A Montanha Mágica
Behrens estava encantado; sentia-se lisonjeado até o…
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Behrens estava encantado; sentia-se lisonjeado até o entusiasmo. Até corou de tanto prazer, e dessa vez os seus olhos davam a impressão de querer derramar as lágrimas.
– Como não! – exclamou. – Com a maior boa vontade! Se os senhores quiserem, podemos ir já. Venham, venham comigo! Vou lhes preparar um café turco no meu antro! –- E
tomou os dois jovens pelo braço, forçou-os a se levantarem e, caminhando entre eles, de braço dado, guiou-os pela vereda ensaibrada em direção ao seu apartamento, que, como já sabiam, se achava bem perto, na ala noroeste do Berghof.
– Tempos atrás – disse Hans Castorp – eu mesmo fiz algumas tentativas nesse gênero.
– Não diga! Coisa sólida, a óleo?
– Não, senhor, não fui além de algumas aquarelas. Às vezes um navio, outras uma paisagem marinha, bagatelas e nada mais. Mas gosto muito de apreciar quadros, e por isso tomei a liberdade...
Essa explicação serviu, sobretudo, para tranqüilizar e esclarecer Joachim a respeito da estranha curiosidade do primo. E com efeito fora mais para ele do que para o conselheiro que Hans Castorp recordara os seus próprios estudos artísticos. Chegaram. Desse lado não havia um portal tão magnífico, flanqueado de lampiões, como do lado da rampa. Alguns degraus encurvados conduziam ao portão de carvalho, que o conselheiro abriu com uma das chaves do seu bem-provido chaveiro. Ao fazê-lo, tremia-lhe a mão. Evidentemente estava nervoso.
Acolheu-os um vestíbulo guarnecido de cabides, onde Behrens pendurou o chapéu-coco. Mais para dentro havia um pequeno corredor, que uma porta envidraçada separava do resto da casa.
Aos dois lados desse corredor estendiam-se as peças do apartamento particular.O médico chamou a criada e deu ordens. A seguir, entre palavras joviais e animadoras, fez entrar os hóspedes por uma das portas à direita.
Depararam com alguns cômodos mobiliados de modo banalmente burguês, que davam para o vale e se comunicavam entre si, separados apenas por reposteiros: uma sala de jantar em estilo “alemão antigo”; uma saleta de estar e de trabalho, com uma escrivaninha, acima da qual estavam suspensos um boné de estudante e dois sabres cruzados, com alguns tapetes de lã, uma estante e um sofá; e finalmente um gabinete de fumar, de mobília “turca”. Em toda parte viam-se quadros, os quadros do conselheiro áulico. Cheios de cortesia e dispostos a admirá-los, os olhos dos visitantes convergiram imediatamente sobre eles. A falecida esposa do médico estava representada diversas vezes, pintada a óleo e também em fotografia, sobre a escrivaninha. Era uma loura um tanto enigmática, vaporosamente vestida, com as mãos juntas à altura do ombro esquerdo – não juntas firmemente, mas apenas unindo de leve as articulações superiores dos dedos – e com os olhos ora dirigidos para o céu ora bem baixos, escondidos sob as longas pestanas que saíam obliquamente das pálpebras; nunca, porém, a saudosa senhora olhava para a frente, encarando o espectador. Além dela viam-se antes de tudo paisagens alpinas, montanhas cobertas de neve ou de abetos verdes, montanhas envoltas na bruma das alturas, e montanhas cujos contornos secos e nítidos penetravam, sob a influência de Segantini, um céu
profundamente azul. Havia ainda cabanas de pastores, vacas de grandes barbelas, pastando, de pé ou deitadas, na pradaria ensolarada, uma galinha depenada, deitada na mesa, por entre legumes, e que deixava pender o pescoço torcido, flores, tipos de montanheses e outras coisas mais – tudo pintado com certo diletantismo fácil, com tintas atrevidamente aplicadas em grossos tufos, que amiúde davam a impressão de terem sido comprimidos da bisnaga diretamente sobre a tela e deviam ter levado muito tempo para secar – processo que não deixava de produzir certo efeito em caso de defeitos graves.
Como numa exposição de pintura, iam contemplando os quadros expostos ao longo das paredes acompanhados do dono da casa, que de vez em quando explicava o respectivo assunto, mas em geral permanecia silencioso, desfrutando, com a orgulhosa reserva do verdadeiro artista, o prazer de olhar as próprias obras em companhia de pessoas estranhas. O retrato de Clávdia Chauchat encontrava-se na saleta de estar, pendurado na parede da janela. Hans Castorp, apenas entrara, já o descobrira de relance, apesar de o quadro se parecer apenas vagamente com o modelo. De propósito, o jovem evitou o lugar. Reteve os seus companheiros na sala de jantar, onde fingia admirar um panorama verde do vale de Sergi, com as geleiras azuladas no fundo. A seguir, por iniciativa própria, dirigiu-se ao gabinete de estilo turco, que examinou com igual atenção, distribuindo muitos elogios. Depois, foi ver a parede da entrada da saleta de estar, insistindo diversas vezes com Joachim para que manifestasse o seu aplauso. Por fim voltou-se e disse com surpresa comedida:
– Este rosto me parece conhecido.
– O senhor a reconhece? – quis saber o Dr. Behrens.
– Claro, acho que não pode haver lugar para um engano. É aquela senhora da mesa dos russos “distintos”, a que tem um nome francês...
– Sim, senhor, a Chauchat. Folgo em ver que o senhor a reconhece.
– Perfeitamente! -mentiu Hans Castorp, menos por falsidade, do que percebendo que ele não deveria ter reconhecido o modelo do retrato, se tudo se tivesse passado corretamente – tão pouco como Joachim o teria feito sem a ajuda dele, o bom Joachim a quem ele pregara esta peça, e que agora começava a dar pela coisa e a sair do engano em que Hans Castorp o induzira. – Ah, sim – disse baixinho, conformando-se com a idéia de contemplar o quadro. Seu primo soubera compensar a ausência da reunião no terraço.
Era um busto de meio perfil, de tamanho um pouco menos que natural, decotado, com um arranjo de véus em volta dos ombros e do peito. Rodeava-o uma larga moldura preta, chanfrada e guarnecida, na parte interior, junto à tela, de uma borda de ouro.
Mme. Chauchat parecia dez anos mais velha do que na realidade, como ocorre freqüentemente em retratos feitos por amadores que se esforçam por salientar as características do modelo. Em todo o rosto havia excesso de vermelho. O nariz estava muito mal desenhado. O pintor não acertara o tom dos cabelos, fazendo-o muito semelhante a palha. A boca saíra torta. Ele absolutamente não descobrira ou não conseguira expressar o encanto peculiar àquela fisionomia, ficando tudo estragado pelo exagero de particularidades. O conjunto não passava de um trabalho de troca-tintas, e como retrato não ia além de uma afinidade muito longínqua com o original. Mas Hans Castorp não se mostrava muito exigente quanto à semelhança. As relações que existiam entre essa tela e a pessoa de Mme. Chauchat afiguravam-se-lhe suficientemente estreitas. O quadro devia representar Mme. Chauchat; ela mesma posara para ele naqueles aposentos. Era o que bastava a Hans Castorp, que repetiu com emoção:
– Em carne e osso!
