A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 7 de 13 · parte 1/5

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A Montanha Mágica

Capitulo VI

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.

 

Transformações

Que é o tempo? Um mistério: é imaterial e – onipotente. É uma condição do mundo exterior; é um movimento ligado e mesclado à existência dos corpos no espaço e à sua marcha.

Mas deixaria de haver tempo se não houvesse movimento? Não haveria movimento sem o tempo? É inútil perguntar. É o tempo uma função do espaço? Ou vice-versa? Ou são ambos idênticos? Não adianta prosseguir perguntando. O tempo é ativo, tem caráter verbal, “traz consigo”. Que é que traz consigo? A transformação. O Agora não é o Então; o Aqui é diferente do Ali; pois entre ambos se intercala o movimento. Mas, visto ser circular e fechar-se sobre si mesmo o movimento pelo. qual se mede o tempo, trata-se de um movimento e de uma transformação que quase poderiam ser qualificados de repouso e de imobilidade: o Então repete-se constantemente no Agora, e o Ali repete-se no Aqui. Como, por outro lado, nem sequer os mais desesperados esforços nos podem fazer imaginar um tempo finito ou um espaço limitado, decidimo-nos a configurar eternos e infinitos o tempo e o espaço, evidentemente na esperança de obter dessa forma um resultado, senão perfeito, ao menos melhor. Ora, estabelecer o postulado do eterno e do infinito não significa, porventura, o aniquilamento lógico e matemático de tudo quanto é limitado e finito, e a sua redução aproximada a zero? É possível uma sucessão no eterno ou uma justaposição no infinito? São compatíveis com as hipóteses de emergência do eterno e do infinito, conceitos como os da distância, do movimento, da transformação, ou a simples existência de corpos limitados no Universo? Quantas perguntas improfícuas!

Hans Castorp ventilava intimamente esses problemas e outros semelhantes. Desde que chegara ali em cima seu cérebro sempre se mostrara disposto a esse tipo de indiscrições e sutilezas; é possível que certa volúpia sinistra, conquanto poderosa, expiada nesse meio tempo, o tenha preparado especialmente para isso, despertando nele o audacioso desejo de empreender tais especulações. Interrogava-se a si próprio, interrogava o bom Joachim, interrogava o vale coberto desde tempos imemoriais com espessa neve, se bem que não pudesse esperar de nenhuma dessas instâncias qualquer coisa parecida com uma resposta, sendo difícil dizer qual dentre os três era o menos capacitado para lhe satisfazer a curiosidade. Se dirigia a si mesmo essas perguntas, era

justamente por não encontrar resposta alguma. Quanto a Joachim, era quase impossível interessá-lo por essas coisas; pois, como Hans Castorp o expressara certa noite em francês, o primo não pensava noutra coisa a não ser em regressar à planície e fazer-se soldado. Com essa esperança, cuja realização ora parecia próxima, ora se distanciava maliciosamente, Joachim vivia travando um duelo que aos poucos se tornara encarniçado. Recentemente se mostrava inclinado a decidi-lo por meio de um golpe de violência. Sim, o bondoso, o paciente, o honrado Joachim, para o qual a disciplina e o cumprimento do serviço representavam a vida, sucumbira a tendências rebeldes.

Insurgia-se contra a “escala de Gaffky”, aquele sistema de exame mediante o qual verificavam e designavam lá no laboratório do subsolo – no “labor”, como se costuma chamá-lo – o grau em que o enfermo estava infeccionado pelos bacilos, conforme estes apareciam na matéria analisada apenas isoladamente ou em enormes quantidades. Desta forma, o coeficiente da escala de Gaffky podia ser mais ou menos elevado, e tudo dependia dele, que indicava inequivocamente as possibilidades de cura com que o enfermo teria de contar. Não era difícil determinar, segundo essa escala, o número de meses ou de anos que certo doente deveria ainda permanecer ali em cima, desde a “visita de médico”, de apenas meio ano, até o veredicto de “prisão perpétua”, que em muitos casos enunciava muito pouco quanto à sua duração real. Era, pois, contra a referida escala de Gaffky que se rebelava Joachim; francamente renegava toda fé em sua autoridade; não o fazia de modo ostensivo, diante dos seus “superiores”, mas na presença do primo e até mesmo à mesa. – Estou farto disso. Não me deixarei iludir por mais tempo! – disse em voz alta, numa dessas ocasiões, enquanto o sangue lhe subia ao rosto bronzeado. – Faz quinze dias, eu tinha Gaffky número 2, uma bagatela, e as mais risonhas perspectivas; e hoje tenho 9, estou literalmente infestado, e nem se pode pensar na planície. Que o diabo compreenda essas coisas!

Isto é insuportável. Lá em cima, na Schatzalp, há um homem, um camponês grego; foi mandado da Arcádia por um agente; é um caso sem esperança, tuberculose galopante, e o exitus pode produzir-se de um dia para outro; mas nunca na vida esse homem teve bacilos no esputo. Por outro lado, aquele gordo capitão belga que partiu curado, quando cheguei aqui, tinha Gaffky número 10; os bacilos iam pululando nele, e todavia tinha apenas uma pequena caverna. Que me deixem em paz com Gaffky! Eu vou fazer o ponto final; volto para casa, mesmo que isso me custe a vida. – Assim falou Joachim, e todos ficaram consternados, quando viram esse jovem pacato e comedido em tal estado de revolta. Hans Castorp, ao ouvir como o primo ameaçava abandonar tudo e regressar à planície, não pôde senão lembrar-se de algumas palavras que certa pessoa pronunciara em francês. Mas guardou silêncio. Que mais deveria ser feito? Arvorar-se diante do primo em modelo de paciência, como fazia a Srª. Stöhr, que realmente exortava Joachim a que deixasse essa atitude de obstinação blasfema, que se resignasse humildemente e se guiasse pelo exemplo da lealdade com que ela, Karoline, perseverara ali em cima, renunciando com suma força de vontade a retomar as suas tarefas de dona-de-casa em Cannstatt, a fim de devolver qualquer dia a seu marido uma esposa completa e definitivamente curada? Não, a isso não se atrevia Hans Castorp, tanto mais que desde o carnaval tinha a consciência pesada com relação a Joachim. Isto é, sua consciência dizia-lhe que o primo devia considerar certos fatos – de que eles não falavam entre si, mas que Joachim indubitavelmente não ignorava – como uma espécie de traição, de deserção e de infidelidade, no que se refere a um par de olhos redondos e castanhos, a uma pouco justificada mentalidade risonha, – e a um perfume de flor de laranjeira a cujos efeitos Joachim se via exposto cinco vezes por dia, mas que afrontava austera e decentemente, baixando os olhos para o prato... Até na resistência muda que Joachim lhe opunha às especulações e reflexões sobre o “tempo”, Hans Castorp pensava encontrar vestígios dessa pudicícia militar, que continha uma reprovação dirigida à sua própria consciência... E quanto ao vale hibernal, sob a espessa camada de neve, esse vale ao qual Hans Castorp, da sua excelente espreguiçadeira, endereçava as mesmas perguntas metafísicas – aqueles picos, cimos, vertentes, bosques marrons, verdes ou avermelhados, quedavam-se no meio do tempo, silenciosos, envoltos pelo tempo dessa terra no seu fluxo calmo, ora resplandecentes no profundo azul do céu, ora escondidos pelas brumas, ora abrasados, nas suas regiões mais altas, pelo clarão rubro do sol

