A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 12 de 13 · parte 1/3

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A Montanha Mágica

Unicamente o malaio e Mme. Chauchat encontravam-se…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Unicamente o malaio e Mme. Chauchat encontravam-se ainda ali. Desta vez, Clávdia levantou a cabeça e olhou o jovem, que novamente se aproximava da cama.

– O senhor tinha direito a que eu o mandasse chamar – disse ela.

– Foi muito gentil da sua parte – respondeu Hans Castorp. – E a senhora tem razão.

Éramos amigos e nos tratávamos de “tu”. Tenho vergonha até o fundo do meu coração de me ter esquivado a tuteá-lo na frente de terceiros e de ter recorrido a subterfúgios... A senhora achava-se a seu lado durante os últimos instantes?

– O criado me avisou quando tudo estava terminado – explicou ela.

– A envergadura dele era tamanha – recomeçou Hans Castorp – que o fracasso do sentimento em face da vida lhe causava a sensação de uma catástrofe cósmica e de um aviltamento de Deus. Pois a senhora deve saber que ele se considerava o órgão nupcial de Deus.

Era uma fantasia de rei... Quando estamos comovidos, temos a coragem de empregar expressões que soam rudes e desapiedadas, mas são mais solenes do que as palavras da devoção convencional.

– C’est une abdication – disse ela. – Sabia ele da nossa loucura?

– Não me foi possível negá-la, madame. Ele adivinhara tudo, quando me recusei a beijar-lhe a fronte na presença dele. Embora esta presença seja antes simbólica do que real neste momento, a senhora me permitirá que o faça agora?

Num movimento breve, como que de convite, ela elevou até o jovem a cabeça, com os olhos fechados. E Hans Castorp aproximou os lábios da sua testa. Os olhos castanhos, de animal, do malaio observavam a cena, mirando de esguelha, a ponto de mostrar o branco do globo ocular.

O grande tédio

Mais uma vez ressoa a voz do Conselheiro Behrens. Prestemos-lhe atenção! Talvez seja a última vez que a ouça-mos. Até mesmo esta história deve ter um fim; já se prolongou por bastante tempo, ou melhor: o tempo do seu conteúdo vai se precipitando de tal forma que também a sua duração musical está na iminência de se esgotar. Assim pode ser que não se nos ofereça mais nenhuma oportunidade para escutar as alegres cadências da pitoresca linguagem de Radamanto.

– Castorp, meu velho – disse ele –, o senhor se aborrece. Diariamente vejo como anda entediado. O mau humor está escrito na sua cara. O senhor é um sujeito blasé, Castorp. Tem sido mimado por experiências sensacionais, e quando não lhe apresentamos todos os dias uma novidade de primeira ordem, torce o nariz e resmunga contra a época das vacas magras. Tenho ou não tenho razão?

Hans Castorp permaneceu calado, e em face desta atitude é de supor que realmente reinassem trevas no seu interior.

– Tenho razão como sempre – respondeu Behrens à sua própria pergunta. – Olhe, cidadão carrancudo, antes de espalhar por aqui o veneno do descontentamento alemão, deveria dar-se conta de que absolutamente não se acha abandonado por Deus e pelos homens, mas que

as autoridades velam pelo seu bem, velam sem cessar; sim, senhor! e não param de procurar meios de diverti-lo. O velho Behrens está a postos. E agora vamos deixar de brincadeiras, meu filho. Tive uma idéia para resolver o seu caso, ocorreu-me uma coisa nas minhas noites de vigília.

A gente poderia falar de uma inspiração. Com efeito, espero muito da minha idéia, quer dizer, espero nada mais nada menos do que a desintoxicação do senhor e o seu regresso triunfal para muito mais cedo do que pensa.

“Está arregalando os olhos, heim?”, prosseguiu, depois de uma pausa bem calculada, se bem que Hans Castorp absolutamente não arregalasse os olhos, mas o fitasse com uma expressão entre sonolenta e distraída. “Não pode imaginar o que o velho Behrens quer dizer com isso.

Quero dizer é o seguinte: há no seu interior qualquer coisa que não está certa, Castorp. Isso não pode ter escapado à sua prezada inteligência. Não está certa, no sentido de que os seus fenômenos de intoxicação há muito tempo não correspondem ao estado local, que incontestavelmente melhorou muito. Não é apenas desde ontem que esse fato me dá que pensar.

Temos aqui a sua última radiografia... Vamos olhar esse troço contra a luz. Como o senhor está vendo, nem os piores resmungões e pessimistas, para usar uma das expressões prediletas do nosso imperador, poderiam encontrar aqui muitos defeitos. Alguns focos acham-se completamente resolvidos, a área diminuiu e tem contornos mais nítidos, o que, como o senhor na sua sabedoria não ignora, indica a cura progressiva. Esse estado de coisas não explica a irregularidade da sua temperatura doméstica, meu caro rapaz. E o médico vê-se na obrigação de procurar outras causas.”

Um movimento de cabeça de Hans Castorp evidenciou um esforço moderado de mostrar alguma curiosidade cortês.

– Pois é, meu caro Castorp, sem dúvida pensa o senhor agora que o velho Behrens deve admitir ter cometido um erro no tratamento. Nesse caso, o senhor estaria redondamente enganado e julgaria mal tanto a situação como o velho Behrens. O seu tratamento não foi errado; apenas pode ser que a sua orientação tenha sido unilateral. Cheguei a ventilar a possibilidade de os seus sintomas não terem, desde o começo, a sua origem exclusiva na tuberculosis; e isso porque hoje me parece improvável que ainda continuem tendo a sua origem nela. Deve existir uma outra fonte de perturbações. A meu ver, o senhor tem “cocos”...

“Sim!”, repetiu o conselheiro enfaticamente, depois de ter registrado o sinal de aprovação que Hans Castorp lhe devia por esse diagnóstico, “segundo a minha íntima convicção, o senhor tem ‘estreptos’, o que, aliás, não é nenhum motivo para se assustar desta forma.”

(Absolutamente não se podia falar de susto. A fisionomia de Hans Castorp expressava antes certa admiração irônica, ou antes a agudeza que se lhe deparava ou antes a nova dignidade que lhe conferia a hipótese do conselheiro.)

– Não há razão para pânico – volveu o médico, variando o seu consolo. – Todo mundo tem “cocos”. Qualquer burro tem “estreptos”, de maneira que o senhor não precisa gabar-se.

Não faz ainda muito tempo que sabemos que o homem pode ter estreptococos no sangue, sem que se produzam fenômenos mais ou menos perceptíveis que indiquem a infecção. Achamo-nos em presença de um fato que muitos dos meus colegas ignoram, por enquanto, a saber: que o sangue pode conter tubérculos, sem que estes causem as menores conseqüências. Já não estamos muito, distantes da teoria de que a tuberculose é, na verdade, uma doença do sangue.