– Não diga isso! – protestou o conselheiro. – Foi um trabalho bravo, e não creio ter produzido uma coisa que preste, apesar de termos realizado umas vinte sessões. Como quer o senhor que se reproduza um rosto tão complicado? A gente imagina que deve ser fácil apanhá-la, com seus zigomas hiperbóreos e aqueles olhos rasgados como riscas na casca de um pão. É o que o senhor pensa! Acertando no pormenor, fracassa-se no conjunto. É um verdadeiro quebra-
cabeça. O senhor a conhece? Talvez seja melhor não pintá-la na presença dela, mas de memória.
Conhece-a o senhor?
– Sim e não, superficialmente, assim como aqui se conhece o pessoal.
– Bem, eu conheço-a mais por dentro, subcutaneamente; compreende? Estou mais ou menos a par, por determinados motivos, quanto à sua pressão arterial, ao tônus dos seus tecidos e à sua circulação linfática, mas a superfície me opõe maiores dificuldades. O senhor já observou como ela anda? O rosto é tal e qual o andar. Uma criatura felina! Veja, por exemplo, os olhos!
Não falo da cor, que também é traiçoeira. Refiro-me à posição e à forma. O senhor dirá que a fissura das pálpebras é rasgada, oblíqua. Mas só na aparência é assim. O que o engana é o epicanto, isto é, uma particularidade que se encontra em certas raças. Tem ele a sua origem no fato de que um excesso de pele, que provém do nariz chato dessa gente, se estende da dobra da pálpebra para além da comissura interior do olho. Basta esticar fortemente a pele por cima da base do nariz, para que o senhor obtenha um olho igual aos nossos. É uma mistificação picante, mas nada honrosa, uma vez que o epicanto, observado de perto, não passa de uma imperfeição de fundamento atávico.
– Ah, então é essa a explicação – disse Hans Castorp. – Não o sabia, mas já faz tempo me interessava conhecer o mistério desse tipo de olhos.
– Ilusão, equívoco, nada mais! – confirmou o conselheiro. -se o senhor os desenhasse simplesmente oblíquos e rasgados, estaria perdido. É preciso realizar essa aparência oblíqua e rasgada assim como o faz a natureza, juntando, por assim dizer, a ilusão à ilusão, e para isso é naturalmente indispensável que o senhor esteja informado a respeito do epicanto.
Conhecimentos nunca prejudicam. Olhe, por exemplo, a pele, essa pele do corpo! Acha ou não acha que tem vida?
– É impressionante! – disse Hans Castorp. – É formidável como o senhor deu vida a essa pele. Creio que nunca vi pele tão bem reproduzida. A gente tem a impressão de ver os poros. – E
com a borda exterior da mão acariciou o decote do retrato que se destacava muito branco do exagerado vermelho do rosto, como uma parte do corpo que habitualmente não se vê exposta à luz, e assim sugeria, de um modo petulante, fosse ou não intencionalmente, a idéia da nudez –
um efeito, em todo caso, bastante grosseiro.
Mesmo assim era justo o elogio de Hans Castorp. O brilho baço da alvura desse busto delicado mas não magro, que se perdia no arranjo dos véus azulados, tinha muita naturalidade.
Evidentemente, fora pintado com sentimento; porém, apesar de um quê de adocicado, conseguira o artista dar-lhe uma espécie de realidade científica e de precisão viva. Servira-se do grão da tela, sobretudo na região das clavículas suavemente ressaltadas, para obter, através da tinta a óleo, o efeito da aspereza natural da superfície da pele. Um lunarzinho, na parte esquerda, ali onde os seios começavam a dividir-se, não ficara esquecido, e entre as proeminências aparecia a rede das veias palidamente azuis. Era como se, sob os olhos do espectador, um estremecimento mal perceptível de sensibilidade percorresse essa nudez. Ou, usando uma formulação um tanto ousada: podia-se chegar à idéia de perceber a transpiração, a emanação invisível e viva dessa carne, e quem colasse os lábios contra ela, talvez imaginasse sentir, não o cheiro de tinta e de verniz, senão o de um corpo humano. Assim dizendo, limitamo-nos a reproduzir as impressões de Hans Castorp; mas, embora ele estivesse particularmente disposto, a receber tais impressões, deve-se constatar, com toda a objetividade, que o decote de Mme. Chauchat era, de fato, o que havia de mais notável entre as pinturas da saleta.
O Dr. Behrens, com as mãos nos bolsos, balouçava-se alternadamente nos calcanhares e nas pontas dos pés, enquanto contemplava a sua obra em companhia dos visitantes.
– Folgo em ver, meu caro colega – disse –, folgo até muito em ver que o senhor compreende as minhas intenções. É com efeito útil e nunca prejudica saber também o que se passa debaixo da epiderme, a ponto de ser capaz de pintar um pouco daquilo que propriamente não se vê. Em outras palavras: é bom manter com a natureza ainda uma outra relação que não a puramente lírica. Vamos dizer que não faz mal que a gente exerça acessoriamente a profissão de
médico, fisiólogo ou anatomista, e tenha alguns conhecimentos discretos dos dessous. Diga o senhor o que quiser, mas isso tem as suas vantagens e dá, indiscutivelmente, uma certa superioridade. Nessa pele aí há ciência. O senhor pode examiná-la com o microscópio para controlar a verdade orgânica. Nela, o senhor não vê apenas as camadas mucosas e córneas da epiderme, mas também, representado na idéia, o que está embaixo, o tecido do derma, com suas glândulas sudoríparas e sebáceas, com os vasos de sangue e com as papilas; e ainda mais abaixo deve-se imaginar a túnica adiposa, a almofada, sabe? a base que, com as suas numerosas células de gordura, produz as lindas formas femininas. O que se sabe e se pensa, durante o ato criador, também se faz sentir. Guia a nossa mão e causa os seus efeitos; não existe, e todavia existe de alguma forma. E é isso o que dá vida.
Hans Castorp estava todo entusiasmado por essa palestra. Sua testa tingira-se de rubor.
Seus olhos brilhavam. Ele não sabia o que responder em primeiro lugar, tanta coisa tinha a dizer.
