A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 11 de 13 · parte 1/3

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A Montanha Mágica

– Naturalmente. Já é conhecido o seu…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Naturalmente. Já é conhecido o seu fraco pelas coisas asiáticas. É verdade que eu não lhe posso oferecer esse tipo de maravilhas – retrucou o Sr. Settembrini com tanta amargura que Hans Castorp se apressou a declarar que as vantagens da sua palestra e dos seus ensinamentos eram de ordem totalmente diferente, e que ninguém tinha a idéia de fazer comparações injustas para ambas as partes. Mas o italiano rejeitou e fez como se não ouvisse esses cumprimentos.

– Em todo caso – continuou –, deve o senhor permitir que eu admire a sua objetividade e a calma do seu espírito. Elas tocam as raias do grotesco, como o senhor deve admitir. Afinal de contas, esse bravateiro lhe surrupiou a sua Beatriz. Chamo as coisas pelos nomes. E o senhor?

Isso não tem precedentes...

– Há diferenças de temperamento, Sr. Settembrini. Diferenças quanto ao calor do sangue e ao cavalheirismo da raça. O senhor, como filho do sul, naturalmente recorreria ao veneno ou ao punhal, ou talvez desse ao caso um aspecto passional e convencional. Numa palavra, tudo acabaria numa rinha de galos. Isso seria, sem dúvida, muito viril, viril no sentido convencional, e muito galante. Mas comigo a coisa é diferente. Eu absolutamente não sou viril a ponto de ver num outro homem apenas o macho rival. Pode ser que eu não seja viril sob nenhum aspecto, mas tenho certeza de não o ser daquele modo que eu, sem querer, chamei de “convencional”, não sei por quê. No meu coração pachorrento pergunto-me a mim mesmo se existe alguma coisa de que eu possa censurar Peeperkorn. Será que ele me fez algum mal intencionalmente? Ofensas devem ser feitas de propósito, do contrário não são ofensas. E no que toca ao “fazer mal”, seria preciso que eu me ativesse a ela, e a isso não tenho direito. Não tenho direito em geral, e em especial não o tenho com relação a Peeperkorn. Pois, em primeiro lugar, é uma personalidade, o que de per si já é uma coisa que atrai as mulheres; e em segundo não é civil, como eu, e sim uma espécie de militar, como o pobre do meu primo; quer dizer, ele tem um point d’honneur, uma mania, que se refere ao sentimento, à vida... Estou dizendo tolices, mas prefiro desvairar um pouquinho e exprimir, mais ou menos claramente, uma idéia complicada, do que limitar-me a proferir lugares-comuns perfeitamente formulados. Quem sabe se isso não é uma espécie de traço militar do meu caráter, se assim se pode dizer...

– Diga-o – tornou Settembrini, sacudindo a cabeça em sinal de aprovação. – Isso é, inegavelmente, um traço digno de louvor. A coragem do conhecimento e da expressão, eis o que é a literatura, o espírito humano...

Nessas ocasiões, eles costumavam separar-se em bons termos. O Sr. Settembrini dava um fim conciliador a conversas desse gênero, e tinha excelentes razões para proceder assim. A sua própria posição absolutamente não era tão inatacável que houvesse sido prudente levar muito longe o rigorismo. Uma palestra que tivesse por assunto o ciúme constituía para ele terreno um tanto escorregadio. Num determinado ponto, o humanista deveria ter respondido que, em virtude da sua veia pedagógica, sua relação com o sexo masculino também não era inteiramente convencional e semelhante àquela dos galos, e que, por isso, o imponente Peeperkorn o atrapalhava da mesma forma como Naphta e Mme. Chauchat. E finalmente não podia escapar ali o seu discípulo da influência e da superioridade natural de uma personalidade, à qual nem ele mesmo nem o seu parceiro em assuntos cerebrais eram capazes de se subtrair.

A sua situação costumava melhorar quando se respirava uma atmosfera intelectual, quando havia discussões, quando era possível prender a atenção das pessoas que tomavam parte nos passeios a um daqueles seus debates elegantes e ao mesmo tempo apaixonados, acadêmicos e todavia conduzidos num tom que faria supor tratar-se de questões tremendamente atuais e vitais.

Essas contendas eram travadas quase exclusivamente pelos dois adversários, e enquanto duravam ficava neutralizada até certo ponto a presença da “grande envergadura”, que não as podia acompanhar senão alçando as rugas da testa em sinal de pasmo, e intercalando exclamações zombeteiras, porém abruptas. E mesmo sob essas circunstâncias exercia ela a sua peculiar pressão. Lançava uma sombra sobre a palestra, que assim se via diminuída no seu brilho. Privava-a da sua essência. De uma forma perceptível a todos, embora Peeperkorn não se desse conta de tudo isso, ou só o fizesse num grau dificilmente apreciável, a sua presença opunha à discussão algo que não favorecia nenhuma das duas causas, ofuscava a querela, que assim parecia desprovida de importância decisiva, e imprimia-lhe – mal nos atrevemos a dizê-lo – o cunho da futilidade. Ou, para formulá-lo de outra maneira: essa engenhosa luta de vida e morte relacionava-se secretamente, de um modo subterrâneo e indefinível, com a “grande envergadura”

