A Montanha Mágica
Trata-se. de saber se ele poderá partir na terça-feira.
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 5 partes.
– S.a.o. – disse Behrens. -sempre às ordens! Com o maior prazer. Já deveríamos ter feito isso há muito tempo. Quem está aqui em cima não deve deixar de aproveitar a oportunidade.
Mas, afinal de contas, a gente não quer insistir. Pois então, amanhã às duas, logo depois da bóia.
– É que tenho também um pouco de febre – recomeçou Hans Castorp.
– Não diga! – gritou Behrens. – O senhor me conta uma grande novidade. Pensa que não tenho olhos para ver? – E com o formidável indicador apontou para os dois bugalhos injetados, lacrimosos, de um azul úmido. – A propósito, qual é a sua temperatura?
Hans Castorp disse-a timidamente.
– Já de manhã? Nada mau! Para um principiante não lhe falta talento. Pois é, está combinado, amanhã às duas apareçam os dois. Será uma grande honra para mim. Boa digestão! –
E com os joelhos dobrados, remando com as mãos, pôs-se a descer pelo caminho íngreme, enquanto a fumaça do charuto se desfraldava atrás dele.
– Está tudo arranjado como você desejava – disse Hans Castorp. – Não podia, ser melhor. Agora tenho hora marcada. No meu caso, ele não poderá fazer grande coisa. O máximo que me prescreverá será um xarope ou um peitoral, mas de qualquer jeito é agradável receber um pouco de reconforto por parte de um médico, para quem se sente tão mal como eu. Só queria saber por que ele usa essa linguagem exagerada e cínica. No começo me diverti com isso, mas agora não acho mais graça nenhuma. “Boa digestão!” Horrível! Pode-se dizer: “Bom proveito!”
“Proveito” é uma palavra de certo cunho poético, assim como “o pão nosso de cada dia”, e se harmoniza bem com o adjetivo “bom”. Mas “digestão” é termo puramente fisiológico, e fazer votos pelo seu desenvolvimento feliz parece-me pura blasfêmia. Também não me agrada ver como ele fuma. Isso me deixa nervoso, porque sei que o charuto não lhe faz bem e o põe melancólico. Settembrini diz que a jovialidade de Behrens é forçada, e Settembrini é, indiscutivelmente, um homem crítico, de juízo seguro. Eu mesmo deveria, talvez, formar com
mais freqüência uma opinião própria, em vez de aceitar as coisas como se apresentam. Nesse ponto, ele tem toda a razão. Mas acontece, então, que enquanto se está disposto a julgar, a criticar, a escandalizar-se, de repente se intromete qualquer coisa completamente diversa, que nada tem a ver com o juízo, e logo se acaba a indignação moral, e a república e o belo estilo só nos parecem insípidos...
Murmurou ainda algumas palavras indistintas. Tinha-se a impressão de que ele mesmo não sabia com clareza o que queria dizer. O primo limitou-se a olhá-lo de lado e disse:
– Até logo. – E ambos se dirigiram aos seus quartos e às respectivas espreguiçadeiras.
– Quanto? – perguntou Joachim depois de algum tempo, em voz abafada, apesar de não ter observado como Hans Castorp tornara a consultar o termômetro. Este respondeu num tom indiferente:
– Nada de novo.
Com efeito, apenas entrara no quarto, tirara de cima do lavatório a elegante aquisição da manhã; por meio de sacudidelas verticais apagara os 37,6 que já haviam desempenhado seu papel, e qual um veterano iniciara o repouso com o charuto de vidro na boca. Mas, contrariando todas as expectativas ambiciosas, e embora ele conservasse o instrumento sob a língua durante oito minutos inteiros, o mercúrio não se dilatara além dos mesmos 37,6 – o que, afinal, era febre, se bem que não mais alta do que a que tivera pela manhã. Depois do almoço, a coluna cintilante subiu a 37,7. À noite, quando o paciente estava muito cansado depois das sensações e emoções do dia, parou em 37,5, e na madrugada do dia seguinte marcou apenas 37, para alcançar novamente a posição do dia anterior, por volta do meio-dia. Com tudo isso chegou o almoço do sábado, e, ao seu fim, a hora marcada para o exame.
Mais tarde, Hans Castorp recordou-se de que Mme. Chauchat usara, durante essa refeição, um suéter amarelo-dourado com grandes botões e bolsos bordados, e que era novo, pelo menos para ele. Quando ela chegara, um pouco atrasada como sempre, apresentara-se na sala daquele modo que Hans Castorp bem conhecia. Depois encaminhara-se a passo silencioso para a sua mesa, como sucedia cinco vezes por dia; instalara-se na cadeira com movimentos lânguidos e, palestrando, começara a comer. Como todos os dias, mas dessa vez com uma atenção particular, Hans Castorp vira-a mover a cabeça, enquanto ela falava, e novamente notara-lhe a curva da nuca e a postura lassa das costas, quando seu olhar buscava a mesa dos “russos distintos”, por sobre o ombro de Settembrini, que estava sentado na mesa colocada transversalmente entre eles. Mme. Chauchat, porém, não se voltara durante o almoço nem uma única vez para a sala. Mas, depois da sobremesa, quando o grande relógio de pêndulo, colocado no lado estreito da sala, à direita, junto da mesa dos “russos ordinários”, dera as duas horas, acontecera o seguinte, causando uma emoção misteriosa a Hans Castorp: enquanto ressoavam as duas badaladas – uma e duas – a graciosa enferma virara lentamente a cabeça e também parte do tronco; por cima do ombro olhara clara e abertamente para a mesa de Hans Castorp, e não somente para essa mesa em geral; não, de um modo inequívoco e cruel fixara o olhar nele pessoalmente, esboçando um sorriso em torno dos lábios cerrados e nos olhos rasgados, semelhantes aos de Pribislav, como se quisesse dizer: “Pois então? Está na hora. Você vai ou não vai?” (Pois, quando os olhos falam, tratam-nos por “você”, ainda que a boca não tenha jamais empregado a terceira pessoa.) Fora esse um incidente que transtornara e enchera de espanto o âmago do coração de Hans Castorp. Mal confiara nos seus sentidos. Consternado fitara o rosto de Mme. Chauchat, e depois, levantando os olhos, acima da sua testa e dos seus cabelos, encarara o vazio. Sabia ela que às duas horas ele devia ir ao exame? Assim parecia, e entretanto isso era quase tão pouco provável como se ela soubesse que nesse mesmo instante, no minuto que acabava de escoar, ele se perguntara a si próprio se não deveria mandar Joachim dizer ao Dr.