Antes de mais nada, se propunha tirar o quadro da parede da janela e colocá-lo num lugar mais favorável; além disso desejava comentar as observações do conselheiro a respeito da pele, que lhe interessavam vivamente; e finalmente tencionava expressar um pensamento geral e filosófico que lhe ocorrera, e ao qual conferia particular importância. Enquanto levava as mãos ao quadro para dependurá-lo, começou a falar apressadamente:
– Sim, senhor! Sim, senhor! Tem razão, isto é importante. Eu queria dizer... Ou melhor, o senhor disse: “Ainda uma outra relação...” Seria bom manter além da relação lírica – acho que foi assim que se expressou –, além da relação artística, digo eu, ainda uma outra; numa palavra: convém olhar os objetos ainda sob outro aspecto, por exemplo, o aspecto médico. Isso é cem por cento certo – desculpe, doutor –, mas acho mesmo essa opinião sumamente acertada, porque não se trata, no fundo, de relações e aspectos fundamentalmente diferentes, mas, em realidade, de um só ponto de vista. São apenas modificações dele, quero dizer: matizes, ou talvez variantes do mesmo interesse geral, do qual a atividade artística também é apenas uma parte e uma expressão, se assim posso dizer... Ora, com sua permissão, vou tirar o quadro deste lugar, onde não recebe luz nenhuma. Espere, vou colocá-lo aqui no divã, para ver se não... Bem, eu queria dizer: de que se ocupa a ciência médica? Claro que não entendo nada do assunto, mas sei, afinal, que se ocupa do homem. E o direito, a legislação e a jurisprudência? Também do homem! E a lingüística, que ordinariamente anda ligada ao exercício da profissão pedagógica? E a teologia, a cura das almas, o sacerdócio? Todos eles se ocupam do homem; todos são apenas variações de um e mesmo interesse importante e capital, a saber, o interesse pelo homem; são, numa palavra, as profissões humanísticas, e quem quer estudá-las aprende como fundamento antes de tudo as línguas clássicas, não é isso? para obter uma cultura formal, como dizem. O senhor talvez se admire de que eu fale assim, eu que não sou mais que um técnico, de formação científica. Mas, enquanto estava acamado, meditava freqüentemente sobre isso, e me parece coisa excelente, parece-me maravilhoso basear-se cada profissão humanística no elemento formal, na idéia da forma, da bela forma, não é mesmo?... Isso empresta a tudo um caráter tão nobre, tão desinteressado, e dá à coisa um quê de sentimento e de... cortesia... O interesse transforma-se quase que numa proposta galante... quer dizer – provavelmente não emprego os termos próprios –, mas a gente vê como o espírito e a beleza se misturam e no fundo nunca deixaram de ser idênticos... Em outras palavras: a ciência e a arte... de maneira que o exercício das artes constitui também uma parte integrante do conjunto, como quinta faculdade por assim dizer, e que não é diferente de uma profissão humanística, uma variante do interesse humanístico, uma vez que seu tema mais importante e sua preocupação principal são outra vez o homem, como o senhor deve admitir. É verdade que eu só pintava navios e marinhas, quando na minha juventude fiz tentativas nesse sentido; mas o que há de mais atraente na pintura é a meu ver o retrato, porque tem por objeto imediato o homem. Foi por isso, doutor, que lhe perguntei logo se o senhor já linha feito ensaios nesse campo... Não acha que este lugar seria muito mais favorável ao quadro?
Tanto Behrens como Joachim olhavam-no como para verificar se não se envergonhava do seu discurso improvisado. Mas Hans Castorp estava por demais absorto pelo seu assunto para
se acanhar. Mantendo o quadro junto da parede do sofá, esperava que lhe respondessem se estava ou não mais bem iluminado ali. Nesse instante, a criada trouxe, numa bandeja, água quente, um fogareiro a álcool e xícaras paia café. O conselheiro mandou-a levar tudo ao gabinete de fumar e disse, dirigindo-se a Hans Castorp:
– Neste caso deveria interessar-se menos pela pintura do que pela escultura... Tem razão, neste lugar recebe muito mais luz. Se o senhor acha que o quadro suporta tanta... Quero dizer, pela plástica, porque ela lida mais pura e mais exclusivamente com o homem em geral... Mas devemos prestar atenção para que a água não se evapore completamente.
– Pois é, a plástica – disse Hans Castorp, enquanto passavam de uma peça a outra.
Esquecendo-se de pendurar o quadro novamente ou de colocá-lo no chão, levou-o consigo ao gabinete contíguo. – Não há dúvida, numa Vênus grega ou num tipo de atleta, o elemento humanístico mostra-se com a maior nitidez. No fundo é esse o gênero autêntico, a arte genuinamente humanística, para quem reflete bem...
– Ora, quanto à pequena Chauchat – observou o conselheiro –, acho que ela é antes um motivo pictórico. Parece-me que Fídias ou aquele outro sujeito cujo nome tem uma desinência judaica teriam torcido o nariz a esse tipo de fisionomia... Diga, que é que o senhor está fazendo aí? Por que anda passeando com esse troço?
– Perdão, vou encostá-lo no pé da minha cadeira; ali fica bem, por enquanto... Mas os escultores gregos pouco se preocupavam com a cabeça; o que lhes importava era o corpo. Talvez seja este o elemento verdadeiramente humanístico... E o senhor acha que a plasticidade das formas femininas é só gordura?
– Gordura e nada mais – disse em tom categórico o conselheiro, que acabava de abrir um armário embutido e tirara dele os apetrechos necessários para o preparo de café: um moinho turco em forma de tubo, uma canequinha de cabo comprido, o recipiente duplo para açúcar e café moído – tudo de latão. – Palmitina, oleína, estearina – acrescentou, enquanto derramava de uma lata os grãos de café dentro do moinho e começava a dar voltas à manivela. – Estão vendo, eu mesmo faço tudo, desde o início. Assim o café fica duas vezes melhor... Pois é gordura! Que pensava o senhor? Que fosse ambrosia?
– Não, eu já sabia disso, e contudo é curioso ouvi-lo assim explicado – respondeu Hans Castorp.
Estavam sentados num canto, entre a porta e a janela, em torno de um tamborete de bambu, que suportava uma bandeja de latão, ornada de motivos orientais, onde o aparelho de café encontrara um lugar no meio de utensílios para fumantes. Joachim instalara-se ao lado de Behrens, numa otomana abundantemente guarnecida de almofadas de seda; Hans Castorp numa poltrona provida de rodinhas, na qual apoiara o retrato de Mme. Chauchat. Tinham sob os pés um tapete multicor. O conselheiro áulico deitou colheradas de café e de açúcar na canequinha de cabo comprido, acrescentou água e fez o líquido ferver em cima do fogareiro a álcool. A bebida derramada nas xícaras enfeitadas com um padrão de cebolas tinha uma espuma escura, e seu sabor era tão forte quanto doce.
– Com as formas do senhor é a mesma coisa – continuou Behrens.– A sua plasticidade, se é que se pode falar dela, é também gordura, embora não haja tanta como nas mulheres. Entre nós, a gordura normalmente não vai além da vigésima parte do peso do corpo, ao passo que nas mulheres costuma ser a décima sexta parte. Sem a camada adiposa embaixo da nossa pele, ficaríamos como uns fungões. Com os anos, ela se vai, e então se produz o famoso drapejamento de rugas pouco estéticas. Onde aquela camada tem a maior espessura é no peito, no ventre e nas coxas da mulher, numa palavra, em toda parte onde encontramos alguma coisa para divertir o coração e a mão. As plantas dos pés também são gordurosas e cosquentas.