poente, ora cintilando num brilho duro de diamantes sob o feitiço de uma noite de luar – mas sempre cobertos de neve, desde havia seis meses imemoriais, embora decorridos num abrir e fechar de olhos. Todos os pensionistas declaravam que já não podiam suportar aquela neve, que lhes repugnava, e que as suas necessidades, nesse sentido, já tinham sido satisfeitas durante o verão. E agora essas quantidades de neve, todos os dias – montões de neve, almofadões de neve, encostas de neve —, isso ultrapassava as forças humanas, era veneno para o espírito e a alma. E

eles punham óculos de cor, verdes, amarelos, vermelhos, para poupar os olhos, mas sobretudo para proteger o coração.

Fazia então seis meses que o vale e as montanhas, estavam ocultos sob o manto de neve?

Fazia até sete! O tempo progride enquanto contamos a história – o nosso tempo que dedicamos à narrativa, mas também aquele tempo longínquo que Hans Castorp e seus companheiros de infortúnio passavam na neve lá de cima. E esse tempo continuava trazendo consigo transformações. Tudo estava bem encaminhado para tornar realidade o que Hans Castorp, na terça-feira de carnaval, durante o regresso de, Davos-Platz, antecipara em palavras precipitadas, para a maior indignação do Sr. Settembrini. Verdade é que o solstício do verão ainda não se achava iminente, mas a Páscoa já passara pelo vale branco, o mês de abril ia avançando, e a vista sobre o Pentecostes desdobrava-se livre; em breve começaria a primavera, com o degelo. Não se derreteria toda a neve; nos cumes ao sul, nas gretas dos rochedos da cordilheira rética, ao norte, sempre haveria neve, sem falar daquela que cairia nos próprios meses de verão, mas se fundiria imediatamente. Não obstante, o transcurso do ano prometia inovações decisivas para dentro de pouco tempo. Pois, desde aquela noite de carnaval, em que Hans Castorp pediu emprestado a Mme. Chauchat um lápis, que devolveu mais tarde, para receber em troca, a seu pedido, um outro objeto, uma lembrança, que levava consigo, no seu bolso – desde aquela noite já tinham escoado seis semanas, duas vezes mais do que Hans Castorp primitivamente pretendera passar ali em cima.

Com efeito, seis semanas haviam transcorrido desde a noite em que Hans Castorp travara conhecimento com Clávdia Chauchat e voltara a seu quarto muito mais tarde do que Joachim, o primo consciente de seus deveres. Seis semanas, desde o dia seguinte, que acarretara a partida de Mme. Chauchat, sua partida interina, sua viagem temporária a Daghestan, lá muito longe, no leste, ainda além do Cáucaso. Essa partida tinha caráter provisório; tratava-se apenas de uma ausência por enquanto; Mme. Chauchat tencionava voltar, não se sabia quando, mas qualquer dia estaria de regresso, voluntariamente ou malgrado seu – de tudo isso guardava Hans Castorp afirmações diretas e verbais, proferidas, não durante o diálogo em língua estrangeira que acabamos de relatar, senão no lapso intermediário que, de nossa parte, deixamos transcorrer em silêncio, o lapso durante o qual interrompemos o curso ligado ao tempo da nossa narrativa e admitimos que reinasse exclusivamente o tempo em si. Em todo caso recebera o jovem essas afirmações reconfortantes, antes de voltar ao quarto número 4; pois, no dia seguinte, não trocara mais nenhuma palavra com Mme. Chauchat; mal chegara a vê-la; olhara-a duas vezes de longe: uma vez durante o almoço, quando ela, trajando uma saia de casemira azul e um casaquinho de lã branca, se dirigira à sua mesa, a passo silencioso, cheio de graça, após ter fechado com estrondo a porta envidraçada; nessa ocasião, o coração de Hans Castorp pulsara até a garganta, e somente a severa vigilância que lhe devotava a Srta. Engelhart impedira-o de esconder o rosto entre as mãos... E a segunda vez dera-se às três da tarde, quando da partida de Mme. Chauchat, à qual Hans Castorp, propriamente falando, não assistira, mas que observara de uma janela do corredor, que dava para a rampa do sanatório.

Esse acontecimento desenrolara-se da mesma forma que Hans Castorp, durante a sua estadia ali em cima, já tivera diversas oportunidades de ver. O trenó ou a carruagem parava na rampa; o cocheiro e o criado amarravam as bagagens; diante do portão aglomeravam-se pensionistas do sanatório, os amigos de quem regressava, curado ou não, à planície para ali viver ou morrer, ou simplesmente pessoas que deixavam de cumprir com os seus deveres de regime, para presenciar a ocorrência; um funcionário da “administração”, de sobrecasaca, e às vezes os

próprios médicos, estavam presentes; por fim se apresentava a pessoa que partiria, quase sempre de rosto radiante, saudando, condescendentemente, os curiosos que a rodeavam e que permaneceriam no lugar, e era visível que a aventura iminente lhe aumentava de modo poderoso a vitalidade... Dessa vez, quem saíra do edifício fora Mme. Chauchat, risonha, carregada de flores, envolta num comprido abrigo de viagem, de uma fazenda felpuda, com gola de pele, e usando um enorme chapéu. Acompanhava-a o Sr. Buligin, seu compatriota de peito sumido, que faria parte da viagem na sua companhia. Também ela parecia cheia de animação alegre, como todos os que partiam – devido à simples perspectiva de uma mudança de existência, quer se viajasse com autorização do médico, quer se interrompesse a estadia em virtude de um tédio desesperado, com a consciência inquieta, e por própria conta e risco. Mme. Chauchat tinha as faces coradas; tagarelava sem cessar, provavelmente em russo, enquanto alguém lhe agasalhava os joelhos com um cobertor de peles... Não somente os patrícios e os companheiros de mesa de Mme. Chauchat, mas também grande número de outros pensionistas tinham comparecido ao bota-fora. O Dr.

