de uma conferência do Dr. Krokowski, uma vez que era impossível não fazê-lo. E quanto à ambicionada entrevista particular com o Dr. Behrens, teve a satisfação de obtê-la no sexto dia. Marcaram-lhe uma hora, e depois do café da manhã desceu ao subsolo, decidido a dizer algumas palavras enérgicas a respeito de seu sobrinho e do tempo que este desperdiçava ali.
Quando voltou, perguntou numa voz suavizada:
– Onde já se viu isso?
No entanto, era evidente que Hans Castorp já ouvira coisa semelhante e que essa impressão tampouco o faria sentir frio. Assim o tio cortou a conversa, e às perguntas pouco curiosas do sobrinho limitou-se a responder: – Ah, nada! – A partir daquele momento, porém, manifestou um novo hábito: o de olhar obliquamente para cima, com o cenho franzido e os lábios em bico, para, logo depois, virar a cabeça num movimento brusco e fixar em direção oposta o olhar que acabamos de descrever... Seguira também a entrevista com Behrens um curso diferente daquele que o cônsul previra? Falara-se, no curso dela, não somente de Hans Castorp, mas também do próprio James Tienappel, a tal ponto que a conversa perdera o caráter de uma entrevista particular? A conduta do cônsul indicava isso. Mostrava-se ele altamente animado, tagarelando muito, rindo-se sem motivo, acotovelando o flanco do sobrinho e exclamando: –
Que tal, meu velho? – De vez em quando reaparecia aquele olhar primeiro numa e depois noutra direção. Mas seus olhos seguiam também rumos mais precisos, tanto à mesa como durante os passeios regulamentares e as reuniões noturnas.
A princípio, o cônsul não prestara maior atenção a uma certa Srª. Redisch, esposa de um industrial polonês, que tinha o seu lugar à mesa da Srª. Salomon, de momento ausente, e do colegial voraz, com os óculos redondos. E de fato não passava ela de uma das numerosas damas que povoavam os alpendres de repouso; era uma baixinha morena, cheia de corpo, já não muito jovem, ligeiramente grisalha, com uma pequena papada engraçadinha e olhos castanhos bastante vivos. Sob o ponto de vista da sua cultura, absolutamente não poderia comparar-se com a esposa do Cônsul Tienappel, lá embaixo, na planície. Mas, na noite de domingo, depois do jantar, o cônsul fizera, no vestíbulo, uma descoberta, graças a um vestido preto, muito decotado e enfeitado de lantejoulas, que a Srª. Redisch trajava: tinha ela seios, seios de mulher, muito comprimidos e de uma alvura mate, seios cuja linha de separação era visível até muito embaixo.
Essa descoberta abalara o homem maduro e refinado até o fundo da sua alma, entusiasmando-o como se fosse coisa inédita, insuspeitada e nunca vista. Procurou travar conhecimento com a Srª.
Redisch e conseguiu-o. Conversou demoradamente com ela, primeiro de pé e depois sentado.
Cantarolava quando ia recolher-se. No dia seguinte, a Srª. Redisch já não envergava o vestido preto com as lantejoulas, mas apareceu toda encoberta. O cônsul, porém, sabia o que sabia e permanecia fiel às suas impressões. Empenhava-se em encontrar-se com a senhora durante os passeios regulamentares, a fim de caminhar a seu lado, palestrando com ela de forma particularmente galante e insistente. À mesa bebia à sua saúde, o que ela retribuía com um sorriso que fazia brilhar as cápsulas de ouro que revestiam alguns dos seus dentes. Numa conversa com o sobrinho, o cônsul chegou a declarar que a Srª. Redisch era realmente uma “mulher divina”, depois do que tornou a cantarolar. Hans Castorp suportava tudo isso com serena indulgência, e sua fisionomia expressava que essas coisas lhe pareciam naturais. Mesmo assim não contribuíam para consolidar a autoridade do parente mais velho e condiziam mal com a missão do cônsul. A refeição durante a qual ele saudou a Srª. Redisch com o copo erguido – e isso por duas vezes, ao chegar o prato de peixe, e mais tarde, quando serviam o sorvete – era a mesma que o Conselheiro Behrens tomou à mesa de Hans Castorp e do visitante, uma vez que era seu costume comer sucessivamente em cada uma das sete mesas, onde lhe ficava reservado um talher numa das
pontas. Com as enormes manzorras juntas diante do prato, e com o bigodinho retorcido, o médico deixava-se ficar entre o Sr. Wehsal e o corcunda mexicano, com o qual conversava em espanhol – sabia todas as línguas, inclusive o húngaro e o turco. Com os olhos azuis, saltados e estriados de sangue, observou como o Cônsul Tienappel saudava a Srª. Redisch com a taça de bordeaux. Mais tarde, no decorrer da refeição, o conselheiro fez uma pequena preleção, animado por James, que, através de toda a extensão da mesa, lhe perguntou à queima-roupa o que se passava com o homem quando apodrecia. Pediu ao conselheiro, que estudara todas as coisas fisiológicas, cuja especialidade era o corpo, e que se podia intitular uma espécie de príncipe do corpo, que lhes informasse do que ocorria quando a carne se decompunha.