Hans Castorp fazia girar entre as mãos o moinho de café em forma de tubo. Como o resto do conjunto, era antes de origem indiana ou persa do que turca; assim o indicava o estilo dos ornamentos gravados no latão, cujas superfícies brilhantes se destacavam do fundo baço.
Hans Castorp contemplou-os, sem entender, a princípio, do que se tratava. Quando compreendeu, corou violentamente:
– Pois é, são utensílios só para homens – disse Behrens. – Por isso, mantenho-os guardados a chave. A boa da minha cozinheira poderia ter maus pensamentos. Mas parece-me que aos senhores isto não pode fazer mal. Ganhei essas coisas de uma paciente, uma princesa egípcia que nos deu a honra de permanecer entre nós durante um ano. Veja, o desenho se repete em todas as peças. Gozado, hein?
– Sim, é mesmo curioso – respondeu Hans Castorp. – Ah, não, a mim não me impressiona. Seria até possível dar a esses ornamentos uma interpretação séria e solene, ainda que eles fiquem um pouco impróprios para um serviço de café. Ouvi dizer que os antigos representavam isso nos ataúdes. Para eles, o obsceno e o sagrado eram, de certo modo, uma e a mesma coisa.
– Ora, quanto àquela minha princesa – disse Behrens, creio que ela se interessava mais pelo obsceno. Também ganhei dela uns excelentes cigarros, coisa extrafina, que só ofereço em ocasiões excepcionais. – E tirou do armário uma caixa de cores berrantes, que apresentou aos hóspedes, Joachim fez que não, juntando os tacões. Hans Castorp serviu-se e fumou o cigarro extraordinariamente grosso e comprido, adornado de uma esfinge impressa em ouro, e que de fato era maravilhoso.
– Tenha a bondade, senhor conselheiro – pediu Castorp –, de nos contar mais alguma coisa sobre a pele. – Voltara a pôr nos joelhos o retrato de Mme. Chauchat e contemplava-o, reclinado na poltrona, com o cigarro entre os lábios. – Não precisamente da túnica adiposa –
continuou. – Dela já sabemos bastante. Mas da pele humana em geral, que o senhor pinta com tanta perfeição.
– Da pele? Interessa-se pela fisiologia?
– Sim, senhor, muito. Sempre tive grande interesse por essa matéria. O corpo humano é um assunto que sempre me preocupou extremamente. Muitas vezes já me perguntei se não deveria ter estudado medicina. Sob certos aspectos, creio que me teria dado muito bem com essa profissão. Pois quem se interessa pelo corpo também se interessa pela doença, e principalmente por ela. Não tenho razão? Por outro lado, isso não quer dizer grande coisa, uma vez que eu teria podido dedicar-me a diversas profissões. Por exemplo, seria possível que eu escolhesse o sacerdócio.
– Não diga!
– Sim, senhor! Às vezes tenho a impressão passageira de que, talvez, a minha vocação seja esta.
– Por que, então, se fez engenheiro?
– Por acaso. Acho que o que me decidiu foram as circunstâncias exteriores.
– Hum, quanto à pele! Que quer o senhor que lhe conte do seu ectoderma? É o seu cérebro externo, sabe? Ontogeneticamente falando, tem a mesmíssima origem que o aparelho dos chamados órgãos sensitivos superiores, aí em cima, no seu crânio. O senhor deve saber que o sistema nervoso central é apenas uma leve modificação da camada exterior da pele; nas espécies inferiores do reino animal ainda não existe a diferença entre central e periférico. Esses bichos servem-se da pele para cheirar e para saborear, compreende? Toda a sua sensualidade reside na pele, o que deve ser bastante agradável, para quem for capaz de se imaginar no lugar deles. Nas criaturas altamente desenvolvidas, porém, criaturas como o senhor e eu, a ambição da pele limita-se à faculdade de sentir cócegas. A pele não passa então de um órgão protetor e transmissor, mas que presta uma atenção infernal a tudo quanto nos possa ofender o corpo. Estende mesmo para fora uma antenas de tato, o velo do nosso corpo, os pêlos fininhos que se compõem somente de células endurecidas e permitem sentir a menor aproximação, muito antes de a própria pele ser tocada. Cá entre nós: é até possível que a função defensiva e protetora da pele não se restrinja exclusivamente à esfera física... O senhor sabe de que maneira fica ruborizado e pálido?
– Só vagamente.
– Devo confessar que nem nós mesmos o sabemos com absoluta precisão, pelo menos no que se refere ao rubor. O assunto não foi ainda completamente esclarecido, pois por enquanto não conseguimos demonstrar nos vasos de sangue a existência de músculos dilatadores que sejam postos em ação pelos nervos vasomotores. Por que intumesce a crista do galo – ou que outros exemplos de jactância se possam citar – é, por assim dizer, um mistério, tanto mais quando se trata de uma influência psíquica. Supomos que haja ligações entre a camada cortical do cérebro e o centro vascular da medula oblongada. E, devido a certos estímulos – por exemplo, quando o senhor se sente muito envergonhado –, entra em jogo essa ligação e começam a agir os nervos vasculares que vão em direção ao rosto; então se dilatam e se enchem os vasos capilares que ali se acham, de maneira que o senhor anda com a cabeça feito um peru e está todo túmido de sangue e mal pode abrir os olhos. Em outros casos, porém, quando nos espera Deus sabe o quê, uma coisa de tremenda beleza talvez, contraem-se os vasos capilares da pele, que então se torna pálida, fria e murcha, e o senhor fica que nem um cadáver, de tanta emoção, com as órbitas lívidas como chumbo e com um nariz branco, afilado, enquanto o nervo simpático faz o coração martelar loucamente.
– Ah! Então é assim que isso acontece?
– Mais ou menos. São reações, sabe? Mas, uma vez que todas as reações e todos os reflexos têm uma finalidade inerente, chegamos nós, os fisiólogos, a supor que também esses fenômenos secundários de emoções psíquicas são, no fundo, meios adequados de defesa, reflexos protetores, como, por exemplo, o arrepio. Sabe o senhor donde nos vêm os arrepios?
– Com franqueza, também não sei claramente.
– Aí se trata de um trabalho das glândulas sebáceas da pele que segregam o sebo cutâneo, uma substância albuminosa gordurenta, que não é lá muito apetitosa, sabe?, mas conserva a pele macia, evita que ela se grete ou rasgue, e a torna agradável ao tato. Nem se pode imaginar que sensação nos daria o contato com a pele humana não fosse a colesterina. Essas glândulas sebáceas dispõem de pequenos músculos orgânicos capazes de pô-las num estado de ereção, e quando fazem isso, sucede ao senhor o mesmo que aconteceu àquele rapaz sobre o qual a princesa derramou um balde cheio de lambaris: sua pele fica feito um ralador, e quando a excitação é muito forte, até se levantam os folículos pilosos; seus cabelos eriçam-se na cabeça e os pêlos, no corpo, exatamente como se dá com um porco-espinho que se defende. Então poderá o senhor afirmar que chegou a conhecer o horror.
