A Paciência

Francisco Faus · Capítulo 2 de 23

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A Paciência

Introdução

 

O HOMEM NA CALÇADA

O homem estava ali, perto de nós – de mim e de um meu amigo –, na mesma calçada, a uns vinte metros de distância. Era um sessentão de estatura mediana e puxava para gordo. Chamava a atenção porque gesticulava com invulgar veemência. Dava para perceber, mesmo de longe, que se lhe contraíam as feições. De súbito, elevou fortemente a voz, e então chegou até nós uma frase perfeitamente audível:

– Tenha a santa paciência!

Nada havíamos captado, nem eu nem o meu amigo, da agitada conversação anterior. Mas uma certeza nos ficava: aquele homem acabava de perder a paciência, que devotamente invocava como “santa”.

Era evidente que o homem gordo não tinha gostado de alguma coisa de que lhe falara o seu interlocutor. E o pedido de que tivesse santa paciência – explodido num desabafo – fora sem dúvida provocado por uma contrariedade: o outro afirmara, narrara ou defendera algo que o tinha aborrecido, que o tinha contrariado. Sempre são as contrariedades que nos fazem perder a paciência. Como é lógico, nunca nos impacientamos quando tudo nos sorri e se amolda aos nossos desejos.

Se prestarmos atenção, poderemos observar que, na nossa linguagem comum, a perda da paciência anda sempre associada a alguma coisa difícil de aceitar, de aturar, de “engolir”, de sofrer: “Haja paciência para aguentar isso”, “Aquilo já está saturando as paciências”, “É a gota de água…”, dizemos. E é claro que, com isso, estamos falando de algo desagradável, que nos aborreceu; quase sempre, de uma pessoa ou de uma situação que nos vem contrariando ou incomodando desde há um certo tempo. Perante a adversidade instantânea (como a agressão verbal de um motorista – “domingueiro!” – que passa por nós em alta velocidade), não caímos propriamente na impaciência, mas – como veremos logo – na ira.

TRÊS CONTRARIEDADES E DUAS REAÇÕES

Se pensarmos um pouco, analisando o que se passa conosco, perceberemos que costumamos padecer de três tipos de contrariedades e que, em face delas, temos dois tipos de reações.

Existem as contrariedades provocadas pelos outros: eles têm aqueles modos desagradáveis de falar, de olhar ou não olhar, de retrucar ou não responder, de esquecer ou estar lembrando-nos certas coisas a toda a hora, de dirigir o carro – dirigir? –, de se atrasar, de impor… Existem depois as contrariedades procedentes de nós mesmos: “Não me aguento, voltei a deixar a chave de casa no escritório!”, “Por que sempre gaguejo ao falar na sala de aula?”, “Não consigo contar uma piada que faça rir a ninguém!” E, por último, as que decorrem das circunstâncias: “Já faz sete meses que estou sem emprego!”, “Desde que apanhei aquela bronquite, nunca mais deixei de tossir!”, “Justamente quando fui tirar férias, veio aquela frente fria estacionária e não parou mais de chover!”

De fato, quase todas as contrariedades se enquadram em algum desses três capítulos.

Ora, ao lado dessas três espécies de contrariedades, existem, como mencionávamos acima, dois modos diferentes, ainda que muito “aparentados”, de reagir. Vale a pena focalizá-los.

O primeiro modo é a impaciência. É preciso dizer desde já que a impaciência, em si mesma, na sua essência mais íntima, consiste em não saber sofrer. Precisamente a palavra paciência deriva do verbo latino pati, que significa padecer. Por isso, a virtude da paciência é a capacidade de padecer dignamente, a arte de sofrer bem, e mais concretamente a paciência cristã é a virtude que nos dá, com a graça divina, a capacidade de sofrer, de suportar as contrariedades e a dor – especialmente quando se prolongam – com fé, esperança e amor.

Uma vez esclarecido isto, pode também ficar claro que a irritação, a brusquidão, a raiva ou a cólera não fazem parte, propriamente falando, da impaciência – ainda que muitas vezes a acompanhem –, mas da ira. É bem verdade que a ira – a que nos referiremos daqui a instantes – e a impaciência convivem muitas vezes no nosso dia-a-dia como duas irmãs siamesas. Mas é útil não perder de vista, na leitura destas páginas dedicadas à paciência, que a impaciência se dá – mesmo que não se faça acompanhar de nenhuma emoção ou explosão – simplesmente quando não sabemos aceitar ou aceitamos de má vontade aquilo que nos contraria ou nos faz sofrer.