que caminhava lado a lado com ela, e cujo magnetismo lhe absorvia a força. É impossível precisar mais claramente esse processo misterioso, bem desagradável para os dois antagonistas. Só se pode dizer que, não existisse Pieter Peeperkorn, teria sido muito mais difícil esquivar-se à necessidade de tomar partido, quando, por exemplo, Leo Naphta defendia a natureza total e basicamente revolucionária da Igreja contra a doutrina do Sr. Settembrini, o qual via nessa potência histórica unicamente a protetora da mais sinistra estagnação e do mais obscuro conservantismo, pretendia mostrar que todas as forças vivas e futurosas, dirigidas para a revolução e a reforma, se baseavam nos princípios opostos do esclarecimento, da ciência e do progresso, princípios oriundos de uma época gloriosa de renascimento da cultura antiga, e sustentava essa opinião por meio de gestos primorosos e palavras brilhantes. A isso respondeu Naphta fria e incisivamente. Afirmou ser capaz de demonstrar – e de fato o demonstrou com evidência quase deslumbrante – que a Igreja, como encarnação da idéia religioso-ascética, estava intimamente muito longe de ser partidária e amparo daquilo que queria persistir, isto é, da formação secular e das leis do Estado; que, pelo contrário, arvorava a bandeira da revolução mais radical, da revolução completa; que, de um modo geral, tudo o que se considerava digno de ser mantido e o que os tíbios, os covardes, os conservadores, os burgueses procuravam manter – o Estado, a família, a arte e a ciência seculares –, sempre estivera em oposição consciente ou inconsciente à idéia religiosa, à Igreja, cuja tendência inata e cujo objetivo inalterável eram a dissolução de tudo quanto existia de ordem secular e a reorganização da sociedade, segundo o modelo do Estado ideal e comunista de Deus.

Em seguida, Settembrini tomou a palavra, e soube aproveitá-la – e como soube! Tal confusão da idéia revolucionária, luciferiana, com a revolta geral de todos os maus instintos –

disse ele – era deplorável. O espírito inovador da Igreja consistira durante séculos inteiros em perseguir, por meio da Inquisição, o pensamento fecundo, em estrangulá-lo, em sufocá-lo na fumaceira dos holocaustos. Recentemente, porém, mandava os seus emissários declarar que simpatizava com a revolução, e afirmava ser seu objetivo substituir a liberdade, a cultura, a democracia, pela ditadura do populacho e pela barbárie. Sim, aquilo representava realmente um caso pavoroso de conseqüência contraditória ou de conseqüente contradição...

Naphta objetou que entre os argumentos do seu oponente não faltavam exemplos semelhantes de contradição e de incoerência. Embora o Sr. Settembrini se julgasse um democrata, revelava pouca simpatia pelo povo e pela igualdade; pelo contrário, manifestava a altivez censurável de um aristocrata, ao qualificar de populacho o proletariado universal, chamado a exercer a ditadura temporária. Mas era como autêntico democrata que evidentemente se comportava em face da Igreja, a qual, na verdade – era preciso admiti-lo com orgulho –, representava a potência mais nobre da história humana; nobre no sentido supremo e mais lato, no sentido espiritual. Pois o espírito ascético – se lhe permitiam empregar esse pleonasmo –, o

espírito da negação e do aniquilamento do mundo era a nobreza por excelência, o princípio aristocrático na sua forma mais pura. Esse espírito não poderia nunca ser popular, e, com efeito, também a Igreja sempre tinha sido impopular. Bastaria que o Sr. Settembrini se ocupasse um pouquinho com a cultura da Idade Média para que deparasse com esse fato, com a antipatia rude que o povo, na acepção mais ampla da palavra, sentia pelas coisas eclesiásticas. Existiam, por exemplo, entre as invenções da imaginação dos poetas populares, certas figuras de monges que, de modo bem luterano, opunham à idéia ascética o vinho, a mulher e o canto. Todos os instintos do heroísmo mundano, todo o espírito guerreiro, bem como a poesia cortesã, tinham sido adversários mais ou menos abertos da idéia religiosa e, por conseguinte, da hierarquia. Pois tudo isso fora o “mundo” e a mentalidade do populacho, em comparação com a nobreza do espírito, representada pela Igreja.

O Sr. Settembrini agradeceu ao seu antagonista por lhe ter refrescado a memória. A figura do monge Ilsan, no Jardim das rosas, tinha muitos traços simpáticos, em confronto com esse aristocratismo de tumba que acabava de ser apregoado. Embora ele, Settembrini, não fosse um partidário do reformador alemão ao qual se aludira, estava disposto a defender com o máximo ardor todo o individualismo democrático que formava a base da sua doutrina, contra quaisquer ambições eclesiástico-feudais de domínio sobre a personalidade.

– Vejam só! – exclamou Naphta. Porventura se queria acusar a Igreja de falta de espírito democrático e de compreensão do valor da personalidade humana? E que diziam da tão humana ausência de preconceitos no direito canônico? Ao passo que no direito romano a capacidade jurídica dependia da posse dos direitos civis, e no germânico, da nacionalidade e da liberdade pessoal, o direito canônico exigia apenas que o indivíduo pertencesse à Igreja e tivesse a verdadeira fé, libertando-se de todas as considerações políticas e sociais e declarando capazes de testar e de herdar os próprios escravos, prisioneiros de guerra e servos.