Krokowski, esboçando um sorriso enérgico, mostrava os dentes amarelos em meio à barba.

Chegavam cada vez mais flores. A tia-avó ofereceu à viajante uns “confeitos”, espécie de marmelada russa. A professora estava presente, e também o moço de Mannheim – este a certa distância, espiando melancolicamente; seus olhos aflitos, resvalando ao longo da fachada, descobriram Hans Castorp junto à janela do corredor, e por alguns instantes fixaram nele o olhar turvo... O Dr. Behrens deixou de aparecer. Evidentemente já se despedira da viajante em outra ocasião, num ambiente mais particular... Em seguida, entre acenos e aclamações da assistência, os cavalos puseram-se em movimento, e, enquanto o avanço do trenó fazia o corpo de Mme.

Chauchat reclinar-se no espaldar, seus olhos oblíquos percorreram mais uma vez, sorrindo, toda a extensão do edifício do Berghof; durante uma fração de segundo detiveram-se sobre o rosto de Hans Castorp... Pálido, o jovem que ficava atrás dirigiu-se a toda a pressa ao seu quarto, onde assomou na sacada, para ver lá de cima, mais uma vez, o trenó que, com os guizos tilintando, deslizava estrada abaixo, em direção à “aldeia”; depois se deixou cair numa cadeira e tirou do bolso do casaco a lembrança que recebera, o penhor que desta vez não consistia em lasquinhas de madeira avermelhada, mas sim numa chapinha de vidro, tarjada de preto, que devia ser mantida contra a luz para que se enxergasse alguma coisa: o retrato interno de Clávdia, que não mostrava o rosto, senão o delgado esqueleto do seu busto, envolto, de um modo transparente e espectral, na suave forma da carne, e também deixava perceber os órgãos da cavidade torácica...

Quantas vezes não contemplara Hans Castorp esse retrato, quantas vezes não o apertara aos lábios, no curso do tempo que decorrera desde então, trazendo consigo transformações! O tempo acarretara, por exemplo, a sua adaptação a uma vida levada ali em cima na ausência de Clávdia Chauchat, separada dele por um vasto espaço. Essa adaptação viera mais depressa do que se poderia imaginar: o tempo, nessas alturas, tinha um caráter especial e parecia feito para produzir hábitos, ainda que fosse apenas o hábito de não se habituar. O estrondo da porta envidraçada, ao começo das cinco refeições por demais opulentas, já não era de se esperar, e de fato não se repetiu. Em outros lugares, a uma enorme distância, Mme. Chauchat batia agora as portas – manifestação ligada e mesclada à sua índole e à sua doença de modo semelhante àquela relação que existe entre o tempo e os corpos no espaço: talvez toda a sua enfermidade constasse disso e de nada mais... Mas ela, embora invisível e distante, permanecia presente, sem ser vista, no espírito de Hans Castorp; era o gênio do lugar, que o jovem conhecera e possuíra numa hora nefasta, cheia de doçura e de pecado, hora incompatível com as pacatas cançõezinhas da planície.

E era o retrato espectral desse gênio o que ele levava na altura do coração tão violentamente torturado fazia nove meses.

Durante essa hora, seus lábios trêmulos haviam balbuciado muita coisa extravagante, ora num idioma estrangeiro, ora na sua língua materna, falando quase inconscientemente, numa voz meio apagada. Proferira ele propostas, sugestões, projetos e intentos insensatos, que, com toda a razão, não tinham encontrado aprovação nenhuma. Quisera acompanhar o gênio para além do Cáucaso, segui-lo, esperar por ele no lugar que os seus caprichos de nômade escolhessem para o

próximo domicílio, nunca mais se separar dele; e muitas outras idéias irresponsáveis da mesma qualidade. O que o nosso jovem insignificante guardava daquela hora de intensa aventura era precisamente o referido penhor espectral e a possibilidade – que tocava as raias do provável – de que Mme. Chauchat voltasse a Davos para uma quarta estadia, mais cedo ou mais tarde, conforme o decidisse a doença que lhe proporcionava a sua liberdade. Mas, fosse cedo ou tarde –

e também isso fora dito na hora da despedida —, em todo caso se acharia Hans Castorp então bem longe, desde muito tempo; seria ainda mais difícil suportar o sentido desdenhoso dessa profecia, se não se pudesse ponderar que certas coisas não são vaticinadas para se realizar, mas precisamente na intenção contrária, como uma espécie de sortilégio destinado a evitar-lhes a realização. Profetas desse gênero escarnecem o futuro, predizendo-lhe como se passará, para que tenha vergonha de tomar realmente o rumo anunciado. E se o gênio, no decorrer da conversa relatada e fora dela, chamara Hans Castorp de joli bourgeois au petit endroit humide, o que representava, pouco mais ou menos, uma tradução das palavras de Settembrini sobre o “filho enfermiço da vida”, era o caso de se perguntar qual dos dois elementos dessa mistura da sua natureza seria o mais forte, o bourgeois ou o outro... Além do mais, o gênio não levara em conta que ele próprio já se fora e voltara diversas vezes, de maneira que Hans Castorp também poderia estar de volta no momento oportuno, ainda que, na verdade, se detivesse ali em cima pelo único motivo de não ter necessidade de voltar ali. Para ele, como para muitos outros pensionistas, era justamente essa a razão da sua permanência.