Behrens que seu resfriado já ia melhor, e que ele considerava o exame supérfluo; idéia cujas vantagens acabavam de definhar sob esse sorriso perscrutador, para transformarem-se em puro tédio dos mais repulsivos. Um segundo após, Joachim já pusera na mesa o guardanapo enrolado, e com as sobrancelhas alçadas dera-lhe um sinal. Inclinara-se então para os vizinhos e se afastara
da mesa. E Hans Castorp, vacilando interiormente, se bem que de passo firme, e com a sensação de que aquele olhar e aquele sorriso continuavam pousados nele, seguira atrás do primo, em direção à saída.
Desde a manhã do dia anterior, não haviam voltado a falar do projeto, e ainda nesse instante caminhavam um ao lado do outro, num acordo tácito. Joachim apressava-se. Já passara a hora marcada, e o conselheiro áulico exigia pontualidade. O seu caminho conduzia-os da sala de refeições, pelo corredor do rés-do-chão, passando ao lado da administração e descendo pela escada limpa, coberta de linóleo, até o porão. Joachim bateu à porta fronteira à escada, porta que uma placa de porcelana indicava ser a entrada do consultório.
– Entre! – gritou Behrens, arrastando fortemente a primeira sílaba. Achava-se no centro da peça, vestido de avental, e tinha na mão direita o estetoscópio preto com o qual dava umas palmadinhas na perna.
– Vamos, vamos! – disse, com os olhos esbugalhados fitos no relógio de parede. – Un poco più presto, signori! Não estamos aqui ao serviço exclusivo de Vossas Senhorias.
O Dr. Krokowski estava sentado diante da dupla escrivaninha, junto à janela, pálido, com sua blusa de alpaca preta, apoiando os cotovelos na tábua da mesa; numa das mãos tinha a caneta e com a outra cofiava a barba; à sua frente jaziam papéis, provavelmente as fichas do paciente.
Olhou os jovens que entravam com a expressão vaga de uma pessoa que se acha presente apenas para ajudar.
– Então, deixe ver o boletim – disse o conselheiro áulico, em resposta às desculpas de Joachim. Tirou-lhe da mão a papeleta de temperatura, para examiná-la, enquanto o enfermo se apressava a desnudar o tronco, suspendendo as roupas despidas no cabide ao lado da porta.
Ninguém se ocupava de Hans Castorp. Durante algum tempo, ele permaneceu de pé, contemplando os outros. Depois, sentou-se numa poltrona de estilo antigo, guarnecida de borlas nos braços, e que se encontrava ao lado de uma mesinha com uma garrafa de água. Estantes carregadas de volumosas obras de medicina e de pastas cheias de documentos de casos estendiam-se ao longo das paredes. Fora disso, a mobília constava só de uma chaise longue, revestida de branco, que podia ser levantada e baixada mediante uma manivela, e cuja cabeceira estava coberta com um guardanapo de papel.
– Vírgula 7, vírgula 9, vírgula 8 – disse Behrens, folheando as fichas semanais, onde Joachim registrara fielmente as temperaturas tomadas cinco vezes por dia. – Ainda um pequeno excesso de animação, meu caro Ziemssen. O senhor não pode pretender que ficou mais calmo, desde o outro dia. (O “outro dia” fora quatro semanas atrás.) Não está desintoxicado, não, senhor! – acrescentou. – Ora, isto não se consegue de um dia para outro. Afinal de contas, não somos feiticeiros.
Joachim fez que sim com um gesto de cabeça e encolheu os ombros desnudos, se bem que pudesse objetar que não se achava no sanatório precisamente desde a véspera.
– E como vão aquelas pontadas no hilo direito, onde sempre havia anomalias? Melhor?
Bem, venha cá! Vamos bater humildemente à sua porta. – E com isso começou o exame.
O Dr. Behrens, com as pernas separadas e o tronco inclinado para trás, meteu o estetoscópio sob o braço e começou a percutir a parte superior do ombro direito de Joachim; batia servindo-se do poderoso dedo médio da mão direita como martelo e apoiando-se na mão esquerda. Depois desceu pela omoplata e apalpou lateralmente a parte central e inferior das costas, feito o quê, Joachim, bem amestrado, levantou o braço para que o médico pudesse explorar também a região axilar. Tudo isso se repetiu então no lado esquerdo. A seguir, o conselheiro áulico deu ordem de meia-volta, para examinar o peito. Percutiu a zona logo abaixo do pescoço, junto à clavícula, bateu acima e abaixo do peito, primeiro à direita e depois à esquerda. Após ter percutido suficientemente, pôs-se a auscultar, colocando o estetoscópio nas costas e no peito de Joachim e apertando a orelha contra a concha; dessa forma foi percorrendo todas as regiões anteriormente apalpadas. Ao mesmo tempo era preciso que Joachim ora respirasse com vigor ora tossisse artificialmente, o que parecia fatigá-lo muito, pois ofegava e seus olhos enchiam-se de lágrimas. O Dr. Behrens, porém, comunicava tudo quanto ouvia em palavras breves e precisas ao assistente sentado à escrivaninha, de modo que Hans Castorp não pôde deixar de pensar numa sessão no alfaiate, quando o elegante artífice toma as medidas para um traje e, numa ordem tradicional, vai colocando a fita métrica aqui e ali em volta do corpo e dos membros do freguês, para então ditar as cifras assim obtidas ao oficial que, de costas encurvadas, se empenha em anotá-las. “Sopróide”, “diminuído”, ditava o Dr. Behrens.
