A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 2 de 13 · parte 1/3

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A Montanha Mágica

Ademais, esse tipo de conversa costuma ser…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Ademais, esse tipo de conversa costuma ser bem recebido pela maioria, pois serve de distração.

– Você acha possível – indagou Hans Castorp – que ele ponha em prática aquele

“processo facílimo”, como o chama, e enxerte no corpo um “corpo estranho”?

– Por que não? – respondeu Joachim. – Impossível não é. Essas coisas acontecem aqui.

Dois meses antes da minha chegada, um estudante, que estava no sanatório havia muito tempo, enforcou-se no mato, logo depois de um exame geral. Nos primeiros dias da minha estada, falavam muito do incidente.

Hans Castorp bocejou nervosamente.

– Hum! Não me sinto bem entre vocês – declarou. – Francamente, talvez nem possa ficar aqui, sabe? e me veja obrigado a partir. Você não me levaria a mal?

– Partir? Que idéia é essa? – gritou Joachim. – Tolice! Mal acaba de chegar. Como quer formar uma opinião logo no primeiro dia?

-meu Deus! É ainda o primeiro dia? Já me parece que estou aqui há muito, muito tempo...

– Por favor, não volte a filosofar sobre o tempo! – disse Joachim. – Hoje de manhã me deixou todo confuso.

– Não se preocupe, já esqueci tudo isso – tornou Hans Castorp. – Todo o vasto complexo. Não tenho mais nenhuma sutileza na cabeça. Aquilo passou... Então, haverá chá agora?

– Sim, e depois caminharemos até o mesmo banco da manhã.

-se Deus quiser. Tomara que a gente não encontre o Settembrini. Sou incapaz de tomar parte numa conversa erudita; isso lhe digo desde já.

Na sala de refeições, serviam-se todas as bebidas adequadas a essa hora. Miss Robinson tomava novamente o seu chá de roseira brava, vermelho como sangue, enquanto a sobrinha engolia colheradas de iogurte. Além disso havia leite, chá, café, chocolate e mesmo caldo de carne. Por toda parte, os hóspedes, que haviam passado deitados as duas horas após o reforçado almoço, achavam-se ocupados em passar manteiga em grandes fatias de cuca entremeada de passas.

Hans Castorp pediu chá e embebeu um biscoito nele. Experimentou também um pouco de geléia. Examinou atentamente a cuca com passas, mas estremeceu diante da idéia de comer aquilo. Mais uma vez – a quarta – achava-se sentado no seu lugar, na sala das sete mesas, com a abóbada singelamente pintada. E um pouco mais tarde, às horas, encontrava-se ali pela quinta vez, por ocasião do jantar. O intervalo, curto e insignificante, fora preenchido por um passeio até aquele banco encostado na vertente da montanha, próximo do curso d'água, pelo caminho que a essa hora estava muito freqüentado por pensionistas, de maneira que os dois primos tiveram de cumprimentar muita gente. Seguira-se ainda um repouso na sacada, de uns noventa minutos, fugazes e pouco substanciais.

Para o jantar, mudou cerimoniosamente de traje. Comeu então -sentado entre Miss Robinson e a professora – sopa Julienne, carne frita com legumes, dois pedaços de uma torta que continha simplesmente tudo – amêndoa, creme de manteiga, chocolate, confeitos e maçapão –, bem como um excelente queijo acompanhado de pão integral. Novamente mandou vir uma garrafa de cerveja de Kulmbach. Mas, após ter bebido metade do alto copo, percebeu nitidamente que o lugar que lhe convinha era a cama. A cabeça lhe zunia; suas pálpebras pesavam feito chumbo; o coração batia qual um pequeno timbale e para aumentar a sua tortura, imaginava que a bela Marusja, que inclinando-se para a frente, escondia o rosto na mão adornada com rubi, estava se rindo à sua custa, se bem que ele tivesse feito todos esforços possíveis para não lhe dar motivos. De muitíssima distância ouviu também a Srª. Stöhr contar ou afirmar alguma coisa, que parecia a tal ponto disparatada, que já não atinava com certeza se o seu ouvido o enganava ou se, porventura, as palavras da Srª. Stöhr convertiam em absurdos no seu próprio cérebro. Afirmava

ela saber preparar vinte e oito diferentes espécies de molhos para peixe, e ter coragem de se gabar desses conhecimentos, ainda que seu marido lhe tivesse desaconselhado mencioná-los. “Ninguém vai acreditar, e quem acreditar achará a coisa ridícula”. E no entanto queria quebrar o silêncio e professar abertamente que era de fato capaz de preparar vinte e oito espécies de molhos para peixe. Isso pareceu pavoroso ao pobre Hans Castorp. Espantou-se, levou a mão à testa e esqueceu-se por completo de mastigar e deglutir um bocado de queijo Chester com pão integral que tinha na boca. Ainda não o engolira, nem quando se levantou da mesa.