Settembrini observou causticamente que essa declaração talvez não houvesse sido feita, se não se tivesse secretamente em mira a porção “canônica” cobrada sobre cada herança. A seguir pôs-se a falar da “demagogia dos padrecos”. Chamou de “afabilidade”, peculiar à irrestrita ambição, a maneira como a Igreja punha em movimento o submundo, visto que os deuses, por motivos compreensíveis, nada queriam saber dele. Opinou que, evidentemente, ela ligava maior importância à quantidade das almas do que à sua qualidade, o que implicava uma grande falta de distinção espiritual.

A Igreja desprovida de distinção de espírito? Mas como? Que o Sr. Settembrini dirigisse a sua atenção para o aristocratismo inexorável em que se baseava a idéia da hereditariedade da tara, a transmissão de uma culpa grave para os descendentes que – democraticamente falando – eram inocentes, como acontecia no caso dos filhos naturais, sobre os quais pesavam o opróbrio vitalício e a privação de quaisquer direitos. Mas o italiano rogou que não se insistisse nesse ponto, uma vez que o seu sentimento humano se revoltava contra tal procedimento. Além disso estava farto de rodeios e reconhecia claramente nos truques da apologética do adversário o infame e diabólico culto do nada que pretendia ser considerado como espírito e fazia aparecer como algo de legítimo e de sagrado a confessada falta de popularidade do princípio ascético.

A essa altura, Naphta pediu licença para dar uma estrondosa gargalhada. Falava-se de um niilismo da Igreja! Do niilismo do sistema de governo mais realista de toda a história universal! O

Sr. Settembrini, acaso, nunca sentira o sopro da ironia humana mediante a qual a Igreja constantemente fazia concessões ao mundo e à carne, ocultando, com prudente transigência, as derradeiras conseqüências do princípio, e deixando reinar o espírito como influência reguladora, sem tratar a natureza com excessivo rigor? Não ouvira tampouco falar desse elegante conceito eclesiástico que era a indulgência, a qual incluía até mesmo um sacramento, o do matrimônio, que, ao contrário dos demais sacramentos, não era um bem positivo, senão apenas uma proteção contra o pecado, outorgada unicamente para restringir os desejos sensuais e a intemperança, de maneira que se conservava o princípio ascético, o ideal da castidade, sem que se opusesse à carne uma severidade pouco política?

Diante disso, o Sr. Settembrini não podia deixar de protestar contra essa concepção abominável da “política” e contra o gesto presunçoso de condescendência e sisudez que se arrogava o espírito, ou melhor, aquilo que nesse caso se julgava por tal, e que era usado com relação ao seu contrário. Pretendia-se que esse contrário era pejado de culpa e tinha de ser tratado

“politicamente”; mas em realidade não precisava daquela indulgência peçonhenta. A seguir, o humanista investiu contra o maldito dualismo de uma interpretação do mundo, que diabolizava o universo, a vida tanto como o seu imaginário oposto, a saber, o espírito. Pois, desde que aquela era ruim, necessariamente o era também este, por ser a mera negação. E ele quebrou lanças em defesa da inocência da volúpia – o que fez Hans Castorp pensar naquele cubículo de humanista, no sótão, com a papeleira, as cadeiras de palha e a garrafa de água. Naphta, por sua vez, afirmou que a volúpia jamais podia ser livre de culpa, e exigiu da natureza que em face do espírito ela sentisse um peso na consciência. Definiu a política eclesiástica e a indulgência do espírito como sendo “o amor”, a fim de refutar o niilismo do princípio ascético (e Hans Castorp teve a impressão de que a palavra “amor” formava um estranho contraste com a cara daquele homem magrinho e sutil que era o pequeno Naphta...).

A discussão prosseguia nesse tom. Conhecemos o jogo, e também Hans Castorp o conhecia. E nós, como ele, escutamos por alguns instantes, para observar as formas que assumia tal luta peripatética à sombra da personalidade que passeava ao lado dos digladiantes, e de que maneira mal perceptível essa presença emasculava os debates. Era como se uma secreta coação os obrigasse a relacionar-se com ela e apagasse assim a faísca que saltava de um a outro interlocutor; impunha-se a reminiscência daquela sensação de desanimadora falta de vida que experimentamos, quando está interrompida a corrente elétrica. Era mesmo assim. As contradições já não produziam nem crepitação, nem chispas, nem contato; a presença neutralizava o espírito, ao invés de ser neutralizada por ele; Hans Castorp verificou esse fato com surpresa e curiosidade.

Revolução e conservação! E os olhares fixavam-se em Peeperkorn; via-se como ele avançava a passo lerdo. Não era bom marchador, com o seu andar oscilante para os lados, e com o chapéu desabado na testa. Moviam-se os lábios amplos, irregulares e gretados, e ouvia-se como ele, apontando humoristicamente com a cabeça em direção aos adversários, dizia: “Pois é, pois é... Cerebrum, cerebral; compreendem? Isso é... Nisso se manifesta...” E vejam só: não havia corrente na chave de luz. Os antagonistas faziam nova tentativa; lançavam mão de exorcismos mais fortes; começavam a falar do “problema aristocrático”, da popularidade e da distinção. Não saltava nenhuma faísca. Como por influência magnética, a conversa tomava um caráter pessoal.

