A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 3 de 13 · parte 1/3

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A Montanha Mágica

Hans Castorp sonhava, os olhos fitos no…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Hans Castorp sonhava, os olhos fitos no braço de Mme.. Chauchat. Como se vestiam essas mulheres! Mostravam isso e aquilo da nuca e do peito; glorificavam os braços por meio de gaze transparente... Agiam assim em todo o mundo para excitar o desejo ansioso dos homens.

Deus do Céu, que bela era a vida! Era bela justamente pela naturalidade com que as mulheres se vestiam de um modo tão sedutor; pois isso era mesmo natural e de tal forma comum, tão geralmente admitido, que a gente mal o notava e o tolerava inconscientemente, sem fazer grande caso. Mas cumpria pensar nisso – ponderou Hans Castorp – para encontrar um genuíno prazer na vida e não se esquecer que tal modo de trajar era uma instituição deliciosa e, no fundo, quase feérica. Claro que havia uma finalidade definida no fato de as mulheres terem o direito de se vestir dessa forma maravilhosa e mágica, sem que, com isso, infringissem as regras da decência: tratava-se da próxima geração, da procriação da raça humana; sim, senhor! Mas quando a mulher estava interiormente enferma, quando não era, de maneira alguma, apta para a maternidade – que dizer então? Haveria ainda algum sentido no uso de mangas de gaze que despertassem a curiosidade dos homens quanto a um corpo interiormente carcomido? Era evidente que isso era absurdo e deveria ser considerado pouco correto e até mesmo proibido. Pois no interesse de um homem por uma mulher enferma havia tão pouco sentido quanto... bem, quanto houvera naquele interesse silencioso que Hans Castorp sentira por Pribislav Hippe. Essa comparação não deixava de ser estúpida, e a reminiscência, um tanto penosa. Mas elas se haviam apresentado espontaneamente, sem que ninguém as chamasse. De resto, os seus sonhos foram interrompidos nesse ponto, sobretudo porque a sua atenção se sentiu novamente atraída pelo Dr. Krokowski, cuja voz se elevara de forma impressionante. Realmente, lá atrás da mesinha estava ele, com os braços abertos e a cabeça obliquamente inclinada, e apesar da sobrecasaca parecia-se com um Cristo na cruz!

Patenteou-se que o Dr. Krokowski, pelo fim da sua conferência, fazia intensa propaganda a favor da dissecação das almas, e com os braços abertos convidava todo mundo para vir a ele.

Vinde a mim todos os que estão aflitos e carregados de culpa, disse o orador, embora com outras palavras. E não deixou nenhuma dúvida quanto à sua convicção conforme a qual todos, sem exceção, estavam nessas condições. Falou ainda do sofrimento oculto, do pudor e da mágoa, e dos efeitos benfazejos da análise; celebrou a iluminação do inconsciente, preconizou a reconversão da doença em um sentimento consciente, exortou à confiança e prometeu a cura. A seguir deixou cair os braços, ergueu a cabeça, juntou a papelada de que se servira durante a conferência, apanhou a pilha com a mão esquerda, e apertando-a ao ombro direito, com um gesto tipicamente professoral, afastou-se pelo corredor.

Todos se levantaram, empurrando as cadeiras para trás, e começaram a dirigir-se lentamente para a mesma saída pela qual o doutor abandonara a sala. Era como se todos, num movimento concêntrico, convergissem para ele, de todos os lados, hesitantes, involuntariamente, e todavia numa unanimidade surda, como a multidão que seguia atrás do flautista de Hamelin.

Hans Castorp permaneceu parado no meio da torrente, agarrando com a mão o espaldar da sua cadeira. “Estou aqui só de visita”, pensou. “Ando bem de saúde e, graças a Deus, essas coisas não me dizem respeito. Quando se realizar a próxima conferência, já não estarei aqui...” Viu como Mme.. Chauchat saía a passo arrastado, com a cabeça caída para a frente. “Será que ela também se submete ao bisturi do analista?”, pensou, enquanto o seu coração se punha a martelar... Com isso, nem notou que Joachim se aproximava dele através das cadeiras, de modo que estremeceu nervosamente quando o primo lhe dirigiu a palavra.

– Você chegou no último instante – disse Joachim. – Foi muito longe? Que tal o passeio?

– Oh, bonzinho – respondeu Hans Castorp. – Caminhei bastante longe, sim senhor! Mas devo confessar que o passeio me trouxe menos do que eu esperava. Talvez fosse prematuro ou até prejudicial para mim. Por enquanto não farei outro.

Joachim não perguntou se a conferência lhe agradara ou não. Hans Castorp também não emitiu a sua opinião sobre esse ponto. Como por acordo tácito, nem então nem depois aludiram à conferência.

Dúvidas e ponderações Na terça-feira já fazia uma semana que o nosso herói se achava ali em cima. Por isso encontrou uma conta no seu quarto, ao regressar do passeio matinal; a conta do sanatório, relativa à sua primeira semana, um documento comercial de execução cuidadosa, apresentado num envelope verde, e cujo cabeçalho era enfeitado com uma vista sedutora do edifício do Berghof, ao passo que à esquerda uma coluna estreita apresentava um pequeno excerto do prospecto, destacando-se em negrito a referência ao “tratamento psíquico segundo os princípios mais modernos”. Os itens, redigidos caligraficamente, davam um total de cento e oitenta francos redondos: doze francos por dia pela pensão e os cuidados médicos, e oito pelo quarto; acresciam a isso vinte francos de “entrada” e dez pela desinfecção do quarto; outras despesas menores, referentes a roupa, cerveja e ao vinho tomado por ocasião do primeiro jantar, arredondavam a soma. Ao conferir a conta em companhia de Joachim, Hans Castorp não encontrou nada de que reclamar.

