A Papisa Joana

Donna Woolfolk Cross · Capítulo 8 de 9 · parte 3/4

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A Papisa Joana

Capítulo 22 · Geraldo suspirou de alívio quando desceu, juntamente com os seus

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 4 partes.

Anastácio tapou-lhe a passagem.

— Não tendes o direito de vos dirigirdes a esta assembleia! Não

sois um cidadão romano.

— Deixai-o falar! — gritou uma voz. Ouviram-se mais gritos, até

Anastácio acabou por ser forçado a deixá-la passar.

Pascal disse:

— Fazei as vossas acusações abertamente, João Anglicus. Respirando fundo, Joana disse:

— O bispo Anastácio fez um acordo com o Imperador. Eu ouvi-o

prometer que voltava a entregar Roma ao trono franco.

— Falso Padre! Mentiroso!

Os membros do partido imperial começaram a gritar para tentar

abafar a sua voz. Levantando a voz mais alto do que eles, ela descreveu como tinha ouvido Lothar pedir a Anastácio que o ajudasse a levar o povo a jurar fidelidade e como Anastácio tinha concordado, a troco do apoio de Lothar.

— Essa acusação é muito grave — disse Pascal —, O que tendes a

dizer, Anastácio, Diante de Deus.

— O padre está a mentir — disse Anastácio. — Certamente os

meus concidadãos não vão acreditar na palavra de um estrangeiro contra a de um cidadão romano!

— Vós fostes o primeiro a apoiar o juramento! — gritou alguém. — E então — argumentou outro. — Isso não prova nada! Seguiu-se uma grande confusão. O debate aquecia cada vez mais,

com o humor da multidão pendendo primeiro para um lado, depois, para o outro, à medida que se levantavam vozes para apoiar ou condenar Anastácio.

— Meu Senhor Primicerius!

Arighis, que até ali se tinha mantido calado, avançou. — Vicedominus.

Pascal saudou Arighis respeitosamente, apesar de estar

surpreendido. Servo dedicado e leal ao trono papal como ele era, Arighis nunca se tinha metido em políticas.

— Tendes alguma coisa a acrescentar a esta disputa? — Tenho — Arighis virou-se para a multidão. — Cidadãos de

Roma, não estamos livres de perigo. Quando vier a Primavera, os sarracenos podem tentar um novo assalto à cidade. Temos de nos manter unidos perante esta ameaça.

Não podem existir divisões entre nós. Seja quem for que escolhais

para nosso Senhor Papa, tem de ser alguém que reúna o consenso de todos.

Ouviu-se um murmúrio de assentimento perpassar a multidão. — Existe um homem assim? — perguntou Pascal. — Sim — respondeu Arighis. — Um homem de visão e poder,

assim como instruído e piedoso: Leão, cardeal-presbítero da Igreja de Sancti Quatro Coronati!

A sugestão foi acolhida com um silêncio profundo. Estavam tão

embrenhados na discussão sobre os méritos da candidatura de Anastácio, que não tinham parado para considerar outra possibilidade.

— A linhagem de Leão é tão nobre como a de Anastácio —

prosseguiu Arighis. — O seu pai é um respeitado membro do Senado. Ele desempenhou as suas obrigações de cardeal-presbítero com distinção.

Arighis guardou o seu ponto mais revelador para o fim: — Algum de nós poderá esquecer como ele ficou corajosamente

junto aos muros, durante o ataque dos sarracenos, animando-nos? Ele é um leão de Deus, outro São Lourenço, um homem que pode, que nos protegerá dos infiéis!

A exigência do momento tinha feito despontar em Arighis uma

eloquência que não lhe era característica. Inflamados pela profundidade da sua convicção, muitos na multidão irromperam espontaneamente em aclamações.

Sentindo que era oportuno, os membros da facção papal

começaram a gritar.

— Leão! Leão! — gritavam eles. — Queremos Leão para nosso

senhor!

Os apoiantes de Anastácio tentaram contrariar a tendência, a favor

da sua candidatura. Mas, o sentimento da multidão tinha mudado claramente. Quando se tornou evidente para a facção imperial que não iam vencer, transferiram o seu apoio para Leão. Leão foi proclamado Senhor e Papa a uma só voz.

Levado triunfalmente aos ombros pelos seus concidadãos, ele

subiu à plataforma. Era baixo, mas bem constituído, ainda jovem. As suas feições, acentuadamente romanas, eram emolduradas por um cabelo castanho encaracolado e forte e a sua expressão insinuava inteligência e humor. Com sensibilidade para as ocasiões solenes, Pascal prostrou-se diante dele e beijou-lhe os pés. Eustácio e Desidério seguiram-no imediatamente.

Todos os olhos se voltaram para Anastácio, na expectativa. Por uma fracção de segundos, ele hesitou. Depois, forçou os seus

joelhos a dobrarem-se. Estendendo-se ao comprido no chão, beijou os pés do Papa eleito.

— Levantai-vos, nobre Anastácio — Leão estendeu-lhe a mão,

ajudando-o a levantar-se. — A partir de hoje, sois Cardeal-Presbítero de São Marcelo.

Era um gesto generoso. Leão tinha presenteado Anastácio com

uma das sinecuras mais prestigiadas de Roma.

A multidão manifestou a sua aprovação.

Anastácio forçou os seus lábios a sorrirem porque o gosto amargo

da derrota lhe sabia a cinzas secas.

* * *

Magnus Dominus et laudibilis nimis. As notas do intróito

atravessavam a janela do quartinho onde Joana guardava os seus medicamentos. Como São Pedro estava em ruínas, a cerimónia de consagração tinha sido na Basílica de Latrão.

Joana devia estar na igreja com o resto do clero, testemunhando a

coroação jubilosa de um novo papa. Mas, tinha muito que fazer ali: tinha de pendurar as ervas recém-colhidas para secarem, tinha de encher os jarros e as garrafas com os medicamentos respectivos, pondo tudo em ordem. Quando acabou, encheu as prateleiras com as suas filas alinhadas de poções, ervas e medicamentos — testemunho tangível de tudo quanto ela tinha aprendido na arte da cura. Sentiu um aperto no coração e apercebeu-se de que iria sentir falta daquela oficinazinha.