Hans Castorp achou isso muito interessante.

– Bem, quando falo de estreptos – recomeçou Behrens – o senhor não deve pensar na forma grave da doença, que é a mais conhecida. A análise bacteriológica do seu sangue deve demonstrar se esses bichinhos simpáticos realmente se instalaram no seu interior. Mas não será senão pelos efeitos de um tratamento de estreptovacina que constataremos se seu estado febril provém ou não provém deles. É este o caminho, meu caro amigo, que seguiremos, e, como já lhe expliquei, espero dele resultados dos mais imprevisíveis. Embora a tuberculose seja de cura muitíssimo demorada, enfermidades desse tipo podem ser curadas em pouco tempo. Se o senhor

mostrar a menor reação a estas injeções, em seis semanas o senhor estará tão bem quanto um peixe dentro d’água. Que me diz agora? O velho Behrens está ou não está alerta?

– Por enquanto só se trata de uma hipótese – disse Hans Castorp sem energia.

– Uma hipótese que pode ser comprovada. Uma hipótese sumamente fecunda – retrucou o conselheiro. – O senhor vai ver até que ponto é fecunda, quando os cocos se multiplicarem nas nossas culturas. Amanhã de tarde, Castorp, vai entrar na faca; faremos uma sangria segundo as regras da arte dos barbeiros de aldeia. Isso é um prazer sui generis e pode exercer sobre o corpo e a alma os mais milagrosos efeitos...

Hans Castorp declarou-se disposto a submeter-se a essa diversão e agradeceu polidamente pela atenção que lhe era dedicada. Com a cabeça inclinada para o ombro, acompanhou com o olhar o conselheiro, que se afastava remando. A intervenção do médico-chefe realizara-se precisamente num momento crítico. Radamanto interpretara de modo bastante acertado a fisionomia e o estado de espírito do pensionista, e sua nova experiência destinava-se –

destinava-se expressamente, sem disfarçar a intenção – a fazer Hans Castorp avançar além do ponto morto em que o paciente se encontrava havia pouco, segundo se podia concluir do seu semblante, que recordava exatamente o que mostrara o saudoso joachim na época em que certas decisões bruscas e indisciplinadas se haviam preparado no seu íntimo.

E mais: parecia a Hans Castorp que não somente ele próprio chegara a esse ponto morto, mas que ao mundo na sua totalidade acontecera o mesmo, ou melhor: tornava-se-Ihe difícil distinguir nesse caso os fatores particulares dos gerais. Suas relações com uma autêntica personalidade tinham acabado de forma excêntrica, que produzira múltipla agitação no sanatório.

Clávdia Chauchat abandonara novamente a sociedade dos pensionistas, depois do beijo de despedida que, à sombra de uma grande e trágica renúncia, e num espírito de reverente devoção, fora trocado entre ela e o grande amigo do seu senhor. E desde aquele clímax o jovem sentia que alguma coisa não andava certa no mundo e na vida; tudo lhe dava a impressão de ter saído dos eixos; de um modo singular e cada vez mais intenso, tudo se lhe afigurava angustiante; era como se um demônio se tivesse apossado do poder, um demônio cuja influência perigosa e tola desde muito tempo já se fizera bastante sensível, mas que, a essa altura, se arrogava uma autoridade irrestrita, capaz de inspirar um secreto terror e de sugerir pensamentos de fuga: o demônio que se chamava “tédio”.

Decerto julgarão que o narrador exagera crassa e romanticamente ao estabelecer uma relação entre o conceito de tédio e o princípio demoníaco, e ao atribuir ao primeiro o efeito de um pavor místico. E todavia não contamos histórias da carochinha; pelo contrário, atemo-nos exatamente às experiências pessoais do nosso singelo herói, experiências essas que – não podemos relatar como – chegamos a conhecer, e que nos fornecem a prova cabal de ser possível, sob certas circunstâncias, que o tédio assuma tal caráter e inspire sentimentos desse gênero. Hans Castorp olhava em torno de si... Via coisas perfeitamente sinistras, perniciosas, e sabia o que se lhe deparava: era a vida sem tempo, a vida sem cuidados nem esperanças, a vida que estagnava sob a forma de uma atividade abastardada, a vida morta.

Achava-se ela num movimento constante; ocupações de toda espécie existiam lado a lado, mas de vez em quando uma dentre elas degenerava a ponto de se tornar uma loucura geral à qual todos se entregavam freneticamente. O diletantismo fotográfico, por exemplo, ocupara sempre lugar importante no mundo do Berghof; duas vezes, porém – quem vivia bastante tempo ali em cima podia presenciar a volta periódica de tais epidemias –, a paixão pela fotografia transformara-se em mania geral que se prolongara por semanas e meses. Não houvera então ninguém que não inclinasse com uma expressão preocupada a cabeça por cima de uma máquina fotográfica fincada no estômago, que não fizesse o obturador piscar e não passasse cópias de mesa em mesa. De repente faziam questão de revelar as suas fotografias sozinhos. A câmara escura que se achava à disposição dos pensionistas nem de longe bastava para satisfazer as necessidades. As janelas dos quartos e as portas de sacada eram então revestidas de cortinas pretas e, à luz de lâmpadas vermelhas, os amadores lidavam com banhos químicos até um belo dia produzir-se um incêndio

que quase devorou o estudante búlgaro da mesa dos “russos distintos”; em conseqüência disso, as autoridades do sanatório proibiram esse tipo de atividade. Não tardaram em desinteressar-se da fotografia simples. Entrou a moda dos instantâneos a magnésio e das fotografias coloridas pelo processo de Lumière. Começaram então a deleitar-se com retratos de pessoas que, bruscamente surpreendidas pelo relâmpago de magnésio, mostravam os olhos fixos e os rostos lívidos, contraídos, de cadáveres de assassinados que alguém tivesse assentado numa cadeira, depois de lhes abrir os olhos. E Hans Castorp guardava um diapositivo emoldurado em papelão, que se devia manter contra a luz para vê-lo com o rosto cor de cobre, numa clareira verde-gaio, pintalgada de dentes-de-leão muito amarelos, um dos quais lhe luzia na lapela; ladeavam-no a Srª.

Stöhr e a Srta. Levi, com a tez de marfim, a primeira num pulôver azul-celeste e a segunda numa blusa vermelha como sangue.

