A Montanha Mágica

Thomas Mann · Capítulo 10 de 13 · parte 1/3

Páginas do PDF

A Montanha Mágica

Capitulo VII

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

Passeio pela praia

Pode-se narrar o tempo, o próprio tempo, o tempo como tal e em si? Não, isso seria deveras uma empresa tola. Uma história que rezasse: “O tempo decorria, escoava-se, seguia o seu curso” e assim por diante – nenhum homem de espírito são poderia considerá-la história. Seria como se alguém tivesse a idéia maluca de manter durante uma hora um mesmo tom ou acorde e afirmasse ser isso música. Pois a narrativa se parece com a música no sentido de que ambas dão um conteúdo ao tempo; “enchem-no de uma forma decente”, “assinalam-no” e fazem com que ele

“tenha algum valor próprio” e que “nele aconteça alguma coisa”, para citarmos, com a melancólica piedade que se costuma devotar aos ditos dos defuntos, algumas. observações ocasionais do saudoso Joachim, palavras essas que há muito se perderam no espaço; nem sabemos se o leitor é capaz de dizer claramente quanto tempo se passou desde que foram pronunciadas. O tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida; está inseparavelmente ligado a ela, como aos corpos no espaço. É também o elemento da música, que o mede e subdivide, carregando-o de interesse e tornando-o precioso. Nesse ponto, como já mencionamos, assemelha-se à narrativa e difere da obra de arte plástica que surge diante de nós

de uma vez, em todo o seu esplendor, e não se acha relacionada com o tempo senão à maneira de todos os corpos. A narrativa, porém, não se pode apresentar senão sob a forma de uma seqüência de fatos, como algo que se desenvolve, e necessita intimamente do tempo, mesmo que deseje estar toda presente a cada instante que transcorre.

Isso é evidente. Mas é igualmente óbvio que há uma diferença entre a narrativa e a música. Nesta, o elemento do tempo é um só: um setor do tempo humano e terrestre que ela inunda para exaltá-lo e enobrecê-lo de modo indizível. A narrativa, porém, tem dois tipos de tempo: em primeiro lugar, o seu tempo próprio, o tempo efetivo, igual ao da música, o tempo que lhe determina o curso e a existência; e em segundo, o tempo do seu conteúdo, que é apresentado sob uma determinada perspectiva, e isso de forma tão variável que o tempo imaginário da narração tanto pode coincidir quase por completo, e mesmo inteiramente, com seu tempo musical, quanto dele diferir infinitamente. Uma peça de música, denominada Valsa dos cinco minutos, dura cinco minutos; nisso, e em nada mais, consiste a sua relação com o tempo. Uma história, entretanto, cujo conteúdo abrangesse um lapso de cinco minutos poderia ter duração mil vezes maior, devido à extrema meticulosidade empregada na descrição desses cinco minutos e todavia parecer bem curta, embora fosse bastante longa em proporção a seu tempo imaginário.

Por outro lado é possível que o tempo do conteúdo da história ultrapasse enormemente a duração da narrativa, em virtude de um processo de “redução”. Servimo-nos desse termo para assinalar um elemento ilusório, ou, para falar com maior clareza, um elemento mórbido que se manifesta nesse caso. A narrativa usa então um feitiço hermético, uma perspectiva exagerada, quanto ao tempo, e isso nos chama à memória certos fatos anormais da experiência real, que evidentemente entram no campo transcendental. Existem diários de fumadores de ópio, relatando que a pessoa entorpecida passou, durante o breve período da embriaguez, por sonhos cuja extensão no tempo abrangia dez, trinta e até sessenta anos e mesmo transpunha os limites traçados à experiência humana, no que se refere à exploração do tempo. Trata-se, pois, de sonhos cuja duração imaginária excede consideravelmente a real, e nos quais se efetua uma redução incrível da experiência do tempo, que faz com que as imagens se precipitem com tamanha velocidade que se poderia crer, segundo a expressão de um consumidor de haxixe, que do cérebro do ébrio “houvesse sido tirada uma peça parecida com o balancim de um relógio”.

É de modo congênere ao desses sonhos oriundos do vício que a narrativa pode proceder para com o tempo; é dessa forma que ele pode ser tratado numa história. Mas, uma vez que é possível “tratá-lo”, é lógico que o tempo, além de ser o elemento da narrativa, também pode tornar-se o seu assunto. Embora seja exagero afirmar que se pode “narrar o tempo”, não constitui certamente empresa tão absurda, como nos parecia de início, a de querer narrar coisas do tempo. Destarte poderíamos atribuir uma singular ambigüidade de sonho ao conceito de um

“romance do tempo”. Com efeito, ventilamos os problemas de saber se é possível ou não narrar o tempo exclusivamente para confessar que, na presente história, temos coisa semelhante em mente. E se ainda, de passagem, pusemos em dúvida que os leitores agrupados em torno de nós fossem capazes de dizer claramente quanto tempo decorreu desde o momento em que o honrado e já falecido Joachim intercalou na palestra aquela observação acerca da música e do tempo –

observação que demonstra certa sublimação alquimística da sua natureza, que normalmente não se inclinava para esse tipo de pensamentos –, não nos mostraríamos nem um pouco contrariados ao inteirar-nos de que, de fato, reina confusão a esse respeito; ao invés de contrariados, estaríamos até satisfeitos, pela simples razão de termos um interesse natural em que todos participem das experiências do nosso herói, Hans Castorp, o qual, de há muito, deixou de estar seguro sobre a questão em apreço. Isso faz parte do seu romance, que é um romance do tempo, tanto num como noutro sentido.