– É verdade que não faço uso dos cuidados médicos – disse. – Mas isso é comigo. Estão compreendidos no preço da pensão e não posso exigir que os descontem. Como poderiam fazê-lo?... Quanto à desinfecção, são meio careiros. Não é possível que tenham gasto dez francos de H CO, para fumigar os vestígios da americana. Mas, em geral, acho que é antes barato do que 2

caro, em consideração ao que oferecem. – Foram, pois, antes do café da manhã, à

“administração”, a fim de liquidar a conta.

A “administração” achava-se no rés-do-chão. Quem seguia além do vestíbulo o corredor que passava ao lado do vestiário, das cozinhas e das despensas, não se podia enganar de porta, tanto mais que esta se distinguia por uma placa de porcelana. Com grande interesse, Hans Castorp travou ali conhecimento com o centro comercial da empresa. Era um verdadeiro pequeno escritório. Uma datilógrafa se achava em plena atividade, e três funcionários estavam inclinados sobre as escrivaninhas, enquanto na saleta ao lado um senhor que devia ocupar o posto de chefe ou gerente trabalhava numa secretária colocada no meio da peça, limitando-se a lançar por cima dos óculos um olhar frio e calculista sobre os pensionistas. Estes foram despachados num guichê, onde um funcionário trocou uma nota, pôs o dinheiro na caixa e passou o recibo. Enquanto isso, os primos guardavam aquela atitude séria e modesta, silenciosa e até submissa, que convém a jovens alemães, acostumados a testemunhar a qualquer escritório o respeito devido a autoridades e repartições. Mas, depois de terem saído da “administração” a caminho do café da manhã, e mais tarde, no decorrer do dia, conversaram um pouco sobre a organização da empresa Berghof. Joachim, na sua qualidade de “indígena” informado, soube responder às perguntas de Hans Castorp.

O Dr. Behrens não era de maneira alguma proprietário nem arrendatário do estabelecimento, se bem que à primeira vista se pudesse ter essa impressão. Acima e atrás dele havia potências invisíveis que se manifestavam somente até certo ponto, sob a forma do escritório. Existia um conselho fiscal, uma sociedade anônima, da qual seria alto negócio fazer parte, uma vez que, segundo a informação fidedigna de Joachim, distribuía anualmente polpudos dividendos aos acionistas, e isso apesar dos salários muito altos dos médicos e dos princípios bastante liberais de administração. O conselheiro áulico não era, por conseguinte, autônomo; não passava de um agente, de um funcionário, de um “parente” das potências superiores, embora sendo o primeiro e o supremo; era a alma do estabelecimento e exercia uma influência decisiva

sobre toda a organização, inclusive a intendência, ainda que, na função de médico-diretor, ficasse isento de qualquer ocupação com a parte comercial do sanatório. Natural do noroeste da Alemanha, chegara, fazia anos, a essa posição, contra o seu gosto e plano de vida. Fora levado para Davos por sua mulher, cujos restos mortais havia muito repousavam no cemitério da aldeia, aquele cemitério pitoresco de Davos-Dorf, situado na encosta da direita, ali, mais atrás, perto da entrada do vale. Devia ter sido uma mulher encantadora, ainda que astênica e com olhos excessivamente grandes, a julgar pelas fotografias que se encontravam em toda parte na moradia do médico, e pelos retratos a óleo, devidos ao pincel diletante do marido e espalhados pelas paredes. Depois de lhe ter dado um casal de filhos, seu corpo franzino, acossado pela febre, sentira-se atraído para essas regiões, onde, dentro de poucos meses, sucumbira à consunção.

Dizia-se que Behrens, que a adorara, fora de tal forma ferido por esse golpe que, durante algum tempo, tomado de melancolia e esquisitice, chamara a atenção do público na rua pelos seus risinhos, monólogos e gestos descontrolados. Nunca mais regressara ao seu ambiente primitivo, mas ficara ali, decerto porque não queria afastar-se do túmulo. Mas talvez a razão determinante fosse de caráter menos sentimental: a enfermidade atacara a ele próprio, e segundo a sua convicção científica, o lugar que lhe cabia era ali mesmo. Por isso instalara-se em Davos, como um daqueles médicos que são companheiros do infortúnio de quem recebe os seus cuidados, que não combatem a enfermidade, independentes dela, na plenitude da sua liberdade e inteireza pessoal, embora estejam, eles mesmos, marcados pela doença; caso estranho, sem dúvida, mas que não é muito raro e tem inegavelmente suas vantagens e seus inconvenientes. A camaradagem entre o médico e o enfermo merece plena aprovação, e pode-se admitir que só quem sofre é capaz de ser salvador e guia dos que sofrem também. Mas será possível um verdadeiro domínio espiritual sobre uma potência, exercido por uma pessoa que, ela própria, se conta entre os seus escravos? Pode dar liberdade quem está avassalado? Para o sentimento ingênuo, o médico enfermo não deixa de ser um paradoxo, um fenômeno problemático. Quem sabe se a experiência pessoal não lhe turva e confunde o conhecimento científico da doença, tanto quanto o enriquece e firma moralmente? Não encara a enfermidade face a face, com o olhar franco de um adversário; vê-se coibido, não toma uma posição clara, e, com toda a cautela que o tema exige, deve-se ventilar a questão de saber se uma pessoa que pertence ao mundo da doença pode interessar-se pela cura ou ao menos pela conservação de outrem na mesma medida que um homem sadio...

