A Paciência
Querendo edificar uma torre
“Que resposta podemos dar a essas palavras?” – perguntava-se Frankl. E a seguir, com vibrações de descoberta, explica a nova luz que se acendeu nele e que procurou transmitir aos outros:
“Do que realmente precisamos é de uma mudança radical da nossa atitude perante a vida. Temos que aprender nós mesmos, e depois ensinar aos desesperados, que na verdade não é importante o que nós esperamos da vida; importante é o que a vida espera de nós”.
Numa noite em que um corte de luz mergulhou os prisioneiros numa depressão ainda maior, Frankl, embora gelado e sonolento, irritado e cansado, sentiu que era preciso fazer alguma coisa para infundir ânimo àqueles pobres farrapos humanos que já desistiam da vida. Levantou-se, então, e falou. Expôs com veemente ardor a sua descoberta. E essa idéia de que a vida tem um sentido infinitamente superior ao de simplesmente satisfazer desejos, obter coisas, passar bem, gozar de boa saúde, invadiu, como um clarão de esperança, aqueles corações agoniados.
Entenderam que Deus, a esposa, os filhos, os amigos, o mundo esperavam deles (deles que pareciam animais acuados, prestes a serem levados para o matadouro) um testemunho – na vida ou na morte – de que o ser humano foi feito para algo muito maior do que comer, beber, gozar, rir na fortuna e chorar na adversidade. Deus e os outros esperavam algo que só cada um deles, com grandeza de alma, podia dar. Deus e o mundo “precisavam” de cada um deles!
Esta concepção da vida, como é óbvio, opõe-se frontalmente à atitude egoísta acima descrita. É a outra possível vertente da nossa existência. A única verdadeira. A vida só pode ser encarada como uma missão a cumprir, que nos é confiada por Deus, como uma edificação de que somos responsáveis e de que outros dependem. Não vivemos para obter; vivemos para edificar.
QUERENDO EDIFICAR UMA TORRE
O próprio Cristo utiliza a imagem da edificação para falar de nós. Diante do seu futuro, o homem é um construtor. Deus facilita-lhe o material, desvenda-lhe aos poucos as linhas mestras da “obra” a ser realizada e estende-lhe a mão para ajudá-lo na tarefa. Mas cada qual é responsável por fazer a obra bem feita. Quem de vós, se quiser edificar uma torre, não se senta primeiro e calcula…? (Lc 14, 28).
Aprofundando na imagem da edificação, Cristo diz-nos ainda como se deve fazer o cálculo, qual é a garantia de que a construção será sólida e indestrutível: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente que edificou a sua casa sobre rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa: ela, porém, não caiu, porque estava edificada sobre rocha (Mt 7, 24-27).
Construir sobre rocha, fazer uma edificação que nenhuma contrariedade – vento ou chuva, tremores ou enchentes – possa abalar, só se consegue quando o alicerce sobre o qual se levanta é a palavra de Cristo: Aquele que ouve as minhas palavras e as põe em prática…
É a palavra, é a mensagem de Cristo que indica a “mão de direção” que Deus quer deixar sinalizada no coração dos homens: a mão do Amor. Amar a Deus de todo o coração, com toda a alma e com todas as forças; amar o próximo como a nós mesmos, mais ainda, como Cristo nos amou – ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15, 13) –, este é o alicerce, este é o pilar firmíssimo, esta é a “mão de Deus”! Quando se vai por ela, descobre-se que a única coisa que a vida e as pessoas nos estão pedindo a toda a hora é amor: amor consistente na aceitação confiante da Vontade de Deus e da sua Cruz santa; ou amor que aprenda, num crescendo que nunca termina, a compreender os outros, a desculpá-los, a perdoá-los, a servi-los, a dar-se sem cálculos nem mesquinharias.
Quando nos decidimos a enveredar por essa senda, ficamos pasmados ao perceber que cada vez há menos coisas que nos pegam na contramão e nos fazem perder a paciência. E isto é assim porque cada vez se torna menor o egoísmo que trafega em sentido contrário ao do amor.