A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 9 de 13 · parte 1/3

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A Montanha Mágica

Por enquanto, o jovem devia conformar-se com…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Por enquanto, o jovem devia conformar-se com isso, além do quê, tinha plena liberdade de encostar o ombro esquerdo, para variar, de apoiar-se na perna direita e de sacudir a outra para revigorá-la. “Com um tempo destes”, disse de si para si, “a gente não deve sair de casa. Um pouco de variação pode ser admissível, mas não a mania de inovações nem o desafio da Dona Borrasca. Fica quietinho e deixa pender a tua cabeça, uma vez que está muito pesada. A parede é boa. As tábuas são de madeira. Parece mesmo que se desprende delas um certo calor, se é que aqui se pode falar de calor. Um discreto calor natural da madeira, ou talvez apenas um produto da imaginação, coisa subjetiva... Vejam só todas essas árvores! Ah, esse clima vivo dos homens vivos! Que perfume!...”

Um parque estendia-se a seus pés, sob a sacada onde ele se encontrava; um vasto parque de luxuriante verdor, formado de árvores frondosas – olmos, plátanos, faias, bordos, bétulas –

levemente matizadas quanto ao colorido da folhagem abundante, fresca, lustrosa, com as copas agitando-se num suave sussurro. Um ar delicioso, úmido, embalsamado pelas árvores, envolvia a região. Um aguaceiro quente vinha se abatendo, mas a chuva parecia iluminada. Até as alturas do céu via-se a atmosfera resplandecer de gotinhas cintilantes. Que beleza! Ah, esse sopro do torrão natal, o aroma e a plenitude da planície, depois de tão prolongada privação! O ar ressoava com vozes de aves, pios, silvos, gorjeios, chilidos e soluços, cheios de fervor, de graça e de doçura, sem que se enxergasse um único passarinho. Hans Castorp sorriu, respirando gratamente. E o quadro tornava-se ainda mais belo. Um arco-íris curvava-se sobre um lado da paisagem, um arco completo e nítido, puro na sua magnificência, com o brilho úmido de todas as suas cores, que, untuosas como óleo, inundavam o verde espesso e reluzente. Mas isso parecia música, era como o som intenso de harpas, mesclado de flautas e violinos! O azul e o violeta, sobretudo, espalhavam-se maravilhosamente. Tudo se confundia com eles, como por um feitiço, transformando-se, evoluindo de modo sempre e cada vez mais belo. Lembrava aquele dia, anos atrás, quando Hans Castorp tivera ensejo de ouvir um cantor de fama mundial, um tenor italiano, de cuja garganta partiam sons de uma arte benéfica e de uma força abençoada, inundando os corações dos homens. Sustentara esse homem uma nota aguda, linda desde o começo; aos poucos, porém, de momento a momento, a harmonia apaixonada descortinara-se, ampliara-se, tomando volume, iluminara-se com um esplendor mais e mais deslumbrante. Um a um, os véus que antes ninguém percebera se haviam desfeito; caíra mais um, o último, revelando, segundo o pensamento de todos, a luz suprema, a luz mais pura, mas seguira-se outro e ainda outro –

incrível! –, o derradeiro, desencadeando tamanha exuberância de fulgor e de perfeição banhada em lágrimas, que um rumor surdo de arrebatamento, soando quase como um protesto ou uma objeção, elevava-se do seio da multidão. Ele próprio, o jovem Hans Castorp, fora tomado de soluços. E o mesmo lhe acontecia agora, em face dessa paisagem que se metamorfoseava, se desdobrava em progressiva transfiguração. O azul a pairar em toda parte... Os véus luzentes da chuva iam caindo. Eis que surgiu o mar, um mar, o mar do sul, de um azul profundo e saturado, refulgindo de luzes argentinas, com uma belíssima enseada a abrir-se vaporosa, para um lado, enquanto o outro estava engastado em montanhas de azul cada vez mais pálido. No meio da baía emergiam ilhas, onde cresciam palmeiras e resplandeciam casinhas brancas por entre bosques de ciprestes. Oh, oh! Eram demais. Ele não merecia tudo isso. Que bem-aventurança de luz, de absoluta pureza do céu, de frescor de águas ensolaradas! Hans Castorp jamais vira aquilo, nem coisa semelhante. Nas suas viagens de férias mal passara pelas regiões do sul. Conhecia o mar áspero, o mar cinzento, ao qual se apegava com sentimentos vagos e pueris. Mas nunca chegara a ver o Mediterrâneo, Nápoles, a Sicília ou a Grécia. E todavia recordava-se. Sim, por estranho que pareça, o que Hans Castorp fazia nesse momento era reconhecer. “Ah, sim! É isso!”, exclamou nele uma voz, como se tivesse levado no seu coração, desde tempos imemoriais, às escondidas e sem confessá-lo a si próprio, toda essa alegria azul, irradiada pelo sol. E esses “tempos imemoriais” eram vastos, infinitamente vastos, tal e qual o mar que se abria à sua esquerda, ali onde o céu, num tom delicado de violeta, descia até as águas.

O horizonte era alto; o espaço dava a idéia de elevar-se, o que se devia ao fato de Hans ver o golfo de cima, de certa altura. Em forma de promontórios abraçavam-no as montanhas coroadas de selvas; entravam no mar, retrocediam em semicírculo, do centro do quadro, até o ponto onde se encontrava o jovem e mais longe ainda. Era uma costa rochosa, em cujos degraus de pedra aquecidos pelo sol se achava acocorado. À sua frente inclinava-se a ribeira pedregosa, escadeada, coberta de musgos e brenhas, até uma praia plana, onde o cascalho, por entre os juncos, formava angras azuladas, pequenos portos e lagoas avançadas. E essa região banhada pelo sol, essas margens de fácil acesso, essas bacias risonhas no meio de rochedos, bem como o mar até as ilhas distantes entre as quais iam e vinham embarcações – tudo estava povoado. Homens, filhos do sol e do mar, mexiam-se ou repousavam em toda parte, uma humanidade bela e jovem,

sensata e jovial, tão agradável de se ver que o coração de Hans Castorp se dilatava todo num sentimento amplo, quase doloroso, de amor.