Afinal, quanto tempo passara Joachim ali em cima, ao lado de Hans Castorp, até a sua partida “em falso”, e quanto ao todo? Em que época do calendário se realizara aquela primeira partida arbitrária? Por quanto tempo estivera ausente? Quando voltara? E havia quanto tempo se achava o próprio Hans Castorp em Davos, na data do regresso do primo, e naquela outra,

posterior, em que este se despediu do tempo? Por quanto tempo, para deixarmos Joachim de lado, ausentara-se Mme. Chauchat? E desde quando, ou pelo menos desde que ano, estava ela de volta (pois que estava mesmo de volta), e quanto tempo decorrera entre o dia do seu regresso e aquele da chegada de Hans Castorp ao Berghof? Se alguém fizesse todas essas perguntas a Hans Castorp – o que em realidade ninguém fazia, nem sequer ele próprio, provavelmente por ter receio de tais indagações –, o jovem teria tamborilado com os dedos na fronte, sem saber dar uma resposta precisa; fenômeno não menos inquietante do que aquela passageira incapacidade de dizer a sua idade ao Sr. Settembrini, logo na primeira noite da sua estadia ali. E desde então essa falta de memória até se havia agravado, uma vez que Hans Castorp já ignorava séria e constantemente quantos anos tinha.

Isso talvez pareça fantástico, mas está longe de ser surpreendente ou inverossímil porque, sob determinadas condições, pode acontecer a cada um de nós a qualquer instante; supostas tais condições, nada nos resguardaria de mergulharmos na mais profunda ignorância quanto ao curso do tempo, e de perdermos, por conseguinte, a noção da nossa idade. Esse fenômeno é possível, já que não temos no nosso interior um órgão para perceber o tempo, o que nos torna incapazes de avaliá-lo, em termos absolutos, pelas nossas próprias forças e sem nos basear em indícios exteriores. Alguns mineiros soterrados e impossibilitados de observar a sucessão de dias e noites calcularam, quando salvos, fosse de três dias o tempo que haviam passado nas trevas, entre a esperança e o desespero. Na realidade se haviam escoado dez dias. Seria natural se, nessa situação angustiosa, o tempo se lhes houvesse afigurado longo. No entanto, se reduzira para eles a menos de um-terço da sua duração objetiva. Parece, portanto, que sob condições desconcertantes a impotência humana tende antes a subestimar do que a exagerar o tempo por que acaba de passar.

Certo, ninguém põe em dúvida que Hans Castorp, querendo, teria podido sem grandes dificuldades escapar dessa incerteza e ganhar clareza por meio de um cômputo; da mesma forma como o leitor o poderia fazer sem nenhum trabalho, se, porventura, a confusão e o vazio repugnassem ao seu espírito sadio. No que toca a Hans Castorp, talvez não se sentisse muito à vontade na sua ignorância, mas tampouco se animava a fazer um esforço para livrar-se daquele vazio e daquela confusão, e para conhecer a idade que alcançara ali em cima. O que o impedia era um receio arraigado na sua consciência, apesar de ser a mais crassa falta de consciência o não se preocupar com o tempo.

Não sabemos se convém alegar a seu favor que as circunstâncias fomentavam bastante a sua falta de boa vontade, para não o acusar de aberta má vontade. Quando voltou Mme.

Chauchat – de modo bem diferente do que imaginara Hans Castorp, mas disso trataremos noutra parte –, estava-se novamente na época do Advento, e o dia mais curto do ano, o princípio do inverno, astronomicamente falando, achava-se iminente. Em realidade, porém, não se levando em conta tais subdivisões teóricas e considerando-se o frio e a neve reinantes, era inverno sabe Deus desde quando, e este inverno não fora interrompido senão passageiramente por abrasadores dias de verão, com um azul celeste de uma intensidade tão exagerada que tocava as raias do preto, dias estivais, portanto, como também costumavam ocorrer no inverno, abstração feita da neve, que por sua vez caía em todos os meses de verão. Quantas vezes não conversara Hans Castorp com o malogrado Joachim sobre essa grande confusão, que misturava e embrulhava as estações, que privava o ano das suas cisões naturais e destarte o fazia decorrer rápida mas tediosamente, ou também devagar, mas de modo divertido, de maneira que no fundo nem se podia falar de tempo, conforme observara Joachim com desgosto numa ocasião muito remota. O que realmente se misturava e se baralhava em virtude dessa grande confusão eram certos conceitos emocionais ou estados de consciência, como os do “ainda” e do “de novo”. Achamo-nos diante de uma experiência das mais perturbadoras, complexas e mágicas que se podem imaginar, experiência para cujo gozo Hans Castorp, logo no primeiro dia da sua estadia ali em cima, mostrara inclinação imoral. Fora em face das cinco refeições fartas em excesso, na sala alegremente colorida, que pela primeira vez, sentira vertigem desse gênero, inofensiva em comparação com as posteriores.

