A Paciência
Estojos desajustados
Que fantástico um mundo-estojo assim! É melhor nem pensar nele porque, depois, ao abrirmos os olhos à realidade, ficaríamos aborrecidos. De qualquer modo, é indiscutível que, se o mundo fosse o nosso suave, ajustadinho e macio estojo sob medida (incluindo-se nessa “medida” também os auxílios imediatos de um Deus tão “bom” que nos fizesse sempre as vontades), a impaciência desapareceria do mapa e deveria ser apagada dos dicionários.
ESTOJOS DESAJUSTADOS
Mas, uma vez que não vivemos no País das Maravilhas, como Alice, e sim na Terra dos Homens de que falava Saint-Exupéry, forçoso é que reconheçamos que a toda a hora o estojo do mundo falha, magoa, não abre, não fecha e desajusta-se ou desengonça-se. E então a impaciência começa a brotar, a crescer, e a dar os seus, digamos, “frutos” (os já referidos lamentos, tristezas, reclamações e quejandos).
As formas de desajuste e inadaptação ao estojo da realidade, isto é, as impaciências do dia-a-dia, são tão ricas em número como as espécies de insetos num livro de entomologia. Bastaria observar com um pouquinho de atenção retalhos de um único dia na vida de qualquer família normal para podermos elaborar um volumoso dicionário de impaciências. Lembremos algumas das mais corriqueiras, a título de exemplo e só para mencionar o que Nelson Rodrigues chamaria o “óbvio ululante”.
O papá acorda mais cedo e vai preparar o café (ofício cada dia mais masculino). Primeira “maçada”, naquela hora de olhar estremunhado e nervos mal temperados: da torneira não sai um pingo d'água, porque é dia de corte devido à estiagem; e o pior é que o jornal tinha avisado, e já é a quarta vez que se esquece disso num mês. Segunda “contrariedade”: a menina, após a explosão de um estrondoso rádio-despertador e mais três séries de violentas batidas da mãe na porta do quarto, continua a dormir, e o pobre progenitor de emprego ameaçado, que já está atrasado para o serviço, vai ter que deixá-la antes, a ela e ao Rodrigo, na escola. Ó estojo mal ajustado! O dia já começa, como diria Guimarães Rosa, com “o mundo à revelia”!
Mas o que começa, continua. Quando o aflito pai ia ligar para o escritório, avisando que uma emergência o impediria de participar da primeira reunião, o imprescindível telefone, tão necessário, está ocupado. Por quem? Pela filha mais velha, é lógico, que já leva vinte minutos na sua primeira conversa do dia com o namorado. “Sempre é assim!”, desabafa o pobre pai aborrecido. Mas a maçada dura quinze minutos mais, mínimo regulamentar para completar o horário do matutino namoro. O estojo continua sem funcionar.
E quando por fim o homem, esfalfado antes de ter começado a trabalhar, consegue sair à rua com o velho carro usado, adquirido a preço camarada de um colega, os olhos batem instantaneamente no pára-lama afundado…, e a última que pegou no carro foi a mulher. – “Mais uma vez, outra vez!”, exclama o nosso protagonista, praticando sem o saber um ato teologicamente perfeito de impaciência.
Será, porventura, preciso acrescentar que, ao conseguir entrar na avenida, com um barulhinho no motor que deixa o coração em sobressalto, o trânsito está parado? O engarrafamento é monumental, fora do comum – que é comum mesmo –, devido a uma camioneta que se enfiou de frente no canteiro central e está atravessada na pista. – “Mais essa! E depois dizem que não existe a lei de Murphy!”
Se quiséssemos continuar pintando esse quadro escuro de contrariedades cotidianas, não poderia faltar uma referência aos comentários mordazes dos colegas de escritório, porque o clube dele “mais uma vez” perdeu, nem faltaria a queixa contra o infernal barulho da rua que tanto dificulta trabalhar; e assim, após inúmeros aborrecimentos, veríamos o nosso homem chegar a casa num tal estado de ânimo que qualquer pergunta da mulher lhe pareceria uma ofensa.
Poderíamos, sim, pintar este quadro, mas – ainda que tivesse um fundo realista – seria completamente falso. A verdade é que, salvo em raros dias que são exceção, a vida não se compõe de uma sequência ininterrupta de contrariedades. Graças a Deus, há também muitas satisfações e muitas alegrias e, normalmente, para quem não estiver cego, o mais justo é terminar o dia fazendo uma enorme lista de bênçãos recebidas de Deus, de males e perigos evitados, de proteções “descaradas” dos Anjos da Guarda, além de muitos detalhes simpáticos do próximo, de modo que o coração sinta a necessidade de elevar uma emocionada ação de graças. Se fôssemos sinceros, veríamos que o elenco das bênçãos – tão belas como habituais – é normalmente bem superior ao das contradições.