Havia também a filatelia. Sempre existiam pensionistas que se dedicavam a ela, mas em determinadas épocas alastrava-se, originando uma verdadeira mania coletiva. Todo mundo trocava, regateava, colava selos em álbuns. Tomavam assinaturas de revistas filatélicas; entabulavam correspondências com casas especializadas da Suíça e do estrangeiro, com associações e colecionadores. Até mesmo pessoas cuja situação financeira mal lhes permitia passar meses ou anos nesse luxuoso sanatório gastavam importâncias pasmosas na aquisição de selos raros.

Essa epidemia durava até se impor uma outra tolice, como, por exemplo, a compra e o consumo de enormes quantidades de chocolates de todas as marcas, que um dia entrou em voga.

Todos andavam com os lábios pardos, e os mais apetitosos produtos da cozinha do Berghof encontravam uma acolhida desdenhosa e crítica, já que os estômagos estavam entulhados e indispostos por milka-nut, chocolat à la creme d’amandes, marquis-napolitains e línguas de gato salpicadas de ouro.

A arte de desenhar porquinhos com os olhos fechados, introduzida pela mais alta autoridade numa longínqua noite de carnaval, e muito cultivada desde então, transformara-se aos poucos em exercícios geométricos de paciência, aos quais se dedicavam em certa época as forças intelectuais de todos os pensionistas do Berghof e mesmo os últimos pensamentos e as derradeiras demonstrações de energia dos moribundos. Durante semanas a fio, a casa viu-se sob o signo do desenho de uma figura complicada que se compunha de nada mais nada menos que oito círculos grandes e pequenos e de diversos triângulos inscritos uns nos outros. Tratava-se de esboçar a mão livre e num só traço o intrincado multilátero; mas a mestria suprema consistia em realizar essa proeza com os olhos espessamente vendados, o que, em última análise, e abstração feita a deslizes de menor monta, foi unicamente conseguido pelo Promotor Paravant, o campeão absoluto dessa excentricidade engenhosa.

Sabemos que ele se consagrava à matemática; sabemo-lo pela boca do próprio conselheiro, e também conhecemos a casta motriz do seu zelo; ouvimos elogios às qualidades mitigantes dessa ciência que embotava o aguilhão da carne. Se todos houvessem imitado o exemplo do promotor, provavelmente teriam sido desnecessárias certas medidas de precaução, cuja introdução nos últimos tempos se tornara inevitável. Procedera-se antes de tudo à obstrução de todas as passagens que existiam nas sacadas para quem contornasse aquelas divisões de vidro fosco, que não se estendiam até a balaustrada. Nessas passagens foram colocadas pequenas portas que, de noite, se fechavam à chave, sob os largos sorrisos de todo mundo. A partir de então eram muito procurados os quartos do primeiro andar, acima do avarandado, onde se podia saltar a balaustrada, caminhar por cima do teto de vidro e passar de um compartimento a outro, evitando as portinhas. Mas não era por causa do promotor que fora preciso introduzir essa inovação disciplinar. A veemente tentação que a figura da egípcia Fatme exercera sobre Paravant havia muito que estava dominada, e esta tinha sido a última agitação da sua virilidade natural. Com redobrado ardor lançara-se ele então nos braços da deusa de olhos claros, cujo poder calmamente o conselheiro costumava celebrar com palavras cheias de elevada moral. Outrora, antes da sua licença muitas vezes prorrogada, e que ameaçava converter-se em aposentadoria definitiva,

empenhara-se com afinco em comprovar a culpa dos desgraçados pecadores. Agora dedicava toda essa persistência, toda a sua tenacidade desportiva a um único problema que dia e noite lhe absorvia os pensamentos. Esse problema era a quadratura do círculo.

O funcionário deslocado adquirira no curso dos seus estudos a convicção de que as provas com que a ciência queria demonstrar a impossibilidade dessa construção não eram sólidas, e que por esta razão é que a bondosa providência o distanciara do mundo dos vivos, lá de baixo, e o transportara até aquelas alturas, sendo ele, Paravant, escolhido para arrancar o objetivo sublime da esfera do transcendente e para colocá-lo no terreno firme da solução exata. E assim chegara a traçar círculos, a calcular onde quer que se encontrasse. Cobria imensas quantidades de papel com figuras, letras, algarismos, símbolos algébricos. Seu rosto bronzeado, aparentemente o rosto de um homem de perfeita saúde, mostrava a expressão visionária, obstinada, de um maníaco. Sua conversa referia-se exclusivamente, com pavorosa monotonia, ao fator pi, essa fração desesperante, que o gênio inferior de um calculador chamado Zacharias Dase calculara um dia até duzentas decimais, e isso por um capricho gratuito, já que nem duas mil decimais aumentariam de modo apreciável as possibilidades de nos aproximarmos da precisão inatingível.

Não havia quem não procurasse escapar do pensador atormentado, pois todos os que ele conseguia agarrar pela manga do casaco tinham de suportar torrentes de palavras fervorosas, destinadas a lhes despertar a sensibilidade humana, para que percebessem a vergonha com que a irracionalidade irremediável dessa proporção mística poluía o espírito do homem. O promotor executava inúmeras multiplicações do diâmetro do círculo e do quadrado do raio por pi, na intenção de encontrar respectivamente a circunferência e a área, e a inutilidade de todos esses esforços levava-o a alguns acessos de dúvida. Perguntava-se então se a humanidade, desde os dias de Arquimedes, não complicara desnecessariamente a solução do problema, e se esta solução não era, em realidade, incrivelmente fácil. Ora, por que não seria possível retificar o contorno de um círculo e por conseguinte curvar uma reta a ponto de fazê-la assumir a forma circular? Às vezes, Paravant pensava estar na iminência de uma revelação. Era visto freqüentemente, altas horas da noite, na sala de refeições vazia e mal iluminada, onde permanecia sentado à sua mesa, sobre cuja superfície nua dispunha cuidadosamente em forma de círculo um pedaço de barbante, ao qual bruscamente, como que para surpreendê-lo, dava a forma de quadrado. Em seguida, costumava apoiar a cabeça na mão e entregar-se a sombrias meditações. O conselheiro acudia-lhe de vez em quando nessas brincadeiras melancólicas e animava-o a persistir na sua mania. Acontecia também dirigir-se o coitado a Hans Castorp para desabafar a sua querida mágoa, e isso se repetia, já que encontrava compreensão amistosa e bastante simpatia pelo mistério do círculo. O promotor explicava ao jovem a desgraça de pi, exibindo um desenho sumamente exato, onde com extremo esmero a circunferência de um círculo estava traçada entre dois polígonos de inúmeros lados minúsculos, um inscrito e outro circunscrito, desenho que representava o máximo de aproximação a que o homem pode chegar. O resto, porém, a curva que de um modo etéreo-espiritual se esquivava à racionalização por parte das retas que a comprimiam, este resto – dizia Paravant com a maxila inferior a tremer – este resto era pi! Hans Castorp, apesar da sua índole receptiva, mostrava-se menos irritado com pi do que o seu interlocutor. Dizia que aquilo não passava de uma quimera; aconselhava o Sr. Paravant a que não se inflamasse em excesso com aquela busca ilusória; falava dos pontos de inflexão, sem extensão alguma, de que se compunha o círculo, desde o seu início inexistente até o seu fim, que também não existia, bem como da soberba melancolia que se manifestava nessa eternidade, a qual, sem nunca guardar um rumo constante, sempre voltava ao ponto de partida. Suas palavras revelavam tanta religiosidade sossegada que produziam passageiramente um efeito tranqüilizador sobre o Sr. Paravant.