“Vesicular”, dizia, e outra vez “vesicular” – parecia que isso era um bom sinal. “Rude”, continuava, fazendo uma careta. “Muito rude.”
“Estalido.” E o Dr. Krokowski ia tomando nota, como um aprendiz faz com os centímetros ditados pelo alfaiate.
Hans Castorp, com a cabeça inclinada para o lado, acompanhava os acontecimentos, perdendo-se numa contemplação pensativa do torso de Joachim, cujas costelas – graças a Deus não faltava ainda nenhuma – levantavam-se com as arfadas sob a pele tesa e ressaltavam alto por cima do estômago reentrante. Estudava esse corpo esbelto, de efebo, com a epiderme trigueiro-amarelada e os pêlos negros na zona do esterno e nos braços musculosos, um dos quais exibia em volta do pulso uma corrente de ouro. “São braços de ginasta”, pensava Hans Castorp. “Ele sempre gostou de cultura física, ao passo que eu nunca achei graça nisso. Era devido à sua predileção pelas armas. Sempre se preocupou com o corpo, muito mais do que eu, ou pelo menos de outra forma; pois eu nunca deixei de ser civil, e mais me importavam banhos quentes e boas comidas e bebidas, enquanto ele se dedicava a esforços e exercícios viris. E agora o seu corpo passou para o primeiro plano, mas de um modo muito diverso; tornou-se independente e tomou ares de importância, em virtude da doença. Está ‘animado’ e não quer ‘desintoxicar-se’ e ficar ‘calmo’, por mais que o pobre Joachim deseje ser soldado, lá na planície. Imaginem! Ele tem uma compleição perfeita, tal qual o Apolo de Belvedere, com exceção dos pêlos. Mas interiormente está enfermo e por fora demasiado aquecido pela doença. Pois a doença faz o homem mais corporal, torna-o corpo e nada mais...” E ao ventilar essas idéias, assustou-se e enviou um olhar rápido e perscrutador do tronco nu de Joachim para os seus olhos negros e meigos, que a respiração forçada e a tosse artificial haviam enchido de lágrimas, e que durante o exame olhavam, melancólicos, por cima do espectador, perdendo-se no vazio.
Nesse ínterim, o Dr. Behrens terminara o seu trabalho.
– Está bem, Ziemssen – disse. – Tudo em ordem, dentro das possibilidades. Na próxima vez (era dentro de quatro semanas) acho que estará um pouco melhor.
– Quanto tempo pensa o senhor conselheiro que...
– Tem pressa, outra vez? Nesse estado de intoxicação, o senhor não pode brincar com os seus bichinhos. Meio ano, foi o que lhe disse naquele dia. Quanto a mim, pode contar a partir de então, mas considere isso como o mínimo. Afinal de contas, pode-se viver aqui, tenha paciência.
Isso não é nenhum calabouço, não é uma... uma mina siberiana. Ou quer o senhor pretender que o nosso estabelecimento se pareça com uma coisa dessas? Está bem, Ziemssen. Pode ir. O
seguinte, faz favor, se mais alguém tiver vontade... – exclamou, olhando para o teto. Estendendo o braço, passou o estetoscópio ao Dr. Krokowski, que se levantou e o apanhou, a fim de proceder com Joachim a um pequeno exame de assistente.
Também Hans Castorp erguera-se de um pulo, e fixando os olhos no conselheiro áulico, que, com as pernas separadas e a boca aberta, se quedava absorto pelos próprios pensamentos, aprontou-se a toda a pressa. Precipitava-se; não conseguiu imediatamente sair da camisa pontilhada, quando a tirava pela cabeça. E finalmente encontrou-se à frente do Dr. Behrens, branco, louro e delgado – visivelmente de um tipo mais civil do que Joachim Ziemssen.
Mas o conselheiro, continuando abstrato, deixou-o esperar. O Dr. Krokowski já voltara a sentar-se, e Joachim começara a se vestir, quando Behrens resolveu, finalmente, reparar na pessoa que “ainda tinha vontade”.
– Ah! Sim, é o senhor – disse então, agarrando o braço de Hans Castorp com a gigantesca manzorra. Afastou-o um pouquinho de si e passou por ele um olhar penetrante. Não lhe estudava o rosto, assim como se faz com um ser humano, senão o corpo. Virou-o como se vira
um corpo, e contemplou-lhe também as costas. – Hum! – murmurou. – É isso. Vamos ver o que o senhor vai revelar aos meus dedos. – E começou a percuti-lo, procedendo da mesma forma que antes.
Explorou os mesmos lugares como no exame de Joachim Ziemssen, repetindo a percussão em diferentes pontos. Durante certo tempo insistiu, para fins de comparação, em golpear alternadamente em cima, junto da clavícula esquerda, e um pouco mais abaixo.
– Está ouvindo? – perguntou, dirigindo-se ao Dr. Krokowski... Este, sentado em frente da escrivaninha, a cinco passos de distância, confirmou por um movimento de cabeça que estava ouvindo: com ar grave inclinou o queixo para o peito, de tal modo que a barba se comprimiu e as pontinhas se levantaram.
– Respire profundamente! Agora tussa! – ordenou o conselheiro, que tornara a pegar o estetoscópio, e Hans Castorp esfalfou-se, durante uns oito ou dez minutos, enquanto o médico escutava sem proferir nenhuma palavra, não fazendo mais do que colocar o instrumento aqui e ali e auscultar, cuidadosa e repetidamente, vários lugares nos quais já insistira quando da percussão.
A seguir enfiou o estetoscópio por baixo do braço, juntou as mãos nas costas e olhou o chão entre si e Hans Castorp.