Uma das profecias irônicas daquela noite de carnaval acabava de tornar-se realidade: Hans Castorp teve uma papeleta de temperatura bastante feia; a curva subia acentuadamente, formando um pico elevado que ele registrara com sensação solene; depois de uma ligeira queda prolongava-se numa espécie de planalto um tanto ondulado, que se mantinha constantemente acima do nível das suas temperaturas habituais. Tratava-se de uma temperatura anormal, cuja elevação e persistência, segundo a opinião do Dr. Behrens, não era explicável pelos sintomas encontrados nos pulmões de Hans Castorp. – Evidentemente, meu amigo, o senhor está mais intoxicado do que se podia esperar da sua prezada pessoa – disse o médico. – Hum! Vamos experimentar as injeções. Isso lhe fará bem. Dentro de três ou quatro meses se sentirá como peixe na água, se a coisa correr conforme as previsões deste seu criado. – Daí sucedeu que Hans Castorp tinha que se apresentar, duas vezes por semana, logo após o passeio da manhã, ao laboratório, para tomar a sua injeção.

Ambos os médicos, ora um, ora outro, ministravam o remédio, mas o conselheiro fazia-o com perícia, de um só golpe, esvaziando a seringa no próprio momento da picada. De resto não se preocupava com o lugar em que picava, de maneira que às vezes resultava uma dor infernal, e o ponto acometido permanecia por muito tempo duro e ardente. Além disso a injeção atacava fortemente o organismo em geral, abalando o sistema nervoso à maneira de um violento esforço desportivo. Isso e também a elevação momentânea da temperatura, que o remédio produzia, atestavam-lhe o poder que possuía. Era o que o conselheiro predissera e o que acontecia, segundo a regra e sem que o fenômeno anunciado desse motivo para queixas. A história toda levava apenas um instante, quando, finalmente, chegava a vez da pessoa; num ápice recebia-se o contra veneno sob a pele da coxa ou do braço. Mas, em certas ocasiões, quando o Dr. Behrens se achava bem disposto e não entristecido pelo tabaco, era possível entabular, durante a injeção, uma rápida palestra com ele, que Hans Castorp procurava dirigir, pouco mais ou menos, do seguinte modo:

– Lembro-me com o maior prazer daquela agradável hora de café que passamos na sua casa, senhor conselheiro, no outono do ano passado. Ainda ontem, ou talvez um pouco antes, falei com meu primo a esse respeito...

– Gaffky 7 – disse o médico. – É o último resultado. O rapaz decididamente não faz menção de se desintoxicar. E contudo nunca me suplicou tanto como agora, nunca insistiu tanto comigo em ir-se embora, para brandir o sabre. Esse criançola! Anda choramingando por causa dos seus quinze meses, como se fossem séculos que ele desperdiça aqui! Quer partir de qualquer

maneira. Então já lhe disse a mesma coisa? O senhor deveria falar-lhe da sua parte, seriamente e com firmeza. Esse sujeito vai se arruinar totalmente, ao engolir antes do tempo a poética cerração de vocês, com aquilo que ele tem à direita, em cima. Um ferrabrás como ele não precisa de muita massa cinzenta, mas o senhor, como homem mais circunspecto e como civil de formação burguesa, tem a obrigação de fazê-lo entrar no juízo, antes que ele cometa alguma loucura.

– É o que faço, senhor conselheiro – respondeu Hans Castorp, sem deixar de dirigir o rumo da conversa. – Faço isso muitas vezes, quando ele procura rebelar-se, e eu acho que Joachim voltará à razão. Mas os exemplos que a gente tem diante dos olhos nem sempre são os melhores. É isso o que está ruim. A cada instante há alguém que parte; partem para a planície, por iniciativa própria, sem verdadeira autorização, e no entanto com uma alegria festiva, como se a partida fosse justificada. Isso exerce uma certa sedução sobre caracteres fracos. Faz pouco tempo, por exemplo... deixe ver quem partiu recentemente... Uma senhora, da mesa dos “russos distintos”, Mme. Chauchat. Ouvi dizer que ela viajou para Daghestan. Bem, Daghestan, eu não conheço o clima daquela região. Pode ser que seja menos desfavorável do que o nosso ar da praia. Mas em todo caso é um país plano, do nosso ponto de vista, embora geograficamente talvez seja montanhoso; não sou muito forte nessas coisas. Como é possível viver lá embaixo sem estar curado, num país onde faltam os conceitos básicos e ninguém tem uma idéia das nossas regras nem sabe quando se deve observar o repouso ou tomar a temperatura? Aliás, ela tenciona voltar de qualquer jeito, como me disse ocasionalmente... Mas, afinal, por que chegamos a falar dela?... Pois é, aquele dia encontramos o senhor no jardim; não é, doutor? Lembra-se ainda? Quer dizer, o senhor nos encontrou a nós, quando estávamos sentados num banco – sei ainda qual foi

– e fumávamos. Ou melhor, quem fumava era eu, pois meu primo não fuma, inexplicavelmente.

E o senhor também estava fumando. Então oferecemos um ao outro as nossas marcas preferidas; lembro-me perfeitamente. O seu Brasil me agradou muitíssimo, embora seja preciso tratá-lo como a um potro, com prudência; senão, acontece alguma coisa como aquela que se passou com o senhor depois dos dois pequenos Havanas, quando esteve a ponto de dançar a sua última dança. A gente pode gracejar sobre aquilo, porque tudo terminou bem... Recentemente encomendei em Bremen mais algumas centenas de Maria Mancini. Estou muito acostumado a essa marca, que me é simpática sob todos os aspectos. É verdade que o frete e a alfândega a encarecem sensivelmente, e se o senhor me aumentar de novo o prazo da minha permanência, sou capaz de me converter ao fumo daqui. Nas vitrines se vêem charutos muito bonitos... E

depois tivemos oportunidade de ver os seus quadros; lembro-me como se fosse hoje. Gostei sumamente dos seus trabalhos. Fiquei mesmo surpreendido ao ver quanta coisa o senhor consegue fazer com tintas a óleo. Eu nunca me atreveria a tanto. Foi nessa ocasião que vimos também o retrato de Mme. Chauchat, com a pele magistralmente reproduzida. Francamente, senti-me entusiasmado. Naquela época ainda não conhecia o modelo, ou apenas de vista e de nome. Depois, pouco antes da sua partida, cheguei a conhecê-la pessoalmente.