— Pensei que te encontrava aqui.

A voz de Geraldo soou atrás dela. O coração de Joana deu um

salto de alegria. Virou-se para ele e os seus olhos encontraram-se.

— Tu? — disse Geraldo suavemente.

— Eu.

Sorriram um ao outro com o calor da intimidade restabelecida.

— É estranho — disse ele. — Quase me tinha esquecido. — Esquecido?

— Cada vez que te vejo... volto a descobrir-te. Ela avançou para ele e abraçaram-se terna e suavemente. — As coisas que eu disse da última vez que estivemos juntos...

murmurou ela. — Eu não quis...

Geraldo colocou um dedo sobre os seus lábios. — Deixa-me falar primeiro. O que aconteceu foi culpa minha. Eu

estava errado em pedir-te para partires; compreendo-o agora. Não percebi o que tinhas alcançado aqui... aquilo em que te tinhas tornado. Tinhas razão, Joana — não há nada que eu te possa oferecer que se lhe compare.

Excepto amor, pensou Joana, mas, não o disse. Disse

simplesmente:

— Não quero perder-te outra vez.

— Não me vais perder — disse Geraldo. — Não vou voltar para

Benevento. Leão pediu-me para eu ficar em Roma — como superista.

Superista! Era uma honra extraordinária, a posição militar mais

alta em Roma: comandante-chefe da milícia papal.

— Há trabalho para fazer aqui — trabalho importante. O tesouro

que os sarracenos roubaram de São Pedro só vai encorajá-los a voltarem à carga.

— Pensas que eles vão regressar?

— Sim.

A qualquer outra mulher, Geraldo teria mentido para a

tranquilizar. Mas, Joana não era como as outras mulheres.

— Leão vai precisar da tua ajuda, Joana — da tua e da minha. — Da minha? Não vejo o que possa fazer.

Geraldo disse lentamente:

— Então, quer dizer que ainda ninguém te disse? — Me disse o quê?

— Que vais ser nomenclator.

— O quê!

Ela não podia ter ouvido bem. O nomenclator era um dos sete

optimates, ou oficiais superiores, de Roma — o ministro da caridade, protector de menores, viúvas e órfãos.

— Mas... eu sou estrangeira!

— Isso não interessa a Leão. Ele não é homem para se vergar a

tradições sem sentido.

Tinha-lhe sido oferecida uma oportunidade única. Mas, aceitá-la

significaria também o fim de qualquer esperança de uma vida com Geraldo. Dividida por desejos opostos, Joana não se atrevia a falar.

Interpretando mal o seu silêncio, Geraldo disse. — Não te preocupes, Joana. Não voltarei a maçar-te com

propostas de casamento. Agora, sei que nunca poderemos ficar juntos dessa maneira. Mas, será bom voltar a trabalhar contigo, como dantes: Sempre fomos uma boa equipa, não fomos?

A cabeça da Joana andava-lhe à roda; tinha saído tudo tão

diferente daquilo que ela tinha imaginado. A sua voz, quando respondeu, era um sussurro:

— Sim. Sim, fomos.

Sanctus, Sanctus, Sanctus. As palavras do hino sagrado chegaram-

lhes aos ouvidos através das janelas abertas. A cerimónia de consagração tinha terminado; o Cânone da Missa estava quase a começar.

— Anda — Geraldo pegou-lhe na mão. — Vamos saudar o nosso

senhor Papa juntos.

 

Capítulo 25

O novo Pontífice assumiu as suas tarefas com um vigor juvenil

que surpreendeu toda a gente. Parecia que, de um dia para o outro, o Patriarchium, de um palácio monástico poeirento, se tinha transformado numa colmeia cheia de actividade. Notários e secretários corriam pelos salões com os braços cheios de rolos de pergaminho com planos, estatutos, cartulários e benefícios.

A primeira tarefa era fortalecer as defesas da cidade. Por ordem de

Leão, Geraldo fez um circuito pormenorizado pelos muros, anotando cuidadosamente todos os pontos de fraqueza.

Seguindo as suas sugestões, foram traçados planos e iniciaram-se

as obras de reparação dos muros e das portas da cidade. Três dos portões e quinze das torres foram completamente reconstruídas. Foram construídas duas novas torres na outra margem do Tibre, onde o rio entrava na cidade, na porta de Portus. Foi feita uma ligação estratégica entre as várias torres, através de correntes de ferro reforçado, de forma a que, quando as correntes fossem esticadas por cima do rio, formassem uma barreira que não permitisse a passagem a navios. Os sarracenos nunca conseguiriam entrar na cidade, pelo menos, por ali.

Ainda se punha a difícil questão da protecção de São Pedro. Leão convocou uma reunião do alto clero e dos optimates,

incluindo Geraldo e Joana para pensarem no problema.

Foram avançadas algumas sugestões: colocar uma guarnição de

milícias permanente em torno da basílica, fechar a praça, fortificar as portas e as janelas com grades em ferro.

Leão ouvia sem entusiasmo.

— Essas medidas só servirão para atrasar uma entrada à força,

mas não para a impedir.

 

— Com todo o respeito Santidade, — disse Anastácio —, o atraso

é a nossa melhor defesa. Se não pudermos reter os bárbaros até as tropas do imperador chegarem...

— Se chegarem... — interrompeu Geraldo, num tom seco. — Tendes de confiar em Deus, superista — retorquiu Anastácio. — Em Lothar, quereis vós dizer — disse Geraldo. — Não, não

confio.

— Perdoai-me, superista — disse Anastácio com uma delicadeza

exagerada —, por apontar para aquilo que é óbvio, mas, de momento não podemos fazer mais nada, uma vez que a basílica fica fora dos muros da cidade.

Joana disse:

— Podemos trazê-la para dentro dos muros.

As sobrancelhas escuras de Anastácio arquearam-se

sardonicamente.

— O que propondes, João... que se transfira o edifício todo, pedra

a pedra?

