A Paciência

Francisco Faus · Capítulo 4 de 23

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A Paciência

O Estojo do Mundo

Importa insistir nisto porque é muito comum, hoje em dia, considerar como modelos de paciência comportamentos mansos (sem ira nenhuma) que, na realidade, são exemplos da mais perversa impaciência. Refiro-me, por exemplo, ao caso, tristemente trivial, de casais que se separam, após poucos ou muitos anos de matrimónio e, fazendo alarde de uma pretensa “maturidade”, se gabam de que “não brigaram”, não quiseram nem ouvir falar em separação litigiosa, e entraram em acordo “como gente civilizada” (acomodando suave e serenamente os seus dois egoísmos).

Por trás de tanta calma, o que é que houve? Vejamos de perto, e logo perceberemos que existiu uma elementar incapacidade de sofrer, de aceitar e superar com generosidade as contrariedades e divergências normais de uma vida a dois. Ou seja, houve a mais pura impaciência, uma impaciência radicalmente egoísta que, por apresentar-se cinicamente calma e sorridente, é especialmente abjeta. Costumam ter maior grandeza de coração e de caráter – e mais conserto – os que cometem o erro de separar-se arrastados por uma erupção vulcânica de raiva, de ira, de amor-próprio ferido. A ira, às vezes, é apenas um sinal de fraqueza. Mas a infidelidade fria e calculista é sempre o retrato do egoísmo.

Mas deixemos a ira para outra ocasião, e tentemos enfronhar-nos na impaciência, que é o tema que agora nos ocupa. E, antes de mais, como começo de conversa, será preciso reconhecer que todos nós, de um modo ou de outro, padecemos deste mal. Ninguém escapa. Por isso, será interessante procurarmos descobrir por que e como é que nos impacientamos, a fim de enxergarmos melhor os caminhos que nos podem conduzir à paciência, essa virtude tão amada, tão desejada e tão pouco praticada.

O ESTOJO DO MUNDO

OS BELOS ESTOJOS

O leitor há de concordar comigo em que uma das coisas mais belas do mundo é um bom estojo. Ainda há poucos dias, ficava eu extasiado diante do estojo deslumbrante de uma caneta alemã. É verdade que era dez vezes maior do que a caneta, mas seus brilhos nacarados, sua pátina ambarina, e sobretudo o veludo roxo azulado – macio e aristocrático – do interior, onde a caneta dourada se encaixava à perfeição, eram de deixar de queixo caído.

Todos nós já admiramos, provavelmente, a beleza e o ajuste preciso do estojo de um relógio novo, de uma flauta reluzente, de uma jóia… Haveria matéria para escrever um livro inteiro sobre as maravilhas dos estojos. E, como é lógico, nesse livro não poderia faltar, por contraste, um capítulo dedicado aos maus estojos. Como é desagradável um estojo ruim, em que o objeto guardado dança, chocalha com um barulho irritante e acaba por estragar-se a si mesmo e estragar os nossos nervos.

Mas todas estas digressões sobre estojos, que têm a ver com a paciência?

– Desculpe – haveria de responder a quem fizesse essa pergunta –, talvez eu tenha posto o carro à frente dos bois. Só um pouco de paciência – estamos nisso –, e daqui a nada vamos ver que estojo e paciência são duas coisas muito relacionadas.

Para isso, basta que pensemos se não é verdade que um dos nossos desejos mais íntimos é que o mundo (a vida, as coisas, os acontecimentos e as pessoas) funcione como um estojo aveludado e perfeitamente modelado, em que se encaixem sempre suavemente, sem colisões nem atritos, os nossos sonhos, os nossos desejos, os nossos caprichos, as nossas manias e até mesmo os nossos defeitos.

Ah, se tudo na vida fosse assim! Para o meu mau humor, o estojo de cetim da compreensão dos outros; para a minha doença, o estojo de seda de um serviço público de saúde com a aparelhagem funcionando e sem filas; para o meu trabalho, o estojo adamascado de chefes que me louvem e subordinados que em tudo me obedeçam; e, lá em casa, o veludo amabilíssimo dos filhos dóceis e agradecidos, sempre prontos a sussurrar com um sorriso carinhoso: – “A mamã e o papá têm razão”, e o de um marido ou uma mulher que, sem pensarem em problemas e cansaços pessoais, só saibam dizer, com o olhar mais terno: – “Querido(a), que gostaria de fazer hoje?”