– Pois é, Castorp – disse enfim, e era a primeira vez que chamava o jovem simplesmente pelo sobrenome. – O resultado é praeter-propter, como eu esperava desde o princípio. Observei o senhor com um olho vigilante, Castorp (agora posso dizê-lo), desde o dia em que tive a imerecida honra de conhecê-lo, e cheguei à opinião bastante firme de que o senhor era, clandestinamente, um dos nossos e acabaria por perceber esse fato, como fizeram tantos outros que vieram aqui para divertir-se, estudaram o ambiente, torcendo o nariz, e um belo dia ficaram sabendo que seria conveniente para eles, e não apenas conveniente – o senhor entenda-me bem! –, abandonar a atitude de curiosidade displicente e passar aqui uma temporada extensa.
Hans Castorp empalideceu e Joachim, a ponto de abotoar os suspensórios, imobilizou-se e escutou...
– O senhor tem aí um primo tão bonzinho e tão simpático – prosseguiu o conselheiro, com um gesto de cabeça em direção a Joachim, enquanto se balançava alternadamente nos calcanhares e nas pontas dos pés –, um primo do qual espero que possa dizer, daqui a pouco, que um dia “esteve” doente. Ora, mesmo que chegássemos a esse ponto, não deixaria de ser uma realidade que o senhor seu primo irmão teve uma vez uma doença, e isso lança a priori, como dizem os filósofos, uma certa luz sobre o senhor, meu caro Castorp...
– Mas ele não é meu primo irmão, senhor conselheiro.
-será possível que o senhor queira renegar seu primo? Primo irmão ou não, em todo caso é um consangüíneo. Por que lado?
– Pelo lado de minha mãe, senhor conselheiro. Ele é filho de um meia ir...
– E a senhora sua mãe anda bem de saúde?
– Não, senhor. Ela não vive mais. Morreu quando eu ainda era menino.
– Ah! sim? De quê?
– De uma embolia, senhor conselheiro.
– Embolia? Bem, isso aconteceu faz muito tempo. E o senhor seu pai?
– Morreu de pneumonia – disse Hans Castorp. – E meu avô também – acrescentou.
– Ah, o avô também? Hum, deixemos então os seus ascendentes. Quanto ao senhor, creio que foi sempre meio anêmico, não é? Mas, e o trabalho físico ou intelectual nunca o cansou? Pelo contrário? E o senhor costuma ter palpitações? Só recentemente? Muito bem, e além disso parece existir uma decidida tendência para catarros nas vias respiratórias. O senhor sabe que já esteve enfermo?
– Eu?
– Sim, é à sua prezada pessoa que me refiro. Pode ouvir a diferença? – E o conselheiro áulico pôs-se a percutir a região esquerda do peito, ora em cima, ora mais embaixo.
– Ali, o som é um pouco mais surdo do que aqui – disse Hans Castorp.
– Ótimo! O senhor deveria tornar-se especialista. Ali há portanto uma maciez, e tal maciez tem sua origem em focos antigos que já se esclerosaram, ou se assim lhe agrada melhor, já cicatrizaram. O senhor é um doente veterano, Castorp, mas não convém censurar ninguém por não lhe ter comunicado esse fato. O diagnóstico na fase precoce é muito difícil, sobretudo para os senhores nossos colegas na planície. Eu nem quero dizer, precisamente, que nós aqui temos ouvidos mais finos, embora a especialização e a prática influam bastante. É o ar que nos ajuda a ouvir, sabe? Esse ar rarefeito e seco das alturas.
– Claro, compreendo – disse Hans Castorp.
– Muito bem, Castorp! E agora preste atenção, meu filho. Vou lhe dizer algumas palavras de ouro. Se no seu caso houvesse apenas isso (o senhor me entenda bem!) e tudo se limitasse àquela maciez e cicatrizes no interior do seu odre de Éolo e a esses corpos estranhos de substâncias calcáreas, eu mandaria o senhor para seus lares e penates e não me preocuparia nem um pouquinho com a sua saúde, compreende? Mas, assim sendo, e em face dos fatos que verifiquei além disso, e considerando que o senhor já se encontra aqui entre nós, não vale a pena regressar, Hans Castorp, pois dentro em breve teria de apresentar-se novamente.
Hans Castorp voltou a sentir o sangue lhe afluir ao coração, fazendo com que ele martelasse violentamente. Joachim continuava de pé, com as mãos nos botões traseiros da calça, e tinha os olhos baixos.
– Olhe, além da maciez – disse o conselheiro áulico –, tem o senhor à esquerda, bem em cima, uma respiração rude que toca as raias de um ruído bolhoso e provém, indubitavelmente, de um lugar novo. Não quero dizer que já se trata de um estado de fusão, mas não há dúvida nenhuma de que é um lugar úmido, e se o senhor continuasse a viver daquele jeito na planície, então lhe garanto, meu caro amigo, que mais dia menos dia todo o lóbulo iria água abaixo.
Hans Castorp quedava-se imóvel; sua boca estremecia singularmente, e via-se com absoluta nitidez como o seu coração batia contra as costelas. Seu olhar vagou até Joachim, cujos olhos, no entanto, não encontrou, e dali novamente ao rosto do Dr. Behrens, com os esbugalhados olhos azuis, as faces azuladas e a boca com o bigodinho torto de um lado.
– Como confirmação objetiva – continuou o conselheiro – temos ainda a sua temperatura: 37,6 às dez da manhã, o que corresponde, pouco mais ou menos, às observações acústicas.
– Eu pensei – disse Hans Castorp – que essa febre viesse simplesmente do catarro.