Desde então, essa ilusão dos sentidos e do espírito assumira proporções muito mais vastas. O tempo, por mais enfraquecida ou aniquilada que esteja a sensação subjetiva que se tem a seu respeito, possui uma realidade objetiva, enquanto age, enquanto “traz consigo”. É um problema que compete a pensadores profissionais, embora Hans Castorp, em certa ocasião, o tivesse atacado, impelido por uma presunção juvenil, o problema de saber se a conserva hermeticamente fechada e posta na prateleira se acha ou não fora do tempo. Mas sabemos que o tempo age até mesmo sobre os hibernantes. Um médico relata o caso de uma menina de doze anos que um belo dia adormeceu e prosseguiu dormindo treze anos; mas ao despertar já não era criança, senão mulher feita. Nem poderia ser de outra forma. O morto está morto; entrou no eterno descanso; tem muito tempo, quer dizer, o tempo não existe, quanto à sua pessoa. Isso todavia não impede que suas unhas e seus cabelos continuem a crescer, e que em suma... Mas não queremos recordar a locução um tanto rude que Joachim usou certa vez, falando desse assunto, e com a qual Hans Castorp então se escandalizou à maneira dos habitantes da planície. Também a ele, Hans Castorp, lhe cresciam as unhas e os cabelos; cresciam depressa, como parecia, pois seguidamente se encontrava envolto num pano branco, na cadeira da barbearia na rua principal da “aldeia”, para que lhe cortassem o cabelo, que mais uma vez acabava de formar franjas ao redor das orelhas. Na verdade, sempre se achava ali, ou melhor, quando estava sentado ali e conversava com o barbeiro hábil e obsequioso, que se desincumbia da sua tarefa, depois de o tempo se ter desincumbido da sua, ou também quando se quedava junto à porta da sacada, a fim de encurtar as unhas mediante a tesourinha e a lima, tiradas de um belo estojo forrado de veludo – nessas ocasiões experimentava uma espécie de susto mesclado com curioso prazer, e de súbito sentia-se tomado daquela vertigem que já mencionamos; essa vertigem que o tornava inseguro física e psiquicamente, causando um remoinho no meio do qual Hans Castorp já não sabia distinguir o “ainda” e o “de novo”, de cuja mistura e confusão resulta o “sempre” isento de tempo.

Temos afirmado freqüentemente que não tencionamos apresentar o nosso herói nem melhor nem pior do que era, e por isso não queremos deixar de contar que muitas vezes se empenhava em compensar a complacência censurável em face dessas tentações místicas, provocadas por ele consciente e propositadamente, com esforços em sentido contrário. Era capaz de ficar sentado com o relógio na mão – o relógio de algibeira, chato, liso e de ouro fino, cuja tampa com o monograma gravado estava aberta. Contemplava então o mostrador redondo, de porcelana, rodeado por uma dupla fileira de cifras árabes, pretas e vermelhas, e em cima do qual os dois ponteiros de ouro, enfeitados de suntuosos arabescos, apontavam em diferentes direções, enquanto o delgado ponteiro dos segundos, tiquetaqueando, dava pressurosas voltas à sua areazinha especial. Hans Castorp fixava-o, como para deter e esticar alguns minutos, na intenção de agarrar o tempo pela cauda. A minúscula agulha saltitava pelo seu caminho, sem se importar com as cifras que alcançava, percorria, ultrapassava, deixava longe atrás, voltava a demandar e alcançava de novo. Era insensível a objetivos, divisões e marcos. Deveria demorar-se por um instante no 60 ou pelo menos dar um pequeno sinal de que alguma coisa terminava ali.

Mas, pelo jeito como passava por cima desse ponto assim como por qualquer outra risca não marcada, reconhecia-se que toda essa marcação e subdivisão do seu caminho era apenas acessória, e que o ponteiro se limitava a caminhar, a caminhar para a frente... Diante dessa percepção, Hans Castorp tornava a abrigar o relógio no bolsinho do colete e abandonava o tempo à sua própria sorte.

Como tornar plausíveis aos honrados cidadãos dos países planos as transformações que se efetuavam na economia íntima do nosso jovem aventuroso? A escala dessas identidades perturbadoras ia crescendo. Desde que, para uma pessoa não muito concentrada, era difícil distinguir o “agora” de hoje do de ontem, de anteontem, de três dias atrás, o presente já se mostrava inclinado e capaz de se confundir com aquele presente que existira havia um mês ou um ano, e de unir-se com ele para formar o “sempre”. Mas, ainda que se mantivesse a distinção entre os casos de consciência moral, que se chamam “ainda”, “de novo”, “no futuro”,

poderíamos sentir-nos tentados a ampliar o alcance das denominações relativas, com que o

“hoje” se isola do passado e do porvir, as denominações de “ontem” e de “amanhã”, e a aplicá-las a períodos mais longos. Seria fácil imaginar seres – os habitantes de um planeta menor que o nosso, por exemplo – que lidassem com um tempo em miniatura, e para cuja vida “curta” os saltinhos velozes do nosso ponteiro dos segundos representassem o mesmo que para nós a progressão lenta e tenaz do ponteiro das horas. Mas também seria possível idear criaturas a cujo espaço correspondesse um tempo que avançasse tão majestosamente que os conceitos de “há um instante”, de “em breve”, de “ontem” e de “amanhã”, adquirissem, para a sua experiência, um significado muito mais amplo. Segundo a nossa opinião, isso não somente seria admissível, senão até legítimo, sadio e respeitável, quando o julgássemos sob o ponto de vista de um relativismo indulgente e em conformidade com o provérbio: “Cada terra com seu uso”. Que, porém, pensar de um filho desta nossa terra – e ainda de um para cuja idade um dia, uma semana, um mês, um semestre deveriam ter suma importância, uma vez que acarretam muitas modificações e grandes progressos para a sua vida –, que pensar, pois, se esse moço um dia adquirisse o hábito vicioso, ou pelo menos cedesse às vezes ao prazer de dizer “ontem” ou “amanhã”, em lugar de “faz um ano” ou “no ano que vem”? Não há dúvida de que nos acharíamos diante de um caso de anomalia e de perturbação, que justificaria o mais vivo desassossego.

Há neste mundo uma situação, há certos fatores cênicos – se é que se pode falar de

“cenário” no caso que temos em vista – que fazem com que a confusão e a mistura das distâncias do tempo e do espaço, que vão a ponto de criar uma uniformidade vertiginosa, se produzam de forma natural e lógica, de maneira que, pelo menos para um período de férias, parece tolerável o abandono ao seu enleio mágico. Pensamos em passeios à beira-mar – ocupação da qual Hans Castorp nunca deixava de lembrar-se com a maior simpatia – e já sabemos que a vida na neve lhe recordava de modo ameno e grato as dunas do seu torrão natal. Esperamos que a experiência e a memória dos nossos leitores também não falhem, quando nos referimos a esse isolamento maravilhoso. As pessoas caminham, caminham... e de uma excursão dessas nunca voltarão a tempo, já que se desgarraram do tempo e este se desgarrou delas. Ó mar, nós que contamos esta história achamo-nos longe de ti, mas te devotamos os nossos pensamentos e a nossa afeição.

