A Paciência
Obter e Edificar
Para mencionar outro exemplo: não pertenceremos por acaso à turma especializada dos que jamais admitem interrupções? Estão “na deles” e dali não saem. Por mais que um filho, ou a esposa ou qualquer outra pessoa precise da sua atenção, da sua palavra ou da sua ajuda, o “homem-intrinsecamente-ocupado-em-suas-coisas-muito-importantes” vai limitar-se a “responder”, impaciente, com um olhar de poucos amigos, unido a um ronco gutural ininteligível, mas perfeitamente interpretável.
E, ainda, não pertenceremos talvez àquele outro rol de pós-graduados, conhecido como “a turma dos impacientes mascarados”, que já apareciam acima divorciando-se? – “Sou muito paciente, dizem esses mascarados. Não brigo nunca!” Mas sempre, sistematicamente, fogem, lisos como uma cobra d'água, de enfrentar questões difíceis e aborrecidas (uma conversa a fundo com o filho, muito necessária), de aceitar compromissos (fazer oração diariamente, ler um livro de formação cristã) ou de assumir responsabilidades (colaborar habitualmente num trabalho assistencial). A razão disso não está nem na falta de tempo nem na falta de habilidade, mas no fato puro e simples de que “não querem saber”, “não querem ter trabalho”, ou seja, não querem sofrer. E eis neste caso a impaciência em estado quimicamente puro, em forma de uma completa falta de generosidade para aceitar com fé, esperança e amor “o que contraria”, aquilo de que “não gostamos”, isto é, o sacrifício e o sofrimento que Deus nos pede para acolher.
OBTER E EDIFICAR
A MÃO E A CONTRAMÃO
– Isso atingiu-me em contramão! – diz o impaciente contrariado.
Tem razão. Aquilo foi-lhe de encontro e o atingiu, chocando-se com os seus desejos, com a sua tranquilidade ou com o seu bem-estar.
Mas, ao escutarmos essa sua queixa, seria lógico que lhe perguntássemos:
– E… qual é a sua mão?
Em matéria de paciência, talvez seja esta a pergunta fundamental, a que melhor nos pode conduzir àquele “algo” que mencionamos acima e que é a verdadeira causa das nossas impaciências.
Todos temos mão e contramão na vida. A mão é o objetivo para o qual se orientam principalmente os nossos desejos, as nossas lutas, as nossas ambições, as nossas esperanças de realização e de felicidade. Essa orientação fundamental é a autêntica diretriz do nosso coração, das nossas reflexões, dos nossos devaneios e dos nossos empenhos.
Constatamos esta realidade em nós e nos outros. E, ao mesmo tempo, verificamos que essa orientação fundamental varia de um homem para outro. Mais ainda, que a mão dessa direção de vida tem sentidos contrários, conforme as pessoas. Um professor universitário, entusiasmado com as suas pesquisas, não pode viver sem os seus livros e o seu estudo, chegando a sacrificar indevidamente a esse ideal científico até a saúde e a família. Pelo contrário, um estudante vadio não consegue viver nem conviver com os livros e o estudo. O contraste é ainda mais marcante se entramos a fundo nas questões em que se enraízam o sentido e o valor da vida. Para um santo, um mundo sem Deus seria uma noite horrenda, a quinta-essência do inferno. Para um agnóstico, Deus é perfeitamente dispensável, e todas as coisas estão niveladas pela mesma indiferença.
Se procurarmos meditar na vida, e conseguirmos lucidez suficiente para pensá-la em profundidade, perceberemos que todas as atitudes básicas, todas as orientações “de fundo”, todas as “mãos”, se reduzem, em último termo, a duas, que podem ser enunciadas em duas palavras: obter e edificar.