– E o catarro? – retrucou o médico. – De onde vem? Permita-me que lhe diga uma coisa, Castorp, e abra os ouvidos. Ao que saiba, o senhor dispõe de circunvoluções cerebrais em número suficiente. Bem, o ar que temos aqui é bom contra a enfermidade. Não é isso o que o senhor pensa? E com razão. Mas, ao mesmo tempo, este ar é bom para a enfermidade; compreende? No começo acelera o seu curso, revoluciona o corpo, fomenta a irrupção da doença latente, e tal irrupção é, com a sua licença, o seu catarro. Eu não sei se o senhor na planície já era propenso a febres, mas aqui, em todo caso, o senhor está febril desde o primeiro dia da sua permanência, e não somente em virtude desse seu catarro, se quiser ouvir a minha opinião.
– Sim, sim – disse Hans Castorp –, é o que acho também.
– Provavelmente sentiu-se logo estonteado – confirmou o conselheiro. – É a obra dos venenos solúveis que os micróbios produzem. Eles têm efeito inebriante sobre o sistema nervoso central, compreende o senhor? E daí vêm as bochechas alegremente rosadas. Bem, Castorp, o senhor vai se meter na cama; assim podemos ver se algumas semanas de repouso total bastam para desembriagá-lo. Então se falará sobre o resto. Tiraremos uma vista bonita do seu interior; o senhor gostará de espiar para dentro da sua própria pessoa. Mas já lhe digo uma coisa: um caso como o seu não se cura de hoje para depois de amanhã. Não há lugar para êxitos de propaganda e curas milagrosas. Eu tive logo a impressão de que o senhor seria um paciente melhor e teria mais talento para a doença do que esse general-de-brigada que deseja safar-se cada vez que tem uns décimos a menos. Como se “descansar armas” não fosse um comando tão bonito quanto
“ombro armas”. A calma é o primeiro dever do cidadão, e a impaciência apenas o prejudica.
Trate de não me decepcionar, Castorp, e eu faço questão que não desminta os meus conhecimentos psicológicos! E agora, marche-marche, para o estábulo.
Com essas palavras, o conselheiro áulico deu por terminada a entrevista e sentou-se à escrivaninha, a fim de aproveitar, como homem atarefado que era, o intervalo até o próximo exame, para fazer alguns trabalhos escritos. O Dr. Krokowski, porém, ergueu-se do seu lugar, aproximou-se de Hans Castorp e, com a cabeça inclinada para trás, esboçou um sorriso cordial que descortinava no meio da barba os dentes amarelados. Pôs a mão esquerda no ombro do jovem e apertou energicamente a mão direita de Hans Castorp.
CAPÍTULO V
Sopa eterna e clareza repentina
Achamo-nos à frente de um fenômeno a cujo respeito o narrador faz bem expressando a sua própria surpresa, para evitar que o leitor, por sua vez, o estranhe excessivamente. Com efeito, ao passo que o nosso relatório referente às três primeiras semanas da permanência de Hans Castorp ali em cima – vinte e um dias de verão a que esta, segundo todas as previsões, devia limitar-se – requereu uma extensão no espaço e no tempo que confirmava bastante bem a nossa própria maldisfarçada expectativa, a descrição das próximas três semanas da sua visita a esse lugar apenas exigirá tantas linhas, tantas palavras e tantos momentos quantas folhas, páginas, horas e jornadas aquele relatório ocupou; num abrir e fechar de olhos – como já se pode prever –
liquidaremos e sepultaremos esse segundo lapso de tempo.
Talvez isso pareça surpreendente; e todavia está bem assim, corresponde às leis que vigoram para quem narra e para quem escuta. Está bem e corresponde às ditas leis que o tempo se torne para nós tão longo ou tão curto, que se afigure à nossa experiência tão vasto ou tão reduzido como apareceu ao herói da nossa história, o jovem Hans Castorp, que o destino requisitou de modo inesperado. E pode ser proveitoso prepararmos o leitor, em presença do mistério que constitui o tempo, para outros milagres e fenômenos que iremos encontrar em companhia de Hans Castorp. Por enquanto, basta que todos se lembrem da rapidez com que decorre uma “longa” série de dias para o doente que os passa acamado. É o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas, justamente por se tratar sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo “repetição”. Melhor seria falar de invariabilidade, de um presente parado ou de eternidade. Trazem-te a sopa à hora do almoço, assim como a trouxeram ontem e a trarão amanhã. E ao mesmo tempo te sentes presa de uma sensação singular que vem não sabes de onde nem por quê: és invadido por uma espécie de vertigem, enquanto a sopa se aproxima de ti; os tempos confundem-se, misturam-se no teu espírito, e o que se te revela como verdadeira forma da existência é um presente sem extensão, no qual eternamente te trazem a sopa. Seria, entretanto, paradoxal falar de fastio, quando se trata de eternidade, e queremos evitar quaisquer paradoxos, sobretudo em companhia desse nosso herói.
Achava-se, pois, Hans Castorp acamado desde a tarde de sábado, porque o Dr. Behrens, a autoridade suprema do mundo que nos encerra, assim decidira. Jazia ali, com o monograma no bolsinho da camisola, as mãos juntas atrás da cabeça, na sua cama branca e limpinha, leito de morte da americana e, provavelmente, de muitas outras pessoas. Com olhos ingênuos, azuis, turvos pelo resfriado, fixava o teto do quarto, meditando sobre a singularidade da sua situação.
Por outro lado, não cabe admitir que sem o resfriado os seus olhos tivessem lançado olhares claros, luzentes e inequívocos, visto que o aspecto do seu interior, por singela que fosse a sua natureza, não se apresentava dessa forma, senão muito pelo contrário, bastante perturbado, confuso, indistinto, semi-sincero e cheio de dúvidas. Às vezes, um riso louco de triunfo subia-lhe do fundo da alma e lhe sacudia o peito, enquanto seu coração estacava, dolorido, sob o efeito de uma desmedida e até então ignorada alegria e esperança; outras vezes, porém, empalidecia de susto e desassossego, e eram os golpes da sua própria consciência que o coração, numa cadência acelerada, errática, repetia, batendo-lhe nas costelas.
No primeiro dia, Joachim deixou-o em completa paz, evitando qualquer discussão.