– Antes de tudo lhe estoura a barriga – explicou o conselheiro, fincando os cotovelos na mesa e inclinando-se para as mãos postas. – O senhor acha-se estendido sobre o seu leito de serragem e de estilhas, e os gases – não sabe? – começam a inchar-lhe o cadáver, a intumescê-lo poderosamente, assim como meninos malvados fazem com as rãs que enchem de ar. Aos poucos, o senhor se transforma num verdadeiro balão. Finalmente, a pele do seu ventre não suporta mais a tensão e rebenta. Pum! Com isso, o senhor sente grande alívio. Faz como Judas Iscariotes quando caiu do galho: todas as suas entranhas se derramam. Bem, e depois disso o senhor volta, em certo sentido, a ser apresentável. Se lhe concedessem uma licença poderia visitar a sua família sem causar o menor escândalo. É o que se chama deixar de feder. Quando a gente sai então ao ar livre, torna-se de novo um tipo decente, como aqueles cidadãos de Palermo que estão pendurados nos subterrâneos do convento dos capuchinhos, fora da Porta Nuova. Pendem ali sequinhos e elegantes e gozam de estima geral. O que importa é somente deixar de feder.
– Compreendo – disse o cônsul. – Muito obrigado. E no dia seguinte, pela manhã, tinha desaparecido.
Fora-se, partira com o primeiro trenzinho para a planície. Claro que deixara tudo em ordem. Quem poderia pensar o contrário? Liquidara a conta, pagara o preço de um exame médico, e clandestinamente, sem nada dizer ao sobrinho, aprontara as duas maletas.
Provavelmente o fizera à noite ou de madrugada. Quando Hans Castorp, na hora do café da manhã, entrou no quarto do tio, encontrou-o desocupado.
Com as mãos nos quadris, exclamou: – Ora essa! – Foi nesse instante que a sua fisionomia esboçou um sorriso melancólico. – Ah, sim! – disse, sacudindo a cabeça. Alguém acabava de fugir, precipitadamente, numa pressa silenciosa, como se precisasse aproveitar a resolução de um dado momento e tudo se tratasse de não perder a oportunidade. Atirara as suas coisas na maleta e sumira, sozinho, não acompanhado, sem ter cumprido a sua honrosa missão, dando-se por muitíssimo feliz por ter escapado são e salvo, esse homem de valor, o trânsfuga que desertava para a bandeira da planície, o tio James! Pois então, boa viagem!
Hans Castorp não deixou ninguém perceber que nada soubera da iminência da partida do parente visitante. Especialmente escondeu a sua surpresa ao porteiro coxo, que acompanhara o tio até a estação. Recebeu do lago de Constança um cartão-postal que o informava de que James, chamado por telegrama, se vira obrigado a regressar à planície por causa de negócios. Não quisera incomodar o sobrinho... Uma mentira formal! “Desejo que sua estadia continue agradável.” Era ironia? Nesse caso seria bastante forçada, julgou Hans Castorp, pois o tio decerto não pensara em gracejos e zombarias quando se lançara ao trem. Pelo contrário, verificara, pálido de terror, numa visão íntima, que, se agora voltasse à planície, depois de ter passado oito dias ali em cima, continuaria ainda durante um tempo considerável a achar redondamente errada, contrária à natureza e inconveniente, a vida de uma pessoa que, após o café da manhã, ao invés de sair para o passeio regulamentar e a seguir estender-se ao ar livre, embrulhada em cobertores segundo o ritual, se encaminhasse ao escritório. E essa percepção assustadora fora o motivo imediato da sua fuga.
Terminou assim a tentativa da planície de se reapossar do fugitivo Hans Castorp. O
jovem não se iludiu quanto à importância decisiva que o malogro completo, por ele previsto, tinha no que se referia às suas relações para com a gente lá de baixo. Significava isso, da parte da
planície, a renúncia definitiva, que ela aceitava dando de ombros, e para ele, a liberdade completa, em face da qual o seu coração aos poucos deixava de estremecer.
