A Papisa Joana
Capítulo 22 · Geraldo suspirou de alívio quando desceu, juntamente com os seus
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.
— Rezai comigo, João.
Ela ajoelhou-se ao seu lado. Afinal, em muitos aspectos, ele não
passava de uma criança — fraco, impulsivo, carente, caprichoso. Mas, ela sabia que ele era capaz de fazer o bem. E que, nesse momento, ele era tudo quanto se interpunha entre Anastácio e o Trono de São Pedro.
Quando a oração terminou, ela levantou-se. Sérgio agarrou-se a
ela.
— Não saiais — pediu-lhe ele. — Não sou capaz de ficar sozinho. Joana cobriu as suas mãos com as dela.
— Eu não vos deixarei — prometeu ela solenemente.
* * *
Ao entrar pelos portais a cair das ruínas do Templo de Vesta,
Geraldo constatou, desapontado, que Joana ainda não tinha chegado.
Não faz mal, pensou ele, ainda é cedo. Sentou-se à espera,
encostado a uma das colunas em granito.
Tal como a maior parte dos monumentos pagãos de Roma, o
templo tinha sido despojado de todos os seus metais preciosos: as rosetas douradas que tinham adornado, em tempos, os tesouros do templo tinham desaparecido, assim como os baixos-relevos doirados que ornamentavam o pedestal dos pronaos. Os nichos ao longo das paredes estavam vazios. As suas estátuas de mármore tinham sido levadas para os fornos de cal para serem transformadas em material de construção para as paredes das igrejas cristãs. No entanto, espantosamente, a estátua da deusa tinha sido poupada, escondida no seu santuário por baixo do templo. Tinha uma das mãos partidas e as linhas das suas vestes estavam gastas, apagadas pelo tempo e elementos naturais, mas a estátua continuava a ter um poder e uma raça poderosas, testemunhando o talento do escultor pagão.
Vesta, antiga deusa do lar e da terra. Representava tudo quanto
Joana significava para ele: vida, amor e um novo sentimento de esperança. Respirou fundo, aspirando o ar húmido e doce da manhã, sentindo-se melhor do que se tinha sentido nos últimos anos. Nestes últimos tempos, tinha-se sentido abatido com as voltas da vida. Tinha-se resignado, dizendo a si próprio que era o resultado inevitável da sua idade porque já tinha quase quarenta e três anos, a idade de um homem velho.
Agora, sabia que estava completamente enganado. Longe de estar
cansado da vida, estava ávido dela. Sentia-se jovem, vivo, cheio de energia, como se tivesse bebido do cálice milagroso de Cristo. O resto da sua vida estendia-se diante dos seus olhos, cheio de promessas. Casaria com Joana e iriam para Benevento e haviam de viver juntos em paz e com amor.
Talvez até tivessem filhos — não era tarde de mais. Da maneira
como se sentia naquele momento, tudo era possível.
Levantou-se quando ela atravessou o portal a correr, com as vestes
sacerdotais esvoaçando atrás dela. Tinha as faces rosadas da corrida, o seu cabelo dourado encaracolava-se em torno do seu rosto, acentuando os seus olhos verde-acinzentados-escuros, olhos que o olhavam como lagos de luz neste santuário escuro. Como tinha ela conseguido passar despercebida naquele disfarce masculino?, pensou ele. Aos seus olhos, ela parecia muito feminina e desejável.
— Joana.
A palavra era em parte um nome, em parte uma súplica. Joana manteve uma distância cautelosa entre ambos. Se deixasse
que Geraldo a abraçasse, sabia que a sua decisão se esvairia.
— Trouxe uma montada para ti — disse Geraldo. — Se partirmos
agora, estaremos em Benevento daqui a três dias de viagem.
Ela respirou fundo:
— Eu não vou contigo.
— Não vais? — repetiu Geraldo.
— Não posso deixar Sérgio.
Ele ficou demasiado perturbado para reagir imediatamente. Depois, conseguiu perguntar:
— Porquê?
— Sérgio precisa de mim. Ele é... fraco.
— Ele é o Papa de Roma, Joana, não é uma criança a precisar de
mimos.
— Eu não o mimo, eu sou a sua médica. Os médicos da schola não
conhecem a doença de que ele sofre.
— Ele sobreviveu muito bem sem ti, antes de chegares a Roma. Era uma ligeira ironia, mas, doeu.
— Se eu me for embora agora, Sérgio morrerá de tanto beber no
espaço de seis meses.
— Então, que beba — respondeu Geraldo, num tom agreste. — O
que tens tu e o que tenho eu a ver com isso?
Ela ficou chocada.
— Como podes dizer uma coisa dessas?
— Bom Deus, não te sacrificaste já o suficiente? A primavera das
nossas vidas já passou. Não desperdicemos o tempo que nos resta!
Ela virou-lhe as costas para que ele não visse como aquilo a tinha
afectado.
Geraldo pegou-lhe pelos pulsos.
— Eu amo-te, Joana. Vem comigo agora, enquanto ainda é tempo. O toque da sua mão inflamou a carne dela, despertando o desejo.
Teve o impulso de o abraçar, de sentir os seus lábios nos dela. Envergonhada por esta fraqueza e por estes sentimentos vergonhosos, ficou súbita e irracionalmente zangada com Geraldo por causa de ele ter despertado nela aqueles sentimentos.
— O que esperavas? — gritou ela. — Que eu fugisse contigo mal
apareceste?
Dava largas à cólera que sentia dentro de si, esperando que ela
reprimisse as suas outras emoções, mais perigosas. — Eu tenho aqui uma vida boa. Tenho independência e sou respeitada e tenho oportunidades que nunca tinha tido como mulher. Porque hei-de desistir de tudo? Para quê? Para passar o resto dos meus dias confinada a alguns quartos exíguos, cozinhando e bordando?
Geraldo disse em voz baixa:
— Se fosse isso que eu quisesse de uma esposa, já me tinha
casado há muito tempo.
— Então, casa! — respondeu Joana, agastada. — Não te
impedirei!