Expressamente e em voz alta te dirigimos a nossa invocação, para que estejas presente no nosso livro como sempre tens estado e como continuarás eternamente... Ó deserto marulhante, sob a cúpula de um pálido céu cinza, ó ermo impregnado de acre umidade cujo sabor perdura em nossos lábios! Caminhamos, caminhamos sobre o solo levemente elástico, salpicado de sargaço e de pequenas conchas. O vento nos envolve os ouvidos, esse vento imenso, vasto, brando, que livremente, sem freio nem maldade, atravessa o espaço e produz no nosso cérebro um ligeiro atordoamento. Marchamos, marchamos, e vemos os nossos pés lambidos pelas línguas espumantes do mar, que é impelido para a frente e, fervilhando, torna a recuar. Agita-se a rebentação. Vaga após vaga, com um murmúrio agudo e surdo, choca-se com a terra, antes de deslizar, sedosa, pela praia rasa. Aqui se dá o mesmo que ali e que nos bancos de areia, lá fora, e esse rumor confuso, generalizado, do suave marulho, sobrepuja, em nossos ouvidos, todas as demais vozes do mundo. Bastamo-nos a nós mesmos e de propósito olvidamos o resto... Ah, cerremos os olhos, abrigados na eternidade! Não! Olha ali! Naquela vastidão glauca, espumante, que, com enormes escorços, se perde no horizonte, surge uma vela. Ali? Que significa esse “ali”?

Quão longe? Quão perto? Não sabes dizer. De modo vertiginoso, isso se subtrai à tua avaliação.

Para computar a distância que separa esse navio da praia, deverias saber qual o seu tamanho.

Pequeno e próximo? Grande e longínquo? Tua vista turva-se em dúvida, pois nenhum dos órgãos e dos sentidos que possuis te informa sobre o espaço... Caminhamos, caminhamos... Desde quando? Até onde? Tudo incerto. Nada se modifica, por mais que avancemos. O “ali” é igual ao

“aqui”, o passado é idêntico ao presente e ao futuro. Na imensa monotonia do espaço afoga-se o tempo. Onde reina a uniformidade, o movimento de um ponto a outro deixa de ser movimento.

Onde isso acontece, já não existe o tempo.

Os sábios da Idade Média afirmavam que o tempo era uma ilusão, que seu curso, entre causa e efeito, não passava do produto de um dispositivo dos nossos sentidos, e que o verdadeiro ser das coisas era um presente imutável. Terá passeado à beira-mar aquele doutor que foi o primeiro a conceber esse pensamento, saboreando nos seus lábios a leve amargura da eternidade?

Seja como for, repetimos que aqui se falou de liberdades tais como a gente se permite nas férias, de fantasias inspiradas pelo ócio da vida, e das quais o espírito decente se farta tão depressa como um homem forte, do repouso na areia cálida. Criticar os meios e as formas do conhecimento humano, pôr em dúvida a sua validade objetiva, seria absurdo, desprezível e hostil, se tal atitude se baseasse numa outra intenção além da de designar à nossa razão limites que ela não pode transpor sem incorrer em negligência para com suas próprias funções. Devemos a nossa gratidão a um homem como o Sr. Settembrini, por ter tachado a metafísica de o “mal”, ao instruir com a intransigência de um pedagogo o jovem cujo destino nos preocupa, e que ele mesmo, em certa ocasião, qualificara acertadamente de “filho enfermiço da vida”. E a melhor maneira de honrarmos a memória de determinada pessoa a quem queremos muito é declarar que o sentido, o objetivo, o fim do princípio crítico não devem nem podem ser outros senão a idéia do dever e a lei da vida. Sim, a sabedoria do legislador, traçando criticamente os limites da razão, içou, nesses mesmos limites, a bandeira da vida e proclamou como um dever militar do homem servir sob essa bandeira. Será que devemos levar a crédito de Hans Castorp e considerar como circunstância atenuante ter ele sido confirmado na sua viciosa administração do tempo e no seu perigoso namoro com a eternidade, por ver que aquilo que certo palrador melancólico chamara de

“excesso de entusiasmo” apenas conduzira o seu primo guerreiro ao exitus letalis?

Mynheer Peeperkorn

Mynheer Peeperkorn, um holandês de certa idade, esteve durante algum tempo hospedado no Sanatório Berghof, que com muita razão usava no seu prospecto o epíteto

“internacional”. Pieter Peeperkorn – era este o seu nome, e assim falava de si próprio dizendo, por exemplo: “E agora Pieter Peeperkorn vai se regalar com uma cachacinha” – era um holandês colonial, nascido em Java, um plantador de café. Sua nacionalidade um tanto desbotada mal bastaria por si só para nos decidir a introduzi-lo à última hora na nossa história. Pois, meu Deus, quanta variedade de cores e matizes não existia na sociedade do renomado instituto que o Conselheiro Dr. Behrens, com sua facúncia poliglota, dirigia como médico! Recentemente chegara até uma princesa egípcia – a mesma que em outra ocasião oferecera ao conselheiro aquele notável aparelho de café e os cigarros adornados com uma esfinge; era uma personagem sensacional, com os dedos amarelos de nicotina e enfeitados de anéis, que usava o cabelo curto e, exceção feita às refeições principais em que ostentava toaletes de Paris, trajava paletó e calças bem frisadas. De resto não se interessava pelo mundo masculino e concedia seus favores mesclados de displicência e de paixão, com exclusividade, a uma judia rumena, que se chamava simplesmente Landauer; isso embora o Promotor Paravant tivesse abandonado as matemáticas, para dedicar-se a Sua Alteza, e se conduzisse feito um idiota de tanto amor. Mas, como se a presença da princesa não fosse suficiente, achava-se no seu séquito um eunuco negro, homem doente e débil, que, não obstante seu defeito básico, do qual Karoline Stöhr gostava de zombar, parecia amar a vida mais do que ninguém e se mostrava inconsolável em face da imagem que a radiografia exibia do seu interior, depois de ter lançado luz sobre a sua negrura...