Em conseqüência do seu caráter complacente, o bom Hans Castorp estava predestinado a receber as confidencias de vários dos seus companheiros que se achavam possuídos de alguma idéia fixa e sofriam por não encontrar na maioria leviana dos pensionistas pessoas que os quisessem ouvir. Um antigo escultor, natural de uma província da Áustria, homem de certa idade, com um bigode branco, nariz adunco e olhos azuis, concebera um projeto político-financeiro, que caligrafara, sublinhando os trechos decisivos com pinceladas de tinta nanquim. Esse projeto tinha o seguinte objetivo: cada assinante de jornal deveria ser obrigado a entregar no primeiro dia de cada mês uma quantidade de papel de jornal velho que correspondesse a quarenta gramas por dia. Isso importaria anualmente em cerca de mil e quatrocentos gramas, e em vinte anos em nada menos de duzentos e oitenta e oito quilos, os quais, à base de um preço de vinte Pfennige por quilo, representariam um valor de cinqüenta e sete marcos e sessenta Pfennige. Cinco milhões de assinantes – assim prosseguia o memorando – entregariam, portanto, em vinte anos, a soma formidável de duzentos e oitenta e oito milhões de marcos, dois terços da qual poderiam ser deduzidos das assinaturas, ao passo que o resto, aproximadamente cem milhões de marcos, seriam aproveitados para fins humanitários, como, por exemplo, o financiamento de sanatórios populares para tísicos, subvenções para talentos, pobres, etc. O plano estava elaborado em todos os pormenores. Inclusive uma coluna que permitia ao funcionário encarregado de recolher mensalmente o papel verificar o valor do mesmo pela altura da pilha. Havia formulários perfurados para servir de recibo. Era um projeto sólido e fundado sob todos os aspectos. O gesto insensato e a destruição de papel de jornal, que gente mal-avisada ainda desperdiçava em cloacas ou fogões, constituía alta traição às nossas florestas e um golpe contra a economia nacional.

Poupar papel, economizar papel, significaria poupar e economizar celulose, florestas e o material humano usado na fabricação da celulose e do papel – material humano e capital. Acrescia a isso o fato de o papel de jornal velho adquirir facilmente o quádruplo valor pela transformação em papel de embrulho ou em papelão, de maneira que seria capaz de se converter num fator econômico de vasta importância e em fundamento de rendosos impostos estaduais ou municipais, ao passo que os leitores de jornais veriam as suas contribuições aliviadas. Numa palavra, o projeto era bom, era, em realidade, inatacável, e se no entanto tinha algo de sinistra ociosidade e mesmo de obscura tolice, era somente por causa do fanatismo excêntrico com que o ex-artista defendia e apregoava uma idéia econômica, exclusivamente esta e mais nenhuma, apesar de levá-la, evidentemente, tão pouco a sério que não fazia a menor tentativa para realizá-la... Sacudindo a cabeça obliquamente inclinada, Hans Castorp escutava as exposições do homem, cada vez que este, com palavras febrilmente exaltadas, propagava a sua idéia de salvação. Ao mesmo tempo o jovem analisava a natureza do desdém e da repulsa que o impediam de tomar o partido do inventor contra a indolência do mundo.

Alguns pensionistas do Berghof estudavam esperanto e compraziam-se em conversar à mesa nessa geringonça artificial. Hans Castorp observava-os de cenho franzido, se bem que opinasse de si para si que eles não eram os piores. Desde algum tempo encontrava-se por ali um grupo de ingleses que haviam introduzido um jogo de salão que consistia apenas no seguinte: formavam um círculo e um dos participantes dirigia ao vizinho a pergunta: “Did you ever see the devil with a night-cap on?” O assim interrogado devia responder: “No! I never saw the devil with a night-cap on”, e em seguida passar adiante a pergunta, que sem cessar percorria a roda. Era espantoso! Mas o pobre Hans Castorp assustava-se ainda mais diante dos companheiros que jogavam paciência, e que se podiam ver a qualquer hora e em todo lugar. A mania dessa distração alastrara-se nos últimos tempos a tal ponto que não é exagerado dizer que transformara o Berghof num antro de vício. Hans Castorp tinha motivos para experimentar diante disso uma sensação de horror, tanto mais que ele mesmo temporariamente fizera parte das vítimas da epidemia, sendo talvez o caso mais grave de todos. Entusiasmara-se pela paciência dos “onze”; nesse jogo, usa-se o baralho completo; dispõem-se na mesa três filas de três cartas cada uma; duas cartas vizinhas cuja soma for onze ou três figuras que se encontrarem numa fila, podem ser substituídas por outras cartas, até a paciência, bafejada pela sorte, dar certo. Parece incrível que de um procedimento tão simples possa resultar uma verdadeira fascinação. Entretanto Hans Castorp, tal e qual muitos outros, deparava com essa possibilidade; fazia-o com uma expressão carrancuda, visto o excesso jamais levar à alegria. Sentia-se dominado pelos caprichos do demônio das cartas, encantado pelos fantásticos e volúveis favores da Fortuna. Às vezes, esta, num gracioso gesto de simpatia, acumulava logo de início as parelhas de onze pontos e de grupos de valete-dama-rei, de modo

que o jogo estava ganho ainda antes do começo da terceira mão – triunfo fugaz que apenas estimulava os nervos para novas tentativas. Outras vezes, não oferecia até a nona e última carta nenhuma oportunidade para retirar parelhas ou grupos, ou ainda contrariava, numa reviravolta brusca, no último momento, o êxito que já parecera garantido. E Hans Castorp tirava paciências a toda hora, onde quer que se achasse; tirava-as tanto de noite, à luz das estrelas, como pela manhã, ainda de pijama, à mesa e mesmo durante os seus sonhos. Horrorizava-se diante dessa mania, mas continuava a fazê-lo. Sucedeu, assim, que um belo dia, por ocasião de uma visita, o Sr.

