A Paciência

Francisco Faus · Capítulo 15 de 23

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A Paciência

Tudo cabe num sorriso por amor a Deus

Não é que tudo fosse um mar calmo à sua volta, nem que ele – homem de temperamento vivo, sensível e ardente – fosse impassível. Mesmo sem conhecermos muitos detalhes, todos nós tínhamos noção das dificuldades grandes que o Padre – assim o chamávamos – tivera e tinha que enfrentar para levar a Obra de Deus para a frente. Sabíamos em parte, ou imaginávamos saber, o calibre das provações e sofrimentos por que Deus permitiu que passasse, forjando-lhe assim a têmpera do santo: incompreensões dolorosas, incríveis calúnias, perseguições, carência absoluta de meios materiais… Contradições brutais, que acabaram por deixar a sua farpada na saúde do Padre. Desde os anos quarenta, de fato, padecia de uma séria diabete mellitus. Mas, se alguém nos perguntasse: – “Como vai a saúde do Padre?”, teríamos respondido, com a maior naturalidade: – “Ora, graças a Deus, vai muito bem”.

E, com efeito, era assim mesmo que víamos o Fundador: muito bem. Todos os dias nos deixava a imagem de um homem cheio de Deus e pletórico de humanidade, transbordante de alegria e de dinamismo.

TUDO CABE NUM SORRISO POR AMOR A DEUS

Por isso, a todos nos surpreendeu, como um choque inesperado, a notícia de que tivemos conhecimento na primavera de 1954. O Padre, no dia 27 de abril, estivera a ponto de morrer. Uma crise de saúde muito forte só não o levara por um triz.

Perguntávamo-nos, no primeiro momento, que tipo de achaque podia tê-lo acometido. Nem nos passava pela mente a idéia de que poderia ter sido – como de fato foi – uma crise devida à própria diabete. Para nós, “diabete” era uma palavra ouvida alguma vez, mas já arquivada no esquecimento. Nada notávamos, o Padre de nada se queixava nem com a palavra nem com a expressão do rosto e, por isso, nada nos preocupava. Não sabíamos que, na verdade, durante todos aqueles meses felizes, vividos junto de um Padre que irradiava dinamismo e felicidade, Mons. Escrivá estivera atravessando uma das piores fases da sua doença.

Assim descreve Vázquez de Prada o que na realidade se estava passando naquele período:

“Trabalhava e mexia-se como se estivesse bem de saúde: sem o cansaço que o medo produz, livre da psicose de febre que amiúde excita os enfermos ou os deprime. Para o caso de que chegasse em qualquer momento a sua hora, tinha tomado precauções. Fez colocar uma campainha junto da cabeceira da sua cama, para pedir os sacramentos. Deitava-se com a mente posta em Deus: Senhor – dizia –, não sei se me levantarei amanhã; dou-te graças pela vida que me deres e estou contente de morrer em teus braços. Espero na tua misericórdia.

“Custava-lhe sorrir; mas os seus filhos recordam-no sempre com o sorriso nos lábios. A doença deparava-lhe surpresas variadas: um dia, não se tinha em pé; outro, sobrevinha-lhe uma infecção furibunda; na semana seguinte, falhava-lhe o olho direito…

“Tomava com alegria e paciência as peças que lhe pregavam as suas indisposições […]. Nas viagens, não tinha outro remédio senão carregar com o seu pequeno arsenal de botica. Assim andaram as coisas, até que o Dr. Faelli resolveu tentar uma variante no tipo de medicação, prescrevendo-lhe insulina retardada. O pe. Álvaro, que conhecia perfeitamente o tratamento, as quantidades e o seu efeito, acertou a nova dose. Tudo andou bem por dois ou três dias, embora seja possível que o enfermo se tivesse sensibilizado com a mudança”[Andrés Vázquez de Prada, O Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1989, págs. 325-326.].

O que nós, afinal, ficamos sabendo foi que no dia 27 de abril, festa de Nossa Senhora de Montserrat, após receber a dose diária de insulina, o Padre se sentou à mesa com o pe. Álvaro del Portillo. De repente, o seu rosto ficou rubro, depois violáceo e, finalmente, invadido por uma palidez cadavérica. A custo, antes de ficar desacordado, tinha pedido ao pe. Álvaro a absolvição. Ele próprio nos relatava depois (só no-lo contou quando já estava bom e não podia causar-nos preocupação), que naquela hora teve a nítida sensação de que ia morrer. Acrescentava, com o seu indelével bom humor, que, quando conseguira ver-se no espelho, após umas horas de cegueira, tinha comentado ao pe. Álvaro: “Já sei que aspecto terei quando morrer…”

Deus, em sua bondade, não só o livrou da morte nessa hora de grave crise, como o presenteou com uma rápida recuperação e, o que é mais, com o inexplicável desaparecimento da diabete que, simplesmente, deixou de manifestar-se a partir daquele dia. Ficou curado.