Comparado com tais figuras, Mynheer Peeperkorn poderia aparecer como que desprovido de cores. E posto que essa parte da nossa narração pudesse, tal e qual outra, anterior, ser intitulada “Mais alguém”, não há motivos para recear que entre em cena uma nova fonte de perturbações espirituais e pedagógicas. Não, Mynheer Peeperkorn absolutamente não era talhado para criar no mundo confusões lógicas. Como veremos, era homem muito diferente. Que, apesar disso, a sua pessoa tenha perturbado gravemente o nosso herói, explica-se pelo que se segue.

Mynheer Peeperkorn chegou à estação da “aldeia” no mesmo trem noturno que trouxe Mme. Chauchat, e dirigiu-se no mesmo trenó que ela ao Sanatório Berghof, em cujo restaurante jantaram juntos. Tratava-se, em suma, não somente de uma chegada simultânea, mas também de uma chegada em comum, e esse caráter comum, que continuava manifestando-se, por exemplo, no fato de Mynheer receber um lugar à mesa dos “russos distintos”, ao lado da recém-vinda, em frente ao lugar do médico, ali onde outrora o Professor Popov se conduzira daquele modo desenfreado e equívoco – esse caráter comum deixava perplexo o bom Hans Castorp, que não previra pudessem os acontecimentos tomar esse rumo. O conselheiro anunciara-lhe à sua maneira o dia e a hora do regresso de Clávdia: – Pois então, Castorp, meu velho, a fidelidade na espera será recompensada. Depois de amanhã, à noite, a gatinha estará de volta. Recebi um telegrama. – Mas nas suas palavras nada transparecera de que Mme. Chauchat não chegaria sozinha, talvez porque o próprio Behrens ignorasse que ela e Peeperkorn viriam juntos e formavam um par. Pelo menos fingiu-se surpreendido, quando Hans Castorp, no dia seguinte à chegada em comum, pediu-lhe, por assim dizer, satisfações.

– Eu também não sei dizer onde ela arranjou este – declarou. – Devem ter-se conhecido na viagem, lá nos Pireneus, suponho eu. Pois é, meu pobre e desiludido Celadon, por enquanto o senhor terá de se conformar com ele. Não há remédio. São amicíssimos; compreende? Parece que até existe comunhão de bens. O homem é imensamente rico, segundo ouvi dizer. Um rei do café, aposentado, sabe? Tem criado malaio. Estilo de vida opulento. Não veio, aliás, para se divertir.

Além de um forte catarro com base alcoólica, sofre evidentemente de uma febre maligna que contraiu nos trópicos. Uma febre intermitente, compreende? Doença mal tratada e pertinaz. É

necessário que o senhor se arme de paciência.

– Pois não – disse Hans Castorp, condescendentemente. “E tu?”, acrescentou de si para si. “Como te sentes? Afinal de contas não estás completamente desinteressado. Se não me engano muito, houve lá qualquer coisa no passado, com um viúvo de faces azuladas, que sabia pintar convincentemente a óleo. Acho que tuas palavras revelam certa alegria maliciosa, e contudo somos, em certo sentido, companheiros de infortúnio no que se refere a Peeperkorn.” –

Um tipo curioso e decididamente uma personalidade original – prosseguiu em voz alta, com um gesto displicente. – É robusto e delicado, eis a impressão que se tem dele, ou pelo menos a que eu tive hoje, quando tomamos o café da manhã. Robusto e ao mesmo tempo delicado. São esses os adjetivos que o caracterizam, segundo a minha opinião, se bem que normalmente sejam considerados contraditórios. Ele é alto e espadaúdo, isso sim, e gosta de ficar de pé, com as pernas abertas e as mãos enterradas nos bolsos da calça, que são verticais... Achei necessário mencionar que nas calças dele os bolsos afundam verticalmente e não se encontram aos lados, como nas minhas, nas do senhor e nas da maioria das pessoas pertencentes às classes superiores da sociedade... E quando ele se mantém nessa posição e fala guturalmente, à maneira dos holandeses, não há como negar que tem aspecto robusto. Mas seu cavanhaque é ralo; embora comprido, é tão ralo que bem se poderia contar-lhe os fios. Também os olhos são pequenos, apagados e quase sem cor. Que se pode fazer? Não lhe adianta arregalá-los constantemente; com isso só cria rugas pronunciadas na testa, que lhe sobem pelas têmporas e atravessam em sentido horizontal a fronte, essa fronte alta e vermelha, emoldurada por cabelos brancos, que são igualmente compridos e ralos. Mesmo que os arregale assim, os olhos continuam pequenos e apagados. E o colete de peito alto lhe imprime um cunho de clérigo, apesar da sobrecasaca xadrez. Bem, é essa a impressão que tive hoje de manha.

– Estou vendo que o senhor o examinou atentamente – respondeu Behrens. – Estudou o homem em todas as suas particularidades, o que me parece muito acertado, uma vez que o senhor terá de habituar-se à sua existência.

– Pois é, devemos habituar-nos – disse Hans Castorp.