Settembrini o encontrou jogando, e logo o “importunou”, conforme a missão que lhe coubera desde o começo das suas relações.

– Accidente! – disse o humanista. – O senhor tira a sorte, engenheiro?

– Não é precisamente essa a minha intenção – respondeu Hans Castorp. – Jogo apenas paciência, estou desafiando o acaso inconstante. Suas extravagâncias me intrigam, sua obsequiosidade que se reveza com uma obstinação incrível. Esta manhã, quando me levantei, a paciência deu certo três vezes seguidas, uma vez até em duas mãos apenas, o que representa um recorde. Acredita o senhor que hoje de tarde já fiz trinta e duas tentativas, sem que nenhuma vez chegasse apenas à metade do baralho?

O Sr. Settembrini mirou-o com uma expressão triste dos olhos negros, como tantas vezes fizera no decorrer dos anos.

– Em todo caso, o senhor me parece atarefado – disse. – Não tenho a impressão de que encontrarei na sua companhia consolo para as minhas preocupações e bálsamo para aliviar o conflito interior que me atormenta.

– Conflito? – repetiu Hans Castorp, e tirou uma carta.

– A situação mundial me deixa perturbado – suspirou o maçom. – A Liga Balcânica está a ponto de se realizar. Todas as minhas informações confirmam isso. A Rússia trabalha assiduamente nesse sentido, e a ponta da combinação dirige-se contra a monarquia austro-húngara, sem a destruição da qual nenhuma parte do programa russo pode se tornar realidade. O

senhor compreende o meu dilema? Odeio Viena de todo o coração, como o senhor sabe. Mas será esse um motivo para que a minha alma dê apoio ao despotismo sármata, que está prestes a lançar a tocha incendiaria contra o nosso nobre continente? Por outro lado, uma colaboração diplomática entre o meu país e a Áustria, por mais passageira que fosse, não deixaria de me ferir como uma ofensa. Esses são os escrúpulos de consciência que...

– Sete e quatro – disse Hans Castorp. – Oito e três. Valete, dama, rei. Já vai melhor. O

senhor me traz sorte, Sr. Settembrini.

O italiano emudeceu. Hans Castorp sentiu como os olhos negros, o olhar cheio de razão e de moral, pousavam sobre a sua pessoa, profundamente entristecidos. Mesmo assim prosseguiu por algum tempo ainda tirando cartas, antes de firmar o queixo na mão, com aquela fisionomia teimosa de fingida inocência que as crianças arteiras exibem. Ergueu então o olhar para o mentor, que estava de pé à sua frente.

– Seus olhos – disse este – procuram em vão dissimular que o senhor sabe muito bem aonde chegou.

– Placet experiri – foi a petulante resposta de Hans Castorp, em virtude da qual o Sr.

Settembrini o abandonou. Verdade é que o jovem deixado sozinho permaneceu por muito tempo diante da sua mesa, no meio do quarto branco, sem tirar cartas; com a cabeça apoiada na mão, cismava e, no seu íntimo, sentia-se tomado de horror em face do estado macabro e inseguro em que se lhe apresentava tudo; espantava-o a careta cinicamente risonha do demônio, do deus-macaco, sob cujo domínio insensato e desenfreado se achava o mundo, e que se chamava o

“Grande Tédio”.

Um nome mau, apocalíptico, próprio para inspirar uma secreta angústia. Hans Castorp, continuando sentado, esfregou com as mãos a fronte e a zona do coração. Tinha medo. Parecia-lhe que “tudo aquilo” não podia acabar bem, que uma catástrofe devia ser o seu fim lógico, uma revolta da natureza paciente, um temporal, um tufão que varresse o mundo, desfazendo o feitiço

que o paralisava, arrancando a vida do “ponto morto” e dando cabo da “época das vacas magras”

num terrível dia do juízo. Não lhe faltava, como já dissemos, vontade de fugir. Ainda bem que as autoridades “velavam sem cessar”, sabiam interpretar a sua fisionomia e se esforçavam por diverti-lo mediante novas e fecundas hipóteses!

No linguajar característico dos acadêmicos universitários, as autoridades haviam declarado que se achavam na pista das verdadeiras causas da temperatura irregular de Hans Castorp, causas que, segundo a sua afirmação científica, seria tão fácil remediar que a cura, a alta efetiva e o regresso à planície pareciam de súbito iminentes. O coração do jovem batia mais depressa, assaltado pelas mais diversas emoções, enquanto estendia o braço para a sangria. Levemente pálido, com os olhos piscos, admirava a maravilhosa cor de rubi da sua seiva vital, que, subindo aos poucos, enchia o receptáculo transparente. O conselheiro em pessoa, assistido pelo Dr.

Krokowski e por uma enfermeira, efetuou a pequena operação cujas conseqüências podiam ser grandes. Depois se escoou uma série de dias que Hans Castorp passou curioso por saber que papel faria o sangue dado, fora de seu corpo, perante os olhos da ciência.

No começo, o conselheiro dizia que o tempo não era suficiente para que alguma coisa pudesse germinar. Depois, dizia que infelizmente não germinara ainda nada. Mas chegou a manhã em que, na hora do café, se aproximou da mesa de Hans Castorp, o qual a essa época tinha o seu lugar entre os “russos distintos”, na extremidade superior, lá onde outrora seu grande amigo costumara sentar-se. Entre felicitações temperadas de floreios, o médico lhe comunicou que numa das culturas por ele preparadas tinha sido descoberta, de modo inegável, a presença de estreptococos. Era um problema de cálculo de probabilidades saber se os fenômenos de intoxicação tinham a sua origem na tuberculosezinha que em todo caso ainda persistia, ou nos

“estreptos”, cuja proporção também não era mais que modesta. Era preciso examinar o material mais detida e mais cuidadosamente. A cultura ainda não estava completamente desenvolvida. No laboratório, mostrou-a a Hans Castorp. Era uma geléia vermelha, de sangue, no meio da qual se distinguiam uns pontinhos cinzentos. Aquilo eram os cocos. (Qualquer burro tinha cocos, da mesma forma que tubérculos, e não houvesse os sintomas, a descoberta não teria muito valor.) Fora do corpo de Hans Castorp, e sob os olhos da ciência, o sangue coagulado do seu coração continuava a desempenhar o seu papel. E raiou a manhã em que o conselheiro, servindo-se de palavras emocionadas, cheias de locuções pitorescas, o informou do seguinte: não somente numa única cultura, mas também em todas as demais, acabavam de desenvolver-se cocos, e em grandes quantidades. Era difícil dizer se todos eles eram estreptococos, mas parecia agora sumamente provável que os fenômenos de intoxicação fossem causados por eles, posto que não se pudesse dizer até que ponto contribuía para esses fenômenos a tuberculose que indiscutivelmente existira e ainda não se dera por totalmente vencida. Que conclusão se devia tirar de tudo isso? Um tratamento de estreptovacina! O prognóstico? Extraordinariamente favorável, e além disso não haveria o menor risco em fazer uma tentativa que de forma alguma prejudicaria o paciente. Uma vez que o soro seria tirado do próprio sangue de Hans Castorp, a injeção não introduziria no corpo nenhum elemento de enfermidade que já não se encontrasse nele. Na pior das hipóteses seria inútil, sem nenhum efeito. Mas era essa hipótese realmente tão má assim, dado o fato de que Hans Castorp de qualquer jeito teria de ficar ali?