Foi uma parte dessas dúvidas e ponderações que Hans Castorp externou à sua maneira, enquanto conversava com Joachim acerca do Berghof e do seu diretor-médico. Mas Joachim objetou que não se sabia se o Dr. Behrens ainda estava enfermo; provavelmente já se curara.

Havia muito tempo que começara a clinicar ali; no início como médico particular, adquirindo logo boa reputação como auscultador de ouvido fino e especialista muito seguro de pneumotomia. Depois, o Berghof procurara a sua colaboração: o estabelecimento ao qual o Dr.

Behrens se ligara estreitamente fazia mais de um decênio... Ali, nos fundos, ao extremo da ala noroeste do sanatório, ficava situada a sua habitação – o Dr. Krokowski residia não longe dele –

e aquela senhora da antiga nobreza, a enfermeira-chefe, à qual Settembrini se referira daquela forma sarcástica, e que Hans Castorp só conhecia de vista, dirigia a casa do viúvo. De resto, o conselheiro áulico vivia sozinho, pois o filho estudava em universidades alemãs, e a filha casara-se com um advogado, na parte francesa da Suíça. O jovem Behrens vinha às vezes de visita durante as férias, o que já ocorrera uma vez desde a chegada de Joachim ao sanatório. O primo contou que, quando isso acontecia, havia grande agitação entre as damas do estabelecimento; as temperaturas subiam; ciumeiras provocavam disputas e querelas nos alpendres de repouso, e na ficha especial do Dr. Krokowski aumentava a freqüência...

Para a sua clínica particular, o assistente recebera uma peça especial, que se encontrava –

como a grande sala de consulta, o laboratório, a sala de operações e o serviço de radiografia – no bem iluminado subsolo do edifício. Falamos de subsolo, porque a escada de pedra que conduzia do rés-do-chão para ali despertava realmente a idéia de que se descia a uma espécie de porão, o que, no entanto, era um engano, pois, em primeiro lugar, o rés-do-chão estava situado bastante alto, e ademais o Berghof estava construído num terreno em declive, na encosta da montanha; assim, as peças que compunham esse porão davam para o jardim e o vale. Essas circunstâncias contradiziam e compensavam, em certo modo, o efeito e o sentido daquela escada: quem pensava descer pelos seus degraus, para um lugar mais baixo do que o nível do solo, encontrava-se depois da descida ainda ao nível da terra ou, quando muito, alguns pés abaixo dele – impressão que divertiu Hans Castorp, quando, certa tarde, em que seu primo quis fazer-se pesar pelo massagista, acompanhou-o a essa esfera “subterrânea”. Reinava ali uma claridade e um asseio de hospital; tudo era branco sobre branco, e as portas cintilavam com a alvura do esmalte, inclusive a que conduzia ao gabinete de consultas do Dr. Krokowski, na qual o cartão de visita do sábio se achava fixado por meio de um percevejo. Para chegar a essa porta, era preciso descer mais dois degraus, a partir do corredor, de maneira que a peça situada atrás dela tinha um caráter de calabouço. Ficava ela à direita da escada, na extremidade do corredor, e Hans Castorp observava-a com atenção especial, enquanto ia de cá para lá, esperando por Joachim. Viu sair uma pessoa.

Era uma senhora, chegada recentemente, cujo nome ele ainda não conhecia, mulher baixinha, graciosa, com franjas na testa e com brincos de ouro. Ao subir os dois degraus, inclinou-se profundamente, arregaçando a saia, ao passo que a outra mão, adornada de anéis, apertava contra a boca um lencinho. Os olhos grandes, turvos, assustados, olhavam para cima, sem nada ver.

Assim se dirigiu apressadamente para a escada, a passos curtos, com a saia a farfalhar. De repente estacou, como se se lembrasse de alguma coisa. A seguir pôs-se novamente a andar e desapareceu na escadaria, sempre inclinada para a frente e sem tirar o lencinho dos lábios.

Quando a porta se abriu, tornou-se patente que a peça, atrás dela, estava muito mais escura do que o corredor branco. A luminosidade de hospital, evidentemente, não chegava até ali.

Conforme Hans Castorp verificou, reinava no gabinete analítico do Dr. Krokowski uma meia-luz velada, um profundo crepúsculo.

Conversas à mesa

Durante as refeições, na sala pintalgada, o jovem Castorp sentiu certo embaraço ao notar que daquele passeio, realizado por conta própria, lhe ficara o referido tremor de cabeça peculiar ao avô. Justamente à mesa, esse tique se produzia com certa regularidade; não havia jeito de impedi-lo, e era difícil ocultá-lo. Além do recurso de apoiar o queixo dignamente na gravata, do qual afinal não se podia servir a todo instante, Hans Castorp inventou todo tipo de meios de disfarçar esse seu fraco. Por exemplo, mantinha a cabeça em constante movimento, conversando com as vizinhas ora da direita ora da esquerda; ou, quando levava a colher à boca, fincava o antebraço esquerdo na mesa, a fim de firmar a sua postura; também apoiava o cotovelo na mesa, nos intervalos entre os pratos, e escorava a cabeça com a mão, se bem que a ele mesmo essa atitude se afigurasse como uma falta de educação, admissível, apenas e a rigor, num ambiente desregrado de enfermos. Mas tudo isso não deixava de ser penoso, e pouco faltava para que lhe tirasse por completo o gosto das refeições, que ele normalmente apreciava muito, em virtude das sensações e coisas notáveis que acarretavam.

No entanto, esse fenômeno ignominioso contra o qual Hans Castorp tanto lutava, não era

– ele mesmo o sabia bem – de origem simplesmente física; não o provocara apenas o ar alpino, nem o esforço de aclimatação; ele expressava uma agitação íntima e estava ligado, de um modo direto, a certas sensações e episódios marcantes.