– Não diga! – respondeu o conselheiro áulico. Era a mesma resposta que dera – o leitor nos permita esse retrospecto – quando Hans Castorp, antes do primeiro exame médico, lhe comunicara que tinha um pouco de febre. E não disse mais nada.

– Sim, senhor, conheci-a pessoalmente – confirmou Hans Castorp. – Sei por experiência que não é fácil entabular relações com pessoas estranhas aqui em cima, mas entre Mme. Chauchat e eu a coisa arranjou-se, casualmente, à última hora. Saiu uma palestra que... – Hans Castorp acabava de receber a injeção, e aspirando o ar por entre os dentes, deu um chiado de dor. – Fff!

Dessa vez tenho certeza, doutor, que o senhor acertou num nervo importantíssimo. Ah! sim, está doendo barbaramente. Muito obrigado, um pouquinho de massagem faz bem... Pois é, saiu uma palestra que fez com que nos conhecêssemos melhor.

– Sim? E então? – perguntou o conselheiro, sacudindo a cabeça, com cara de quem espera uma resposta cheia de elogios e põe na pergunta, de antemão, a confirmação dos esperados elogios, baseada na experiência própria.

– Acho que o meu francês claudicou bastante – esquivou-se Hans Castorp. – Afinal de contas, donde saberia eu falar melhor? Mas, no momento preciso, as palavras estão à mão, de maneira que conseguimos entender-nos mais ou menos bem.

– Não duvido. E então? – voltou o Conselheiro a indagar, acrescentando por sua conta: –

Bonitinha, não é?

Hans Castorp, abotoando o colarinho, achava-se de pé, com as pernas e os cotovelos escancarados, e com o rosto levantado para o teto.

– No fundo é uma velha história – disse. – Acontece nas estações de cura que duas pessoas ou até duas famílias vivam durante semanas sob o mesmo teto e contudo completamente distanciadas. Um dia travam conhecimento, apreciam-se sinceramente, e ao mesmo tempo ficam sabendo que uma delas está a ponto de partir. Imagino que tais ocorrências deploráveis se passem freqüentemente. Num caso desses, a gente gostaria de conservar, pelo menos, um certo contato, ter notícias um do outro, quero dizer, por correspondência. Mas Mme. Chauchat...

– Ué... ela não quer? – riu-se o conselheiro jovialmente.

– Isso mesmo. Ela não quis saber disso. Será que ela também não escreve ao senhor, assim de vez em quando?

– Que idéia! – respondeu Behrens. – Ela nem pensa nisso. Primeiramente por preguiça, e além disso, em que língua escreveria? Eu não sei ler russo. Arranho-o um pouco, em caso de necessidade, mas não leio nem uma palavra. E o senhor tampouco, não é? Bem, e quanto ao francês ou ao alemão, nossa gatinha sabe miá-los com muita graça, mas para escrever se veria em apuros. Não se esqueça da ortografia, meu amigo! Sim, senhor, com isso temos de nos conformar. Mas ela volta de vez em quando. É uma questão de técnica ou de temperamento, como eu já lhe disse. Uns partem às vezes e precisam voltar mais dia menos dia, enquanto outros ficam logo o tempo suficiente para nunca mais terem necessidade de voltar. Se o seu primo partir agora – não deixe de lhe dizer isso bem claramente – é possível que o senhor ainda esteja aqui para assistir às solenidades do regresso dele.

– Mas, doutor, quanto tempo acha o senhor que eu...

– Que o senhor? Que ele! Acho que ele ficará menos tempo lá embaixo do que passou aqui em cima. Esta é a opinião da minha humilde pessoa, e seria muita amabilidade sua se a transmitisse a ele.

Era aproximadamente nesses termos que se desenrolava esse tipo de conversa, dirigidas com astúcia por Hans Castorp, embora com um resultado entre nulo e ambíguo. Quanto ao tempo que era preciso permanecer ali para presenciar a volta de um enfermo partido prematuramente, a resposta fora equívoca, e, no que se refere a certa pessoa desaparecida, fora até nula. Hans Castorp nada ouviria dela, enquanto os separasse o mistério do espaço e do tempo; ela não lhe escreveria, e ele tampouco encontraria uma oportunidade para fazê-lo... Mas, refletindo bem, como poderia ser de outra forma? Não fora uma idéia muito pedante e burguesa da sua parte essa de sugerir uma troca de cartas, ao passo que outrora considerara desnecessário e nem sequer desejável que se falassem? E lhe “falara” ele realmente, no sentido que o Ocidente culto dá a essa palavra? Falara-lhe naquela noite em que estivera a seu lado? Não se expressara apenas numa língua estrangeira, como que num sonho, e de modo pouco civilizado? Para que então escrever em papel de carta ou cartões-postais, como os dirigia de vez em quando ao pessoal lá de casa, na planície, a fim de relatar as vicissitudes dos resultados dos exames médicos? Não tinha Clávdia razão de se sentir desobrigada de escrever, devido à liberdade que a doença lhe outorgava? Falar, escrever – deveras um assunto eminentemente humanista e republicano, um assunto para o mestre Brunetto Latini, que redigira aquele livro sobre as virtudes e os vícios, doutrinara os florentinos e lhes ensinara a discursar e a governar a sua república em conformidade com as regras da política...

Com isso, os pensamentos de Hans Castorp começaram a rumar para Lodovico Settembrini, e ele corou, assim como fizera certa vez quando o escritor entrara de súbito no seu quarto de doente, acendendo repentinamente as luzes. Sem dúvida, Hans Castorp poderia ter

dirigido ao italiano também as suas perguntas relativas aos enigmas transcendentais, fosse apenas para provocá-lo ou para resmonear, sem a esperança de receber uma resposta do humanista, que só se preocupava com os interesses terrestres da vida. Mas, desde o baile de carnaval e a cena emocionada com que Settembrini saíra da saleta de música, as relações entre Hans Castorp e ele haviam-se entibiado até certo ponto, o que se explicava pela consciência pesada de um e pelo profundo agastamento pedagógico do outro. A conseqüência era que se evitavam mutuamente e, durante semanas inteiras, não trocaram palavra alguma. Continuava Hans Castorp a ser um “filho enfermiço da vida” aos olhos do Sr. Settembrini? Não, provavelmente o desenganara este homem que procurava a moral na virtude e na razão... E Hans Castorp punha-se a recalcitrar com relação ao Sr. Settembrini; cerrava o cenho e franzia os lábios cada vez que se encontravam, enquanto o olhar negro e brilhante do italiano pousava nele numa reprovação silenciosa. Não obstante, essa birra se desfez imediatamente, quando o literato, semanas após, voltou a lhe dirigir a palavra, se bem que o fizesse apenas de passagem e sob a forma de alusões mitológicas, cuja compreensão requeria certa cultura ocidental. Foi depois da refeição; encontraram-se perto da porta envidraçada que já não se fechava com estrondo. Ao passar pelo jovem, e na intenção de não se demorar junto dele, Settembrini disse:

– Pois então, engenheiro, gostou da romã?