“Operationes spirituales”
Leo Naphta era natural de um lugarejo situado nas proximidades da fronteira entre a Galícia e a Volínia. Seu pai, do qual falava com respeito – sentindo evidentemente que já se distanciara bastante do mundo da sua origem para poder julgá-lo com benevolência – seu pai fora schochet, açougueiro ritual. Esse ofício era diferente – e quanto! – daquele que exercia o açougueiro cristão, um mero artífice e comerciante. O pai de Leo não era nem uma nem outra coisa. Era uma autoridade de caráter religioso. Examinado pelo rabino quanto à sua habilidade piedosa, autorizado por ele a abater, em conformidade com os preceitos do Talmude, o gado que a lei de Moisés considerava apto para esse fim, Elia Naphta, cujos olhos cheios de espiritualidade plácida haviam brilhado, segundo a descrição do filho, com um esplendor estelar, revelara ele próprio, em todo o seu ser, o cunho sacerdotal, uma solenidade que relembrava que a função de degolar animais coubera nos tempos antigos aos sacerdotes. Às vezes, Leo, ou Leib, como o chamavam na infância, tinha ocasião de ver o pai desempenhar-se das suas tarefas rituais, o que fazia no pátio, ajudado por um oficial enorme, um rapagão daquele tipo atlético que se encontra entre os judeus. Ao lado desse gigante, o frágil Elia, com a barba loura aparada em forma oval, parecia ainda mais delgado e mais franzino. E contra o animal atado e amordaçado, mas, não aturdido, o pai brandia a grande faca de schochet, abrindo-lhe um profundo talho à altura da vértebra cervical, enquanto o ajudante apanhava, em tigelas que se enchiam rapidamente, o sangue fumegante que brotava do corpo. O menino contemplava esse espetáculo com aquele olhar de criança, que muito além das aparências visíveis penetra até a sua essência, e que o filho de Elia, o dos olhos estelares, deve ter possuído em grau incomum. Sabia Leo que os açougueiros cristãos tinham a obrigação de atordoar os animais com um golpe de maceta ou de machado, antes de matá-los, e que essa prescrição lhes era imposta a fim de evitar ao gado um tratamento torturante e impiedoso. Seu pai, por sua vez, embora muito mais delicado e muito mais sábio do que aqueles lorpas, e ainda dotado de olhos estelares como nenhum deles, procedia conforme a lei, dando o golpe mortal à rês não aturdida e deixando-a derramar o seu sangue até cair exausta. O menino Leib percebia instintivamente que o método desses grosseiros goim era inspirado por uma bondade fácil e profana, e que dessa forma não se prestava ao ato sagrado a mesma honra que ele gozava em virtude do rigorismo solene do rito paterno. O conceito da devoção ligava se, no seu íntimo, ao da crueldade, assim como na sua imaginação o aspecto e o cheiro do sangue a jorrar acompanhavam a idéia do sagrado e do espiritual. Pois compreendia perfeitamente que o pai não se devotara ao seu ofício sanguinário pelo mesmo gosto brutal que talvez determinasse a escolha de robustos rapazes cristãos e do seu próprio ajudante; motivos espirituais haviam-no influenciado, apesar do seu físico frágil, e em harmonia com os seus olhos estelares.
Com efeito, Elia Naphta era um sonhador e um pensador; não se limitava a estudar a Tora, mas também interpretava a Escritura, cujas máximas discutia com o rabino, altercando com ele não raras vezes. Na região, e não somente entre os seus correligionários, era considerado homem extraordinário, que sabia mais do que os outros, em parte devido à sua piedade, em parte também graças a conhecimentos suspeitos, talvez, e em todo caso contrários, à ordem natural das coisas. Havia nele um quê de irregularidade sectária, algo de um confidente de Deus, de um Baal-Chem ou Zaddik, quer dizer, um taumaturgo, tanto mais que realmente curara certa feita uma mulher de uma erupção maligna, e em outra ocasião, um garoto de convulsões, e tudo isso por meio de sangue e de versículos. Mas foi precisamente esse nimbo de uma piedade um tanto ousada, no qual o cheiro de sangue da sua profissão desempenhava o seu papel, que se tornou a causa da sua perdição. Em conseqüência de um motim e de uma irrupção ,da fúria popular, provocada pela morte não esclarecida de duas crianças cristãs, Elia foi trucidado de forma horrorosa: encontraram-no crucificado, fixo com cravos à porta da sua casa incendiada. Sua
esposa, tísica e acamada, abandonou em seguida o país, com os filhos, o menino Leib e seus quatro irmãozinhos, todos se lamentando e gemendo, de braços erguidos ao céu.