Mme.. Chauchat chegava quase sempre com atraso à mesa, e enquanto ela não estava presente, Hans Castorp não podia ficar sentado e manter os pés tranqüilos, porque esperava o estrondo da porta de vidro, que invariavelmente acompanhava a entrada da moça, e não ignorava que naquele momento se sobressaltaria e sentiria seu rosto gelar-se, como de fato acontecia com a mais absoluta regularidade. No começo, nunca deixara de voltar furiosamente a cabeça; seguia com olhares irados o caminho da desleixada retardatária até a mesa dos “russos distintos”; às vezes também murmurava, entre dentes, qualquer praga ou exclamação indignada. A essa altura

dos acontecimentos já não fazia nada disso; limitava-se a inclinar a cabeça sobre o prato, mordendo os lábios, ou com um movimento propositado e artificial voltava-a para outro lado, pois parecia-lhe que já não tinha direito de encolerizar-se; não se sentia bastante livre para censurar; pelo contrário, tinha a impressão de ser cúmplice da conduta escandalosa, de participar da responsabilidade perante os demais – em poucas palavras: estava com vergonha; teria sido inexato dizer que se envergonhava do comportamento de Mme.. Chauchat; não, ele, individualmente, sentia vergonha perante as outras pessoas, o que, aliás, era mais que desnecessário, visto ninguém na sala se preocupar com o relaxamento de Mme.. Chauchat, nem tampouco com a vergonha de Hans Castorp, com exceção, talvez, da professora, a Srta.

Engelhart, sua vizinha da direita.

Essa criaturinha ridícula compreendera que, graças à sensibilidade de Hans Castorp relativa a portas fechadas com estrondo, se originara uma certa relação afetiva entre o seu jovem companheiro de mesa e aquela russa; sabia, além disso, que pouco importava o caráter de tal relação, contanto que ela existisse, e que a indiferença fingida de Hans Castorp – bastante mal fingida por falta de prática e talento de ator – não significava um enfraquecimento, senão um reforço dos laços, uma fase mais avançada dessa relação. Sem ter, para a sua própria pessoa, as mínimas pretensões ou esperanças, a Srta. Engelhart expandia-se incessantemente em encômios desinteressados a Mme.. Chauchat. O estranho era que Hans Castorp perfeitamente notou e reconheceu, senão logo, ao menos com o tempo, o caráter atiçador dessa insistência, que até lhe causava repulsa; mas, apesar disso, deixava-se docilmente influenciar e seduzir por ela.

– Pronto! – disse a solteirona. – Aí está ela. Nem é preciso levantar os olhos para saber quem entrou. Claro, ali vai ela. Que jeito engraçado de andar! Exatamente como um gato que se encaminha para o prato de leite! Eu gostaria de trocar de lugar com o senhor, para que lhe fosse possível contemplá-la tão desembaraçada e comodamente como eu. Compreendo que o senhor não pode virar a cabeça a cada instante para olhá-la. Deus sabe o que ela acabaria imaginando se o notasse... Agora cumprimenta a sua gente... O senhor deveria ver isso; é delicioso observá-la.

Quando ela sorri e conversa como neste momento, tem uma covinha na face, mas só quando ela quer. Sim, senhor, é mesmo um encanto de mulher, uma criaturinha muito mimada, e isso explica seu relaxamento. A gente tem de adorar pessoas assim, queira-se ou não. Mesmo que nos aborreçam pelo seu desleixo, a própria irritação é um motivo a mais para simpatizarmos com elas.

É uma grande felicidade, essa de exasperar-se e de se ver forçado a amar, apesar de tudo...

Assim murmurava a professora, tapando a boca com a mão, para que os outros não pudessem ouvi-la, e o rubor héctico das suas bochechas de solteirona manifestava a temperatura anormal de seu corpo. O palavrório excitante penetrava o pobre Hans Castorp até a medula.

Uma certa falta de iniciativa, que lhe era peculiar, criava nele a necessidade de ouvir confirmar por um terceiro que Mme.. Chauchat era uma mulher sedutora. Ademais, desejava o jovem ser animado, da parte de uma pessoa estranha, a entregar-se a sentimentos aos quais a sua razão e a sua consciência opunham uma resistência incômoda.

Por outro lado, essas conversas eram pouco fecundas em informações positivas.

Conquanto tivesse as melhores intenções do mundo, a Srta. Engelhart era incapaz de contar pormenores exatos a respeito de Mme.. Chauchat; não sabia mais do que todos os outros no sanatório; não a conhecia, nem sequer tinha amigos em comum com ela, e a única coisa que lhe poderia dar vantagem aos olhos de Hans Castorp era ser natural de Königsberg, perto da fronteira russa, e entender algumas palavras de russo – méritos insignificantes, mas que Hans Castorp estava disposto a considerar como uma espécie de relação longínqua com Mme..

Chauchat.

– Ela não usa anel – disse ele. – Não usa aliança, como vejo. A senhora me explique isso.

Não me disse que é casada?

A professora parecia em apuros, como se estivesse metida num beco sem saída e precisasse desculpar-se. Tão responsável se sentia por Mme.. Chauchat perante Hans Castorp!

– O senhor não deve ligar a isso – disse então. -sei de boa fonte que ela é casada. A esse respeito não pode haver a mínima dúvida. Se ela se faz tratar por madame, não é para se dar ares de importância, como é hábito de certas senhoritas estrangeiras, quando já passaram da primeira juventude. Nós todos sabemos positivamente que ela tem um marido em algum lugar da Rússia.