Saíram pela porta envidraçada da esquerda, aquela porta infeliz que sempre se fechava com estrondo e dava diretamente para o vestíbulo. Quase todos os pensionistas tomaram esse caminho. Parecia que era costume realizar, após o jantar, uma espécie de reunião no vestíbulo e nos salões adjacentes. A maioria dos pacientes mantinha-se de pé, conversando em pequenos grupos. Jogava-se em torno de duas mesas dobráveis, forradas de verde, numa o dominó noutra o bridge; desse último jogo participavam somente pessoas jovens, entre elas o Sr. Albin e Hermine Kleefeld. No primeiro salão havia alguns aparelhos ópticos, destinados a divertir os hóspedes: um estereoscópio, através de cujas lentes se enxergavam fotografias colocadas no seu interior, como, por exemplo, um gondoleiro veneziano de uma plasticidade rígida e sem vida. Em segundo lugar existia ali um caleidoscópio em forma de óculo, a cuja lente se apoiava a vista, enquanto se acionava devagar uma roda denteada, a fim de desencadear uma fantasmagoria multicor e sempre variada de estrelas e arabescos. E finalmente, um tambor giratório, no qual eram introduzidas fitas cinematográficas, e por cujas fendas, abertas dos lados, podia-se ver um moleiro brigando com um limpa-chaminés, um mestre-escola a castigar um menino, um funâmbulo que dava saltos, e um casal de camponeses a dançar uma tirolesa. Hans Castorp, com as mãos frias repousando nas coxas, olhou demoradamente todos esses aparelhos. Também se deteve por alguns instantes na proximidade da mesa de bridge, onde o incurável Sr. Albin, crispando desdenhosamente os lábios, manejava as cartas com os movimentos displicentes de um homem mundano. Num ângulo da sala estava sentado o Dr. Krokowski, a dirigir palavras animadas e cordiais a um semicírculo de senhoras, do qual faziam parte a Srª. Stöhr, a Srª. Iltis e a Srta. Levi. O pessoal da mesa dos “russos distintos” retirara-se ao pequeno salão adjacente, separado da sala de jogo por uma simples cortina, e ali constituía espécie de grupo íntimo. Além de Mme... Chauchat havia ali um cavalheiro lasso, de barba loura, tórax côncavo e olhos esbugalhados, e uma jovem muito morena, de um tipo original e humorístico, com brincos de ouro e cabelos lanosos despenteados. O Dr. Blumenkohl, bem como dois rapazes de ombros caídos, uniram-se a eles. Mme... Chauchat trajava vestido azul com gola de renda branca. Sentada no sofá, atrás da mesa redonda, no fundo do pequeno aposento, formava o centro do grupo.

Tinha o rosto voltado para a sala de jogo. Incapaz de contemplar sem reprovação aquela mulher mal-educada, Hans Castorp pensava de si para si: “Ela me lembra qualquer coisa, mas não sei dizer o quê...” Um indivíduo alto, de uns trinta anos, e cujos cabelos já começavam a tornar-se ralos, tocou três vezes seguidas no pequeno piano castanho a marcha nupcial do Sonho de uma noite de verão, e a pedido de algumas senhoras reiniciou pela quarta vez a peça melodiosa, depois de ter fitado profunda e silenciosamente os olhos de cada uma delas.

– É permitido perguntar como se sente o senhor, meu caro engenheiro? – perguntou Settembrini, o qual, mãos nos bolsos, flanara por entre os hóspedes e agora se aproximava de Hans Castorp. Trazia ainda aquele paletó de fazenda cinzenta parecida com burel, e as calças, claras, enxadrezadas. Sorriu ao dirigir-se a Hans Castorp, que de novo se sentiu como que desembriagado à vista desses lábios finos, contraídos numa expressão zombeteira, sob a curva do negro bigode. Mesmo assim tinha a boca semi-aberta, enquanto os seus olhos injetados fixavam o italiano com um olhar bastante estúpido.

– Ah! É o senhor? – disse. – O senhor do passeio da manhã, aquele do banco lá em cima, perto da fonte... Claro, logo o reconheci. Quer acreditar – continuou, embora sabendo que não devia dizer uma coisa dessas – que no primeiro momento tomei o senhor por um tocador de realejo?... Foi uma idéia absurda, naturalmente – acrescentou, ao notar que o olhar de Settembrini

assumira um caráter frio e perscrutador –, uma rematada bobagem, numa palavra. Ainda não posso compreender por que cargas d'água eu...

– Não faz mal; fique tranqüilo – replicou Settembrini, após um instante de silêncio, durante o qual apenas contemplara o jovem. – E como passou o senhor o dia de hoje, o primeiro dia da sua estada neste sítio de prazeres?

– Dentro do regulamento, obrigado – respondeu Hans Castorp. – Sobretudo à maneira horizontal, como o senhor costuma dizer.

Settembrini esboçou um sorriso.

– Pode ser que em certa ocasião me tenha expressado dessa forma – disse então. – Pois é, e achou divertido esse modo de viver?

– Divertido ou aborrecido, conforme... – tornou Hans Castorp. – Isto às vezes é difícil de distinguir, sabe? Absolutamente não cheguei a me aborrecer; para isso o ambiente aqui é animado demais. A gente vê e ouve tanta coisa nova e estranha! Contudo, tenho a impressão de não estar aqui apenas há um dia, mas há muito tempo já... e até me parece que fiquei mais velho e mais inteligente...

– Mais inteligente também? – perguntou Settembrini, alçando os sobrolhos. – Permita a pergunta: quantos anos tem o senhor?

Imaginem! Hans Castorp não sabia. Não podia, nesse instante, recordar a sua idade, apesar de esforços violentos, quase desesperados que fazia para se lembrar. A fim de ganhar tempo, esperou até que a pergunta fosse repetida, e depois respondeu:

– Eu? Quantos anos? Estou no vigésimo quarto ano da... Em breve vou fazer vinte e quatro. Mas desculpe, que estou cansadíssimo – acrescentou. – Cansado é um termo muito eufemístico, quando me refiro ao meu estado. Conhece o senhor essa sensação de sonhar e de saber que se sonha, de querer despertar e não conseguir? É justamente o que se passa comigo.

Tenho certeza de ter febre. Não há nenhuma outra explicação. Quer acreditar que ando com os pés frios até os joelhos? Se bem que os joelhos não façam parte dos pés... Perdão, estou totalmente confuso, e isso não é de admirar, quando a gente já de manhã cedo ouve assobios do...

do pneumotórax e depois escutar o palavrório do Sr. Albin, e ainda numa posição horizontal.

Imagine, não posso me livrar da idéia de que os meus cinco sentidos não merecem confiança, e isto me incomoda ainda mais que o do rosto e os pés frios. O senhor me diga com toda a franqueza: acha possível que a Srª. Stöhr saiba preparar vinte e oito molhos para peixe? Não quero saber se ela é de fato capaz de prepará-los – isto me parece completamente impossível –, mas apenas se realmente afirmou coisa dessas durante o jantar, ou se aquilo é alucinação minha...