– Ora – disse Hans Castorp –, a esse ponto já cheguei várias vezes. Até mesmo me ocorre facilmente horrorizar-me nas mais diversas ocasiões. O que me admira é apenas que essas glândulas se ericem em circunstâncias tão diferentes. Quando alguém risca um vidro com um lápis de pedra, fica-se com arrepios, e uma música especialmente linda me produz o mesmo efeito. Quando, por ocasião da minha confirmação, fui comungar, tive estremecimentos e arrepios que não acabavam mais. E estranho quanta coisa põe em ação aqueles pequenos músculos.
– Pois é – disse Behrens. – Um estímulo vale o outro. O corpo pouco se importa com o porquê dos estímulos. Sejam lambaris, seja a Santa Ceia, as glândulas sebáceas reagem eriçando-se.
-senhor conselheiro – disse Hans Castorp, contemplando o retrato que tinha sobre os joelhos –, há mais uma coisa que eu gostaria de saber. O senhor acaba de falar de processos interiores, da circulação linfática, etc. Como é isso? Eu desejaria ouvir mais a esse respeito, sobre a circulação linfática, por exemplo, se o senhor tivesse a bondade... O assunto me interessa vivamente...
– Acredito – tornou Behrens. – A linfa é o que há de mais fino, mais íntimo e mais delicado em toda a oficina do corpo. Parece que o senhor tem uma vaga idéia disso, desde que me faz essa pergunta. Sempre falam do sangue e dos seus mistérios, e dizem que é um suco todo especial. Mas a linfa é o sumo do suco, a essência, sabe?, o leite do sangue, um líquido delicioso...
Após uma alimentação gordurosa tem até a aparência de leite. – E jovialmente, servindo-se da sua
linguagem colorida, pôs-se a descrever o sangue, esse caldo de gordura, albumina, ferro, açúcar e sal, vermelho como uma capa de teatro, preparado pela respiração e pela digestão, saturado de gases e carregado de escória produzida pelo processo de renovação, esse caldo de uma temperatura de 38 graus centígrados, que era impelido pela bomba do coração através dos vasos e promovia, em todas ns partes do corpo, o metabolismo, o calor animal, numa palavra, a nossa preciosa vida. Explicou que o sangue não chega diretamente até as células, mas que a pressão exercida sobre ele o fazia transpirar um extrato ou sumo leitoso através das paredes dos vasos, de modo a penetrar em todo lugar, enchendo quaisquer interstícios e dilatando ou distendendo o elástico tecido celular. Era isso o tônus dos tecidos, o turgor, e graças ao turgor, por sua vez, acontecia que a linfa, depois de ter untado amenamente as células e de ter realizado com elas uma permuta de substâncias, era enviada aos vasos linfáticos e voltava ao sangue, à razão de um litro e meio por dia. E o conselheiro discorreu sobre o sistema de condução e de sucção dos vasos linfáticos, tratou do canal lactífero que recolhia a linfa das pernas, do ventre, do peito, de um dos braços e de um lado da cabeça. Passou a falar de uns delicados órgãos – filtros que se encontravam em muitos lugares dos vasos linfáticos –, os chamados gânglios, situados no pescoço, nas axilas, nas articulações do cotovelo, nos jarretes e em outros lugares igualmente íntimos e suaves do corpo. – Aí se podem formar inchações -– explicou Behrens – e é precisamente disso que partimos. Intumescem, por exemplo, os gânglios linfáticos nos jarretes ou nas articulações dos braços, formam-se aqui ou ali tumores semelhantes aos hidrópicos, e quando isso se dá, há sempre um motivo, ainda que pouco simpático. Em certas circunstâncias torna-se então mais que óbvio o diagnóstico de uma obstrução tuberculosa dos vasos linfáticos.
Hans Castorp permaneceu calado. – Pois é – disse baixinho, depois de uma longa pausa –
isso mesmo. Eu facilmente poderia ter me tornado médico. O canal lactífero... A linfa das pernas... Essas coisas me interessam muito... Que é o corpo? – exclamou de repente, com impetuosidade. – Que é a carne? Que é o organismo humano? De que se compõe? Explique-nos ainda isso, senhor conselheiro! Explique-o de uma vez, para que a gente fique sabendo!
– É de água – respondeu Behrens. – Parece que o senhor se interessa também pela química orgânica. Na sua maior parte, o corpo humano consta de água, nada mais nada menos, e não vejo razão de se exaltar por causa disso. A substância seca não vai além de vinte e cinco por cento do total, sendo que vinte por cento disso são simples clara de ovo, proteínas -se é que o senhor prefere esse termo mais distinto –, às quais se acrescenta apenas um pouquinho de gordura e de sal. É quase só isso.
– E essa clara de ovo, que é?
– Uma porção de elementos: carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio, enxofre, às vezes também um pouco de fósforo. Mas o senhor desenvolve uma curiosidade exuberante. Há também proteínas que se apresentam ligadas a hidratos de carbono, isto é, glicose e amido. Na velhice, a carne torna-se dura, o que vem do fato de aumentar o colágeno no tecido conjuntivo; a cola, sabe?, que é a parte essencial dos ossos e das cartilagens. Que mais quer que eu lhe conte?
Temos no plasma muscular uma proteína, o miosinogênio, que no corpo morto coagula, formando a fibrina muscular e produzindo a rigidez cadavérica.
– Ah, sim, a rigidez cadavérica! – disse Hans Castorp alegremente. – Muito bem, muito bem. E depois vem a análise geral, a anatomia do túmulo.
– Sim, naturalmente. O senhor formulou isso de modo muito bonito. Então a coisa torna-se um tanto extensa. A gente se esparrama por assim dizer. Não se esqueça de toda aquela água! E os outros ingredientes são pouco duráveis sem a ação da vida. Em virtude da putrefação, decompõem-se em combinações mais simples, de natureza anorgânica.
– Putrefação, decomposição – disse Hans Castorp. – Não é isso um processo de combustão, uma combinação com o oxigênio, se não me engano?
– Exatamente, há uma oxidação.
– E a vida?
– Também. Também, meu rapaz. Aí também há uma oxidação. A vida é essencialmente uma combustão das proteínas das células, donde provém esse agradável calor animal que às vezes é excessivo. Pois é, viver é morrer, nesse ponto não adianta dissimular. Trata-se de uma destruction organique, como algum francesinho, na sua leviandade inata, qualificou a vida. Ela também cheira assim, e quando temos uma impressão contrária é porque o nosso juízo não é imparcial.
– E quem se interessa pela vida – prosseguiu Hans Castorp – interessa-se sobretudo pela morte. Não é verdade?
– Bem, há sempre uma certa diferença. Viver significa que, na transformação da matéria, se conserva a forma.
– Para que conservar a forma? – perguntou Hans Castorp.
– Para quê? Escute, o que acaba de dizer não tem nada de humanismo.
– A forma é bobagem.