Geraldo franziu o sobrolho, perpassando-lhe pelos olhos sinais de
irritação. Perguntou gentilmente:
— Joana, o que aconteceu? O que se passa?
— Nada. Eu mudei, é tudo, já não sou a rapariga ingénua e carente
que tu conheceste em Dorstadt. Agora, sou dona de mim mesma. E não quero abrir mão disso — nem por ti, nem por qualquer outro homem!
— Eu pedi-te para o fazeres? — perguntou Geraldo, num tom
sensato.
Mas, Joana não queria ouvir argumentos razoáveis. A proximidade
de Geraldo e a atracção física fortíssima que sentia por ele eram um tormento, uma serpente que se enrolava à volta da sua vontade estrangulando-a. Tentou libertar-se do seu abraço com brusquidão.
— Não aceitas, pois não? A ideia de eu já não estar disposta a
desistir da minha vida por causa de ti? Que eu seja uma mulher que é realmente imune ao teu charme masculino?
Geraldo ficou a olhar para ela, espantado, como se visse qualquer
coisa nova escrita no seu rosto.
— Pensei que me amavas — disse ele, hirto. — Vejo que estava
enganado. Perdoa-me, não voltarei a importunar-te.
Dirigiu-se para a saída, hesitou e voltou atrás.
— Quer dizer nunca mais voltaremos a ver-nos. É realmente isso
que tu queres?
Não! Joana sentiu vontade de chorar. Não é isso que eu quero!
Não é nada disso que eu quero. Mas, havia uma outra parte dela que a aconselhou a manter-se firme.
— É isso que eu quero — disse ela. A sua voz soava-lhe
curiosamente distante.
Mais uma palavra de amor e de desejo da parte dele, e ela cederia
e correria para os seus braços. Mas, ele virou-se de repente e afastou-se na direcção da porta. Ela ouviu-o a descer os degraus do templo a correr.
Correu para a porta.
— Geraldo! — gritou ela. — Espera!
O som estridente dos cascos a baterem nas pedras fez com que ela
se desfizesse em lágrimas. Geraldo cavalgou apressadamente pela estrada abaixo. Pouco depois, dobrou uma curva e desapareceu.
Capítulo 24
O Verão romano surgiu impiedoso. O sol brilhava sem descanso,
ao meio-dia, as pedras da calçada estavam suficientemente quentes para queimarem os pés de um homem. O fedor a lixo podre e a estrume, intensificado pelo calor, elevava-se no ar quieto e pairava sobre a cidade como uma nuvem sufocante. Febres pestilentas começaram a grassar entre os pobres que viviam no pântano e nas casas degradadas alinhadas nas terras baixas das margens do Tibre.
Temendo o contágio, Lothar e o seu exército abandonaram a
cidade. Os romanos regozijaram-se com a sua partida porque o fardo da manutenção de um exército tão numeroso tinha esgotado os recursos da cidade.
Sérgio foi saudado como um herói. A adulação do povo ajudava-o
a ultrapassar o seu desgosto com a morte de Bento.
Emergindo com uma saúde e energia redescobertas —
recuperadas, em grande parte graças à dieta espartana que Joana lhe tinha imposto como penitência — Sérgio era outro homem. Fiel à sua promessa, começou a reconstruir o Orphanotrophium. As paredes em ruína foram reforçadas e o tecto foi posto de novo. Foram arrancadas do templo de Minerva placas de mármore travertina, utilizadas para revestir o chão do grande salão. Foi construída uma nova capela, dedicada a Santo Estêvão.
Enquanto, anteriormente, Sérgio estava muitas vezes demasiado
cansado ou doente para dizer missa, agora, celebrava o sagrado sacramento todas as manhãs. Além disso, encontrava-se muitas vezes a rezar na capela privada. Entregou-se à sua fé com o mesmo fervor que tinha posto nos prazeres da mesa — porque ele não era homem para fazer as coisas pela metade.
Dois anos de invernos amenos e de colheitas abundantes
resultaram numa época de prosperidade generalizada. Até as legiões de pobres que enchiam as ruas da cidade pareciam ter diminuído um pouco porque os bolsos dos seus irmãos prósperos tinham-se aberto e as esmolas tinham aumentado. Os romanos ofereciam orações de acção de graças aos altares das suas igrejas, satisfeitos com a sua cidade e o seu Senhor Papa.
Não suspeitavam — como poderiam? — da catástrofe que estava
prestes a abater-se sobre eles.
Joana estava com Sérgio num dos seus encontros regulares com os
príncipes da cidade, quando o mensageiro irrompeu ao seu encontro.
— O que é isto? — perguntou Sérgio, com severidade. O mensageiro ajoelhou-se, em sinal de obediência — Trago-vos uma mensagem da maior importância para a
cristandade proveniente de Siena. Uma grande frota de navios sarracenos fez-se ao mar em África. Dirigem-se directamente para Roma.
— Para Roma? — repetiu um dos príncipes num tom sumido. —
O relatório deve estar enganado.
— Não há erro nenhum — disse o mensageiro. — Os sarracenos
estarão aqui daqui dentro de quinze dias.
Fez-se silêncio por momentos, enquanto todos tomavam
consciência desta notícia surpreendente.
Outro príncipe disse:
— Talvez seja melhor levar as relíquias sagradas para um sítio
mais seguro.
Referia-se à ossada do apóstolo Pedro, a relíquia mais sagrada de
toda a Cristandade que se encontrava depositada na basílica de seu nome, fora da protecção dos muros da cidade.
Romualdo, o maior na assembleia de príncipes atirou a cabeça
para trás e riu-se:
— Não pensais que os infiéis atacariam São Pedro? — O que os impede? — perguntou Joana.
— Eles podem ser bárbaros, mas não são loucos — respondeu
Romualdo. — Sabem que a mão de Deus os esmagaria no momento em que eles entrassem no túmulo sagrado!
— Eles têm a sua própria religião — lembrou Joana. — Não
temem a mão do nosso Deus cristão.
O sorriso de Romualdo esmoreceu.
— Que blasfémia pagã é esta?