É fato conhecido em toda parte. Seu nome de solteira é diferente, é um nome russo e não francês, qualquer coisa em anov ou ukov. Já me disseram, mas me esqueci. Se o senhor quiser, vou me informar. Com certeza há pessoas por aqui que sabem. Uma aliança? Não, ela não usa aliança; eu também já reparei nisso. Meu Deus, talvez não lhe assente bem, talvez lhe faça a mão larga demais. Ou pode ser que ela julgue o uso da aliança costume muito burguês. Andar assim com uma argola lisa no dedo – só falta o molho de chaves num cestinho... Não, senhor, ela é muito moderna para isso. Eu sei positivamente que todas as mulheres russas têm no seu modo de ser qualquer coisa de liberdade e desembaraço. E esse tipo de anel é tão prosaico, tão negativo! É, por assim dizer, um símbolo da servidão. Dá às mulheres um quê de freira, faz delas umas florzinhas não-me-toques. Não me admiro de que Mme.. Chauchat não queira ser assim... Uma mulher encantadora, na flor da idade!... Provavelmente não tem vontade nem vê motivos para mostrar os seus laços conjugais a todo cavalheiro que lhe aperte a mão...

Deus do céu! Com que ardor defendia a professora a causa de Mme.. Chauchat! Hans Castorp olhou-a assustado, mas ela lhe sustentou o olhar, entre acanhada e teimosa. Depois, ambos permaneceram calados durante alguns momentos, como para se refazerem. Hans Castorp comia, procurando reprimir o tremor da cabeça. Finalmente disse:

– E o marido? Não se preocupa com ela? Não vem nunca visitá-la? Que é que ele faz?

– É funcionário público, na administração russa, e vive numa região perdida, em Daghestan, sabe? Fica muito para o leste, além do Cáucaso. Foi mandado para lá. Não, senhor, eu já lhe disse que ninguém jamais o viu aqui em cima, e já faz três meses desde que ela voltou para cá.

– Não é então a primeira vez que ela está aqui?

– Oh, não! É a terceira. E nos intervalos vai a lugares semelhantes... Não, o que se dá é justamente o contrário: às vezes ela faz uma visita ao marido; não com muita freqüência; só uma vez por ano passa algum tempo com ele. Pode-se dizer que vivem separados, e que ela apenas o visita de vez em quando.

– Claro, se ela está doente...

– Está doente, sim. Mas não a tal ponto que haja necessidade de viver constantemente em sanatórios e separada do marido. Devem existir outras razões mais decisivas. Pode ser que ela não goste de Daghestan, um ermo selvagem e distante, para lá do Cáucaso.

Nisso não há nada de surpreendente. Mas também o marido deve ter alguma culpa por ela não se sentir bem a seu lado.

Embora tenha um nome francês, é um funcionário público russo, e esses funcionários russos, o senhor pode acreditar, são uns tipos bastante rudes. Certa vez encontrei um deles, que tinha suíças grisalhas e uma cara bem vermelha... São venais ao extremo, e todos eles têm um fraco pela vodca, aquela aguardente deles, sabe? ... A fim de guardar as aparências fazem-se servir qualquer coisinha para comer, uns cogumelos avinagrados ou um pedacinho de esturjão, e acompanham isso com imensas quantidades de bebidas alcoólicas. É o que chamam de “colação”...

– A senhora descarrega toda a culpa sobre ele – disse Hans Castorp. – Mas nós aqui ignoramos se não é também devido a ela que os dois não se acertam. Temos que ser justos.

Quando a vejo aí e me lembro daquele hábito de bater a porta... Ora, ela não me parece ser um anjinho. Não me leve a mal essa opinião, mas desconfio dela. A senhora não é imparcial. Está cheia até aqui de preconceitos a favor dessa mulher...

De vez em quando, ele expressava-se dessa maneira. Com uma astúcia no fundo alheia à sua natureza, fingia crer que o entusiasmo que a Srta. Engelhart manifestava por Mme.. Chauchat não era o que era em realidade, embora soubesse muito bem o contrário; fazia como se esse entusiasmo constituísse um fato engraçado, sui generis, do qual ele mesmo, o independente Hans Castorp, pudesse servir-se para mexer com a pobre solteirona, a uma distância fria e humorística.

E como tivesse certeza de que a sua cúmplice admitiria e toleraria essa atrevida desfiguração das coisas, não se arriscava demais.

– Bom dia, senhorita – dizia, por exemplo. – Passou bem a noite? Espero que tenha sonhado com a sua bela Minka... Vejam só, basta mencionar esse nome e logo a senhorita está toda corada. Está completamente caidinha por ela; não vale a pena negá-lo...

E a professora, realmente ruborizada, inclinava-se profundamente sobre a xícara e cochichava com o canto esquerdo da boca:

– Não, senhor, isso não se faz, Sr. Castorp! Realmente não é gentil da sua parte embaraçar-me desse jeito com as suas alusões. Todo mundo já repara que estamos falando dela e que o senhor me diz coisas que me fazem corar.

Que jogo estranho, esse ao qual se entregavam os dois vizinhos de mesa! Ambos sabiam que estavam mentindo dupla e triplamente, que Hans Castorp caçoava da professora só para poder falar de Mme.. Chauchat, e no entanto encontrava um prazer mórbido e indireto nas gracinhas que dirigia à solteirona; esta, por sua vez, admitia-as, primeiro por um instinto de medianeira, segundo porque, para agradar ao jovem, de fato se apaixonara um pouco por Mme..