Vinha então a Hans Castorp a imagem do companheiro de viagem de Clávdia, estendido sobre a cama, debaixo da colcha vermelha, na sua camisola de malha, desprovida de gola, metade operário velho, metade busto de um rei – e numa convulsão débil extinguia-se a vida da discussão. Outras tensões mais fortes! De um lado a negativa, o culto do nada, e do outro o eterno “sim”, a inclinação afetuosa do espírito para a vida! Mas onde ficavam a vida, a chispa, a corrente, quando se encarava Peeperkorn, o que sucedia inevitavelmente, mercê de uma secreta atração? Numa palavra, elas permaneciam ausentes, e isto era, para empregar o termo de Hans, nada mais nada menos que um mistério. Para o seu livro de aforismos podia ele anotar que se deve expressar um mistério pelas palavras mais simples possíveis ou deixar de expressá-lo. Quem fizesse uma vaga tentativa de formulá-lo poderia afirmar exclusiva, mas decididamente, que Pieter Peeperkorn, com sua máscara enrugada de soberano e sua boca dolorosamente gretada, era sempre ambas as coisas, que ambas as coisas se aplicavam à sua pessoa e nela pareciam anuladas a todos os que o viam; era isto e aquilo, um e outro. Pois sim, esse velho estúpido, esse zero majestoso! Ele é que paralisava a energia dos argumentos, não, porém, por meio de confusões e chicanas como Naphta. Peeperkorn não era ambíguo à maneira do jesuíta; era-o de modo totalmente oposto, positivo – ele, esse mistério cambaleante, patentemente ultrapassara os limites não só da estupidez e da argúcia, mas também os de muitos outros binômios, aos quais recorriam Settembrini e Naphta, a fim de produzir a alta tensão necessária para os seus fins pedagógicos. A personalidade – tinha-se essa impressão – carecia de caráter educador, e contudo, quantas

oportunidades não oferecia a quem viajava em busca de formação! Que coisa estranha observar essa ambigüidade na figura de um rei, na ocasião em que os digladiantes começavam a falar do casamento e do pecado, do sacramento da indulgência, da culpabilidade e da inocência da volúpia! Peeperkorn inclinava a cabeça para o ombro e o peito; descerravam-se-lhe os lábios doloridos; numa expressão de langoroso lamento fendia-se-lhe a boca, enquanto as narinas se distendiam e alargavam como sob o efeito de alguma dor; as rugas da fronte subiam e os olhos assim dilatados lançavam olhares incertos, cheios de sofrimento; era a imagem perfeita da amargura. Mas, eis que num instante o semblante de mártir se abria, se tornava sensual! A inclinação oblíqua da cabeça modificava o seu sentido, começava a significar malícia; os lábios, ainda entreabertos, esboçavam um sorriso pouco pudico; a covinha de sibarita, que conhecemos em outras ocasiões, ressurgia numa das bochechas; e já estava ali o sacerdote pagão a dançar.

Enquanto a cabeça apontava humoristicamente para o lado daqueles homens cerebrais, ouvia-se como ele dizia: “Ah, sim! Pois é, pois é. Perfeitamente. Isto é... Isto são... Nesse caso manifesta-se... O sacramento da volúpia; compreendem?...”

Mas, como já mencionamos, os amigos e mentores de Hans Castorp, embora prejudicados, achavam-se numa situação relativamente favorável, sempre que podiam discutir.

Nessas ocasiões estavam no seu elemento, ao passo que o contrário se dava com a “grande envergadura”, e quanto ao papel que Peeperkorn então representava, podia, afinal de contas, haver opiniões diferentes. Era, entretanto, indiscutível que a posição dos dois adversários se tornava menos favorável, quando já não se tratava de engenho, de palavras, de spiritus, senão de objetos reais, de assuntos terrenos, práticos, numa palavra, de questões e de coisas diante das quais uma natureza de soberano costuma ser posta à prova. Quando isso sucedia, estavam liquidados, sumiam-se na sombra, pareciam insignificantes, e Peeperkorn apossava-se do cetro, determinava, resolvia, dava ordens, encomendava, delegava... Não é de admirar que se empenhasse em obter esse estado de coisas e em sair da logomaquia para chegar a ele. Sofria enquanto ele perdurava, ou, pelo menos, quando se prolongava. Mas o que o fazia sofrer não era vaidade; disso Hans Castorp tinha certeza. A vaidade não possui grande envergadura, e a grandeza não é vaidosa. Não, o desejo de realidade que experimentava o holandês brotava de fontes muito diversas: do “medo”, para dizê-lo de forma grosseira e exagerada; daquele senso do dever e daquela mania do pundonor, que Hans Castorp procurara explicar ao Sr. Settembrini e considerara uma espécie de traço militar.

– Meus senhores – dizia o holandês, erguendo a mão de capitão com as unhas pontudas, num gesto imperioso e insistente. – Muito bem, senhores, perfeitamente, ótimo! A ascese, a indulgência, o prazer dos sentidos. Quanto a isso, eu queria... Absolutamente. Muitíssimo importante! Bem discutível! Mas permitam... Receio que estejamos a ponto de cometer...