Mancebos adestravam cavalos; corriam, com a mão no cabresto, ao lado dos animais que trotavam relinchando e sacudindo a cabeça; montavam-nos sem sela e forçavam-nos a entrar na água, batendo com os calcanhares desnudos os flancos da cavalgadura, enquanto os músculos das espáduas, sob a pele trigueira, jogavam ao sol. Os gritos que trocavam entre si ou dirigiam às montarias tinham qualquer coisa de mágico. À margem de uma enseada que penetrava profundamente na terra firme, e cujas ribanceiras se espelhavam como num lago alpino, havia moças dançando. Uma delas, cujos cabelos atados na nuca tinham um encanto singular, estava sentada, com os pés enterrados numa concavidade do solo, e tocava uma flauta pastoril. Por cima dos dedos ágeis, seu olhar vagava em direção às companheiras, que, nos seus largos e flutuantes vestidos, executavam os passos da dança, ora isoladas, sorridentes, com os braços abertos, ora aos pares, com as fontes graciosamente coladas umas nas outras. Atrás das costas da flautista, costas alvas, longas, delgadas, que a posição dos braços tornava redondas, viam-se outras irmãs, sentadas ou em pé, de mãos dadas, conversando calmamente e contemplando a cena. A maior distância, alguns jovens exercitavam-se no tiro de arco. Que aprazível e ameno quadro! Os mais velhos ensinavam a uns adolescentes de cabelos encaracolados como retesar o arco e apontá-lo ao alvo; rindo, amparavam os novatos cambaleantes sob o rechaço da corda, quando a seta se desprendia dela com um sussurro. Outros pescavam com anzol. Achavam-se de bruços nas lajes dos penedos da costa, com uma das pernas balouçando no ar, enquanto mergulhavam a linha na água. Palestrando calmamente voltavam a cabeça para o vizinho, que reclinava o corpo para lançar muito longe a isca. Ainda outros estavam ocupados em transportar ao mar, arrastando, empurrando, levantando, um barco de alto bordo, provido de mastro e vergas. Crianças brincavam e exultavam no meio da rebentação. Uma jovem mulher, estendida no solo, de costas, olhava para trás, enquanto com uma das mãos apertava contra os seios o vestido floreado, e com a outra, avidamente, procurava alcançar um fruto ornado de folhas, que um moço de ancas estreitas, de pé atrás dela, brincando lhe oferecia e retirava. Havia vultos recostados nos nichos dos rochedos. Outros hesitavam à beira d'água, experimentando-lhe o frescor com a ponta do pé e segurando os ombros com os braços cruzados. Alguns casais passeavam ao longo da praia, e perto da orelha da jovem encontrava-se a boca de quem a guiava carinhosamente. Cabras felpudas saltavam de rocha em rocha, guardadas por um jovem pastor que se quedava sobre uma elevação, com uma mão na cintura, apoiando a outra num comprido cajado; um chapeuzinho de abas dobradas para trás cobria-lhe os crespos cabelos castanhos.

“Mas isso é um encanto!”, pensou Hans Castorp com toda a sinceridade. “É realmente delicioso e cativante! Como são formosos, sadios, sensatos e felizes! Sim, não somente têm beleza, mas também seriedade e graça íntima. É isso o que tanto me comove e faz com que me apaixone por eles: o espírito e a mentalidade que formam a base do seu ser e lhes determinam a união e a convivência!” Referia-se àquela grande amabilidade e às considerações iguais para todos, que os filhos do sol usavam nas suas relações recíprocas. Existia ali um respeito natural, escondido sob o sorriso que uns demonstravam aos outros, a cada passo, um respeito manifestado quase imperceptivelmente, e que todavia tinha a sua raiz numa formação comum a todos, numa idéia arraigada neles. Havia até um quê de dignidade e de rigor, mas todo diluído na alegria, e que se tornava sensível nos seus atos somente em forma de certa inefável influência espiritual, fundada numa seriedade nada sombria e numa piedade razoável, embora não faltasse a tudo isso o lado cerimonioso. Pois ali, numa pedra redonda coberta de musgo, estava sentada uma jovem mãe, que retirara de um dos ombros o vestido pardo e saciava a sede do filhinho. E

todos os que passavam perto dela saudavam-na de um modo especial que resumia tudo quanto ficava tão expressivamente inexprimido na atitude geral dessas criaturas. Os jovens, voltando-se para a mãe, cruzavam ligeiramente os braços sobre o peito, num gesto rápido e formal, e inclinavam a cabeça com um sorriso. As moças apenas esboçavam uma genuflexão, semelhante àquela com que os devotos na igreja passam pelo altar-mor; mas, ao mesmo tempo, faziam-lhe

cordiais, alegres e vivos sinais com a cabeça, e essa mistura de reverência comedida e de amizade jovial, assim como a vagarosa brandura com que a mãe, que apertava o seio com o indicador, para ajudar o pequerrucho, tirava dele os olhos e retribuía os cumprimentos com outro sorriso –

tudo isso arrebatava a alma de Hans Castorp. Não se cansava de olhar e, contudo, se perguntava, angustiado, se lhe era permitido olhar, se esse ato de encarar aquela felicidade civilizada, cheia de sol, não era um crime para ele, o intruso, que se sentia lerdo com os seus sapatos, e falta de nobreza e garbo.

Parecia não haver inconveniente. Um belo menino, cuja espessa cabeleira penteada para um lado avançava além da testa e caía sobre a fronte, achava-se embaixo do lugar onde Hans Castorp estava sentado. Com os braços cruzados sobre o peito, mantinha-se distante dos companheiros, sem dar mostras de tristeza ou de rancor, senão apenas de perfeita calma. E o rapaz divisou Hans Castorp; fixou nele o olhar, e seus olhos passaram entre o homem que estava à espreita e as imagens da praia, observando o espião. De repente, porém, levantou a vista, enxergando ao longe, por cima do estranho, e de um instante para outro desapareceu do lindo rosto de linhas clássicas, ainda meio pueris, o sorriso comum a toda essa gente que tinha a sua origem numa consideração cortês e fraternal. Sem que o cenho se tivesse anuviado, assomou-lhe no semblante uma gravidade como que pétrea, inexpressiva, insondável, um retraimento frio como a morte, que encheu o desassossegado Hans Castorp de pálido terror, mesclado de um vago pressentimento da significação dessa atitude.