Settembrini olhou-o. Parecia não ter prestado atenção. Novamente seus olhos haviam-se cravado no vazio, tomando rumo fixo e cego. Como fizera durante o passeio da manhã, disse três vezes, num tom irônico e pensativo, “sim, sim, sim” e “vejam só, vejam só, vejam só”, sempre sibilando o “s”.

– Vinte e quatro, disse o senhor? – perguntou então.

– Não, vinte e oito – insistiu Hans Castorp. – Vinte e oito molhos para peixe! Não molhos quaisquer, mas justamente molhos para peixe; é o que me parece fantástico.

-meu caro engenheiro – disse Settembrini, entre irado e exortador –, trate de se dominar, e me deixe em paz com essas bobagens absurdas. Nada sei dessas coisas, nem quero saber. Vai fazer e quatro, disse o senhor? Hum... Permita-me mais uma pergunta ou talvez uma sugestão despretensiosa, se quer considerar assim. Uma vez que a estadia aqui parece que não lhe convém, uma vez que não se sente bem no nosso meio, nem física nem, se não me engano muito, psiquicamente... que acha o senhor de renunciar à oportunidade envelhecer aqui? Numa palavra, que tal se ainda esta noite preparasse as suas malas e aproveitasse amanhã o trem para ir-se embora?

– O senhor pensa que eu deva partir? – perguntou Hans Castorp. – Ora, mal acabo de chegar. Não, senhor, como posso formar uma opinião logo no primeiro dia?

Ao proferir essas palavras, lançou casualmente um olhar para a sala vizinha, onde viu Mme. Chauchat pela frente, com os olhos oblíquos e as largas maçãs. “Que me recorda ela, meu Deus, e a quem?”, pensou, mas apesar de todo o esforço, sua cabeça exausta foi incapaz de encontrar a resposta.

– Naturalmente, não é fácil aclimatar-se aqui em cima – continuou. –– Mas isto era de prever. Se eu logo desistisse, só por sentir durante alguns dias um pouco de calor e de tonturas, teria vergonha de mim e me julgaria covarde. Isto será contrário a toda razão... Não! Diga o senhor mesmo...

De repente começou a falar com grande ênfase, acompanhando as palavras de vivos movimentos dos ombros. Parecia insistir com o italiano para que este retirasse formalmente a sugestão.

– Inclino-me diante da razão – respondeu Settembrini. – Inclino-me também diante da coragem. O que o senhor disse não soa mal. Seria difícil opor-lhe um argumento sólido. Além disso, já observei uns belíssimos casos de aclimatação. Houve, por exemplo, no ano passado, a Srta. Kneifer, Ottilie Kneifer, moça de boa família, filha de um alto funcionário do Estado.

Esteve aqui cerca de um ano e meio e habituara-se de tal modo ao ambiente, que por coisa alguma quis ir embora quando a sua saúde ficou restabelecida por completo. (Ora, também isto acontece, há gente que fica boa aqui.) Bem, ela suplicou ao Dr. Behrens, fervorosamente, que lhe permitisse ficar. Não queria nem podia voltar para a sua terra. Aqui se sentia em casa, aqui estava feliz. Mas, como houvesse muitos pedidos e se precisasse do quarto dela, seus rogos foram em vão, e insistiram em dar-lhe alta como curada. E Ottilie começou a ter muita febre. Sua curva subiu consideravelmente. Contudo, foi desmascarada quando lhe substituíram o termômetro por uma “irmã muda”. O senhor ainda não sabe o que isso significa? É um termômetro sem escala que o médico controla pessoalmente, medindo a coluna de mercúrio e inscrevendo a temperatura na papeleta. Ottilie tinha 36,9; sim senhor, não tinha febre. Então tomou um banho no lago; era em princípios de maio, e de noite havia temperaturas abaixo de zero. A água do lago não estava propriamente gelada, mas ainda muitíssimo fria. Ottilie passo bom tempo na água, para contrair esta ou aquela doença. Mas, e o resultado? Continuou perfeitamente boa. Despediu-se desolada, inacessível ao consolo dos pais. “Que vou fazer lá embaixo?” gritou uma e outra vez. “Meu lar é aqui!” Não sei que fim ela levou... Mas tenho a impressão de que o senhor não me presta atenção, meu caro engenheiro. Parece que lhe custa manter-se de pé, se não me engano. Tenente, aqui lhe entrego seu primo – disse voltando-se para Joachim, que nesse instante se aproximava. – Ponha-o na cama. Reúne em si razão e coragem, mas esta noite anda meio débil.

– Não, senhor, entendi tudo, realmente – afirmou Hans Castorp – A “irmã muda” é apenas uma coluna de mercúrio, totalmente sem escala. Está vendo que compreendi muito bem. -

mesmo assim entrou no elevador, com Joachim e mais alguns outros pensionistas. Terminara a reunião e o pessoal dispersava-se em busca das sacadas ou dos alpendres para o repouso noturno.

Hans Castorp acompanhou Joachim até o quarto. O chão do corredor, com a passadeira de palha de coqueiro, executava sob os seus pés movimentos suavemente ondulantes, mas que não o incomodavam. Sentou-se na grande poltrona de forro florido do quarto de Joachim – outra igual achava-se no seu próprio aposento e acendeu um Maria Mancini. Achou-o sabor de cola, de carvão e outras coisas, menos o que deveria Apesar disso, continuou a fumá-lo, enquanto observava como Joachim se arrumava para o repouso, vestindo o fumoir e, por cima, um velho sobretudo, para depois ir à sacada, com a lâmpada do criado mudo e o manual de russo na mão.