Deixamos a seu cargo a descrição aproximada da figura do novo e inesperado hóspede, e ele não se desincumbiu mal da sua tarefa. Nós mesmos, provavelmente, não teríamos obtido melhor resultado. Verdade é que seu posto de observação era sumamente favorável. Como sabemos, Hans Castorp avizinhara-se, durante a ausência de Clávdia, da mesa dos “russos distintos”; visto a sua ficar paralela à outra, que apenas avançava um pouco mais em direção à porta do avarandado, e visto Hans Castorp tanto como Peeperkorn ocuparem as pontas dirigidas para o interior da sala, achavam-se, por assim dizer, colocados lado a lado, o nosso herói um pouco atrás do holandês, o que facilitava uma inspeção discreta, enquanto enxergava obliquamente diante de si o rosto de Mme. Chauchat a três quartos. Para completar o talentoso esboço de Hans Castorp, poderíamos acrescentar que Peeperkorn tinha o bigode raspado, o nariz grande e carnudo, e a boca igualmente grande, com os lábios irregulares, como que gretados.

Apesar de as mãos serem bastante largas, as unhas eram compridas e pontudas. Quando Peeperkorn falava – o que fazia quase sem cessar, embora Hans Castorp não conseguisse entender claramente o conteúdo das suas palavras –, servia-se dessas mãos para gestos elegantes, que mantinham os ouvintes em suspenso, esses gestos delicadamente matizados, esmerados, precisos e nítidos que revelam a cultura de um diretor de orquestra; curvava então o dedo indicador, para que formasse um círculo com o polegar, ou estendia a mão espalmada – larga, mas de unhas pontudas – num movimento protetor, tranqüilizante, que exigia atenção. Contudo, a atenção sorridente que ele conquistava era logo transformada em decepção pela vagueza das exposições tão intensamente preparadas. Ou melhor: não era transformada em decepção, mas em uma alegre surpresa, pois o vigor, a fineza, a ênfase dos preparativos não somente substituíam com perfeição, e ainda posteriormente, aquilo que faltava, mas eram em si satisfatórios, interessantes e mesmo preciosos. Às vezes nem sequer chegava a pronunciar palavras. Acontecia-lhe pôr suavemente a mão sobre o antebraço de seu vizinho da esquerda, um jovem sábio búlgaro, ou de Mme. Chauchat, à sua direita; depois erguia a mesma mão obliquamente, reclamando silêncio e curiosidade para o que desejava dizer; franzia então as sobrancelhas a tal ponto que as rugas que desciam em ângulo reto da testa para as comissuras exteriores dos olhos se aprofundavam como numa máscara, e baixava o olhar sobre a toalha, ao lado da pessoa assim agarrada, enquanto os lábios grandes e gretados pareciam dispostos a formular qualquer coisa altamente importante. Alguns instantes após, porém, afrouxava a respiração e renunciava a falar, dando, por assim dizer, o comando “Descansar armas!” Sem ter proferido palavra alguma, tornava a ocupar-se com o seu café, que mandava fazer especialmente forte, e que lhe serviam na sua própria cafeteira. Depois de ter bebido, procedia da seguinte maneira: com um gesto de mão coibia a conversa, obtendo silêncio, assim como um regente faz calar a confusão dos instrumentos que estão sendo afinados e procura, por meio de um mando imperioso, concentrar a orquestra, a fim de começar uma peça. Sua cabeça grande, rodeada de labaredas de cabelos brancos, com os olhos sem cor definida, as poderosas rugas da fronte, o comprido cavanhaque e a boca desnuda e dolorida, eram indiscutivelmente impressionantes, de modo que todos costumavam obedecer-lhe ao gesto. Os comensais emudeciam, olhavam-no sorrindo, esperando, e aqui ou ali havia quem lhe desse um sinal alentador. E Peeperkorn dizia numa voz bastante abafada:

– Senhoras e senhores. Muito bem. Tudo vai bem. Queiram, no entanto, observar e não perder de vista em nenhum momento, que... Nada mais sobre este ponto... O que me cumpre declarar não é aquilo, mas principal e exclusivamente o seguinte: temos o dever... É de uma forma inelutável... Repito e faço questão de usar essa expressão: é de uma forma inelutável que se reivindica de nós... Não, senhoras e senhores, não! Esse não é o sentido... Não me interpretem como se eu... Que erro grave não seria pensar que... Basta, senhoras e senhores! Basta amplamente! Sei que estamos de acordo sobre todas essas questões, e por isso entremos no assunto!

Não dissera nada, mas a majestade da sua cabeça parecia tão indiscutível, o jogo de fisionomia e a gesticulação eram de tal modo enérgicos, imponentes, expressivos, que todos, inclusive Hans Castorp, empenhado em escutar, criam ter ouvido algo de grande peso, ou, se é que se davam conta de que o discurso carecia por completo de conteúdo e de coerência, não se ressentiam dessa falta. Seria interessante saber qual teria sido a reação de um surdo. Talvez ele se

afligisse, porque a apresentação o faria tirar conclusões erradas quanto à alocução apresentada, e porque imaginaria perder, devido à surdez, uma informação valiosa. Tal gente é propensa à desconfiança e à amargura. Mas havia à outra extremidade da mesa um jovem chinês, que ainda não chegara a adquirir bons conhecimentos de alemão. Em certa ocasião, esse moço acabava de ver e de ouvir um desses discursos, sem compreendê-lo, e manifestou alegre satisfação exclamando “Very well!” e batendo palmas.