Também ele virou a cabeça... Poderosas colunas sem base, compostas de blocos cilíndricos e de cujas junturas brotava musgo, erguiam-se atrás dele; as colunas de um pórtico de templo, até o qual conduziam duas escadarias, com um vão entre si. Hans Castorp encontrava-se sentado num dos degraus. Com o coração opresso, levantou-se, desceu a escada, dirigindo-se para o lado, e entrou numa extensa galeria. Atravessou-a e seguiu um caminho lajeado que o conduziu até outros propileus. Passou também por estes e defronte de si viu o templo maciço, cinzento-esverdeado, corroído pela inclemência do tempo. Escadas íngremes levavam às fundações. O largo frontão repousava sobre os capitéis de vigorosas e quase atarracadas colunas, que se adelgaçavam pata cima, e em cuja estrutura um ou outro dos tambores canelados, que se deslocara, formava uma saliência lateral. Laboriosamente, às vezes recorrendo ao apoio das mãos, por entre suspiros que lhe arrancava a crescente angústia do coração, Hans Castorp galgou os altos degraus e alcançou a floresta das colunas do peristilo. Esta era muito profunda, e o jovem passeou por ela como por entre os troncos de um bosque de faias à beira do mar descorado.

Evitou penetrar-lhe no âmago e esquivou-se do centro. Mas terminou voltando-se para ele e chegou ao lugar onde se separavam as fileiras de colunas. Ali deparou com um grupo de estátuas, duas figuras de mulheres talhadas em pedra, sobre um pedestal, mãe e filha, segundo parecia; uma, sentada, mais idosa, mais digna, muito branda e divina, mas com sobrancelhas lamentosas acima dos olhos vazios, sem pupilas, trajava uma túnica flutuante, um manto pregueado e um véu que lhe cobria os cabelos ondulados de matrona; a outra, de pé, abraçada maternalmente pela primeira, com um rosto redondo de donzela, ocultava braços e mãos juntos nas dobras do vestido.

Enquanto Hans Castorp contemplava o grupo, o seu coração, por motivos obscuros, fazia-se ainda mais pesado, mais temeroso e mais opresso de presságios. Mal se animava e, contudo, se via forçado a contornar as figuras para franquear, atrás delas, a segunda colunata dupla. Aí encontrou aberta a porta brônzea do santuário, e os joelhos do pobre jovem quase cederam diante do espetáculo que se lhe oferecia aos olhos estarrecidos. Duas mulheres grisalhas, seminuas, de cabelos desgrenhados, com seios pendentes de bruxa e mamilos do comprimento de um dedo, entregavam-se lá dentro, no meio de chamejantes braseiros, a manipulações horrorosas. Por cima de uma bacia esquartejavam uma criancinha. Dilaceravam-na com as mãos, num furioso silêncio – Hans Castorp divisou os finos cabelos louros poluídos de sangue –, e devoravam os pedaços. Os frágeis ossinhos estalavam entre as suas presas, e o sangue pingava dos lábios selvagens. Um pavor gélido paralisou Hans Castorp. Fez menção de tapar os olhos

com as mãos e não conseguiu. Quis fugir e não pôde. E elas acabavam de descobri-lo, no meio da sua atividade abominável. Agitaram os punhos ensangüentados, ralhando sem voz, mas com extrema vulgaridade, em termos obscenos, na gíria da terra de Hans Castorp. Este se sentiu mal, pior do que nunca. Desesperadamente esforçou-se por sair do lugar – e na mesma posição em que, durante essa tentativa, caíra de lado junto a uma coluna, encontrou-se na neve, ao pé do galpão, deitado sobre um braço, com a cabeça encostada e as pernas providas de esquis estendidas à sua frente. Ainda lhe ecoavam nos ouvidos aquelas vozes surdas, proferindo invectivas medonhas, e o terror glacial que se apoderara dele continuava a possuí-lo.

No entanto, não chegou a acordar, no sentido próprio da palavra. Apenas piscou os olhos, aliviado por se ver livre dessas megeras atrozes. Mas não tinha certeza e também pouco lhe importava saber se se achava estatelado junto a uma coluna de templo ou a um galpão. Em certo sentido prosseguia sonhando, se não em imagens, ao menos em pensamentos, porém de forma não menos atrevida e curiosa.

“Logo vi que isso era um sonho!”, devaneou de si para si. “Um sonho encantador e pavoroso. No fundo o percebia desde o começo. Tudo foi concepção minha, o parque de árvores frondosas e a chuva deliciosa e todo o resto, as imagens lindas e as monstruosas. Quase o sabia de antemão. Mas como é possível saber uma coisa dessas e concebê-la para si mesmo, tornando-se a um tempo feliz e perplexo? Donde tirei aquele belo golfo semeado de ilhas e depois o recinto do templo, ao qual me guiaram os olhares do simpático rapaz que se mantinha isolado? Sou tentado a dizer que não extraímos os sonhos unicamente da nossa própria alma. Sonhamos anônima e coletivamente, embora de forma individual. A grande alma, da qual tu não és mais do que uma partícula, talvez sonhe às vezes através de ti, à tua maneira. Sonha com coisas que sempre lhe enchem os sonhos secretos: sua juventude, sua esperança, sua felicidade e sua paz, e também a sua ceia sangrenta. Aqui me acho ao pé da minha coluna e ainda sinto em mim os vestígios reais do meu sonho, o horror frio que experimentei ante a ceia sangrenta, e também a alegria íntima originada pelas cenas anteriores, quando vi a felicidade e os costumes piedosos da humanidade branca. Cabe-me – afirmo eu –, tenho o genuíno direito de me deitar aqui e de me entregar a esse tipo de sonhos. Fiquei sabendo muita coisa no convívio com a gente daqui, sobre a deserção e a razão. Perdi-me com Naphta e Settembrini numa montanha perigosíssima. Sei tudo a respeito do homem; conheci a sua carne; devolvi o lápis de Pribislav Hippe à enferma Clávdia. Mas quem conhece o corpo e a vida conhece a morte. Isso, entretanto, não é tudo, mas apenas o começo, pedagogicamente falando. É preciso acrescentar a outra metade, o oposto. Pois todo o interesse pela morte e pela doença não passa de uma forma de exprimir aquele que se tem pela vida, como demonstra a humanística Faculdade de Medicina, que sempre se dirige à vida e à sua enfermidade num latim muito cortês e não é senão um matiz desse grande e urgentíssimo assunto cujo nome pronuncio com a maior simpatia: é o filho enfermiço da vida, é o homem, com seu estado e sua posição. Não o desconheço; aprendi muito aqui em cima; desde a planície deixei-me arrastar a tamanhas alturas que quase perdi o fôlego. Mas agora, do pé da minha coluna, abre-se uma vista nada má... Sonhei com a posição do homem e sua comunidade polida, sisuda e respeitosa, a cujas costas se passava, no interior do templo, a medonha ceia sangrenta.