Lá fora, o primo acendeu a lâmpada e, com o termômetro na boca, deitou-se na espreguiçadeira, onde com surpreendente habilidade começou a envolver-se em dois grandes cobertores de lã de camelo, que se achavam estendidos na cadeira. Hans Castorp contemplou com sincera admiração aqueles movimentos destros. Joachim jogou os cobertores, um após outro, por cima de si, primeiro pela esquerda, cobrindo-se até a axila, depois por baixo, sobre os pés, e por fim pela direita, até formar uma espécie de pacote perfeitamente simétrico e liso, do qual saíam apenas a cabeça, os ombros e os braços.

– É formidável como você faz isso! – disse Hans Castorp.

É questão de prática – respondeu Joachim, falando com o termômetro preso entre os dentes. – Você também vai aprender. Amanhã, sem falta, teremos de comprar alguns cobertores para você. Serão úteis também lá embaixo, e aqui são indispensáveis, sobretudo para você que não tem saco de peles.

– Mas não tenciono deitar-me na sacada de noite – declarou Hans Castorp. – Não farei isto, posso garantir. Acho que me sentiria ridículo. Tudo tem limites, afinal. Além disso me parece preciso acentuar, num ou noutro ponto, que estou apenas de visita aqui em cima. Vou ficar ainda alguns instantes com você e fumar um charuto, como de costume. Ele tem um sabor infame, mas eu sei que é de boa qualidade; é o que me basta por enquanto. Daqui a pouco serão nove horas. Infelizmente faltam ainda alguns minutos. Mas, nove e meia já será uma hora mais ou menos normal para a gente se recolher.

De repente sentiu um calafrio, primeiro um, e logo depois diversos outros, em rápida seqüência. Hans Castorp levantou-se de um pulo e correu para o termômetro suspenso na parede, como se se tratasse de apanhá-lo em flagrante delito. Segundo a escala de Réaumur havia nove graus no quarto. Hans Castorp apalpou o radiador e verificou que estava frio e apagado.

Resmungou algumas palavras confusas, significando aproximadamente que, embora estivessem em agosto, era uma vergonha não se acender a calefação; pois o que importava não era o nome do mês, mas a temperatura reinante, e esta era de um frio de rachar. Mas nas suas faces continuava o referido ardor. Hans Castorp voltou a sentar-se. Pôs-se novamente de pé, e em voz baixa pediu licença para tomar o cobertor da cama de Joachim. Instalado na poltrona, cobriu-se com ele, dos quadris para baixo. Assim permaneceu, ao mesmo tempo ardendo e tiritando, a torturar-se com o charuto de gosto asqueroso. Invadiu-o uma intensa sensação de miséria, como se nunca na vida ele se tivesse sentido tão mal quanto nesse momento. – Que horror! – murmurou. Em seguida, porém, achou-se de repente tomado por uma estranha e exuberante sensação de alegria e esperança, e depois de tê-la experimentado, ficou-se esperando que ela se reproduzisse. Mas isto não se deu, e o que lhe restava então era apenas a miséria. Finalmente se levantou, atirou o cobertor de Joachim sobre a cama, cochichou, de boca crispada, qualquer coisa parecida com “Boa noite!” e “Veja se não morre de frio!” e “Trate de me buscar na hora do café!”. Depois, cambaleando, atravessou o corredor, em busca do seu quarto.

Ao despir-se, começou a cantarolar, mas não de alegria. Mecanicamente, sem prestar atenção, desempenhou-se das pequenas funções e obrigações da higiene noturna de um homem civilizado; pingo copo umas gotas de um dentifrício vermelho, contido num frasco de viagem, e gargarejou discretamente; lavou as mãos com um sabonete de violeta, suave e de excelente qualidade, e pôs a camisola de cambraia, em cujo bolsinho se viam bordadas as iniciais H.C. Feito isso, meteu-se na cama e apagou a luz, enquanto deixava cair a cabeça quente e agitada sobre o travesseiro de agonia da americana.

Esperara com a mais absoluta certeza mergulhar sem demora no sono, mas verificou que se enganara, e as mesmas pálpebras que pouco antes tivera tanto trabalho de manter abertas, não queriam agora permanecer fechadas e abriam-se, latejando irrequietamente, logo tentava cerrá-las.

“Ainda não é a hora em que costumo dormir”, disse de si para si. “Além disso passei muito tempo deitado durante o dia”. Lá fora, alguém parecia bater um tapete – coisa pouco verossímil, e que em realidade não se dava; evidenciou-se que eram as palpitações do seu próprio coração, que Hans Castorp ouvia fora de si, ao longe, exatamente como se um tapete fosse tratado com um batedor de junco.

O quarto não estava completamente escuro. Pela porta aberta da sacada entrava a luz das lampadazinhas acesas nos compartimentos de Joachim e do casal da mesa dos “russos ordinários”. E enquanto Hans Castorp estava assim de costas, com as pálpebras a piscar, sentiu renovar-se nele uma impressão toda especial que recebera durante o dia, uma observação que logo procurara esquecer, por terror e delicadeza. Tornou a ver aquela expressão que assumira o rosto de Joachim quando se falava de Marusja e das suas qualidades físicas – essa contração

particularmente dolorosa da boca acompanhada do palor como que salpicado de manchas das faces tostadas pelo sol. Hans Castorp compreendia o que aquilo significava; compreendia-o e penetrava-o de uma forma nova, tão profunda e tão íntima, que o batedor de junco, lá fora, redobrava a velocidade e o vigor dos seus golpes e quase que abafava os sons de uma serenata que vinham de Davos-Platz. Pois havia outro concerto naquele hotel. Uma melodia simétrica e barata de opereta ressoava através das trevas, e Hans Castorp pôs-se a assobiá-la num cicio –

pode-se muito bem assobiar num cicio –, enquanto marcava o ritmo com os pés frios debaixo do acolchoado de penas.