Joana argumentou:
— A basílica é um alvo evidente para o saque, mais que não seja,
pelos tesouros que se encontram dentro dela. Por uma questão de segurança, devemos trazer os seus objectos sagrados e o sarcófago do santo para dentro dos muros da cidade.
Sérgio hesitava:
— Já tivemos avisos destes antes e não aconteceu nada. — De facto, — disse Romualdo, em tom de troça — se nos
enchêssemos de medo cada vez que é avistado um navio de sarracenos, as relíquias sagradas andariam num vaivém, como se fossem um par de agulhas num tear!
A explosão de gargalhadas de concordância foi interrompida
instantaneamente pelo ar reprovador do Pontífice.
Sérgio disse:
— Deus defenderá os Seus. O apóstolo Bendito ficará onde está.
— Pelo menos — insistiu a Joana — mandemos chamar homens
das povoações limítrofes, para defender a cidade.
— É tempo de vindimas — disse Sérgio. — As povoações
precisam de todos os homens robustos para trabalharem nas vinhas. Não vejo necessidade de pôr em risco a vindima, da qual tudo depende, quando não existe perigo iminente.
— Mas, Santidade...
Sérgio interrompeu-a.
— Confiai em Deus, João Anglicus. Não existe escudo mais forte
do que a fé e a oração cristãs.
Joana baixou a cabeça em sinal de submissão. Mas, intimamente,
pensou, revoltando-se: quando os sarracenos estiverem às portas da cidade, todas as orações do mundo não ajudarão nem metade daquilo que ajudaria uma única divisão de homens combatentes.
* * *
Geraldo e a sua companhia estavam acampados mesmo às portas
da cidade de Benevento. Os homens dormiam a sono solto dentro das suas tendas, depois de uma noite de desbragamento — um festim que Geraldo lhes tinha concedido como recompensa pela sua vitória retumbante no dia anterior.
Nos últimos dois anos, Geraldo tinha comandado os exércitos do
príncipe Siconulf, lutando para assegurar o seu trono contra o ambicioso pretendente Radelchis. Comandante hábil, que exigia muito dos seus homens, enquanto eles estavam a aprender a disciplina e manejo das armas e que, depois, confiava que eles tinham um bom desempenho no campo de batalha, Geraldo tinha infligido derrota sobre derrota aos exércitos de Radelchis.
A vitória do dia anterior tinha sido tão retumbante que era
provável que tivesse posto para sempre fim à pretensão de Radelchis ao trono de Benevento. Apesar de as sentinelas armadas estarem colocadas em torno de todo o acampamento, Geraldo e os seus homens dormiam com as espadas e os escudos junto de si, onde estavam à mão. Geraldo não arriscava porque um inimigo podia ser perigoso mesmo depois de derrotado. O calor da vingança levava, por vezes, os homens a precipitarem-se em acções desesperadas. Geraldo conhecia muitos acampamentos que tinham sido apanhados de surpresa, nos quais os seus ocupantes tinham sido chacinados antes de terem tido, sequer, tempo para acordarem.
No entanto, de momento, esses pensamentos estavam longe da
mente de Geraldo. Estava deitado descontraidamente, com os braços por trás da nuca e as pernas dispostas à vontade. Ao seu lado, uma mulher tapada com uma coberta respirava compassadamente, fazendo um som ritmado, interrompido, por vezes, por um ligeiro ressonar.
À luz do dia, Geraldo arrependeu-se do breve arroubo de paixão
que a tinha trazido para a sua cama. Ao longo dos anos, tinha havido outros encontros fortuitos, cada um deles menos satisfatório e mais passageiro do que o anterior. Geraldo continuava a acalentar no seu coração a recordação de um amor que não podia esquecer.
Abanou a cabeça, impaciente. Era inútil remexer no passado.
Joana não partilhava os seus sentimentos, senão, não o teria mandado embora.
A mulher deitou-se de lado. Geraldo tocou-lhe no ombro e ela
acordou, abrindo uns lindos olhos negros que o fitaram sem perceber.
— Já é dia — disse Geraldo. Tirou algumas moedas do seu saco e
deu-lhas.
Ela agarrou-as e sorriu, contente.
— Devo voltar esta noite, senhor?
— Não, não é preciso.
Ela ficou desiludida.
— Não vos agradei?
— Sim, sim, claro. Mas, nós levantamos o acampamento hoje à
noite.
Pouco depois, ele ficou a vê-la atravessar o campo, com as
sandálias a chinelarem pela relva molhada. O céu enevoado estava a começar a clarear, adquirindo um tom pálido e cinzento.
Em breve, voltaria a ser dia.
Siconulf e os seus principais fideles já estavam reunidos na grande
sala quando Geraldo entrou. Dispensando as cortesias usuais, Siconulf anunciou abruptamente:
— Acabei de receber uma mensagem da Córsega. Da costa
africana partiram setenta e três navios sarracenos. Trazem cerca de cinco mil homens e duzentos cavalos a bordo.
Seguiu-se um silêncio espantoso. Era difícil imaginar uma frota
tão grande.
Eburis, um dos fideles de Siconulf, disse num tom grave: — O que quer que seja que eles querem, é mais do que apenas
outro ataque de pirataria à nossa costa.
— Dirigem-se para Roma — disse Siconulf.
— Roma! Certamente que não! — disse outro fideles. — Que disparate! — disse um terceiro. — Nunca se atreveriam! Geraldo mal os ouvia. Os seus pensamentos corriam à sua frente: — O papa Sérgio vai precisar da nossa ajuda — disse ele de uma
forma tensa.
Mas, não era em Sérgio que ele estava a pensar. De um só golpe,
as notícias da aproximação da armada dos sarracenos tinham apagado toda a amargura e mágoa dos últimos dois anos.
Só importava uma coisa — chegar ao pé de Joana e fazer tudo
quanto estava ao seu alcance para a proteger.
— O que sugeris, Geraldo? — perguntou Siconulf. — Meu príncipe, deixai-me comandar as nossas tropas para
defender Roma.
Siconulf franziu o sobrolho.