— Não — respondeu a Joana. — Proponho que se aumentem os

muros da cidade, de forma a cercarem São Pedro.

— Um novo muro! — o interesse de Leão ficou aguçado. — Totalmente impraticável! — troçou Anastácio. — Desde os

dias dos antigos que não se realiza um projecto dessa envergadura.

— Então — disse Leão — chegou a hora de outro. — Não temos fundos! — protestou Grácio, o arcarius, ou

tesoureiro papal. — Chegaremos à bancarrota sem que a obra tenha chegado, sequer, a meio!

Leão considerou a questão.

— Lançaremos novos impostos. Afinal, é justo que o novo muro,

que servirá para nos proteger a todos, seja construído com a ajuda de todos.

O pensamento de Geraldo já seguia à frente:

— Podíamos começar a construir aqui — e apontou para um mapa

da cidade — no Castel SantAngelo. Fazer passar o muro ao longo da Colina do Vaticano — traçou uma linha imaginária com o dedo — fazê-lo circundar São Pedro e fazê-lo descer numa linha recta até ao Tibre.

A linha em forma de ferradura que Geraldo tinha desenhado não

só incluía São Pedro, como também incluía os mosteiros e diaconae que o rodeavam, assim como todo o Borgo, no qual se concentravam as colónias dos saxónios, dos frígios, dos francos e dos lombardos.

— É como se fosse uma cidade! — exclamou Leão. — Civitas Leonina — disse Joana — a Cidade Leonina. Anastácio e os outros olhavam, perplexos, enquanto Leão,

Geraldo e Joana se agitavam numa feliz conspiração.

Depois de semanas de consultas com os mestres-construtores da

cidade, o plano do muro ficou terminado. Era um projecto ambicioso. Construído em camadas de tufo calcário e de ladrilhos, o muro teria cerca de quarenta pés de altura e doze de espessura e seria defendido por nada menos do que quarenta e quatro torres — uma barreira que resistiria mesmo ao cerco mais determinado.

Em resposta ao apelo de Leão, afluíram à cidade trabalhadores

provenientes de todas as povoações e colónias do território papal. Amontoavam-se nos alojamentos quentes e cheios do Borgo, levando os recursos da cidade a um ponto de ruptura. Apesar de serem leais e ambiciosos, eram trabalhadores sem conhecimentos, indisciplinados e os seus esforços tornaram-se difíceis de coordenar. Apareciam todos os dias sem saberem bem o que deviam fazer porque não havia construtores habilitados em quantidade suficiente para supervisionarem os seus esforços. Nos idos de Maio, uma secção inteira do muro ruiu inesperadamente, matando vários trabalhadores.

O clero, comandado pelos cardeais-presbíteros da cidade, pediu a

Leão que abandonasse o projecto. A queda do muro era um sinal claro do desagrado de Deus, disseram eles. A ideia era uma loucura; uma estrutura tão alta nunca se manteria de pé e, mesmo que se mantivesse, nunca estaria acabada a tempo de os defender contra os sarracenos. Era muito melhor orientar as energias do povo para a oração solene e para o jejum para afastar a ira de Deus.

— Rezaremos como se tudo dependesse de Deus e trabalharemos

como se tudo dependesse de nós — respondeu Leão com firmeza.

Ele dava todos os dias uma volta para examinar o progresso da

construção e para animar os trabalhadores. Não havia nada que o pudesse deter na sua determinação para ver o muro terminado.

Joana admirava a forma teimosa como Leão desafiava os cépticos.

Completamente diferente de Sérgio em carácter e temperamento, Leão era um verdadeiro guia espiritual, um homem enérgico e determinado. Mas, a admiração que Joana sentia por ele não era partilhada por todos. Os sentimentos na cidade dividiam-se entre aqueles que aprovavam a construção do muro e aqueles que se lhe opunham. Depressa se tornou claro que a possibilidade de Leão continuar a governar dependia muito do sucesso na construção do muro.

* * *

Anastácio tinha a noção exacta da situação e da oportunidade que

ela representava. A obsessão de Leão com o muro tornava-o perigosamente vulnerável. Se o projecto se revelasse um fracasso, a desaprovação popular daí resultante podia dar a Anastácio a oportunidade que ele esperava. Os seus apoiantes do partido imperial podiam marchar para o Laterano, destituir o Papa desacreditado e instalar o seu candidato no seu lugar.

Uma vez papa, Anastácio protegeria a santa Basílica de São Pedro,

renovando e fortalecendo os laços de Roma com o império franco. Os exércitos de Lothar seriam uma defesa muito melhor contra os infiéis do que o muro impraticável de Leão.

Mas, Anastácio lembrou a si próprio que tinha de agir

cautelosamente. Era melhor não se opor abertamente a Leão, pelo menos, enquanto as pessoas ainda esperavam para ver o resultado final do empreendimento arrojado do Pontífice.

O mais sensato era apoiar Leão publicamente, enquanto fazia tudo

o que podia para sabotar o projecto em construção. Para tanto, Anastácio já tinha conseguido maquinar a derrocada de uma parte do muro. Não tinha sido difícil, alguns dos seus homens de confiança tinham aparecido de noite e tinham minado a fundação com algumas escavadelas subreptícias. Mas, a queda do muro não tinha representado senão um pequeno atraso. Era evidente que era preciso fazer mais qualquer coisa — um desastre de proporções suficientes para pôr termo àquele projecto ridículo de uma vez por todas.

Anastácio dava voltas à cabeça, procurando uma forma de atacar.

Mas, continuava a não ter ideia nenhuma. Sentia-se cada vez mais frustrado. Se ao menos ele pudesse chegar-lhe com uma mão gigantesca, que esmagasse a construção toda e a levasse para o fogo do Inferno de um só golpe irrefutável.

O fogo do Inferno...

Anastácio sentou-se muito direito, excitado com a aparição súbita

de uma ideia.