Está visto que este não é um método apropriado para adormecer, e ademais, Hans Castorp já não tinha vontade alguma de fazê-lo. Desde que compreendera, de uma forma tão inédita e viva, por que Joachim empalidecera, o mundo parecia-lhe renovado, e aquela sensação de exuberante alegria e esperança tornou a comovê-lo no seu íntimo. De resto, aguardava mais alguma coisa, sem saber claramente o que era. Mas, quando notou que os vizinhos da direita e da esquerda haviam terminado o repouso e entravam nos quartos, para trocar a posição horizontal na sacada pela mesma posição no interior do aposento, expressou de si para si a convicção de que o casal bárbaro, dessa vez, observaria a trégua. “Posso dormir tranqüilamente”, pensou. “Esta noite, eles vão se comportar bem, disso tenho certeza.” No entanto, tal não aconteceu. O próprio Hans Castorp não acreditara seriamente nessa possibilidade e, para dizer a verdade, teria ficado grandemente surpreendido se não tivessem aberto as hostilidades. Mesmo assim soltou grande número de exclamações silenciosas do mais veemente espanto, diante dos ruídos que ouvia. – É

incrível! – gritou, sem voz. – Que coisa impressionante! Quem teria pensado que isto fosse possível! – E, de quando em vez, voltou a acompanhar, ciciando, a melodia de opereta barata, que obstinadamente chegava até ele.

Depois veio o sono. Mas, junto com ele, surgiram fantásticas imagens de sonhos, mais fantásticas ainda do que as da primeira noite no meio das quais diversas vezes se sobressaltou, assustado ou entregue à perseguição de uma idéia confusa. Sonhava que via o Dr. Behrens passear pelas alamedas do jardim, caminhando de joelhos dobrados com os braços pendendo, rijos, para a frente, e acertando os passos longos, como que monótonos, ao ritmo de uma marcha que ressoava ao longe. Quando o conselheiro áulico estacou diante de Hans Castorp, usava óculos com grossas lentes redondas e dizia coisas sem nexo: “Paisano, naturalmente”, observou, e sem pedir licença abaixou a pálpebra de Hans Castorp com os dedos indicador e médio da mão enorme. “Um paisano decente, como notei logo. Mas não lhe falta talento, absolutamente não lhe falta talento para uma intensa combustão geral. Não se incomodaria em gastar conosco alguns anos, alguns anos alegres de serviço aqui em cima? Pois então, cavalheiros, e agora um passeio, vamos!”, exclamou, metade na boca os dois índices enormes e dando assobios tão estranhamente melodiosos, que de diversos lados e em miniatura surgiram, voando através dos ares, a professora e Miss Robinson, para lhe pousarem nos ombros, à direita e à esquerda, assim como na sala de refeições ficavam sentadas ao lado de Hans Castorp. E assim o médico se foi, a passo saltitante, esfregado um guardanapo por trás das lentes dos óculos, a fim de enxugar olhos e secar não se sabia o quê, suor ou lágrimas.

Depois, Hans Castorp sonhou que se encontrava no pátio do ginásio, onde durante tantos anos passara os intervalos entre as aulas, e que estava a ponto de pedir emprestado um lápis a Mme... Chauchat, que igualmente estava presente. Ela deu-lhe uma lapiseira de prata, que continha um lápis pintado de vermelho, gasto até a metade, e recomendou a Hans Castorp, numa voz agradavelmente velada, que devolvesse sem falta depois da aula. E quando o olhou, com seus olhos rasgados, de um azul esverdeado, por cima das maçãs salientes, ele fez um esforço violento para se desprender do sonho; pois agora já sabia e queria gravar na memória que acontecimento e que pessoa ela lhe recordava com tamanha intensidade. A toda pressa, pôs-se a guardar essa percepção num lugar seguro, já que sentia como o sono e o sonho novamente se apoderavam dele. Com efeito, viu-se logo na contingência de procurar um refúgio para se abrigar contra a perseguição do Dr. Krokowski, que lhe quis dissecar a alma, o que provocou em Hans Castorp

um medo louco que realmente não tinha limites. Fugiu a passo trôpego, diante do doutor, passando pelas divisões de vidro que separavam os compartimentos das sacadas, e com perigo de vida saltou ao jardim. Em último recurso, tentou trepar no mastro pardo da bandeira. Despertou, banhado em suor, quando o perseguidor lhe agarrava a perna da calça.

Apenas se acalmou um pouco e voltou a adormecer, os acontecimentos tomaram o seguinte rumo: ele se encontrou empenhado em arredar com o ombro o Sr. Settembrini, que ali se achava, de pé, sorrindo – um sorriso fino, seco, zombeteiro, sob o espesso bigode negro, e que se esboçava justamente no ponto em que esse bigode se erguia numa bela curva; um sorriso que melindrava Hans Castorp. “O senhor é demais aqui”, ouviu-se distintamente dizer. “Vá-se embora! É apenas um tocador de realejo e é demais aqui!” Mas Settembrini não deixou que o afastasse do lugar e Hans Castorp estava ainda a perguntar-se o que deveria fazer, quando, de chofre e por sorte, lhe ocorreu uma excelente idéia a respeito da natureza do tempo: evidenciou-se que o tempo nada mais era senão uma “irmã muda”, uma coluna de mercúrio totalmente desprovida de escala, para aqueles que quisessem trapacear. Em seguida, acordou com a firme intenção de comunicar, no dia seguinte, essa descoberta a seu primo Joachim.

No meio de tais aventuras e achados decorreu a noite, e também Hermine Kleefeld, assim como o Sr. Albin e o Capitão Miklosich, desempenharam papéis complicados. Este último carregava nas suas fauces a Srª. Stöhr e era trespassado com uma lançada pelo promotor Público, Sr. Paravant. Houve ainda um sonho que Hans Castorp teve duas vezes durante essa noite, e ambas as vezes exatamente do mesmo modo, a segunda já de madrugada. Achava-se sentado na sala das sete mesas, quando a porta envidraçada se fechou com enorme estrondo. Entrara Mme...