— Certamente, a Cidade Santa tem os seus próprios defensores.. — Só tem a família Sancti Petri — um grupo pequeno e
indisciplinado de milícias papais. Cairão como trigo maduro diante das espadas dos sarracenos.
— E o Muro Aureliano? Certamente os sarracenos não serão
capazes de o derrubar.
— O muro parece ser bastante forte — admitiu Geraldo. — Mas
várias das suas portas têm poucos reforços. Não aguentarão um assalto persistente. E o túmulo de São Pedro está completamente desprotegido porque fica fora do muro.
Siconulf ficou a pensar naquilo. Tinha relutância em comprometer
as suas tropas numa causa que não fosse sua. Mas, era um príncipe cristão, venerava a Cidade Santa e os seus locais sagrados. A ideia de bárbaros infiéis a profanarem o túmulo do Apóstolo era terrível.
Além disso, ocorria-lhe, agora, que talvez pudesse tirar algum
benefício pessoal do envio de homens para defenderem Roma.
Depois, um papa Sérgio grato podia recompensá-lo com um dos
ricos domínios papais que ficavam na fronteira do território de Siconulf.
Disse a Geraldo:
— Podeis contar com três divisões. De quanto tempo precisais
para vos preparardes para partir?
— As tropas estão endurecidas pela batalha e a postos. Podemos
partir imediatamente. Se o tempo se mantiver propício, estaremos em Roma dentro de dez dias.
— Rezemos para que seja suficiente. Deus vá convosco, Geraldo.
Em Roma, vivia-se uma estranha atmosfera de calma. Desde o
aviso inicial, vindo de Siena duas semanas antes, não se tinha voltado a ouvir palavra sobre a armada dos sarracenos. Os romanos começavam gradualmente a acalmar, convencendo-se de que os relatos de uma frota inimiga, a mal, tinham sido falsos.
A manhã de 23 de Agosto acordou luminosa e promissora. A
missa foi celebrada na Catedral de Santa Maria dos Mártires, conhecida no tempo dos pagãos como Panteão, uma das igrejas mais bonitas de Roma. Foi uma celebração particularmente bonita, com o sol a entrar pelas aberturas circulares no grande tecto em abóbada da basílica, espalhando um alo dourado por cima de toda a assembleia. Ao regressar ao Patriarchium, o coro cantava a plenos pulmões: Gloria in excelsis Deo.
O canto morreu-lhes nos lábios assim que entraram na piazza
ensolarada do Laterano e viram uma multidão de cidadãos num círculo ansioso em torno de um mensageiro estranho e enlameado.
— Os infiéis desembarcaram — anunciou o mensageiro, pesaroso.
— A cidade do Porto foi tomada, as pessoas massacradas e as igrejas profanadas.
— Cristo nos ajude! — gritou alguém.
— O que será de nós? — gemeu outro.
— Vão matar-nos a todos! — gritou um terceiro, histericamente. A multidão ameaçava entrar numa desordem perigosa. — Silêncio! — a voz de Sérgio ergueu-se acima do rumor. Acabai
com esta atitude indigna! — A voz de autoridade irrompeu, dominante, sobrepondo-se ao barulho e apelando à obediência.
— Então — disse ele — somos ovelhas para nos acobardarmos
assim? Somos crianças, para pensarmos que somos indefesos!
Fez uma pausa dramática.
— Não! Somos romanos! E isto é Roma, protectorado de São
Pedro, berço do Reino dos Céus! Tu és Pedro, disse Cristo, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. O que temos a temer? Iria Deus permitir que o Seu altar sagrado fosse profanado?
A multidão agitou-se. Ouviram-se vozes dispersas em resposta: — Sim! Ouvi o Senhor Papa! Sérgio tem razão! — Não temos os nossos guardas e as nossas milícias? Com um gesto, Sérgio apontou para a guarda papal que reagiu,
erguendo as suas lanças e agitando-as convictamente.
— O sangue dos nossos antepassados corre nas nossas veias, eles
dispõem da força do Deus Omnipotente! Quem prevalecerá contra eles?
A multidão lançou um grito de saudação. O passado heróico de
Roma continuava a ser uma fonte de orgulho, os triunfos militares de César, de Pompeu e de Augusto eram conhecidos por todos os cidadãos.
Joana olhou para Sérgio com admiração. Seria aquela figura
heróica o mesmo homem doente, mal-humorado, desanimado que ela tinha encontrado dois anos antes?
— Que venham os infiéis! — gritou Sérgio. — Que eles brandam
as suas armas contra esta fortaleza sagrada! Despedaçarão os seus corações contra os nossos muros protegidos por Deus!
Joana sentiu a onda de excitação e de entusiasmo que se levantou
e se abateu sobre a multidão num tumulto de emoção barulhento. Mas, tinha os pés demasiado assentes na terra para se deixar entusiasmar tão facilmente.
O mundo não é o que gostaríamos que fosse, pensou ela, por
muito habilidosos que sejamos a conjurá-lo.
A multidão mantinha-se firme, de cabeças levantadas e faces
iluminadas. À volta de Joana ecoavam em uníssono vozes excitadas:
— Sérgio! Sérgio! Sérgio! Sérgio!
Por ordem de Sérgio, o povo passou dois dias a jejuar e a rezar. Os
altares de todas as igrejas brilhavam, iluminados com uma profusão de velas votivas. Havia relatos de milagres por todo o lado. Dizia-se que a estátua de ouro da Madona do Oratório de São Cosme tinha mexido os olhos e rezado uma litania. O crucifixo por cima do altar de Santo Adriano tinha derramado lágrimas de sangue. Estes milagres eram interpretados como sinais da bênção e favor divinos. Dia e noite ouvia-se o som do Hosana a sair das igrejas e mosteiros, uma vez que o clero da cidade tinha respondido ao desafio do Senhor Papa preparando-se para enfrentar o inimigo com a força invencível da sua fé cristã.
Imediatamente a seguir ao amanhecer do dia 2 de Agosto, ouviu-
se um grito junto aos muros:
— Eles vêm aí! Eles vêm aí!