Hans Castorp não queria ir tão longe a ponto de afirmar o contrário. Submeteu-se ao tratamento, embora o achasse ridículo e desonroso. Essas vacinas com a sua própria substância afiguravam-se-lhe como uma diversão terrivelmente desagradável, um horroroso incesto do eu com o eu, de natureza estéril e desprovida de esperança. Assim o fazia julgar a sua ignorância hipocondríaca, que tinha razão somente no que se referia à esterilidade do processo, a qual se manifestou completa. A diversão prolongou-se através de várias semanas. Às vezes parecia prejudicá-lo, o que não podia ser outra coisa que um engano; outras dava a impressão de lhe trazer proveito, o que também se revelou ilusório. O resultado foi zero, sem que isso fosse proclamado expressamente. A experiência morreu um belo dia de morte natural, e Hans Castorp

continuou a jogar paciência, cara a cara com o demônio, cujo reinado descomedido estava – o jovem sentia-o claramente – fadado a um fim horroroso.

Abundância de harmonia

Qual foi a nova aquisição do Sanatório Berghof que salvou o nosso velho amigo da mania das cartas, para lançá-lo nos braços de uma paixão diferente, mais nobre, embora na verdade não menos estranha? A ponto de falar dessa inovação, nós mesmos sentimos o misterioso encanto que o assunto irradia, e que nos inspira o sincero desejo de comunicar os fatos ao leitor.

Tratava-se de um acréscimo feito ao número de aparelhos de diversão que se achavam no maior dos salões da casa. A compra, cuja idéia era fruto dos incessantes cuidados da gerência, tinha sido resolvida no seio do grêmio administrativo do sanatório e exigira despesas que não queremos computar, mas devemos qualificar de generosas por parte da direção desse estabelecimento, que merece a nossa irrestrita recomendação. Seria um brinquedo engenhoso do tipo da caixa estereoscópica, do caleidoscópio em forma de luneta e do tambor cinematográfico?

Sim e, sob certos aspectos, também não. Pois, em primeiro lugar não era óptico mas acústico aquele instrumento com que os pensionistas certa noite depararam no salão de música e que os fez bater as mãos em sinal de aplauso e de surpresa. Além disso, as referidas atrações levianas absolutamente não podiam ser comparadas a ele quanto à classe, ao nível e ao valor. Isso não era um espetáculo infantil, monótono, do qual todos estavam fartos e que ninguém olhava depois de mais de três semanas de permanência no sanatório. Era uma opulenta cornucópia de prazeres artísticos que alegravam ou entristeciam a alma. Era um instrumento de música. Era um fonógrafo.

Receamos seriamente que essa palavra possa ser interpretada num sentido indigno e obsoleto, e associada a idéias que talvez correspondam aos primitivos precursores daquilo que temos em mente, não, porém, à realidade, essa realidade que a técnica consagrada ao serviço das musas desenvolvera, num infatigável esforço burilador, até a mais elevada perfeição. Não, meus amigos! Não falamos de um daqueles míseros caixotes a manivela que em tempos remotos enchiam os ouvidos pouco exigentes do público de restaurantes com seus berros fanhosos, esses caixotes coroados pelo prato giratório e pelo braço da agulha, e que pareciam apêndices de um monstruoso funil de trombeta. A arca preta, de madeira mate, um pouco mais comprida do que larga, que ali, em cima de uma estantezinha, exibia as suas linhas simples e nobres, e que um fio revestido de seda ligava a uma tomada elétrica embutida na parede, absolutamente não se parecia com aquelas máquinas toscas, antediluvianas. Abria-se a tampa graciosamente chanfrada, guarnecida no seu interior de um suporte metálico dobradiço que, ao levantar-se do fundo do aparelho, fixava-a automaticamente numa posição oblíqua, protetora; e numa concavidade pouco profunda via-se o prato giratório, forrado de pano verde, cingido de um aro niquelado, com o pino central igualmente de níquel, que se enfiaria no furo dos discos de ebonite. Notava-se, além disso, bem na frente, ao lado direito, um dispositivo cifrado à maneira de relógio, e que servia para regular a velocidade. À esquerda, havia uma alavanca, mediante a qual se podia pôr em marcha ou travar o mecanismo, e mais para trás, ao mesmo lado, o braço oco, niquelado, sinuoso e claviforme, que se movia em articulações macias e tinha na sua extremidade o diafragma redondo, achatado, com o torninho destinado a segurar a agulha. Abriam-se também os batentes da porta da frente. Atrás dela descobria-se uma espécie de gelosia, formada por fasquias enviesadas de madeira preta – e nada mais.

– É o modelo mais recente – disse o conselheiro, que acabava de entrar. – A última conquista da técnica. Pois é, meus filhos, de primeiríssima qualidade! Ultrafino! Não há coisa melhor nesse gênero. – Procurou arremedar de maneira cômica a linguagem de um vendedor ignorante que apregoa a sua mercadoria. – Isto não é aparelho, não é máquina – continuou, enquanto tirava uma agulha de uma caixinha colorida, de lata, que se achava na mesa, e a fixava no diafragma –, isso aí é um instrumento, é um Stradivarius, um Guarneri, com ressonâncias e

vibrações do mais extremo refinamento! A marca é Polyhymnia, segundo nos informa esta inscrição no interior da tampa. Fabricada na Alemanha. Nesse ramo ninguém nos ganha, sabem?

O sentimentalismo musical em forma moderna, mecanizada! A alma alemã up to date! E aí está a discoteca – acrescentou, designando um pequeno armário com fileiras de álbuns volumosos. –

Entrego todo esse tesouro ao uso e prazer irrestrito dos senhores e das senhoras, mas pede-se ao público que zele por ele. Que tal se ouvíssemos uma peça, a título de experiência?