Esquivamo-nos, senhores, esquivamo-nos de um modo imperdoável ao mais sagrado... – E

respirando profundamente acrescentou: – Esse ar, senhores, o ar característico deste dia de Föhn, com sua dose de aroma primaveril, cheio de pressentimentos e de recordações, que delicadamente nos entibia... Não deveríamos aspirá-lo, só para soltá-lo em forma de... Insisto, senhores, não deveríamos fazer isso. É um insulto. É unicamente a ele que se deveria dedicar toda a nossa... a suprema e a mais intensa... Basta, senhores! E o nosso peito que o respira deveria louvar irrestritamente... Detenho-me, senhores, detenho-me em homenagem a esse... – Detinha-se; inclinava-se para trás, com o chapéu dando sombra aos olhos, e todos lhe imitavam o exemplo. – Chamo a sua atenção – prosseguia o holandês – para as alturas, essas grandes alturas, onde gira aquele ponto negro, no meio desse delicado azul que puxa para o preto... É uma ave de rapina, uma enorme ave de rapina. É, se não me engano muito... Meus senhores, e você, minha filha, é uma águia. É sobre ela que chamo decididamente... Olhem! Isto não é nem gavião nem abutre... Se os senhores fossem tão presbitas como eu, na minha avançada... Pois sim, minha filha, na minha avançada... Meus cabelos são brancos; como não? Bem, os senhores veriam tão nitidamente como eu, pela curva obtusa das asas... Uma águia, senhores. Uma águia real.

Diretamente acima de nós descreve os seus círculos. Sem bater as asas adeja em alturas

grandiosas por cima das nossas... Decerto nos espia com seus olhos poderosos, que enxergam ao longe, sob os ossos salientes das órbitas... A águia, senhores, a ave de Júpiter, o rei da sua estirpe, o leão dos ares! Usa calças de plumas e um bico de ferro, curvo na ponta, e tem garras de uma força incrível, dobradas para dentro, de maneira que as traseiras, muito compridas, passam por cima das dianteiras como um gancho férreo. Olhem, é assim! – E a mão de capitão com as unhas compridas esforçava-se por representar as garras da águia. – Compadre, por que andas girando e espiando? – continuava, voltando-se para a ave. – Desce! Crava o bico de aço na cabeça e nos olhos do homem, dilacera-lhe o ventre, àquela criatura que Deus te... Perfeitamente! Basta! Tuas garras devem enredar-se nas entranhas, e o sangue, gotejar do teu bico...

Falava com entusiasmo. Sumira o interesse dos companheiros pelas antinomias de Naphta e Settembrini. Além disso, a visão da águia continuou influenciando silenciosamente as decisões e as iniciativas que se seguiram, sob a direção de Mynheer. Entraram num restaurante, comeram e beberam, completamente fora de hora, mas com um apetite inflamado pela tácita recordação da águia. Houve um banquete e uma bebedeira daquele tipo que Mynheer freqüentemente organizava, também fora do Berghof, onde quer que se encontrassem, em Platz ou na “aldeia”, ou numa estalagem de Glaris ou de Kloters aonde haviam ido num trenzinho de excursão. Sob as suas ordens de soberano, consumiam então dádivas clássicas, como café com creme, acompanhado de pães rústicos, de suculentos queijos e da aromática manteiga dos Alpes, que conservava o mesmo sabor excelente quando servida com castanhas assadas. Tudo isso era regado a vinho tinto de Valtelina, que se tomava à vontade. Peeperkorn temperava os manjares improvisados com grandiosos e abruptos discursos, ou convidava Anton Karlovitch Ferge a falar, esse sofredor bonachão, alheio a quaisquer assuntos sublimes, mas que sabia contar coisas realísticas sobre a fabricação de galochas na Rússia: a massa de borracha era mesclada de enxofre e de outras substâncias, e os sapatos acabados, cobertos de uma camada de verniz, eram

“vulcanizados” a uma temperatura de cem graus. Também tratava do círculo polar, onde estivera diversas vezes no decorrer das suas viagens de negócios. O sol da meia-noite e o inverno constante da região do cabo Norte eram descritos em palavras que brotavam da garganta nodosa, de sob o bigode hirsuto. Ali – narrava Ferge – o vapor aparecia minúsculo em confronto com os imensos rochedos e a vastidão do mar azul-ferrete. Zonas amareladas de luz estendiam-se por sobre o céu; a luz da aurora boreal. E tudo isso causara a ele, Anton Karlovitch, uma impressão fantasmagórica, tanto a paisagem como a sua própria presença no meio dela.

Assim falava o Sr. Ferge, a única personagem do nosso pequeno grupo que se achava fora da rede de relações que ligavam os outros entre si. Quanto a estas relações, porém, convém relatar dois breves diálogos, duas conversas estranhas que, a essa altura dos acontecimentos, o nosso herói pouco heróico manteve com Clávdia Chauchat e com o seu companheiro de viagem, cada qual em separado; uma no vestíbulo, à noite, enquanto o “obstáculo” se achava acamado com febre, no seu quarto, e a outra, de tarde, à cabeceira do leito de Mynheer...