Os gritos aterrados do povo penetraram até na grossa parede dos
muros do Patriarchum.
— Tenho de ir para as trincheiras — anunciou Sérgio. — Quando
o povo me vir, saberá que não têm nada a temer.
Arighis e os outros prelados protestaram, argumentando que era
demasiado perigoso, mas Sérgio estava decidido. Acabaram por o levar, contrariados, até ao muro, escolhendo cuidadosamente um local onde as pedras se erguiam um pouco mais alto, permitindo melhor protecção.
Ouviu-se uma grande ovação quando Sérgio subiu os degraus. Depois, todos os olhares convergiram para ocidente. Levantou-se uma grande nuvem de pó. Os sarracenos emergiram
dela a galope rápido, com as suas vestes soltas flutuando como asas de aves de rapina gigantes. Ouviu-se um tremendo grito de guerra, um ulular prolongado, agudo, que ficou a pairar no ar, provocando um arrepio de medo naqueles que o ouviram.
— Deo, juva nos — disse um dos padres, a tremer. Sérgio ergueu um pequeno crucifixo com pedras preciosas
encrostadas e gritou:
— Cristo é o nosso Salvador e o nosso Escudo.
As portas da cidade abriram-se e a milícia papal marchou
corajosamente ao encontro do inimigo.
— Morte aos infiéis! — gritaram eles, brandindo as suas espadas e
os seus punhais.
Os exércitos beligerantes colidiram com um barulho ensurdecedor
de metal, mais alto do que o barulho de mil ferreiros. Em minutos, tornou-se evidente que a batalha era fatalmente desigual, a cavalaria sarracena dirigiu-se precisamente para a linha da frente dos peões romanos, cortando e despedaçando com as suas cimitarras curvas.
A milícia da retaguarda não conseguia ver a mortandade que se
passava na frente. Ainda convencidos da vitória, avançaram, empurrando por trás aqueles que os precediam. Os homens foram todos passados à espada dos sarracenos, fila a fila. Os corpos amontoavam-se, impedindo o avanço dos que vinham atrás.
Foi um massacre. Derrotada e aterrada, a milícia retirou numa
desordem desesperada.
— Fugi! — gritavam eles, correndo pelo campo, como sementes
lançadas ao vento. — Fugi para sobreviverdes!
Os sarracenos não se deram ao trabalho de os perseguir porque a
sua vitória lhes tinha alcançado um prémio muito melhor: a Basílica de São Pedro, desprotegida. Cercaram-na como um enxame negro. Não desmontaram. Subiram as escadas com os cavalos e entraram pelas portas adentro.
Os romanos esperaram, exaustos, por trás dos muros. Passou um
minuto. Depois, outro. Não se ouviu nenhum trovão a rasgar os céus, nem desceu nenhum mar de chamas do céu. Em vez disso, ouviu-se o som inequívoco de madeira e metal a partir dentro da basílica. Os sarracenos estavam a pilhar o altar sagrado.
— Não pode ser — murmurou Sérgio. — Meu Deus, não pode ser. Um bando de sarracenos emergiu da basílica, brandindo a cruz em
ouro de Constantino. Dizia-se que havia homens que tinham morrido apenas por se atreverem a tocar-lhe. Mas, agora, os sarracenos mostravam-na, troçando, rindo, fazendo-a oscilar entre as pernas numa paródia obscena e animalesca.
Com um suspiro mudo, Sérgio largou o crucifixo e caiu de
joelhos.
— Santidade!
Joana correu para ele.
Um ataque cardíaco, pensou ela, alarmada.
— Levai-o — ordenou ela.
Arighis e vários guardas levantaram o Papa desmaiado,
carregando-o nos braços, e transportaram-no para uma casa perto, onde o deitaram num colchão de palha.
A respiração de Sérgio era ofegante. Joana preparou-lhe uma
infusão de bagas de espinheiro-alvar e de raiz de valeriana e deu-lha. Pareceu aliviá-lo, pois ficou com melhor cor e começou a respirar melhor.
— Eles estão às portas! — gritava o povo do lado de fora. Cristo
nos ajude! Estão às portas!
Sérgio tentou levantar-se da cama, mas a Joana fez com que ele
voltasse a deitar-se.
— Não vos deveis mexer.
O esforço ter-lhe-ia saído caro, ele apertou os lábios com força. — Falai por mim — pediu-lhe ele. — Dirigi os pensamentos deles
para Deus... Ajudai-os... Preparai-os...
Os seus lábios moviam-se agitadamente, mas não saíam palavras. — Sim, Santidade, sim — assentiu Joana. — Era evidente que isso
o pacificaria. — Farei como dizeis. Mas, agora, tendes que descansar.
Ele acenou com a cabeça e deitou-se. As suas pálpebras tremeram
e fecharam-se quando o remédio começou a fazer efeito. Não havia mais nada a fazer senão deixá-lo dormir e esperar que o remédio actuasse.
Joana deixou-o aos cuidados de Arighis e saiu para a rua. Perto, ouvia-se um ruído dilacerante como de um raio. Joana
começou a ter medo.
— O que se passa? — perguntou ela a um grupo de guardas que ia
a passar.
— Os porcos idólatras estão a tentar arrombar os portões!
respondeu um guarda, quando passaram por ela.
Ela regressou à praça. O terror tinha provocado o frenesim entre a
multidão. Os homens arrancavam a barba violentamente, as mulheres gritavam e arranhavam as faces com as unhas, até correr o sangue. Os monges da Abadia de São João estavam ajoelhados num canto, todos juntos, com os capuzes negros a caírem da cabeça e os braços levantados ao céu. Alguns deles tinham rasgado as vestes e começado a flagelar-se com paus em madeira, numa tentativa frenética para propiciar a evidente ira de Deus. Assustadas com este espectáculo, as crianças choravam e as suas vozes agudas sobressaíam do coro louco e dissonante dos adultos.
Ajudai-os, tinha pedido Sérgio. Preparai-os.
Mas, como?