Os enfermos imploraram-lhe que o fizesse. E Behrens apanhou um daqueles livros mágicos, de valioso conteúdo, virou as páginas pesadas e de uma das bolsas de cartolina, cujos buracos circulares deixavam ver os rótulos multicores, tirou um disco que colocou no aparelho.

Com uma única manobra acionou o prato giratório, esperou alguns segundos, até o movimento alcançar a velocidade desejada, e aplicou a delicada ponta da agulha de aço cautelosamente à beira do disco. Ouviu-se um leve chiado. O médico desceu a tampa, e no mesmo instante irrompeu pelos batentes abertos da porta, por entre as fasquias da gelosia, um turbilhão orquestral, uma melodia alegre, barulhenta, apressada, os primeiros compassos saltitantes de uma abertura de Offenbach.

Todos escutavam, sorrindo, boquiabertos. Não podiam dar crédito a seus ouvidos, tão puros e tão naturais saíam os trinados dos sopros de madeira. Um violino, sozinho, preludiava fantasiando. Ouviam-se o toque do arco, o tremolo da mão esquerda, a suave transição de uma posição a outra. O violino encontrou a melodia que procurara, uma valsa, Ai de mim, perdi a amada.

Graciosamente, a orquestra acompanhava a ária insinuante, e era delicioso quando esta, honrosamente acolhida pelo conjunto dos músicos, se repetia sob o estrondo dos tutti. Não era, naturalmente, a mesma coisa como se uma verdadeira orquestra tocasse no salão. O som não sofria a menor desfiguração, mas o seu volume estava diminuído pela perspectiva; se nos é permitido empregar diante desse fenômeno acústico uma comparação tirada do terreno da óptica: era como se olhássemos um quadro por um binóculo às avessas, de modo que aparecesse distante e reduzido, sem detrimento da nitidez do desenho e da luminosidade das cores. A peça musical, engenhosa e picante, ia sendo reproduzida com todo o brilho inerente a essa composição frívola. O final era a leveza pura e simples, um galope comicamente hesitante no começo, um lascivo cancã, evocando a visão de cartolas brandidas no ar, de joelhos sacudidos e de saias farfalhantes, e cujo desenlace humorístico-triunfal parecia não ter fim. A seguir, o mecanismo desligou-se automaticamente. Terminara tudo. Houve sinceros aplausos.

Reclamaram mais música e receberam-na. Uma voz humana brotou da arca, voz máscula, ao mesmo tempo macia e poderosa, acompanhada por uma orquestra. Era um barítono italiano de grande fama. Desta vez já não se podia falar de distância e de véus abafadores. A magnífica voz ressoava na plenitude natural do seu volume e vigor. Quem passasse para uma das salas vizinhas, cujas portas estavam abertas, e não visse o aparelho, poderia pensar que o cantor em carne e osso estivesse presente, e cantasse com as músicas na mão. Cantava na sua língua materna, uma ária di bravura: “Sono un barbieri, di qualità, di qualità! Figaro qua, Figaro la, Figaro, Figaro, Figaro!” Os ouvintes quase morriam de riso, ao escutar o parlando em voz de falsete e ao notar o contraste entre a voz potente e a vertiginosa desenvoltura da língua. As pessoas mais competentes talvez fossem capazes de observar e de apreciar a arte do fraseado e da técnica respiratória. Mestre na apresentação irresistível, virtuose do gosto latino que exige o “da capo”, o cantor sustentou por muito tempo a penúltima nota, antes da tônica final. Parecia aproximar-se da ribalta e erguer uma das mãos, a ponto de o público bater palmas ainda antes do fim da ária.

Era esplêndido.

E isso não era tudo. Uma trompa de caça executou com escrupulosa delicadeza variações sobre uma canção popular. Um soprano fez vibrar as clarinadas, os staccati e os gorjeios de uma ária de La traviata com a mais encantadora frescura e precisão. O fantasma de um violinista de celebridade mundial tocou, como se se achasse por trás de alguns véus, uma romança de Rubinstein, com acompanhamento de um piano que soava tão duro como um cravo. A arca milagrosa fervia aos poucos, mas ainda saíam dela badaladas de sinos, glissandi de harpas,

clangores de trombetas e rufos de tambores. Finalmente tocaram discos de dança. Já havia até algumas amostras da importação mais recente, ao gosto das tavernas de portos exóticos: o tango, destinado a relegar a valsa vienense ao baile dos avós. Dois pares que sabiam executar os passos da moda exibiram-se sobre o tapete. Behrens acabava de retirar-se, depois de recomendar-lhes que não usassem uma agulha mais de uma vez e que tratassem os discos como se fossem ovos frescos. Hans Castorp encarregou-se do aparelho.

Por que justamente ele? Isso se dera com a maior naturalidade. Falando laconicamente, em voz abafada, opusera-se àqueles que, depois da saída do conselheiro, queriam tomar a si a incumbência de mudar os discos ou as agulhas e de acionar ou desligar o motor elétrico. –

Deixem isto comigo! – dissera, afastando-os do aparelho, e eles, indiferentes, lhe haviam obedecido; primeiro, porque ele dava a impressão de ser entendido no assunto desde havia muito tempo, e segundo, porque não faziam questão de trabalhar na fonte do prazer, ao invés de se deixar servir comodamente e sem responsabilidade, até o momento em que isso lhes causasse tédio.

Hans Castorp era diferente. Enquanto o conselheiro apresentava a nova aquisição, o jovem mantivera-se silenciosamente no fundo da sala; não se ria, não batera palmas, mas prestara intensa atenção às peças oferecidas, torcendo uma sobrancelha entre dois dedos, como às vezes tinha por hábito. Tomado de certa inquietação, de quando em quando mudara de lugar, sem que o público o notasse. Entrara na biblioteca, a fim de escutar ali. Mais tarde plantara-se ao lado de Behrens, com as mãos nas costas e com a cara fechada. Examinara a arca, para lhe aprender o fácil manejo. Uma voz dizia nele: “Alto! Alerta! Começa uma época! Isso veio para mim!” Estava cheio do infalível pressentimento de mais uma paixão, de outro encantamento, do peso de um novo amor. Um jovem da planície, que ao primeiro olhar lançado a uma garota sente-se ferido pela flecha farpada do amor, não experimenta sensações diferentes. Os atos subseqüentes de Hans Castorp foram determinados pelo ciúme. Propriedade comum? Qual nada, a curiosidade indolente não tem nem o direito nem a força necessária para possuir! “Deixem isto comigo!”, disse Hans Castorp entre dentes, e eles pareciam muito satisfeitos. Dançaram mais um pouco ao som das músicas fúteis que ele lhes oferecia. Pediram ainda um disco de canto, um dueto de ópera, a barcarola dos Contos de Hoffmann, cuja graça lhes enfeitiçava os ouvidos, e quando Hans Castorp chaveou a tampa, recolheram-se ao repouso, tagarelando, superficialmente animados pelo novo brinquedo. Era precisamente isto o que o jovem esperava. Haviam abandonado tudo na mais completa desordem, as caixinhas de agulhas e os álbuns abertos, os discos espalhados por toda parte. Era típico! Hans Castorp fez como se os seguisse, mas, clandestinamente, separou-se deles na escada. Voltou ao salão, cerrou todas as portas e permaneceu ali durante grande parte da noite, intensamente atarefado.