Hans Castorp sorriu, satisfeito, mas um tanto acanhado.

– Como?... Que é que o senhor quer dizer, Sr. Settembrini? Uma romã? Mas não nos serviram romãs! Nunca na vida comi... Isto é, um dia, sim, bebi xarope de romã com soda. Achei muito doce.

O italiano, que já se achava a alguma distância, virou a cabeça e retrucou:

– Aconteceu algumas vezes que os deuses ou os mortais visitaram o reino das sombras e encontraram o caminho de volta. Mas os habitantes do Inferno sabem que quem comeu dos frutos desse reino lhes pertence para sempre.

E prosseguiu no caminho, com as suas eternas calças claras de tecido xadrez, deixando atrás Hans Castorp, que deveria sentir-se “trespassado” por essas palavras cheias de significação.

E, com efeito, o jovem se ressentiu até certo ponto, posto que, entre irritado e divertido em virtude de tamanha pretensão, murmurasse de si para si:

– Latini, Carducci, spaghetti, deixe-me em paz! Mesmo assim, essas primeiras palavras que lhe haviam sido concedidas, tornaram-no muito feliz. Pois, apesar do troféu, da macabra lembrança que ele levava sobre o coração, afeiçoara-se ao Sr. Settembrini, a cuja presença ligava grande importância, e a idéia de se ver para sempre rejeitado e abandonado pelo italiano indubitavelmente lhe pesaria na alma de modo mais opressivo e mais cruel do que os sentimentos de um aluno que rodasse nos exames e gozasse das vantagens da ignomínia, à maneira do Sr.

Albin... Contudo, não se atreveu a entabular, da sua parte, uma conversa com o seu mentor, e este deixou passar outras semanas inteiras antes de entrar novamente em contato com seu discípulo enfermiço.

Isso sucedeu quando as ondas marinhas do tempo, rolando no seu ritmo eternamente invariável, haviam trazido a Páscoa, que foi celebrada no Berghof, assim como eram observadas escrupulosamente todas as etapas e todos os marcos miliários, para se evitar a monotonia confusa. Na hora do café da manhã cada pensionista encontrou ao lado do talher um tufo de violetas; no segundo café da manhã, todos receberam ovos coloridos, é a mesa festiva do almoço estava enfeitada de coelhinhos de açúcar e chocolate.

– Já fez alguma vez uma viagem por mar, tenente, ou o senhor, engenheiro? – perguntou o Sr. Settembrini, quando, depois da refeição, com o palito entre os dentes, se aproximou da mesinha dos primos, no vestíbulo. Como a maioria dos pensionistas, tinham abreviado, nesse dia, de um quarto de hora o repouso principal, para instalar-se diante de uma xícara de café e de um cálice de conhaque. – Esses coelhinhos e esses ovos coloridos relembram-me a vida num vapor grande, diante de um horizonte vazio há semanas, no deserto salino. Tal vida se passa sob condições cujo perfeito conforto não consegue fazer esquecer, senão superficialmente, a sua

natureza monstruosa, ao passo que nas zonas mais profundas da alma a consciência dela continua doendo em forma de um secreto horror... Reencontro aqui o espírito com que, a bordo de uma arca dessas, as festas da terra ferma são piedosamente observadas. Refletem-se nisso as reminiscências de pessoas que vivem fora do mundo, recordações sentimentais do calendário...

Na terra firme seria hoje a Páscoa, não é? Na terra firme celebram hoje o aniversário do rei – e nós também o fazemos, o melhor que podemos. Nós também somos criaturas humanas... Não tenho razão?

Os primos concordaram com ele. Realmente, era assim. Hans Castorp, comovido pelo fato de o italiano ter falado com ele, e instigado pelo remorso, elogiou a observação em altos brados. Achou-a espirituosa, magnífica, literária, e fez tudo para lisonjear o Sr. Settembrini.

Indiscutivelmente, era apenas de um modo superficial – assim como o Sr. Settembrini acabava de expressar-se com tanta plasticidade – que o conforto de um transatlântico fazia olvidar as circunstâncias e o seu caráter perigoso. Se ele podia tomar a liberdade de desenvolver algumas idéias por sua conta – havia nesse conforto perfeito até uma certa provocação, algo semelhante àquilo que os antigos chamavam hybris (para agradar ao seu interlocutor, chegou a citar os próprios antigos!) Mencionou também a altivez do Rei Baltasar e outras coisas nefandas. Por outro lado, porém, o luxo a bordo envolvia – usou mesmo o verbo “envolver” – um grande triunfo do espírito humano e da honra humana. O homem, ao transferir esse luxo e esse conforto para as águas coroadas de espuma salgada e ao mantê-lo ali, audaciosamente, plantava, por assim dizer, o pé na cerviz dos elementos, das potências bravias, e isso envolvia a vitória da civilização humana sobre o caos, se lhe era permitido servir-se dessa expressão...

O Sr. Settembrini escutou-o atentamente, com os pés e os braços cruzados, enquanto, num gesto gracioso, cofiava com o palito o bigode sinuoso.

– É interessante – disse. – O homem não pode fazer observações gerais de certa extensão, a respeito de qualquer assunto que seja, sem se trair inteiramente, sem depositar nelas, malgrado seu, toda a sua personalidade, sem representar, de alguma forma parabólica, o tema fundamental e o problema primitivo da sua vida. É isso o que acaba de lhe acontecer, engenheiro.

Aquilo que o senhor disse agora brotou de fato do fundo de seu Eu e expressou também, de um modo poético, o estado momentâneo desse Eu: continha a fase experimental...

