A Paciência
À procura do criminoso
Isto, porém, não elimina o fato de que as contrariedades existem, e é delas que, como de um gerador elétrico, surge a corrente contínua ou alternada da impaciência.
Se nos perguntassem de chofre: – “Por que é que você fica impaciente?”, logo apontaríamos o culpado: – “Tal contrariedade mais ou menos frequente, mais ou menos constante”. O culpado, o “criminoso”, o agente provocador, é sempre a contrariedade que acomete, aborrece e faz sofrer.
Caso pensemos assim – com esta simplificação tão cândida –, será bom que observemos um fenómeno: nem todo o mundo fica impaciente diante das mesmas coisas. Há, portanto, “algo” dentro de nós que nos faz receber “determinadas” contrariedades – muitas ou poucas – de um modo negativo e que desemboca na impaciência, ao passo que outras não. O que é esse “algo”? Se conseguirmos enxergá-lo, teremos aberto um bom caminho para diagnosticar a etiologia da impaciência e para ver os remédios que conduzem à mais saudável paciência.
Pensemos, além disso, que – tal como acontece com a preguiça –, afora os casos raros de infecção generalizada (como a “preguiça integral” e a “impaciência permanente”), o defeito da impaciência costuma ser “especializado”. Cada um de nós tem as “suas” impaciências particulares, mexe-se dentro do campo da sua especialização. Pode ser que pertençamos, por exemplo, à turma daqueles “especialistas” que não têm paciência para escutar o próximo, sobretudo o mais próximo (marido, mulher, filhos). Sempre me recordarei de um bispo velhinho, a quem – por razões de trabalho – visitava com certa frequência. Como muitos anciãos, gostava de recordar coisas passadas, e eu – por respeito e inibição, pois era muito jovem – ficava a ouvi-lo, de modo que praticamente nunca abria a boca: limitava-me a deixá-lo falar. Passado algum tempo, soube com espanto que ele comentara a um colega que eu “tinha uma conversa muito agradável”! Senti vergonha, porque não tinha consciência de estar sendo paciente, e aprendi uma lição.