Será que os filhos do Sol se tratavam uns aos outros com tanta cortesia e amabilidade, precisamente na recordação silenciosa daquela atrocidade? Nesse caso tirariam uma conclusão muito sutil e elegante. Quero, com toda a minha alma, aderir a eles e não a Naphta, nem tampouco a Settembrini. Ambos são charlatães. Um é devasso e malicioso, ao passo que o outro não deixa de tocar a corneta da razão e imagina ser capaz de desenlouquecer os próprios doidos, o que me parece absurdo. É o espírito filisteu, é mera ética, é irreligiosidade, disso tenho certeza.

Mas também não desejo tomar o partido do pequeno Naphta, com a sua religião que é apenas um guazzabuglio de Deus e do Diabo, do bem e do mal, que só serve para fazer o indivíduo atirar-se de cabeça, a fim de mergulhar misticamente no todo. Esses dois pedagogos! Suas próprias divergências e oposições não passam de um guazzabuglio e de um confuso fragor de batalha, que não pode aturdir a quem tiver o cérebro mais ou menos livre e o coração piedoso. A questão da aristocracia! A distinção! Vida ou morte, enfermidade ou saúde, alma e natureza – há oposição entre elas? Eu pergunto se constituem problema. Não! Não são problemas, e tampouco o é o tal problema da sua distinção. A deserção da morte está encerrada na vida; sem ela não haveria vida, e a posição do Homo Dei acha-se no meio, entre a deserção e a razão, entre a coletividade mística e o individualismo inconsistente. É o que percebo da minha coluna. Nessa sua posição, cumpre-lhe viver de um modo fino e galante, e manter relações de amistoso respeito consigo próprio; pois só ele é distinto, e não as oposições. O homem é o dono das oposições que existem por seu intermédio, e por conseguinte ele é mais nobre do que elas. Mais nobre do que elas, mais nobre do que a morte, demasiado nobre para ela, e isso constitui a liberdade do seu cérebro. Mais nobre do que a vida, demasiado nobre para ela, e isso constitui a piedade do seu coração. Eis que acabo de fazer um poema, um devaneio poético sobre o homem. Quero lembrar-me dele. Quero ser bom. Não quero conceder à morte nenhum poder sobre os meus pensamentos! Nisso é que consiste a bondade e a filantropia, e em nada mais. A morte é uma grande potência. As pessoas tiram o chapéu e avançam a passo cadenciado, nas pontas dos pés, quando ela está perto. Usa a cerimoniosa golilha do passado, e todos se vestem gravemente de preto em sua honra. Diante dela, a razão parece tola, porque é apenas virtude, ao passo que a morte é liberdade, deserção, amorfia e volúpia. A volúpia – clama o meu sonho –, não o amor! A morte e o amor, não, isso não rima; eles dão um poema insípido e falso! O amor enfrenta a morte; só ele, e não a razão, é mais forte do que ela. Só ele, e não a razão, inspira pensamentos bondosos. Também a forma não consta senão de amor e de bondade, a forma e a civilização de uma coletividade sensata e amável e de um belo Estado humano, na recordação silenciosa da ceia sangrenta. Ah, sim, isso se chama sonhar com clareza e ‘reinar’ bem! Quero lembrar-me disso! Quero conservar meu coração fiel à morte e, contudo, recordar-me claramente de que a fidelidade à morte e ao passado é apenas malvadez, tenebrosa volúpia e hostilidade aos homens, quando determina os nossos pensamentos e atos de governo. Em consideração à bondade e ao amor, o homem não deve conceder à morte nenhum poder sobre os seus pensamentos. E com isso vou acordar... Pois segui o meu sonho até o fim. Alcancei o meu objetivo. Há muito que eu procurava essa idéia, no lugar onde me apareceu Hippe, no meu compartimento de sacada, e em toda parte. A minha busca me levou às montanhas cobertas de neve. Agora a possuo. Meu sonho revelou-a para mim com tanta nitidez que sempre a guardarei na memória. Sim, ela me encanta e me dá calor. Meu coração bate com força e sabe por quê. Não pulsa somente por razões físicas, assim como as unhas de um cadáver continuam crescendo; pulsa de um modo humano e certo, devido ao espírito feliz. É como uma poção, esta idéia do meu sonho, melhor do que vinho do Porto ou cerveja inglesa. Circula pelas minhas veias como o amor e a vida, e me induz a arrancar-me do sono e dos devaneios, que, como não ignoro, põem em gravíssimo perigo a minha jovem vida... Levanta-te, levanta-te! Abre os olhos! Essas pernas aí na neve são os teus próprios membros! Domina-te e coloca-te de pé! Olha só, faz bom tempo!”

Era imensamente difícil a libertação dos laços que o enredavam e procuravam mantê-lo deitado. Mas o impulso que Hans Castorp soubera tomar era mais forte. Bruscamente soergueu-se no cotovelo; com um esforço enérgico dobrou os joelhos; puxando, apoiando-se, fazendo ginástica, conseguiu pôr-se de pé. Calcou a neve com os esquis; bateu os braços em torno das costelas e sacudiu os ombros, enquanto lançava olhares nervosos e forçados em todas as direções e para o céu, onde um pálido azul assomava entre nuvens cinzento-azuladas, fininhas como um véu, que singravam devagar, descobrindo o delgado crescente da lua. Leve crepúsculo. Nada de tempestade nem de nevada. A parede rochosa do outro lado, com a encosta hirsuta de pinheiros, era plena e claramente visível, e jazia em paz. A sombra subia até meia altura, ao passo que a metade superior estava iluminada num delicadíssimo cor-de-rosa. Que é que havia? Que se passava com o mundo? Era manhã? E ficara ele deitado na neve durante toda a noite, sem morrer de congelamento, ao contrário do que se lia nos livros? Nenhum dos seus membros estava entanguido, nenhum deles se fragmentava com um ruído agudo, enquanto ele calcava o solo, agitando-se e batendo-se, o que fazia sem cessar. Mas ao mesmo tempo seus pensamentos esforçavam-se por examinar a fundo a situação. Sem dúvida, as orelhas, as extremidades das

mãos e os dedos dos pés achavam-se entorpecidos, não, porém, num grau mais intenso do que muitas vezes lhe acontecera em noites de inverno, durante o repouso na sacada. Uma tentativa de tirar o relógio foi coroada de êxito. Ele andava. Não parara, como costumava fazer quando Hans Castorp se esquecia de lhe dar corda à noite. Estava ainda longe de marcar cinco horas. Faltavam doze ou treze minutos. Inacreditável! Seria possível que somente houvesse levado uns dez minutos ou pouco mais, estendido na neve, remoendo tantas imagens deleitantes ou medonhas, tantos pensamentos ousados, enquanto o tumulto hexagonal sumia com a mesma rapidez com que chegara? Nesse caso tivera uma sorte notável, do ponto de vista do regresso seguro. Pois duas vezes os seus sonhos e as suas fantasias haviam tomado um rumo que o fizera sobressaltar-se reanimado: a primeira vez, de horror; a segunda, de alegria. Parecia que a vida tinha boas intenções com seu filho enfermiço, extraviado nas alturas...