Joana subiu os degraus do muro. Pegando no crucifixo que Sérgio
tinha deixado cair, levantou-o bem alto para que todos o vissem. O sol reflectiu-se nas suas gemas, espalhando um arco-íris de luz dourada.
— Hosanna in excelsis — começou ela a entoar alto. As notas
agudas e claras do cântico sagrado sobrepuseram-se à multidão, num tom forte, doce e seguro. As pessoas que estavam mais perto do muro levantaram os rostos cobertos de lágrimas para o som familiar. Padres e monges uniram as suas vozes no canto, ajoelhando-se nas pedras gastas ao lado de pedreiros e costureiras.
— Christus qui venit nomine Domini...
Voltou a ouvir-se um grande estrondo, seguido do som de madeira
a partir-se. Os portões começaram a ceder. A luz entrava por onde tinha sido feita uma fenda.
Meu Deus, pensou Joana. E se eles conseguirem entrar? Até ali,
essa possibilidade tinha parecido impensável.
Vieram-lhe à cabeça recordações. Voltou a ver os normandos
entrarem pelas portas da catedral de Dorstadt, brandindo os seus machados. Ouviu os gritos tremendos dos moribundos... viu o João no chão, com o crânio esmagado... e Gisla... Gisla...
A voz tremeu-lhe e apagou-se. O povo olhou, alarmado. Continua, disse ela para si mesma, continua. Mas o seu
pensamento parecia que se tinha paralisado, não se lembrava das palavras.
— Hosanna in excelsis.
Uma voz grave de barítono soou atrás dela. Era Leão, cardeal-
presbítero da Igreja de Sancti Quattro Coronati. Tinha subido para ao pé dela. O som da sua voz libertou-a do medo e, juntos, prosseguiram o cântico.
Ouviu-se um grito ressoando do oriente.
— Deus e São Pedro.
Os guardas do muro saltavam de contentamento, aplaudindo,
gritando:
— Deus seja louvado! Estamos salvos.
Ela olhou por cima do muro. Aproximava-se a galope um grande
exército, que se dirigia para a cidade com os estandartes flutuantes enfeitados com os emblemas de São Pedro e da cruz.
Os sarracenos deixaram os toros com que batiam nas portas e
correram para as suas montadas.
A Joana olhou na direcção do Sol. Quando as tropas se
aproximaram mais, ela deu, subitamente, um grito agudo.
À frente, com a lança já pronta para ser lançada, alto, elegante e
heróico como um dos velhos deuses da sua mãe, cavalgava Geraldo.
A batalha que se seguiu foi encarniçada e impiedosa. O ataque dos
beneventanos tinha apanhado os sarracenos desprevenidos, foram expulsos dos muros da cidade e forçados a retirarem através dos campos, em direcção ao mar. Na costa, os infiéis embarcaram os seus tesouros roubados e partiram. Na debandada, deixaram para trás uma grande parte do seu saque.
Geraldo e os seus homens passaram semanas a subir e a descer a
costa, à caça de bandos de salteadores.
Roma estava salva. Os romanos dividiam-se entre a alegria e o
desespero — alegria por causa de terem sido libertados, desespero por causa da destruição de São Pedro. A basílica sagrada tinha sido saqueada de tal forma que estava irreconhecível. A velha cruz em ouro do túmulo do Apóstolo tinha desaparecido, assim como o grande retábulo em prata com a libertação de Bizâncio, oferecida pelo imperador Carlos Magno. Os infiéis tinham arrancado as incrustações em prata das portas e as placas em ouro do chão. Tinham mesmo — que Deus os cegasse! — levado o próprio altar-mor. Como não tinham conseguido retirar o sarcófago em bronze com o corpo do Príncipe dos Apóstolos, tinham-no arrombado, espalhando e profanando as cinzas sagradas.
Toda a Cristandade estava mergulhada no luto. Os sinais dos
antepassados tinham sido preservados dentro das portas — antes invioláveis — deste templo cristão, o mais velho e o maior de todos. Gerações incontáveis de peregrinos, incluindo os maiores príncipes do mundo, tinham-se prostrado humildemente no pavimento sagrado. Fileiras de papas repousavam dentro das suas paredes. Não havia local que o Ocidente reconhecesse como mais sagrado do que este. E, no entanto, este santuário da Verdadeira Fé, que nem os godos, nem os vândalos, nem os gregos, nem os lombardos se tinham atrevido alguma vez a desafiar, tinha caído diante de uma horda de arruaceiros de África.
Sérgio culpava-se a si próprio pela catástrofe. Retirou-se para os
seus aposentos, recusando-se a receber fosse quem fosse, a não ser a Joana e os seus conselheiros mais próximos.
E voltou a beber, esvaziando taças de vinho da Toscana umas atrás
das outras até cair num esquecimento misericordioso.
A bebida tinha o efeito que já era conhecido: a gota voltou a atacá-
lo; para aliviar a dor, ele bebia mais ainda. Dormia mal. Acordava todas as noites a gritar, atormentado por pesadelos nos quais era visitado pelo espectro vingativo de Bento. Joana temia a pressão que isto causava no seu coração já enfraquecido.
— Lembrai-vos da penitência que combinámos — lembrou-lhe
ela.
— Agora, já não interessa — respondeu Sérgio, desanimado. Não
tenho esperança de ir para o Céu. Deus abandonou-me.
— Não vos deveis culpar daquilo que aconteceu. Há coisas que
ultrapassam todos os poderes mortais de as remediar ou evitar.
Sérgio abanou a cabeça:
— A alma do meu irmão assassinado clama contra mim! Eu
pequei e isto é o meu castigo.
— Se não quereis pensar em vós próprio — argumentou Joana —
pensai no povo! Agora, mais do que nunca, eles esperam o vosso consolo e a vossa orientação.
Ela tinha de o animar, mas, a verdade era outra. O povo tinha-se
voltado contra Sérgio. Diziam que tinha havido avisos suficientes acerca da aproximação dos sarracenos, que tinha havido muito tempo para o Senhor Papa ter transportado o sarcófago sagrado para dentro dos muros. A fé de Sérgio na libertação de Deus, que, na altura, tinha sido louvada por todos, agora, era condenada por todos como resultado de um orgulho pecaminoso e um erro desastroso.