– Decididamente, o senhor está muito enérgico hoje. Tem qualquer coisa de insubordinado. Mas eu me sinto exausto – disse o conselheiro. – Começo a ficar melancólico –
acrescentou, cobrindo os olhos com a manopla enorme. – Estão vendo, isto cai sobre mim, de surpresa. Tomei café com os senhores e gostei, e de repente me acontece ficar melancólico. Os senhores me desculpem. Foi para mim uma satisfação rara e me causou um prazer extraordinário...
Os primos levantaram-se de um pulo. Acusaram-se de ter tomado tanto tempo ao senhor conselheiro... Ele fez afirmações tranqüilizadoras em sentido contrário. Hans Castorp apressou-se a levar o retrato de Mme. Chauchat à saleta vizinha e a recolocá-lo no lugar antigo. Não voltaram ao jardim. Behrens mostrou-lhes o caminho através do edifício, acompanhando-os até a porta de comunicação. No estado de alma que o invadira subitamente, a sua nuca parecia mais saliente do que em geral. Piscava os olhos lacrimosos, e o bigodinho oblíquo, devido aos lábios torcidos unilateralmente, assumira uma expressão lamentável.
Enquanto os primos atravessavam os corredores e as escadas, disse Hans Castorp:
– Você não pode negar que foi uma boa idéia.
– Foi pelo menos uma variação – replicou Joachim. – E vocês aproveitaram a ocasião para resolver uma porção de problemas; sim, senhor! Às vezes achei a conversa meio complicada.
Mas agora é tempo de fazer um pouco de repouso. Temos ainda uns vinte minutos antes do chá da tarde. Talvez lhe pareça “bobagem” da minha parte insistir tanto nessas coisas, desde que, nos últimos tempos, você se mostra insubordinado. Mas, afinal de contas, você não necessita disso tanto como eu.
Pesquisas
E assim sucedeu o que forçosamente tinha de suceder, e o que Hans Castorp, havia pouco ainda, não teria imaginado ver ali: irrompeu o inverno, o inverno alpino, que Joachim já conhecia, pois que chegara quando o anterior estava no auge. Hans Castorp tinha algum receio dele, se bem que se tivesse preparado otimamente. O primo esforçou-se por tranqüilizá-lo.
– Você não deve pensar que o inverno aqui é excessivamente rigoroso – disse. – Não é nada ártico. O frio não chega a ser sensível, por causa da secura do ar e da ausência de vento.
Agasalhando-se bem, pode-se permanecer na sacada até altas horas da noite, sem se sentir frio.
Isso se dá graças à inversão da temperatura acima do limite da cerração. Nas alturas mais elevadas, faz mais calor. É uma coisa que antes não se sabia. O frio fica mais desagradável quando chove. Mas agora você já tem o seu saco de repouso, e também acendem a calefação em casos de absoluta emergência.
Por outro lado, não se podia falar nem de um assalto nem de violência. O inverno vinha chegando devagarzinho, e por enquanto não se apresentava de forma diferente da de muitos dias que o verão trouxera consigo. Durante alguns dias soprava o vento sul. O sol ardia, e o vale parecia encolhido e estreitado. Os platôs dos Alpes, junto à saída, afiguravam-se próximos e
muito claros. Depois surgiam nuvens, irrompendo do pico Michel e do Tinzenhorn, rumo ao nordeste, e o vale se fez escuro. Começou então a chover copiosamente. Mais tarde, a chuva tornou-se pouco limpa, de um cinzento esbranquiçado, porque a neve acabava de misturar-se com ela. E finalmente sobrou apenas a neve. O vale estava envolto em torvelinhos, e como isso se passasse durante muito tempo e também a temperatura, nesse ínterim, tivesse baixado consideravelmente, a neve não pôde derreter-se toda. Estava úmida, mas subsistia. O vale estendia-se sob um manto branco, fininho, molhado e defeituoso, do qual se destacava o preto das coníferas nas encostas. Na sala de refeições, os radiadores iam amornando. Isso acontecia em princípios de novembro, por volta do Dia de Finados, e não constituía nenhuma novidade. Em agosto passara-se o mesmo, e havia muito o pessoal perdera o hábito de considerar a neve um privilégio do inverno. A toda hora e com qualquer tempo tinha-se neve diante dos olhos, pois sempre cintilavam restos e vestígios dela nas gretas e nas fendas da cordilheira rochosa dos Alpes Réticos, que pareciam fechar a saída do vale, e sempre resplandeciam envoltas em neve as mais distantes majestades montanhosas do sul. Mas tanto a nevada como a queda de temperatura mostravam-se persistentes. Num gris pálido, o céu pendia pesado sobre o vale, desfazendo-se em flocos que caíam silenciosos e incessantes, com uma abundância exagerada e levemente inquietante. O frio aumentava de hora em hora. Chegou a manhã em que Hans Castorp registrou 7 graus no seu quarto, e no dia seguinte eram apenas 5. Isso significava geada, que, embora com certa moderação, continuava. Geara de noite, e agora geava também de dia, desde a manhã até a noite, enquanto a nevada prosseguia, com pequenas interrupções, durante quatro, cinco, sete dias.
Daí por diante a neve ia se amontoando, chegando a ser uma calamidade. No caminho obrigatório que conduzia ao banco junto do curso d'água, bem como na estrada que levava ao vale, haviam trabalhado com pás para abrir pistas; mas estas eram estreitas, e não havia jeito de se desviar de quem viesse em sentido contrário. Num caso desses era preciso pisar no dique de neve acumulado na margem da pista e afundar-se até o joelho. Um rolo de pedra, puxado por um cavalo, conduzido no cabresto por um homem, rodava o dia todo pelas ruas de Davos, e uma espécie de trenó, amarelo e de um tipo antiquado, semelhante a uma diligência, com um limpa-neves à frente, para afastar as massas brancas, trafegava entre a estância balneária e a parte setentrional do lugar, a chamada “aldeia”. O mundo, esse mundo alto, estreito e remoto dos dali de cima, aparecia espessamente agasalhado e estofado. Não havia nenhuma coluna, nenhuma estaca que não usasse uma touca branca. As escadarias do Berghof iam desaparecendo, transformando-se num plano inclinado. Almofadões pesados de formas excêntricas oprimiam em toda parte os ramos dos pinheiros. Aqui ou ali, as massas de neve, resvalando, desfaziam-se em pó, que passava por entre os troncos, como uma alva nuvem ou bruma. As montanhas ao redor estavam revestidas de neve, que se afigurava áspera nas regiões mais baixas e ocultava sob uma coberta macia os cumes multiformes, que ultrapassavam o limite das arvores. Reinava a penumbra, com o sol lançando apenas um brilho pálido através da atmosfera velada. Mas a neve difundia uma branda luz indireta, uma claridade leitosa que embelezava o mundo e as pessoas, embora andassem com os narizes vermelhos sob os gorros de lã branca ou de cor.