Graças à previdência de Elia, a família não estava inteiramente desprovida de recursos.
Encontraram asilo numa cidadezinha do Vorarlberg. Ali a Srª. Naphta se empregou numa fiação de algodão, onde trabalhou enquanto as suas forças lhe permitiram, e os filhos mais velhos freqüentaram a escola primária. Mas se a sabedoria ministrada por esse estabelecimento bastava ao talento e às necessidades dos irmãos de Leo, absolutamente não se dava o mesmo com ele.
Herdara da mãe o germe da doença pulmonar, e do pai, além da compleição delgada, um discernimento fora do comum, dons intelectuais que desde cedo andavam unidos com instintos altivos, com a ambição do sublime, com a nostalgia angustiosa de formas de vida mais aristocráticas, e lhe infundiam o desejo apaixonado de elevar-se acima da esfera da sua origem.
Fora da escola, o adolescente de catorze ou quinze anos formava o seu espírito de modo impaciente e descontrolado, por meio de livros que soube arranjar e com os quais nutria a inteligência. Pensava coisas e manifestava idéias que induziam a mãe a encolher a cabeça entre os ombros e a levantar ao céu as magras mãos espalmadas. Pela sua índole e pelas suas respostas chamou durante o ensino religioso a atenção do rabino distrital, homem pio e erudito, que o escolheu para aluno particular e lhe satisfez a predileção formal com aulas de hebraico e de línguas clássicas, e a ânsia de lógica com ensinamentos matemáticos. Mas a solicitude do homem foi muito mal recompensada. Evidenciou-se cada vez mais nitidamente que ele acolhera uma serpente em seu seio. Repetiram-se as contendas que outrora houvera entre Elia Naphta e seu rabino; não se puseram de acordo; entre o professor e o discípulo surgiram divergências religiosas e filosóficas que se agravavam de forma crescente, e o honrado teólogo muito teve que sofrer em virtude da insubmissão intelectual do jovem Naphta, da sua tendência crítica e cética, do seu espírito de contradição e da sua dialética afiada. Acrescia a isso o fato de que a sutileza e a rebeldia intelectual de Leo acabavam de assumir um caráter revolucionário. O contato com o filho de um deputado socialista do Reichsrat e com o próprio representante popular haviam orientado para a política o espírito do adolescente e imprimido o rumo da crítica social à sua paixão pela lógica. Leo ousou manifestar idéias que fizeram eriçar-se os cabelos do bom talmudista, orgulhoso da sua própria lealdade, e que finalmente desmancharam a amizade entre o professor e o aluno. Numa palavra, as coisas chegaram ao ponto de Naphta ser amaldiçoado pelo seu mestre e definitivamente expulso do seu gabinete de estudos. Isso sucedeu justamente na época em que sua mãe, Rakel Naphta, estava agonizante.
Também por esse tempo, imediatamente após o transpasse da mãe, Leo travou conhecimento com o Padre Unterpertinger. O jovem de dezesseis anos estava sentado, solitário, num banco do parque de Margaretenkopf, numa colina situada a oeste da cidadezinha, à beira do Ill, donde se descortinava uma vista ampla e alegre sobre o vale do Reno. Achava-se ali, absorto em sombrios e amargos pensamentos quanto ao seu destino e futuro, quando um professor do Instituto Jesuítico Stella Matutina, ao passear pelo parque, sentou-se a seu lado, pôs o chapéu no banco, cruzou as pernas sob a sotaina de padre secular, e após ter lido algumas páginas do seu breviário, entabulou uma conversa que se tornou muito animada e estava fadada a decidir a sorte de Leo. O jesuíta, homem experiente, de trato afável, pedagogo apaixonado, bom psicólogo e hábil pescador de almas, aguçou o ouvido, desde as primeiras frases, articuladas com sarcástica clareza, que o mísero judeuzinho proferia em resposta às suas perguntas. Sentiu nelas o sopro de uma espiritualidade aguda e atormentada, e penetrando mais a fundo, topou com uma sabedoria e uma elegância maliciosa do pensamento que o exterior maltrapilho do rapaz apenas tornava mais surpreendentes. Falaram de Marx, cujo Capital Leo Naphta estudara numa edição popular, e daí passaram para Hegel, do qual ou sobre o qual o jovem também lera o suficiente para formular algumas observações incisivas. Fosse por uma inclinação geral para o paradoxo, fosse devido à intenção de agradar, chamou Hegel de “pensador católico”; quando o padre, sorrindo, lhe perguntou em que se fundava essa opinião, uma vez que