Neste episódio todo, algo se nos revelou com absoluta nitidez, com inequívoca evidência: tínhamos vivido, dia após dia, com um Mons. Escrivá doente, afetado por forte mal-estar físico, muitas vezes cansado, esgotado, e nada disso tinha transparecido no seu porte, no seu rosto, no seu gesto, na sua conversação.

As nossas impressões daqueles dias, expressou-as muito bem um dos que lá estavam em 1954, o português Hugo de Azevedo, na biografia que dedicou bastantes anos mais tarde ao Beato Josemaría, com o título de Uma luz no mundo. Devo dizer que as suas impressões pessoais coincidem, ao pé da letra, com as minhas e as dos outros que estávamos lá:

“O que é admirável para quem, como eu, conviveu com ele nessa época, é não nos termos dado conta de nada, é não recordarmos qualquer diferença de disposição, de vitalidade, de alegria. Dera-nos dias antes duas meditações diárias durante um retiro, na Semana Santa, e com que vibração nos impulsionava à luta interior e ao apostolado!”[Prumo-Rei dos Livros, Lisboa, 1988, pág. 256.]

TER A CRUZ É TER A ALEGRIA

Tudo isto é, certamente, admirável, e o foi para nós na época. Agora, com o conhecimento mais aprofundado da vida do Bem-aventurado Josemaría Escrivá, é preciso dizer que, embora seja muito admirável, não é surpreendente, pois na vida santa do Fundador do Opus Dei a paciência heróica, no meio de muitos padecimentos físicos e sobretudo morais, foi uma constante, uma santa “rotina”.

Referindo-se a alguns momentos da década de 1940, em que as dolorosas investidas – sobretudo as calúnias – recrudesciam, ele próprio confidenciaria anos mais tarde:

“Para nos tornar mais eficazes, Deus Nosso Senhor abençoou-nos com a Cruz […]. Foram anos duros, porque faziam chegar essas calúnias até o mais alto da Igreja, semeando desconfianças e receios para com a Obra. Eu calava-me e rezava […]. Chegou um momento em que tive de ir uma noite ao sacrário, a dizer: Senhor – e custava-me, custava-me… e me caíam umas lágrimas!… –, se Tu não precisas da minha honra, eu para que a quero?”[Salvador Bernal, Perfil do Fundador do Opus Dei, Quadrante, São Paulo, 1978, págs. 333, 334 e 371.]

Paciência é isso! Um grande amor que sabe sofrer e que, justamente por ser amor, sofre com generosidade, com grandeza, com desprendimento total de si mesmo e aceitação plena da Vontade de Deus, com abandono nas mãos do Pai e com alegria. Que bem no-lo ensinava Mons. Escrivá! É por isso que os textos que contêm a sua mensagem, para os que pudemos conhecê-lo de perto, são verdadeiros latejos da sua própria alma, sangue das suas veias. Passava para o papel o que vivia ardentemente. Daí que nos seja impossível ler com frieza, como se fossem apenas exortações piedosas ou exposições doutrinais, textos como os seguintes:

“Ter a Cruz é ter a alegria: é ter-te a Ti, Senhor!” “Quando se caminha por onde Cristo caminha; quando já não há resignação, mas a alma se conforma com a Cruz – se amolda à forma da Cruz –; quando se ama a Vontade de Deus; quando se quer a Cruz…, então, mas só então, é Ele quem a leva”.

“Sinais inequívocos da verdadeira Cruz de Cristo: a serenidade, um profundo sentimento de paz, um amor disposto a qualquer sacrifício […], e sempre – de modo evidente – a alegria: uma alegria que procede de saber que, quem se entrega de verdade, está junto da Cruz e, por conseguinte, junto de Nosso Senhor”.

Ou ainda expansões como a desta confidência pessoal: “Quando vos falo de dor, não vos falo apenas de teorias […]. A doutrina cristã sobre a dor não é um programa de consolos fáceis. É, em primeiro lugar, uma doutrina de aceitação do sofrimento, que é de fato inseparável de toda a vida humana. Não vos posso ocultar – com alegria, porque sempre preguei, e procurei viver, que onde está a Cruz está Cristo, o Amor – que a dor tem aparecido frequentemente na minha vida…”[Cf. Forja, Quadrante, São Paulo, 1987, ns. 766, 770, 772; e Vázquez de Prada, obra citada, pág. 269.]