E Mynheer Peeperkorn “entrou no assunto”. Empertigou-se, dilatou o largo peito, abotoou a sobrecasaca xadrez por cima do colete de gola alta. Sua cabeça branca, nesse momento, lembrava um rei. Com um aceno chamou uma criada – era a anã – e esta, embora atarefadíssima, atendeu imediatamente ao sinal peremptório. Com o jarro de leite e o bule de café nas mãos, colocou-se ao lado da sua cadeira. Também ela não pôde deixar de fazer um gesto alentador, enquanto no rosto grande de velhota lhe aflorava um sorriso. Parecia toda atenção, como que imobilizada pelo olhar apagado que Peeperkorn lhe lançava de sob as poderosas rugas da testa, e por sua mão erguida, cujo indicador se reunia com o polegar, para formar um círculo, ao passo que os três outros dedos se esticavam para o alto, dominados pelas pontas de lança das unhas.

– Minha filha! – disse ele. – Bem. Por enquanto tudo vai bem. Você é pequena. Não há de ser nada. Pelo contrário. Vejo nisso uma vantagem e dou graças a Deus por você ser assim como é, e devido à sua baixa altura que é tão característica... Pois então! O que desejo da sua parte também é pequeno, pequenino, e característico. Antes de tudo, como se chama?

Ela atrapalhou-se, sempre sorrindo, e disse por fim que seu nome era Emerentia.

– Ótimo! – exclamou Peeperkorn, recostando-se à cadeira e estendendo o braço em direção à anã. Dera à exclamação um tom de quem pretende dizer: “Por que se preocupa? Tudo vai às mil maravilhas”. – Minha filha – prosseguiu então, seriamente e quase com severidade. –

Isso ultrapassa todas as minhas expectativas. Emerentia... Você pronunciou este nome com modéstia, mas ele, unido à sua pessoa... Numa palavra, isso abre as mais belas perspectivas. Vale a pena deter-se e concentrar tudo quanto o peito contém de sentimento, para que... Acho que você me entende, minha filha... Na forma familiar e abreviada pode-se dizer Rentia, mas também Emezinha soa simpático. No momento não hesito em escolher Emezinha. Muito bem, Emezinha, minha filha, preste atenção: quero um pouco de pão, minha querida. Pare! Não se afaste! Que não se insinue na nossa conversa nenhum mal-entendido! Percebo na sua cara relativamente grande que esse perigo... Pão, Rentinha, mas não pão assado. Este se acha aqui em abundância, e dos mais diversos tipos. Desejo o pão de Deus, meu anjo, pão destilado, pão transparente, minha pequena forma carinhosa, a fim de me regalar com ele. Não tenho certeza se o sentido dessa palavra lhe... Estou disposto a substituí-la por “tônico do coração”, não surgisse com isso o novo perigo de me ver interpretado com a leviandade habitual... Basta, Rentia, Basta!

Liquidado! Prefiro, consciente dos nossos deveres e das nossas obrigações sagradas... Inclusive, por exemplo, o dever moral de me regozijar cordialmente da sua característica estatura... Uma genebrinha, querida! Regozijar-me, era isso que eu queria dizer. Genebra de Schiedam, Emerentinha! Apresse-se e me traga uma.

– Uma genebra genuína – repetiu a anã e deu meia-volta, na intenção de se desembaraçar do bule e do jarro. Finalmente depositou-os na mesa de Hans Castorp, ao lado do seu talher, evidentemente para não incomodar o Sr. Peeperkorn. Foi-se correndo, e sem demora o hóspede recebeu a bebida desejada. O cálice estava tão cheio que o “pão” se derramava por todos os lados e molhava o prato. O holandês pegou-o entre o polegar e o dedo médio e ergueu-o contra a luz.

– Feito isso – declarou –, Pieter Peeperkorn vai se regalar com uma cachacinha. – E engoliu o trigo destilado, depois de o mastigar rapidamente. – E agora – acrescentou – contemplo todo o mundo com os olhos reconfortados. – Em seguida pegou da mão de Mme. Chauchat, que estava na mesa, levou-a aos lábios e recolocou-a sobre a toalha, mantendo-a ainda durante alguns instantes na sua.

Um homem singular, uma personalidade vigorosa, se bem que pouco clara. A sociedade do Berghof interessava-se vivamente por ele. Diziam que acabava de retirar-se dos negócios coloniais, depois de ter enriquecido bastante. Falavam da sua esplêndida casa em Haia e da sua vila em Scheveningue. A Srª. Stöhr qualificou-o de “magnete de dinheiro” – a infeliz queria dizer

“magnata” – e aludiu a um colar de pérolas que Mme. Chauchat, desde a sua volta, usava com o vestido de gala, e que, segundo a opinião de Dona Karoline, dificilmente podia ser considerado como sinal da galanteria de um marido caucasiano, senão que devia ter a sua origem na

“comunhão de bens”. Ao dizer isso, piscou um olho e fez um gesto na direção do seu vizinho Hans Castorp, baixando os cantos da boca, numa paródia de pesar. Nem a enfermidade nem o sofrimento haviam contribuído para refinar a Srª. Stöhr, de modo que ela se aproveitou da situação incômoda do nosso herói para seus escárnios brutais. Hans Castorp não perdeu a linha.

Corrigiu-lhe até com certa graça o lapso a que a induzira a ignorância. Ela acabava de confundir duas palavras – explicou –, queria dizer “magnata de dinheiro”. Mas o termo “magnete” também não estava mal escolhido, uma vez que Peeperkorn, evidentemente, possuía grande força de atração. Também respondeu com bem fingida indiferença à professora, Srta. Engelhart, quando esta, com um sorriso amarelo e sem o encarar, perguntou-lhe que tal ele achava o novo hóspede.

