A Paciência

Francisco Faus · Capítulo 16 de 23

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A Paciência

Uma curta biografia

A arte de sofrer sorrindo, de que foi exímio mestre o Fundador do Opus Dei, é uma arte contagiosa. É o que vamos ver na nossa segunda história de amor paciente.

UMA CURTA BIOGRAFIA

Mons. Escrivá esteve à beira da morte no dia de Nossa Senhora de Montserrat, 27 de abril de 1954. A nossa segunda história focaliza uma moça, nascida em Barcelona no dia 10 de julho de 1941, que havia recebido no Batismo esse nome, Montserrat, em honra da Padroeira da sua terra. Familiarmente, os pais, irmãos e amigos a chamávamos Montse, e digo “chamávamos”, porque me unia, e ainda me une, à distância de um oceano, uma entranhada amizade com seus pais, Manuel e Manolita Grases.

Montse foi também filha do Bem-aventurado Josemaría Escrivá, pois pediu a admissão no Opus Dei, entregando a sua vida inteira a Deus, no dia 24 de dezembro, véspera do Natal de 1957. Pouco depois, uma leve e persistente dor na perna esquerda deu o primeiro sinal do que viria a diagnosticar-se como um câncer incurável, sarcoma de Ewing, que – após meses de intensas dores – veio a causar a morte daquela menina de 17 anos, no dia 26 de março de 1959, Quinta-feira Santa.

Resumida assim, em pouquíssimas linhas, essa biografia tão curta, tão cedo truncada, parece muito triste. Parece, mas não é.

Diga-se, já de começo, que Montse, a segunda de uma família de nove irmãos – profundamente católica e unidíssima –, foi sempre uma moça direita e pura, bonita, simpática, esportiva, divertida, religiosa sem beatice e absolutamente normal. E como faz parte da normalidade ter, ao lado de belas virtudes, alguns defeitos, Montse também os tinha – não nasceu com auréola de santa –, e é muito importante ter isso presente ao ler o que vem a seguir.

Montse, que era prestativa e sacrificada, de coração sensível, generoso e bom, era também voluntariosa e geniosa. Ai de quem a contradissesse ou pretendesse fazer-lhe uma desfeita! Sem grosserias nem violências – que não eram do seu feitio –, reagia desde muito menina como pessoa que não leva desaforo para o seu cantinho nem tem um braço fácil de torcer. Por outras palavras, em uma porção de coisas, era “insofrida”, ou seja, era impaciente. Sabendo disso, as pinceladas que se dão a seguir ganham um sentido maior.

UM PROCESSO ACELERADO

Quando se lêem os depoimentos e testemunhos dos que estiveram mais perto dela desde o início das dores (dezembro de 1957) até a morte (março de 1959), observa-se um denominador comum. Todos eles salientam que, naqueles quinze meses, houve, não uma mudança instantânea – lampejo de um dia –, mas um processo assombroso, contínuo, crescente, de amadurecimento no amor e nas virtudes, que transformou profundamente Montserrat. Um crescimento interior tão espantoso, que todos os que a conheceram encararam como algo natural que se iniciasse o seu Processo de Beatificação e Canonização em dezembro de 1962.

Ao longo de toda a evolução da doença, Montse esforçou-se por levar, até o limite das suas forças, uma vida normal. Queria ser fiel ao que a sua vocação para o Opus Dei lhe pedia: a santificação pessoal e o apostolado no meio do mundo, dentro da normalidade da vida diária, no cumprimento amoroso e acabado dos deveres cotidianos.

Viver assim – com alegre simplicidade, sem chamar a atenção – representava um esforço que conseguiu praticar rezando muito e lutando muito por corresponder à graça de Deus.

Até os últimos dias, quando, já imóvel na cama, mal podia falar, fez um esforço heroicamente fiel para cumprir os propósitos espirituais a que se tinha comprometido livremente com Deus: duas meias horas de oração mental diária, terço, leitura do Evangelho e de algum livro espiritual (só ouvindo ler, já no final), exame de consciência noturno, que jamais desleixou, etc. Morreu acompanhando o segundo mistério do terço do dia, que a sua mãe e um grupo de amigas rezavam ao pé da sua cama.

O SEGREDO DE UMA IMENSA PAZ

Dessa vida de oração, dessa luta denodada por procurar uma união cada dia maior com Deus, vinham-lhe as forças para abraçar a Vontade divina – a doença, a dor e a morte – e para, não digo aceitar, mas amar de todo o coração a Cruz que Cristo lhe oferecia, para estar junto dEle no sofrimento salvador. Daí a alegria. Que bem entendeu, vivendo-as, as palavras mil vezes repetidas pelo Bem-aventurado Josemaría Escrivá: A alegria do cristão tem as suas raízes em forma de Cruz! Com palavras do Fundador, que meditava sobretudo no livro Caminho, Montse repetia: “Jesus, o que tu quiseres, eu o amo!”[Caminho, n. 691.]

Daí vinham a serenidade, a paz profunda e o constante sorriso que deixavam desnorteadas as pessoas. Uma grande amiga de Montse, Rosa Pantaleoni, lembra que, entre 2 de julho e 13 de agosto de 1958, acompanhou-a em várias das trinta sessões de radioterapia a que foi submetida. “Quando íamos a essas sessões, todas as enfermeiras perguntavam-lhe o que tinha; mas ela mudava logo de conversa e acabava perguntando pelas coisas delas. Fez-se muito amiga de uma enfermeira: soube que aquela moça gostava de desenhar, e ficaram falando dos desenhos e dos problemas da outra… Às vezes, quando terminávamos, a enfermeira dizia-me: – «Como é simpática, alegre e carinhosa esta menina! Mas nunca fico sabendo se a perna lhe dói ou não. Você sabe?» E eu lhe respondia: – «Eu também não sei»“.

Doía, porém, e doía muito. A própria Rosa contará que, “no momento de lhe fazerem os curativos, sofria uma barbaridade. Pelos outros. Ela sempre sofria pelos outros”. Tudo oferecia pela felicidade dos outros, a felicidade que – ela bem o sabia – só se encontra junto de Deus.

Nesse contexto, pode-se avaliar o caráter significativo do seguinte detalhe. Em dezembro de 1958, conseguiu ser levada de carro, a duras penas, ao Centro do Opus Dei que frequentava em Barcelona, um Centro cultural chamado Llar. Eram os primeiros dias desse mês, e as estudantes praticavam o delicado costume cristão da Novena à Imaculada Conceição.