Àquela noite, o vestíbulo achava-se envolto em penumbra. A costumeira reunião tinha sido breve e pouco animada. Já muito cedo os pensionistas se haviam recolhido aos compartimentos de sacada, para o repouso noturno, exceção feita daqueles que trilhavam caminhos proibidos pelo regulamento, em direção ao “mundo”, onde se dançasse ou jogasse.

Uma lâmpada solitária continuava acesa em qualquer parte do teto do recinto abandonado, e também as saletas contíguas estavam quase completamente escuras. Hans Castorp sabia, porém, que Mme. Chauchat, depois de ter jantado sem a companhia do seu senhor, ainda não regressara ao primeiro andar, mas se demorava na sala de leitura. Por esse motivo também ele hesitara em subir. Encontrava-se na parte dos fundos do vestíbulo, um degrau mais alta do que o resto, e separada do recinto principal por alguns arcos brancos, que repousavam sobre pilares forrados de madeira. Estava sentado junto à lareira revestida de azulejos, numa cadeira de balanço igual àquela na qual se embalara Marusja, enquanto Joachim conversava com ela a primeira e única vez.

Fumava um cigarro, o que a essa hora era a rigor permitido.

Ela vinha chegando. Hans Castorp ouviu-lhe os passos, ouviu atrás de si o farfalhar do vestido. Abanando-se com uma carta que segurava num canto, Mme. Chauchat pôs-se ao lado do jovem e disse naquela sua voz de Pribislav:

– O concierge já se foi. Dê-me um timbre-poste.

Trajava, àquela noite, um vestido leve, de seda escura, com um decote redondo e com mangas amplas, cujos punhos abotoados se estreitavam em torno dos pulsos. Era um vestido de que Hans Castorp gostava especialmente. Clávdia se adornara com o colar de pérolas que esplendia palidamente no crepúsculo. Ele ergueu os olhos, e fitando o rosto de quirguiz, disse:

– Timbre? Não tenho.

– Mas como? Não tem? Tant pis pour vous. Não está preparado para ser útil a uma senhora?

– Fez uma careta de desdém e deu de ombros. – Isso me decepciona. Vocês, pelo menos, deveriam ser pessoas eficientes a quem se pudesse sempre recorrer. Eu imaginava que o senhor tivesse, numa repartição da sua carteira, uns blocos bem dobrados de todos os tipos de selos, classificados segundo os valores.

– Não. Para quê? – respondeu ele. – Nunca escrevo cartas. A quem as dirigiria? Às vezes, mas só raramente, mando um cartão-postal que já se compra selado. A quem poderia eu remeter uma carta? Não tenho mais nenhuma relação com a planície. Perdi o contato. No nosso cancioneiro popular temos uma canção que diz: “Estou perdido para o mundo”. É o meu caso.

– Bem, então dê-me um cigarro, seu homem perdido – disse ela. Sentou-se à sua frente, ao pé da lareira, num banquinho coberto com uma almofada. Cruzou as pernas e estendeu uma das mãos. – Parece que o senhor tem. – E displicentemente, sem dizer “obrigada”, tirou da caixinha de prata o cigarro que Hans Castorp lhe oferecia, e do mesmo modo serviu-se do isqueiro dele, cuja chama se levantava próxima do seu rosto inclinado para a frente. Na indolência desse “dê-me” e nesse jeito de aceitar sem agradecer revelaram-se a incúria da mulher mimada e, ao mesmo tempo, o senso da camaradagem humana e da propriedade comum, a naturalidade enérgica e todavia meiga dos atos de dar e de receber. Hans Castorp criticou essa atitude na sua alma amorosa. Depois disse em voz alta:

– Sim, cigarros tenho sempre. Realmente, nunca deixo de andar munido deles. É coisa que se precisa ter. Como seria possível passar sem fumar? Isso se chama uma paixão, não é?

Francamente, não sou um homem passional, mas tenho algumas paixões, paixões fleumáticas.

– Tranqüiliza-me extraordinariamente – disse ela, soltando, ao falar, uma baforada – saber que o senhor não é homem passional. Aliás, como poderia ser? Do contrário, o senhor seria diferente dos outros da sua espécie. Paixão é viver por amor à vida. Mas é coisa sabida que vocês vivem por amor à experiência. Paixão significa esquecer-se de si próprio. Mas tudo o que vocês desejam é enriquecer. C’est ça. E o senhor absolutamente não se dá conta de que isso constitui um egoísmo abominável que um dia fará de vocês os inimigos da humanidade?

– Ora, ora! Logo os inimigos da humanidade? Que é que dizes aí, Clávdia, de uma forma tão generalizada? Em que coisas concretas e pessoais estás pensando, ao afirmar que nós não nos empenhamos em viver, mas só em enriquecer? Vocês, mulheres, não costumam pregar moral assim a esmo. Ah, essa história da moral! Isto é antes um tema de discussão para Naphta e Settembrini. Isso nos leva ao terreno da grande confusão. Nem a própria pessoa sabe se vive por amor a si própria ou por amor à vida, e ninguém pode dizê-lo com precisão e com certeza. Eu acho que os limites são móveis. Existe uma abnegação egoística e um egoísmo abnegado... Creio que é mais ou menos a mesma coisa como no caso do amor. Indiscutivelmente é contrário à moral que eu seja incapaz de prestar atenção ao que me dizes a respeito dela, mas me sinto antes de mais nada feliz por estarmos reunidos, assim como nos achamos uma única vez, e como nunca nos encontramos desde o teu regresso. E que eu te possa dizer que esses punhos justos te assentam às mil maravilhas, e essa seda transparente que flutua ampla ao redor dos teus braços...

desses braços que eu conheço...