Discretamente, entrou algumas vezes no quarto do doente, saudou-o com um aceno da cabeça e perguntou, por mera cortesia, se lhe faltava alguma coisa. Era-lhe, aliás, muito fácil compreender e respeitar o temor que Hans Castorp sentia por qualquer controvérsia, uma vez que ele próprio o compartilhava e, na sua opinião, até se achava numa situação mais penosa do que o primo.
Mas, na manhã de domingo, ao regressar do passeio matinal que fizera sozinho, como antigamente, já não adiou por mais tempo a conversa com Hans Castorp, destinada a resolver os assuntos mais urgentes e mais necessários. Postando-se ao pé da cama, disse com um suspiro:
– Pois é, não adianta fugir à realidade. É preciso tomar algumas resoluções. Estão esperando você lá em casa.
– Ainda não – respondeu Hans Castorp.
– Hoje talvez não, mas nos próximos dias, na quarta ou na quinta-feira.
– Olhe – tornou Hans Castorp –, eles não contam comigo num dia certo. Têm mais que fazer do que aguardar-me e contar os dias até a minha volta. Quando chegar, muito bem, tio Tienappel vai dizer: “Pois então, já voltou?” E tio James dirá: “Como foi de viagem?” E se eu não regressar, levará muito tempo antes que alguém dê pela minha ausência; isso lhe garanto.
Claro que qualquer dia devo avisá-los...
– Você pode acreditar – continuou Joachim, dando mais um suspiro – que essa história é sumamente desagradável para mim. Que é que vai acontecer agora? Naturalmente me sinto um pouco responsável. Você vem aqui, para me visitar, é introduzido por mim, e agora está preso e não sabemos quando poderá partir e ocupar o seu lugar. Você deve compreender que isso é sumamente penoso para mim.
– Perdão! – disse Hans Castorp, sempre com as mãos atrás da cabeça. – Por que você se preocupa assim? É absurdo. Será que vim aqui para lhe fazer uma visita? Foi também por isso, mas em primeiro lugar para descansar, a conselho de Heidekind. Bem, e agora se torna manifesto que necessito de muito mais descanso do que eu e todos nós tínhamos imaginado. Acho que não sou o primeiro que pensava passar aqui um fim de semana, e para quem as coisas saíram de outro modo. Lembre-se, por exemplo, do segundo filho de “Tous-les-deux”, que levou aqui um golpe muito mais forte. Eu nem sei dizer se ele vive ainda; talvez já o tenham levado durante uma refeição. Verdade é que o fato de eu estar um pouco doente constitui para mim uma surpresa.
Ainda preciso familiarizar-me com a idéia de ser paciente e pertencer à roda de vocês, em vez de me sentir apenas como visitante. Mas, por outro lado, a surpresa não é tão grande assim, pois nunca tive a impressão de gozar de saúde esplêndida, e quando penso nos meus pais que morreram ambos muito jovens... donde viria afinal o esplendor? Não há como negar que você tem uma pequena lesão, embora ela esteja mais ou menos boa agora, e me parece bem possível que haja na nossa família uma tendência para isso. Behrens fez uma alusão nesse sentido. Seja como for, desde ontem estou deitado aqui e me ocupo em analisar os sentimentos que tive o tempo todo, e a atitude que tomei em relação às coisas, sabe?, em face da vida e das suas exigências. Na minha natureza houve sempre certa inclinação para a seriedade e uma determinada antipatia contra manifestações robustas e barulhentas. Faz pouco tempo que falamos a esse respeito, e eu mencionei que às vezes quase tive vontade de ser pastor, por gosto pelas coisas tristes e edificantes... Por exemplo, um pano preto, sabe?, com uma cruz de prata em cima ou com as letras R.I.P.... “Requiescat in pace” é no fundo uma bela frase e me parece infinitamente mais simpática do que “Vivat, crescat, floreat”, com sua alegria ruidosa. Creio que tudo isso se deve ao fato de que eu mesmo ando atacado pela doença e tenho, desde o começo, familiaridade com ela, como agora se torna evidente. Mas, se realmente é assim, posso dizer que fiz muito bem em ter vindo para cá e em submeter-me a um exame. Você absolutamente não precisa ter remorsos por causa disso. Não ouviu que, se eu tivesse continuado por mais algum tempo com aquela
minha vida na planície, poderia ter acontecido que todo o lóbulo do pulmão fosse por água abaixo?
– Disso ninguém pode ter certeza – disse Joachim. – É justamente isso o que não se sabe.
Dizem que você já teve em outras ocasiões focos com os quais nunca ninguém se preocupou, e que se curaram por si mesmos, de maneira que nada deles sobrou a não ser um incômodo respiratório sem importância. É bem possível que o mesmo se teria dado com aquele lugar úmido do qual eles falam agora, se você não me tivesse visitado casualmente aqui em cima. É disso que não se pode ter certeza.
– Não, a gente não pode ter certeza de nada – respondeu Hans Castorp. – E por essa razão não temos o direito de supor o pior, tampouco no que se refere ao tempo que terei de permanecer aqui como paciente. Você diz que ninguém sabe quando poderei partir, para começar a trabalhar nos estaleiros, mas disse essas palavras num sentido pessimista, e isso me parece precipitado, justamente porque não se pode saber nada. O Behrens não fixou nenhum prazo; é um homem circunspecto e não faz o papel de um adivinho. Ainda não foram feitas a radioscopia e as chapas radiográficas que lhe permitirão tirar conclusões objetivas. Quem sabe se elas apresentarão um resultado importante! Pode ser que até então eu já esteja sem febre e diga adeus a vocês. Creio que não convém dar o alarme antes do tempo e contar ao pessoal lá em casa, sem mais nem menos, histórias da carochinha. Basta escrevermos qualquer dia – eu mesmo posso fazê-lo, com a caneta-tinteiro, me soerguendo um pouco – para avisá-los de que estou fortemente resfriado, com febre e acamado, e que no momento ainda não posso viajar. Quanto ao resto, veremos depois.