Chauchat, no seu suéter branco, com uma mão no bolso e a outra na nuca. Porém, ao invés de se dirigir à mesa dos “russos distintos”, a mulher mal-educada aproximou-se a passo cioso de Hans Castorp e, sem dizer palavra, estendeu-lhe a mão para beijar – não as costas, mas sim a palma. E

Hans Castorp beijou o interior dessa mão; beijou essa mão pouco cuidada, um tanto larga, de dedos curtos, com a pele áspera nas bordas das unhas. Novamente o invadiu então, dos pés à cabeça, aquela sensação de gozo dissoluto por que passara, quando, a título de experiência, se sentira livre da pressão da honra e desfrutara as ilimitadas vantagens que acarreta a vergonha. Foi essa a sensação que ele tornou a encontrar no sonho, mas com uma intensidade mil vezes maior.

CAPÍTULO IV

Compra necessária

– E agora? Já terminou o verão de vocês? – perguntou Hans Castorp ironicamente, no terceiro dia, ao primo.

O tempo mudara de modo assustador.

O segundo dia completo que o visitante passara no sanatório fora de magnífico esplendor estival. O azul profundo do céu luzia por cima das copas pontiagudas dos pinheiros, enquanto a aldeia, no fundo do vale, fulgia deslumbrante em meio ao calor. O ar estava cheio do tilintar alegre e calmo dos cincerros das vacas que aqui e ali, nas encostas, pastavam o capim curto e cálido dos prados. Já à hora do café da manhã, as senhoras haviam exibido levíssimas blusas de fazendas laváveis, algumas até com mangas de broderie, o que não ficava igualmente bem a todas; para a Srª. Stöhr, por exemplo, esse traje era pouco vantajoso, visto ela ter os braços demasiado balofos para usar vestimenta vaporosa. Também o sexo forte levara em conta o tempo esplêndido, no que se referia à escolha dos trajes. Surgiram jaquetas de alpaca e ternos de linho.

Joachim ostentara calças de flanela cor de marfim, sob o costumeiro paletó azul, combinação que lhe dava um ar tipicamente militar. Quanto a Settembrini, também ele manifestara repetidas vezes a intenção de mudar de roupa. – Que diabo! – dissera, enquanto, depois do café da manhã, passeava em companhia dos dois primos, em direção à aldeia. – Como está quente o sol! Já vejo que terei de pôr roupa mais leve. – Mas, apesar dessa declaração expressa, continuara trajando o

casaco espesso e comprido, com as largas lapelas, e as calças enxadrezadas, que provavelmente representavam tudo quanto possuía de vestuário.

No terceiro dia, porém, parecia transtornada a natureza e posta às avessas a ordem das coisas. Hans Castorp mal dava crédito aos próprios olhos. Era depois do almoço, e o pessoal, fazia vinte minutos, entregava-se ao repouso, quando o sol se escondeu rapidamente. Nuvens feias, pardas como turfa, surgiram por cima da cordilheira ao sudeste, e um vento glacial, estranho, que penetrava até a medula dos ossos, como se viesse de desconhecidas regiões geladas, começou subitamente a varrer o vale, provocando uma brusca queda de temperatura e encetando um regime completamente novo.

– Vem neve – ressoou a voz de Joachim por trás da divisão de vidro.

– Que é que você quer dizer com “neve”? – perguntou Hans Castorp. – Não pensa seriamente que vai nevar?!

– Claro! – respondeu Joachim. – Já conhecemos esse vento. Quando ele vem, traz consigo passeios de trenó.

– Bobagem! – retrucou Hans Castorp. -se não me engano muito, estamos em princípios de agosto.

No entanto, Joachim, como conhecedor do clima, dissera a verdade. Dentro de poucos instantes, começou a desabar formidável nevada, com acompanhamento de incessantes trovões.

Era um torvelinho tão denso, que tudo parecia envolto num vapor branco e quase nada se enxergava da aldeia e do fundo do vale.

A neve continuou caindo durante toda a tarde. Puseram a funcionar a calefação central.

Enquanto Joachim recorria ao saco de peles e não admitia nenhuma interrupção do seu tratamento, Hans Castorp refugiou-se no interior do quarto, aproximou a cadeira do radiador aquecido e, meneando freqüentemente a cabeça, contemplava as monstruosidades que por lá se passavam.

Na manhã do dia seguinte, já não nevava. Mas, conquanto o termômetro de fora marcasse alguns graus acima de zero, o solo permanecia coberto com neve de um pé de altura, de modo que, ante os olhos pasmados de Hans Castorp, se desdobrava uma perfeita paisagem hibernal. Voltaram a desligar a calefação. A temperatura nos quartos era de seis graus acima de zero.

– E agora? Já terminou o verão de vocês? – perguntou Hans Castorp ao primo, com amarga ironia.

– É difícil prever – respondeu Joachim, na sua maneira objetiva. -se Deus quiser, haverá ainda uns belos dias de verão. Mesmo em setembro, não é impossível. Mas o caso é que aqui não existe diferença acentuada entre as estações, sabe? Elas se misturam, por assim dizer, e não ligam ao calendário. No inverno, há dias em que o sol está tão forte, que a gente sua e tira o paletó durante o passeio, e no verão. . . Bem, você está vendo o que às vezes acontece no verão. E ainda a neve, esta então põe tudo em desordem. Cai neve em janeiro, mas em maio não cai muito menos, e em agosto também está nevando. Generalizando, posso dizer que não se passa nenhum mês sem que haja neve; nisso a gente pode se fiar. Numa palavra, temos dias de verão e dias de inverno, dias de primavera e dias de outono, mas não há propriamente estações aqui em cima.

– É uma bela confusão – disse Hans Castorp. Em companhia do primo, foi à aldeia, com galochas e sobretudo de inverno, a fim de comprar uns cobertores para cura de repouso, visto ser evidente que, num tempo desses, não lhe bastaria o cobertor de viagem. Chegou até a ventilar a idéia da compra de um saco de peles, porém abandonou-a e mesmo se assustou diante dela.