Joana acordou lentamente. Ficou confusa durante alguns

momentos, olhando para a forma desconhecida das vigas de madeira no tecto. Depois, lembrou-se: não era o dormitório, mas sim os seus aposentos privados - um dos privilégios da sua posição como nomenclator. Geraldo também tinha sido agraciado com aposentos privados no Patriarchium, mas não dormia neles havia várias semanas, preferindo ficar na Schola Francorum no Borgo para estar mais perto das obras de construção do muro.

Joana tinha-o visto de longe, cavalgando em torno do local de

construção, animando os trabalhadores, ou debruçado sobre uma mesa, discutindo os planos com os mestres-construtores.

Não tinham oportunidade para trocar senão um olhar de relance. Mas, o seu coração batia, excitado, cada vez que o via. Realmente, pensou ela, este meu corpo de mulher é um traidor. Com um esforço deliberado, fixou a sua atenção no trabalho do

dia e nos deveres que a esperavam.

A luz da madrugada já entrava pela janela. Com surpresa,

apercebeu-se de que devia ter adormecido. Se não se despachasse, chegava tarde ao seu encontro com o chefe do Hospício de São Miguel.

Ao saltar da cama, apercebeu-se de que a luz que lhe entrava no

quarto não era do sol nascente. Não podia ser a luz do Sol porque a janela estava virada para ocidente.

Correu para a janela. Por trás da silhueta negra da Colina do

Palatino, no outro extremo da cidade, erguiam-se para o céu sem luar cortinas de luz vermelha e laranja.

Chamas. E vinham do Borgo.

Sem parar para calçar os sapatos, Joana correu descalça pelos

salões:

— Fogo! — gritou ela. — Fogo! Fogo!

As portas abriram-se e as pessoas começaram a aparecer, agitadas,

no corredor. Arighis dirigiu-se a ela, esfregando os olhos.

— O que se passa — perguntou ele.

— O Borgo está a arder!

— Deo, juva nos! — Arighis benzeu-se. — Tenho de acordar Sua

Santidade.

Correu na direcção do quarto papal.

Joana correu pelas escadas abaixo e saiu. Era mais difícil ver dali

porque os numerosos oratórios, mosteiros e casas do clero que rodeavam o Patriarchium obscureciam a vista, mas ela diria que o incêndio se tinha ateado porque o céu nocturno estava completamente iluminado com um brilho sinistro.

Havia outros que tinham seguido Joana até ao pórtico. Caíram de

joelhos, chorando e invocando Deus e São Pedro. Depois, apareceu Leão, com a cabeça descoberta e com uma simples túnica.

— Procurai a guarda — ordenou ele ao camareiro. — Acordai os

palefreneiros. Eles que preparem todos os cavalos e todos os carros que estiverem disponíveis.

O rapaz correu a levar as ordens. Os cavalos estavam agitados,

irrequietos e irritáveis por terem sido tirados do conforto dos seus estábulos a meio da noite. Leão montou o baio que se encontrava à frente. Arighis ficou horrorizado:

— Não pretendeis ir vós mesmos?

— Pretendo, sim — respondeu Leão, tomando as rédeas. — Santidade, tenho de me opor! É muito perigoso! Será

certamente mais adequado que permaneçais aqui e que celebreis uma missa a pedir clemência!

— Posso rezar tanto fora dos muros de uma igreja como dentro —

respondeu Leão. — Afastai-vos, Arighis.

Arighis obedeceu com relutância. Leão esporeou a montada e

cavalgou pela rua abaixo. Joana e dezenas de guardas montaram e partiram logo a seguir a ele. Arighis seguiu atrás deles.

Não era um grande cavaleiro, mas o seu lugar era ao lado do Papa.

Se Leão se tinha metido naquela loucura, era dever de Arighis acompanhá-lo. Montou desajeitadamente e partiu atrás deles.

Puseram-se a galope, com as tochas a reflectirem-se nas paredes

das casas. As suas sombras perseguiam-se umas às outras pelas ruas escuras, como fantasmas enlouquecidos.

Quando chegaram perto do Borgo, o cheiro intenso a fumo entrou-

lhes pelo nariz e eles ouviram um grande ruído, como se fosse o rugido de milhares de animais selvagens. Depois de passarem uma curva, o fogo estava mesmo à frente deles. Era uma cena infernal. O quarteirão estava completamente a arder, coberto com um manto de chamas. Através do fumo avermelhado, as construções em madeira retorciam-se, presas das chamas que as consumiam. Recortadas contra o fogo, as figuras humanas corriam em todas as direcções, como almas condenadas. Os cavalos relincharam e recuaram, baixando as cabeças. Um padre veio a correr na direcção deles, pelo meio do fumo denso, com o rosto manchado de suor e de fuligem.

— Santidade! Graças a Deus que viestes!

Pelo sotaque e pela maneira como estava vestido, Joana percebeu

que se tratava de um franco.

— É tão mau como parece? — perguntou Leão lapidarmente. — É ainda pior do que parece — respondeu o padre. — O

Hadrianium está destruído, assim como o Hospício de São Peregrino. As colónias estrangeiras também desapareceram — a Schola Saxonum ardeu completamente, assim como a sua igreja.

Os edifícios da Schola Francorum estão em chamas. Eu quase não

escapava com vida.

— Haveis visto Geraldo? — perguntou Joana, aflita. — O superista — O padre abanou a cabeça negativamente. — Ele

dormia num dos andares superiores, com os pedreiros. Duvido que algum deles tenha conseguido escapar, o fumo e o fogo espalharam-se demasiado depressa.

— E os sobreviventes — perguntou Leão. — Onde estão? — A maior parte deles refugiaram-se em São Pedro. Mas, há fogo

por toda a parte. Se ninguém o apagar, a própria basílica pode estar em risco!

Leão estendeu-lhe a mão:

— Vinde connosco, é para lá que vamos agora. O padre saltou para cima da montada, sentando-se atrás do Papa e

dirigiram-se todos para São Pedro.

Joana não os acompanhou. Tinha outra coisa em mente: encontrar

Geraldo.