– Placet experiri – riu-se Hans Castorp, pronunciando o “c” à italiana e sacudindo a cabeça afirmativamente.

– Sicuro, se se trata, no caso em apreço, da paixão respeitável de explorar o mundo e não de mera licenciosidade. O senhor mencionou a hybris. Serviu-se desse termo. Mas a hybris da razão em face das potências tenebrosas é a mais alta humanidade, e quando atrai sobre si a vingança de divindades ciumentas, per esempio, quando a arca de luxo vai a pique, achamo-nos sempre à frente de um fim honroso. Também a façanha de Prometeu era hybris, e as torturas que ele padeceu no penedo da Cítia são consideradas por nós o mais sagrado dos martírios. Mas que se deve dizer daquela outra hybris, da perdição na experiência libidinosa, feita com as potências contrárias à razão e hostis ao gênero humano? Há honra nelas? Pode haver honra em tal conduta? Si o no?

Hans Castorp mexia a colher na xícara, se bem que esta não contivesse mais nada.

– Engenheiro, engenheiro! – prosseguiu o italiano, meneando a cabeça, e a mirada dos olhos negros fixou-se pensativamente no espaço. – Não teme o senhor o furacão do segundo círculo do Inferno, o furacão que agita e sacode os pecadores da carne, os infelizes que sacrificaram a razão à volúpia? Gran Dio! Quando tenho a visão do senhor varrido pelo vendaval, voando de cá para lá, de cabeça para baixo, sinto-me com vontade de cair ao chão, de tanto pesar, assim como cai um cadáver...

Riram-se, contentes de ouvi-lo gracejar e dizer coisas poéticas. Settembrini, porém, acrescentou:

– O senhor vai se lembrar, engenheiro, como na noite de carnaval, bebendo vinho, se despediu em certo sentido de mim. Sim, senhor, foi uma espécie de despedida. Bem, hoje é a

minha vez. Tal como os senhores me vêem agora, estou a ponto de lhes dizer adeus. Vou sair desta casa.

Os primos ficaram pasmados.

– Não é possível. Está apenas brincando! – exclamou Hans Castorp, como o fizera numa ocasião semelhante. Estava quase tão assustado como naquele outro dia. Mas também Settembrini replicou:

– Nem um pouquinho. É como digo. Além disso, o senhor já andava preparado para ouvir essa notícia. Avisei-o de que estava decidido a levantar as minhas tendas e a estabelecer-me definitivamente em qualquer parte da “aldeia”, logo que se mostrasse insustentável a minha esperança de poder voltar, dentro de um prazo mais ou menos previsível, ao mundo do trabalho.

Que quer o senhor que eu faça? Esse momento chegou. É coisa certa que não me posso curar.

Posso prolongar a minha vida, mas só aqui. A sentença, o veredicto final é “prisão perpétua”. O

Dr. Behrens acaba de pronunciá-lo com o seu peculiar bom humor. Muito bem, tiro as conseqüências. Aluguei uma habitação. Estou tratando do transporte dos meus modestos bens terrenos e dos utensílios do meu ofício literário... Não fica longe daqui, na “aldeia”. Nós nos veremos seguidamente, não há dúvida. Não perderei o senhor de vista, mas, como habitante da mesma casa, tenho a honra de me despedir.

Era essa a comunicação que Settembrini lhes fizera no domingo de Páscoa. Os primos se haviam mostrado extraordinariamente comovidos. Demorada e repetidamente falavam com o literato sobre a sua decisão e as modalidades que lhe permitiriam observar o regime também na sua morada particular; tratavam do modo de levar adiante aqueles vastos trabalhos enciclopédicos que tomara a si, a sinopse de todas as obras-primas das belas-letras sob o ponto de vista dos conflitos originados pelo sofrimento e do seu extermínio; finalmente se informaram também a respeito dos futuros aposentos do Sr. Settembrini, que se achavam na casa de um “merceeiro”, como se expressava o italiano. Esse merceeiro alugara o andar superior da sua casa a um alfaiate natural da Boêmia, que por sua vez sublocava cômodos... Essas conversas, conforme explicamos, já pertenciam ao passado. O tempo ia avançando, e desde então já trouxera consigo mais de uma transformação. Settembrini realmente deixara de morar no Sanatório Internacional Berghof, e passara-se para a casa de Lukacek, alfaiate de senhoras, onde morava fazia semanas. Sua mudança não se realizara num trenó, senão a pé. Saíra ele envolto num curto sobretudo amarelo, de mangas e gola de peles. Acompanhara-o um homem, transportando, num carrinho de mão, a bagagem literária e terrena do escritor, que fora visto afastar-se, brandindo a bengala, após ter beliscado, com o dorso de dois dedos, as faces de uma das criadas, postada junto ao portão do edifício... Como já ficou dito, o mês de abril achava-se relegado quase inteiramente – mais de três quartas partes – à sombra do passado. Verdade é que ainda reinava pleno inverno. Pela manhã, a temperatura atingia uns escassos 6 graus acima de zero, nos quartos, ao passo que fora fazia 9

abaixo. Quando se deixava o tinteiro na sacada, durante a noite, a tinta congelava-se, formando um pedaço de gelo parecido com hulha. Mas era coisa sabida que a primavera vinha se aproximando. De dia, quando brilhava o sol, já se sentia pairando no ar um suave e delicado pressentimento. O período do degelo estava iminente, e a isso estavam ligadas as transformações que, irresistivelmente, se realizavam no Berghof. Nem sequer a autoridade e a palavra viva do conselheiro eram capazes de deter-lhe a progressão, posto que combatesse o preconceito popular contra o degelo, em toda parte, nos quartos e na sala, por ocasião de exames, visitas e refeições.

Vinham os pensionistas – assim perguntava – para se dedicar aos esportes de inverno, ou como enfermos, como pacientes? Por que cargas-d'água precisavam de neve, de neve gelada?

Desfavorável a temporada de degelo? Era, pelo contrário, a mais favorável de todas.