Mynheer Peeperkorn, replicou, era uma personalidade esfumada. Personalidade, sem dúvida, mas esfumada. E essa classificação precisa documentava a sua objetividade tanto como a calma do seu espírito e desconcertava por completo a professora. E quanto a Ferdinand Wehsal e à sua indireta relativa às circunstâncias inesperadas em que voltara Mme. Chauchat, Hans Castorp demonstrou-lhe que existem olhares cuja clareza inequívoca nada fica devendo às palavras mais nitidamente articuladas. “Miserável!”, dizia o olhar com que mediu de alto a baixo o homem de Mannheim; dizia-o, excluindo qualquer interpretação levissimamente ambígua, e Wehsal compreendeu esse olhar, engoliu-o e até o aprovou, meneando a. cabeça e exibindo os dentes cariados. Mas, a partir desse incidente, desistiu de carregar o sobretudo de Hans Castorp nos passeios que faziam em companhia de Naphta, Settembrini e Ferge.

“Vá lá que seja!”, pensou Hans Castorp. “Posso carregá-lo sozinho. Até prefiro fazê-lo, e era pura amabilidade minha entregá-lo de vez em quando a esse coitado.” Mas ninguém de nós pode enganar-se quanto ao fato de Hans Castorp sentir-se ferido por aquelas circunstâncias totalmente imprevistas, que aniquilavam todos os preparativos íntimos que fizera para a ocasião do reencontro com o objeto das suas aventuras carnavalescas. Ou melhor: que os tornavam supérfluos, e era isso o que mais o humilhava.

Seus propósitos haviam sido os mais delicados e sensatos. Longe dele pensar num procedimento precipitado ou importuno. Nunca tivera a intenção de ir esperar Clávdia na estação. Ainda bem que jamais tivesse ventilado tal idéia! Em todo caso ficara na dúvida se essa mulher, à qual a doença outorgava tamanha liberdade, julgaria verdadeiros os fantásticos acontecimentos de uma remota noite de carnaval, cheia de sonhos, de máscaras e de conversas em língua estrangeira, ou, ainda, se ela desejaria que isso fosse recordado de um modo direto.

Não, nada de petulâncias, nada de reivindicações impertinentes. E mesmo admitindo que as suas relações com a enferma dos olhos oblíquos houvessem ultrapassado, pela sua natureza, os limites traçados pela razão e pelas convenções ocidentais, cumpria observar, quanto às formas, a mais perfeita civilidade e, por enquanto, até a ficção do esquecimento. Um cumprimento cortês de uma mesa para a outra, e nada mais, no momento!. Mais tarde aproveitaria uma oportunidade para se aproximar com toda a discrição e para perguntar, incidentalmente, como a viajante tinha passado desde aquele dia... O verdadeiro reencontro poderia produzir-se numa ocasião oportuna e trazer consigo a recompensa dessa coibição cavalheiresca.

Mas, como já dissemos, toda essa delicadeza parecia vã nesse instante, já que deixara de ser o resultado de uma escolha livre e por isso não tinha méritos. A presença de Mynheer Peeperkorn excluía de uma forma mais que completa a possibilidade de uma tática que não consistisse em extrema reserva. Na noite da chegada, Hans Castorp tinha observado, da sacada, como o trenó subira em marcha lenta pela curva da rampa. Na boléia achava-se o criado malaio,

um homenzinho amarelado com um chapéu-coco e com uma gola de peles no sobretudo. No assento de trás, ao lado de Clávdia, instalara-se o homem estranho, com o chapéu puxado sobre os olhos. Naquela noite, Hans Castorp dormira muito pouco. No outro dia, não tivera grande dificuldade em saber o nome desse desconcertante companheiro de viagem, e como brinde lhe haviam dado a notícia de que ambos acabavam de ocupar uns aposentos luxuosos e vizinhos no primeiro andar. Viera então o café da manhã. Hans Castorp encaminhara-se bem cedo ao seu lugar e, muito pálido, esperara pelo momento em que a porta envidraçada se fechasse com estrondo. Mas isso não se realizara. A entrada de Clávdia decorrera sem ruído nenhum, pois atrás dela Mynheer Peeperkorn tinha fechado a porta. Alto, espadaúdo, com a fronte ampla e com as labaredas brancas em torno do crânio imponente, ia seguindo os passos da companheira de viagem, que, no seu costumeiro andar felino, avançando a cabeça, se aproximava da sua mesa.

Sim, era ela; não mudara em nada! Contra os seus propósitos, esquecido de tudo, Hans Castorp devorava-a com os olhos tresnoitados. Reencontrava o cabelo ruivo, penteado sem muita arte e enrolado, numa trança simples, em volta da cabeça; revia os “olhos de lobo de estepe”, a curva da nuca, os lábios que pareciam mais cheios do que eram em realidade, devido àquelas maçãs acentuadas que produziam uma graciosa concavidade das próprias faces... “Clávdia!”, pensou Hans Castorp estremecendo, e fitou o desconhecido, com a cabeça atirada para trás, num gesto de desafio e de mofa em face da grandiosidade teatral do seu aspecto; fê-lo exortando o próprio coração a que não levasse a sério o poderio de uma posse cuja segurança era posta em dúvida por certos fatos do passado; e tratava-se de fatos reais, não de coisas vagas, obscuras, acontecidas no terreno da pintura diletante, como aquelas que outrora haviam sido capazes de inquietá-lo...

Mme. Chauchat também conservara aquele hábito de exibir-se sorrindo a toda a sala, antes de se sentar, como para apresentar-se à sociedade, e Peeperkorn secundava-a, deixando que Clávdia celebrasse a pequena cerimônia, enquanto ele se mantinha de pé atrás dela, antes de se instalar, a seu lado, à extremidade da mesa.

Não houvera oportunidade para um cumprimento cortês de uma mesa para a outra.

Quando da “cerimônia de apresentação”, os olhos de Clávdia tinham vagueado para além da pessoa de Hans Castorp e da parte da sala onde ele se achava, em busca de regiões mais distantes.

Continuar: parte 2 de 3