A linha de fogo erguia-se sólida e intransponível à sua frente. Não

havia forma de passar através dela. Rodeou-a, até chegar a um cruzamento de ruas escuras e em ruínas por onde o fogo já tinha passado. Desceu uma delas que seguia na direcção da Schola Francorum.

Continuava a haver focos de incêndio de cada lado da rua e o

fumo era mais espesso. O medo começou a apertar-lhe a garganta, mas forçou-se a continuar. O seu cavalo começou a relinchar e a lutar, sem querer avançar, ela gritou e bateu-lhe e ele avançou nervosamente. Ela passou por uma paisagem de horror - troncos de árvore queimados, esqueletos de casas, corpos retorcidos e carbonizados daqueles que tinham tentado fugir. O coração da Joana batia-lhe dentro do peito, não era possível que tivesse saído alguma coisa com vida daquele holocausto.

De repente, inesperadamente, as paredes de um edifício ergueram-

se diante dela. A Schola francorum! A igreja e as construções vizinhas estavam reduzidas a cinzas, mas, miraculosamente, a residência principal ainda estava de pé.

O coração bateu-lhe com uma esperança renovada: talvez Geraldo

tivesse escapado! Ou talvez ainda estivesse lá dentro, ferido, precisando de ajuda.

O cavalo estacou, recusando-se a avançar. Ela voltou a bater-lhe,:

desta vez, ele empinou-se furiosamente, atirando-a ao chão. Depois, largou a galope.

Ela ficou no chão, atordoada. Ao seu lado, estava um corpo

humano, brilhante e escuro como metal fundido, com as costas arqueadas numa agonia de morte.

Com um sobressalto, ela levantou-se e correu para a schola. Tinha de encontrar Geraldo, nada mais importava. Havia cinzas por toda a parte, no chão, nas suas roupas, no seu

cabelo, suspensas à sua volta numa nuvem pesada e sufocante. As brasas queimaram-lhe os pés descalços e ela arrependeu-se de não ter calçado uns sapatos.

Viu ao longe a porta da schola. Mais alguns metros, e estaria junto

dela.

— Geraldo! — gritou ela. — Onde estás?

Selvagem e incontrolável como o vento que o fustigava, o fogo

mudou de direcção, depositando uma quantidade de brasas a arder sobre o telhado, já seco como uma mecha apagada, depois da primeira passagem do fogo. As brasas quase se apagaram e, depois, voltaram a atear-se, poucos momentos depois, todo o edifício começou a arder.

Joana sentiu que o cabelo se lhe levantava todo e caía devido à

lufada violenta de ar abrasador. O fogo avançou para ela com as suas línguas escaldantes.

— Geraldo! — gritou ela, novamente, recuando devido ao avanço

das chamas.

Geraldo tinha ficado acordado até tarde, examinando os planos

para o muro. Quando apagou, finalmente, a vela, estava tão exausto que caiu logo num sono profundo e sem sonhos.

Acordou com o cheiro do fumo. Deve ter-se incendiado uma

lâmpada, pensou ele e levantou-se para a apagar. A primeira lufada de ar que ele respirou ressequiu-lhe os pulmões, provocando-lhe uma dor que o fez ajoelhar-se, com falta de ar.

Fogo. Mas, de onde vem? O fumo espesso não lhe permitia ver

mais do que alguns passos em todas as direcções.

Ouviu gritos aterrados de crianças perto dele. Geraldo arrastou-se

na direcção deles. Da escuridão, emergiram rostos assustados — duas crianças, um menino e uma menina com pouco mais de quatro ou cinco anos. Correram na sua direcção e agarraram-se a ele, chorando copiosamente.

— Está tudo bem. — Ele fingiu uma segurança que não sentia. Já

vamos sair daqui. Alguma vez brincaram aos cavaleiros?

As crianças acenaram que sim, com os olhos muito abertos. — Muito bem.

Ele pôs a menina às cavalitas, depois, o menino. — Agarrem-se

bem. Vamos sair.

Moveu-se com dificuldade por causa do peso das crianças às

costas. O fumo tinha-se tornado ainda mais espesso, as crianças tossiam, com falta de ar. Geraldo combateu o medo que começava a crescer dentro dele. Muitas vítimas de incêndios não morriam queimadas, mas sim asfixiadas, por causa do fumo.

De repente, deu-se conta de que tinha perdido os seus fardos. Os

seus olhos procuraram na escuridão, mas não era capaz de encontrar a porta porque o fumo era cada vez mais espesso.

— Geraldo! — gritou uma voz através do fumo.

Dobrando-se para respirar melhor, ele encaminhou-se às cegas na

direcção do som.

Diante dos muros de São Pedro, travava-se uma batalha árdua

contra o fogo que avançava. Tinha-se reunido uma multidão para defender a basílica ameaçada — monges vestidos de negro do mosteiro vizinho de São João e os seus correspondentes encapuçados do mosteiro grego de São Cirilo, diáconos, padres e acólitos, prostitutas e pedintes, homens, mulheres e crianças de todas as scholae estrangeiras do Borgo — saxónios, lombardos, ingleses, frígios e francos. Sem qualquer coordenação central, os esforços daqueles grupos dispersos eram bastante ineficazes. Faziam uma tentativa caótica para encontrar recipientes e jarros e para trazer água dos poços e cisternas das imediações. Um dos poços estava apinhado de gente, enquanto outro estava completamente abandonado.

Gritando numa confusão de línguas diferentes, as pessoas

empurravam-se e acotovelavam-se para encherem os seus recipientes, os jarros batiam uns nos outros e partiam-se, derramando a água preciosa para o chão. No meio da confusão, um dos baldes para tirar água do poço partiu-se, a única forma de chegar à água era descer ao poço e voltar a subir — um processo que era tão difícil que depressa foi abandonado.

— Para o rio! Para o rio! — gritavam alguns, encaminhando-se

para o Tibre.

No meio do medo e da confusão, alguns dirigiram-se para o rio de

mãos a abanar, apercebendo-se disso apenas quando chegaram à margem e viram que não tinham nada com que transportar água. Outros, traziam jarros tão grandes que, quando cheios com água, eram demasiado pesados para as suas forças, a meio caminho, deixavam-nos cair, chorando de raiva e de frustração.