– Não, senhor – disse. – Vamos limitar-nos aos cobertores. Lá embaixo ainda me prestarão serviços. Cobertores usam-se em toda parte. Nisso não há nada de particular e estranho. Mas um saco de peles é uma coisa toda especial. Se eu comprasse um saco de peles –

compreenda-me bem –, teria a impressão de me domiciliar aqui e de tornar-me, em certo sentido, um de vocês. . . Bem, só quero dizer que absolutamente não vale a pena adquirir um saco de peles só para essas poucas semanas.

Joachim concordou. Numa bela e bem-sortida loja do bairro inglês, compraram dois cobertores de lã de camelo, do mesmo tipo que possuía Joachim, particularmente compridos e largos, muito macios e de cor natural. Deram ordem de mandá-los sem demora ao sanatório, o Sanatório Internacional Berghof, quarto 34. Hans Castorp tencionava estreá-los já de tarde.

Haviam descido à aldeia depois do café da manhã – naturalmente, uma vez que o horário habitual não oferecia nenhuma outra ocasião para esse passeio. Chovia, e a neve depositada nas ruas já se transformara numa espécie de pasta gélida que lhes enlameava as calças. Ao regressarem, encontraram-se com Settembrini, que, sem chapéu, mas com um guarda-chuva, também se encaminhava ao sanatório. O italiano tinha a cara amarelada e andava visivelmente possuído de um humor elegíaco. Num estilo puro e com palavras bem escolhidas, lamentava-se do frio e da umidade que tanto o faziam sofrer. Se, pelo menos, ligassem a calefação! Mas aqueles miseráveis potentados mandavam desligá-la tão logo parava a nevada. Era uma regra estúpida, um insulto a toda inteligência! E quando Hans Castorp objetou que uma temperatura moderada, sem dúvida, fazia parte integrante do regime, talvez para evitar que os pacientes se tornassem amimalhados, Settembrini respondeu com o mais veemente sarcasmo:

– Pois sim, o regime! Os princípios sagrados, intangíveis, do regime! Com efeito, o senhor fala deles no tom que convém; o tom de disciplina e submissão. Há apenas uma coisa surpreendente, embora num sentido perfeitamente favorável; é que, entre esses princípios, gozam de respeito ilimitado justamente aqueles que coincidem com os interesses financeiros dos potentados, ao passo que se faz vista grossa diante da violação de outros princípios menos dispendiosos... – Enquanto os primos desatavam a rir, Settembrini, em conexão com o almejado calor, passou a falar de seu saudoso pai.

-meu pai – disse pausada e fervorosamente –, meu pai era homem muito fino. Tinha o corpo e a alma igualmente sensíveis. Como adorava, no inverno, o seu bem aquecido gabinete de estudo! Adorava-o e fazia questão que mantivessem ali uma temperatura constante de vinte graus Réaumur. Isto se conseguia por meio de uma pequena estufa vermelha de tanto calor, e quando, em dias de chuva fria ou de tempestade glacial, uma pessoa passava pelo vestíbulo e entrava no gabinete, sentia o calor lhe envolver os ombros como um manto macio, e os olhos enchiam-selhe de lágrimas de bem-estar. A pequena peça estava abarrotada de livros e manuscritos, entre os quais se achavam muitas preciosidades. E no meio desses tesouros do espírito, estava ele, de pé, com seu roupão de flanela azul, diante da estreita escrivaninha, onde se dedicava à literatura. Era baixinho e delgado; media mais de uma cabeça menos do que eu, imaginem! Nas frontes tinha uns espessos tufos de cabelo grisalho, e seu nariz era muito longo e fino... Que romanista, senhores! Um dos mais eminentes da sua época! Conhecedor da nossa língua como poucos houve! Estilista latino como mais ninguém! Um uomo letterato, segundo a concepção de Boccaccio!... Os sábios vinham de longe para falar com ele, um de Haparanda, outro de Cracóvia.

Vinham especialmente à nossa cidade de Pádua para lhe demonstrar a sua estima, e ele recebia-os com afável dignidade. Era também poeta emérito, que nas suas horas de lazer compunha novelas na mais elegante prosa toscana. Um mestre do idioma gentile – sintetizou Settembrini com extrema satisfação, saboreando os sons da língua pátria e meneando a cabeça. – Cultivava seu jardim, segundo o exemplo de Virgílio – continuou –, e tudo quanto dizia era belo e sadio. Mas era preciso que fizesse calor, muito calor, no seu gabinete; senão, tremia de indignação e era capaz de verter lágrimas, porque o deixavam padecer frio. E agora imagine, meu caro engenheiro, e o senhor, tenente, o quanto eu, filho de meu pai, sofro neste maldito e bárbaro lugar, onde o corpo, em pleno verão, tirita de frio e as mais humilhantes impressões constantemente atormentam a alma... Ah! É duro! Que tipos esses que nos rodeiam! Esse conselheiro áulico, escravo maluco do Demônio! E Krokowski -settembrini fez como se o nome lhe quebrasse a língua –, Krokowski, o confessor impudico, que me odeia, porque a minha dignidade humana proíbe entregar-me às suas práticas papistas... E meus comensais! Com que companhia estou condenado a tomar as refeições! À minha direita fica um cervejeiro de Halle – chama-se Magnus –, com um bigode que parece um feixe de feno. “Deixe-me em paz com a literatura”, diz ele. “Que é que ela me oferece?

Belos caracteres? Que me adiantam belos caracteres? Sou um homem prático, e na vida quase nunca se encontram belos caracteres.” É esta a idéia que ele faz da literatura. Belos caracteres, o madre de Dio! Sua mulher, que costuma sentar-se à sua frente, deixa-se ficar ali, perde proteínas e afunda-se cada vez mais na estupidez. Que sórdida miséria!...