Fosse como fosse, raiasse para ele a manhã ou a tarde – indubitavelmente tratava-se ainda do crepúsculo –, em todo caso não existia nenhum obstáculo, nas circunstâncias gerais ou no estado particular de Hans Castorp, que o pudesse impedir de regressar. E foi o que fez. Com um arranco grandioso, quase em linha reta, encaminhou-se ao vale, onde, ao chegar, já encontrou as lâmpadas acesas, embora os restos da luz do dia, conservada pela neve, lhe tivessem bastado plenamente durante o caminho. Desceu pelo Bremenbühl, ao longo do bosque, e às cinco e meia alcançou a “aldeia”, onde deixou os esquis na casa do merceeiro. Foi descansar no cubículo de Settembrini, no sótão, e contou como se deixara surpreender pela tempestade de neve. O

humanista mostrou-se sumamente alarmado. Ergueu a mão por cima da cabeça; censurou-o energicamente pela perigosa imprudência e não tardou em acender o crepitante fogareiro de álcool, a fim de preparar para o jovem exausto um café, cuja força, no entanto, não impediu que Hans Castorp adormecesse na cadeira.

Uma hora mais tarde, a atmosfera ultracivilizada do Berghof circundava-o com sua aura acariciadora. Por ocasião do jantar, Hans Castorp mostrou enorme apetite. O que sonhara estava em vias de apagar-se. O que pensara já não o compreendia naquela mesma noite.

Como um soldado, como um valente

Hans Castorp recebia freqüentemente breves notícias de seu primo; boas e jubilosas no começo, menos favoráveis depois, e finalmente outras que mal disfarçavam fatos muito tristes. A série dos cartões-postais começara por uma mensagem humorística que comunicava a chegada de Joachim ao regimento e a cerimônia romântica, na qual, como Hans Castorp o expressou no seu cartão de resposta, o primo prestara o juramento de pobreza, castidade e obediência. E as missivas continuavam alegres, assinalando as etapas de uma carreira fácil e favorecida, aplainada pela dedicação apaixonada à profissão e pela simpatia dos superiores. Tudo isso vinha descrito em poucas palavras acompanhadas de saudações e votos de felicidade. Como Joachim cursara a universidade durante alguns semestres, haviam-no dispensado dos estudos na Escola Militar e do serviço de aspirante. No dia de Ano-Novo foi promovido a sargento e mandou uma fotografia que o mostrava numa farda guarnecida de galões. Cada um dos seus concisos relatos refletia o prazer que Joachim experimentava em face do espírito da hierarquia pundonorosa com sua disciplina férrea, que no entanto não o impedia de levar em conta as fraquezas humanas, sob a forma de um humor rude. Contou anedotas a respeito da conduta esquisita e complexa do subtenente, soldado carrancudo e fanático, que tratava o jovem e inexperiente subordinado como se já visse na sua pessoa o futuro chefe, que Joachim seria efetivamente, uma vez que já freqüentava a mesa dos oficiais. Tudo isso era turbulento e engraçado. Depois se falava da admissão ao exame para oficial. Em princípios de abril, Joachim foi promovido a tenente.

Aparentemente não existia homem mais feliz do que ele. Não se podia imaginar pessoa alguma cuja natureza e cujos desejos correspondessem mais completamente a essa forma de vida.

Entre deliciado e ruborizado contava Joachim como pela primeira vez passara, no seu esplêndido uniforme novo, em frente da prefeitura e dera sinal de desfazer a continência à sentinela que

apresentava armas. Descrevia as pequenas contrariedades e as satisfações do serviço; elogiava a simpática e brilhante camaradagem; falava da lealdade astuta da ordenança, de incidentes cômicos que se haviam passado durante os exercícios e as horas de instrução, de revistas e de ágapes.

Também mencionava, de vez em quando, assuntos sociais, visitas, banquetes e bailes. Nunca, porém, se referia à sua saúde.

Isso durou até começos do verão. Foi quando comunicou que se achava acamado e tivera, infelizmente, de dar parte de doente. Uma febre catarral, coisa de poucos dias. Em princípios de junho voltou ao serviço, mas já por meados do mês sentiu-se novamente derreado.

Queixava-se amargamente da sua má sorte e não escondia o receio de, talvez, não estar em condições por ocasião das grandes manobras que se realizariam em agosto, e das quais ansiava participar. Tolices! Em julho sentia-se perfeitamente bem, até o dia em que surgiu no horizonte a necessidade de um exame, em virtude daquelas malditas oscilações da sua temperatura. Desse exame dependeria tudo. Decorreu bastante tempo sem que Hans Castorp tivesse notícias quanto ao resultado, e quando as recebeu não foram de Joachim, que deixara de escrever, ou porque era incapaz de fazê-lo, ou porque se envergonhava. Quem telegrafou foi a mãe, a Srª. Ziemssen; anunciava que os médicos julgavam indispensável que o filho tirasse uma licença de algumas semanas, recomendavam a montanha e aconselhavam a partida imediata; pedia a reserva de dois quartos. Resposta paga. Assinado: Tia Luise. Foi em fins de julho que Hans Castorp recebeu esse telegrama no seu compartimento de sacada. Percorreu-o com os olhos, releu-o uma e duas vezes, sacudindo levemente não só a cabeça, mas também o tronco. Por fim disse entre dentes: – Sim, sim, sim! – à maneira do Sr. Settembrini. – Joachim volta! – observou, sentindo-se invadido de repentina alegria. Mas logo tornou a acalmar-se e pensou: “Hum, hum! São notícias graves.