No meio deste caos, Leão estava diante das portas de São Pedro,

sólido e imóvel como as pedras da própria basílica. As pessoas ficavam mais consoladas com a sua presença. Enquanto o seu Senhor Papa estivesse, não estava tudo perdido, ainda havia esperança. Por isso, continuavam a combater as chamas que avançavam inexoravelmente como uma maré, fazendo recuar a linha daqueles que o combatiam, suados e esforçados.

À direita da basílica, a biblioteca do Mosteiro de São Martinho

estava em chamas, saíam pedaços de pergaminho a arder pelas janelas abertas e, levados pelo vento, aterravam no telhado de São Pedro.

Arighis tocou na manga de Leão.

— Tendes de ir embora agora, Santidade, enquanto é tempo. Ignorando-o, Leão continuava a rezar.

Vou chamar a guarda, pensou Arighis, desesperado. Farei com que

eles o levem daqui à força. Como vicedominus tinha autoridade para o fazer. Mas hesitava, torturado. Será que se poderia permitir desafiar o Apostólico, mesmo que fosse para o salvar?

Ele apercebeu-se do perigo que se aproximava antes de qualquer

outro. Um grande pedaço de seda da cortina do altar varreu as paredes a arder do mosteiro, formando uma corda de fogo. O vento apanhou-a, transformando-a numa seta de fogo apontada directamente a Leão.

Arighis atirou-se sobre Leão, afastando-o para o lado. Pouco

depois, o revestimento do altar atingiu Arighis na cara, queimando-lhe os olhos, enrolando-se à volta da sua cabeça e do seu corpo como um lençol de chamas. Subitamente, as suas vestes e o seu cabelo começaram a arder.

Cego e surdo por causa das chamas, correu pelos degraus da

basílica até as suas pernas cederem. Caiu. Nos últimos terríveis momentos, enquanto o seu corpo ardia, mas o seu cérebro estava perfeitamente consciente, Arighis compreendeu subitamente: era aquele o seu destino, era este o momento sacrificial para o qual toda a sua vida tinha estado orientada.

— Cristo Jesus! — gritou ele quando as dores indizíveis lhe

trespassaram o coração.

A nuvem de fumo levantou-se um pouco e Geraldo viu a porta

aberta à sua frente. Na ombreira da porta, a imagem da Joana tremeluzia no ar quente, com o seu cabelo dourado como uma aura brilhante à luz do fogo. Com um esforço final, Geraldo levantou-se, pegou nas crianças e irrompeu pela porta.

Joana viu-o emergir do fumo e correu para ele. Ajudou-o a pôr no

chão as crianças que choravam e pegou-lhes ao colo, enquanto os seus olhos ficavam presos aos de Geraldo, que estava parado, incapaz de falar ou de se mexer.

— Graças a Deus — limitou-se ela a dizer.

Mas, a mensagem dos seus olhos dizia muito mais. Deixaram as crianças entregues a um grupo de freiras e correram

para a basílica, onde Geraldo viu imediatamente que aqueles que combatiam o fogo estavam mal colocados, estavam a combater o fogo perto de mais.

Geraldo assumiu o comando. Ordenou aos homens que recuassem

para uma distância mais segura e criassem uma barreira ao fogo, arrancando arbustos, galhos de árvores e tudo o que ardesse e, depois, espalhassem por cima erva e molhassem o chão.

Ao ver as fagulhas a caírem sobre a basílica, Joana tirou um jarro

de água das mãos de um monge que ia a passar e subiu ao telhado. Houve outras pessoas que a seguiram: duas, depois, quatro, depois, dez. Formaram uma cadeia humana, passando baldes de água de mão em mão e devolvendo os vazios para voltarem a ser enchidos. Passar, encher, passar, encher, passar, encher, passar, encher — trabalhavam lado a lado, com os braços a arder com o esforço, as roupas e as faces sujas de fuligem, as bocas abertas para conseguirem respirar no ar cheio de fumo.

No chão por baixo deles, o fogo aproximava-se, as chamas

lambiam a erva, que se tornava imediatamente negra. Geraldo e os homens lutavam desesperadamente para aumentar a área de barreira ao fogo.

Nos degraus da basílica, Leão fez o sinal da cruz, com o rosto

voltado para o céu, implorando:

— Oh Senhor Deus — rezou ele. — Ouvi-nos agora, que Vos

imploramos!

O fogo chegou à barreira. As chamas agigantaram-se, procurando

transpor a barreira, avançando para o solo nu.

Geraldo e os seus homens atacaram com mais baldes de água. As

chamas hesitaram, recuaram, silvando furiosamente, depois começaram a consumir-se a si próprias.

A basílica estava salva.

Joana sentiu a humidade das lágrimas no seu rosto. Os primeiros dias a seguir ao fogo passaram-se a enterrar os

mortos - aqueles cujos corpos tinham sido encontrados. O calor intenso do fogo tinha reduzido muitas das suas vítimas a ossos calcinados e a cinzas.

Arighis, tal como era adequado à sua alta posição, foi sepultado

com uma cerimónia solene. Depois de uma missa fúnebre em Latrão, o seu corpo foi enterrado numa cripta numa pequena capela junto aos túmulos dos papas Gregório e Sérgio.

Joana chorou a sua partida. Ela e Arighis nem sempre se tinham

dado bem, especialmente no início, mas tinham acabado por se respeitar mutuamente. Ela ia ter saudades da sua eficiência discreta, do seu conhecimento de todos os pormenores das complicadas manobras internas do Patriarchium, mesmo do orgulho com que ele cumpria os deveres do seu ofício.

Era justo que ele descansasse para toda a eternidade junto dos

Apostólicos, que ele tinha servido com tanta dedicação.

Depois de terem sido observados os dias de luto requeridos,

começou o balanço dos prejuízos causados pelo fogo. O Muro Leonino, onde o fogo parecia ter começado, apresentava danos de pouca monta, mas três quartos do Borgo tinham sido completamente destruídos. As colónias estrangeiras e as suas igrejas tinham sido reduzidas a pouco mais do que cascalho enegrecido.