– Está bem – disse Joachim. – Por enquanto é suficiente. Nesse caso poderemos esperar algum tempo também com respeito às outras disposições.
– Que outras disposições?
– Não seja tão imprevidente! Você se preparou apenas para uma estadia de três semanas, com essa sua maleta. Vai precisar de roupas, roupa-branca, casacos de inverno, e de calçados. E
afinal de contas será necessário que lhe mandem dinheiro.
-se... – disse Hans Castorp -se eu precisar de tudo isso.
– Bem, aguardemos os resultados. Mas convém... Não! – prosseguiu Joachim, caminhando nervosamente pelo quarto. – Não deveríamos iludir-nos. Há bastante tempo que estou aqui e entendo disso. Quando o Behrens diz que você tem um lugar com uma respiração rude que toca as raias de um ruído bolhoso... Contudo, podemos esperar, naturalmente...
E assim ficou, por enquanto. As variantes semanais e quinzenais do dia normal recuperaram os seus direitos, e Hans Castorp participava delas, também na sua situação atual, desfrutando-as, senão diretamente, pelo menos através das informações que lhe dava Joachim, quando ia vê-lo e se sentava por um quarto de hora na beira da cama.
A bandeja com a qual na manhã de domingo lhe apresentaram o café estava ornada com um pequeno vaso de flores, e não haviam esquecido de lhe enviar alguns dos biscoitos finos que nesse dia eram servidos na sala. Mais tarde, animava-se o movimento no jardim e no terraço, quando se iniciava, com o alarido dos clarins e o som fanhoso das clarinetas, o concerto bimensal, durante o qual Joachim permaneceu ao lado do primo. Assistia ao programa no compartimento da sacada, cuja porta ficava aberta, enquanto Hans Castorp, semi-sentado na cama, com a cabeça inclinada para um lado e com um olhar abandonado a uma sensação entre terna e fervorosa, escutava as harmonias que se arrojavam sobre ele e o faziam recordar, com um certo desdém íntimo, os discursos de Settembrini acerca da música “politicamente suspeita”.
De resto, como já dissemos, inteirava-se por intermédio de Joachim dos acontecimentos e dos aspectos desses dias. Interrogou-o sobre se no domingo haviam aparecido vestidos elegantes, robes de renda ou coisa que o valha (mas fazia frio excessivo para robes de renda). Quis também saber se, pela tarde, haviam feito excursões de coche (com efeito, a Sociedade Meio-Pulmão fora in corpore até Clavadel). Na segunda-feira quis ser informado sobre a conferência do Dr.
Krokowski, quando Joachim voltou dela, e, antes de começar o repouso da tarde, foi ter com ele.
Joachim mostrou-se taciturno e pouco disposto a relatar pormenores da conferência, como tampouco haviam discutido a anterior. Mas Hans Castorp insistiu em conhecê-los.
– Fico aqui no meu quarto e pago o preço integral – disse. – Quero também participar do que oferecem. – Relembrou a segunda-feira de duas semanas atrás, com aquele passeio que dera por conta própria e de que não se saíra muito bem. Formulou a hipótese de que fora, no fundo, esse passeio o que provocara a revolução no seu corpo e causara a irrupção da enfermidade latente.
– Mas como fala o pessoal daqui! – exclamou. – A gente do povo! Com quanta dignidade e solenidade! Às vezes soa como poesia. “Pois então, passe bem, e muito agradecido!” – repetiu, procurando imitar a fala do lenhador. – Foi o que ouvi no mato e em toda a minha vida não o esquecerei. Tais coisas associam-se a outras impressões e reminiscências, sabe?, e guardam-se no ouvido até o fim dos nossos dias... O Krokowski falou outra vez do “amor”? – perguntou, fazendo uma careta ao pronunciar essa palavra.
– Lógico – respondeu Joachim. – De que mais falaria? Este é, afinal, seu tema.
– E que disse hoje?
– Ora, nada de especial. Você já ficou sabendo, da outra vez, como ele costuma expressar-se.
– Mas que novidades contou?
– Nada de especialmente novo... Pois é; o que ele contou hoje foi química pura – relatou Joachim de má vontade. “Aquilo” representava uma espécie de intoxicação, de auto-intoxicação do organismo, segundo a opinião do Dr. Krokowski, tendo a sua origem na decomposição de uma substância ainda desconhecida, espalhada por todo o corpo. Os produtos dessa decomposição exerciam um efeito inebriante sobre certos centros da medula espinhal, o mesmo que sucederia no caso do consumo habitual de tóxicos, como cocaína ou morfina.
– E daí vêm as tais “bochechas alegremente rosadas” – disse Hans Castorp. – Vejam só!
Isso é notável! Quanta coisa não sabe aquele sujeito! É para lá de sábio, esse doutor. Espere um pouco, que qualquer dia ele acabará descobrindo a tal substância desconhecida que está espalhada por todo o corpo, e se mete a fabricar os tóxicos solúveis que embriagam o centro, para que possa embriagar a gente de um modo todo especial. Quem sabe se em outros tempos não se conseguiu isso? Ao ouvir essas coisas, pode-se acreditar que haja alguma verdade nas histórias de filtros de amor e em outras fábulas semelhantes que se encontram nos livros de lendas antigas...
Você já vai?
– Sim, senhor – disse Joachim. – É absolutamente necessário que me deite um pouco.
Minha curva anda subindo desde ontem. O seu caso parece que mexeu com meus nervos...