– Já me vou.

– Não vás, por favor! Terei em consideração as circunstâncias e as personalidades.

– É o menos que se pode esperar de um homem sem paixão.

– Estás vendo? Fazes troça de mim e ralhas comigo, se eu... E queres ir embora, quando eu...

– Rogo-lhe o favor de falar de forma menos incoerente, se quiser ser compreendido.

– Então não poderei tirar nenhum proveito da habilidade que tens em adivinhar incoerências? É injusto, diria eu, se não compreendesse que aqui não se trata de justiça...

– Não, senhor. A justiça é uma paixão fleumática. Ao contrário do ciúme, que torna inevitavelmente ridículas as pessoas fleumáticas.

– Estás vendo? Ridículas. Então tolera a minha fleuma. Repito: como poderia eu passar sem ela? Sem ela, como poderia ter suportado essa espera?

– Como disse?!

– Essa espera por ti.

– Voyons, mon ami. Não quero perder tempo criticando a forma de tratamento de que o senhor, com uma obstinação absurda, se serve para comigo. Acho que há de se cansar disso, e eu, afinal de contas, não me ofendo facilmente, não sou nenhuma burguesa indignada...

– Não, porque estás enferma. A doença te confere a liberdade. Torna-te... Espera, agora me ocorre uma palavra que nunca ainda empreguei: torna-te genial!

– Deixemos a genialidade para outra ocasião! Não era isso o que eu queria dizer. Exijo uma única coisa. Não pretenda que eu, de uma forma ou outra, seja culpada da sua espera, se é que realmente esperou; que haja sido encorajado por mim para tal atitude, ou apenas que eu o tenha autorizado a agir assim. O senhor deve admitir, sem rodeios, que se deu precisamente o contrário...

– Com muito prazer, Clávdia. Como não! Não me mandaste esperar. Esperei por livre e espontânea vontade. Compreendo perfeitamente que ligues importância a isso...

– Até as suas concessões têm qualquer coisa de impertinente. Geralmente falando, o senhor é homem impertinente, sabe Deus por quê. Não só nas suas relações comigo, mas também noutras circunstâncias. Mesmo na sua admiração e na sua humildade há algo de impertinente. Não pense que não percebo! Nem me convém falar com o senhor, de uma vez por todas, por causa da sua impertinência e também porque se atreve a me falar da sua espera. É

imperdoável que ainda se encontre aqui. Há muito tempo que deveria ter voltado para o seu trabalho, sur le chantier, ou onde quer que fosse...

– Agora estás falando sem genialidade e de modo totalmente convencional, Clávdia. Isso não passa de um lugar-comum. Tu não podes ter a mesma opinião que Settembrini, e que outro sentido poderiam ter as tuas palavras? Tu as disseste sem pensar; não as posso levar a sério. Eu não partirei “em falso” como o coitado do meu primo, que morreu, assim como previste, quando tentava cumprir o seu dever na planície. Talvez soubesse que morreria, mas preferiu a morte ao regime do tratamento. Muito bem, para isso era soldado. Mas eu não sou; sou civil. No meu caso seria deserção se me comportasse como ele e fizesse questão, apesar dá proibição de Radamanto, de me dedicar lá embaixo ao progresso e a outras coisas úteis. Isso seria a mais profunda das ingratidões e a maior infidelidade para com a doença e o gênio, e também para com o meu amor a ti, do qual tenho cicatrizes antigas e feridas recentes, e para com os teus braços que conheço, se bem que deva admitir que foi apenas num sonho, num sonho genial, que travei conhecimento com eles, de maneira que daí não resulta, naturalmente, para ti nenhuma conseqüência, nenhum compromisso, nenhuma restrição da liberdade...

Ela riu, com o cigarro na boca, a ponto de se contraírem os olhos tártaros. Reclinou-se ao forro de madeira, apoiando as mãos no banquinho; com as pernas cruzadas, balouçava o pé calçado com um sapato preto de verniz.

– Quelle générositê! Oh là, là, vraiment, meu pobre pequeno, é exatamente assim que eu sempre imaginei un homme. de génie!

– Deixa disso, Clávdia. Claro que por natureza não sou nenhum homme. de génie, como não sou tampouco um homem de grande envergadura. Não, meu Deus! Mas o acaso – dize que foi o

acaso – levou-me muito alto, até essas regiões geniais... Numa palavra, talvez não saibas que existe uma coisa que se chama pedagogia alquimístico-hermética, a transubstanciação, rumo ao mais sublime, e por conseguinte uma ascensão, se bem me compreendes. Mas é óbvio que a matéria suscetível de ser impelida e empurrada, por influências exteriores, em direção a uma esfera mais elevada, necessita para isso ter certas qualidades próprias. E quanto às qualidades que eu possuía, sei muito bem que eram as seguintes: desde muito tempo estava familiarizado com a doença e com a morte, e já nos meus tempos de menino cometi o disparate de te pedir emprestado um lápis, tal como se deu aqui naquela noite de carnaval. Mas o amor disparatado é genial, pois a morte – sabes? – é o princípio genial, a res bina, o lapis philosophorum, e é também o princípio pedagógico, uma vez que o amor a ela conduz ao amor à vida e ao homem. É realmente assim; descobri-o no meu compartimento de sacada, e me sinto feliz por ter uma ocasião de te dizer isso. Há dois caminhos que conduzem à vida: um é o caminho ordinário, direto e honrado; o outro é mau, passa pela morte, e este é o caminho genial.