Depressa se considerou que tinha sido um milagre que a Basílica

de São Pedro tivesse resistido àquele holocausto.

Dizia-se que o papa Leão tinha feito parar o fogo, fazendo o sinal

da cruz diante das chamas que avançavam. Esta versão dos acontecimentos foi assumida avidamente pelo povo romano, que necessitava muito de sentir que Deus não se tinha voltado contra ele.

Encontraram uma afirmação da sua fé no milagre de Leão,

atestado fervorosamente por todos aqueles que lá tinham estado. De facto, o número de testemunhas crescia de dia para dia, acabando por parecer que toda a Roma tinha estado em São Pedro naquela manhã fatal.

As críticas a Leão foram esquecidas. Ele era um herói, um profeta,

um santo, a encarnação do espírito de São Pedro. O povo exaltava-o porque um papa que era capaz de operar tal milagre certamente era capaz de os proteger dos infiéis sarracenos.

Mas, o regozijo não era universal. Quando a notícia do milagre de

Leão chegou à Igreja de São Marcelo, as portas fecharam-se imediatamente. Os baptismos foram todos adiados e os compromissos cancelados abruptamente, aqueles que perguntavam porquê recebiam como resposta que ninguém podia ser admitido à presença do cardeal-presbítero Anastácio porque ele sofria de uma indisposição súbita.

Joana trabalhava de noite e de dia, distribuindo roupas,

medicamentos e outros produtos de primeira necessidade aos hospícios e casas da caridade da cidade. Os hospícios estavam cheios de feridos do incêndio e não havia médicos que chegassem para tratar deles, por isso, ela teve de dar uma ajuda onde pôde. Alguns corpos queimados e calcinados não eram passíveis de cura, não havia nada a fazer, a não ser administrar doses de papoila, mandrágora e meimendro para aliviar as suas agonias mortais. Outros tinham queimaduras graves que ameaçavam infectar, a esses, ela aplicava-lhes emplastros de mel e aloés, remédios que se sabia serem especialmente adequados para queimaduras. Mas, havia ainda outros cujos corpos não tinham sido tocados pelo fogo, mas que sofriam de problemas respiratórios, por causa de terem respirado muito fumo. Estes agonizavam, lutando pela vida a cada respiração.

Abatida pelo efeito cumulativo de tanto horror e morte, Joana

passava novamente por uma crise de fé. Como era possível que um Deus bom e benevolente deixasse que acontecesse uma coisa daquelas? Como podia Ele afligir de forma tão terrível até crianças e bebés, que não tinham, certamente, nem culpa nem pecados?

O seu coração estava perturbado e a sombra das suas antigas

dúvidas voltou a abater-se sobre ela.

Uma manhã, estava reunida com Leão para tratar da abertura dos

armazéns papais às vítimas do fogo, quando Waldipert, o novo vicedominus, entrou inesperadamente. Era um homem alto e espadaúdo cuja pele clara e cabelo louro revelava a sua origem lombarda. Joana ainda não se tinha habituado a ver este estranho vestido com as vestes do ofício de Arighis.

— Santidade — disse Waldipert, fazendo uma vénia — estão aqui

dois cidadãos que desejam uma audiência imediatamente.

— Eles que esperem — respondeu Leão. — Ouvirei as suas

petições mais tarde.

— Perdão, Santidade — insistiu Waldipert. — Penso que deveríeis

ouvir o que eles têm para dizer.

Leão levantou a sobrancelha. Se fosse Arighis, Leão teria aceitado

a sua palavra sem qualquer dúvida porque a opinião de Arighis era acertada e digna de confiança, mas Waldipert era novo e inexperiente, desconhecedor das limitações da sua posição, corria o risco de presumir da sua própria importância.

Leão hesitou, depois decidiu dar a Waldipert o benefício da

dúvida.

— Muito bem. Admiti-os.

Waldipert fez uma vénia e saiu, regressando pouco depois com um

padre e um rapaz. O padre era moreno e magro. Joana reconheceu nele um homem piedoso, daqueles que viviam de forma honrada e humilde nas igrejas menores de Roma. O rapaz, pela maneira como estava vestido, parecia possuir uma ordem menor — um leitorado ou talvez acolitado. Era um jovem esbelto, com quinze ou dezasseis anos, entroncado e agradável, com grandes olhos abertos, que, normalmente, deviam radiar uma natureza acolhedora, apesar de, naquele momento, estarem ensombrados pelo desgosto.

Os recém-chegados prostraram-se diante de Leão. — Levantai-vos — disse Leão. — Dizei-nos que assunto vos traz

aqui.

O padre foi o primeiro a falar.

— Eu sou Paulo, Santidade, pela graça de Deus, e vosso padre, da

casa de São Lourenço em Damasco. Este rapaz, Domingos, veio hoje à capela pedindo uma confissão auricular, serviço que lhe prestei com prazer. O que ele me contou era tão chocante que eu o trouxe aqui para que ele vos conte.

Leão franziu o sobrolho.

— O segredo dessas confissões não pode ser violado. — Santidade, o rapaz veio aqui de livre vontade porque está numa

grande tribulação de mente e espírito.

Leão voltou-se para Domingos.

— Isto é verdade? Fala honestamente porque não há vergonha

nenhuma em recusar-se a repetir os segredos da confissão.

— Eu quero contar-vos, Santo Padre — respondeu o rapaz, a

tremer. — Eu tenho de vos contar para bem da minha alma.

— Então, conta, meu filho.

Os olhos de Domingos encheram-se de lágrimas. — Eu não sabia, Santo Padre! — ele começou a chorar. — Eu juro

pelas relíquias de todos os santos que não sabia o que ia acontecer, senão, não o teria feito!

— Feito o quê, meu filho? — perguntou Leão delicadamente. — Posto fogo.

O rapaz começou a chorar copiosamente.

— Tu puseste o fogo? — perguntou Leão a meia-voz. — Sim, que Deus me perdoe!