Na sala de refeições, em torno das sete mesas, a entrada do inverno, a temporada principal nessas paragens, formava o tema predileto das conversas. Dizia-se que haviam chegado numerosos turistas e desportistas, povoando os hotéis da “aldeia” e de “Platz”. A espessura da camada de neve era avaliada em sessenta centímetros, e afirmava-se que a sua qualidade era ideal para os esquiadores. Outros contavam que se trabalhava ativamente na pista de trenó, que de Schatzalp, na vertente noroeste, conduzia ao vale; dentro de poucos dias, ela poderia ser inaugurada, contanto que o Föhn não viesse estragar os projetos. Os enfermos regozijavam-se com a idéia de poder assistir ao recreio dos sadios – dos hóspedes lá de baixo –, que ia recomeçar agora, com festas desportivas e competições, que muitos tencionavam olhar apesar da proibição, gazeando o repouso e escapulindo. Hans Castorp ficou sabendo que haveria uma inovação, o Skikjoring, invenção nórdica, que constava de uma corrida em que os esquiadores participantes se
fariam puxar por cavalos. Para ver isso seria necessário dar uma fugida. Também se falava dos festejos do Natal.
Do Natal! Ora essa! Hans Castorp nem pensara ainda nisso. Não lhe causara dificuldades dizer ou escrever que, em virtude do resultado do exame médico, teria de passar o inverno ali em cima, em companhia de Joachim. Mas, como agora notava, isso incluía o Natal, e esse fato tinha sem dúvida algo de espantoso para o seu coração, devido à circunstância – embora não exclusivamente a ela – de ele nunca ter passado essa festa fora do torrão natal e do seio da família. Bem, sendo essa a vontade de Deus, era preciso conformar-se. Já deixara de ser criança, e Joachim tampouco parecia escandalizar-se com essa perspectiva, e aceitava-a sem choramingar.
Afinal de contas – dizia Hans Castorp de si para si –, não convinha esquecer em quantos lugares e sob quantas condições diferentes se festejara o Natal no decorrer dos tempos.
Parecia-lhe, entretanto, um pouco precipitado falar do Natal ainda antes do primeiro domingo do Advento. Faltavam até lá ainda umas seis semanas e tanto. Mas o pessoal da sala de refeições saltava-as ou devorava-as – processo interior que também Hans Castorp já sabia executar, se bem que ainda não se houvesse acostumado a fazê-lo com tanta audácia como os seus companheiros mais antigos. Estes consideravam o Natal, ou outras etapas semelhantes no curso do ano, como ótimos pontos de referência ou como uma espécie de aparelhos de ginástica, adequados para se pular agilmente por cima de intervalos vazios. Todos tinham febre; seu metabolismo era aumentado; sua vida física passava-se num ritmo por demais intenso e veloz –
talvez explicasse isso o fato de matarem com tanta rapidez tamanhas quantidades de tempo. Hans Castorp não se teria surpreendido se falassem do Natal como de uma data já vencida, e logo se pusessem a discorrer sobre o Ano-Bom ou o Carnaval. Mas não eram tão levianos e tão imoderados na sala de refeições do Berghof. Detinham-se no Natal, festa que dava motivos para preocupações e oferecia problemas. Deliberavam acerca do presente comum que, segundo o costume estabelecido na casa, seria entregue ao diretor, o Dr. Behrens, na véspera do Natal, e para o qual tinham aberto uma subscrição. Como contavam aqueles que estavam no sanatório fazia mais de doze meses, o conselheiro, no ano anterior, fora presenteado com uma maleta.
Falava-se desta vez de uma mesa de operações, de um cavalete de pintor, de um casaco forrado de peles, de uma cadeira de balanço e de um estetoscópio de marfim, adornado de qualquer tipo de incrustações. Settembrini, ao ser consultado, recomendou uma obra lexicográfica que, conforme dizia, estava em preparo e se intitulava Sociologia dos males, mas ninguém apoiou a idéia a não ser um livreiro que, havia poucos dias, se encontrava à mesa da Kleefeld. Por enquanto não parecia possível chegar a um acordo. Era difícil entender-se com os pensionistas russos. Os moscovitas declararam que tencionavam dar a Behrens um presente à parte. Durante dias a fio, a Srª. Stöhr manifestou suma inquietação por causa de uma importância de dez francos que, imprudentemente, adiantara à Srª. Iltis para a coleta, e que esta “se esquecera” de devolver.
“Esquecera-se” – as entonações que a Srª. Stöhr dava a essa palavra eram multiplamente matizadas, mas todas elas calculadas para expressar a mais profunda incredulidade quanto a essa falta de memória, que parecia à prova de quaisquer alusões e indiretas que a Srª. Stöhr afirmava ter prodigalizado. Diversas vezes, esta se dispunha a renunciar e a perdoar a dívida da Iltis. “Pago, então, por mim e por ela”, declarava. “Está muito bem. A vergonha não é minha.” Mas finalmente descobriu uma solução que comunicou aos comensais, causando hilaridade geral: foi cobrar os dez francos da “administração”, que os incluiu na conta da Srª. Iltis, de modo que a devedora morosa saiu lograda e o assunto foi liquidado.
Terminara a nevada. O céu abria-se parcialmente. Nuvens de um cinzento azulado rasgavam-se e deixavam passar alguns raios de sol que tingiam a paisagem de azul. A seguir, o tempo serenou por completo. Reinava em pleno novembro um frio límpido, um esplendor invernal, puro e constante. Era maravilhoso o panorama que se via através das arcadas da loggia, os bosques empoados, as fendas repletas de neve fofa, o vale branco, ensolarado sob o azul reluzente do céu. E principalmente de noite, quando subia a lua quase cheia, o mundo apresentava-se enfeitiçado de um modo milagroso. Uma cintilação de cristal, um resplendor
como de diamantes ostentava-se em toda parte. Muito preta e muito branca elevava-se a floresta.
As regiões do céu que se achavam distantes da lua jaziam escuras, bordadas de estrelas. Sombras de contornos nítidos, precisos e intensos, sombras que davam a impressão de ser mais reais e mais importantes do que os próprios objetos, caíam das casas, das árvores, dos postes telegráficos, sobre o solo refulgente. Poucas horas depois do pôr-do-sol, a temperatura descia a 7
ou 8 graus abaixo de zero. O mundo parecia encantado, imobilizado numa pureza glacial, e sua imundície natural ficava submersa e envolta no sonho de um fantástico sortilégio letal.
Até altas horas da noite, Hans Castorp permanecia no seu compartimento da sacada acima do mágico vale hibernal, muito mais tempo do que Joachim, que se retirava às dez horas ou pouco depois. A sua excelente espreguiçadeira, com o colchão composto de três coxins e com o rolo à altura da nuca, achava-se próxima da balaustrada de madeira, ao longo da qual se estendia uma almofada de neve. Na mesinha branca, a seu lado, luzia a lâmpada elétrica, e junto a uma pilha de livros havia um copo de leite gordo, o leite da noite, que era servido às nove horas em todos os quartos dos habitantes do Berghof, e no qual Hans Castorp vertia um cálice de conhaque para adaptá-lo ao seu paladar. Já haviam sido mobilizados todos os recursos de que ele dispunha contra o frio. Enfiara-se Hans Castorp até acima do peito no saco de peles, que se podia abotoar e fora adquirido em boa hora numa casa especializada de Davos. Em torno desse saco lançara, segundo o rito, os dois cobertores de lã de camelo. Além disso usava, por cima da roupa de inverno, um curto casaco forrado de peles. Na cabeça tinha um gorro de lã, nos pés sapatos de feltro, e nas mãos umas espessas luvas que, no entanto, se mostravam incapazes de impedir o enrijecimento dos dedos..