– És um filósofo abstruso – disse ela. – Não pretendo compreender todos esses teus pensamentos confusos e alemães; mas eles soam humanos, e certamente és um bom rapaz.

Doutro lado te comportaste en philosophe, Não há como negá-lo.

– Excessivamente en philosophe, para o teu gosto; não é, Clávdia?

– Deixa de impertinências! Isso começa a ficar maçante. Essa coisa de esperar foi estúpida e ilícita. Mas não me queres mal porque esperaste em vão?

– Hum, foi um pouco duro, Clávdia, mesmo para um homem de paixões fleumáticas.

Duro para mim e duro da tua parte, por teres chegado na companhia dele; pois sabias naturalmente por intermédio de Behrens que eu estava aqui à tua espera. Mas eu já te disse que só a considero uma noite de sonho, essa nossa noite, e que te concedo a tua liberdade. Afinal de contas não esperei em vão, já que estás novamente aqui; estamos sentados um perto do outro, como aquela outra vez; ouço a maravilhosa aspereza da tua voz, que há tanto tempo é familiar ao meu ouvido, e sob essa seda flutuante estão os teus braços que conheço – embora lá em cima se ache num ataque de febre o teu companheiro de viagem, o grande Peeperkorn que te deu essas pérolas...

– E com o qual manténs boas relações para o teu próprio proveito.

– Não leves isso a mal, Clávdia! Também Settembrini censurou-me pelo mesmo motivo, mas essa mentalidade não passa de um preconceito convencional. Aquele homem é uma aquisição valiosa. É uma personalidade, ora essa. Que sua idade já seja avançada, vá lá. Mesmo assim acho bem compreensível que tu, como mulher, o ames loucamente. Tens muito amor a ele?

– Rendo homenagem ao teu espírito de filósofo, meu pequeno Hans alemão – disse ela, acariciando-lhe o cabelo –, mas nem por isso acho humano falar-te do amor que tenho por ele.

– Ora, Clávdia, por que não? Creio que o humano começa onde os homens sem gênio pensam que ele termina. Falemos tranqüilamente dele! Tu o amas com paixão?

Ela inclinou-se para a frente, a fim de jogar na lareira o cigarro acabado. Deixou-se então ficar com os braços entrelaçados.

– Ele me ama – respondeu – e seu amor faz com que eu me sinta orgulhosa, grata e dedicada a ele. Tu deves compreender isso, ou não serias digno da amizade que te concede... Seu sentimento obrigou-me a segui-lo e a servi-lo. Como poderia ser diferente? Julga tu mesmo!

Achas humanamente possível desprezar os sentimentos dele?

– É impossível – confirmou Hans Castorp. – Não, é lógico que isso não entrava na questão. Que mulher seria capaz de desprezar os sentimentos dele, o temor por esses sentimentos, e de abandoná-lo, por assim dizer, no Getsêmani?

– Não és nada bobo – disse ela, e seus olhos oblíquos imobilizaram-se numa expressão pensativa. – És inteligente. O temor pelos sentimentos...

– Não se precisa muita inteligência para compreender que tinhas de segui-lo, ainda que –

ou melhor, porque – no seu amor deve haver muita coisa angustiante.

– C’est exact... Angustiante... A gente tem muitas preocupações por causa dele, sabes? e muitas dificuldades... – Ela pegara a mão do jovem e brincava inconscientemente com as articulações. Mas de repente ergueu o olhar e, com o cenho carregado, perguntou:

– Um momento! Não achas infame falarmos sobre ele desta maneira?

– De modo algum, Clávdia. Não, longe disso! É apenas humano. Tu gostas dessa palavra, que arrastas com uma ênfase fanática. Sempre me interessa ouvi-la pronunciada pela tua boca.

Meu primo Joachim detestava-a por motivos militares. Dizia que ela significava indolência e negligência geral, e quando a considero sob esse aspecto, como um irrestrito guazzabuglio de tolerância, também eu não posso deixar de fazer algumas objeções; isso admito francamente. Mas quando ela expressa liberdade, genialidade, bondade, é uma grande coisa, e, segundo me parece, não faz mal que a empreguemos a favor da nossa conversa sobre Peeperkorn e sobre as preocupações e as dificuldades que ele te causa. Claro que elas são a conseqüência da sua mania de pundonor, do medo de que o sentimento possa fracassar, esse medo que o faz amar tanto as dádivas clássicas e os meios de se regalar. Podemos falar disso com toda a reverência, pois nele tudo tem grande envergadura, a envergadura grandiosa de um rei, e nós não aviltamos nem a ele nem a nós próprios fazendo reflexões humanas sobre esse assunto.

Continuar: parte 2 de 3