— Mea culpa — respondeu Sérgio, chorando. — Mea maxima
culpa.
Joana argumentou, resmungou, tentou persuadi-lo, em vão. A
saúde de Sérgio deteriorou-se rapidamente. Joana fez tudo quanto podia por ele, mas não havia nada a fazer. Sérgio estava determinado a morrer.
Mesmo assim, demorou algum tempo até que a morte viesse. Já
tinha perdido o juízo havia muito, caindo num estado de inconsciência, e continuava a resistir, como se o seu corpo tivesse relutância em libertar-se da última réstia de vida.
Morreu, finalmente, numa manhã escura e sem sol, entregando o
espírito de uma forma tão tranquila que, inicialmente, ninguém se apercebeu de que ele tinha morrido.
Joana teve um desgosto autêntico com a sua morte. Ele não tinha
sido um homem ou um papa tão bom como podia ter sido.
Mas, ela sabia melhor do que ninguém os demónios que o
atormentavam, sabia como ele tinha lutado para se libertar deles. O facto de ter perdido a última batalha não tornava o combate menos honroso.
Foi sepultado na basílica em ruínas, ao lado dos seus
predecessores, com um cerimonial tão sóbrio que quase roçou o escândalo. Os dias de luto previstos quase não foram observados pelos romanos porque eles, impacientes, já tinham os olhos postos no futuro e na eleição de um novo papa.
Anastácio fugiu ao temporal provocado pelos ventos de Janeiro e
entrou no conforto do palácio ancestral da sua família. Era a maior residência em Roma, para além do Patriarchium, evidentemente, e Anastácio tinha razão para ter orgulho nela. O tecto abobadado da sala de entrada tinha a altura de dois andares e era todo em mármore branco de Ravena.
As suas paredes estavam pintadas com frescos de cores vivas,
representando cenas da vida dos antepassados da família. Um deles representava um cônsul a fazer um discurso perante o Senado, o outro, um general sentado num carro negro, comandando as tropas, um outro representava um cardeal recebendo o pallium das mãos do papa Adriano. Uma das paredes tinha sido deixada em branco, prevendo o dia há muito esperado, quando a família alcançasse finalmente a sua maior honra: a coroação de um dos seus filhos como papa.
Normalmente, esta sala era palco de uma grande azáfama. Hoje, se não fosse o intendente da família, estaria vazia. Ignorando os seus cumprimentos efusivos — já que Anastácio
nunca perdia tempo com subalternos — ele dirigiu-se directamente para o quarto do seu pai. Àquela hora, normalmente, Arsénio já estava no salão, ocupado com os notáveis da cidade em jogos de poder sinuosos e gratificantes.
Mas, no mês anterior, tinha sido atacado por uma febre
devastadora que tinha secado as suas formidáveis energias, confinando-o ao seu quarto.
— Meu filho.
Arsénio levantou-se do seu sofá quando Anastácio entrou. Estava pálido. Anastácio sentiu uma onda curiosa e exaltante de
força, como se a sua juventude e energia aumentassem, de certa maneira, por contraste com a diminuição das forças do seu pai.
— Pai.
Anastácio dirigiu-se para ele de braços abertos e eles abraçaram-se
calorosamente.
— Que notícias trazes? — perguntou Arsénio. — A eleição foi marcada para amanhã.
— Deus seja louvado! — exclamou Arsénio.
Era apenas uma forma de falar. Apesar de possuir o título
honorífico de bispo de Horta, Arsénio não tinha sido ordenado e não era um homem religioso. A sua nomeação para o episcopado tinha sido apenas um reconhecimento político do poder enorme que ele tinha na cidade.
— Já é tempo de um filho meu se sentar no Trono de São Pedro. — É possível que esse resultado não seja tão certo quanto
esperávamos, Pai.
— O que queres dizer com isso? — Perguntou Arsénio.
— O apoio de Lothar à minha candidatura pode não ser suficiente.
O facto de ele não ter feito nada para defender Roma dos sarracenos voltou muitos contra ele. O povo pergunta-se porque motivo há-de prestar homenagem a um imperador que não nos protege. Cresce a sensação de que Roma devia afirmar a sua independência do trono franco.
Arsénio pensou no assunto cuidadosamente. Depois, disse: — Tens de denunciar Lothar.
Anastácio estava horrorizado. O pensamento do seu pai, sempre
tão lúcido e acutilante, estava obviamente a toldar-se.
— Se eu fizesse isso — respondeu ele — perderia o apoio do
partido imperial, do qual dependem as nossas esperanças.
— Não. Vais ter com eles e explicas-lhes que estás a agir apenas
por necessidade política. Assegura-os de que, seja o que for que sejas obrigado a dizer, na realidade, és um homem do Imperador e que o provarás depois da tua eleição, atribuindo-lhes benefícios e privilégios de monta.
— Lothar vai ficar furioso.
— Nessa altura, já não interessa. Avançaremos para a cerimónia
de consagração depois da eleição sem esperar pela jussio imperial. Dadas as circunstâncias, ninguém protestará porque é óbvio que Roma não pode continuar sem chefe nem mais um dia do que o necessário, sob a contínua ameaça dos sarracenos. Quando Lothar receber a notícia daquilo que aconteceu, serás Senhor Papa, bispo de Roma — e o imperador não poderá fazer nada para o alterar.
Anastácio abanou a cabeça com admiração. O seu pai tinha
tomado conta da situação imediatamente. A velha raposa podia estar a envelhecer, mas não tinha perdido nem um pouco da sua astúcia.
Arsénio pegou numa grande chave em ferro.
— Vai aos armários e tira o ouro de que precisares para conquistar
as suas mentes para ti. Raios! — praguejou ele. — Se não fosse esta maldita febre, era eu próprio que o fazia.
Anastácio pegou na chave fria e dura com uma sensação de poder
gratificante.
— Descansai, Pai. Eu trato disto.