Para que ele permanecesse tanto tempo lá fora – até meia-noite e às vezes mais tarde ainda, quando o casal de “russos ordinários” havia muito se retirara do compartimento vizinho –
contribuía, sem dúvida, o feitiço da noite invernal, tanto mais que até as onze horas se entretecia nele a música, que, de longe e de perto, subia do vale. Mas antes de tudo era induzido a isso pela inércia e pela excitação que agiam simultânea e conjuntamente; de um lado, a inércia do seu corpo e o seu cansaço avesso a todo movimento, e do outro, a excitação ativa do seu espírito, ao qual certos estudos novos e fascinantes, que o jovem acabava de empreender, não davam nenhum instante de trégua. O clima incomodava-o; a geada exercia sobre seu organismo um efeito esgotador. Hans Castorp comia muito e aproveitava as fartas refeições do Berghof, onde os gansos assados sucediam a um rosbife acompanhado de legumes. Demonstrava aquele desmedido apetite, que parecia normal entre os pensionistas do Berghof e no inverno se tornava ainda mais intenso do que no verão. Ao mesmo tempo sentia-se tomado de sonolência, de maneira que freqüentemente lhe ocorria, de dia tanto como nas noites de luar, adormecer sobre os livros que manuseava, e dos quais trataremos mais adiante; depois de alguns minutos de inconsciência continuava então as suas pesquisas. Conversas animadas – e mais do que na planície tendia ele ali a falar depressa, sem inibições e até com atrevimento –, essas conversas animadas que mantinha com Joachim, durante os passeios obrigatórios através da neve, esgotavam-no facilmente. Acometiam-no vertigens e tremores, bem como uma sensação de aturdimento e de ebriedade, enquanto lhe ardia a cabeça. Sua curva de temperatura subira desde o começo do inverno, e o Dr. Behrens murmurara qualquer coisa a respeito de injeções às quais costumava recorrer em casos de elevação tenaz da temperatura. Duas terças partes dos pacientes, inclusive Joachim, submetiam-se regularmente a essas injeções. Mas – pensava Hans Castorp –
decerto existiam relações entre essa intensa produção de calor que se efetuava dentro do seu corpo e aquela agitação e atividade do espírito que o prendia à espreguiçadeira até muito tarde, na cintilante e gélida noite. A leitura que o cativava sugeria-lhe tal explicação.
Lia-se avidamente nos alpendres de repouso e nas sacadas particulares do Sanatório Internacional Berghof – sobretudo entre os novatos e os pensionistas de curto prazo, pois os pacientes que ali permaneciam por muitos meses, ou mesmo por vários anos, havia muito que tinham aprendido a matar o tempo sem distrações nem esforços intelectuais e a deixá-lo passar graças a um virtuosismo interior. Declaravam até que era uma falta de habilidade, própria de
sarrafaçais, essa de se agarrar à leitura. Quando muito admitiam que um livro repousasse sobre os joelhos ou na mesinha, o que já era suficiente para as pessoas sentirem-se abastecidas. A biblioteca do estabelecimento, poliglota e rica em obras ilustradas, continha, de forma ampliada, a literatura que comumente se encontra na sala de espera de um dentista, e achava-se à disposição livre e gratuita dos pensionistas. Também se permutavam os romances alugados numa livraria de Platz. De tempos em tempos aparecia um livro ou um folheto que era violentamente disputado, e para o qual estendia as mãos, com mal dissimulada cobiça, até quem já tivesse abandonado o hábito de ler. A essa altura dos acontecimentos circulava de mão em mão uma brochura mal impressa, adquirida pelo Sr. Albin, e que se intitulava A arte da sedução. O texto estava traduzido, muito ao pé da letra, do francês, conservando a tradução a própria sintaxe desse idioma, o que emprestava ao estilo muita dignidade e uma elegância picante. Explanava o autor a filosofia do amor carnal e da volúpia, no sentido de um paganismo epicurista e mundano. A Srª. Stöhr terminou rapidamente a leitura e achou a obra “formidável”. A Srª. Magnus – a que perdia proteínas – concordou com ela sem reservas, ao passo que seu marido, o cervejeiro, pretendeu ter tirado particularmente algum proveito dessa leitura, mas lastimou que a Srª. Magnus se tivesse inteirado da doutrina do opúsculo, já que essas coisas “amimalhavam” as mulheres e lhes incutiam idéias extravagantes. Tal crítica contribuiu consideravelmente para aumentar o interesse que reinava pela obra. Entre duas senhoras chegadas em outubro, e que freqüentavam o alpendre térreo, a Srª. Redisch, esposa de um industrial polonês, e uma certa viúva Hessenfeld, de Berlim, deflagrou-se depois do almoço uma cena bastante desagradável, quase violenta, que Hans Castorp se viu obrigado a presenciar da sua sacada. Culminou o espetáculo numa gritaria convulsiva e histérica de uma das duas senhoras – podia ser a Redisch, mas também podia ser a Hessenfeld – e no transporte da mulher raivosa para os seus aposentos. A mocidade apoderara-se do tratado ainda antes das pessoas mais maduras. Alguns estudavam-no em comum, depois do jantar, nos mais diversos quartos. Hans Castorp viu como o rapaz da unha comprida o entregava, na sala de refeições, a uma jovem recém-chegada e levemente enferma, de nome Fränzchen Oberdank, que fora trazida pela mãe e usava os cabelos louros repartidos por uma risca.
Talvez houvesse exceções; talvez houvesse pensionistas que enchessem as horas de repouso obrigatório com alguma atividade intelectual de caráter sério, com alguns estudos proveitosos, ainda que o fizessem apenas para conservar o contato com a vida na planície ou para emprestar ao tempo um pouco de peso e de profundidade, evitando destarte que se tornasse tempo e nada mais. Talvez existisse, além do Sr. Settembrini com seus esforços destinados a exterminar os sofrimentos do mundo, e do honrado Joachim com seus manuais russos, ainda este ou aquele com uma mentalidade análoga, senão entre o público da sala de refeições, o que era mesmo pouco provável, ao menos entre os pacientes acamados e moribundos. Hans Castorp inclinava-se a admitir essa hipótese. Quanto a ele próprio, o Ocean steamships já não lhe dizia nada.
Por isso mandara vir de casa, junto com as roupas de inverno, alguns livros relacionados com a sua profissão, obras de engenharia, tratados sobre a construção de navios. No entanto, esses volumes haviam sido abandonados a favor de outros, obras didáticas pertencentes a uma faculdade e disciplina muito diferente, cuja matéria despertara o interesse do jovem Hans Castorp. Tratava-se de livros de anatomia, fisiologia, biologia, redigidos em vários idiomas –