Também se poderia dizer: uma bela surpresa! Puxa, mas foi depressa! Já precisa regressar à

‘pátria’. E a mãe viaja com ele... (Disse ‘a mãe’ e não ‘tia Luise’, visto o seu senso de parentesco e de relações familiares ter-se desvanecido aos poucos.) Isto é uma circunstância agravante. E

justamente na véspera das manobras, nas quais o bom Joachim tanto desejava tomar parte. Hum, hum! Tudo isso é mesmo infame; parece ironia e obra de um fator antiidealístico. O corpo triunfa, quer outra coisa que não a alma e se impõe, desmentindo aqueles arrogantes que nos ensinam que a alma reina sobre ele. Tenho a impressão de que não sabem o que dizem; pois, se tivessem razão, a alma ficaria bastante comprometida num caso como este. Sapienti sat. Já formei a minha opinião. Pois o problema que eu estou ventilando é precisamente saber até que ponto está errado opor a alma ao corpo e até onde ambos estão em conluio e jogam uma partida cujo resultado combinaram de antemão. Essa idéia, felizmente, não ocorre àquela gente presunçosa.

Meu caro Joachim, ninguém quer censurar você por causa do seu zelo excessivo. É sincero, mas de que adianta a sinceridade – pergunto eu – se o corpo e a alma estão em conluio? Será possível que você seja incapaz de esquecer certos perfumes refrescantes, certos seios opulentos e certos risinhos não motivados que o esperam à mesa da Srª. Stöhr?... Joachim volta!”, pensou de novo, estremecendo de alegria. “Chegará em mau estado, evidentemente, mas estaremos juntos outra vez e não precisarei mais viver num isolamento completo. Está bem assim. Verdade é que haverá algumas modificações. O quarto dele está ocupado por Mrs. Macdonald, que ali não pára de tossir a sua tosse surda, sempre com a fotografia do filhinho na mão ou na mesinha a seu lado.

Mas já se acha na fase final, e se o quarto ainda não estiver reservado... Por enquanto terão outro disponível. Se não me engano, o 28 está desocupado. Vou logo à ‘administração’ e sobretudo falarei com Behrens. Que novidade! De um lado é triste, e do outro é maravilhoso. Mas em todo caso é uma novidade e tanto. Quero apenas esperar o camarada Krokowski, que deve passar daqui a pouco, pois, como vejo, já são três e meia. Vou perguntar-lhe se também nesse caso se aferra à sua opinião de que o corpo deve ser considerado secundário ...”

Ainda antes do chá da tarde dirigiu-se ao escritório da “administração”. O referido quarto, situado no mesmo corredor que o seu, estava à sua disposição. Para a Srª. Ziemssen tampouco faltariam aposentos. Hans Castorp apressou-se a falar com Behrens. Encontrou-o no

laboratório. O médico tinha um charuto numa das mãos e uma proveta com líquido de cor duvidosa na outra.

– Senhor conselheiro, já sabe da última? – começou Hans Castorp.

– Sim, que as encrencas nunca acabam – respondeu o tisiólogo. – Aí está o Sr.

Rosenheim, de Utrecht – prosseguiu, apontando com o charuto para o vidro. – Tem Gaffky 10.

E agora veio o fabricante Schmitz, berrando e queixando-se de que o Rosenheim escarrou durante o passeio, com Gaffky 10. Quer que eu lhe faça uma reprimenda. Mas nesse caso o homem teria um chilique, porque é sumamente irritadiço, e ele e a família ocupam três quartos.

Não posso ofendê-lo, pois se fosse embora a diretoria cairia em cima de mim. Está vendo os conflitos que surgem a cada instante, ainda que a gente queira seguir seu caminho com calma e imparcialidade.

– É uma história estúpida – disse Hans Castorp com a compreensão de um veterano traquejado. – Conheço os dois senhores. O Schmitz é extremamente correto e diligente, e o Rosenheim bastante relaxado. Mas pode ser que existam ainda outros motivos de atritos, de caráter não higiênico. É o que me parece provável. Schmitz e Rosenheim são ambos amigos de Dona Perez, de Barcelona, aquela que come à mesa da Kleefeld. Acho que nisso reside a causa da desavença. Em seu lugar, eu recordaria aos pensionistas, de uma forma geral, a proibição existente, e quanto ao resto fecharia os olhos.

– Claro que fecharei. Já ando com blefarospasmo de tanto fechar. Mas por que se apresenta o senhor aqui?

E Hans Castorp comunicou a notícia triste e ao mesmo tempo maravilhosa.

Não se pode dizer que o médico se tenha mostrado surpreendido. Não o estaria em caso algum, menos ainda no presente. Hans Castorp, ou respondendo às suas perguntas ou por iniciativa própria, sempre o mantivera a par do estado de Joachim e já em maio lhe dera a notícia de que o primo caíra de cama.

– Hã, hã! – fez Behrens. – Pois então, não lhe disse? Que é que eu disse a ele e ao senhor, não dez vezes, mas cem? Durante nove meses, o homem teve tudo que desejava e gozou o seu paraíso. Mas não era um paraíso cem por cento desintoxicado, e nesse caso falta a bênção; é o que esse desertor nunca quis acreditar no velho Behrens. Convém sempre acreditar no velho Behrens. Do contrário, a gente apanha e cria juízo quando é tarde. Afinal, ele chegou a ser tenente; sim, senhor, não se discute. Mas que lhe adianta? Deus vê o coração e não se importa com graus e posição. Perante Ele aparecemos despidos de tudo, tanto o general como o soldado raso... – E desatou a tagarelar. Por fim esfregou os olhos com a manzorra, cujos dedos comprimiam o charuto, e pediu que Hans Castorp agora lhe desse uma folga. Um cômodo para Ziemssen seria coisa fácil de encontrar, e quando o primo chegasse, que o metesse na cama, imediatamente. Quanto a ele, Behrens, não guardava rancor a ninguém. Abriria paternalmente os braços e estava disposto a matar um bezerro por ocasião da volta do filho pródigo.

Hans Castorp telegrafou. Falou a todo o mundo da volta iminente do primo, e quem conhecia Joachim ouvia a nova com pesar e contentamento. Ambos esses sentimentos eram sinceros, pois o caráter limpo e cavalheiresco do jovem oficial lhe havia conquistado a simpatia geral. A opinião íntima, não expressa, de muitos ali de cima, achava que ele fora o melhor de todos. Não nos referimos a ninguém em particular, mas cremos que mais de um experimentou uma certa satisfação ao ficar sabendo que Joachim se via forçado a trocar o serviço militar pela posição horizontal] e, com toda a sua correção, tornaria a ser “um dos nossos”. Como sabemos, a Srª. Stöhr previra tudo isso desde o princípio. Os acontecimentos acabavam de consolidar-lhe o ceticismo ordinário que ela manifestara quando da partida de Joachim para a planície. Não deixou de vangloriar-se dos seus pressentimentos. – A coisa está ruim – dizia. Logo vira que a coisa cheirava mal, e agora esperava apenas que Ziemssen, com a sua teimosia, não a tivesse feito feder.