Ia se familiarizando com a inovação. Sem que ninguém o incomodasse, examinava os tesouros musicais que acompanhavam o aparelho, o conteúdo de todos os pesados álbuns. Havia doze, de dois tamanhos diferentes, e cada qual continha doze discos. Muitas dessas chapas pretas, com os angustos sulcos circulares, eram gravadas dos dois lados. Certas peças estendiam-se por sobre o disco inteiro, e não eram raros os casos em que o mesmo disco continha duas obras diferentes. Assim parecia, no início, difícil e mesmo perturbadora a tarefa de obter uma visão de conjunto desse terreno cheio de belas possibilidades, que lhe cabia conquistar. Hans Castorp experimentou aproximadamente uns vinte e cinco discos, servindo-se de certo tipo de agulhas finas que tocavam em surdina, para não molestar ninguém e para não ser ouvido através da noite.

Mas isso representava apenas a oitava parte de tudo quanto se lhe oferecia e clamava por ser experimentado. Por enquanto, Hans Castorp se contentou com uma rápida leitura dos títulos, e só de vez em quando escolhia a esmo uma amostra das silenciosas gravações circulares, para incorporá-la na arca que a faria soar. Era só pelo colorido que lhes cobria a parte central, e por nada mais, que esses discos de ebonite se distinguiam à primeira vista. Um era igual ao outro.

Todos estavam cobertos até quase o centro por um sem-número de círculos concêntricos, e no

entanto esse lineamento delicado continha tudo o que se pudesse imaginar de música, os mais felizes achados de todas as regiões da alma, em esmerada interpretação.

Existiam ali numerosas aberturas e movimentos avulsos, pertencentes ao mundo sublime da sinfonia, tocados por orquestras famosas, cujos regentes eram designados pelo nome. Seguia-se uma série de Lieder cantados por membros de grandes óperas, com acompanhamento de piano; tratava-se em parte de obras elevadas, produtos do esforço consciente de artistas individuais, em parte de singelas cantigas do povo, e ainda de outras peças que, por assim dizer, constituíam um meio-termo entre ambos os gêneros: embora frutos de uma arte intelectual, representavam, quanto à inspiração e à forma, a alma e o gênio do povo no que possuía de mais puro e mais piedoso; eram canções populares artificiais, se é possível usar o epíteto “artificial”

sem lhes diminuir o caráter genuíno da invenção. Referindo-nos sobretudo a uma canção que Hans Castorp conhecia desde criança, mas pela qual só agora começava a sentir um amor misterioso, rico em associações, canção essa de que falaremos noutra parte... Que mais havia, ou, para tornar a resposta mais fácil: que faltava, afinal? Havia abundância do gênero lírico. Um coro internacional de festejados cantores e cantoras, acompanhados por orquestras discretamente refreadas, empregava o dom divino das suas vozes afeitas ao bel canto, na interpretação de árias, duetos, ensembles, provenientes das mais diversas regiões e épocas do repertório operístico: a beleza meridional, com o seu arrebatamento ao mesmo tempo generoso e frívolo; o mundo dos povos germânicos, mescla de espírito brincalhão e demoníaco; a grande ópera e a ópera cômica, de origem francesa. Era tudo? Ah, não! Vinha ainda o grupo de músicas de câmara, os quartetos e os trios, os solos instrumentais de violinos, violoncelos e flautas, os cantos de concerto, com acompanhamento obligato de violino ou flauta, as peças puramente pianísticas, para não falar das diversões leves, como os couplets e os discos de serventia concreta, gravados por orquestras de dança, e que requeriam uma agulha grossa.

Hans Castorp examinava e classificava tudo isso. Manobrando em completa solidão, entregou parte do tesouro ao instrumento que o despertava para uma vida sonora. Com a cabeça ardendo, recolheu-se ao quarto numa hora tão avançada como aquela em que terminara o primeiro festim organizado pela saudosa personalidade do majestoso e fraternal Peeperkorn. Das duas da madrugada até as sete da manhã, sonhou com a arca mágica. No seu sonho via o prato giratório dar voltas em torno do pino, tão depressa que não se podia distinguir nenhum pormenor, e todavia sem o mínimo ruído, num movimento que consistia não somente no turbilhonante fluxo circular, mas também numa estranha ondulação lateral, de maneira que ao braço articulado, portador da agulha, que passava por cima, era imprimida uma oscilação elástica, muito proveitosa, segundo tudo fazia crer, ao vibrato e ao portamento dos instrumentos de corda e das vozes humanas. Mas, tanto em sonho como em estado de vigília, continuava incompreensível por que o simples ato de acompanhar uma linha fina como um cabelo, por cima de uma caixa de ressonância, e com o único auxílio da membrana do diafragma, era capaz de reproduzir a vasta complexidade das composições que enchiam os ouvidos interiores do adormecido.

De manhã cedo, ainda antes do café, voltou ao salão e, com as mãos postas, sentado numa poltrona, fez sair da arca a voz maravilhosa de um barítono que cantava, com acompanhamento de harpa, a ária de Wolfram von Eschenbach, da ópera Tannhäuser. A harpa tinha um som perfeitamente natural; eram arpejos autênticos, não adulterados, que partiam da arca, junto com a voz humana, ampla, suave, bem-articulada. Era pasmoso. E nada podia haver de mais terno no mundo do que um dueto de uma ópera italiana de um compositor moderno, que Hans Castorp tocou a seguir – essa aproximação sentimental, cheia de humildade e ternura, que se produz entre uma voz de tenor mundialmente famosa, que muitas vezes figurava nos álbuns, e um sopranozinho meigo, cristalino; era impossível imaginar coisa mais delicada do que esse “Dami il braccio, mia piccina...”, cantado pelo homem, e aquela pequena frase simples, doce, de melodia pressurosa com que ela lhe respondia...

Continuar: parte 2 de 3