Comprovadamente o número de doentes acamados era menor nessa época do ano, em todo o vale, do que em qualquer outra estação. No mundo inteiro as condições climáticas para tuberculosos eram piores do que ali, no momento. Quem tivesse um pingo de juízo deveria persistir e aproveitar o efeito fortalecedor dessa fase do clima alpino. Depois, estariam imunizados contra todos os golpes e ataques do tempo, blindados contra qualquer clima do

mundo, contanto que esperassem a realização da cura completa, etc. No entanto, o conselheiro falava em vão. A animosidade contra o degelo achava-se arraigada nas cabeças. A freqüência da estação de cura diminuía. Pode ser que a aproximação da primavera agitasse o coração da gente e tornasse irrequietas e ávidas de mudanças até pessoas sedentárias. Em todo caso aumentava de forma inquietante o número das partidas arbitrárias, das partidas “em falso”, e isso também do Berghof. A Srª. Salomon, de Amsterdam, por exemplo, apesar do prazer que lhe causavam os exames médicos e a subseqüente ostentação de roupa interior de rendas finas, partiu “em falso”, de um modo totalmente arbitrário, sem a mínima autorização, e não porque se sentisse melhor, senão por andar cada vez pior. O início da sua permanência ali fora muito anterior à chegada de Hans Castorp, Fazia mais de um ano que ela chegara, com uma afecção muito leve, em virtude da qual lhe tinham receitado uma temporada de três meses. Depois de quatro meses fora-lhe assegurado que estaria “boa daqui a quatro semanas”; mas, seis semanas após, já não se falava em cura. Era preciso – assim se dissera – que ela permanecesse no mínimo outros quatro meses. E

dessa forma o tempo continuara a escoar-se – afinal de contas, isso não era nenhum calabouço nem uma mina siberiana. A Srª. Salomon ficara e exibira a sua mais fina roupa de baixo. Como, porém, depois do último exame, e na iminência do degelo, lhe houvessem falado de um novo acréscimo de cinco meses, por causa de síbilos à esquerda, em cima, e indiscutíveis anomalias do ruído respiratório abaixo da axila esquerda, perdera a paciência. Sob protesto, invectivando a “aldeia” e Davos-Platz, o famoso ar das montanhas, o Sanatório Internacional Berghof e os médicos, partira para o seu lar em Amsterdam, cidade úmida, cheia de correntes de ar.

Era isso razoável? O Dr. Behrens encolheu os ombros e levantou os braços, deixando-os, em seguida, cair ruidosamente sobre as coxas. O mais tardar no outono – disse – a Srª. Salomon estaria de volta, e então seria para sempre. Teria ele razão? Já o veremos, uma vez que ainda nos acharemos por algum tempo desta terra ligados ao nosso oásis de prazeres. O caso Salomon não era, porém, o único da sua espécie. O tempo trazia consigo transformações; sempre fora assim, mas em geral isso se produzira de uma forma mais paulatina, menos escandalosa. A sala de refeições mostrava grandes lacunas, em todas as sete mesas, na dos “russos distintos” como na dos “ordinários”, nas longitudinais tanto como nas transversais. Não se podia, contudo, tirar disso uma conclusão certa a respeito do número de pensionistas da casa. Houvera também chegadas, como sempre as havia. Os quartos, talvez, continuassem ocupados, mas então se trataria de pacientes cujo estado final lhes restringia a liberdade de escolher o domicílio. Na sala de refeições, como já verificamos, faltavam muitos, que ainda não tinham perdido essa liberdade; algumas lacunas, entretanto, estavam abertas de um modo particularmente incisivo e vazio, como, por exemplo, a que deixara o Dr. Blumenkohl, que acabava de falecer. Seu rosto fora assumindo cada vez mais intensamente aquela expressão de quem tem na boca qualquer coisa de sabor repugnante; depois acamara-se definitivamente e afinal morrera – ninguém sabia precisar quando.

O assunto fora tratado com a costumeira discrição. Uma lacuna! A Srª. Stöhr tinha o lugar pegado a essa lacuna e horrorizava-se disso. Por esse motivo, mudou-se para o outro lado do jovem Ziemssen, ocupando a cadeira de Miss Robinson, que recebera alta como curada, ao passo que, à sua frente, a professora, vizinha esquerda de Hans Castorp, permanecia firme em seu posto. No momento achava-se sozinha naquele lado da mesa, pois os outros três lugares estavam vagos. O

estudante Rasmussen, que dia a dia se tornara mais obtuso e mais sonolento, achava-se de cama e era considerado moribundo. A tia-avó, com sua sobrinha e com Marusja, a moça dos seios opulentos, estavam em viagem – servimo-nos do termo “viagem”, como todos o faziam, uma vez que a sua volta próxima passava por fato indubitável. No outono já estariam de regresso – podia-se chamar àquilo de “partida”? Muito depressa chegaria o solstício de verão, logo após o Pentecostes, que estava iminente, e, uma vez alcançado o dia mais longo, viria a rápida descida, rumo ao inverno. Numa palavra, a tia-avó e Marusja quase estavam de volta, e era melhor assim, já que a risonha Marusja absolutamente não ficaria curada e desintoxicada. A professora ouvira falar de blastomas tuberculosos que a Marusja dos olhos castanhos trazia no peito exuberante, e que já tinham sido operados diversas vezes. Quando a Srª. Engelhart mencionou isso, Hans

Castorp lançou um rápido olhar a Joachim, que inclinava para o prato o rosto subitamente cheio de manchas terrosas.

A alegre tia-avó dera aos comensais – isto é, aos primos, à Srª. Stöhr e à professora – um jantar de despedida no restaurante, uma comezaina com caviar, champanha e licores, durante a qual Joachim se conservara taciturno, proferindo só poucas palavras numa voz quase surda.

Tanto assim que a tia-avó, com o seu espírito afetuoso, procurara confortá-lo, chegando até a tratá-lo por “tu”, em completo abandono das conveniências civilizadas. – Não há de ser nada, paizinho. Não te importes, mas come, bebe e conversa! Daqui a pouco a gente voltará – dissera ela. – Vamos todos comer, beber e falar, e não nos entregar à tristeza. Deus mandará o outono antes do que esperamos. Como vês, não há motivos para mágoas. – Na manhã do dia seguinte distribuíra, como lembrança, vistosas caixinhas de confeitos a quase todas as pessoas presentes na sala de refeições. A seguir, empreendera a viagem, em companhia das duas moças.

Continuar: parte 2 de 5