(Realmente, na sua imensa vulgaridade, empregou o verbo “feder”.) Valia mais ficar no seu posto, como fazia ela, apesar de ter interesses vitais na planície, em Cannstatt, onde viviam seu marido e seus dois filhos. Mas sabia dominar-se... Não chegou mais nenhuma resposta da parte de Joachim

ou da Srª. Ziemssen. Hans Castorp permaneceu na ignorância do dia e da hora da sua chegada.

Por esse motivo não houve recepção na estação. Três dias após a remessa do telegrama de Hans simplesmente apareceram, e com um risinho nervoso o tenente Joachim aproximou-se da espreguiçadeira onde o primo estava cumprindo o regulamento.

Foi pouco depois do começo do repouso noturno. Trouxera-os o mesmo trem em que chegara Hans Castorp, havia anos, anos que não tinham sido nem breves nem longos, senão desprovidos de duração, anos extremamente ricos em experiências e todavia nulos e vazios. Até a estação do ano era a mesma: um dos primeiros dias de agosto. Como já dissemos, Joachim entrou alegremente. Sim, experimentou de fato uma emoção alegre, quando entrou no aposento de Hans Castorp, ou melhor, quando saiu dele, depois de ter medido o quarto a passo rápido, para ganhar a sacada. Sorrindo, saudou o primo. Em voz abafada proferiu algumas palavras entrecortadas pela respiração acelerada. Acabava de realizar a longa viagem de regresso, atravessando diversos países e o lago que parece um mar, e subindo por estreitas sendas até grandes alturas. E agora estava ali como se jamais se tivesse afastado, e seu parente, que num sobressalto se soerguera da sua posição horizontal, recebeu-o com muitos “Olá” e “Ora essa”. Joachim tinha o rosto corado, fosse devido à vida ao ar livre que levara, fosse em virtude da excitação da viagem. Diretamente, sem procurar o seu próprio quarto, precipitara-se para o número 34, a fim de cumprimentar o companheiro de dias passados que novamente se tornavam presentes. Enquanto isso, sua mãe achava-se ocupada em arrumar-se. Tinham a intenção de jantar dentro de dez minutos, naturalmente no restaurante. Hans Castorp, sem dúvida, seria capaz de comer mais alguma coisinha na sua companhia, ou pelo menos de tomar um gole de vinho. E Joachim arrastou-o ao número 28, onde tudo se passou como naquela noite da chegada de Hans Castorp, só que com os papéis trocados; Joachim, conversando febrilmente, lavava as mãos na pia lustrosa, e Hans Castorp contemplava-o, surpreendido e mesmo desapontado por ver o primo à paisana. Disselhe que a sua carreira militar em nada se refletia no seu exterior. Sempre o visionara como oficial de uniforme, e agora se apresentava numa roupa cinzenta como qualquer outro. Joachim riu-se, achando-o muito ingênuo. Não, senhor! A farda tinha ficado em casa, como lhe convinha. Hans Castorp devia saber que o uniforme tinha caráter bem especial. Com ele não se ia a qualquer parte. – Ah, sim. Muito obrigado – respondeu Hans Castorp. Mas Joachim não parecia dar-se conta do sentido aviltante da sua explicação. Pediu informações acerca das pessoas e dos acontecimentos do Berghof, não somente sem a menor presunção, mas com toda a intensa ternura que é própria de quem volta ao lar. A seguir, a Srª. Ziemssen apareceu na porta de comunicação. Saudou o sobrinho da maneira que certas pessoas acham adequada a essa espécie de ocasião; quer dizer, fingiu uma surpresa jovial por encontrá-lo nesse lugar. Mas a sua alegria achava-se empanada pelo cansaço e por uma silenciosa mágoa que evidentemente se ligava a Joachim. E desceram ao andar térreo.

Luise Ziemssen tinha os mesmos olhos formosos, negros e meigos de Joachim. Os cabelos igualmente pretos, mas já entremeados de muitos fios brancos, estavam presos por uma rede quase invisível, e isso harmonizava com o seu modo de ser, que era ponderado, simpaticamente comedido e controlado com brandura, o que lhe conferia uma dignidade agradável, apesar da singeleza do seu espírito. Era claro – e Hans Castorp não se admirou nem um pouquinho com esse fato – que ela não compreendia a animação de Joachim, o aceleramento da sua respiração e sua fala precipitada, fenômenos que provavelmente estavam em desacordo com a conduta que o filho tivera em casa e durante a viagem, e não correspondiam à sua situação.

A mãe achou tal atitude um tanto chocante. Como essa chegada se lhe afigurasse triste, julgava conveniente adaptar a sua atitude ao caráter da situação. Era incapaz de participar dos sentimentos de Joachim, essas turbulentas emoções despertadas pela volta, cuja embriaguez no momento sobrepuja quaisquer pensamentos opostos, e que talvez fossem ainda estimuladas pela renovada aspiração do ar alpino, esse “nosso” ar incomparável, leve, inconsistente e excitante.

Tudo isso, forçosamente, ficou ininteligível para a Srª. Ziemssen. “Meu pobre filho!”, pensou ela, e ao mesmo tempo via como o coitado se abandonava, junto com o primo, a uma hilaridade

transbordante, ressuscitando mil recordações, fazendo mil perguntas e rindo-se das respostas, reclinado na cadeira. Diversas vezes disse: – Ora, ora, meus filhos! – E com a observação que finalmente formulou, pretendeu manifestar alegria, mas na realidade o que expressou foi estranheza e leve censura: – Joachim, faz tempo que não te vejo assim. Será possível que tivéssemos de vir aqui para que te sentisses novamente como no dia da tua promoção? – Bem! ao ouvir isso, acabou-se a alegria de Joachim. Seu bom humor transformou-se em depressão.

Recobrou a consciência. Não tocou na sobremesa, embora se tratasse de um saborosíssimo suflê de chocolate com nata batida. (No seu lugar, Hans Castorp fez todas as honras ao prato, apesar de mal ter decorrido uma hora desde o fim do abundante jantar.) Joachim terminou por não mais levantar os olhos, certamente porque os tinha cheios de lágrimas.