O rapaz engoliu as lágrimas, lutando para se dominar. — Ele disse-me que a construção do muro era um mal terrível

porque o dinheiro e o tempo que se gastavam nela seriam melhor empregues na reparação de igrejas e no alívio da miséria dos pobres.

— Ele? — perguntou Leão. — Alguém te mandou pôr o fogo? O rapaz acenou que sim.

— Quem?

— O meu senhor cardeal Anastácio. Santo Padre, ele deve ter a

língua do Demónio porque me falou de uma maneira tão convincente que o que ele disse parecia certo e bom.

Fez-se novamente um longo silêncio. Depois, Leão disse, num

tom grave:

— Tem cuidado com o que dizes, meu filho. Tens a certeza de que

foi Anastácio que te mandou fazer isso?

— Sim, Santo Padre. Era para ser apenas uma fogueira — disse

Domingos com a voz estrangulada — o suficiente para queimar os andaimes do muro. Deus sabe que era bastante fácil: eu ensopei alguns trapos em azeite de lamparina e atirei-os para um canto dos andaimes, depois, deitei-lhes fogo. Ao princípio, o fogo confinou-se aos andaimes, como o meu senhor cardeal disse que iria acontecer. Mas, depois, veio vento e levou-o e... e... — ele caiu de joelhos. — Oh, Deus! — gritou ele, desesperado. — Sangue inocente! Não voltaria a fazê-lo, nem que mil cardeais me mandassem!

O rapaz atirou-se aos pés de Leão.

— Ajudai-me, Santo Padre. Ajudai-me! — Levantou o rosto

atormentado. — Não posso viver com o que fiz. Pronunciai a vossa penitência para mim, eu suportarei qualquer morte, por muito terrível que seja, para salvar a minha alma!

Joana ficou imóvel, trespassada pelo horror e pela piedade. À lista dos crimes de Anastácio tinha de ser acrescentada,

certamente, a perversão maldosa da natureza deste rapaz. A sua alma simples e honesta não estava destinada a cometer um crime daqueles, nem a suportar na sua consciência um fardo tão pesado.

Leão poisou uma mão sobre a cabeça do rapaz. — Já houve muitas mortes, meu filho. Que benefício representaria

para o mundo acrescentar a tua às outras? Não, Domingos, a penitência que eu te imponho não é a morte, mas a vida — uma vida passada em expiação e penitência. A partir deste dia, estás banido de Roma. Tomarás o caminho dos peregrinos para Jerusalém, onde poderás pedir o perdão divino diante do Santo Sepulcro.

O rapaz levantou uns olhos espantados.

— É tudo?

— O caminho da expiação nunca é fácil, meu filho. Verás que a

viagem é bastante dura.

Joana, lembrando-se da sua própria peregrinação do país dos

francos até Roma, pensou que aquilo era muito mais verdadeiro do que o jovem Domingos podia pensar. Ele iria ter de viver os seus dias longe da sua terra natal, separado da família e dos amigos, de tudo quanto ele tinha conhecido. No caminho para Jerusalém, ele teria de enfrentar inúmeros perigos — desfiladeiros e estreitos traiçoeiros, estradas infestadas com ladrões e salteadores, fome e sede e mil outros perigos.

— Consagra a tua vida ao serviço desinteressado ao próximo —

prosseguiu Leão. — Comporta-te sempre de forma a que o bem que faças exceda este grande mal.

Domingos atirou-se ao chão e beijou a orla da veste de Leão. Depois, levantou-se, pálido e resoluto, com o rosto transfigurado,

como se tivesse sido lavado por chuva do céu.

— Curvo-me diante de vós, Santo Padre. Farei exactamente o que

mandais. Juro-o pelo sagrado Corpo e Sangue de Cristo nosso Salvador.

Leão abençoou-o:

— Vai em paz, meu filho.

Domingos e o padre saíram da sala.

Leão disse num tom grave:

— O cardeal Anastácio é de uma família poderosa, temos de fazer

tudo em estrita concordância com a lei. Redigirei um decreto especificando as acusações contra ele. João, vinde comigo, posso necessitar da vossa ajuda. E, Waldipert...

— Sim, Santidade?

Leão acenou-lhe em tom de aprovação.

— Muito bem.

— Fizestes bem em me trazer estas notícias, vicedominus — disse

Arsénio.

Estava com Waldipert numa sala privada do seu palácio. Ele tinha

acabado de terminar o relato dos pormenores do encontro entre o papa Leão e Domingos.

— Permiti que exprima a minha gratidão pela vossa ajuda. Arsénio abriu um pequeno cofre em bronze, que se encontrava

sobre a mesa, tirou de dentro dele vinte soldos em ouro e deu-os a Waldipert, que guardou rapidamente as moedas.

— Congratulo-me por ter sido de serventia, Senhor Bispo. Fazendo uma vénia curta, Waldipert virou as costas e saiu. Arsénio não se ofendeu com a partida apressada de Waldipert, era

imperativo que o vicedominus regressasse ao Patriarchium antes que alguém. desse pela sua falta.

Arsénio congratulou-se pelo facto de se ter apercebido, muitos

anos antes, quando Waldipert ainda não passava de um camareiro da casa do Papa, de que ele era um jovem com futuro.

Tinha sido dispendioso comprar a lealdade do rapaz ao longo de

todos aqueles anos. Mas, agora, que Waldipert era vicedominus, o investimento tinha sido amplamente recompensado.

Arsénio chamou um criado:

— Vai à Igreja de São Marcelo e diz ao meu filho que venha ter

comigo imediatamente.

Ao ouvir as notícias, Anastácio deixou-se cair pesadamente sobre

uma cadeira em frente ao seu pai. Amaldiçoou-se a si próprio intimamente, humilhado pelo facto de o seu pai ter ficado a saber da maneira desastrada como ele tinha tratado das coisas.

— Quem iria adivinhar que o rapaz iria falar? — disse ele, para se

defender. — Para me trair, teve de se condenar a si próprio.

— Foi um erro deixá-lo vivo — disse Arsénio num tom

Continuar: parte 4 de 4