Chauchat, e finalmente porque sentia uma satisfação mesquinha quando Hans Castorp mexia com ela e a fazia corar. Ambos sabiam disso, sabiam um do outro, sabiam também que nenhum deles ignorava os pensamentos do outro; e tudo isso era complexo e pouco limpo. Mas, embora Hans Castorp em geral sentisse repugnância de coisas complexas e pouco limpas, e a sentisse também nesse caso particular, continuava, sem embargo, a chafurdar nesse elemento turvo, tranqüilizando-se com a idéia de estar ali em cima de visita e de partir dentro em breve. Com uma objetividade afetada, falava, à maneira de um conhecedor, sobre o físico da mulher “negligente”, constatando que ela era muito mais bonita e mais jovem vista de frente do que de perfil; que seus olhos estavam demasiado distantes entre si, e que a sua postura deixava muito a desejar, ao passo que seus braços eram realmente formosos e de “linhas suaves”. E ao dizer essas coisas, procurava disfarçar o tremor da cabeça e verificava ao mesmo tempo que a professora se dava conta dos seus esforços vãos. Teve até o máximo desgosto de notar que ela também ficava com a cabeça a tremer. Fora por mera política, por uma astúcia pouco natural, que ele chamara Mme.. Chauchat de “bela Minka”, pois que assim tinha uma oportunidade para fazer novas perguntas:

– Eu disse “Minka”, mas como se chama ela em realidade? Quero dizer, qual é o primeiro nome? A senhorita, que está apaixonada por ela, deveria sabê-lo.

A professora pôs-se a refletir.

– Espere um pouco – disse. – Eu sabia o nome. Não era Tatiana? Não, não era, e Natacha tampouco. Natacha Chauchat? Não, não foi isso que me disseram. Agora sei! Ela se chama Avdótia, e se não é assim, é qualquer coisa parecida. Tenho certeza de que não é nem Kátienka nem Ninotchka. Francamente, não me lembro mais. Mas será fácil eu me informar, se o senhor fizer questão...

Com efeito, no dia seguinte ela sabia o nome. Pronunciou-o na hora do almoço, quando a porta envidraçada se fechou com estrondo. A Srª. Chauchat chamava-se Clávdia.

Hans Castorp não compreendeu imediatamente. Fez repetir e soletrar o nome, antes de gravá-lo na memória. Depois repetiu-o diversas vezes, enquanto fitava Mme.. Chauchat com os olhos injetados, como para ver se lhe ficava bem.

– Clávdia? – disse ele. – Sim, sim, é bem possível que ela se chame assim. O nome combina com ela. – Não dissimulou o prazer que lhe causava essa informação de caráter íntimo.

Dali por diante só falava de “Clávdia” ao referir-se a Mme.. Chauchat. – Parece-me que a sua

“Clávdia” faz bolinhos de pão. Não acho isso muito distinto – dizia então, e a professora respondia: – Depende de quem os faz. Em Clávdia fica bem.

Sim, essas refeições na sala das sete mesas tinham um extraordinário encanto para Hans Castorp. Lastimava quando terminava uma delas, mas consolava-se com o pensamento de que em breve, dentro de duas horas ou pouco mais, voltaria a esse mesmo lugar, e quando se via novamente sentado, era como se nunca se tivesse levantado. Que acontecia no intervalo? Nada.

Um rápido passeio até o curso d'água ou ao bairro inglês, e algum repouso na espreguiçadeira.

Isso não representava nenhuma interrupção séria, nenhum obstáculo que fosse difícil vencer.

Seria diferente se se interpusessem trabalhos ou preocupações ou dificuldades que não se deixassem menosprezar nem afastar do pensamento. Mas nada disso existia no plano inteligente e feliz da vida no Berghof. Ao levantar-se de uma refeição tomada em comum, Hans Castorp já se podia alegrar imediatamente com o antegozo da próxima – contanto que seja próprio o verbo

“alegrar-se” para aquele tipo de expectativa com que ele sempre aguardava o novo encontro com Mme.. Chauchat, e não se lhe dê um sentido por demais leviano, jovial, ingênuo e vulgar. Talvez o leitor se incline a admitir e a julgar adequadas unicamente expressões de caráter jovial e vulgar, quando se trata da pessoa de Hans Castorp e da sua vida íntima; lembramos-lhe, porém, que o nosso herói, como jovem sensato e consciencioso, não podia simplesmente “alegrar-se” com a vista e a proximidade de Mme.. Chauchat. Sabendo desse fato, constatamos que, se alguém tivesse formulado essa idéia na sua presença, ele, dando de ombros, teria rejeitado o referido verbo.

Há ainda um pormenor digno de menção: ele começou a tratar com desdém certos meios de expressão. Com as faces ardendo, andava a cantar; cantarolava de si para si, pois o seu estado de alma era sensitivo e musical. Trauteava uma cançãozinha que ouvira, Deus sabe onde, numa reunião social ou num concerto de beneficência, cantada por uma voz de soprano pouco volumosa. Era uma terna ninharia que começava assim:

“No fundo de minha alma ecoa A mais milagrosa canção...”

E ele já estava a ponto de acrescentar:

“De teus lábios ela voa

E entra em meu coração”

quando, subitamente, encolhia os ombros, dizendo: – Ridículo! – Chamando a delicada canção de insípida, piegas e adocicada, condenava-a com certa severidade mesclada de melancolia. Em tal cantiga cheia de ternura podia encontrar satisfação e prazer qualquer rapaz que, após ter “dado” – como se costuma dizer – “o seu coração”, num impulso lícito, sossegado e esperançoso, a uma pequena sadia, lá de baixo, se abandonasse, dali por diante, a sentimentos igualmente lícitos, futurosos, razoáveis e, no fundo, bem alegres. Quanto a ele, porém, e à sua relação com Mme.. Chauchat – a palavra “relação” vai por conta de Hans Castorp, e declinamos de toda responsabilidade – decididamente não lhes convinha uma cantiga dessas. Estendido na sua cadeira, sentia-se disposto a sentenciá-la com o veredicto estético de “Bobagem!” No meio da canção cessava de cantar, torcendo o nariz, se bem que não soubesse outra melhor.