Assim se passaram o domingo e a segunda-feira. E fez-se manhã e tarde, e foi o terceiro dia da permanência de Hans Castorp no “estábulo”, um dia de semana sem distinção nenhuma, a terça-feira. Era, entretanto, o dia da sua chegada ali em cima, de maneira que estava em Davos havia três semanas. Assim, sentiu-se obrigado a redigir a referida carta para casa e a informar seus tios, pelo menos superficial e provisoriamente, a respeito da sua situação. Recostado no travesseiro de plumas, escreveu sobre uma folha de papel com o cabeçalho do estabelecimento, comunicando que sua partida, contra toda expectativa, seria atrasada. Contou que estava acamado com uma gripe e com febre, e que o Dr. Behrens, em virtude de um excesso de cuidado, insistia em levar a coisa a sério, já que a relacionava com a constituição geral do paciente. Pois, desde a sua primeira entrevista, o médico-chefe achara-o muito anêmico. Em suma, o prazo que ele, Hans Castorp, preestabelecera para o seu descanso, não fora julgado suficiente por essa autoridade. Acrescentou que outros pormenores seguiriam em breve... “Assim está bem”, pensou Hans Castorp. “Não há nenhuma palavra a mais e basta por algum tempo.” A carta foi entregue ao criado, que a levou diretamente ao trem, evitando a demora da caixa do correio.
Com isso, as coisas essenciais pareciam bem arranjadas ao nosso herói aventuroso. De espírito tranqüilo, ainda que atormentado pela tosse e pelo nariz entupido por causa do resfriado, começou a viver do dia para o dia, acomodando-se a esse programa multiplamente subdividido
em numerosos pedacinhos, do dia normal, nem fastidioso nem interessante, que era sempre o mesmo, na sua monotonia prefixada. Pela manhã, após ter batido vigorosamente à porta, entrava o massagista, um indivíduo musculoso de nome Turnher: com as mangas da camisa arregaçadas, exibia as veias avultadas dos antebraços; expressando-se com dificuldade numa linguagem gutural, friccionava Hans Castorp com álcool e tratava-o, como todos os demais enfermos, pelo número do quarto. Logo depois da sua saída aparecia Joachim, já completamente vestido, para dar o bom-dia ao primo, para inteirar-se da temperatura das sete da manhã e para comunicar a sua própria. Enquanto Joachim tomava o café lá embaixo, fazia Hans Castorp o mesmo, com o travesseiro de plumas nas costas e com o apetite voraz que uma mudança de situação costuma provocar. Mal o incomodava a irrupção pressurosa e puramente profissional dos médicos, que a essa hora já haviam atravessado a sala de refeições e se desempenhavam, a passo acelerado, da sua ronda pelos quartos dos acamados e dos moribundos. Com a boca repleta de geléia, Hans Castorp afirmava ter dormido muito bem, observava por cima da borda da xícara como o conselheiro, as mãos apoiadas na mesa central, examinava depressa a folha de temperatura, ali preparada, e com uma voz displicentemente arrastada retribuía a saudação de despedida. Depois acendia um cigarro e apenas começava a pensar que Joachim devia ter iniciado o passeio obrigatório da manhã, quando já o via voltar. Novamente conversavam sobre isto e aquilo, e o lapso de tempo até o segundo café da manhã – Joachim, nesse ínterim, entregava-se ao repouso –
era tão curto que mesmo um perfeito cretino ou débil mental não chegaria a aborrecer-se. E
muito menos ocorria isso a Hans Castorp, bastante ocupado com a digestão das impressões que lhe haviam trazido as três primeiras semanas da sua estadia ali em cima, e que além disso tinha muito que meditar acerca da sua situação presente e sobre o fim a que ela iria levar. Assim, sequer tinha necessitado dos dois grossos volumes de uma revista ilustrada que pertenciam à biblioteca do sanatório e jaziam no seu criado-mudo.
E o mesmo se aplica ao intervalo durante o qual Joachim ia dar o seu segundo passeio a Davos-Platz, intervalo de uma hora, quando muito. Depois, o primo entrava de novo no quarto de Hans Castorp, para contar algumas coisinhas que lhe tinham despertado o interesse durante a caminhada, e permanecia algum tempo de pé ou sentado junto da cama, antes de se recolher ao repouso do meio-dia. E quanto tempo durava essa parte do programa? Apenas uma hora. A gente mal chegava a juntar as mãos atrás da cabeça e a mirar um pouquinho o teto do quarto, entregando-se aos seus pensamentos, e já ressoava o gongo convidando todos que não estivessem nem acamados nem moribundos a se prepararem para a refeição principal.
Ia-se Joachim e vinha a “sopa do almoço”. Era essa uma denominação de simbolismo ingênuo, em consideração àquilo que traziam. Pois Hans Castorp não fora sujeito a um regime de enfermo. Para que serviria tal regime? Uma alimentação parca, de doente, não era de maneira alguma indicada para o seu caso. O que lhe serviam ali, na eternidade parada dessa hora, não era uma simples “sopa de almoço”, mas sim o cardápio do Berghof com seus seis pratos, completo e sem a mínima restrição, uma refeição opulenta nos dias de semana, e nos domingos um festim de gala, de luxo e de espetáculo, preparado por um chefe de cozinha de formação européia. A criada cuja função era atender os doentes acamados trazia-o sobre travessas niqueladas e em apetitosas caçarolas. Empurrava até ele a mesa de doente, essa maravilha unipedal de construção bem-equilibrada, que também chegara recentemente a seu quarto; colocava-a por cima da cama, e Hans Castorp regalava-se como no conto de fadas o filho do alfaiate diante da mesinha mágica.
Apenas terminada a refeição, Joachim aparecia de novo, e até que este se encaminhasse ao seu compartimento na sacada e o silêncio do grande repouso começasse a pairar sobre o Berghof, já eram aproximadamente duas e meia. Talvez faltasse ainda um pouquinho; para sermos exatos, eram apenas duas horas e quinze minutos. Mas não convém levar em conta tais quartos de hora supranumerários que ultrapassam as unidades redondas; são absorvidos despercebidamente, sobretudo num ambiente generoso em matéria de tempo, como, por exemplo, em viagem, ao passarmos muitas horas no trem, ou em outras ocasiões que acarretam um estado vazio de prolongada espera, fazendo com que todos os nossos esforços e toda a nossa existência fiquem