Sem dúvida não fora essa a intenção da Srª. Ziemssen. No fundo era antes por causa das conveniências que queria obter um pouco mais de seriedade e de moderação, sem saber que tudo que é meio-termo e medida ficava estranho nesse lugar, onde só se oferecia a escolha entre os extremos. Quando viu o filho de tal maneira abatido, esteve ela mesma a ponto de chorar e sentiu-se grata ao sobrinho pelos esforços que fazia no sentido de reanimar o primo desolado. –

Sim – disse –, entre os pensionistas você encontrará muitas modificações e novidades, mas alguns outros já voltaram durante a sua ausência e estão como antes. A tia-avó, por exemplo, com a sua companhia, há tempos que está de volta. Como sempre, as senhoras comem à mesa da Stöhr, e Marusja ainda gosta muito de rir.

Joachim permanecia calado. À Srª. Ziemssen, porém, essas palavras chamaram à memória um encontro e certas saudações que ela não devia esquecer de transmitir. Tratava-se de um encontro com uma senhora nada antipática, embora viajasse sozinha e tivesse sobrancelhas excessivamente regulares. Num restaurante de Munique, onde se haviam demorado um dia entre dois trajetos noturnos, essa senhora aproximara-se da mesa para cumprimentar Joachim. Era uma antiga paciente do sanatório... E pediu a Joachim que a ajudasse a lembrar o nome.

– Mme. Chauchat – disse Joachim baixinho. Por enquanto, ela se achava numa estação climatérica no Allgäu e pensava passar o outono na Espanha. No inverno, provavelmente, voltaria para ali. Mandava muitas lembranças...

Hans Castorp já não era nenhum menino. Sabia dominar os nervos vasculares que o poderiam ter feito empalidecer ou ruborizar.

– Ah, era ela? – disse. – Vejam só; saiu então do Cáucaso. E quer ir à Espanha?

Aquela senhora falara de um lugar nos Pireneus. – Mulher bonita ou pelo menos atraente.

Voz agradável e gestos também agradáveis. Mas tem maneiras muito livres e negligentes –

observou a Srª. Ziemssen. – Abordou-nos sem mais aquela, embora Joachim, segundo ouvi, nunca lhe houvesse sido apresentado. Que costumes estranhos!

– Aquilo vem do Oriente e da doença – explicou Hans Castorp, acrescentando que não se devia aplicar a essas coisas o padrão da civilização humanística. Isso seria erro grave. E lhe dava que pensar que Mme. Chauchat tivesse a intenção de ir à Espanha. Hum! A Espanha... Esta se encontrava na direção oposta, igualmente distante do “meio” humanístico, não ao lado da moleza, mas ao lado do rigor. Ali não havia falta de forma, senão excesso. A morte considerada como forma, por assim dizer. Não a dissolução da morte, mas a sua austeridade, de preto, distinta e sangrenta, a Inquisição, a golilha engomada, Loyola, o Escorial... Seria interessante saber qual a impressão que Mme. Chauchat teria da Espanha. Sem dúvida perderia ali o costume de bater as portas, e talvez resultasse da sua permanência um certo equilíbrio dos dois elementos anti-humanísticos, que a tornasse mais humana. Mas também era possível que surgisse um terrorismo maldoso, quando o Oriente fosse à Espanha...

Não, Hans Castorp nem empalidecera nem se ruborizara, mas a impressão que lhe haviam causado as inopinadas notícias de Mme. Chauchat traduzia-se em palavras que não podiam esperar outra resposta a não ser um silêncio penoso. Joachim mostrou-se pouco espantado, por conhecer de outras ocasiões aquela argúcia que o primo exibia ali em cima. Nos olhos da Srª. Ziemssen, porém, refletia-se a mais vasta estupefação. Comportou-se ela exatamente

como se Hans Castorp acabasse de pronunciar palavrões indecentes. Depois de uma pausa cheia de embaraço, levantou-se com algumas palavras discretas, destinadas a disfarçar o incidente.

Antes de se separarem, Hans Castorp comunicou a ordem do conselheiro, segundo a qual Joachim deveria passar ao menos o dia seguinte na cama, até que o médico o tivesse examinado.

O mais se veria. Depois, os três parentes dirigiram-se aos seus quartos, e dentro em breve estavam estendidos, gozando o frescor da noite de verão alpino, que entrava pelas portas abertas.

Cada um se entregava aos seus pensamentos. Os de Hans Castorp giravam principalmente em torno da perspectiva de rever Mme. Chauchat daí a seis meses.

E assim o pobre Joachim regressara à “pátria” para um pequeno tratamento suplementar, que julgavam oportuno. Evidentemente a expressão “pequeno tratamento suplementar” era a senha emitida na planície, e que servia também ali em cima. O próprio Dr. Behrens adotou-a, ainda que fossem logo quatro semanas de repouso na cama que pespegou a Joachim como início da cura. Estas seriam necessárias, segundo a sua opinião, para consertar os estragos mais graves, para ajudar o paciente a reaclimatar-se e para lhe regular a combustão interior. Quanto à duração do tratamento, o conselheiro soube esquivar-se a todas as tentativas de lhe marcar um prazo fixo.

A Srª. Ziemssen, sisuda, compreensiva, de um temperamento nada sangüíneo, sugeriu, longe do leito de Joachim, o outono, o mês de outubro, por exemplo, como termo final. Behrens concordou com ela, pelo menos no sentido de declarar que então já se poderia ver mais claro do que agora. Causou, aliás, uma impressão excelente à mãe de Joachim. Mostrava-se muito galante; dizia “Minha prezada senhora”, fitando-a com os olhos túrgidos e estriados de sangue à maneira de vassalo leal, e usava com tanta perfeição o linguajar excêntrico dos estudantes alemães, que a Srª. Ziemssen, apesar da sua mágoa, não podia deixar de rir. – Sei que meu filho se acha em boas mãos – disse ela. Oito dias após a chegada, partiu para Hamburgo, visto não haver nenhuma necessidade séria da sua presença e o filho dispor de um parente para fazer-lhe companhia.

– Pois então! Fique contente. Você sairá no outono – dizia Hans Castorp, sentado ao pé da cama do primo, no número 28. – O Velho comprometeu-se até certo ponto. Você sabe a quantas anda e tem uma data com que pode contar. Outubro – com isso temos um termo. É a época em que certa gente vai à Espanha, e você também poderá voltar para a sua bandera, a fim de se distinguir enormemente...

Sua incumbência diária era consolar Joachim, principalmente por ter este de faltar, devido ao tratamento, às grandes manobras que começavam nesses dias de agosto. Era coisa com que o primo não se conformava. Joachim chegava ao ponto de desprezar-se a si próprio, por causa da maldita fraqueza que o fizera sucumbir no último instante.

Continuar: parte 2 de 3