Hegel, na sua qualidade de filósofo oficial da Prússia, devia ser considerado lógica e essencialmente como protestante, replicou o jovem que as próprias palavras “filósofo oficial” confirmavam que, no sentido religioso, embora naturalmente não no sentido eclesiástico-dogmático, a sua afirmação da catolicidade de Hegel estava certa. Pois – Naphta gostava muitíssimo dessa conjunção que na sua boca adquiria um caráter triunfal e inexorável e fazia-lhe os olhos relampejar atrás dos óculos, cada vez que tinha oportunidade de inseri-las nas suas deduções – pois o conceito da política se achava psicologicamente ligado ao do catolicismo; formavam eles uma categoria que abrangia tudo quanto era objetivo, operante, ativo, realizador, e produzia efeitos exteriores. A essa categoria opunha-se a esfera pietista, protestante, que tinha a sua origem na mística. No jesuitismo –
acrescentou —, tornava-se evidente a natureza política e pedagógica do catolicismo. Essa ordem sempre considerara seu domínio a estadística e a educação. E citou Goethe, que, embora arraigado do pietismo e indiscutivelmente protestante, tinha um forte cunho católico, em virtude do seu objetivismo e da sua doutrina de ação, chegando a defender a confissão auricular e mostrando-se quase jesuíta como educador.
Não importa que Naphta tivesse dito essas coisas, por acreditar nelas, ou por achá-las espirituosas, ou finalmente na intenção de comprazer ao seu interlocutor, como faz um homem pobre que deve lisonjear e calcula com precisão o que lhe pode ser útil ou prejudicial. Fosse como fosse, o padre preocupou-se menos com o valor verdadeiro dessas palavras do que com a inteligência geral que elas documentavam. A conversa foi continuada, e dentro em pouco o jesuíta conhecia a situação particular de Leo. A entrevista terminou com um convite de Unterpertinger para que Naphta o visitasse no instituto.
Destarte aconteceu que Naphta pôs os pés no solo do Stella Matutina, cujo nível científica e socialmente elevado desde muito o atraía. E mais do que isso: graças ao rumo que as coisas acabavam de tomar, obteve um novo mestre e protetor, mais disposto do que o anterior a lhe apreciar e estimular a índole; um mentor cuja bondade, fria por natureza, baseava-se no conhecimento do mundo, e em cujo circulo de vida o jovem anelava penetrar. Semelhante a muitos judeus talentosos, Naphta tinha um instinto ao mesmo tempo revolucionário e aristocrático; era socialista e também dominado pelo sonho de participar de uma forma de vida soberba, distinta, exclusiva e ordenada. A primeira manifestação que lhe inspirara a presença de um teólogo católico fora, embora se apresentasse sob a forma de pura análise comparativa, uma declaração de amor à Igreja Romana, que se lhe afigurava como uma potência nobre e espiritual, quer dizer antimaterial, contrária à realidade hostil do mundo, e portanto revolucionária. Essa homenagem era sincera e tinha raízes no fundo do seu ser: como ele próprio explicava, o judaísmo, graças à sua orientação terrena e objetiva, graças ao seu caráter socialista e à sua espiritualidade política, achava-se muito mais próximo da esfera católica, era infinitamente mais congênere dela, do que o protestantismo na sua mania de ensimesmar-se e na sua subjetividade mística. Assim, a conversão de um judeu à religião católica representava, do ponto de vista da Igreja, um processo muito mais fácil do que a de um protestante.
Separado do pastor da sua comunidade religiosa de origem, órfão, desamparado, e ainda ansioso por respirar um ar mais puro, por gozar o estilo de vida que lhe cabia devido ao seu talento, Naphta, que desde havia algum tempo atingira a idade legal que o capacitava para escolher a sua religião, estava tão impaciente por consumar o ato da conversão, que o seu
“descobridor” podia dispensar o menor esforço no sentido de conquistar essa alma, ou melhor, esse cérebro extraordinário, para o mundo da sua confissão. Já antes de receber o sacramento do batismo, Naphta encontrara, através da influência do padre, asilo provisório no Stella Matutina, que lhe garantia o seu alimento material e intelectual. Domiciliou-se ali, abandonando, com a maior equanimidade e com a insensibilidade de um aristocrata do espírito, os seus irmãos mais moços à caridade pública e àquele destino que eles mereciam em virtude dos seus dons medíocres.