Mas havia uma coisa que lhe proporcionava prazer, quando se achava assim deitado e observava o seu coração, o coração corporal, que palpitava rápida e audivelmente através do silêncio, esse silêncio regulamentar que reinava em todas as dependências do Berghof durante o repouso principal. Seu coração batia com tenacidade e indiscrição, como sucedia quase sempre, desde que ele se encontrava ali em cima. Mas Hans Castorp deixara de ligar a esse fato tamanha importância como nos primeiros dias. Já não se podia dizer que o coração batia à toa, sem motivo e sem relação com a alma. Tal relação existia ou, pelo menos, não era difícil estabelecê-la. A atividade exaltada do corpo justificava-se facilmente por meio de uma emoção correspondente.

Bastava que Hans Castorp pensasse em Mme.. Chauchat – e pensava nela – para encontrar o sentimento que lhe explicasse o martelar do coração.

Temor nascente. Dos dois avôs e do passeio de barca ao crepúsculo

O tempo era horrível. Neste ponto, Hans Castorp não teve sorte durante os poucos dias da sua permanência nessa região. Não caía neve, propriamente, mas chovia dias a fio, uma chuva pesada e feia; nuvens espessas cobriam o vale, e com estrondos arrastados e retumbantes descarregavam-se trovoadas ridiculamente supérfluas, dado o frio, tão intenso, que se fez necessário acender a calefação da sala de refeições.

– Que lástima! – disse Joachim. – Eu pensava que a gente pudesse um dia levar uma merenda e ir a Schatzalp, ou fazer qualquer outra excursão. Mas parece que não será possível.

Espero somente que sua última semana seja melhor.

No entanto, Hans Castorp respondeu:

– Deixe disso. Não estou com ânimo empreendedor. A minha primeira aventura não me saiu muito bem. Descanso melhor, quando vivo assim calmamente, sem muitas distrações.

Distrações são para os veteranos, mas eu, com minhas três semanas, para que preciso de distrações?

Com efeito, ele sentia-se ocupado e absorto com o que havia no lugar onde estava. Se abrigava esperanças, tanto a sua realização como uma possível decepção aguardavam-no aqui e não num Schatzalp qualquer. O que o atormentava não era tédio; pelo contrário, começava a recear que o fim da sua estadia chegasse com demasiada pressa. A. segunda semana já estava avançada; dois terços do seu tempo em breve teriam passado, e quando começasse o último terço, já seria tempo de arrumar as malas. Aquela primeira revitalização do senso de tempo de Hans Castorp havia muito que se passara; os dias já começavam a voar, e isso conquanto cada um deles se estirasse sob o efeito de uma expectativa sempre renovada e abundasse de experiências silenciosas e secretas... Sim, o tempo é um enigma singular, difícil de resolver.

Será necessário pormenorizar aquelas experiências secretas que, ao mesmo tempo, retardavam e aceleravam o curso dos dias de Hans Castorp? Mas ninguém as ignora; tratava-se de experiências absolutamente comuns, na sua insignificância sentimental; e num caso mais razoável e mais futuroso, que permitisse a aplicação daquela cançãozinha “No fundo de minha alma ecoa...”, tampouco se teriam desenrolado de outra forma.

Era impossível que Mme. Chauchat nada percebesse dos fios que se estendiam entre determinada mesa e a sua. E era justamente intenção desenfreada de Hans Castorp que ela notasse alguma coisa e até o máximo possível desses fios. Dizemos “desenfreada”, porque ele próprio estava perfeitamente a par da insensatez de seu caso. Mas quem se encontra no estado a que ele chegara, ou melhor, em que estava a ponto de entrar, deseja que a outra parte tome conhecimento desse estado, ainda que a coisa não tenha nem pé nem cabeça. Isso é apenas humano.

Mme. Chauchat voltara-se duas ou três vezes, durante as refeições, para aquela mesa, ou por casualidade ou sob o efeito de algum magnetismo, e sempre dera com os olhos de Hans Castorp. Na quarta vez, fê-lo com premeditação, e de novo os encontrou atentos. Na quinta ocasião, não lhe surpreendeu o olhar, porque ele abandonara o seu posto de vigia. Mas Hans Castorp sentiu imediatamente que ela o observava, e seus olhos lhe responderam tão fervorosamente, que Mme. Chauchat, sorrindo, desviou o olhar. Se ela o julgava pueril, estava enganada. Sua necessidade de refinamento era considerável. Assim, na sexta vez, quando pressentiu, adivinhou, recebeu uma mensagem íntima de que ela o contemplava, fingiu examinar com insistente desgosto a cara pustulosa de uma senhora que se aproximara da sua mesa para falar com a tia-avó, e não desistiu disso antes de ter certeza de que os olhos “quirguizes”, lá do outro lado da sala, se haviam desviado dele – estranha comédia que Mme. Chauchat não somente podia mas até devia perceber, para que a sutileza e o autodomínio de Hans Castorp a fizessem refletir... E as coisas se adiantaram até o seguinte episódio: num intervalo entre dois pratos, Mme.