Sem que houvessem tido ensejo de trocar opiniões a respeito das palavras de Settembrini, Hans Castorp e Joachim as julgavam do mesmo modo: achavam-nas choramingueiras e desagradavelmente sediciosas, se bem que divertidas e até instrutivas, na sua animosidade atrevida e precisa. Hans Castorp riu-se gostosamente da comparação com o “feixe de feno” e também dos

“belos caracteres”, ou melhor, do desespero cômico que Settembrini manifestava. Em seguida disse:

– Ora, meu Deus, pode ser que a companhia não seja muito seleta num estabelecimento destes. Nem sempre se pode escolher os vizinhos de mesa. Isso iria longe. À minha mesa há também uma senhora desse tipo, a Srª. Stöhr... Creio que o senhor a conhece. É de uma ignorância pavorosa, não há dúvida, e às vezes a gente não sabe para onde olhar, quando ela se mete a tagarelar. Contudo, lamenta-se essa mulher da sua temperatura e de se sentir tão lassa.

Parece, infelizmente, que não se trata de um caso benigno. E isto é estranho, estupidez e doença, não sei se me expresso claramente, mas tenho uma impressão tão esquisita ao ver uma pessoa estúpida que ainda por cima está doente! Essas duas coisas reunidas, acho que são o que há de mais triste neste mundo. Não se sabe como comportar-se, pois todos gostam, afinal, de tratar um enfermo com seriedade e respeito, não é? A doença é, por assim dizer, uma coisa digna de reverência. Mas quando a estupidez, a cada instante, se intromete, dizendo “fómulo” ou “estabelecimento cósmico”, ou outras asneiras do mesmo quilate – francamente, então não sei se devo rir ou chorar. É um dilema para o sentimento humano, e uma situação tão lamentável que nem posso dizer. Na minha opinião, não há coerência nessas duas coisas; elas não combinam; a gente é incapaz de imaginá-las reunidas. Sempre se pensa que uma pessoa estúpida deve ser normalmente sadia; e que a doença torna as criaturas finas e cultas e diferentes. É assim que se pensa em geral, não é? Pode ser que eu diga mais do que posso justificar – concluiu. – É apenas porque, casualmente, tocamos no assunto... – E estacou, confuso.

Também Joachim estava um pouco perplexo, e Settembrini permaneceu calado, apenas alçando os sobrolhos, como quem, por cortesia, aguarda o fim da fala de um interlocutor. Na realidade, porém, tinha a intenção de deixar chegar o momento em que Hans Castorp se atrapalhasse todo. Por fim respondeu:

– Sapristi, meu caro engenheiro! O senhor acaba de manifestar qualidades filosóficas que eu não esperava da sua parte. De acordo com a sua teoria, deveria estar menos sadio do que aparenta, porque, evidentemente, possui espírito. Permita-me, no entanto, observar que não pude acompanhar as suas deduções, que as rejeito e me oponho a elas com verdadeira hostilidade. Tal como o senhor me vê, sou um pouco intolerante em assuntos espirituais e prefiro ser tachado de pedante a deixar de combater opiniões que me parecem tão censuráveis como essas que o senhor nos apresentou... Per... mita-me... Já sei o que o senhor tenciona replicar. Quer dizer que não falou muito a sério, que os pontos de vista que acaba de expor não são propriamente os seus, que apenas apanhou uma opinião dentre as muitas possíveis que flutuam no ar, e que o fez a fim de se exercitar um pouco, sem assumir nenhuma responsabilidade. É o que está em harmonia com a sua idade, que ainda se compraz em dispensar a resolução viril e em tentar, provisoriamente, toda espécie de teorias. Placet experiri – acrescentou, pronunciando o “c” de placet brandamente, à italiana. – Uma excelente máxima. O que me deixa pasmado é apenas o fato de ver as suas experiências tomarem justamente este rumo. Não me parece tratar-se de um mero acaso. Receio que exista no senhor uma tendência capaz de se arraigar no seu caráter, se não for combatida a tempo. Por isso me creio na obrigação de corrigi-lo. O senhor opinou que a doença reunida à estupidez era a coisa mais triste que havia no mundo. Estou de acordo. Também eu prefiro um doente espirituoso a um bobalhão tísico, porém não posso deixar de protestar, quando o senhor se mete a considerar a combinação de enfermidade e tolice como uma espécie de falta de estilo,

um ato de mau gosto praticado pela Natureza, e um dilema para o sentimento humano, conforme lhe aprouve expressar-se. E quando o senhor julga a doença tão nobre e – como dizia? – tão digna de reverência, que simplesmente não se pode harmonizar com a estupidez. É outra expressão sua. Pois bem, eu não concordo com isso. A doença absolutamente não é nobre, e nem um pouquinho digna de reverência. Essa concepção é por si mesma mórbida ou leva à morbidez.

O método mais acertado de despertar no senhor repugnância contra ela talvez seja dizer-lhe que é velha e feia. Tem ela a sua origem em épocas supersticiosas, acossadas de remorsos, e nas quais a idéia do humano, privada de toda dignidade, degenerara a ponto de se tornar uma caricatura, épocas angustiadas, que consideravam a harmonia e o bem-estar coisas suspeitas, diabólicas, ao passo que a debilidade equivalia a um passaporte para o Céu. Mas a Razão e o Iluminismo dissiparam essas sombras que pairavam sobre a alma da humanidade; verdade é que ainda não terminaram a sua obra, e a luta continua. Esta luta, meu caro senhor, chama-se trabalho, trabalho terreno, trabalho em prol da Terra, da honra e dos interesses da humanidade. E temperadas, dia a dia, por essa luta, aquelas forças acabarão por libertar o Homem e por guiá-lo pelos caminhos do progresso e da civilização, rumo a uma luz cada vez mais clara, mais sua e mais pura.

Continuar: parte 2 de 3