Arsénio agarrou-o pela manga.
— Tem cuidado, meu filho. O jogo que tu estás a jogar é perigoso.
Não te esqueceste do que aconteceu ao teu tio Teodoro?
Esquecido! O assassinato do seu tio no Palácio Laterano tinha sido
o momento de viragem da infância de Anastácio. A expressão de Teodoro quando os guardas papais lhe arrancaram os olhos perseguiria Anastácio até ao dia da sua morte.
— Eu terei cuidado, Pai — disse Anastácio. — Deixai tudo
comigo.
— É precisamente isso que eu pretendo fazer — retorquiu
Arsénio.
* * *
Ad te, Domine, levavi animam meam... rezava Joana, ajoelhada na
pedra fria da capela do Patriarchium. Mas, por muito que rezasse, não era capaz de ascender à luz da graça; havia um laço mortal que a mantinha presa aqui em baixo.
Amava Geraldo. Não valia a pena continuar a iludir ou a negar
essa verdade simples. Quando o tinha visto a caminho da cidade, à frente das tropas beneventanas, o seu ser tinha-se precipitado na sua direcção com uma convicção poderosa.
Tinha trinta e três anos. Mas, não tinha ninguém a quem estivesse
ligada intimamente. As realidades práticas do seu disfarce não tinham permitido que ninguém se aproximasse muito. Vivia uma vida de mentira, negando a verdade de quem era.
Seria por isso que Deus a tinha privado da Sua graça? Será que
Ele queria que ela abandonasse o seu disfarce e vivesse a vida de uma mulher, para a qual ela tinha nascido? A morte de Sérgio tinha-a libertado de qualquer obrigação de permanecer em Roma. O próximo papa seria Anastácio e não haveria lugar para Joana na sua administração. Ela tinha combatido os seus sentimentos por Geraldo durante muito tempo. Que alívio abençoado seria seguir os ditames do seu coração e não da sua cabeça. Que aconteceria quando ela e Geraldo voltassem a encontrar-se? Sorria intimamente, imaginando a alegria desse momento. Agora, tudo era possível. Podia acontecer tudo.
Ao meio-dia do dia marcado para a eleição, tinham-se reunido
todos os romanos, leigos e clero, participavam na eleição do novo papa.
Joana teve que se pôr em bicos dos pés para conseguir espreitar
por cima das cabeças e dos braços. Onde estava Geraldo? Havia rumores de que ele tinha regressado da sua campanha de meses contra os sarracenos. Se era verdade, ele estaria ali. Subitamente, ficou com medo — e se ele tivesse regressado a Benevento sem voltar a vê-la?
A multidão abriu alas respeitosamente quando Eustácio, o
arcipreste, Desidério, o arcediago, e Pascal, o primicerius, entraram na praça: o triunvirato dos funcionários que, por tradição, governavam a cidade sede vacante, isto é, no interregno entre a morte de um papa e a eleição de outro.
Eustácio fez uma pequena oração:
— Pai Celeste, guiai-nos naquilo que vamos fazer aqui hoje para
que ajamos com prudência e honra, que o ódio não destrua a razão e o amor não interfira com a verdade. Em Nome da santa e indivisível Trindade do Pai, Filho e Espírito Santo. Ámen.
Pascal falou a seguir:
— Tendo o senhor papa Sérgio partido para Deus, cabe-nos eleger
o seu sucessor. Qualquer romano aqui presente pode falar e manifestar os sentimentos que Deus lhe inspirou para que a vontade geral seja, assim, cumprida.
— Meu Senhor Primicerius.
Tassilo, o chefe da facção imperial e um dos agentes de Lothar
falou imediatamente:
— Há um nome que se impõe acima de todos os outros.
Anastácio, bispo de Castellum, filho do ilustre Arsénio. Todas as qualidades da natureza deste homem o recomendam para o trono — o seu nascimento nobre, a sua erudição extraordinária, a sua indiscutível piedade. Em Anastácio teremos um defensor não só da nossa fé cristã, mas também dos nossos interesses.
— Dos vossos interesses, quereis vós dizer! — disse uma voz,
trocista, vinda da multidão.
— Não — retorquiu Tassilo. — A generosidade e grandeza de
coração de Anastácio fará dele um pai para todos vós.
— Ele é o homem do imperador! — voltou a gritar o provocador.
— Não queremos um instrumento do trono franco para nosso Senhor Papa!
— É verdade! É verdade! — disseram várias vozes, num acordo
vigoroso.
Anastácio subiu à plataforma. Levantou os braços num gesto
dramático, acalmando a multidão.
— Companheiros romanos, julgais-me mal. O orgulho dos meus
nobres antepassados romanos corre tão intensamente nas minhas veias como nas vossas. Não me submeto a nenhum senhor franco!
— Ouvi, ouvi! — aclamaram-no os seus apoiantes,
entusiasticamente.
— Onde estava Lothar quando o infiel estava às nossas portas? —
prosseguiu Anastácio. — No momento em que não respondeu às nossas necessidades, perdeu o direito de se chamar a si mesmo Protector das Terras de São Pedro! Como soldado de Lothar, devo-lhe honra, como ele é um companheiro cristão, devo-lhe respeito, mas a minha fidelidade vai primeiro e sempre para a Mãe Roma!
Tinha falado bem. Os seus apoiantes voltaram a aclamá-lo e, desta
vez, foram acompanhados por outros entre a multidão. A maré de opinião estava a virar-se para Anastácio.
— É mentira! — gritou Joana. Todos os rostos se voltaram para
ela, surpreendidos.
— Quem falou? — procurou Pascal entre a multidão. — Que o
acusador avance.
Joana hesitou. Tinha falado sem pensar, picada pela ira perante a
hipocrisia de Anastácio. Mas, agora, não podia recuar. Subiu à plataforma.
— Mas, é João Anglicus! — disse alguém.
Um murmúrio de reconhecimento atravessou a multidão, todos
tinham conhecimento ou tinham ouvido falar da forma como Joana se havia postado corajosamente no muro da cidade, durante o ataque dos sarracenos.