Chauchat virou-se indolentemente e inspecionou a sala. Hans Castorp estava no seu posto de vigia, e seus olhares entrechocaram-se. Enquanto se encaravam – a enferma de um modo vagamente escrutador e irônico, e Hans Castorp com uma firmeza excitada, que o fez cerrar os dentes, a fim de sustentar os olhos da mulher –, o guardanapo de Mme. Chauchat começou a

deslizar e já estava a ponto de cair ao chão. Estremecendo nervosamente, ela procurou agarrá-lo; mas o jovem também se sobressaltou, levantou-se da cadeira e fez menção de se precipitar cegamente em seu socorro, através do espaço de oito metros que os separava, e contornando uma mesa que estava de permeio, como se fosse uma catástrofe se o guardanapo chegasse a tocar o chão... Ela conseguiu ainda apanhá-lo, a poucos centímetros acima do assoalho. Mas nessa posição oblíqua, agachada, com a ponta do guardanapo entre os dedos e com o rosto anuviado, visivelmente aborrecida por aquele pequeno pânico absurdo que acabava de invadi-la, e do qual ela parecia culpar Hans Castorp – nessa atitude, pois, lançou ao jovem mais um olhar, observou como ele, com as sobrancelhas cerradas, se dispunha a atirar-se numa corrida, e esboçando um sorriso, virou-lhe as costas. Hans Castorp abandonou-se todo à sensação de triunfo que esse incidente originara nele. Mas a reação não se fez esperar, já que, no decorrer dos dois dias seguintes, quer dizer, durante dez refeições, Mme. Chauchat não se voltou para olhar a sala e até renunciou ao seu hábito de “apresentar-se” ao público no momento da entrada. Era duro. Como, porém, essas modificações na sua conduta indubitavelmente se endereçavam a ele, era evidente a existência de uma relação entre ambos, se bem que de forma negativa; e isto era o que lhe bastava.

Hans Castorp compreendia bem que Joachim tivera toda a razão ao observar que ali não era fácil travar conhecimento com outras pessoas, com exceção dos comensais. Pois, durante a escassa hora depois do jantar – a única que dava regularmente ocasião a uma espécie de vida social, mas amiúde se reduzia a uns vinte minutos – Mme. Chauchat achava-se sempre em companhia dos membros de seu círculo habitual, o cavalheiro de tórax côncavo, a mocinha humorística, com os cabelos lanosos, o taciturno Dr. Blumenkohl e os jovens de ombros caídos.

Todos eles ocupavam o fundo do pequeno salão que parecia reservado à mesa dos “russos distintos”. Acrescia a isso que Joachim nunca deixava de ter pressa de sair do salão, a fim de não abreviar o repouso, como dizia, e talvez também por outros motivos dietéticos que não mencionava, mas que Hans Castorp adivinhava e respeitava. Acabamos de tachar de

“desenfreados” os seus desejos, mas qualquer que fosse o seu rumo, o que ele almejava não eram relações sociais com Mme. Chauchat, e no fundo estava de acordo com as circunstâncias que se lhes opunham. As relações vagamente tensas que seus olhares e gestos haviam estabelecido entre ele e a russa não tinham caráter social, não obrigavam a nada e não deviam, de modo algum, obrigar. Era perfeitamente compatível com elas uma vasta série de argumentos reprovadores, da sua parte, e o fato de seu coração palpitar com o pensamento em “Clávdia” não era nem de longe suficiente para abalar no neto de Hans Lorenz Castorp a convicção de que entre ele e aquela estrangeira, que passava a vida separada do marido e sem aliança no dedo, em toda espécie de estações de cura, cuja postura deixava a desejar, que batia estrondosamente as portas, fazia bolinhas de migalhas de pão, e sem dúvida roia as unhas – a convicção, pois, de que entre ele e Mme. Chauchat não podia em realidade – isto é, fora dessas suas relações secretas – haver nada em comum; abismos profundos separavam a sua existência da dela, e ele sentia-se incapaz de enfrentar, ao lado de “Clávdia”, qualquer das autoridades que reconhecia. Hans Castorp era por demais sensato para ter a mínima presunção pessoal; mas uma altivez de natureza mais geral e de origem mais longínqua achava-se gravada na sua fronte e em torno dos olhos um tanto sonolentos, e o resultado dessa altivez era aquele sentimento de superioridade do qual o jovem não podia nem queria desfazer-se em presença do ser e do jeito de Mme. Chauchat. É estranho que esse sentimento de proveniência tão afastada se lhe tenha tornado consciente com uma intensidade particular, e possivelmente pela primeira vez, quando, um belo dia, ouviu Mme.

Chauchat falar em alemão. Achava-se ela na sala, depois do fim de uma refeição; estava de pé, com as mãos nos bolsos do suéter, e conversava com outra enferma, provavelmente uma companheira do alpendre de repouso. Ao passar por ela Hans Castorp percebeu os esforços, aliás encantadores, que ela fazia para lidar com o idioma alemão, a sua própria língua materna, como ele de repente notou com um orgulho nunca antes experimentado, embora ao mesmo tempo se

sentisse inclinado a sacrificar esse orgulho ao deleite que lhe inspiravam aquelas palavras graciosamente desfiguradas.

Numa palavra: na sua relação muda com esse membro negligente da sociedade do Berghof, não via Hans Castorp senão uma aventura de férias, que, perante o tribunal da Razão –

da sua própria consciência raciocinadora –, não podia reclamar nenhuma aprovação; antes de tudo, porque Mme. Chauchat estava enferma, lassa, febril e interiormente carcomida, circunstância estreitamente relacionada com o caráter duvidoso de toda a sua existência, e que também contribuía muito para inspirar a Hans Castorp certos sentimentos de distância e de reserva... Não, pretender seriamente entabular com ela relações reais era uma idéia que não lhe ocorria, e quanto àquela relação muda – ela acabaria, bem ou mal, dentro de semana e meia, quando começasse o seu estágio na Casa Tunder & Wilms.

Continuar: parte 2 de 3